MEU VELHO CHICO

Diário de uma expedição solitária

AOS  MEUS AMORES

À minha mãe querida, Dinorah, minha primeira professora, que durante toda sua vida só nos concedeu carinhos e cuidados, doando seus dias e noites à família, abandonando seus sonhos e ilusões para nos dedicar todo o seu amor.

Ao meu querido netinho Nícolas, que me trouxe de volta a esperança e sinalizou que a vida continuará, a despeito das fraquezas humanas, e que vale a pena lutar por uma causa justa, não importam os sacrifícios.

Às minhas queridas filhas, Luciana Harumi e Mônica Yuri, razões maiores de meu viver, que me tornaram melhor e inspiraram meus sonhos e o desejo de realizá-los, mesmo que o caminho seja longo, difícil e improvável.

À minha querida Mory, paixão eterna, amor incondicional, mulher exemplar e digna, generosa e sábia, que me fez enfrentar e superar todos meus medos e limitações, tornando possível o sucesso em todos os meus empreendimentos.

Ao meu pai querido, Ulysses, homem sábio, digno e justo, humilde e generoso, presente em todos os momentos especiais de minha vida, que me ensinou o que sei e aquilo que não fui capaz de compreender.

A todos vocês, o meu carinho.

AGRADECIMENTOS

Foram tantas as pessoas que me apoiaram e me acolheram nessa longa jornada que temo cometer injustiças. No entanto, não posso deixar de agradecer especialmente a:

Comunidades Quilombolas de:

Tomé Nunes e, em especial, a Joanita e Maria Clara

Barra do Parateca e, em especial, a Elson, Alex e sua mãe

Piranhas e, em especial, a Miguel, Jaqueline, Dai, Rosa e crianças

Boa Vista do Pixaim e, em especial, a Jailson, Aléssio e família

Torrinha e, em especial, a Juarez e membros da Associação

Mangal / Barro Vermelho que, devido a uma ameaça de atentado à minha vida, feita por jagunços de latifundiários, fui impedido de visitar

Comunidades indígenas Truká de Cabrobó e Truká Tupã de Paulo Afonso, em especial a Ednaldo Cirilo e Cacique Neide, a Alzeni Tomaz e Paulo, e a professora e índia Tumbalalá, Maria José, de Cabrobó

Comissão Pastoral da Terra de Bom Jesus da Lapa, em especial a Juliano Vilas Boas, Samuel Britto das Chagas, Marilene, Djanete, Julita, e outros tantos que me acompanharam durante parte do percurso na Bahia

Dr. Avelar Amador, que me deu apoio e companhia nas visitas a museus e ao Clube Náutico, e me conseguiu contatos decisivos em Petrolina, Santa Maria da Boa Vista, Cabrobó e Piaçabuçu

Closé Limongi, que me acompanhou em Iguatama e Pirapora, publicou reportagens, cedeu-me fotos de minha saída dessas cidades, e viabilizou meu retorno ao rio em Três Marias, com seu apoio e sugestões

Prefeitura de Santa Maria da Boa Vista, ao prefeito Leandro Duarte, e seu incansável e atencioso assessor Adelmir, grande companheiro

Prefeitura de Cabrobó e seu secretário de Finanças, Paulo Teógenes, que me concedeu seu tempo e prestígio durante minha visita

Prefeitura de Iguatama, especialmente à comunidade acadêmica, prefeito Leonardo Carvalho Muniz e ex-prefeito Manoel Bibiano que me acolheram e me hospedaram

Prefeitura de Três Marias, que me hospedou, e a Elias, secretário de Turismo e seu assessor José Arnaldo, que me acompanhou por vários dias na visita à cidade

Prefeitura de Piaçabuçu, que me apoiou na chegada à foz e me acompanhou em visitas às dunas e ao Pontal do Peba

Prefeitura de Ribeirão Preto, em particular a dr. Joaquim Rezende, secretário do Meio Ambiente, que emitiu ofício apoiando a expedição

Carmen Kawall e sua empresa Tui Alimentos, que me forneceu 120 ótimas refeições que me alimentaram durante toda a expedição

Marina Cromberg e Nikon Udenio, que viabilizaram uma câmera Nikon P80, e me proporcionaram magníficas fotografias

Dom Frei Luiz Cappio, bispo de Barra, dra. Eloá Sayão, Irmã Irene e funcionárias do Palácio Episcopal de Barra, que me hospedaram e me acolheram com muito carinho durante quatro dias

Gutinho e sua família, de Paratinga, que me concederam apoio, orações e companhia em minhas horas mais difíceis

Ivan Marinovic Brscan, Embrapa Tabuleiros Costeiros, que conseguiu importantes contatos e entrevistas com a imprensa, além do transporte e da guarda da canoa desde Piaçabuçu até Aracaju

Jojô e Wilson, meus queridos amigos de Malhada, que me acolheram com carinho, me deram companhia e conduziram minhas visitas

Amigos do Acampamento 17 de Abril, em especial ao Geraldo, seu líder

Lázaro, da CHESF de Xingó, que me proporcionou visita à usina

Willams, do Banco do Brasil de Piranhas, que me hospedou em sua casa e viabilizou minha visita a Xingó

Meus amigos e afilhados Paulo Eduardo Chagas e Heitor Luiz Arrais, que me conduziram a São Roque de Minas, me estimularam e me acompanharam na trilha da Serra da Canastra e me apoiaram na viagem

Armando Gonçalves Junior, que passou muitas informações preliminares sobre o Velho Chico durante toda a fase de planejamento

Marcelo Rosa, da CHESF Sobradinho, que me propiciou visita à usina

Dra. Virgínia Molinar e Dr. Bruno Sales, que cuidaram de meus dentes antes de minha viagem, garantindo minha saúde e conforto

Lúcia Figueiredo e Luciana Harumi, que tiveram a paciência e o cuidado de revisar meus textos, tornando-os melhores e mais expressivos

Mônica Yuri, que me acompanhou no início da expedição, em São Roque de Minas, confeccionou bonés, faixa, cartões e camisetas, editou meus blogs, visitou-me e me brindou com seu amor e carinho em Bom Jesus da Lapa, e fez todo o trabalho de criação gráfica e editoração deste livro

Aos pescadores e ribeirinhos, que me acompanharam em todo o percurso e a tantos outros que cruzaram meu caminho e me concederam sua atenção e cuidados, a todos vocês, minha eterna gratidão!

João Carlos Figueiredo

PREFÁCIO

Existem pessoas que nasceram para medir o imensurável.

João Carlos é uma delas, cujo espírito livre em algum momento da vida aflorou e tomou conta da sua vida para todo o sempre, mudando, sobretudo sua visão, que agora enxerga uma janela tão vasta, que dela pode-se ver o mundo.

Nas conversas durante as escaladas em que juntos repartimos a corda, João Carlos me falara do seu projeto de remar solitário pelo São Francisco e depois escrever o livro que agora temos o prazer de ter em mãos.

Foi com grande satisfação que soube de sua partida e acompanhei a expedição de um homem que não só buscava a aventura, mas perseguia, acima de tudo, em sua jornada, entender a alma do rio, que a ele se mostrou.

E, nas páginas a seguir, João Carlos nos presenteia com suas descobertas, impressões, sentimentos, alegrias e tristezas sobre os dias em que passou nas águas do mítico São Francisco.

Eliseu Frechou – Guia de Montanha

Eliseu Frechou, montanhista

ORAÇÃO DO VELHO CHICO

Senhor, fazei-me instrumento de vossa generosidade!

Onde houver Seca, que eu espalhe as Águas da Fertilidade!
Onde houver Miséria, que eu distribua a Fartura das Colheitas!
Onde houver Sertão, que eu me torne o Mar da Vida!
Onde houver Trevas, que eu conceda a Energia e a Luz!
Onde houver Isolamento, que eu mostre os Caminhos da Integração!
Onde houver Fome, que eu fertilize e irrigue, com minhas águas, as Plantações!
Onde houver Discórdia, que eu seja o Reencontro e a Harmonia!

Que meus braços se estendam e se multipliquem pela expansão de meus domínios, levando ao Sertão e ao Agreste a transpiração de minhas águas férteis, para que…

…Onde houver Desespero, que eu seja a Esperança!

Estátua de São Francisco na nascente do rio São Francisco, Serra da Canastra, São Roque de Minas

MOTIVAÇÕES

Uma busca incessante

Quando relatamos nossos feitos, nossas aventuras aos amigos, muitos acreditam que somos loucos e ricos!

Loucos por buscarmos a emoção extrema do perigo inconsequente; ricos por nos darmos ao luxo de viajar para lugares em que a maioria dos seres humanos jamais cogitaria estar!

Mas não há loucura em nossas aventuras; apenas planejamento, técnicas e habilidades desenvolvidas, um bom preparo físico e determinação e vontade à prova de tudo.

A maioria de nós também não nasceu em “berço de ouro”; apenas optou por prioridades diferentes, deixando de lado o luxo dos hotéis “cinco estrelas” pelos acampamentos selvagens de bilhões de estrelas, no meio do mato, abrindo mão de outras vaidades para poder se equipar para a aventura.

São poucos os aventureiros que conseguem patrocínio para suas atividades extremas. Geralmente aqueles que já provaram seu pioneirismo e competência nas conquistas de picos acima dos 8.000 metros, ou velejaram solitários pelos mares distantes, ou se arriscaram escalando paredes que parecem não ter fim…

Nós, reles mortais aventureiros, não tivemos acesso às grandes marcas; compramos nossos equipamentos em “feirinhas da pechincha” ou economizamos durante anos para comprar um GPS[1], mochilas, barracas e sacos de dormir confortáveis, cordas, mosquetões, etc.

A tarefa mais árdua de nossa jornada é, justamente, obter os recursos necessários para viabilizá-las, seja tirando as últimas moedas do “cofrinho”, seja pedindo um empréstimo a se pagar até o fim da vida… mas perseveramos mesmo assim, pois não é apenas a aventura em si que nos impulsiona para a frente: são os nossos ideais!

Queremos fazer a diferença, não doando nossas vidas aos empresários insaciáveis de seus lucros, mas lutando por causas perdidas, como a preservação da Natureza, para que nossos filhos possam também se aventurar, ou pelo menos assistir, em algum canal de documentários, como seria nosso planeta sem a perversidade humana, repleto de vida selvagem, de lugares mágicos, de cavernas adornadas com seus espeleotemas, de cachoeiras cristalinas, de praias paradisíacas e de paisagens submersas intocadas…

Queremos acreditar que o Ser Humano ainda tem jeito, que o mundo não se acabará em chamas ou congelado, que o aquecimento global será controlado, que nossas espécies animais, as mais belas e raras, ainda estarão caminhando pelo Kalahari[2] quando nós já não estivermos mais aqui.

Se a adrenalina já penetrou em nossas veias, estimulou nosso coração a bater tão forte que mal se contém dentro do peito, se nossa vista já se embaciou de lágrimas ao contemplar um pôr-do-sol nas montanhas silenciosas ou às margens de um rio, então não tem mais jeito: não mais pertencemos à “civilização comportada e apática”!

Somos diferentes! Não melhores, mas diferentes; apenas não nos contentamos com o pouco que o mundo civilizado pode nos proporcionar; precisamos estar naqueles lugares onde os sonhos se confundem com nossas próprias visões de Shangrilá…


[1]    GPSGlobal Positioning System ou Sistema de Posicionamento Global. Equipamento que se conecta a uma rede de satélites artificiais e, por um processo similar ao de “triangulação”, consegue localizar geograficamente a origem do sinal

[2]    Kalahari – uma das mais belas savanas africanas onde habitam milhões de espécies de grande porte, como guepardos, leões, hienas, gnus, gazelas, crocodilos, promovendo permanentes migrações devido aos ciclos de chuva e estiagem, por quilômetros de trilhas.

Minhas Razões

Comecei a pensar no Velho Chico quando Dom Cappio[1] iniciou sua segunda greve de fome contra a Transposição[2]. Pensei em como alguém, principalmente um religioso, tomaria atitude tão drástica em defesa de uma ideia.. o que o levara a essa decisão extrema,   contrariando os princípios de sua religião?

Lembrei-me dos monges budistas no Vietnam[3], nos idos de 1970. Um monge em particular… creio que seu nome era Thich Quang Duc. Esse místico imolou-se ateando fogo ao próprio corpo, em protesto contra as barbáries da guerra!

Os EUA abandonaram o Vietnam depois de mais de 10 anos de luta. Morreram aos milhares, mataram muitas vezes mais… deixaram um rastro de destruição, degradação e miséria, cidades inteiras incendiadas com bombas napalm, velhos e crianças incinerados junto aos guerrilheiros vietcongs, soldados viciados em heroína por não saberem por que estavam lá, tão distantes de seu país, defendendo uma causa que não era a sua… corrompendo, roubando, assassinando, prostituindo…

Dom Cappio devia saber muito bem por que jejuava, assim como Thich Quang Duc sabia porque se imolava. Mas eu não sabia o que era “transposição” e nem tinha consciência da importância desse grande rio nacional, de sua gente, seus dramas, seus costumes, sua história… Em fins de novembro de 2008 eu voltava de uma expedição pela Chapada Diamantina, que me marcou intensamente, porque me colocou diante de meus dilemas mais profundos. Até então eu praticava esportes da Natureza (ditos “radicais”) sem grandes envolvimentos com as questões de preservação ambiental e sustentabilidade, embora procurasse sempre agir corretamente quanto às minhas relações com o meio ambiente, sem agredi-lo, sem deixar lá os meus rastros…


[1]    Dom Frei Luiz Cappio – bispo de Barra, defensor do rio São Francisco e de sua gente, realizou duas greves de fome, em 2005 e 2008, tentando sensibilizar o governo federal para alternativas de revitalização do rio, sem impactos tão graves ao meio ambiente (como as obras de transposição), com maior alcance social e custos muito inferiores aos divulgados. A Agência Nacional de Águas assina a proposta.

[2]    Transposição – projeto de desvio das águas do rio São Francisco em dois canais, um a norte, a partir de Cabrobó, e outro a leste, na região de Floresta, cujo objetivo é perenizar alguns rios que abastecem as cidades do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Seu custo está orçado em R$6,6 bilhões, mas problemas geológicos deverão aumentar esse valor.

[3]    A Guerra do Vietnam começou em 1948 como um movimento de libertação. Na época, o Vietnam era uma colônia da França. Com a vitória do líder Ho Chi Min, a França abandonou o país e os americanos enviaram seus adidos militares para dar apoio e orientação militar à resistência do Vietnam do Sul.

ULYSSES

Poderia dizer que meu barco foi batizado de “Ulysses” em homenagem ao grande herói grego da Odisseia de Homero. Seria um nome forte e expressivo!

Poderia relacionar minhas aventuras às fantásticas provações por que passou Ulysses de Troia, em sua viagem de retorno a Ítaca. Seria uma metáfora incrível!

Poderia mesmo imaginar que minhas dificuldades seriam grandes o bastante para associá-las aos perigos enfrentados por Ulysses. Uma comparação enriquecedora…

Mas o motivo que me levara a batizar minha canoa de “Ulysses” é outro: o nome de meu pai! Ulysses teria sido um homem comum, não fosse seu caráter irrepreensível, sua generosidade desinteressada, sua paixão pelos seus filhos e por sua mulher, sua vida impecável, singela e edificante, seu espírito iluminado e sábio…

Meu pai foi meu grande referencial nesta vida e continua sendo meu Norte e meu destino. Sem ele eu não seria ninguém, ou talvez trilhasse outros caminhos e me desviasse da senda da Justiça e do Bem.

Ele não escreveu nenhum livro, mas deixou milhares de páginas escritas em minha memória… suas palavras sempre foram altruístas, idealizadas para converter pensamentos, para gerar ações positivas, para produzir efeitos duradouros nas almas que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

Ulysses foi uma unanimidade… dizem que a unanimidade é burra, mas não neste caso! Ninguém que o tenha conhecido poderia ter um pensamento mau para esse Homem essencialmente bom.

Quando eu remar “Ulysses” terei a companhia de meu pai. Foi ele quem me ensinou a remar, ainda jovem; era uma canoa pequena, uma “catraia” daquelas em que os remos estão fixos no centro do barco, fáceis de manobrar. Remávamos contra a correnteza, no rio Pardo, perto de Ribeirão Preto e, quando nos cansávamos, deixávamos o barco voltar lentamente, sentindo a brisa, ouvindo os pássaros, o pensamento voando para bem longe, até o limite da nossa imaginação…

Quando estiver cansado, em minha longa jornada, eu me lembrarei que ele, o meu pai, trabalhou dos doze aos setenta e oito anos de idade, incansavelmente… e nunca se queixou de nada!

Quando me sentir solitário, eu me lembrarei de meu pai, que perdeu sua mãe aos dois anos e seu pai aos seis, vivendo com sua tia em uma pensão simples do interior.

Quando minhas forças me abandonarem, em me lembrarei daquele que dedicou cada esforço de sua vida para nos dar conforto, segurança e oportunidades de aprender, mesmo quando suas próprias forças já o tinham abandonado… e ele, mesmo assim, perseverou até o fim.

Por isso, meu barco se chamará “Ulysses“, nome de meu pai, meu companheiro, meu amigo, meu grande mestre, a quem dedico a minha própria vida!

O rio São Francisco

Percebi que isso não me bastava mais e decidi conhecer melhor o contexto do Velho Chico. Soube que é a maior bacia hidrográfica totalmente inserida em território nacional, com mais de 640 mil km2; isso é mais do que a área de cada um dos territórios dos estados de Minas Gerais e da Bahia.

Esse grande rio, com mais de 2.800 km de extensão, foi descoberto em 1501 por Américo Vespúcio, aquele navegador italiano (Amerigo Vespucci) nascido em Florença em 9 de março de 1454, e falecido em Sevilha em 22 de fevereiro de 1512; também mercador, geógrafo, cosmógrafo e explorador de oceanos, ele viajou pelo Novo Mundo com Cristóvão Colombo, escrevendo sobre estas terras a oeste da Europa.

Vivem, em sua área, cerca de 15 milhões de pessoas em mais de 500 municípios, e dele tiram seu sustento, para subsistência ou consumo. Muitos ainda pescam para sobreviver; alguns ainda caçam em suas matas, mas ninguém pode prescindir de suas águas. A vazão média do rio em sua foz é de 2.700 m3/s, ou seja, dois milhões e setecentos mil litros de água são despejados por segundo no oceano Atlântico! É muita água! Mas já foi muito mais, nos tempos do Descobrimento… mais de cinco vezes isso, conforme estudos recentes de especialistas!

Possui cerca de 160 afluentes, dos quais 100 são perenes e, destes, a maioria nasce e deságua no São Francisco dentro do estado de Minas Gerais. São, no entanto, milhares de outros pequenos cursos de água, drenando as montanhas e contribuindo para a formação e perenização do Velho Chico.

Desde a década de 1950 o Velho Chico vem sendo aprisionado em barragens, cujos objetivos são de regular sua vazão e assegurar a produção de energia elétrica, que abastece mais de 80% das necessidades do Nordeste. Em termos de precipitação pluviométrica, a bacia do São Francisco tem variações de 1.500 mm/ano, no Alto São Francisco, a 300 mm/ano na região do semiárido

Nesta região, onde as chuvas são poucas e os rios perenes também escasseiam, 75% do volume das chuvas se evapora e apenas 25% contribui, efetivamente, para a manutenção do volume de águas do São Francisco. Isso, sem falar na evaporação da própria água que o rio transporta em seu longo percurso, das bombas e canais de irrigação que retiram volumes expressivos de água do rio, e das represas, onde o índice de evaporação está relacionado com a extensão em área desses grandes lagos artificiais. A perda de águas, portanto, é crescente a partir do seu último afluente perene: o rio Grande, que encontra o São Francisco na cidade de Barra, na Bahia. Daí em diante, é só perda de água, na estiagem, sem outras fontes de reposição.

Suas represas são Três Marias, em Minas Gerais, Sobradinho e Luiz Gonzaga entre a Bahia e Pernambuco, e Xingó entre a Bahia, Alagoas e Sergipe. Suas principais hidrelétricas são Três Marias, Sobradinho, Paulo Afonso (I, II, III e IV), Itaparica, Moxotó[1] e Xingó, e geram cerca de 10 mil megawatts de potência (Itaipu gera 14.000 MW). Hoje, Três Marias é mais importante como reguladora da vazão do rio do que como produtora de energia.

Em termos de volume útil armazenado, Sobradinho possui cerca de 34 bilhões de metros cúbicos de água, mais do que o dobro de Três Marias e 14 vezes mais que Itaparica. Em termos de comparação, a baía da Guanabara tem apenas 3 bilhões de metros cúbicos de água. Até 2007 Sobradinho era o maior lago artificial do mundo. Atualmente, é o segundo maior do mundo.

Dizem que o Rio São Francisco, o Velho Chico ou Opará (seu nome indígena, o “Rio-Mar”), também conhecido como o “rio da integração nacional”, tem sua nascente localizada na Serra da Canastra, no sul do Estado de Minas Gerais, próximo a São Roque de Minas. Mas outros questionam essa informação, pois seu primeiro grande afluente, o Samburá, é o mais extenso, desde a nascente, e tem maior volume de águas quando se encontra com o São Francisco. Por isso se fala em uma nascente histórica, na serra da Canastra, e uma nascente geográfica, no planalto do Araxá, município de Medeiros.

Existe uma divisão geográfica que desmembra a bacia em quatro sub-regiões: o Alto São Francisco, que vai da nascente até a cidade de Pirapora/MG; o Médio São Francisco, de Pirapora até Remanso/BA; o Submédio, de Remanso até Paulo Afonso/BA; e o Baixo São Francisco, que se estende de Paulo Afonso até a foz.

Essa divisão é política e não representa a diversidade geográfica, geológica e ambiental da bacia. Em nosso entendimento, para se estudar a bacia do São Francisco, primeiramente, há que se segregar as áreas represadas do curso natural do rio. Também é importante discernir entre os diferentes biomas do Alto São Francisco: a região do planalto da Serra da Canastra, tipicamente uma área de cerrado, localizada em altitudes médias de 1.300 metros; a região de montanha, de matas tropicais, onde o rio desce cerca de 300 metros em menos de 100 km, produzindo corredeiras rápidas, em contraste com o percurso restante do rio, descontadas as barragens, cuja declividade é de cerca de 15 cm por quilômetro!

Finalmente, deve-se distinguir entre as diferentes interferências humanas em cada região, que estão relacionadas às lendas, tradições, formação cultural, etnias, lavouras, costumes… dessa forma, o trecho compreendido entre a barragem de Três Marias e a cidade de Pirapora não pode estar na mesma sub-região do trecho compreendido entre a confluência do rio Samburá com o São Francisco e o início do lago da represa de Três Marias. As diferenças não se resumem à geologia e à biologia, mas à própria presença e concentração humana em cada trecho. Para melhor compreender o rio São Francisco e ter uma posição sustentável a respeito do projeto de transposição, seria necessário conviver com esse rio em sua intimidade. Havia, no mínimo, uma tremenda contradição entre constatar que o rio está morrendo, e dele retirar tal volume de água. Seria como retirar sangue de um enfermo em estado grave para cuidar de outro doente terminal! Foi justamente essa contradição que me convenceu a prosseguir.


[1]    Moxotó – construída na década de 1970 para servir de reservatório de reposição às usinas de Paulo Afonso, atualmente é conhecida como Usina Apolônio Sales, em homenagem ao idealizador da CHESF.

MEU PROJETO

Minha expedição começava a se delinear e tomar forma. Comprei e li todos os livros que encontrei, li artigos e debates na Internet a respeito da polêmica do desvio das águas, acompanhei por incontáveis vezes o traçado do rio no Google Earth[1] e nos mapas geográficos do IBGE[2] para os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, por onde passaria.

Faltava definir o meio de transporte que mais se adequasse ao grande rio. Deveria ser de fácil manobra e transporte, capacidade de carga para 120 dias, ser eficiente em corredeiras… apesar de não ser o barco ideal, optei pela canoa canadense[3]. Outro aventureiro já havia feito esse percurso em 2004, com sucesso, e também de canoa canadense.

Junior, em sua viagem de 2004, fez coleta de amostras da água em diversos pontos do rio para uma equipe de pesquisadores de uma Universidade Federal. Achei a ideia interessante e me propus a atualizar esses dados com novas coletas. Até obtive os kits de coleta de uma indústria. No entanto, infelizmente não consegui contato, em tempo hábil, com esses pesquisadores e com outros centros de estudo, e a proposta foi inviabilizada. Lamentei muito isso…

Aproveitei seu projeto no que pude e obtive dele todo apoio e ajuda para desenvolver o meu próprio projeto. Pretendia identificar minha expedição com as questões ambientais que predominam nas acaloradas discussões sobre a revitalização do São Francisco, mais importantes do que as razões, verdadeiras ou não, da transposição de suas águas, de cunho essencialmente político e eleitoreiro, menos do que as razões econômicas ou sociais, propaladas aos quatro cantos pelos seus defensores.

Meu projeto teria que finalizar com um produto relevante: a publicação de um livro ilustrado, um documentário com meu entendimento do rio e de seus dilemas, uma radiografia leiga e apaixonada daquilo que minha visão pudesse captar de seu meio ambiente e sua população.

Um lugar que há muito tempo pretendo visitar e deveria ser incluído em meu roteiro é o Parque Nacional Cavernas de Peruaçu. É uma região pouco visitada, pois o parque ainda não tem plano de manejo aprovado pelo IBAMA[4]. Lá se encontram grutas de rara beleza e grande importância cultural, científica (espeleológica) e turística para a região e para o Brasil. O Parque Nacional “Cavernas de Peruaçu” localiza-se entre os municípios de Itacarambi e Januária, ao norte de Minas Gerais. Meu propósito inicial era permanecer por lá durante cerca de uma semana e percorrer o vale do rio Peruaçu.

Em minha passagem pelas cidades, pretendia conversar com a população, ouvir suas histórias, conhecer seu entendimento a respeito do rio São Francisco e, se possível, apresentar minhas próprias ideias a respeito da preservação ambiental, expondo-lhes as experiências pelas quais passei e as informações que obtive de pescadores, de outros ribeirinhos e da própria Natureza a respeito da situação ao longo do rio. Afinal, somente eles poderiam assegurar a preservação ambiental de sua região, com atitudes corretas e conscientes.

Levarei comigo um documento que eu denominei “Protocolo do São Francisco”, espécie de compromisso público para o qual pretendo obter o apoio e a adesão de políticos, empresários e da população local, como um compromisso e um plano de ação destinado a assegurar a recuperação e a revitalização do rio São Francisco em um prazo razoável e de forma permanente e sustentável.

Muitas outras possibilidades poderiam ser aventadas, enriquecendo a expedição e seus resultados, mas preferi focar mesmo nesses aspectos ambientais, e não na imagem de aventureiro e canoísta. Seria, certamente, a maior viagem de minha vida, reservando intensas emoções desde seu início. Sentia-me pronto, preparado, motivado e ansioso por começar. Os preparativos duraram 5 meses, até maio de 2009.

Cada detalhe havia sido previsto, embora soubesse que, na prática, a realidade seria bem diferente, e estaria exposto a situações nunca antes vivenciadas. Uma aventura, de verdade! Minha maior preocupação era o volume e o peso das cargas que teria de transportar, uma vez que o propósito inicial era de não depender de nenhum apoio externo… uma expedição autossuficiente, mesmo com meus eventuais encontros com a população. Era um propósito purista e equivocado.


[1]    Google Earthhttp://earth.google.com/intl/pt/ ferramenta da web baseada em fotografias de satélites.

[2]    IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

[3]    Canoa Canadense – pequeno barco a remo, de 4,55 m por 0,80 m com as extremidades levemente curvas e fundo arredondado e sem quilha. Fabricada com fibra de vidro, seu peso é de 23 kg. Utiliza apenas um remo de única pá, alternando-se as remadas com ambas as mãos. Possibilita diferentes técnicas de remada, o que lhe confere grande versatilidade de estilos e facilidade de manobras. Adequada a águas tranquilas, apresenta maior fragilidade em ambientes de águas revoltas e corredeiras..

[4]    IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.

PATROCÍNIOS

A busca por patrocínio foi um esforço inútil… as empresas só se interessam por aquilo que lhes traga benefícios, não importam os valores sociais, econômicos, culturais e ecológicos de um trabalho sério e responsável. Enviei mais de 200 solicitações de apoio para as grandes organizações que se dizem comprometidas com o meio ambiente, principalmente da região. Quase todas que me responderam, cumprimentaram minha iniciativa pela importância de meu projeto e declinaram do apoio, sem justa razão que eu pudesse compreender.

Mas consegui duas importantes conquistas: a primeira foi da proprietária da Tui Alimentos, empresa de Limeira, interior do estado de São Paulo[1], Carmen Kawall. Ela me forneceria todas as refeições desidratadas para 120 dias de expedição. Comida excelente, vegetariana, com um sabor excepcional e de fácil preparo. Apreciei cada uma delas, e me senti muito disposto todos os dias. Complementei essas refeições com leite em pó, chocolate, granola, sementes e castanhas, além de damasco e banana passa. Nas cidades e povoados comeria o que me oferecessem.

A outra oferta partiu da Udenio, representante da Nikon, fabricante de máquinas fotográficas[2], através de Marina Cromberg, que me forneceu uma câmera Nikon P80 de 10,1 megapixels, leve e de fácil manuseio, com recursos de zoom óptico, além de facilidades de repetição de fotos com alvos em movimento e fixação de foco para alvos móveis. Excelente equipamento, que me gerou belas fotos.


[1]    TUI Alimentoswww.tuialimentos.com.br

[2]    Nikon Udeniowww.nikonbrasil.com.br

PREPARAÇÃO

Minha preparação física vem sendo feita durante os últimos 10 anos em que me dedico a vários esportes da Natureza: mergulho equipado (SCUBA[1]), trekking[2], hiking[3], mountain bike[4], escalada em rocha, espeleologia[5]… eu os complementei durante o ano de 2008 com práticas de musculação e corridas diárias de até 10.000 metros, em esteiras da academia ou no parque da minha cidade (“Curupira[6]).

Vivendo 24 horas focado nesse projeto, busquei o conhecimento em livros e sites que tratavam do rio São Francisco e da região do semiárido brasileiro. Eram informações para um leigo, mas intensas e diversificadas: as viagens de Teodoro Sampaio pelo rio São Francisco e a Chapada Diamantina, as análises da potencialidade do semiárido brasileiro, feitas por Manoel Bonfim Ribeiro, o lirismo poético de Carlos Rodrigues Brandão, construindo suas próprias lendas sobre o rio São Francisco, “o meu destino”, a viagem às nascentes do Velho Chico realizadas por Auguste de Saint-Hilaire

Para minha estranheza e decepção, muito pouco se escreveu sobre nosso grande rio em seus 500 anos de história. Ao menos que eu saiba e tenha tido acesso em minha pesquisa. Caberia, portanto, mais uma versão, a minha, para colaborar com o entendimento das suas mazelas e atrocidades, vítima que foi de uma exploração descontrolada e predatória, desde a extinção de grande parcela de mata ciliar durante a época da navegação a vapor do início do século passado, até a construção das represas, causando enormes impactos ambientais, a despeito dos seus benefícios indiscutíveis.

Assim, já podia levar em minha bagagem um pouco de conhecimento sobre o que viria a constatar nessa incrível viagem: redução da oferta de peixes em toda sua extensão, desaparecimento de muitas espécies animais e de sua flora, desabamento de barrancos e assoreamento do rio, com a consequente diminuição de sua profundidade média, redução da oferta de água de seus afluentes, muitos deles extintos pela eliminação da mata ciliar que os protegia, contaminação das águas dos rios com agrotóxicos e esgoto urbano… um extenso rol de problemas a serem comprovados, discutidos, avaliados.

Porém, muitas surpresas haveria de existir em meu caminho! A diversidade biológica ainda impressiona a todos que percorrem esse caminho mágico: aves em grande quantidade e variedade, onças negras, pardas e pintadas, lobos-guará, capivaras, peixes, tartarugas, quatis, jacarés, macacos…

Afora essas questões ambientais, está o homem: sua presença altera tudo, seja pela destruição que causa, seja pela diversidade de profissões que desenvolveu ao longo do tempo, em suas margens: barqueiro[7], lavrador de áreas de lameiro[8] (vazanteiro[9]), pescador, brejeiro[10], carvoeiro[11], garimpeiro, artistas de teatro mambembe[12], caixeiro viajante[13], artesão, vaqueiro, comerciante de todo tipo de produto (inclusive através de práticas frequentes de escambo[14])…

É necessário e urgente que se tomem ações efetivas de revitalização do rio São Francisco, sem demagogia e sem interesses eleitoreiros. Só quem viveu um pouco em seus domínios pode compreender a essência e a profundidade desse apelo, pelo entendimento do gigantismo dessa nação chamada “São Francisco”.

Meus amigos e companheiros de aventura, Heitor e Paulo Eduardo, contemplando a Cachoeira da Casca D’anta

[1]    SCUBA – Self-Contained Undewater Breathing Apparatus (equipamento de respiração sob a água compreendendo o cilindro de ar, regulador de pressão do are e colete equilibrador).

[2]    Trekking – atividade esportiva de percurso de trilhas a pé, geralmente com duração de mais de um dia.

[3]    Hiking – atividade esportiva de percurso de trilhas a pé, de curta duração e sem pernoite.

[4]    Mountain Bike – descida de montanha com o uso de bicicletas preparadas para esse tipo de atividade.

[5]    Espeleologia – estudo multidisciplinar do meio ambiente das cavernas, grutas e abismos.

[6]    O Curupira é uma figura do folclore brasileiro. Ele é uma entidade das matas, um anão de cabelos compridos e vermelhos, cuja característica principal são os pés virados para trás. (Wikipédia).

[7]    Barqueiro – proprietário de barcos, é também o comerciante e capitão da embarcação. Costuma fazer o transporte de mercadoria entre as cidades ribeirinhas, adquirindo-as e vendendo-as nas feiras livres.

[8]    Lameiro – área de terreno alagável, enriquecido pelo barro trazido pelas cheias dos rios.

[9]    Vazanteiro – lavrador que trabalha as áreas de terreno alagáveis, durante o período de vazante dos rios.

[10]  Brejeiro – lavrador que vive e trabalha em terras alagadas, de brejos situados nas proximidades do rio São Francisco. A região de Barra até Xique-Xique possui muitas terras habitadas por esses trabalhadores.

[11]  Carvoeiro – atividade ilegal de produção de carvão vegetal a partir de lenha retirada da Caatinga e do Cerrado. Muitas indústrias de transformação, principalmente mineradoras, ainda utilizam esse combustível em suas fornalhas, causando grande devastação e desmatamento em áreas de preservação.

[12]  Mambembe – teatro itinerante, similar aos saltimbancos da Idade Média, que percorre o sertão em caminhões, apresentando peças de gosto popular e atividades circenses.

[13]  Caixeiro Viajante – é uma profissão antiga, de uma pessoa que vende produtos fora da região onde eles são produzidos. Antigamente, quando não havia a facilidade do transporte entre as cidades, os caixeiros-viajantes eram os únicos a comercializar produtos entre diferentes regiões fora das grandes cidades. (Wikipédia).

[14]  Escambo – antiga prática de troca de mercadorias, muito comum na Idade Média, quando não havia moeda impressa ou cunhada, nem dinheiro circulante. Ainda é muito usual nos vilarejos do Sertão.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DA ÁGUA

ONU, 22 de março de 1.992

“A água faz parte do patrimônio do planeta. Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade, cada cidadão, é plenamente responsável aos olhos de todos.”

“A água é a seiva de nosso planeta. Ela é condição essencial de vida de todo vegetal, animal ou ser humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura.”

“Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimônia.”

“O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende em particular, da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam.”

“A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo dos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como a obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras.”

“A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.”

“A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.”

“A utilização da água implica em respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo homem ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.”

“A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.”

“O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.”

Esta declaração foi publicada pela Organização das Nações Unidas em 22 de março de 1992

A SERRA DA CANASTRA

Ainda estou vinculado demais à civilização que acabo de deixar. Mesmo assim, muitas surpresas estariam reservadas para mim nesses próximos poucos dias.

Ribeirão Preto, 29 de maio de 2009

Esperávamos o Paulo e o Heitor para o almoço, pois eu pretendia chegar a São Roque de Minas em tempo de descansar e sair para a trilha logo pela manhã de sábado.

No entanto, já passava das seis horas da tarde quando eles me ligaram, dizendo que haviam chegado a Ribeirão Preto, mas não conseguiam encontrar a minha casa. Fomos buscá-los no estacionamento do Shopping… e, para minha surpresa, o jeep que o Paulo acabara de comprar, estava coberto de adesivos de minha expedição!

Como se não bastasse, eles fizeram camisetas e bonés, com o logotipo  da expedição, que o Heitor havia criado especialmente para mim. Levei-os para casa ainda sob o impacto daquela surpresa fantástica, um presente que só mesmo meus amigos de verdade poderiam me oferecer.

Eu havia deixado a canoa na academia de um amigo. Eu a trouxera de Santana do Parnaíba, nas proximidades de São Paulo, onde fora construída. No percurso, fiquei um dia em uma represa de Atibaia, com o “Tonico”, meu amigo, onde fizemos vários treinamentos de manobras, recordando os conceitos que aprendi cm o “Tonhão”, durante os quatro últimos dias do curso de “Formação de Educadores ao Ar Livre”, da Outward Bound Brasil. Essa era toda experiência que eu adquirira em cinco dias de treinamento de canoas a remo.

Seguimos para a Serra da Canastra depois de colocar toda minha bagagem e a canoa no jeep. Já era bem tarde quando saímos. A viagem transcorreu sem problemas. Ao entrar em São Roque de Minas, um veículo nos dava sinais de luz, insistentemente. Reduzimos a marcha, deixando-o se aproximar, e ele nos alcançou. Qual não foi nossa surpresa quando, ao nosso lado, estava minha filha Mônica! Mesmo se tivéssemos combinado, não nos encontraríamos nesse local com tanta precisão.

Registramos nossa chegada na pousada e logo fomos dormir, pois no dia seguinte daríamos início à trilha, desde a nascente até a parte baixa da Casca D’anta, onde pernoitaríamos de sábado para domingo no alojamento do Parque, cedido pelo Ibama depois de muita negociação e desgaste… como é difícil lidar com o Poder Público!

Essa trilha percorre cerca de 17 quilômetros no trecho alto da serra e mais 3 quilômetros na descida até a base da cachoeira. Trata-se de uma trilha fácil, com pouca declividade e nenhum obstáculo significativo. O grande problema é o matagal e nosso desconhecimento do percurso, o que nos induziu, às vezes, à escolha dos piores caminhos para ultrapassar os obstáculos.

Na trilha da Canastra, 30 de maio de 2009

Sul: 200 14´ – Oeste: 460 26´ – Altitude: 1.459 metros

Dormimos muito pouco; pela manhã, tomamos um café reforçado e seguimos para a nascente do rio São Francisco. Na portaria do parque, para nossa surpresa, não havia nenhuma autorização para realizarmos a trilha, embora eu tivesse solicitado e obtido a aprovação do diretor do parque com bastante antecedência. Depois de mais outra negociação, o funcionário finalmente nos liberou para a caminhada.

Chegando à nascente, depois das fotografias de praxe, demos início à trilha. Minha filha levaria o jeep com a canoa até a parte alta da Casca D’anta[1] e nos aguardaria por volta das 17 horas. Então seguiríamos até a parte baixa da cachoeira e do parque da serra da Canastra, e eles retornariam à pousada.

No dia seguinte ela iria nos buscar na portaria de baixo do parque, para procurarmos um local de onde seria possível iniciar a navegação, próximo a Vargem Bonita. Feitos os entendimentos logísticos da operação, iniciamos a caminhada.

No entanto, para nossa surpresa, não havia trilha. O terreno era coberto de vegetação seca e espinhosa. Andamos por horas ao longo das margens do riacho, quando era possível, ou contornávamos os obstáculos pelas colinas, ultrapassando seus afluentes, procurando os caminhos possíveis naquela situação.

Muitas vezes era necessário seguir por capinzais altos, subindo e descendo morros, pela falta de alternativas. Até mesmo um trecho de capim-gordura tivemos que atravessar. Nossas roupas ficaram cobertas de um líquido pegajoso e cheiro desagradável, difícil de retirar; não havia caminhos alternativos.

Mas a paisagem era magnífica, com pequenas cachoeiras cristalinas, muita vegetação típica do cerrado, patos mergulhões nas pequenas lagoas (remansos) formadas pelo rio; não vimos nenhum tamanduá-bandeira, como esperávamos, assim como nenhum outro animal selvagem dos cerrados: carcarás, tatus-canastra, lobos-guarás, veados campeiros… nada, com exceção de uma pequena cobra coral, aninhada sob meu pé…

Depois de longa caminhada constatamos que a trilha era muito mais extensa do que pensávamos. Andamos por horas às margens do rio. Às quatro da tarde, como é de  hábito entre os montanhistas, começamos a procurar um local para pernoite.

Chegamos a um remanso com uma pequena cascata e muita areia branca e fina, que nos pareceu adequado. Não levávamos barraca, pois nos disseram que seria fácil chegarmos ao nosso destino (o alojamento do parque) antes do anoitecer.

Felizmente o tempo estava bom e não havia previsão de chuvas. Montamos nosso bivaque[2], estendendo o saco de dormir na areia, da melhor maneira possível. Sempre levo sementes e castanhas em minhas caminhadas, assim como cobertor térmico, que usei como isolante. Não estava com fome e as castanhas me satisfizeram.

Paulo e Heitor prepararam seu jantar (macarrão) e conversamos por algumas horas antes de adormecer. Fazia muito frio e nos agasalhamos como pudemos. Estávamos frustrados por não cumprir nosso objetivo: chegar ao alojamento no primeiro dia… mesmo assim, adormecemos.


[1]    Casca D’anta – maior cachoeira em queda livre do rio São Francisco. Localizada em São José do Barreiro (MG), distrito que fica a 38 quilômetros de São Roque de Minas, é formada por 186 metros de queda d’água e está emoldurada em uma parede de rocha de cerda de 340 metros de altura. (Wikipédia).

[2]  Bivaque – pernoite ao relento, sem equipamentos apropriados e de forma improvisada.

Na trilha da Canastra, 31 de maio de 2009

Sul: 200 18´ – Oeste: 460 31´ – Altitude: 1.186 metros

Saímos às 07h30 e caminhamos até às 13h30, quando alcançamos a base da Casca D’anta e nos dirigimos a um restaurante, logo à saída do parque. Minha filha, preocupada com nosso atraso e com a falta de notícias, nos esperava.

Almoçamos aquela comidinha gostosa dos mineiros, feita em fogão a lenha, e seguimos para a pousada, passando por lugares onde seria possível colocar minha canoa na água. Naquele dia nada encontramos, mas eu sabia que poderia sair próximo a Vargem Bonita, a poucos quilômetros dali.

A etapa da Serra da Canastra havia sido concluída. Fizemos a trilha da nascente e pudemos conhecer um pouco da diversidade da região do cerrado, embora eu já tivesse estado por lá muitas vezes, com outros olhos e outros interesses.

Ficou, para mim, a percepção de que, nos limites do Parque Nacional, o rio São Francisco estava bem protegido e bem cuidado. O acesso às suas águas era restrito e as condições do terreno e da vida em seu entorno permaneciam nas mãos da Natureza. No entanto, o entorno do Parque, sua zona de amortecimento, ainda causa preocupações.

Agradeci aos funcionários do Parque pela atenção e cuidados, e também por me concederem a oportunidade de conviver intimamente com o São Francisco em sua fase de nascimento e desenvolvimento. Que seus visitantes saibam respeitá-lo!

De lá nada levei além das fotografias e recordações, e lá não deixei sequer minhas pegadas, mas ficou minha energia, que se dissipou nos ares puros da Canastra, as emoções que senti, e o calor de minh’alma enriquecida pelas belezas naturais desse lugar. Espero poder retornar mais vezes a esse paraíso natural.

Meditei bastante sobre as funções conscientizadoras dos parques e reservas naturais: sem sua existência, nossa sociedade jamais poderia compreender o que ainda existe oculto em nossas montanhas, matas, rios, oceanos, cavernas, savanas… a evolução da consciência ecológica brasileira depende da preservação desses santuários da vida selvagem; por outro lado, sua existência costuma servir como justificativa para se acabar com todo restante de natureza preservada; “afinal, não é para isso que se criaram os parques e reservas naturais?” Precisamos ampliar urgentemente nossas reservas!

Eu jamais compreenderei a mente perversa dos destruidores da Natureza. Não existe lógica em seu raciocínio! São inimigos da beleza, da vida, de tudo o que pode ser considerado um refúgio de vida selvagem. Por eles, o mundo seria um imenso campo semeado de monoculturas… pura monotonia e ausência total da riqueza original do mundo, sem a interferência humana!

Os ambientalistas são seus inimigos declarados, não porque querem acabar com a agricultura, ou a pecuária, ou qualquer outra forma necessária de produção de alimentos, mas porque não existem limites para a ganância humana! Precisamos mudar essa mentalidade torpe e obter apoio para conscientizar a população do mundo da necessidade imperativa dos ambientes naturais, não apenas para satisfazer nossos ideais de beleza, mas como fonte insubstituível de vida, uma questão de sobrevivência! Espero que meu trabalho contribua também para isso…

O RIO DESCE A MONTANHA

Vargem Bonita, A partida, 1º de junho de 2009

Sul: 200 19´ – Oeste: 460 29´ – Altitude: 829 metros

Hoje seria um dia decisivo para minha expedição, quando finalmente iniciaria a etapa náutica, percorrendo as vertentes das colinas nas corredeiras do São Francisco. Minha expectativa aumentava a cada minuto, ansioso por embarcar.

A manhã toda foi de preparativos e de revisão do equipamento.

Conforme indicações, eu sairia de um local distante cerca de 5 km de Vargem Bonita, em direção à Casca D’anta. Encontramos um parque de arvorismo com boas possibilidades de embarque. Eles nos autorizaram a utilizar suas praias de rio, repletas de cascalhos e águas cristalinas.

Passamos mais duas horas para descarregar a canoa, limpá-la, colar os adesivos e embarcar toda bagagem, amarrando-a ao piso do barco para evitar que se dispersasse em caso de uma provável rolagem nas corredeiras. Afinal, não tivera nenhum treinamento  nessas águas agitadas, conhecidas como águas brancas devido às espumas formadas na sua superfície, que muitos me disseram não existir no São Francisco. Vejamos…

De volta ao rio…

Às 13h30, finalmente coloquei minha canoa “Ulysses” nas águas do Velho Chico.

Hoje remei pouco… apenas alguns quilômetros. Às 15h30  encontrei uma pequena praia e minha canoa se deslocou naturalmente em sua direção, ancorando na areia.

Foi um trecho pequeno, mas repleto de corredeiras fáceis, que me introduziram nesse novo ambiente de navegação, e exigiram habilidades que eu não desenvolvera. Felizmente, consegui superar essas dificuldades iniciais, aprendi algumas técnicas de abordagem de corredeiras e agora estou aqui, no meio do rio, cercado de matas e do ruído das águas, dos insetos e das aves, abundantes nessa região selvagem e bela.

Uma sensação ao mesmo tempo estranha e empolgante: estou aqui, vivendo com meus próprios recursos, resolvendo meus problemas sem a ajuda de ninguém, e disponível para meditar sobre a vida, no que restam de meus dias, e o que farei deles.

Sinto-me ainda capaz de desenvolver projetos, realizar sonhos, mas, ao mesmo tempo, relegado ao esquecimento pela sociedade que me quis assim, aposentado precocemente.

Serão meses de isolamento e solidão, questionamento e avaliação das razões do existir. Terei, assim, que conviver comigo por muito tempo. O que me acontecerá depois?

Lá fora a chuva cai, mansa, quase silenciosa… meu universo se encolheu para essa pequena barraca! Minha canoa está ancorada na areia e tenho receio de que a chuva aumente e me obrigue a mudar tudo de lugar, se o rio crescer de madrugada.

Que imprudência! Preciso repensar minhas atitudes daqui para frente. Na Natureza nossos erros não são perdoados e, geralmente, as consequências costumam ser bastante trágicas. E se eu perdesse a canoa e toda minha carga?

Espero que as lembranças e a companhia de meu pai me ajudem a suportar todo peso dessa expedição e me dê forças, coragem e determinação para seguir até o fim.

Que a Natureza também seja condescendente comigo, e me deixe aprender aos poucos suas lições. Isso não se aprende nas escolas, nos treinamentos, em salas de aula.

Local provável: cachoeira de “Lion”, 2 de junho de 2009

Sul: 200 21´ – Oeste: 460 19´ – Altitude: 758 metros

Esse nome é presumido; ouvi-o de um pescador, não compreendi a pronúncia e não consta dos mapas da região. Como não encontrei um nome semelhante, assumi este.

Dia surpreendente hoje! O rio serpenteia durante todo percurso e a cada curva, uma corredeira! Paisagens fantásticas, principalmente nas imediações de Vargem Bonita. A cidade não chega à margem do rio. A Natureza, bem preservada, muita mata, muitos peixes, água transparente, grande variedade de pássaros: gaviões, garças brancas, garças cinzentas, tucanos, dezenas de outras espécies, cujos nomes desconheço…

Um casal de patos mergulhões esteve presente em meu caminho, à frente, durante todo dia, mas não se deixou fotografar… bastava eu me aproximar e eles levantavam voo e pousavam adiante, parece até de propósito, à minha espera.

Algumas corredeiras foram difíceis para mim, pois, na curva, o rio adquire grande velocidade e, não importa o ângulo de tomada de curva, a canoa é lançada contra a margem oposta, violentamente!

Muitas vezes consegui evitar o choque, mas em outras foi impossível. Às vezes eu era lançado contra árvores tombadas sobre a água, obrigando-me a me defender com o remo. Mesmo assim, eu chegava a me enroscar nos galhos.

Agora estou pernoitando sobre umas pedras, à margem do rio, e próximo à cachoeira de “Lion” (?). Eles, os ribeirinhos, chamam essas corredeiras maiores de “cachoeiras”, com certa razão. Esta aqui parece um obstáculo intransponível, ao menos para mim. O barulho das águas é muito forte e formam-se buracos na superfície, causados pelas pedras no fundo do rio. Tive que parar em uma pequena praia e ancorar o barco nas pedras.

Para conseguir chegar próximo às corredeiras foi preciso usar roupa de neoprene e nadadeiras. Não quis me arriscar com o barco antes de conhecer as possibilidades de passagem. Mesmo assim tive dificuldade para voltar, tão forte era a correnteza. Passei para a outra margem e não encontrei  saída.

Amanhã levarei uma corda ao outro lado para poder puxar o barco sem me arriscar a ser tragado pela corredeira. Existe uma fazenda de gado na encosta do morro e pretendo explorar as possibilidades de portagem por essa pradaria desmatada.

Terei que desmontar toda carga pela primeira vez, e transportá-la junto com a canoa até depois da corredeira. Ainda não sei o grau de dificuldade dessa alternativa, mas, com certeza, consumirei toda manhã nessa tarefa.

Apesar do frio, este local é excelente para pernoite. O céu está estrelado, vejo claramente a Via Láctea, e só ouço o barulho da cachoeira, dos pássaros e dos insetos.

Hoje jantei um macarrão com brócolis ao pesto. Acrescentei tomate seco, pimenta, gengibre e um pouco de azeite de oliva. Uma delícia! Como estava faminto, comi as duas porções do saquinho e tomei uma limonada em pó.

Ontem minha música se calou… a bateria do ipod só durou umas poucas horas; ficou evidente que não terei música no caminho, pois a placa de bateria solar se mostrou ineficiente para carregar qualquer tipo de equipamento eletrônico.

Bem, vou tentar dormir e guardar a ansiedade para amanhã. Sinto uma falta imensa da Mory (minha mulher), de minha mãe, minhas filhas e de meu netinho, razões mais expressivas de meu viver…

Primeiro contratempo, 03/06/2009 – 06h30

A noite foi muito fria! Não consigo saber a temperatura, pois não trouxe termômetro, mas a umidade do ar beirava os 100%. Uma densa e gelada neblina ainda cobre o rio e condensa-se em tudo ao seu redor. A barraca está molhada como se tivesse chovido durante toda noite. A condensação da umidade interna da barraca se concentrou na cobertura interna e molhou até o saco de dormir. Parece que a umidade penetra em tudo!

Não tive nenhuma ideia “brilhante” de como sair daqui, mas vou esperar o sol nascer e a neblina desaparecer, pois minhas mãos e meus pés estão congelados! Tentarei subir pela margem esquerda do rio, onde estou acampado, para evitar atravessar novamente a nado, e transportar a bagagem e o barco pela trilha do gado, que deve ser lamacenta e coberta de estrume, mas pode ser o meu caminho de saída.

Os peixes são tantos que saltam continuamente fora d’água. Devem medir, em média, uns 40 cm. Eu ainda não tentei pescá-los… sinto pena deles. Nunca serei um pescador! O sol já nasceu… vejo sua luz, mas não o enxergo sob a densa neblina da manhã. Nas pedras, onde passei a noite, o rio é tão estreito que daria para arremessar a corda para o outro lado. Arrependo-me de não ter trazido uma âncora. Agora ela seria útil para laçar uma árvore e puxar o barco para o outro lado sem ter que nadar nessas águas geladas. Não sei como consegui nadar ontem, sem ter uma cãibra.

A neblina já começou a se dissipar com o calor dos raios do sol. E a vida também se manifesta no canto dos pássaros, preguiçosos como eu, a gorjear nas matas vizinhas.

O barulho da pequena cachoeira é contínuo e forte; dormi um sono intermitente, embora revigorante. Parece que não preciso de muitas horas de sono para me recuperar, pois o silêncio, a escuridão e o ambiente são tranquilizadores!

Só imagino  o que teria acontecido se eu não tivesse conseguido evitar a cachoeira… provavelmente teria acionado o botão de pânico do rastreador que ganhei de presente de minhas filhas, o melhor equipamento que poderia ter trazido!

Com ele posso tranquilizá-las todas as noites, informando a minha localização exata, graças a um sistema de GPS. Espero não ter que usá-lo para pedir ajuda!

O sol já tinge de dourado a copa das árvores e a neblina desapareceu, como por encanto. Porém, ainda continua muito frio e sair da barraca e do saco de dormir é desanimador…

Hoje vou preparar um leite quente com chocolate para me recuperar da noite gelada. E beber na caneca com a foto de meu netinho Nícolas… que saudade dessa criaturinha que transformou a minha vida! Que alegria vê-lo sorrir, tomá-lo em meus braços, cuidar, passear, conversar com ele, ainda que não compreenda sua linguagem.

Ainda teremos muitas alegrias com esse garotinho tão bem-vindo às nossas vidas! Jamais imaginei que a essa altura de minha vida pudesse ter tamanha felicidade.

Conhecendo as corredeiras, 03/06/2009 – 19h45

Sul: 200 21´ – Oeste: 460 18´ – Altitude: 746 metros

Que dia terrível!

Comecei muito bem, passando a corredeira que tanto me atormentara… não havia jeito de fazer uma portagem naquele local e acabei decidindo enfrentar a corredeira. E deu certo: consegui passá-la até com certa tranquilidade. Fiquei bastante feliz com isso.

Pela manhã, demorei algumas horas para secar todo meu equipamento: barraca, saco de dormir, toalha, panos, roupas, tudo, enfim, molhado pela garoa da noite anterior. A barraca se molhou com a cobertura externa, que condensou o calor interno de meu próprio corpo.

Saindo da corredeira remei com entusiasmo, percorrendo um bom trecho em poucas horas. A paisagem lindíssima e, em grande parte, preservada, quase intacta, não fosse a criação de gado nas fazendas. Gado solto, andando livre pelas matas e pelos barrancos caídos, pastando às margens do rio e até entrando nele para beber água e, é claro, defecando em suas águas! Onde estão esses fazendeiros? E a polícia florestal?

Depois de várias corredeiras encontro uma que não consigo vencer; a queda mais acentuada e o grande peso da carga na proa fizeram a canoa se encher d’água  na  inclinação causada pelo desvio das pedras, e em poucos segundos! Para evitar que ela se virasse e emborcasse, saltei na água e a conduzi até o barranco mais próximo.

Achei mais fácil tirar a água da canoa com uma caneca do que desamarrar e retirar toda carga para entornar a canoa. Devo ter tirado uns 300 litros de água!

Subi no barco e continuei a remar… normalmente, depois de uma corredeira vem um trecho de águas calmas, e já estava acostumado com isso. Essa corredeira, no entanto, era diferente, com grandes pedras obstruindo todo leito do rio e paredes de rocha em ambas as margens, o que impedia qualquer portagem.

Não tendo observado essa mudança de padrão, quase fui lançado na verdadeira cachoeira: enorme, com um ronco assustador! Verdadeira água branca de que falam os aventureiros! Quem disse que o Velho Chico não as tem?

Essa, para mim, devia ser uma “classe 3”[1], apesar de sua pouca extensão. Até me imaginei rolando pelas águas, chocando-me contra as pedras, esfacelando-me com minha canoa, como se fosse construída com papelão, minha carga se dispersando nas espumas…

Remei com todas as minhas forças, mas o barco não saía do lugar, próximo demais do ponto sem retorno. Puxava as águas com violência, procurando usar toda técnica que aprendi no rio… esforço inútil! Consegui, finalmente, me aproximar de uma pedra, quase à superfície; joguei a proa de encontro à pedra, forçando o bico da canoa sobre ela.

Deu certo! O barco encalhou no meio do rio, a menos de um metro da primeira queda, a mais violenta de todas! Fiquei, por uns momentos, parado, recuperando o fôlego…

Ouvia o rugir das águas às minhas costas, sem poder fazer nada. Às vezes, tinha que remar, mesmo com o barco preso à pedra, para que ele não se soltasse. Sabia que precisava fazer alguma coisa, pois não iria aguentar por muito tempo essa situação. Cansado, minhas ideias se confundiam, e me imaginava sendo levado pelas águas.

Resolvi, então, tomar uma atitude drástica e arriscada: saltei da canoa, agarrei a corda da popa e a enrosquei em uma pedra um pouco atrás. Mais uma vez, deu certo!

Agora, com o barco estabilizado, peguei a corda longa que, providencialmente, havia amarrado na proa, e imobilizei a canoa. Depois eu a retirei para um lugar seguro.

Fui averiguar o tamanho da corredeira e me assustei com o que vi; realmente seria impossível passar com uma canoa por esse turbilhão de águas correntes!

Voltei ao barco; já passava das 15 horas e não poderia fazer mais quase nada. Ou dormiria nas pedras, como no dia anterior, ou teria que encontrar outro local.

Resolvi voltar à última corredeira que havia transposto e procurar uma saída. Remei pela margem, depois de arrastar a canoa para fora da zona de perigo, até chegar nas pedras da corredeira anterior, aquela que quase afundou meu barco.

Por lá não havia saída; a velocidade e a força das águas impediam meu recuo. Segui, então, pela margem esquerda até uma minúscula praia à beira de um riacho.

Fixei a canoa na areia da praia e subi o barranco. Precisava encontrar um meio de contornar a corredeira, passando sobre a montanha. Mas antes precisava de um refúgio.

Assim que ultrapassei o barranco me surpreendi com duas cachoeiras gêmeas, formando uma pequena lagoa de águas verdes e cristalinas, cercadas pela densa mata.

Refeito da magnífica surpresa, comecei a subir o morro com duas expectativas: encontrar um caminho alternativo para a portagem e alguém que pudesse me ajudar a transportar os 120 kg da canoa e das bagagens morro acima. Cheguei a improvisar uma escalada e um rapel para poder me movimentar com segurança naquele barranco íngreme.

Mas a montanha era intransponível! Além da distância e altura, o afluente cavara uma enorme e extensa grota, coberta de densa vegetação, isolando completamente meu local de portagem da parte baixa do rio, onde deveria chegar. Não seria por ali minha saída.

Já era tarde, o sol se escondia e tive que encontrar um lugar para meu acampamento. Comecei a subir os sacos com o que fosse imprescindível: a sacola de emergência, a barraca, equipamentos eletrônicos, apetrechos de cozinha, comida, roupas… estava tudo molhado!

Montei a barraca, mesmo molhada, sem fixá-la no chão, pois os specs[2] não penetravam o solo duro e ressequido pelo pisoteio constante do gado. Dentro coloquei a lona que deveria ficar por baixo, pois ela estava mais seca que a barraca. Sequei um pouco o isolante térmico com a toalha, pois teria que dormir sobre ele, já que o saco de dormir também estava encharcado. De qualquer modo, era melhor do que ficar ao relento, pensei…

Preparei arroz com brócolis e funghi, acrescentei pimenta, gengibre, tomate seco e azeite de oliva, para dar mais consistência e recuperar minhas energias.

Tentei usar o telefone celular, já que, supostamente, havia gente próxima dali, mas não funcionou.

Por via das dúvidas, mandei duas mensagens pelo rastreador. Embora não tivéssemos combinado isso, pensei que, ao recebê-las e conferir meu pequeno deslocamento, entenderiam que estou bem, ainda não preciso de ajuda, mas que a situação é complicada.

Amanhã terei que decidir o que fazer. Por enquanto, a única alternativa que posso conceber é voltar ao cachoeirão e tentar transportar tudo pelas pedras, usando cordas e roldanas para dar segurança ao processo, nem que para isso leve dois dias.

Terei que levar a canoa de volta àquele ponto crítico, preparar a segurança, transportar os sacos um a um, e depois tentar levar a canoa para cima do barranco e descê-la do outro lado. Ainda não sei como será isso, mas é a única alternativa que tenho.

Um pescador, na beira do rio, antes de Vargem Bonita, havia mencionado esse obstáculo, mas disse que eu poderia contorná-lo por uma estrada que havia antes, à margem do rio. Não encontrei essa estrada, nem ninguém que me pudesse mostrá-la ali nesse ponto.

Não tendo saída, resolvi dormir, na esperança de que o espírito da noite e o de meu pai me ajudassem a encontrar uma alternativa razoável. Caso contrário, farei como Aguirre e enfrentarei “a cólera dos deuses”! Werner Herzog[3] fez filmes extraordinários!

Esta noite passarei muito frio, mas vou sobreviver.

Só para não me esquecer: hoje, durante uma de minhas trilhas exploratórias na colina, caí dentro da toca de algum animal. Era bem grande e sua boca tinha mais de um metro de diâmetro. Para sorte minha, estava deserta: o bicho, seja qual for, deveria estar caçando.


[1]    Classificação dada pelos praticantes de rafting para as corredeiras dos rios, de acordo com o grau de dificuldade apresentado. Os níveis de dificuldade vão de classe 1 a 6, crescentes, sendo a classe ‘6’ quase impossível de se remar.

[2]    SPEC – tipo de cravo ou gancho de fixação das extremidades da barraca no solo

[3]    Werner Herzog – cineasta alemão nascido em Munique em 1942, gravou Aguirre nas selvas amazônicas.

Perdas e danos, 4 de junho de 2009 – 08h00

Que noite gelada!

Dormindo sob uma barraca encharcada, sem o conforto do saco de dormir, sem qualquer coberta, o frio foi insuportável! Meus pés congelaram e eu tive a sensação de estar em uma montanha nevada… lembrei-me de filmes de alpinistas e imaginei meus dedos escurecidos pela gangrena, depois tendo que cortá-los… hipotermia, edema pulmonar, edema cerebral…

O frio era tão intenso que abri um de meus cobertores térmicos da sacola de emergência (era uma emergência!) e me enrolei todo nele. Acho que não suportaria de outro modo.

Hoje, como ontem, amanheceu um belo dia ensolarado, mas ainda permaneço na sombra, atrás da montanha e da mata densa que ocultam os raios do sol. Preciso deles para me reaquecer e reanimar, e enfrentar o grande desafio de transpor a cachoeira.

Retirei a cobertura da barraca para poder abrir a porta sem molhar tudo aqui dentro.

Hoje pretendo sacrificar algumas cargas para reduzir o volume dos sacos estanques, pois nenhum deles isolou seu conteúdo das águas do rio. Percebo que são necessárias muitas voltas no fechamento dos sacos para garantir a impermeabilização. Mais de sete! Mas, fazendo assim, não caberá toda carga.

Ontem, ao cair na água, perdi meu melhor canivete; o bolso do colete salva-vidas deve ter se enroscado em algum lugar e o fecho de segurança se abriu. Paciência! Agora só tenho um canivete e uma pequena faca. Preciso cuidar bem deles! Ainda estou só no começo…

No primeiro acampamento também perdi o material de limpeza de cozinha, eu acho. Não consigo encontrá-los! Eram 5 pedras de sabão de coco, um detergente e um álcool gel. E aí vem o sol, finalmente! Agora posso desmontar o acampamento e colocar tudo para secar, enquanto coloco ordem no barco e tomo meu café da manhã sossegado.

As cascatas do Velho Chico, 04/06/2009 – 18h30

Sul: 200 21´ – Oeste: 460 18´ – Altitude: 746 metros

Hoje foi um dia excepcional para mim! Passei boa parte da manhã limpando e secando meus apetrechos, mas isso não me tirou a certeza de que conseguiria transpor meu maior obstáculo até agora. Estou mais confiante, preciso dessa certeza para prosseguir.

Despedi-me das cachoeiras gêmeas e de seu lago esverdeado, depois de um bom banho gelado, com certa tristeza, pois raras vezes presenciei um lugar tão belo e completamente selvagem e preservado! Enchi meu galão de água, filtrando-a do lago.

Coloquei toda minha bagagem de volta à canoa sem muita preocupação em organizar as coisas, pois apenas voltaria ao ponto em que quase fui tragado pela corredeira.

Amarrei bem a canoa e refiz todo percurso que deveria transpor ao longo do dia. Em alguns trechos até dava para andar sobre as pedras, outros estavam cobertos de um limo escorregadio e molhado. Tentei marcar um trajeto mais seguro antes da portagem.

Havia trechos que só dava para passar agarrando-me às rochas, como em uma parede de escalada, ou andando muito próximo das cachoeiras. Tentei decorar esse trajeto.

Revisei mentalmente meus planos e retornei ao barco, parado em um remanso, protegido das corredeiras. Montei um esquema de controle e transporte do barco, com duas cordas amarradas à proa e à popa, permitindo conduzi-la como marionete, de cima das pedras.

Descarreguei todos os sacos e demais pertences da canoa e dei início à transposição, ora arrastando-a sobre as pedras, ora deslizando-a pela água e conduzindo-a pela margem do rio. Nos pontos de escalada montei um sistema de cordas que permitia transportá-la pelo alto, vencendo cada etapa com muita dificuldade, muito lentamente.

Às vezes o barco escorregava perigosamente sobre meu corpo, ameaçando atirar-nos direto sobre a cachoeira. Movimentava-me com todo cuidado para não errar. Depois de algumas horas cheguei ao ponto de onde iria lançá-la ao rio através de um sistema de roldanas. Farei isso pela manhã e deixei-a no alto das pedras.

Como o dia estava muito favorável, transportei todo material e refiz as sete sacolas grandes de forma mais prática. Hoje percebo que levo uma mochila com material que nunca utilizarei na viagem. Alguns até se danificaram sem terem sido usados, como a máscara de mergulho, cuja alça arrebentou. Nem sei bem porque a trouxe para cá…

Montei o acampamento mais cedo e me permiti um descanso merecido… e seco! De dentro de minha barraca ouço muito forte o barulho das águas, trovejando a pouco mais de três metros daqui. Nem sei se conseguirei dormir com esse som assustador.

Ao mesmo tempo em que fico entusiasmado com meu trabalho de portagem, sinto uma grande tristeza em deixar esse pequeno paraíso intocado. Hoje à tarde avistei dois tucanos voando juntos por sobre a copa das árvores, mas não deu tempo de filmá-los. Também vi um casal de gaviões voando a grande altitude, com seu piado longo e triste, sua postura elegante e majestosa. Como é bela a Natureza! Que privilégio!

Passaria mais dias aqui, se pudesse me comunicar com minha família e tranquilizá-los Imagino que estejam preocupadas ao perceber que não me desloquei nada nestes últimos dois dias… deve ser difícil ficar imaginando o que está acontecendo…

Encontrei meu canivete! Estava sob a grama, ao lado da barraca. Também achei os produtos de limpeza. Ainda bem. Seria vergonhoso deixar para trás esses objetos… agora não sei onde deixei meus óculos! Estou apenas com um reserva e não posso perdê-lo.

Bem, vou tentar dormir. Hoje tudo está seco e não sentirei frio esta noite. Este local é bem abrigado dos ventos e longe dos excrementos das vacas que pastavam perto de minha barraca pela manhã… onde estariam seus donos? Como deixam esses animais assim?

É curioso como esses animais perambulam abandonados pelos pastos, sem que nenhum peão os acompanhe. Será que existe algum controle? Devem perder muitos…

Há ruídos estranhos lá fora, além da cachoeira. Estou praticamente sob a mata, entre o rio e as rochas e não há como chegar até aqui, exceto para os animais. Não sei que tipo de animal noturno faz suas caçadas por aqui. Só espero que eles não se interessem por mim, minhas mochilas, minha barraca…

“Leave no trace”, 5 de junho de 2009 – 03h40

Uma questão para os puristas do “pega leve[1] refletirem…

Estou acampado à margem do rio, sobre pedras e bem distante (inacessível) de locais que possam ser usados como “banheiro”: 60 metros da água, solo macio para cavar um buraco, enterrar…

Minha preocupação com a Natureza tem sido uma constante, procurando não deixar vestígios de minha passagem por todos os locais. No entanto, acordei com uma carência urgente de atender às minhas necessidades fisiológicas… o que fazer?

Bem, na falta de alternativas, procurei as areias mais distantes (apenas 3 metros da água), fiz o buraco mais fundo que pude (uns 15 cm) e dispersei meus dejetos de modo a facilitar sua decomposição. Não havia alternativa, e não poderia levá-los…

De qualquer modo, os animais deixam seus restos em qualquer lugar e, por alguns meses, eu estarei me comportando como um deles, vivendo ao relento, defecando…

Às vezes torna-se quase impossível cumprir esses preceitos teóricos. Em uma expedição longa como essa, nem sempre é possível escolher uma área de acampamento adequada. Hoje estou neste local por absoluta falta de alternativas.

Até porque tal proximidade do rio se torna um risco exagerado no caso de uma enchente repentina. Eu não teria condição de sobrevivência, uma vez que não há saída rápida deste local. Estando dentro da barraca, nem perceberia a sua chegada… Mas, não havendo escolha, a decisão está tomada. A única prevenção que adotei foi escolher a época do ano em que as chuvas já seriam mais escassas e improváveis.


[1]    Pega Leve – versão brasileira do movimento internacional conhecido como “leave no trace”, ou “não deixe rastros”; estimula atividades limpas em contato com a Natureza e estabelece parâmetros de orientação para quem o quer adotar (http://www.pegaleve.org.br/home.htm).

Dificuldade e prazer, 5 de junho de 2009 – 19h20

Sul: 200 21´ – Oeste: 460 18´ – Altitude: 746 metros

Superado o grande desafio da portagem na cachoeira, minha expectativa era de que conseguiria um bom desempenho nas remadas, percorrendo uns 20 a 30 km hoje.

Porém, meu entusiasmo não passou da segunda curva do rio! As corredeiras não só aumentaram em quantidade, mas o grau de dificuldade se tornou maior ainda!

Logo na segunda corredeira do dia cheguei a pensar em uma portagem; mas o tempo que se perde tirando todas as sete grandes sacolas, que sempre estão bem amarradas, o seu transporte, que consome muito esforço e o transporte do barco, que além de tudo produz fortes impactos em sua estrutura, tudo isso levado em conta nos faz pensar em arriscar um pouco mais e enfrentar as corredeiras. Afinal, para isso vim até aqui! Optei por avançar pelo rio e deu certo! Foi dificílimo, mas saí ileso.

Continuei com novo ânimo, estimulado pelo bom resultado, e por passar mais duas corredeiras pequenas, quando ouvi o forte e inconfundível ruído de uma cachoeira… parei o pequeno barco e percebi que o rio estava todo obstruído por grandes rochas cinzentas.

Havia três passagens: um canal artificial na margem direita, provavelmente construído para uso no garimpo, já abandonado, e dois centrais, onde a força das águas produzia aquela  espuma, as águas brancas dos esportistas de canoagem.

Caminhando pelas rochas, junto ao canal, percorri cerca de 150 metros, escalando e acompanhando as águas que, no começo, até pareciam possíveis de serem superadas.

No entanto, logo depois de uma curva à direita, parecia um grande liquidificador, as águas sendo atiradas para todo lado, provavelmente devido a um buraco ou pedra no meio do canal.

Impossível atravessar por este caminho…

Restou a opção da portagem. Eram cerca de duas e meia da tarde. Atravessei com o barco para a margem esquerda, onde havia uma pequena praia ao lado de uma cachoeira, na qual desembocava algum afluente do São Francisco.

Ancorei a canoa e subi no barranco. A mata densa ocultava uma antiga trilha abandonada. Peguei meu facão e,  constrangido e triste, refiz parte da trilha, cortando o mínimo de vegetação necessária para permitir a portagem.

Às quatro da tarde só faltava a canoa, o mais complicado naquele lugar. Resolvi alterar os planos e conduzi a canoa pelo rio, com as duas amarrações de proa e popa usadas anteriormente, até chegar à cachoeira. Puxei a canoa por cima das águas e a baixei depois da corredeira. Deu certo, e às cinco da tarde já estava montando meu acampamento.

Refleti bastante acerca dessas dificuldades, muito maiores do que o esperado. A primeira sensação é frustrante: não sei quanto me desloquei nesses cinco dias, mas foi muito menos do que os cento e quarenta quilômetros planejados até Iguatama, onde deveria estar chegando. Talvez bem menos da metade do percurso, já perdera a noção das distâncias…

Com certeza, quem me acompanha pelos sinais do rastreador deve estar muito preocupado com os deslocamentos insignificantes que tenho registrado. Mas não há saída! Infelizmente, nada posso fazer quanto a isso. Estou em um local selvagem, deserto, isolado de toda civilização. Não há nenhum sinal de celular…

Por outro lado, essa é a maior e mais complexa experiência de minha vida! Estou sobrevivendo com meus próprios recursos, vencendo desafios que nunca concebi, superando limites que jamais poderia imaginar que fossem possíveis para mim.

Quantas pessoas na vida têm uma oportunidade como essa? Quantas se arriscariam a deixar todo conforto do mundo para percorrer um caminho tão inóspito e selvagem?

As imagens que venho registrando são únicas, belíssimas, exclusivas! Já tirei mais de 250 fotos, sem desperdício, e ainda não percorri nem 1% de todo trajeto de minha viagem.

Sucessão de portagens, 6 de junho de 2009 – 19h10

Quando deixei meu acampamento pela manhã, completando mais uma portagem em corredeiras, senti certa nostalgia… algo me dizia que estava transpondo um limite entre áreas totalmente selvagens e um iminente contato com a civilização.

De fato, pouco antes fora obrigado a fazer nova portagem e os sinais evidentes das intervenções humanas começavam por um canal construído ao longo da margem direita do rio, com o propósito aparente de extrair ouro ou diamante. Mas não era simples garimpo manual, pois fora construído com extensas lajes de concreto. Está abandonado, mas deve ter sido usado durante anos, extraindo minérios…

Logo adiante, vestígios mais contemporâneos: garrafas pet, latas, embalagens de margarina, todo tipo de lixo humano espalhado por uma área belíssima, emporcalhada pelo descaso com a Natureza… Como pode? Quem seria assim tão estúpido?

Passando esse obstáculo pude desenvolver o remo por duas horas até encontrar uma ponte, sob a qual pescavam um garoto, um rapaz e um senhor de minha idade. Conversei com eles e me disseram que havia uma corredeira logo à frente.

Pouco depois da ponte, mais uma portagem! Já perdi a conta de quantas vezes tive que descarregar o barco, transportá-lo e à minha carga, em condições sempre complicadas, e rearranjar toda bagagem novamente. É meio desanimador…

Mas estou desenvolvendo minhas habilidades para isso também; nesta última portagem fiz tudo em uma hora e meia! O que dá mais trabalho são as amarrações.

Confabulações, 6 de junho de 2009 – 19h30

Esta solidão de seres humanos em que me encontro traz a percepção absoluta de que faço parte dessa Natureza fantástica! Não há obra humana, construída em detrimento do mundo selvagem, que se justifique, mesmo em se tratando do desenvolvimento científico, cultural ou tecnológico.

É necessário reavaliar o progresso de modo a assegurar a preservação e a sustentabilidade do meio ambiente. Não se constrói a sociedade sobre os escombros do universo selvagem, da beleza cênica dos santuários da Natureza.

Estar aqui, cercado pela mata intocada, ouvindo os sons dos animais e o rugir das águas nas corredeiras e cascatas, tornam-me cúmplice e integrante desse mundo perfeito.

Admirar o voo de uma garça azul, entre as copas das árvores mais altas, ou dos patos a centímetros da superfície das águas, ou dos tucanos, batendo as asas em ritmo alternado, ou ainda do martim pescador, dissimulando sua presença e seu ninho, e metralhando nossos ouvidos com seu grito insistente e forte, ou o pio sinistro das corujas e dos gaviões, apreciar, enfim, a revoada dos pássaros, é privilégio de poucos, e determinará o meu destino, ao partir deste mundo encantado…

Hoje eu me pergunto qual o sentido de tantas discussões acerca do meio ambiente, por pessoas que nunca deixaram suas escrivaninhas de trabalho, e só conhecem os animais e seu comportamento nos zoológicos, pelas ilustrações dos livros ou pelos documentários da televisão…

Para defender teses preservacionistas é preciso conviver intimamente com a Natureza, sentir a vibração dos corações selvagens, auscultar seus pedidos de alerta e integrar-se a esse mundo como se fosse sua própria casa… isso é diferente dos livros de teoria! Criam-se belas expressões – “sustentabilidade”, “biodiversidade” – com o propósito de disfarçar a verdadeira intenção por detrás do discurso: diminuir sempre e continuamente os espaços naturais, cedê-los discretamente aos empresários, pecuaristas, à agroindústria, ávidos de lucros fáceis, ainda que construídos sobre os escombros da vida selvagem, até que um dia, o que restar já não possa sustentar a frágil vida selvagem, que se extinguirá!

Um dia, se nada for feito urgentemente, nossa paisagem será semelhante aos desertos de “Mad Max[1], contendo apenas os despojos da civilização e um bando de desesperados buscando sobreviver ao vazio deixado pela destruição e pela guerra. O que diremos aos nossos descendentes?

A ação perversa do homem não será interrompida a tempo – lamento dizer isso – até porque o prazo que nos resta não será suficiente para estancar a destruição. “Então, por que ele continua?” pensarão aqueles que me leem.. porque é meu dever, minha obrigação, minha missão nesta Terra, meu compromisso com minhas filhas e netos…

Assim como os animais que defendo, lutarei essa guerra inglória, desesperada, enquanto me restarem forças e coerência intelectual para prosseguir. Chegará o dia em que eu também me renderei às evidências, mas aí estarei me despedindo desse mundo… e passarei às minhas filhas e meus netos a responsabilidade por prosseguir até o fim…

Hoje vi algumas rochas – talvez basalto – compondo sinistras esculturas às margens do rio. E me senti em um museu, no futuro, onde o ecossistema seria representado em uma vitrine, com os dizeres: “isso tudo já existiu um dia…”!

Minha peregrinação neste “meu Velho Chico” deveria ter esse significado: alertar as pessoas para o que estão fazendo com o nosso rio… esse é o meu propósito; mas receio que, se algum interesse despertar, será apenas pelo inusitado da ação de percorrer 2.800 km em uma canoa canadense, por um “paulista” sexagenário! E, dessa forma, não terá valido a pena, exceto para mim e para aqueles que me querem bem…


[1]    Mad Max – título de filme futurista da década de 1980, que procura retratar a Terra depois de uma tragédia ecológica sem precedentes, restando apenas sucatas, desertos e lutas pela sobrevivência.

Porque hoje é sábado, 7 de junho de 2009 – 07h30

Mais um belo dia de sol, bastante frio. Deveria ter trazido luvas… pela manhã, depois de lavar a panela e preparar meu café da manhã, minhas mãos e pés estão sempre congelados!

Curioso como todos os hábitos adquiridos durante a vida inteira precisam ser revistos, adaptados, substituídos ou até mesmo abandonados… já não servem de nada por aqui.

Todos os dias, depois de remar muito, preciso procurar um terreno, construir minha casa, fazer comida, lavar roupa e dormir… pela manhã essa casa deverá ser  desmontada e tudo volta a seu ciclo natural. Essa é minha nova rotina!

Neste ambiente, nossos sentidos precisam ser aguçados rapidamente, ampliados, aperfeiçoados, pois deles dependem nossa segurança e sobrevivência. A intuição selvagem precisa ser recuperada, pois nem mesmo os cinco sentidos são suficientes para resistir a esse mundo ancestral e admirável. É preciso perceber antes de ver, ouvir ou sentir.

Ouvir o cantar dos pássaros não é simplesmente um deleite ou prazer; muita informação relevante está embutida nesses sinais sonoros: “o dia está terminando”; “você está invadindo meu espaço”; “existe algum perigo à sua frente, cuidado!”…

A revoada dos pássaros, o silêncio da mata, o grito estridente de uma coruja podem significar um perigo iminente: ataque de um predador, inundação, “homem à vista”!

O sol nos mostra o leste todas as manhãs e, embora todos saibam disso, em nossa visão cristalizada e inerte, ele não precisa nascer nas cidades para sabermos onde fica o Leste, pois nossas paisagens urbanas se modificam lentamente…

Aqui, cada curva do rio altera nossas coordenadas e, depois de passar o dia inteiro seguindo o serpentear de suas águas, à direita ou à esquerda, retornando ao princípio, às vezes, perdemos facilmente nossas referências e, ao fim do dia já não mais sabemos onde estamos, onde fica o Norte, de onde viemos, quanto navegamos. É claro que, a qualquer momento, podemos olhar a bússola, mas sempre acordamos com os raios do sol a nos dizer onde fica o Leste. As distâncias percorridas no rio não têm nenhuma importância…

As águas do rio nos passam informações constantemente e precisamos reagir a essas mensagens, fugindo dos troncos e pedras submersas, desviando-nos dos redemoinhos, escolhendo os lugares melhores para acampar, protegendo-nos dos perigos. A coloração das águas indica sua profundidade, os sedimentos que o rio transporta consigo…

Agitação na sua superfície pode significar maior velocidade das águas. Depois de uma curva poderá haver um redemoinho, uma pequena praia, cascalhos acumulados no lado convexo, uma corredeira. O barqueiro precisa estar sempre atento a essas mensagens.

Aqui não existem novelas, noticiários, filmes, documentários, internet. O mundo congelou na data em que partimos, deixando-nos perplexos e inseguros. Já não sei se a bolsa caiu, o banco fechou, o político roubou, o dólar despencou, o petróleo foi derramado no mar, as queimadas destruíram milhares de metros quadrados de floresta…

Para dizer a verdade, tudo isso aqui nada vale, pouco importa. No mundo civilizado, este é o alimento da imprensa, a vida dos especuladores, a riqueza dos avarentos… a vida tem sua própria rotina para os seres vivos que aqui habitam. Alguns animais se movem, caçam e se alimentam à luz do dia. Outros fazem da noite seu campo de batalha para a sobrevivência, aproveitando-se da escuridão para caçar e acasalar. Porém todos, assim como eu estou aprendendo, ficam em alerta o tempo todo, até mesmo enquanto dormem; isso pode ser a diferença entre a vida ou a barriga de um predador.

Corredeiras difíceis, 7 de junho de 2009 – 18h00

Sul: 200 20´ – Oeste: 460 13´ – Altitude: 724 metros

Hoje foi mais um dia dificílimo!

Depois de superar a última portagem, acreditei que o rio se comportaria melhor comigo… e de fato foi assim, por muitos quilômetros. Apenas pequenas corredeiras e longos trechos de águas tranquilas Parecia que os maus momentos chegavam ao fim. No entanto, lá pelas 13 horas, eu vinha em um ritmo forte, quando encontrei alguns pescadores embaixo de uma ponte.

Conversando, eles me disseram que depois da ponte havia uma cachoeira que eu poderia transpor com certa facilidade, levando minha canoa pelo lado direito. E foi como me disseram.

Daí em diante as corredeiras voltaram com força total: rápidas, violentas e com pequenas quedas d’água de até um metro de altura. Não dava para fazer portagens, pois elas eram muito longas, às vezes quase um quilômetro de extensão.

Parei o barco, reforcei todas as amarras e comecei a descer todas elas, às vezes até mesmo sem parar para examiná-las e decidir qual seria o melhor percurso.

Depois de algumas corredeiras bem sucedidas, percebi que melhorara bastante minhas técnicas de abordagem, manobras e recuperação, pois, logo que termina a corredeira o barco costuma girar sem controle. Sentia-me seguro e autoconfiante Fazia as manobras com eficiência e o resultado era animador, pois evoluía rapidamente pelo rio.

No entanto, o pior ainda estava por acontecer! Cheguei a um local em que até dava para ver a declividade acentuada do leito do rio! Uma ladeira! Mesmo sem corredeiras o rio já era rápido demais e as manobras passaram a ser difíceis e muito frequentes; nem dava para descansar entre elas! Precisava ficar atento: adrenalina no último grau!

Em uma das corredeiras, muito longa, bati forte em uma pedra e o barco girou sobre si mesmo. Fiquei de costas para o sentido do movimento, sem condições de manobrar, e ainda faltava metade do percurso! Usava o remo como leme e também para afastar-me dos choques inevitáveis contra as pedras. Tentava me adaptar ao sentido inverso, enquanto desviava das pedras. Minhas manobras tinham que ser feitas ao contrário!

Ao chegar ao final, estava exausto e o barco cheio d’água!

Faltou-me a câmera de capacete para registrar essa descida, certamente a mais difícil que realizei nesta viagem! Foi uma pena… perdi o registro de todas as corredeiras!

Parei à margem direita, em manobra brusca, pois logo a seguir havia outra corredeira. Fiquei quase meia hora tirando água da canoa. Foi quando percebi que havia uma rachadura na parte interna do casco. Deveria haver outras, mas não entrava água.

Segui mais algumas horas até que fui jogado para fora do barco que, novamente, estava cheio de água. Tive muita dificuldade para trazê-lo de volta à margem devido à forte correnteza. Não conseguia arrastá-lo… perdi mais um squeeze[1] e uma esponja.

Diante desses problemas graves decidi retomar a postura de cautela, evitando riscos desnecessários, para não comprometer o destino da expedição. E assim me dei conta da situação: dependo apenas de mim e não tenho a quem pedir auxílio imediato. É terrível como não somos capazes de realizar um planejamento efetivo, pois as situações imprevistas se sucedem continuamente neste tipo de empreendimento.

Somente nossas habilidades e rapidez de tomada de decisões podem assegurar um bom desempenho, mas não nos garantem a vida. E então percebemos o quanto somos frágeis e mal equipados para a vida selvagem. Perdemos nossos instintos e a agressividade necessários à sobrevivência. Estamos em um ambiente hostil e impiedoso!

Percebi também que não adianta analisar muito as situações; é preciso agir por instinto, na maioria das vezes. E quando desligamos o pensamento, a intuição se manifesta!

Havia dois patos mergulhões que seguiam à minha frente desde Vargem Bonita. No começo, bastava minha canoa apontar nas curvas do rio e eles grasnavam e voavam para longe. À medida que se acostumaram com minha presença, foram se deixando ficar mais próximos, repetindo então o mesmo procedimento.

Na última aparição permaneceram nadando, enquanto minha canoa passava a seu lado. Então, como uma despedida, grasnaram e voaram de volta, no sentido inverso ao rio. O curioso é que quando coincidia de encontrá-los próximos a uma corredeira, eu tomava o mesmo caminho de descida feito por eles, o que se revelava sempre a melhor escolha.

A garça azul também se comportou da mesma maneira. Mais arredia e voando entre as copas das árvores, ela também me acompanhou durante todo tempo em que tive a companhia dos patinhos, e também desapareceu com eles.

Pena que não sejamos capazes de interagir com os animais, assim como eles fizeram comigo. Não foi casual; foi uma atitude deliberada e proposital. Fiquei imaginando o que pensavam de mim, e quanto queriam se comunicar comigo…

Minha situação hoje é precária. Durmo sobre umas pedras no barranco onde armei, de forma improvisada, a barraca. Primeiro porque não tinha escolha, como já relatei em outras ocasiões; depois porque não havia espaço suficiente no barranco.

Optei por não fazer comida. Estou me alimentando apenas das sementes, devido ao cansaço. Amanhã terei que abrir e enxugar todas as sacolas estanques, pois, mesmo sendo à prova d’água, elas nunca estão secas; não entra muita água, mas o suficiente para molhar roupas, comida e equipamentos. E dou o máximo possível de voltas na trava rápida para fechá-las.

Estou muito cansado e agora vou dormir. Daqui ainda ouço o rugir das águas na última corredeira, e o barulho ainda fraco da próxima, que irei enfrentar amanhã. Agora que tudo parou, sinto saudades das pessoas que mais amo neste mundo… Espero que um dia elas compreendam as razões que me levaram a realizar essa expedição. Refiro-me à Mory, Luciana, Mônica, Nícolas e minha mãe querida, Dinorah, que nem mesmo sabe onde estou, o que faço e por que…


[1]    “Squeeze” – pequena garrafa plástica ou térmica usada como cantil, para líquidos ingeridos durante atividades esportivas.

Nossas contradições, 7 de junho de 2009 – 21h15

Depois de um dia intenso, nem o cansaço, nem o comprimido para relaxar adiantaram… continuo sem sono… as cenas das águas correndo por baixo de mim e a vontade (quase) inabalável de realizar meu projeto integralmente.

Às vezes me incomoda muito o fato de ter sido ignorado pela imprensa e pelas autoridades… afinal, meu projeto é educativo, trata da preservação do meio ambiente e tem um forte chamamento de aventura. Todos os ingredientes de que a imprensa gosta!

Penso naqueles que escalam “big walls[1] e ficam dias sem fim pendurados nas cordas, ascendendo palmo-a-palmo as reentrâncias mínimas das rochas. Penso nos alpinistas que, às vezes, passam um mês inteiro em acampamentos gelados, esperando por uma “janela” do tempo para alcançar o cume de uma montanha gigante.

Mas penso também nas pessoas que, como eu, optaram por captar mensagens dos lugares mais remotos para compartilhá-las com aqueles que vivem seus dias nas cidades, no conforto da civilização, e nada sabem a respeito do mundo selvagem…

Não há paralelo entre eles. Muitos buscam a aventura apenas como esporte de desafios extremos e sua realização está apenas na superação de seus limites pessoais.

Eu, assim como tantos, quero deixar minha marca, meu rastro, não nos caminhos que percorri, mas no coração das pessoas, para que, um dia, não seja mais necessário lutar pelo óbvio: salvar o planeta da devastação e do descaso dos homens.

O dia e a noite são longos, longe da civilização. Percebemos o tempo, o passar das horas de maneira diferente, pois nada nos distrai da simples presença neste ambiente sutil. Só existe um mundo, onde estamos presentes; e tudo se passa linearmente…

O cair de uma folha sobre as águas do rio nos atrai a atenção no silêncio da noite. O som de um animal, seja um simples grilo ou um mamífero qualquer, não está isolado do meio, mas integrado a esse panorama complexo e desconhecido.

A tecnologia e a mídia nos distraem de tal modo que, mesmo não fazendo quase nada por dias e meses, a vida civilizada transcorre tão rápida quanto o nosso envelhecer. Tão rápida até que, mesmo estando velhos, ainda nos percebemos jovens, e recusamos a hipótese de mudar de hábitos e os adequarmos à realidade de nossos corpos cansados.

Talvez por isso, mesmo que a longevidade dos homens tenha se multiplicado por três em menos de três séculos, não sabemos o que fazer deste excedente que nos foi concedido.

Ao nos retirarmos da vida profissional ativa, ainda faltando um terço do tempo para morrer, já nos entregamos ao ócio e à preguiça, perdendo o encantamento pelas infinitas possibilidades do vir a ser… ficamos parados, olhando para o futuro que não existe…

E lá, no fundo de nossas almas, chegamos a pedir, discretamente, que essa vida se acabe, para que possamos, finalmente, descansar e esquecer…

Não precisa ser assim. Basta que encontremos novas bandeiras para levantar, novos propósitos pelos quais lutar, e voltaremos a ser felizes e a nos sentir úteis.


[1]    Big Wall – literalmente, “paredão”, são rochas de mais de 500 metros de altura que escaladores demoram dias para superar; exigem muita técnica, força muscular e autocontrole físico e emocional.

Danos à embarcação, 8 de junho de 2009 – 18h10

Sul: 200 21´ – Oeste: 460 09´ – Altitude: 704 metros

Acordei tarde. A correria de ontem me deixou exausto, mas mesmo assim dormi muito pouco. As pedras sobre as quais montei a barraca eram muito irregulares e, mesmo usando o “EVA”[1] para forrar o piso, havia buracos por todo lado.

Tentei fechar as rachaduras do casco com “silver tape[2], mas o barco estava muito úmido e não funcionou. Levei a canoa para cima das pedras, deixei-a emborcada, e constatei que as fissuras tinham atravessado o casco em vários locais. Precisava fechá-las. Sequei tudo e comecei o conserto pelo lado externo onde, por ser liso, havia maior aderência. Reforcei bem cada remendo e depois fiz o mesmo por dentro.

Não há mais jeito. Se eu me arriscar em outra corredeira poderei perder a canoa e arruinar toda expedição. Decidi fazer mais portagens e menos corredeiras. Parti com muita cautela… a manhã passara rápido, já eram 13 horas e o dia estava bastante nublado. Remei por cerca de 800 metros e já me deparei com a corredeira seguinte. Nem parecia tão forte mas, por cautela, resolvi fazer a portagem.

Na parte inicial, cerca de 300 metros, consegui rebocar a canoa com a carga. Porém, no último salto, não teve jeito: era uma queda de quase um metro de altura. Retirei toda carga e a transportei sobre as rochas, um tipo estranho de pedra, todo fragmentado, esfarelento e quebradiço, que mal dava para se ficar de pé e caminhar.

Foi uma operação cansativa, pois tive que subir de um lado da parede de rochas e descer do outro, caminhando ainda uns 50 metros sobre elas com todas as sacolas e o barco. Em compensação, do outro lado havia uma bela cascata de águas cristalinas, um pequeno tributário do Velho Chico, escondido atrás daquelas rochas.

Foi providencial, pois a água que eu trazia desde a última cachoeira estava se acabando, e já temia ter que beber água do São Francisco que, a esta altura, está poluído e com um cheiro desagradável, como se o esgoto tivesse sido jogado no rio; mas, de onde? Talvez de alguma cidade afastada das margens.

Aproveitei a tarde para tomar um banho gelado de cachoeira e lavar toda minha roupa, cujo cheiro também não era dos mais agradáveis, depois de tantos dias no rio.

Montei meu acampamento muito cedo e fui investigar a redondeza. Logo atrás da barraca encontrei pegadas de um felino. Podiam ser de uma onça, talvez… Mais adiante encontrei uma capivara morta, com marcas de dentes no pescoço, já em decomposição e estufada pela longa permanência dentro da água. À sua frente, uma grande abertura no barranco, parecida com uma caverna, talvez produzida pela erosão do terreno. Não poderia ser a toca do felino.

Havia outras tocas menores, covas ao longo do barranco, que poderiam ser do predador que matou a capivara, mas não encontrei vestígios comprovadores. Fiquei entusiasmado com a possibilidade de fotografar um felino naquelas paragens!

Mais uma vez tive que montar o acampamento em local pouco seguro, a poucos metros da água, por absoluta falta de alternativas. De ambos os lados do rio, morros altos e íngremes, cobertos de mata densa e sem nenhuma trilha visível, sem opções…

Se houver uma tempestade rio acima eu nem perceberei o desastre: serei levado pelas águas, jogado na próxima corredeira, com poucas possibilidades de sobrevivência.

Minha barraca está tão próxima da última queda d’água que o barulho é atordoante. Às vezes até parece o rugir das turbinas de um avião. É como se o som variasse de modo cíclico, gerando ondas harmônicas e criando essa sensação de outro som. À parte esse inconveniente, estou muito bem instalado e confortável, pois montei a barraca sobre a areia macia da praia, bem próximo também da cascata de cristal.

Esses contratempos e problemas vêm acumulando atrasos críticos em meu plano. Já não sei quantos dias de atraso, mas imagino que já deveria ter chegado a Iguatama. Creio que ainda me faltam uns 80 km para chegar lá e não sei mais quantas corredeiras… o problema é a grande declividade do terreno, que torna as corredeiras mais íngremes, mais rápidas e com muitas rochas espalhadas pelo leito do rio.

Quando saí de Vargem Bonita a altitude era de 790 metros. Agora, pelo meu GPS, estou a 690 metros, cerca de 100 metros de descida neste pequeno trecho do rio. Amanhã já saio daqui enfrentando uma nova portagem. Praticamente, não há separação entre as duas, exceto por este remanso.

Apesar disso tudo, não posso me deixar abater. Estou com bastante comida, me alimento bem, minhas roupas estão secas e limpas, e ainda tenho carga nas baterias, exceto dos celulares que, devido ao frio, já se acabaram sem terem sido utilizados.

Chegando a Iguatama recarrego todas as baterias e me informo sobre o próximo trecho, que me levará à represa de Três Marias. Serão mais uns 400 quilômetros…

Minhas cartas do IBGE, pelas quais paguei muito caro, estão todas perdidas! Com esses alagamentos constantes da embarcação, mesmo estando em sacos plásticos, se molharam completamente e estão coladas umas às outras; nem dá para abrir! Na verdade, pela rapidez necessária à tomada de decisões, não consegui mesmo usá-las nenhuma vez nesta viagem… foram inúteis até agora e talvez nem precise delas…

Hoje tomei uma decisão: depois dessa viagem vou encerrar minha carreira de aventuras. Comecei tarde demais, aos cinquenta anos, e agora preciso me dedicar às pessoas que eu amo e que precisam de mim. Decidi assim porque percebo que toda aventura implica em riscos, e aventuras extremas implicam em riscos extremos.

Cada vez que planejo uma nova experiência já não me contento com o patamar de riscos da aventura anterior. É como se o nível de adrenalina aumentasse constantemente. Na minha idade não posso seguir assim em um crescendo de ansiedades e riscos, que só me levariam a um final óbvio e indesejado. Meus reflexos, ainda ótimos, tendem a decair. Por isso, no futuro, só mesmo atividades de “turismo de aventura”… será??? Tenho dúvidas… cada vez que retorno de minhas aventuras, o tempo de arrependimento por não fazer outra é menor; ou seja, essa determinação tende a se esvair…


[1]  EVA – Etil Vinil Acetato é um tipo de borracha não tóxica e eu a utilizo como um tapete para apoiar-me de joelhos, alternando a posição das pernas durante o dia.

[2]    Silver Tape – fita adesiva de alto poder de aderência; literalmente, fita prateada devido a sua aparência. Utilizei esse material para tapar as rachaduras e pequenos furos na estrutura da canoa, tendo conseguido ótimo resultado.

Natureza selvagem, 8 de junho de 2009 – 19h15

Intensas emoções, monótonas belezas… Complexos universos, paisagens imutáveis… Contemplativo campo onde as batalhas nunca terminam; não há vencidos ou vencedores, não há heróis nem coadjuvantes…

Uma garça é qualquer garça… milhares de árvores se confundem em nossa percepção limitada da realidade… tudo igualmente verde; tudo igualmente difuso…

Aqueles patos mergulhões teriam sido sempre os mesmos durante toda viagem? Não importa… A água que flui incessantemente no mesmo lugar seria a mesma água todos os dias, todas as horas, o tempo todo? Aquela que chega à foz, de onde veio, afinal?

Em nossos mundos individuais tudo tem nome, endereço, origem… e nos diferenciamos pelo olhar, pela voz, pelo movimento, pelas palavras… até mesmo pelas nossas roupas!

Seríamos, deveras, diferentes? Mudamos constantemente durante a vida, e aquele que nasceu, no momento seguinte, já não mais existe… no entanto, na essência, permanecemos os mesmos…

Quando partir daqui, não serei eu mesmo e, no entanto, aqui não deixarei meus rastros. E nada levarei, senão as recordações, as imagens registradas na memória… ou nas máquinas digitais… talvez algum pensamento ou emoção escape de mim e corra para a selva, sem que eu possa perceber. E passe, então, a viver como os outros animais…

Sentirão eles as minhas emoções?

Talvez alguém, daqui a muitos anos, ao passar por aqui, encontre os meus pensamentos, mas eles também não serão os mesmos, pois se tornaram bichos, embrenharam-se nas matas, circularam pelas mentes de outros seres e também se transformaram…

Fará algum sentido, então, esse antigo pensamento? Talvez não… pode ser até que não haja, sequer os animais… as árvores terão caído ou sido derrubadas… talvez o rio esteja seco… casas, pessoas, concreto, asfalto, poluição talvez estejam aqui, em seu lugar…

E aquele pensamento, aqueles sentimentos anacrônicos se perderão para sempre, assim como minhas recordações e as lembranças que porventura tenham de mim… e eu terei sido levado pelo tempo, pelo vento… assim como meus pensamentos…

E minhas palavras se perderão no deserto que ficou por aqui.

Infinita e monótona beleza, é por isso que não resistirás! Não há utilidade na Beleza! Beleza não se produz… Beleza não se consome… ela apenas está aí, enquanto a querem. Não vale a pena lutar por preservar a Beleza…

Por isso, quando te vi, quando contemplei tua vastidão infinita, quedei-me a teus pés e só fiz chorar… haverá, um dia, um mundo sem luz, sem cor, sem pássaros e seu cantar, sem as águas cristalinas de uma cascata, jorrando, sem cessar, o seu frescor e pureza…

Nesse mundo eu não quero estar…

Reflexões e desânimo, 9 de junho de 2009 – 18h00

Sul: 200 21´ – Oeste: 460 09´ – Altitude: 704 metros

Hoje foi um daqueles dias que gostaria de apagar da memória. Logo pela manhã fiz uma portagem longa, transportando cargas e a canoa pela mata e sobre pedras, por mais de 500 metros. Em seguida, me arrisquei em uma corredeira e, na verdade, ela era dupla, encadeando a primeira, mais fácil, com um longo “tobogã”, inclinadíssimo, e cheio de rochas.

Fui manobrando o remo como dava, mas os impactos eram inevitáveis. A cada baque ouvia os estalidos do casco, como se rasgassem suas fibras.

Parei em um lugar estranho… parecia um jardim de rochas, com muitas plantas, e a água do rio se dispersando em inúmeras alternativas de caminho, muito rasas.

Escolhi a que parecia mais tranquila e, depois de uma curva, o rio acelerou e girou no sentido inverso. À minha frente, uma árvore tombada cobria todo canal. Não dava para desviar e muito menos para parar!

Deitei-me como pude para frente, me defendendo com o remo. Aquilo se passou em segundos e, por muita sorte, nem me arranhei. Perdi apenas o meu boné, daqueles com aba atrás, que me protegia do sol a nuca, e mais um squeeze.

Ao final da corredeira o meu barco estava alagado e tive que saltar na água para que não virasse. Parei em um pequeno remanso, forçando a canoa sobre uma pedra, pois a corredeira continuava logo adiante. Tirei a água e verifiquei rapidamente os estragos. Não percebi nada e resolvi finalizar a corredeira e procurar um lugar para o acampamento.

Novamente fui jogado para todos os lados na tentativa de evitar novos choques. Porém, essas manobras bruscas sempre fazem entrar muita água. No final, a canoa se encheu novamente. Tentei me manter dentro e manobrei em direção a um remanso.

Foi terrível! O lugar parecia um pântano, com água parada, cheio de insetos, um cheiro horrível e espuma amarelada por toda parte, sobre as águas. Para piorar, não consegui me manter dentro da canoa e caí naquele lugar imundo.

Tive que retirar a água com a caneca até poder voltar ao barco e manobrar para um lugar menos nojento. Os mosquitos me mordiam em todos os lugares onde encontravam pele.

Agora estou aqui, sobre pedras tão irregulares e estreitas que minha barraca mais parece um refúgio do ambiente externo, sem estabilidade e sem specs para segurá-la.

Certamente não conseguirei dormir, pois não há sequer meio metro plano dentro da barraca. Não tive ânimo para preparar uma refeição, devido ao cansaço e mau humor

Para espantar os insetos fiz uma pequena fogueira bem próxima à água, com gravetos e galhos que se espalhavam por todo lado. Os estragos provocados pelas chuvas devem ter sido grandes e havia galhos, troncos e lixo acumulado no barranco.

Pela primeira vez nesses onze dias de viagem eu me questionei sobre a validade de continuar a expedição. O que tenho feito não é canoagem: é rafting! E com o equipamento inadequado. Para esse tipo de corredeira (águas brancas) deveria usar um kayak[1]! Canoas não têm estrutura para suportar tanta violência!

E, para agravar ainda mais o meu estado emocional, abri cuidadosamente um dos mapas ensopados e verifiquei minha localização. Para minha surpresa e decepção, ainda estou no município de São Roque de Minas, mais próximo de Piunhi…

Ou seja, estou há nove dias na fronteira entre Vargem Bonita, São Roque de Minas e Piunhi… ainda faltam uns 5 km para alcançar o Samburá que, segundo dizem, dobra o volume de águas do São Francisco. E nem sei se isso é bom ou ruim, pois, se as corredeiras continuarem com o dobro do volume das águas, será impossível prosseguir!

Agora estou a 704 metros de altitude. Os mapas fornecidos pelo IBGE não fornecem as cotas de terreno, ou seja, não dá para saber a variação de altitude entre minha posição atual e os próximos quilômetros.

O rio Samburá também faz divisa com o município de Bambuí. Portanto, estou ainda muito longe de Iguatama e não há nenhuma cidade ribeirinha até lá. Isso quer dizer que posso ficar sem iluminação noturna, pois, conforme “vovô” Murphy[2], minha lanterna com células fotoelétricas se “apagou”, encheu-se de água! Deveria ser à prova d’água, mas…

Para completar essa situação lastimável, os sacos “estanques”, mesmo com seis ou sete dobras bem feitas, não impedem a entrada de água. Nenhum deles! E não há um só local que capte o sinal do celular. Não há estradas que cruzem o rio nessa região, e não há casas próximas ao rio, onde eu possa pedir ajuda. É claro que, se eu acionar o botão de ajuda do rastreador, criarei um sério problema para todos que me acompanham nessa aventura, pois não saberão como chegar.

Só se vierem de helicóptero!

Como tenho ficado mais tempo dentro d’água do que no barco, percebo uma ligeira elevação da temperatura corporal. Por enquanto não há sinais de doença; apenas febre. Amanhã enfrentarei novos problemas. Já à saída desse “refúgio” em que me encontro vejo a próxima corredeira. Parecem não ter fim!

Pouco antes de chegar aqui passei por um lugar lúgubre: havia bandeiras vermelhas penduradas nas árvores, sobre o rio e dentro da mata. Não sei se influenciado por todos esses problemas, senti que ouvia vozes vindas de lá… sons graves, quase um lamento. Preciso urgentemente de boas notícias! Ou que meu celular funcione, ou que cessem as corredeiras, ou que encontre algum lugar habitado onde possa me recuperar…

Esse povo daqui não sabe dar informações consistentes. Nos raros encontros com pescadores nessa região, eles não sabiam dizer a distância até um lugarejo mais próximo, ou quando terminam as corredeiras. Será que elas têm fim?

O que mais me incomoda em toda essa situação é que, agora, nem aquela beleza que havia antes continua a existir. Até lixo urbano começa a aparecer. São raros os pássaros que vejo, a mata é fragmentada e apenas de um lado do rio, enquanto que do outro lado os morros estão desmatados e sem plantações. Não consigo me ajeitar nessa barraca, com receio de que ela desabe sobre a água, que está a poucos centímetros de mim; e as pontas das pedras não me deixam dormir. Só espero não ter que apertar o botão de pânico (911) no rastreador; não estou em busca de um acidente, mas de uma aventura bem sucedida, que traga enriquecimento intelectual para mim e informação relevante para a sociedade.


[1]    Kayak ou caiaque – embarcação tubular com remo de duas pás, usada em corredeiras. Existem muitos modelos de kayak, para um ou dois remadores, para navegação oceânica, mas todas têm como característica comum o fato de serem fechadas como um míssil, com pouca capacidade de carga.

[2]    Referência às “Leis de Murphy” que, de modo geral, tratam da freqüência com que fatos contrariam as expectativas das probabilidades. “Se algo errado tiver uma possibilidade mínima de ocorrer, ocorrerá!”.

Último dia nas corredeiras, 10/06/2009 – 19h15

Sul: 200 20´ – Oeste: 460 08´ – Altitude: 698 metros

Ainda não foi hoje que alcancei o Samburá… parece que todo meu destino está vinculado ao encontro desse rio. De certa forma, está mesmo, pois minha expectativa é de que a junção dos dois rios coincida com a mudança da topografia, trazendo terras mais planas e menos corredeiras a serem transpostas. Preciso acreditar nisso!

Minha motivação caiu a zero. Como não posso mais me arriscar descendo as corredeiras, puxar a canoa ou fazer portagens passou a ser meu único meio de locomoção. Em uma das portagens caí de uma pedra de quase dois metros de altura, me estatelando na água. Só que não havia apenas água, mas pedras pontiagudas, que me feriram as mãos e os braços.

No começo da viagem cortei um dedo com o canivete e o corte permanece aberto até hoje. Isso porque os curativos duram muito pouco em contato com a água e logo se desmancham. Sempre que esbarro o dedo em alguma coisa, ele volta a sangrar. Receio uma infecção pela falta de atendimento. Já nem sei mais o que é ferimento e o que são picadas de insetos!

Hoje perdi definitivamente todos os meus mapas, que caíram na água por um descuido meu ao tentar passar a canoa entre duas pedras, onde passava a corredeira em um de seus lances mais agitados. Nem tentei recuperá-los, pois logo se espalharam pela água e foram levados pela correnteza. Já não tinham mais serventia mesmo…

Diante de tantos desacertos e sem perspectivas de chegar logo a Iguatama, se hoje houvesse uma opção de retornar à civilização, certamente eu abortaria a expedição.

De repente está ficando surreal demais essa viagem! Estou aqui, fazendo os maiores esforços para progredir 2 ou 3 km por dia e ninguém, exceto os meus poucos amigos, sabe de meu projeto e de minhas intenções. Se, apesar de ter enviado dezenas de e-mails a autoridades, imprensa e público especializado ninguém se interessou pelas minhas ideias, não seria aqui, no meio do nada, que notariam minha ausência!

Este local onde acampei hoje é bonito. Muita vegetação em ambas as margens, pássaros… a garça cinzenta reapareceu, assim como o casal de gaviões. O rio tem muitos peixes, que saltam a todo instante, fazendo um barulho, como palmas.

Como havia pouco espaço, montei minha barraca em uma pedra estreita e comprida, onde também atraquei minha canoa. De ambos os lados da pedra sobrou parte da barraca, que parece se equilibrar no ar. Para não cair na água enquanto durmo, coloquei as pás dos remos sob ela e os cabos apoiados no barranco. Parece uma favela…

Parei cedo; eram três da tarde. Mas logo à frente há uma nova corredeira e meus músculos e minha mente já pediam um repouso. Penso constantemente em minha família. Questiono se tenho direito a essas aventuras enquanto cada um luta pela sua vida à própria maneira. Porém, preciso disso como do ar que respiro!

Talvez eu não faça diferença nas suas atividades cotidianas, pois cada uma estruturou sua vida conforme sua própria capacidade de sobreviver. Mas elas me fazem muita falta. Em anos passados, acostumado à solidão, eu não questionaria essas ausências… nem elas! Porém hoje, nem sei porque, eu me sinto muito só, abandonado, infeliz.

Lá fora, grilos cricrilam, peixes saltam e uns poucos pássaros gorjeiam nas árvores. Ao fundo, o som das águas na curva do rio e a corredeira que terei de enfrentar ao amanhecer. Paisagem bucólica, propícia à meditação e às reflexões existenciais…

Tenho me alimentado bem: duas canecas de leite pela manhã, uma com granola e mel, outra com “ovomaltoddy” e mel; durante o dia, apenas refresco artificial e, de vez em quando, sementes e castanhas; à noite, porção dupla de macarrão ou arroz, enriquecidos com tomate seco, pimenta, azeite e gengibre; às vezes, umas poucas fatias de salame.

É curioso que, estando só e em contato com a Natureza, cheguei a imaginar que meus pensamentos me permitissem “viajar” pela Filosofia, pelo Misticismo, e me trouxessem novas ideias No entanto, talvez devido à constante busca pela sobrevivência, estou vazio…

Tenho muito pouco sono e, quando adormeço, meu sono é leve e interrompido. Todos os dias são iguais, as rotinas são as mesmas, não há rituais nem simbolismos, não há notícias, dialética ou confabulações. Por isso, suponho, meu cérebro está parando!

Se ainda fosse adepto do Zen Budismo, esse seria o momento de buscar a Iluminação. A meditação Zen pretende que a mente se esvazie de qualquer ideia para que a verdadeira percepção do Uno e do Todo se manifestem e clareiem o nosso entendimento.

Porém, rotulei-me Agnóstico, por preguiça ou por ausência de melhor definição. Procurei demais, por muitos anos, o entendimento das razões metafísicas e espirituais que justificassem nossa presença neste mundo; porém, só encontrei contradições.

Não sei o que fazer de meus próximos 20 ou 30 anos, se viver tanto. Talvez me torne um velho ranzinza, que lê jornal e revistas no banheiro e dorme diante da televisão. Quem não tem crenças ou convicções religiosas não consegue preencher as longas horas dos dias, dos anos que precedem à morte. Preciso voltar a ler… estudar… meditar.

As beatas passam as contas do seu rosário pelas pontas dos dedos enquanto balbuciam, inconscientemente, suas rezas sem sentido, que aprenderam com as mães, também beatas, e que nem sabiam por que faziam isso, até chegar a sua hora. Provavelmente, a igreja teria inventado esse artifício para impedir que elas pensassem… Na falta da fé, que move montanhas, eu prefiro ir às montanhas em busca de minha fé. E “brinco” de intrépido aventureiro para dissimular a chegada da minha própria velhice.

Quando me aposentei por desilusão profissional, sonhei em ter uma casinha à beira do rio, lá em Iporanga, onde fica o PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira). Quase cheguei a fechar negócio. Mas, como todo mundo, tenho pavor à solidão…

Não essa solidão escolhida que passo agora… essa é fácil! Mas aquela solidão dos esquecidos, dos abandonados, de quem não tem a quem recorrer na hora final… É mais difícil morrer do que viver. Talvez por ser o único ato definitivo, irrevogável, para o qual não há arrependimento nem remorso.

As beatas se preparam para a morte rezando, com medo do inferno… mas nós, agnósticos, que não cremos no devir, o que tememos? Creio que seja o esquecimento. Quando a última pá de terra cair sobre nosso caixão, o que terá restado dessa vida?

Se formos famosos, talvez o nome de um beco, uma rua, uma praça, um parque… talvez um viaduto, um teatro, um mausoléu ou cemitério… Se formos apenas mais um figurante neste teatro da vida, nada ficará que revele nossa passagem por aqui.

Ainda que tenhamos escrito um livro, pintado um quadro, composto uma música ou despertado da pedra um ser imaginário, ainda assim, se nossa obra não for reconhecida, ou mesmo sendo, talvez só nos reste um mísero espaço nas estantes de um museu!

É muito mais fácil ser igual àquela beata do que ser ateu ou agnóstico! Elas – as beatas – não questionam as razões do existir e não temem a solidão póstuma, pois certamente haverá uma horda de seres no lugar que lhes for reservado no seu céu ou purgatório, que o inferno foi reservado somente para nós! Para senadores, deputados e vereadores deve haver outro!

Passamos a vida dialogando com nossos botões, ou com outros seres, descrentes como nós, questionando sempre as mesmas e irrespondíveis indagações: “de onde vim?”, “para onde irei?” e “por que estou aqui?”… Certamente não haverá respostas, seja para os tolos, seja para os intelectuais, filósofos, cientistas…

Se existe um teorema que nunca, ninguém solucionará, é esta simples trilogia… no entanto, cá com meus botões, nada me agrada mais pensar, discutir ou contestar…

Seria por isso que estou aqui?

No entanto, nem São Francisco, o Velho Chico amante dos animais, está disposto a discutir comigo… e passo noites e dias, a procurar, como o filósofo com a lanterna na mão, as razões do existir. Esse tem sido o meu passatempo nesta vida…

DE CANOA E SAMBURÁ

Bambuí, bar do Beto, 11 de junho de 2009 – 18h30

Sul: 200 21´ – Oeste: 460 02´ – Altitude: 716 metros

Como são frágeis nossas convicções! Ontem, minha decisão “definitiva” era abortar a expedição… hoje, minha posição reavaliada é de que vale a pena prosseguir. O que separa opiniões tão antagônicas? Apenas o fato de que as adversidades que minavam minhas forças foram superadas.

Mas eu sabia que elas seriam superadas e, mesmo assim, perdera a motivação, e meu sentimento era de que havia chegado ao limite de minha resistência.

Imagino um juiz, em sua posição de César, a apontar o polegar para cima, inocentando o acusado, ou movendo-o para baixo e condenando-o à morte! não pode ser tão frágil nosso juízo de valores! Não podemos estar, a todo tempo, à mercê de uma decisão arbitrária, que se altera ao sabor dos sentimentos.

Enfim, prosseguirei.

Hoje superei a fase das corredeiras. Saí do Francisquinho, encontrei o Samburá e naveguei, finalmente no rio São Francisco! Cheguei ao município de Bambuí.

Amanhã e depois sigo em busca de Iguatama. Curioso como nomes nada representam. Nunca soube de Iguatama, do Samburá, do Francisquinho… hoje fazem parte de meu entendimento. Vi o São Francisco nascer e crescer, atirar-se da montanha, correr ladeira abaixo sobre pedras, voluptuosamente… vi-o encontrar-se com o Samburá e turvar-se com o volume dessas águas… conheci as transformações geológicas dessas rochas e a chegada do carste de Bambuí. Agora estou aqui, remando em águas calmas…

Mais do que isso, falei com minha mulher, a Mory, e minha filha Luciana! Não consegui falar com a Mônica, minha outra filha querida. Dei notícias minhas, soube de meu netinho e recuperei a autoestima Senti que era possível prosseguir.

Mais dois dias e chego a Iguatama. Mais dez dias e chego à represa de Três Marias. Estou, novamente, no caminho! Vejo, mais uma vez, meus objetivos à minha frente!

Hoje, contrariando meus propósitos, cheguei ao restaurante do Beto, conheci um grupo de pescadores amadores (dois médicos, dois dentistas, dois padres e um violeiro), comi uma refeição que não preparei, tomei cerveja e banho quente e estou deitado em uma cama!

Nada pode ser inflexível… é preciso tolerância conosco e com outras pessoas; expor-nos à curiosidade para que seja possível entender as diferenças. Como manifestar nossa ideologia se não somos capazes de compreender as diferenças? Até que ponto essas diferenças seriam irreconciliáveis, antagônicas?

Na verdade, toda divergência é irreconciliável enquanto se baseia em convicções cristalizadas pelas vivências individuais, enquanto fazemos dela nossa bandeira e identidade. Mas a mesma divergência se torna o caminho para a conciliação quando entramos na disputa ideológica com o propósito de nos transformar e aprender…

Nunca estamos dispostos a ceder quando se trata de admitir que vivemos contradições e nos equivocamos no entendimento. Mas se aceitarmos que mudar é evoluir, e que todos estamos sempre enganados até que se acrescente um novo entendimento, então essa divergência passa a ser o mote da transformação, e nos enriquecemos com ela.

Estou em um quarto simples, com luz elétrica, piso, porta, telhado, cama e colchão. Considerando os lugares em que acampei nos últimos 10 dias, isto é um luxo! Se fosse escolher uma pousada para férias com a família, seria inaceitável!

Para um mendigo, um paraíso; para um milionário, assemelhar-se-ia a uma estrebaria! Essa é a relatividade das coisas e dos valores que conservamos com tanto orgulho!

À minha volta, várias pessoas acampadas, ouvindo música, jogando poker[1], tomando cerveja, cantando… De certa maneira, quebrou-se o encanto da selva e reingressei na civilização. Rompi o tênue limite entre a vida humana e a vida animal.

Sinto como se traísse os meus ideais, meus propósitos… e, no entanto, nada mudou. Em meu projeto está a intenção explícita de me relacionar com o universo que gravita em função do rio São Francisco, e este é um pedaço desse universo.

Parece-me distante aquele ambiente selvagem que, ao despertar, fazia parte de meu cotidiano… o cheiro do mato, o canto dos pássaros, o risco sempre presente ao meu redor, as possibilidades incontroladas e imprevisíveis…

O encantamento desse mundo de insegurança não resiste ao contato com a civilização. Tão próximos, tão distantes… tão diferentes e, no entanto, deles somos herdeiros.

Quando passei sob a ponte do bar do Beto poderia ter seguido adiante. Ninguém saberia meu nome ou conheceria meus propósitos; no entanto, parei meu barco, subi pelo barranco, me envolvi com pessoas, aceitei sua hospitalidade, confiei-lhes meus sonhos, relatei a eles as minhas experiências.

Por que fiz isso? Porque não sou só um animal, não vivo na selva onde fui um intruso durante todos esses 10 dias, e porque desejava, intimamente, reencontrar o meu mundo!

Certa vez assisti a um documentário de um pesquisador que se inseriu em uma matilha de lobos para analisar e entender seu comportamento. Envolveu-se de tal forma com eles que os animais aceitaram-no como um igual e até o escolheram como o líder, o “alfa” do grupo por certo tempo. Porém, ele não cortou seus vínculos com o mundo humano; precisava dele para construir suas teorias e divulgar suas ideias Quando teve que se ausentar da matilha por um tempo, perdeu sua condição de líder e a confiança do grupo de lobos, ao voltar. Tornou-se apenas um “lobo” comum, no nível mais baixo de sua hierarquia. Assim é o reino animal.

Preciso compreender isso antes de continuar: não sou um ribeirinho, não sou um animal, não pertenço a esse mundo que pretendo conhecer e relatar… ou até mesmo transformar.

Sem esse entendimento, não estarei capacitado a compreender o que busco, nem relatar esse universo real e distante de meu próprio mundo às pessoas que me acompanham. Só assim poderei prosseguir: como um simples observador de um mundo estranho, para o qual tenho conceitos meus, e que verei sob meus olhos aculturados em outro universo. Nele não poderei interferir senão como elemento externo e sem me envolver completamente.


[1]    Poker ou Pocker – o mais famoso dentre os jogos de cartas, onde o “blefe” e o controle emocional são determinantes. Joga-se a dinheiro e grandes fortunas já foram perdidas nas mesas de carteado.

Novas paisagens, 12 de junho de 2009 – 06h30

Ontem, na confluência do São Francisco com o Samburá, se encerrou a primeira fase desta viagem e também da geografia do Velho Chico. Da nascente até a cachoeira da Casca D’anta poderíamos dizer que o São Francisco nascia e se formava como um rio de planalto, a cerca de 1200 metros de altitude e em vegetação típica de cerrado.

Do pé da Casca D’anta até o encontro com o Samburá, o “Francisquinho” permanece com um volume de água pequeno e estável, apesar dos muitos riachos que o alimentam.

Serpenteando pelos vales das encostas dos morros, é um rio acidentado, agitado e repleto de corredeiras e belíssimas cascatas, cercado de densa vegetação de mata nativa, e uma rica fauna, composta por capivaras, onças pintadas, suçuaranas, tucanos, garças, gaviões e uma infinidade de espécies de pássaros, além da grande quantidade e variedade de peixes que habitam suas águas límpidas, e de outros animais que nem pude perceber.

Daqui em diante o volume das águas duplicou, e corre lentamente até a represa de Três Marias. Sua água barrenta já não mostra os cascalhos ao fundo, nem os peixes saltando.

Ontem e parte da noite choveu fraco. Hoje tomarei meu café da manhã aqui no Beto, onde pernoitei, para prosseguir minha jornada pelo grande e Velho Chico.

Em busca de Iguatama, 12 de junho de 2009 – 19h00

Sul: 200 13´ – Oeste: 450 53´ – Altitude: 653 metros

Remei forte hoje, por sete horas seguidas, mas não consegui chegar a Iguatama. Nas curvas do rio formam-se redemoinhos que quase param a embarcação, quando não me obrigam a segurar o movimento com o remo para não rodopiar também.

Isso reduz muito a velocidade média, que já é baixa, pois essa região, ao contrário da anterior, tem muito pouca declividade. Da confluência do rio com a ponte onde passa a rodovia Piunhi – Bambuí, onde iniciei a remada hoje, até a divisa do município de Bambuí com Doresópolis, a Natureza é belíssima e encontra-se razoavelmente preservada.

É uma região cárstica, ou seja, possui estruturas geológicas propícias à existência de cavernas, que de fato existem. Durante horas remei admirando as fantásticas rochas que acompanham o rio. Algumas delas chegam a apresentar espeleotemas em sua parte externa, que comumente só acontecem no interior das cavernas. Nunca vira isso antes.

Espeleotemas são formações ornamentais das cavernas, sendo chamadas “estalactites” aquelas que descem do teto, e “estalagmites” as que surgem e “crescem” do solo, em decorrência do gotejamento e acumulação de calcário. É uma região belíssima e muito rica em cavernas.

Infelizmente, quando entramos no município de Doresópolis, além de se acabarem essas formações rochosas magníficas, também o homem deu um jeito de piorar bastante as coisas, desmatando as margens do rio e provocando o desabamento dos barrancos.

Primeiramente, as plantações substituíram as matas ciliares derrubadas. Desapareceu o canto dos pássaros, e os morros estão desnudados desde o topo até a margem do rio.

Devido a isso e à intensidade das chuvas este ano, as voçorocas[1] deixaram o solo exposto em quase toda extensão do rio no município. A grande quantidade de árvores caídas, centenas, com as raízes à mostra, algumas no meio do rio, é um cenário desolador…

Lamentavelmente, a devastação é grande demais para ser recuperada. Ainda assim, nas pouquíssimas manchas verdes que restaram, os pássaros reaparecem: gaviões, garças, periquitos, uma espécie de pato negro e muito esguio (biguá), diversidade incrível!

Hoje parei de remar às 15 horas para poder limpar minha canoa e as sacolas, que estavam cheias de lama; a canoa, com muita água no fundo, devido à chuva da noite passada e da parada no bar do Beto, cujo barranco estava muito enlameado.

Tomei uma sopa de fubá e me recolhi mais cedo. Agora venta bastante e deve chover novamente esta noite. Por isso, retirei o barco do rio e o deixei emborcado para mantê-lo limpo. Não quero chegar à primeira cidade da expedição com aparência de desmazelo.

Nessa região já existem mais pessoas morando próximas ao rio. Às vezes ouço vozes; outras, o barulho de máquinas agrícolas, cães latindo, ruído de veículos em alguma rodovia próxima… É curioso perceber o mundo apenas pelos sons! Com isso perco um pouco da privacidade e espontaneidade; afinal, acampar à beira de um rio implica em certa exposição para satisfazer às nossas necessidades de higiene.

Em Iguatama pretendo refazer minhas sacolas e, se possível, reduzir um pouco a carga, desfazendo-me do que foi inútil até agora. Também preciso recarregar todas as baterias, pois terei um longo trajeto, quase desabitado, até Três Marias… uns 400 quilômetros.

Por se tratar de uma represa, meu rendimento deverá cair bastante: as águas são bem mais lentas… hoje faço, em média, 10 km/h e na represa devo fazer menos de 7 km/h.

Terei também outra preocupação: não me perder nas inúmeras ramificações causadas pelo alagamento dos vales, quando da construção da hidrelétrica e sua represa.

Ontem, pela primeira vez, falei com Mory, Luciana e o Nícolas. Não pude falar com a Mônica, nem com minha mãe. No entanto, a vontade de estar com eles é tão grande como se não tivesse havido esse contato. Amanhã completo 15 dias no rio.

Às vezes passamos anos convivendo com amigos, filhos, esposa, parentes e, no entanto, não dizemos mais do que trivialidades uns aos outros. Não percebemos o privilégio de estarmos junto com aqueles a quem queremos bem! A simples proximidade física satisfaz as necessidades afetivas. Porém, estando afastados e solitários, desejamos intensamente esse convívio trivial, às vezes traduzido apenas em olhares, carinhos fortuitos, gentilezas, gestos, atitudes que passam despercebidas e que, no entanto, nos satisfazem! “Estamos aqui!… vejam!” Poucas palavras para tamanho sentimento!

Se tivéssemos esses períodos de reclusão voluntária, de reflexão perante a vida, nossa percepção de quão efêmera é a existência, talvez nos tornasse mais generosos ao manifestar esses sentimentos; quando dissemos “te amo!” pela última vez?

Esquecemos de dizer o quanto queremos bem a esses seres de nossas vidas. Deixamos de fazer um carinho, relembrar uma data especial e única apenas para nós… É tão fácil, tão simples e, no entanto, construímos muralhas em torno de nós… Ocultamos esses sentimentos e, a cada dia, fica mais difícil dizer simplesmente: “que bom estar aqui com você!”.

Em certa época de minha vida me interessei pelos conhecimentos esotéricos e acabei chegando ao Zen Budismo. Pertenci, por pouco tempo, a uma comunidade Zen.

Em um desses encontros fiquei uma semana, em retiro espiritual, em Campos do Jordão. Nossa rotina diária era meditação, trabalhos manuais, leituras e reflexões. Não existe religião mais solitária do que o Zen Budismo. O objetivo da meditação Zen é esvaziar a mente de todos os pensamentos para que se manifeste a Iluminação (“Satori”).

Os monges dedicam suas vidas a esse mister: a busca da compreensão absoluta! É como se, de repente, tudo se tornasse claro em nossas mentes… “Oh, my love, for the first time in my life, my eyes are wide open… Oh, my love, for the first time in my life, my eyes can see… !” Quem não se lembra dessa canção de John Lennon?

Não estou em busca do meu “Nirvana”, mas o isolamento nos torna introspectivos, vulneráveis a reflexões mais profundas, ao entendimento das razões primárias do existir, de termos vínculos nessa vida e buscarmos a felicidade.

Já para Budha, a felicidade não pode existir neste mundo, e só estamos aqui para nos livrarmos do ciclo de renascimento provocado pelo karma que trazemos de outras existências.

Esse seria, portanto, o objetivo último da Iluminação: atingir o estado de paz (o Nirvana, o mundo perfeito), e não precisar voltar, pela reencarnação. São infinitos os caminhos da Sabedoria, mas apenas um pode ser trilhado por cada um de nós!


[1]    As voçorocas são fendas no terreno, geralmente causadas pela retirada de sua cobertura vegetal. As plantas e suas raízes protegem o solo da erosão causada pela água das chuvas.

Doresópolis, Temas para análise, 13/06/2009 – 03h00

Esta é uma região muito prejudicada pela degradação ambiental. Chama a atenção a diferença de qualidade da sua vida selvagem. Os barrancos estão completamente derrubados, restando muito pouco das matas ciliares originais.

Penso em quais providências deveriam ser tomadas para a revitalização do São Francisco. Embora não seja especialista no assunto, tenho minhas próprias concepções. Não é difícil imaginar alternativas quando compreendemos o problema.

A primeira questão que me preocupa é fazer um inventário atualizado dos recursos hídricos e dos remanescentes de matas ciliares do Alto São Francisco e do uso atual do solo, verificando possibilidades de contaminação por dejetos de indústrias poluentes e agrotóxicos das propriedades rurais.

Tendo uma visão correta das reservas, o próximo passo seria proteger essas áreas remanescentes através da extensão dos limites do “Parna[1] Canastra” até as nascentes do rio Samburá. Poderia ser denominado “Parna Nascentes do São Francisco”.

Com base nos levantamentos aerofotogramétricos, seria desenvolvido um sistema georreferenciado para monitorar, através de sensoriamento remoto via satélite, a preservação das áreas protegidas. Esse modelo poderia ser replicado para todos os parques nacionais.

Minha visão sobre parques nacionais inclui o entendimento das bacias hidrográficas como áreas de preservação integrais, e não segmentadas, como é feito hoje. Assim, proponho a criação de uma Área de Preservação Ambiental (APA) que contemple toda bacia do São Francisco, seus afluentes, matas e fauna.

É importante compreender que o que sustenta os ecossistemas são seus recursos hídricos e não o contrário. As matas só surgiram e existem devido às águas.

Para assegurar a recuperação das áreas degradadas deveriam ser criados incentivos fiscais de compensação tributária para  empresários (agricultor, pecuarista, industrial) que investissem  recursos na preservação e manutenção da APA, RPPN[2] e RVS[3].

Também é importante que as populações tenham consciência de sua responsabilidade pela preservação do meio ambiente. Para isso, deveriam ser desenvolvidos programas de educação ambiental em todos os segmentos da sociedade e nas escolas de todos os graus.

Aos infratores, a Justiça deve estar preparada com instrumentos adequados à imposição de rigorosas sanções, desde multas expressivas e convincentes, até penalidades mais rigorosas, o que se faria através da revisão do Código Penal nos artigos que tratam de crimes ambientais, tornando mais rígidas e severas as penas impostas aos que causem, intencionalmente, danos ao meio ambiente nas áreas protegidas.

Em contraposição, àqueles que contribuem para a conservação da Natureza, pessoas físicas ou empresas, deveriam ser instituídos prêmios de incentivo e benefícios fiscais.

Também deveriam se tornar criminalmente imputáveis as ações políticas que favoreçam o descumprimento e o desrespeito às leis ambientais nas áreas de preservação. Sabemos que o tráfico de influência funciona de forma deletéria, principalmente em organismos responsáveis pela fiscalização e pela liberação de atividades nas áreas de  preservação.

Por fim, é necessário estimular a criação de RPPN – Reservas Privadas de Preservação Natural, através de compensações fiscais e outros mecanismos legais, de modo a comprometer empresas e grandes propriedades rurais com os esforços de recuperação e preservação da bacia do São Francisco.


[1]  PARNA – abreviatura de Parque Nacional – área de preservação permanente com acesso público.

[2]  RPPN – Reserva Privada de Preservação Natural

[3]  RVS – Refúgio da Vida Selvagem

Depoimento de Manoel Bibiano

Iguatama, MG – 14/06/2009 – 14h42

“Manoel Bibiano, fui prefeito de Iguatama por três mandatos e estou muito satisfeito de receber o João em nossa cidade, uma vez que essa proposta dele conhecer o rio São Francisco ‘por dentro’ é um diferencial em relação ao que os brasileiros pensam do próprio rio.

O rio São Francisco passa dentro de minha cidade e nós sacrificamos muito esse rio ao longo de nossa história, que é pequena em tempo, mas muito intensa em poluição; e nós temos trabalhado para combater essa poluição. Um dos trabalhos que fizemos foi a criação da Faculdade de Ecologia e Meio Ambiente. E essa proposta foi para ‘repensar’ o São Francisco desde a sua nascente.

Se nós preservarmos o rio aqui, com respeito às pessoas que moram no seu entorno e com relação à Natureza, lá na frente todos poderão ter a certeza de que a água do rio sempre  chegará até eles. Se não cuidarmos do São Francisco aqui e agora, se não respeitarmos o rio, ele vai secar. E nós, que conhecemos o nordeste de Minas, a Bahia, sabemos a diferença que fará a essas pessoas a perda desse rio.

Então, em respeito a você, João, pelo seu trabalho, nós vamos continuar aqui, lutando para que esse rio seja preservado. Mais que isso, quando você estiver lá na frente, pensando em desanimar, saiba que aqui, às margens do São Francisco, tem gente torcendo pelo seu sucesso, acreditando que o seu trabalho é importante para o Brasil, para a Natureza e para a Humanidade!”

Iguatama, Acampamento na lama, 15/06/2009 – 18h30

Sul: 200 10´ – Oeste: 450 43´ – Altitude: 638 metros

Tentei remar mais tempo hoje e acabei sendo obrigado a acampar em meio a uma árvore derrubada pela enchente e sobre um lamaçal ressecado e rachado, prestes a desabar. Isto porque em todos os locais que tentei desembarcar a lama chegou aos meus joelhos. Senti-me na situação de uma pobre vaca atolada na lama, que encontrei pouco antes de chegar a este local. Tentei tirá-la, mas não consegui. Pedi ajuda a dois pescadores que estavam na margem oposta, mas eles se recusaram a ajudar. Tive que abandoná-la.

Certamente, a pobrezinha iria morrer afogada ou de frio durante a noite. Na propriedade, aparentemente, não havia ninguém, pois não responderam aos meus chamados… era um animal de raça, creio que holandesa, e rastreada, pois possuía as etiquetas nas orelhas.

Bem, falemos de nossa estada em Iguatama.

Fui muito bem recebido nessa simpática cidade, graças ao apoio de um jornalista de Belo Horizonte, Closé Limongi, que foi pessoalmente à cidade me entrevistar e me acompanhar em uma visita oficial, pois ele conseguiu o apoio e a atenção das autoridades locais.

O jornalista é diretor de uma revista que se propõe a apresentar os roteiros turísticos do estado de Minas Gerais. No próximo número, de junho de 2009, sairá uma reportagem de capa sobre minha expedição e a visita a Iguatama, onde conheci duas realizações importantes: o Centro Oftalmológico, que atende a mais de 100 pacientes por dia, sendo 30 de cirurgia de catarata, e a Faculdade de Ecologia e Estudos do Meio Ambiente, mantida pela Fundação Educacional Vale do São Francisco, autarquia criada pela prefeitura de Iguatama e que se propõe a formar especialistas no meio ambiente que contribuam para conhecer, catalogar e estudar a flora e a fauna da região, colaborando com sua preservação.

Muita coisa aconteceu neste final de semana. Ao chegar à cidade constatei, surpreso, que não existe uma área de portagem. O acesso por barco significa ter que deixá-lo à beira do barranco e escalar um trecho escarpado de 12 metros de altura, cuja base é de lama, sem nenhum melhoramento que facilite a vida dos barqueiros para chegar à entrada da cidade.

Depois compreendi a razão disso: quando chega a época das chuvas, o rio São Francisco chega a subir mais de 10 metros, atingindo a ponte e invadindo as plantações. Essa ponte interliga Formiga a Bambuí e é o único acesso por rodovia à cidade de 7.000 habitantes.

Os pilares da ponte estão cercados de lama e cobertos de destroços e entulhos de árvores arrastadas pela enchente. Apenas um terço da largura do rio é navegável. Deixei o barco amarrado sob esta ponte com a maioria das sacolas. Levei apenas o essencial. Disseram-me que não me preocupasse, pois ninguém tocaria no barco e em meus pertences.

Consegui me hospedar em um pequeno hotel a 500 metros da ponte. Assim que me instalei, o Closé me ligou confirmando sua chegada para a manhã de domingo. À noite, um diretor da faculdade e sua esposa foram me visitar e dar as boas-vindas em nome da administração municipal. Fiquei sensibilizado com essa atenção.

Eu me deitei cedo, cansado e frustrado por não poder arrumar minhas coisas como pretendia. Seria impossível levar todas as sacolas até o hotel, tendo de escalar o barranco. Apenas coloquei as baterias para carregar e tomei um banho quente.

Logo pela manhã chegou Closé e saímos para fotografar uma enorme escultura de madeira de uma carranca, à entrada da cidade, do outro lado da ponte, na rodovia. Ao retornar ao hotel, uma comitiva de professores e diretores da faculdade nos esperava para a visita.

A Clínica Oftalmológica foi construída em mutirão pela própria população de Iguatama e atende a cidades de toda região. Os pacientes de Iguatama são atendidos de graça, mas os que chegam de outros municípios pagam um valor básico pela cirurgia de catarata. E a cidade ganha com o turismo de saúde.

A Faculdade ainda está em construção, embora já ministre cursos de Biologia e Ecologia. Existem várias estufas de criação de mudas, uma clínica veterinária para tratar de animais silvestres acidentados, um pequeno museu com espécies empalhadas da região – geralmente animais mortos em atropelamentos – e um acervo de mais de 5.000 sementes de plantas típicas da região (sementário), que está sendo catalogado pelos professores.

Hoje a faculdade possui cerca de 150 alunos matriculados e, assim como a clínica, não recebe ajuda ou verba oficial para sua manutenção e funcionamento. Quem nos apresentou a faculdade foi sua diretora.

Próximo a Iguatama existe uma lagoa de procriação de nome Inhuma[1], parcialmente alimentada pelas grandes cheias do rio, e com fantástica diversidade biológica, que é objeto de estudos e monitoramento pelos professores e alunos da faculdade.

Essas visitas e o entusiasmo demonstrado pelos alunos, professores e diretores da faculdade por seus projetos evidenciam que mesmo pequenos municípios com receitas pouco expressivas, podem realizar grandes obras e atender aos anseios da população. Basta acreditar, ter criatividade e agir com honestidade e transparência.

Iguatama foi criada em função do movimento de garimpo do ouro que existia nos tempos do Império. Era, então, conhecida como Porto Real pois havia uma balsa que transportava o ouro de um lado a outro do rio, onde se cobrava o Quinto (5a parte da produção, que era destinada à Coroa Portuguesa).

Em Iguatama também funciona uma indústria que explora o calcário extraído das rochas cársticas da região. É triste saber que parte expressiva das cavernas brasileiras nunca será conhecida, por serem destruídas pela mineração.

Esse é o lado perverso do “desenvolvimento” econômico, construído sobre os destroços de nosso patrimônio espeleológico. A revogação do decreto que protege as cavidades naturais brasileiras coloca em risco todas as cavernas brasileiras, mesmo aquelas que já são conhecidas e exploradas para fins científicos, turísticos ou esportivos.

Hoje pela manhã deixei Iguatama, levando comigo a gratidão por esse povo que me recebeu com tanta consideração e hospitalidade, valorizando meus esforços pela preservação de um de nossos mais expressivos recursos hídricos.

Remei por 8 horas seguidas, estimulado pelas energias recebidas de Iguatama. Acabei por me complicar na escolha de um local adequado para pernoite! Os barrancos nessa região, desde a confluência com o Samburá, são muito altos, íngremes e barrentos. Às vezes é impossível desembarcar, tanta é a lama que existe em suas margens.

Estou em um lugar precário e instável, pois qualquer chuva poderá fazer toda essa terra ceder, levando junto minha barraca, as sacolas, a canoa e eu. No entanto, é improvável que chova hoje e, de qualquer forma, já me acostumei a desafiar, mesmo involuntariamente, o perigo, acampando sempre em áreas de risco iminente.

Desde o início de minha expedição tenho sido um sobrevivente, superando dia após dia as dificuldades e contratempos que surgem pelo caminho. Ainda restam inúmeros obstáculos; nem consigo imaginá-los, pois o rio se transforma a cada dia.

Closé prometeu-me entrar em contato com amigos que poderiam me ajudar a superar as corredeiras na entrada do lago de Três Marias, sob a ponte da estrada que  liga Abaeté a Pompéu. Também fará contato com um clube náutico de Três Marias, para conseguir um local de pernoite e ajudar na portagem da barragem e da cachoeira Grande, uma corredeira localizada uns 10 km abaixo da represa. Disse, ainda, que tentará um contato com Dom Luiz Cappio, o polêmico bispo de Barra, na Bahia, que em 2008 fez uma greve de fome em protesto à transposição das águas.

Esta será uma longa noite: a barraca está toda molhada, a cama está em um plano inclinado, minha canoa está cheia de água barrenta e fétida, e as sacolas imundas! Não tive ânimo de preparar um jantar; preferi comer sementes com granola e tomar um refresco de limão. Este lugar insalubre está infestado de insetos! Felizmente, eles ficaram fora da barraca, esperando por um vacilo meu… Amanhã também será um dia difícil.

Não sei como farei para limpar a canoa. Preciso, pelo menos, retirar a água que a invadiu em uma corredeira causada por uma obra clandestina e estúpida de uma empresa que, sem licença do Ibama, desviou o curso do rio, reduzindo em 3 quilômetros o seu trajeto original, para escoar a produção de cana de açúcar daquela região. Tive que passar debaixo de uma ponte de madeira improvisada com pouco mais de um metro de altura das águas do rio, com inúmeros pilares em torno dos quais a água forma uma estranha corredeira.

A água entrou quando o barco se chocou contra um dos pilares, girando sobre si mesmo e quase afundando. Poderia ter sido pior. Como não sabia dessa cretinice, navegava sem amarrar a carga. Se a canoa virasse, poderia ter perdido muita coisa, inclusive a filmadora e a máquina fotográfica, com todas as imagens captadas até agora em minha viagem!

As dores nas costas continuam a me incomodar bastante. O braço direito, que eu mais utilizo, fica com o movimento prejudicado e a remada se torna ineficiente. É uma dor antiga, crônica, que se agravou com o forte esforço das remadas. Eu me esqueci de comprar um anti-inflamatório em Iguatama para aliviar seus efeitos.

Olhando o mapa, estimo chegar à represa em três dias. Se a primeira portagem for rápida, creio que até o final de junho estarei diante da hidrelétrica. Pelo mapa, se eu usá-lo com a bússola para navegação no lago, não terei problemas para encontrar o caminho.

Também estou pensando em mudar meus planos de parada: só pernoitarei nas grandes cidades, como Pirapora e Januária, além de cancelar a visita às cavernas de Peruaçu.

Encerrando a viagem em Piaçabuçu e deixando de fazer o trecho de mar até Aracaju, creio poder terminar a expedição no final de agosto, talvez dia 28, aniversário de meu pai.

Como no lago de Sobradinho a navegação é prejudicada pelas grandes ondas que lá ocorrem, terei que aceitar o transporte da canoa por um barco maior, uma balsa ou chata, o que encontrar. Também terei que fazer várias portagens na região entre Juazeiro e Paulo Afonso, o que poderá encurtar a duração da viagem e assegurar esse meu novo propósito.

São atitudes sensatas diante dos inúmeros problemas que venho enfrentando na expedição. Não esperava tantos contratempos, e não tinha informações corretas e suficientes.

Além disso, estou bastante incomodado com a falta da companhia de minha mulher, minha mãe e minhas filhas, e lamento não estar acompanhando o crescimento de meu netinho… são perdas expressivas para quem tem um vínculo tão forte com a família!

Ainda assim terei coletado material suficiente para meu livro, tanto pelas observações constantes do meio ambiente, como pelos depoimentos e fotografias já obtidas.

Esse trecho em que me encontro é monótono e cansativo, pois não há mudanças significativas no ambiente natural e não existem comunidades ribeirinhas a visitar. Com isso, a expedição acaba se reduzindo a algo próximo à aventura, e não ao entendimento das sociedades locais, ou a reflexões sobre o significado disso tudo em minha vida.

Não encontrei um meio eficaz de modificar meu posicionamento perante essa monotonia da vida no rio São Francisco. Sinto-me limitado e incapaz de reagir… Meus pensamentos acabam se reciclando indefinidamente, pela falta de discussão e antagonismo. Isso restringe muito os impactos esperados em minha transformação intelectual.

Concluo que a vida no rio ou em qualquer outro ambiente natural e selvagem, se não estimulada por outros meios, tende a reduzir gradativamente a produção intelectual.

Não é a solidão que me incomoda, mas a falta de ideias, de inspiração para a criação. Sou vítima de meus próprios pensamentos, que se enclausuraram em ideias preconcebidas no círculo vicioso do raciocínio embotado pela falta de diálogo. A dialética é essencial para a evolução intelectual, ainda que provocada apenas pela leitura. Para piorar esse quadro, minha veia poética se exauriu por completo. Perdi meu estilo literário e até mesmo o desejo de escrever.


[1]    Inhuma ou Anhuma – nome de pássaro de porte médio, como as seriemas, encontrado nas regiões de cerrado de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná.

Lagoa da Prata,  Um encontro insólito, 16/06/2009 – 17h15

Sul: 190 54´ – Oeste: 450 34´ – Altitude: 626 metros

Finalmente encontrei um excelente local para acampamento, com “portinho” de pedras, lugar plano para a barraca, tranquilo. só que tive que parar de remar ao meio-dia! Foi necessário porque minha roupa estava toda suja, enlameada e malcheirosa; o tênis, a canoa, as sacolas… tudo sem condições de uso. Já não conseguia conviver com esta bagunça! E ontem nem jantei, nem tomei o café da manhã, por causa da lama e do péssimo lugar em que acampei; precisava desse tempo para descansar e me refazer dessa sequência de problemas.

Bem, de volta à normalidade, jantei às 16 horas e já preparei a feijoada que irei comer amanhã à noite, pois ela precisa ficar de molho em água morna por várias horas; depois, é só esquentar.

Agora há pouco, meu “vizinho” veio me visitar. Ele tem um rancho de pesca ao lado e convidou-me para ficar hospedado lá; esse povo de Minas é mesmo hospitaleiro e sabe nos cativar! Não aceitei o convite, pois já estou bem instalado por aqui e minha roupa está toda secando nos galhos. Então, convidou-me para tomar o café da manhã com ele.

É uma pessoa consciente. Seu filho participa de uma ONG, Associação Ambientalista do Alto São Francisco. Contou-me que felizmente deixaram de caçar animais selvagens, mas os peixes estão cada vez mais raros e menores. Em sua opinião o governo, através de seus órgãos de apoio ao meio ambiente, deveria fazer um trabalho de repovoamento do rio com as espécies mais nobres, como o surubim e o dourado.

Esta área, que compreende o sítio dele e vários outros ao redor, foi reflorestada pelos atuais proprietários, que plantaram mais de 100 mil mudas de árvores nativas, cujas sementes foram colhidas na própria mata ciliar da região.

Agora chove um pouco e minha roupa, certamente não irá secar… mas pelo menos está limpa e amanhã eu a coloco sobre as sacolas para secar enquanto remo, se houver sol.

O mapa rodoviário que me sobrou não está em escala que permita estimar distâncias. No entanto, suponho que ainda tenha uns 300 km até a barragem de Três Marias. Percorrendo 30 km por dia em média (o que é uma estimativa conservadora), mesmo parando um dia para portagem na entrada do lago, eu ainda chegaria lá este mês.

Minha expectativa é que a viagem se torne mais fácil depois da represa, pois a vazão do rio é regularizada pelo controle da barragem e há mais povoados e cidades a partir de lá.

Reduzindo minhas visitas a 20 cidades, e deixando de visitar o Parque Cavernas de Peruaçu, eu economizaria praticamente um mês e chegaria à foz em meados de agosto. Sim, estou ansioso por simplificar os meus planos. Em parte pela saudade, em parte por perceber que os impactos de minha passagem pelo rio tenham se tornado irrelevantes…

Se a greve de fome de Dom Cappio se tornou folclore e não surtiu nenhum efeito, o que eu poderia conseguir com minha passagem quase anônima pelos 2.800 km do rio? Agora entendo que não basta a determinação e a coragem de enfrentar o desafio. É preciso “vender” bem a ideia, ter boa presença na mídia, mesmo antes de demonstrar que é capaz de realizar o feito com sucesso.

A cada dia eu me espanto com o tamanho de meu empreendimento! Uma pequena canoa, uma “casca de noz”, vencendo as águas lentamente, uma remada a cada dois segundos durante horas sem fim, 30 a 40 km por dia, mais de 1 milhão de remadas ao término da expedição!

E a paisagem segue imutável durante horas… só o barulho do remo puxando as águas para trás da canoa; os mesmos pássaros, as mesmas árvores, o mesmo barranco, a mesma água barrenta fluindo sem cessar… haja determinação! Ninguém pode imaginar a dimensão dessa tarefa para um ser humano isolado do mundo civilizado! Não é querer valorizar minha expedição; apenas constato a minha realidade.

Todos os dias, levantar acampamento e remar sem parar durante 6 a 8 horas; procurar um local para o novo acampamento, geralmente úmido, íngreme e enlameado; retirar as sacolas do barco; montar a barraca; fazer o jantar e lavar a panela e as roupas; e, finalmente, dormir. Passar o dia inteiro observando o rio para evitar os troncos submersos, redemoinhos,  árvores caídas… os pensamentos vêm e se vão sem se completar, repetidos à exaustão. Estar sempre atento a alguma fonte de água menos enlameada para filtrar e tratar, completando minhas provisões, pois água nunca pode faltar!

À noite, cansado e com os músculos doloridos, o sono não vem. Só ouço o cricrilar dos insetos e o “marulhar” do rio… Reviro-me no chão em busca de uma posição mais confortável, mas ela não existe. A dor nas costas restringe minhas posições…

“Então, por que veio?”, alguém perguntaria…

Sim, por que estou aqui? Para que minha vida faça sentido, para que eu justifique minha presença por mais alguns anos… para que, em minha velhice, eu tenha histórias para contar aos meus netos… para que minhas filhas se orgulhem de mim…

Talvez a imagem que faço de mim seja maior do que sua real dimensão, e eu seja apenas mais um reles passante nesta vida sem sentido; como isso não me consola, busco realizar algo verdadeiramente relevante, que me diferencie, afinal, da gigantesca massa humana que povoa, anônima, nosso planeta.

Hoje, diante da imensa tarefa que me reservam os dias vindouros, talvez preferisse estar em casa, cuidando de meu netinho, brincando com meu cãozinho Potchó, cuidando de minha Mory e de minhas queridas filhas, Luciana e Mônica…

Mas não posso desistir, não pelos outros, mas por mim mesmo! Esta será minha segunda aposentadoria: a dos esportes radicais, esportes da Natureza, de aventura…

Depois, quando eu voltar, darei mais importância aos pequenos gestos, às palavras singelas, ditas apenas para agradar, às preces e às reflexões que farei em minhas caminhadas pelos parques, às infinitas lembranças dessas vivências…

Sem novas e aventureiras ambições serei comedido nas ações e nas palavras… deixarei de ser polêmico nos debates; aceitarei mais do que minhas compulsões permitem; serei menos egoísta e dedicarei a vida a cuidar das pessoas que amo…

Terei bastante tempo para isso!

Assim mesmo, estando na cidade, o tempo continuará a passar lentamente, ao menos para mim, pois farei apenas uma coisa de cada vez, como faço aqui. Talvez nisso resida o segredo de uma vida tranquila; não feliz, mas sossegada.

Não creio na felicidade como um estado de alma permanente ou mesmo duradouro. Vejo-a simplesmente como uma emoção efêmera, um sentimento que passa e nos faz sorrir por um momento… e logo depois constatamos que o mundo à nossa volta permanece o mesmo!

Depoimento de Roberto Rocha

Lagoa da Prata/MG – 17/06/2009 – 09h03

“Eu me chamo Roberto Rocha. Tenho 70 anos de idade e faz 50 anos que eu estou aqui, na beira do Velho Chico. Já pesquei como profissional, depois fui funcionário público e hoje estou aposentado. Mas estou aqui, lidando, repovoando a mata, fazendo coleta de sementes para repor a mata ciliar.

Nós inclusive temos [um registro no] Guinness Book que plantamos 116 mil mudas de árvore. Essa aqui é uma mata primária ainda. Tem várias espécies como a peroba e o jequitibá, tem outras espécies aqui, mas a luta que se deu é para não deixar as pessoas derrubá-las.

A razão da falta de peixes é que houve uma poluição muito intensa, que pela falta de consciência da empresa açucareira antigamente se jogava todo o vinhoto no rio, e que por isso tinha muito grande mortandade de peixes durante todo ano. E hoje, graças a Deus, já estão aproveitando o vinhoto e não estão jogando mais no rio.

Eu vejo assim, essa luta: que o senhor está passando aqui, vendo tudo, documentando, pegando depoimentos para depois publicar. E fico assim, muito feliz em conhecer o senhor; estava comentando ontem, com meus companheiros, que tem gente assim, com muita coragem, e que ainda luta para preservar o nosso Velho Chico.

Mas falta ainda plantar muita mata; pois essas matas por aqui não têm mais de 10 metros de largura; e os peixes estão desaparecendo. Eu já cheguei a pegar 70 surubins em dois meses, no passado. Naquela época, eles se ‘embocavam’ por todo lado.

Ainda existe algum surubim, mas o rio está assoreado; lugares onde o rio tinha até 12 metros de profundidade, hoje não chega a 6 metros. Na barra do Bambuí ainda se pegam surubins de até 60 kg. O problema é que tem pescadores com redes de até 100 metros, e o permitido é no máximo 5 metros.

Aqui foi criada a Associação Ambientalista Alto São Francisco, que tem trabalhado muito na região de Lagoa da Prata, Moema, Santo Antônio do Monte. Sabemos que as barrancas do rio estão muito arrebentadas, com centenas de árvores caídas devido à falta da mata ciliar. A mão do homem é que acabou mais com a Natureza.

Mesmo assim, as frutas das figueiras e das gameleiras caem e as árvores crescem tudo de novo. É um ‘tira-e-põe’ constante…

Há 40 anos tinha por aqui um fazendeiro que arrancou tudo; não deixou uma árvore de pé e jogou tudo no rio. Mas depois que ele se foi a Natureza se voltou contra ele e nasceu tudo de novo! Hoje está cheio de animais, lobo guará, capivaras… é só o homem não mexer que a Natureza se refaz. O senhor vá com Deus… Deus acompanhe o senhor… e lembre-se de mim!”

Moema, Progresso Lento, 17/06/2009 – 18:20 h

Sul: 190 46´ – Oeste: 450 28´ – Altitude: 618 metros

Apesar de ter cumprido a meta de chegar à BR262 às 14 horas, avancei muito pouco depois disso. Fiquei 45 minutos com as minhas filhas ao telefone e depois remei apenas 30 minutos mais. O motivo disso é a dificuldade de encontrar bons lugares para acampar. Ao ver um lugar satisfatório, acabo optando por parar por aí. Não é razoável!

Calculando a distância até o início do lago de Três Marias pela média atual, ainda demorarei uns três dias para chegar até lá. Deveria remar oito horas por dia.

Enquanto armava meu acampamento, um grupo de uns vinte quatis subiu na árvore logo atrás de mim. Inicialmente, pensei que fossem macacos, mas logo vi a cauda grossa, peluda e listrada. Eles faziam grande alvoroço mas, quando me viram, foram saindo devagarinho e me abandonaram. Lamentei muito, pois nem mesmo pude filmar esta cena… o interessante foi o comportamento do líder do bando: ao me ver, emitiu silvo estridente e permaneceu parado, olhos fixos em mim, até que o último quati abandonasse a árvore. Só depois, ele partiu!

Durante o dia, ainda pela manhã, ouvi o som de muitas asas batendo sobre mim. Eram aves migratórias, às dezenas: patos, garças brancas e azuis. Os patos voavam em formação em “V”, como de costume. Eram muitos grupos, uns após os outros, todos na mesma direção. As garças, porém, voavam em círculos, bem acima dos patos, como se apreciassem a paisagem, seguindo na mesma direção.

Fiquei tão impressionado que me esqueci de filmar. Quando peguei a filmadora já era o último grupo que passava. Só pude captar uma pequena parte daquele espetáculo!

Pela manhã encontrei o Sr. Roberto, aquele meu vizinho que viera me visitar na véspera. Ele é um pescador de 70 anos de idade, e concordou em me dar um depoimento sobre sua concepção dos problemas e dos acertos nessa região do rio, conforme mencionei. Segundo ele, as melhores espécies de peixes, principalmente o surubim e o dourado, estão desaparecendo. Primeiro, por causa do vinhoto da cana de açúcar, que era jogado no rio pelos agricultores, causando grande mortandade de peixes.

Depois veio o assoreamento do rio, causado pela destruição das matas ciliares, o desbarrancamento e a enxurrada das fortes chuvas de verão. A profundidade do rio, que era de quase 12 metros, hoje está reduzida a menos da metade. Os grandes peixes, que dependem dessa profundidade para sobreviver, aos poucos desaparecem. E o rio está cada vez mais pobre.

Ele destacou o trabalho da Associação Ambientalista do Alto São Francisco, que atua na região. Com seu apoio, já plantaram mais de 100 mil árvores, através de coleta de sementes nas matas remanescentes. Hoje são matas primárias, em formação, mas bem diversificadas.

Houve também muita caça predatória, principalmente de capivaras, onças e jacarés. Apesar disso ainda se encontram algumas espécies, como as capivaras, lobo guará, jacaré e até mesmo onças. Sr. Roberto é um exemplo de pescador que deveria ser destacado, pelo seu trabalho.

Minas Gerais vive um paradoxo: possui grande e diversificada riqueza em seu subsolo, desde minérios, pedras preciosas e semipreciosas, calcário, um solo muito fértil em vastas regiões, e esse gigante chamado São Francisco, fonte de vida e energia. No entanto, a maioria de suas estradas vicinais não é pavimentada. Percorrendo o rio São Francisco observam-se poucas e pequenas cidades ribeirinhas e, mesmo essas, pouco fazem do uso eficiente do rio. Existem muitos ranchos de pesca ao longo de suas margens, mas pouca presença humana, o que evidencia seu uso apenas para lazer.

Diante disso, volta aquele dilema: o progresso em detrimento da preservação ambiental. À medida que chegam as lavouras de cana de açúcar, soja e outras monoculturas, a Natureza é penalizada e destruída. O homem ainda não equacionou corretamente esse problema e o futuro parece comprometer definitivamente os recursos e a beleza cênica da Natureza. Parece que não há como fugir desse cenário desolador.

Se os países ricos já esgotaram suas florestas e liquidaram com a fauna, como imaginar que não faremos o mesmo? É apenas uma questão de tempo para que isso aconteça. E por que não o faríamos, condenando-nos ao subdesenvolvimento? Afinal, a sociedade capitalista e de consumo intensivo é um desafio aos ambientalistas: não é convincente o argumento da preservação como alternativa de qualidade de vida.

Apesar disso, e mesmo convicto de que essa tragédia virá um dia, e que também nós esgotaremos nossos recursos naturais em troca da vida urbana e do consumo, não posso deixar de manifestar meu protesto veemente contra a ambição desmesurada dos grandes produtores rurais e da indústria de transformação, que comandam esse processo.

É preciso encontrar urgentemente o equilíbrio entre a produção, o desenvolvimento, e a preservação da Natureza, sob pena de tornar esse planeta inviável para sustentar a vida!

Dores do Indaiá, Revisão de percurso, 18/06/2009 – 17h30

Sul: 190 32´ 36” – Oeste: 450 25´ 26” – Altitude: 618 metros

Em linha reta eu percorri cerca de 30 km em direção ao lago de Três Marias. No entanto, considerando as voltas que o rio dá, eu devo ter percorrido, efetivamente, uns 50 km!

Amanhã poderei alcançar a ponte da rodovia que liga Belo Horizonte a Abaeté, e depois de amanhã chegarei à corredeira logo depois da ponte da estrada de Abaeté a Pompéu, já na entrada da represa.

Aí reside meu dilema: remar toda represa e enfrentar as prováveis ondas ou transferir a canoa diretamente para Três Marias? Gostaria de remar no lago mas, cada vez que passa por mim um pequeno barco a motor, minha canoa balança desconfortavelmente por mais de 100 metros, até as águas se acalmarem novamente no rio.

Creio que seja devido ao excesso de carga que estou levando… embora a capacidade nominal da canoa seja de até 250 kg de peso, isso é irreal. Qualquer oscilação mais forte, em uma corredeira, é suficiente para que a canoa se encha de água em poucos segundos. Apesar de ser uma canoa construída para realizar longas expedições, creio que ela só seja eficiente com pouca carga, em volume e peso, e em águas tranquilas Em águas agitadas, devido ao seu fundo arredondado, ela se torna instável e facilmente se enche de água.

Meu rendimento nas remadas tem sido obtido à custa de muito esforço físico, que atribuo ao excesso de peso da embarcação. Hoje mudei a técnica de remada, fazendo um movimento com o corpo para a frente, buscando a água o mais à proa possível, e trazendo o remo com o corpo, até bem atrás, usando a musculatura das costas e do abdômen. Isso praticamente dobra a eficiência da remada e diminui o esforço no ombro e nos braços, o que me alivia as dores nas costas.

É um ritmo bastante forçado; alterno essa técnica à tradicional para descansar e retomar o fôlego. Mas o rendimento é muito maior; acredito que consiga uns 12 km/hora nesta região.

Quebrei um dente comendo castanhas com granola. Ficou um buraco no dente do maxilar superior direito, mas, felizmente, não sinto nenhuma dor. Mas ficou uma estranha sensação de vazio, uma perda, mutilação… nada posso fazer.

Cada vez mais me convenço da artificialidade da divisão geográfica da bacia do São Francisco. A tentativa de simplificação didática em quatro sub-regiões não se sustenta ao se analisar as características ecológicas. Na verdade, toda divisão, seja qual for o critério adotado, é uma simplificação didática, uma vez que a bacia hidrográfica é um continuum de rios e tributários, matas e fauna indivisíveis.

No entanto, as intervenções antrópicas criam hiatos que acabam por determinar o desaparecimento de certas espécies, a endemização de outras, a mudança de feição dos rios, como é o caso da construção de barragens, e até a inserção de espécies exógenas que passam a concorrer com espécies nativas, roubando-lhes o habitat e as presas.

“Como se atreve um leigo a falar de assuntos técnicos, afeitos às ciências ambientais?”

Atrevo-me na qualidade de ambientalista e observador atento, que convive diuturnamente com o rio há 20 dias, examinando e constatando cada detalhe, dormindo em suas margens, ouvindo e observando seus pássaros, conversando com ribeirinhos que passaram suas vidas no rio, enquanto que os doutos, muitas vezes, não conhecem o rio senão através de fotografias, cartas topográficas, viagens de turismo ou de coleta, ou mesmo de literatura, escrita por outros que também aqui não estiveram…

Só não sei das matas, pois os animais que lá se escondem não se mostram para nós… Às vezes, em minha barraca, sinto sua presença, ouço seus passos, percebo sua inquietação diante de um intruso. Mas basta abrir o zíper da barraca para que eles se escondam e tudo volta a se aquietar…

Hoje estou comendo o resto da feijoada de ontem. Feijoada vegetariana, acrescida de pedaços de salame, com arroz à grega, muito azeite e pimenta malagueta. O sabor não tem nada a ver com a feijoada tradicional: a carne é de soja, o feijão é azuki, faltam aquelas carnes gordurosas de porco, falta a caipirinha, a couve, o torresmo, a laranja…

Mas está deliciosa! Agradeço, mais uma vez à empresa de alimentos pela doação dessa comida tão bem preparada, saborosa e feita com carinho! Estou me mantendo saudável e disposto graças a esses alimentos… muito obrigado!

Como duas porções por vez, mas é por conta do grande esforço físico e do desgaste provocado por seis horas ininterruptas de remo por dia, além das horas de trabalho no acampamento, do transporte das sacolas e das portagens que fiz nas corredeiras.

Noite fria, 19 de junho de 2009 – 07h00

Amanheceu um dia gelado, com neblina densa e muita umidade. Aqui perto do rio, mesmo não chovendo, tudo amanhece molhado. E o calor emanado de meu corpo e da respiração acaba por se condensar na parte interna da cobertura da barraca, deixando tudo úmido e frio.

Com esse tempo não adianta acordar cedo, pois não quero remar com essa neblina. Não dá para enxergar nem a outra margem do rio! É preciso esperar que a neblina se dissipe, o que ocorre quando o sol aquece a terra, lá pelas 8 horas.

Como sempre, demorei bastante para dormir, tive um sono interrompido várias vezes, mas eu me sinto disposto e descansado. Acho que me falta um travesseiro…

Esta foi a primeira vez que me abasteci de água tirada diretamente do Velho Chico. Até hoje havia conseguido beber somente das águas cristalinas das cascatas de seus afluentes, exceto em Iguatama, onde peguei água da torneira e tratei. Ontem filtrei uns 9 litros. É uma água barrenta, e mesmo filtrada ela conserva a cor amarelada. Por via das dúvidas, coloquei umas 15 gotas de cloro e o gosto não será dos melhores.

Preciso aguardar o sol aparecer, pois minhas mãos estão geladas e não consigo sair da barraca para levantar acampamento. Tomei café da manhã aqui dentro mesmo!

Bom Despacho, encontro com pescadores, 19/06/2009 – 20h35

Sul: 190 28´ 16” – Oeste: 450 23´ 47” – Altitude: 613 metros

Cheguei ao município de Bom Despacho por volta das 12h30, e encontrei um grupo de pescadores. A seguir, passo a relatar esse encontro insólito e suas consequências

Remei apenas 2 horas desde que despertei, e por um bom motivo: logo que saí de meu acampamento (e saí tarde, às 10 horas), encontrei um grupo de pescadores que, na véspera, tinham me convidado a almoçar com eles.

Parei a canoa e disse-lhes meu plano, que era atravessar a represa de Três Marias depois de fazer uma portagem nas corredeiras próximas à ponte que liga Abaeté a Pompéu. Evandro, um deles, me disse que não há como fazer portagem naquele lugar e seria loucura percorrer o lago com essa canoa.

Segundo disseram, quando venta, as ondas chegam a mais de meio metro de altura e, certamente, minha canoa viraria… o lago tem mais de 100 km de extensão. Além disso, remar na represa é monótono, “só água e terra de má qualidade”.

Deram-me as coordenadas: passaria duas pontes de concreto e chegaria a uma ponte de ferro em ruínas, onde começam as corredeiras. Nós nos despedimos e segui remando.

Duas horas mais tarde passei pelo novo acampamento deles, bem depois da primeira ponte de concreto. Eles já tinham passado por mim e almoçavam. Ao me ver, convidaram-me novamente para o almoço e, desta vez, eu aceitei; precisava esclarecer melhor minhas dúvidas e tomar uma decisão.

Evandro é um construtor de barcos de pesca, de alumínio. Seu filho, Vandinho, estava junto, assim como os outros dois, cunhados dele: Pedro, policial militar, e Jésus, que hoje arrenda a fábrica de barcos de Evandro. Formam um grupo animado!

Todos os anos eles passam uma semana no rio, pescando e se divertindo. Pelo que constatei, são excelentes pescadores, pois estavam com duas geladeiras grandes, de isopor, repletas de peixes: um surubim de 8 kg, um dourado de 12 kg e muitas piranhas de 3 a 5 kg, além de outros peixes menores.

Almoçamos e conversamos bastante. Eles me sugeriram que não remasse no lago de Três Marias; além de um risco desnecessário, nada me acrescentaria à expedição.

Convidaram-me a passar o dia com eles e seguir remando pela manhã. Eles chegariam em seu rancho e me esperariam para o almoço. Lá eles conseguiriam um transporte para eu chegar até a cidade de Três Marias, onde fica a barragem e a hidrelétrica.

Apesar da boa vontade de Closé, pensei que talvez ele não conseguisse encontrar um meio de solucionar o problema de minha portagem. Por isso, aceitei o convite de Evandro e aqui estou. Amanhã irei para o rancho dele. Penso em ligar para Closé e verificar se ele conseguiu alguma coisa, antes de decidir sobre a sugestão do Evandro.

Ele também me deu o telefone de um pescador aposentado que mora próximo à ponte da BR-040, depois da barragem. Esse pescador seria importante para me ajudar a transpor as corredeiras que existem, quilômetros depois da barragem.

Parece que há um outro obstáculo bem pior, a cachoeira Criminosa; sim, é esse mesmo o nome da corredeira, que fica a uns dois dias de remo depois da barragem. Pelo nome já se imagina o tamanho da encrenca! Parece que não há alternativa, senão nova portagem. Disseram-me que, nas cheias, um canal se abre à navegação, pela margem direita. Talvez, uma opção.

Depois disso, segundo eles, dá para navegar até Pirapora, onde há uma grande corredeira que precisa ser transposta, bem na frente da cidade. E então, até Juazeiro, sem mais problemas.

Hoje à noite jantei piranha ensopada, com arroz e batatas. Tratamento de primeira! Uma delícia! Um dos melhores peixes que já comi em minha vida: carne branca, macia.

Aproveitei para gravar os depoimentos de Evandro, Pedro e Jésus. Muito bons! Jésus demonstrou ter consciência dos problemas da região e é, sem dúvida, uma pessoa lúcida.

Percebo que o povo de Minas Gerais, vinculado à vida do São Francisco, além de hospitaleiros e generosos, também são pessoas conscientes das questões ambientais e preocupados com a revitalização do rio. Parece que estou melhorando a qualidade de meus vídeos e encontrando um caminho para meu documentário, focando em personagens do rio e suas histórias.

Depoimentos dos Pescadores

Divisa de Dores de Indaiá e Bom Despacho – 19/06/2009 – 13h46

Pedro (policial militar)

“Cada dia que passa o rio sofre mais com a degradação provocada pelo homem. Hoje, em consequência disso, o rio está se acabando! O triste é saber que daqui a alguns anos nossos filhos e netos não terão mais esse prazer de conviver com o rio e usufruir de suas belezas, se alimentar de seus peixes…”

Evandro (comerciante)

“O homem destrói o rio através dos produtos químicos jogados nele. Hoje o rio não tem sustentabilidade para suportar tantos pescadores, e qualquer um consegue uma carteira de pescador profissional. Apesar disso, no rio ainda podemos desfrutar de muitos peixes, que logo vão se acabar…”

Jésus (construtor de barcos)

“O rio não suporta tantos pescadores, que deixam suas redes armadas durante vários dias, sem retirar os peixes que se enroscaram nelas. Menos de 20% dos pescadores ‘profissionais’ vivem apenas da pesca. A maioria é só diversão. Enquanto isso, só para falar na região de Lagoa da Prata, Bom Despacho, Moema, Martinho Campos e Dores de Indaiá, todas essas cidades jogam seus esgotos no rio, sem qualquer tratamento. Mas nas contas de água, 50% do valor é cobrado pelo tratamento do esgoto, que não existe. E os pescadores amadores é que são penalizados com multa e apreensão de seus pescados. O rio ainda tem muita vida, muitos peixes, aves e outros animais; e se for bem cuidado, ainda poderá nos trazer alegria e sustento por muitos anos.”

TRÊS MARIAS

Revendo objetivos e estratégias, 20 de junho de 2009 – 15h21

Martinho Campos, Sul: 190 20´ – Oeste: 450 19´ – Altitude: 618 metros

Decisão difícil… sensação de derrota e frustração… mas foi necessário parar…

Não segui adiante; por muitas razões decidi parar por aqui; não desisti, mas precisava reavaliar minha situação e compreender melhor o que estava acontecendo com minha expedição.

Acreditei – e não deveria – nas informações mais pessimistas de que não poderia superar as corredeiras na entrada do lago de Três Marias. Depois me disseram que havia, sim, uma passagem sem risco pelo lado esquerdo das corredeiras, e que as ondas do lago não eram, como me disseram, assustadoras…

Deveria ter prosseguido! As corredeiras que viriam depois também podiam ser superadas sem grandes problemas; desde o início de minha viagem este foi meu grande problema: falta de informação, informações incorretas, incompletas, distorcidas…

De qualquer modo, eu precisava parar, pois perdera a motivação e também os rumos da viagem, que se tornara uma corrida contra o tempo, uma competição maluca contra o relógio e o calendário, como se o tempo fosse rígido e dele eu não pudesse me libertar. Não era esse o meu propósito.

Três Marias, em um hotel à beira-rio 20/06/2009 – 22h00

Sul: 180 13´ – Oeste: 450 15´ – Altitude: 573 metros

Na segunda-feira, dia 22 de junho, retornarei a Belo Horizonte, deixando minha canoa no hotel onde me hospedara.

Eu a trouxera, de caminhão, para Três Marias, quebrando um compromisso que assumira de não fazer transposição de caminhos, seguir somente pelos meus próprios meios, e não desistir jamais de meus objetivos! O que aconteceu, então?

Não soube compreender nem explicar… faltava dinheiro, estava preocupado com minha família, sofrera uma pressão para desistir, e nenhum incentivo para prosseguir.

O fato é que falhei… não poderia ter sido influenciado tão facilmente! Não deveria ter mantido contato externo, pois não havia risco nem urgência! Expedição de aventura implica riscos, e eu estava preparado para enfrentá-los, mas desisti.

Sim, pois um hotel confortável é tudo o que eu não poderia ter em meu caminho! Voltar ao desconforto do rio, acampamentos e comida preparada em um fogareiro são coisas difíceis e exigem tenacidade, determinação, coragem, autoconfiança e crença inabalável nos objetivos, deles não nos afastando.

Na quinta-feira, dia 18 de junho, me encontrei com um grupo de pescadores que me convidou a almoçar. Aceitei, e eles me alertaram sobre o que estava por vir na entrada da represa de Três Marias. Segundo eles, experientes pescadores, na entrada do lago havia uma grande corredeira, muito forte e difícil de ser vencida.

Recomendaram-me que não fizesse esse trajeto, pois meu barco não suportaria. Mesmo com barco a motor eles disseram que era difícil entrar na represa!

Acabei pernoitando no acampamento deles e obtive mais informações e subsídios para a minha decisão. Eles haviam pescado muitas piranhas, um pintado (surubim) e um grande dourado. Convidaram-me a ir a seu rancho antes de prosseguir.

Na sexta-feira pela manhã saí cedo e cheguei ao rancho perto do meio-dia. Almocei com eles e decidi que não faria a entrada na represa. Segui remando até uma ponte próxima às corredeiras e contratei um pequeno caminhão para levar-me até Três Marias, onde cheguei às 21h00.

Passei a noite meditando sobre tudo o que acontecera desde o início da expedição. Minha maior preocupação tinha sido superar obstáculos! As questões ambientais foram deixadas de lado em função das inúmeras dificuldades encontradas. E, nos últimos dias, minhas atividades se resumiam em remar cada vez com mais vigor para cumprir um cronograma que nada tinha a ver com meus objetivos e propósitos nesta expedição.

Encontrara poucas pessoas, tomara poucos depoimentos, fotografara poucas cenas, e nenhuma fora do leito do rio, perdi algumas oportunidades de conhecer lagoas de reprodução que estavam a poucos metros das margens… e, para completar, estava consumindo meus parcos recursos financeiros e comprometendo seriamente a expedição.

Além disso, fui informado por um habitante de Três Marias que a uns 10 km da cidade havia uma perigosa corredeira, a Cachoeira Grande. Depois, um pouco adiante, havia outra, a Cachoeira Criminosa, uma enorme pedra que obstruía a passagem, sem ser percebida por quem desce o rio! Era emoção demais para quem buscava relacionamentos e informações sobre o meio ambiente, como eu!

Por tudo isso, decidi interromper minha viagem, reavaliar meus objetivos, buscar apoios financeiros e retomar a intenção de fazer essa expedição com propósitos preservacionistas. Portanto, essa é minha decisão: não farei mais corredeiras, não passarei por trechos perigosos, pois não estou fazendo rafting ou canoísmo como esporte, mas sim canoagem, como meio de locomoção para conhecer o rio São Francisco e as comunidades que vivem em seu entorno, que dependem de suas águas para sobreviver! Creio ser essa a melhor atitude, antes que todos os objetivos da expedição estejam comprometidos.

Reavaliação do Projeto

Um novo início se vislumbra, 21/06/2009

Este é o meu momento de reflexão para poder retomar o projeto conforme fora concebido: foco em questões ambientais, discussão acerca da transposição e seus impactos nas comunidades ribeirinhas, palestras de conscientização nas cidades, coleta de depoimentos da população…

Meus propósitos não mudaram; mas, com essa interrupção, pude reavaliar meus objetivos e retomar aspectos que já pretendia abandonar em função das dificuldades encontradas. Um dos lugares que já estava por desistir e agora retorna com toda intensidade é o Parque Nacional Cavernas de Peruaçu. As cavernas sempre exerceram grande fascínio sobre mim.

Ao passar pela região de Bambuí, pude observar as fantásticas estruturas geológicas do carste. Depois, devido aos atrasos no meu cronograma, já pensava em desistir, deixar de lado essa possibilidade de conhecer essa região onde, certamente, deverei permanecer por alguns dias.

Por outro lado, intenções de percorrer a qualquer custo regiões de alto risco, como a represa de Sobradinho, deixaram de ter interesse para mim. Aceitar uma “carona” em uma “chata” não significa me afastar de meus princípios, ou ferir regras que eu mesmo estabelecera para a expedição.

Talvez não passe por tantas cidades como pretendia, mas ficarei em cada uma das que visitar pelo tempo que for necessário para cumprir minha missão. Essa passa a ser minha principal regra. Pois de nada adianta cumprir prazos se não obtiver conhecimento ou não deixar minha mensagem.

Devo rever alguns locais já percorridos, como as corredeiras de Vargem Bonita, para poder registrar as imagens incríveis de um barco descendo o rio quase sem controle, desviando como pode das pedras e obstáculos de um rio jovem e indomado. Só que farei esses trechos utilizando o equipamento adequado: um caiaque em lugar de uma canoa canadense!

Quem sabe, até mesmo a ideia do Protocolo do São Francisco possa ser ressuscitada! Gostaria muito de poder trazer um documento de compromisso de políticos, empresários, estudantes e personalidades locais em defesa do São Francisco… ainda tenho esperança de contribuir, com esse documento, para a transformação das mentalidades nacionais…

Ainda que não obtenha os apoios e patrocínios pretendidos, voltarei ao rio e à minha expedição. Esse compromisso é inarredável e faz parte de meu projeto de vida, ao qual tenho me dedicado em período integral por tanto tempo. Há seis meses, quando surgiu essa ideia, talvez minhas convicções não fossem tão sólidas. No entanto, estar no rio, conhecer esse universo diferente e fantástico, transformaram meus propósitos em objetivos de vida e a eles dedicarei meu tempo.

Finalmente, repensar um projeto implica em mudanças… estou preparado para mudar meus conceitos, assim como mudei minha postura diante desse rio mágico! Sou outra pessoa depois dessa  convivência diuturna com o Velho Chico! Não poderia ser diferente!

Meu destino em ti… 12/07/2009

Não houve tempo de esperar que me aceitasses… entrei em tua intimidade como em um estupro! Violei tuas águas, tuas praias, tuas matas… invadi tuas beiras e me apossei dos espaços roubados de teus filhos, as aves, os peixes, os seres até então ocultos em teus recônditos segredos… nossos caminhos se entrelaçaram, não por tua vontade, mas pela minha, ansioso por desvendar os teus mistérios…

A princípio, nada encontrei que me detivesse a marcha; como um visitante indesejado, percorri teus vales e descobri teus súditos, vassalos teus, tributários de tua grandeza a doar suas vidas para te enriquecer e te encorajar ao grande salto, inevitável, no vazio…

Por instantes segui outros caminhos, como quem oculta as intenções, e vi o momento em que te projetavas sobre as rochas, como quem se atira ao desconhecido, destemido, inconsequente e audaz como qualquer adolescente. Busquei tua calma e em teu colo me deitei, levando-me contigo à revelia, para onde estivesses a ir, não me importava…

Percebi, então, que tu também não conhecias o teu destino, e me encantei por ti… e assim nos tornamos íntimos, cúmplices dos mesmos segredos, que desvendávamos a cada anoitecer… tu me aceitaste assim, em minha fragilidade, mais vulnerável até que as cristalinas águas de tua alma, teu corpo e razão do existir…

Daí, então, seguimos juntos, amantes apaixonados, um ao outro nos levando, sem um propósito qualquer, senão o de seguir adiante. À nossa volta, a presença de outros seres, assim tão íntimos e livres como o ar, as tuas águas, o som, as cores, os inebriantes aromas…

A cada dia, em cada despertar, a ansiedade enlouquecida de nossas contradições: um ser que nasce e morre sem cessar, criança, jovem e velho a um só tempo, e outro ser que morre e envelhece, no inexorável badalar das horas, a me levar daqui… e mesmo neste ser envelhecido, o jovem e a criança permanecem, ao menos nas lembranças; e isso torna a ambos companheiros, ainda que um só, e tão somente, irá permanecer ao fim do longo dia, quase eterno, da jornada…

Porém, os dias às noites sucedendo, de ti surrupiaram a inocência, das águas te roubaram a pureza cristalina, das margens desnudaram tuas vestes… e as aves, tuas amigas, te deixaram, assim como as outras criaturas, tão belas, tão ingênuas… e eu, desiludido, desencantado, a tudo assim presenciava, aturdido, impotente… roubaram-te de mim em pleno dia!

Das praias, em lama, as alvas areias se tornaram; das matas, somente um ralo mato é que restou; dos morros, às águas, o solo fértil se deixou arrastar, turvando as tuas águas, matando pouco a pouco nossos peixes, cobrindo de barro o leito fundo, a se deixar levar contigo a outras plagas.

Uma angústia, um nó entalado na garganta, tristeza inconsolável de mim se apoderou, ao presenciar as árvores, às centenas, arrancadas, ancoradas em teu leito devastado… assim, seguimos juntos e calados, dias e noites a prantear a maldade dos homens, como eu… roubaram-te a beleza, saquearam-te as riquezas… transformaram-te nessa estrada lamacenta, a fluir, incessantemente, em direção ao mar. Infeliz, como um amante atraiçoado, recusei continuar… e me afastei de ti, ferido mortalmente, cansado, desiludido e só.

Precisarei regressar um dia, e resgatar tua pureza, restaurar tuas vestes, trazer de volta a vida que tivestes… e então renasceremos juntos, e tu me levarás ao meu destino, que é também o teu… repousarei de novo em tuas margens, presenciando a iluminada Via Láctea, a derramar estrelas cintilantes em teu regaço, até o repositório infinito do Oceano… e encontrarei, em ti, a minha Paz!

 A Cachara[1], 17/07/2009

Minha mãe estava prenhe de mim quando meu pai morreu. Estava quase pra parir e ainda ia, todas as manhãs, bem cedinho, na barranca do rio, ver as “pindas”[2] que tinha deixado lá no fim da tarde… pegava sempre alguma piranha, às vezes um bom surubim, raramente um dourado… mas dava pra ela dar de comer pra meus seis irmãozinhos; o mais velho tinha nove anos, e ficava tomando conta dos outros enquanto ela estava no rio ou cuidava da horta no fundo do sítio.

Naquele dia que eu nasci, minha mãe estava na beira do rio, tirando uma cachara grandona que se enroscara na rede deixada na corredeira; ela lutava com o peixe, ainda vivo, e tentava arrastar a rede, presa nos entulhos e cheia de galhos quebrados; a única coisa que prestava era aquela cachara!

De repente, com a força que fazia pra puxar a rede, eu nasci! Pois é, não consegui me segurar lá dentro, e caí no barranco, rolei pra dentro do rio, levando a mãe comigo… ela ainda conseguiu se segurar nas raízes de uma árvore e me puxou, pelo cordão, me segurou pela cabeça, e me arrastou pra cima do barranco, como se eu fosse a cachara deixada na rede lá embaixo!

Não me lembro nada disso; foi ela que me contou depois, rindo da minha desgraça de nascer desse jeito desajeitado! Todo mundo me gozava, dizendo que eu nasci de uma cachara! Assim ficou o meu nome: Maria das Dores, a “Cachara”! Nunca me livrei do apelido e hoje sou apenas a Cachara…

Cresci quase sem cuidados, sujinha no meio daquela molecada danada de ruim comigo! Era como se eu fosse uma boneca de pano, levada pra todo lado, que minha mãe não tinha tempo de me cuidar mesmo: estava sempre lidando na horta, limpando seus peixes, fazendo comida, lavando roupa, varrendo a casa… e eu lá, pendurada no colo dos moleques, como um brinquedo velho!

Minha mãe morreu quando eu tinha oito anos. Quase não me lembro dela… só da trabalheira danada que ela tinha pra manter seus sete filhos: seis meninos e eu. Ela nem se dava conta da gente, atarefada de dia, cansada demais de noite pra ter disposição de olhar pra gente… coitada!…

Mesmo assim, sinto falta dela… depois que ela morreu, meus irmãos mais velhos cuidavam de tudo, meio desengonçados, pois ela nunca preparou a gente pra viver sem ela. Ninguém sabia pescar, ninguém sabia nadar, ninguém sabia cozinhar… só o que sabíamos era lavar as louças, as roupas, limpar o quintal e varrer a casa, porque isso minha mãe deixava pra gente cuidar.

Ela morreu afogada, quando um dourado puxou a rede com ela junto, pra dentro daquela lameira toda, que corria com as águas do rio… ela não sabia nadar. Meu pai também morreu no rio, só que de morte matada; um jagunço cismou que ele era o sujeito que tinha contado pra polícia sobre um crime que cometeram lá em Doresópolis. Ele ficou preso dez anos e depois voltou pra matar meu pai. Nunca me disseram se ele tinha mesmo entregado o assassino…

Crescemos juntos até que meu irmão mais velho resolveu ir embora. Ele disse que ia cuidar da vida, que “aquilo não era vida” pra um homem feito! “Aquilo” era a gente: cuidar da gente, pescar e fazer as vezes da mãe que nunca tive… mas isso ele também não fazia. Nunca mais voltou.

A gente aprendeu mesmo a se cuidar depois que ele se foi. Aprendi até a pescar e fiquei boa nisso. Peguei muito peixe naquele rio; era eu também que fazia a comida e lavava as roupas, porque “isso é trabalho de mulher”, eles me diziam, rindo da “Cachara”! Eu só não pescava cachara; quando elas se enroscavam na minha linha eu jogava de volta pro rio, que já bastavam as piadas que eu ouvia…

Meus irmãos também se foram por esse mundão de Deus; cada um, do seu jeito, saiu, assim, de repente, sem se despedir, que a gente não era mesmo de muitos agrados e chamegos. Fui ficando sozinha, ali no meu rancho, envelhecendo sem ninguém do meu lado; nunca soube o que era o amor, que pai não conheci, e minha mãe não encontrou mais ninguém depois que o pai se foi.

Hoje me olho nas águas do Velho Chico e vejo minha mãe, estampada no meu rosto. Sou igualzinha a ela, rosto fino, enrugado dos anos, pele seca e desbotada, olhos tristes e quase se fechando… nem me cuido direito, vivo com meus trapos velhos, perambulando pela plantação abandonada, ou conversando com meus peixes na barranca do rio; às vezes pego um deles e me desculpo antes de cozinhar, porque preciso viver… preciso viver? Não sei o que isso quer dizer…eu sou apenas a “Cachara”, preta velha e cansada, sem saber porque nasci…


[1]   Cachara (Pseudoplatystoma fasciatum) – Dentre os peixes da região do São Francisco, está o Pseudoplaystoma fasciatum, que pertence à família Pimelodidae. Esta espécie é também conhecida por sorubim, surubi ou ainda surubim (que em tupi-guarani significa de pele lisa, escorregadia), possui corpo alongado, roliço e revestido de couro com numerosas pintas inclusive nas nadadeiras, cabeça grande e achatada, coloração acinzentada no dorso, ventre esbranquiçado, faixas verticais alongadas e frequentemente unidas umas às outras. O cachara é piscívoro e realiza migrações de desova rio acima durante a seca ou início das chuvas.

[2]    Pinda – anzol utilizado sem a participação do pescador, suspenso por uma bóia, ou fixado no barranco pela vara.

Lições da Natureza, 29/07/2009

Quando olhei o rio pela primeira vez pareceu-me estranho e arredio, como se não quisesse minha presença ali. Eu compreendi suas razões, pois aquele não era o meu mundo. Estava ali de passagem, como tantos outros… uns poucos o trataram com respeito e admiração, mas a maioria só estivera ali para levar seus filhos: os peixes, as capivaras, as matas… e nada deixaram em troca!

Aceitei a recusa do rio com humildade e respeito e, a cada novo dia, ele me parecia mais tolerante, compreensivo. Seus filhos já me reconheciam e aceitavam a minha presença; suas águas contavam-me seus segredos; e, aos poucos, fui aprendendo sua linguagem e compreendendo seus mistérios.

Olhava as águas e elas me diziam se havia troncos submersos, se redemoinhos se formavam em seu leito, se uma nova corredeira estava por surgir à minha frente… os pássaros também me falavam sobre seus ninhos, que eles protegiam com determinação; mostravam-me o melhor caminho em uma corredeira; afastavam-me dos perigos.

Assim, fui me afeiçoando ao rio e à sua gente… ao entardecer, quando me preparava para o pernoite, olhava ao meu redor e sabia que não havia perigo em estar ali, cercado de personagens fantásticos em seus mundos individuais. Montava a minha barraca, apreciava os últimos raios de sol, ouvia as melodias de seus animais ocultos pela mata… e adormecia feliz…

Todas as manhãs os pássaros me despertavam antes mesmo do primeiro raio de sol. Ficava ali, deitado, apreciando as vozes de diferentes aves, a recitar seus poemas à vida, à eterna certeza do vir a ser, renovando minhas convicções…

Durante o dia remava tranquilo, horas a fio, pois estava cercado desses seres extraordinários, que se afeiçoaram a mim, como eu a eles. Nada dizíamos uns aos outros, mas estávamos lá, convivendo e compartilhando nossas existências…

Poderia ter ficado ali para sempre, não fora a presença de outros seres humanos, que me contaminaram de suas ideias equivocadas, alertando-me para os perigos… não que eles não existissem, mas eram esses os meus desafios, minha sentença de vida, superação e coragem. Fui envenenado por essas opiniões… e parei… agora estou aqui, desconsolado e só…

Desenvolvimento Sustentável – paradoxo possível? – 25/07/2009

O debate entre “desenvolvimentistas” e “ambientalistas” evidencia as enormes contradições dessas palavras. Existe o “Desenvolvimento Sustentável” ou seria apenas uma quimera, um jogo de marketing que oculta intenções não manifestadas de desviar a atenção dos incautos sobre a devastação incontrolada de nossos recursos naturais?

A primeira contradição a ser resolvida é: “os ambientalistas são contrários ao desenvolvimento social, econômico, científico e tecnológico da humanidade?” Certamente que não! No entanto, a evolução não pode se dar mediante a destruição do meio ambiente! Aliás, isso não é necessário. As áreas ditas “produtivas” hoje existentes são grandes o bastante para abastecer toda população do mundo, inclusive em crescimento moderado por muitos anos. Além disso, a evolução tecnológica e o aumento da produtividade assegurariam o ajuste das áreas produtivas ao aumento do consumo, desde que este se dê em níveis toleráveis.

Esta é a segunda questão. O consumismo da sociedade contemporânea não tem precedentes na História! Nunca se consumiu tanto! Nunca se produziu tanto lixo! Hoje é comum, em uma sociedade “desenvolvida”, uma família ter um veículo, um celular e um computador para cada pessoa, dois ou mais televisores e uma imensa lata de lixo! Uma residência de classe média nessas sociedades costuma ter dois ou mais banheiros, com chuveiros de alta potência de consumo de energia. Cada habitante dos grandes centros urbanos produz mais lixo do que consegue consumir de alimentos! Cada veículo transporta apenas um passageiro (o motorista), em percursos de 20 a 50 km por dia, consumindo energia renovável ou não!

A humanidade continua crescendo a taxas superiores a 2,5% ao ano, sendo que esses indicadores são maiores para as sociedades mais pobres e carentes. Ou seja, o mundo não conseguirá vencer a batalha da pobreza, mantidos esses níveis de crescimento. Pior do que isso: a produção não será suficiente, os empregos não serão suficientes, a água potável se tornará escassa até mesmo nos grandes centros desenvolvidos do mundo contemporâneo, daqui a poucos, muito poucos anos! A população do mundo precisa parar de crescer! Diante desse quadro, o que seria “Desenvolvimento Sustentável”?

Em primeiro lugar, nenhuma ação será suficientemente eficaz sem distribuição das riquezas e eliminação dos bolsões de pobreza. A miséria é a célula cancerosa que se espalhará por todo organismo social, matando-o. É imprescindível eliminar a pobreza! O problema é: qual o ser humano RICO que estaria disposto a abrir mão de parte de sua riqueza para mitigar a fome de seu semelhante em troca de nada, simplesmente por compaixão e caridade? Nenhum, certamente!

E se for para salvar sua própria vida?

Sim, salvar a vida, pois a miséria se espalhará pelo mundo na medida em que os espaços cultiváveis forem ocupados, deixando atrás de si terras devastadas. Hoje, o mundo se caracteriza pelo retorno das “plantations”, as enormes áreas de monocultura de soja, de cana de açúcar, de trigo, de eucalipto, de pinus… as imensas pastagens… e as áreas de cerrado se queimando, para se transformar em novas “plantations”, as florestas sendo queimadas, para se transformar em pastagens… um dia todas desaparecerão!

Mas a humanidade continuará a crescer, a consumir desesperadamente, e a produzir lixo, muito lixo! E as fontes de energia não renováveis se extinguirão; e as novas fontes de energias renováveis consumirão terras que produziam alimentos; e as fontes de água potável se tornarão insuficientes para matar a sede de prováveis 10 bilhões de habitantes; e um exército de sedentos e famintos percorrerá a Terra em busca de saciar suas necessidades, matando e roubando, se for preciso, transformando nosso planeta em um local desprezível, pior até do que as mais trágicas ficções do cinema que costumamos assistir entusiasticamente, até com certo “prazer” mórbido, como se não nos dissesse respeito…

E não mais existirão “ambientalistas”, que desaparecerão junto com a Natureza, consumidos pela ambição desmesurada dos seres humanos, que conquistaram o poder e determinaram a prevalência de seus “valores desenvolvimentistas” e imediatistas, em detrimento da preservação da própria espécie! Mas então não há saída? Claro que existe! E ela é óbvia, como todas as grandes verdades!

O primeiro passo é ter consciência dessas possibilidades catastróficas e não compactuar com elas. É apoiar causas ambientalistas, sem paixão, mas com responsabilidade! Hoje, a maioria das pessoas acredita que “o ambientalista é uma espécie de herói, a quem é dado o poder de salvar a humanidade, sem que cada um precise fazer a sua parte!” Isso é impossível, estúpido, injusto e irracional! Para que haja uma saída são necessários os esforços e o comprometimento dos políticos, dos empresários, dos educadores e do povo!

O que deve ser preservado? Essa é a primeira grande questão! As reservas ecológicas existentes, supondo que sejam preservadas, seriam suficientes para assegurar a preservação das espécies e garantir o futuro da Humanidade? Olhando para a Amazônia, foco de todas as ações atuais, o que ainda pode ser salvo? O Pará está condenado pelas madeireiras, mineradoras, pecuaristas e agroindústrias, assim como grande parte do Mato Grosso e Rondônia. O Amazonas ainda pode ser salvo, assim como Roraima, Acre e outros estados. Mas é preciso um estudo detalhado daquele ecossistema para entender o que não pode ser destruído sob pena de causar um efeito de sucessivas degradações até a extinção do meio ambiente.

A Natureza é um organismo extremamente frágil e sensível; às vezes, basta eliminar uma fonte de água para acabar com todo ecossistema; veja, por exemplo, o Cerrado. Sua rica e exótica vegetação depende das águas subterrâneas que, por sua vez, dependem do tipo de solo e dos canais nele esculpidos para se locomoverem. Basta cortar um desses caminhos, e o que vem depois será devastado! Portanto, os sistemas hídricos da Terra precisam ser profundamente estudados, compreendidos e considerados nos planos de ocupação humana.

Curiosa é a ação governamental na bacia do São Francisco! Sabendo do estado lastimável em que se encontra o rio devido às intervenções humanas, principalmente na região das nascentes, resolve investir 6,6 bilhões para tirar mais água e distribuir para outras bacias do Nordeste! Não satisfeito, e em resposta às pressões ambientalistas, cria um plano “emergencial” de “revitalização“, cujos primeiros investimentos foram para saneamento de esgotos nas localidades da Bahia, próximas às obras de transposição!

Oras, se não se cuidar do rio onde ele é gerado, de que adianta cuidar dos esgotos? As cabeceiras dos rios estão sendo destruídas pelas águas das chuvas devido à queda dos barrancos, uma vez que as matas ciliares foram arrancadas pelos agricultores! É lá que precisa haver investimento! É a terra arrancada dos barrancos e arrastada pela correnteza que causa o assoreamento! É o alargamento do rio que aumenta a evaporação e reduz o volume de águas do rio! É a morte das matas que causa o desaparecimento das espécies da rica fauna da região!

Não é meu propósito escrever um tratado sobre o assunto, mas alertar para o momento crucial que estamos vivendo: nunca a sociedade teve tamanho poder destrutivo, e nunca a população chegou aos níveis críticos em que se encontra. Nunca as fontes de água doce foram tão ameaçadas, seja pelo degelo dos glaciares, seja pela contaminação dos aquíferos e das águas de superfície, seja pelo uso dessas águas para consumo industrial, seja pelo consumo doméstico sem nenhum controle, seja pelo uso indiscriminado de agrotóxicos pela lavoura!

Enfim, existe o chamado “Desenvolvimento Sustentável” Ele é possível? Sim e não; depende do que pretendemos significar com essa expressão. Se nosso propósito é apenas de marketing, para vender “créditos de carbono”, o desenvolvimento sustentável é uma grande mentira que nos conduzirá mais rapidamente para o fim! No entanto, se houver sinceridade de propósitos, se houver determinação da comunidade internacional até para impor aos governos dos países uma atitude responsável perante os tesouros da Natureza e de sua preservação, então será possível alcançarmos juntos o desenvolvimento sustentável, desde que associado a uma política socializante e humanitária!

DE TRÊS MARIAS A ITACARAMBI

Buritizeiro, Retomada da expedição – 22/09/2009 – 18h30

Sul: 170 54´ – Oeste: 450 07´

Ainda não sei qual será o destino desta expedição… chove a cântaros! Mal deu para chegar aqui, armar a barraca, tomar um banho “de gato”, e logo a chuva chegou, precedida de uma ventania violenta. Eu estava em uma ilha, no meio do pasto!

Permaneci três dias em Três Marias… a secretaria de turismo me acolheu, pagou alimentação e hospedagem, graças à intervenção de um jornalista, meu “anjo da guarda” nesse trecho da viagem. Fiz uma saída simbólica da Prainha, que nos finais de semana fica cheia de turistas e moradores da redondeza. Fui a uma rádio para entrevista e dei um depoimento no jornal “O Sertanejo”, para o que tive todo apoio do Secretário e de seu assessor, responsável pela Prainha.

Hoje, o pescador Norberto, figura lendária dessa região, me conduziu até a “cachoeira” Grande. Na verdade, trata-se de uma corredeira que se avoluma graças à largura do rio (mais de 300 metros) e não pela periculosidade ou dificuldade que apresenta. Percebi que as corredeiras que enfrentei em junho, entre Vargem Bonita e Doresópolis, antes do encontro com o Samburá eram muito mais violentas, perigosas e difíceis! De qualquer modo, foi um privilégio conhecer e conversar com Norberto.

Ainda estou “frio” para a expedição! Foi um erro interromper a viagem em junho. Não consegui nenhum patrocínio, atrasei três meses a viagem e perdi a convicção. Tudo ficou mais difícil. Os apoios recebidos até agora não representam nada em termos financeiros para mim. Não preciso de hospedagens, nem da mídia local. E continuo um desconhecido para o País.

Não estou desprezando o esforço de tanta gente; apenas sou realista. A única mudança que houve e tem grande significado para mim é o apoio da Mory, minha mulher. Sua presença simbólica ao meu lado é a minha grande motivação. Mas e a mudança de estação? E as chuvas que chegaram fortes? Como farei? Estou preocupado com esse momento pois ainda estou em uma região de muita chuva, parte central de Minas Gerais.

Com relação ao meio ambiente a transformação foi radical! Primeiro, a represa, de águas azuis e límpidas, em contraposição às águas barrentas do trecho que percorri. Depois da represa, águas verdes e cristalinas…

Para minha surpresa, as margens ainda tem belas matas ciliares, apesar de muita destruição, que continua acontecendo, sem que os responsáveis sejam punidos. Finalmente, muita gente habita as margens do São Francisco: ranchos e sítios!

Ainda faltam quase 70 quilômetros para Pirapora. Se a chuva parar amanhã, chegarei dia 23 à tarde. Chove muito! Por enquanto, a barraca está aguentando e o vento parou de fustigar. Tempestade! A água já está entrando por baixo da barraca… vai ser terrível, esta noite! E nada posso fazer… amanhã, mesmo que a chuva pare, estarei com a barraca encharcada… Vou tentar dormir e fingir que tudo não passa de um pesadelo! Minha vida é assim… nada acontece facilmente… tudo tem que ser pela via mais difícil.

 A tempestade aumenta – 02h00

Depois de ouvir uma revoada de pássaros resolvi verificar o nível do rio… que surpresa! Minha canoa já estava sob as águas, que se aproximavam perigosamente da barraca. Os raios e trovões já haviam cessado e a chuva estava mais branda.

Tirei toda roupa, enfrentei a tempestade, retirei a canoa da água e comecei a me preparar para uma possível retirada de emergência. Guardei o que pude, fechei as sacolas e as arrumei dentro do barco; tirei tudo, inclusive o saco de dormir e o isolante térmico; só ficou a barraca para me proteger.

Foi um erro, pois a barraca estava úmida e a temperatura baixava rapidamente. Passei frio o resto da noite, observando o nível do rio. Para isso coloquei um pedaço de madeira, como marcador, na frente da barraca; se a água passasse daquele ponto, evacuação imediata!

Distância de Pirapora: 45 km – 23/09/2009 – 17h17

Sul: 170 41´ 47” – Oeste: 450 01´09” – Altitude: 482 metros

Acordei às 06h00… na verdade, quase não dormi depois das 02h00! Pela manhã a chuva continuava a cair fraca, mas toda barraca estava encharcada! Esperei cerca de uma hora mas, como não havia perspectiva de o sol se abrir, resolvi prosseguir a viagem. Desmontei a barraca e a coloquei no barco, sem nenhuma preocupação de arrumá-la! Não tinha jeito mesmo…

Tive que espantar o gado para ter um pouco de privacidade, pois eles simplesmente queriam revirar todo meu equipamento em busca de comida! Só não vieram antes porque estava chovendo… bastou abrandar um pouco a chuva para eles se aproximarem devagarinho… primeiro, do barco, depois das sacolas que ainda estavam fora. Aproveitaram minha ausência para atacar!

Dá para compreender a analogia que os hindus fazem entre o boi e um místico… esses animais são tranquilos e pachorrentos, caminham devagar e emitem aquele mugido inconfundível e grave… ruminam a comida como um macrobiótico, e não enfrentam seu inimigo, exceto quando este se aproxima de uma fêmea no cio ou com filhotes…

Fiquei apreciando aqueles animais enormes à minha volta, sem representar nenhum perigo… se fosse um animal selvagem, eu estaria morto. São belos e parecem sábios, embora sejam mesmo tolos, e caminham para o matadouro sem reagir, como Gandhi!

Devo ter saído lá pelas oito horas. Remei até o meio-dia, quando a chuva voltou a cair. Procurei um lugar para montar a barraca, mas a mata era bem fechada em ambas as margens. Parei em um rancho e perguntei se poderia montar a barraca no terreno ao lado da casa. O dono, Francisco como o rio, foi até a canoa, ajudou-me a tirar a bagagem e disse que eu ficaria hospedado em sua casa! Hospitalidade Mineira!

Francisco mora em Uberlândia, mas passa boa parte do ano em seu rancho. Estava com seu pai, Francisco como o filho; ele, com 56 anos, o pai com 72. Ofereceu-me um banho que aceitei de pronto! Banho quente, com direito a sabonete e toalha! Depois daquela chuva, era tudo o que eu desejava! Tomei o banho como quem bebe água em um deserto!

Depois, enquanto o pai preparava o almoço, saímos para conhecer o rancho, de 36 mil metros quadrados; na verdade, era uma pequena ilha do São Francisco, concessão da Marinha, que é responsável por todas as terras dentro e às margens do rio.

Francisco me disse que encontrara as terras completamente desmatadas… plantou árvores frutíferas para se alimentar e atrair pássaros; seu aroma se espalhava por todos os lados da ilha. Criava galinhas caipiras e d’Angola, com aquela aparência rajada, branca e preta, e seu pescoço preto e cabecinha minúscula. Andavam soltas pelo terreno à frente da casa, onde curiosamente ele jogava pontas de cigarros e embalagens de refrigerantes e cervejas. Dizia que de vez em quando retirava tudo e levava para a cidade, jogando tudo nas lixeiras… estranho hábito…

No interior da ilha existem duas ou três figueiras enormes, que ele considera seu maior tesouro! Realmente, são árvores magníficas, entrelaçadas no mato com seus troncos negros, contrastando com as folhas verdes e brilhantes.

Francisco é um bom homem. Construiu um chalé, que aluga para pescadores, aos quais ensina as “manhas” e mostra os melhores lugares para pesca no Velho Chico. Estava justamente esperando um grupo de pescadores quando eu cheguei.

Almoçamos depois de tomarmos umas doses de cachaça e provar um tira-gosto… coisa de mineiros! Tira-gosto, como disse o delegado lá de Iguatama, é para se comer depois de um gole da cachaça: para tirar o gosto! Arroz, feijão, jabá, torresmo, mandioca cozida e salada de tomates, além de um suco de tamarindo. Uma delícia!

Terminado o almoço, a chuva já havia parado; como ainda era bem cedo, resolvi prosseguir e ganhar distância. Precisava avançar mais para poder chegar a Pirapora ainda no dia 24 de setembro, dia do aniversário de minha filhota Luciana!

A tentação do conforto era grande, mas agradeci-lhes a hospitalidade e segui meu caminho por mais de uma hora, quando a chuva voltou a cair. Encontrei um local muito bonito, mas com muita lama. Sem escolha, pressionado pelo tempo e pela chuva, montei minha barraca ainda molhada, subindo pelo barranco e procurando um lugar no enorme gramado à minha volta. Deixei-a secar no vento, antes de ocupá-la.

Para minha sorte, a chuva parou e até apareceu uma réstia de sol… mas a noite seria longa, pois ainda era muito cedo para dormir, e não tenho fome nem disposição para preparar um jantar. Comi demais e bebi umas várias doses de cachaça no almoço!

Durante nossas conversas Francisco me dissera que há alguns anos (depois soube que foi em fevereiro de 2004) uma indústria metalúrgica de Três Marias fora responsável por um terrível desastre ecológico às margens do São Francisco. Essa indústria, próxima à ponte da BR-040, explora o manganês e joga seus dejetos (minério processado, produtos químicos, metais pesados, ácidos, etc) em um lago formado à beira do barranco, à margem do rio.

Durante a temporada de chuvas a barragem abriu as comportas e toneladas desses produtos foram lançadas ao rio, causando a maior mortandade de peixes e poluindo suas águas. Durante muitos meses os pescadores foram proibidos de pescar e ficaram sem trabalho! O incidente (crime ecológico) foi abafado pela imprensa e a empresa não pagou sua dívida social, nem corrigiu o problema; até hoje o lago está lá, ao lado do rio, diante dos olhos dos fiscais do Ibama, se porventura eles passassem por lá.

Os pescadores, sem condições de sobrevivência, penduraram as carcaças de grandes peixes, mortos pela poluição, nas árvores, ao longo do rio até Pirapora. Essas carcaças ficaram apodrecendo ao relento, como testemunhas do crime ambiental praticado. Infelizmente, esse não é o único crime ambiental praticado pelas empresas de mineração, que nunca tiveram grandes preocupações em preservar a Natureza. Prova disso são suas atividades mais “nobres”, sempre de alto impacto ambiental, sempre relacionadas à mineração e alto consumo de energia elétrica.

Mesmo lugar – 02h30

A chuva voltou! Mais branda que ontem, mas persistente… pelo tempo decorrido entre o relâmpago e o trovão[1], o olho da tempestade está a uns 5 km daqui. Por enquanto, não percebi nenhum aumento no nível das águas do rio.

Um péssimo sinal: minhas baterias estão todas com pouca energia! Creio que a umidade da primeira fase da expedição tenha danificado sua estrutura e reduzido seu tempo de vida pois, antes de retornar ao rio eu carreguei todas elas.


[1]    Velocidade do som: 340 metros por segundo; calcula-se a distância da tempestade multiplicando-se a velocidade do som pelo tempo decorrido entre o relâmpago e o trovão.

Reflexões…

O que nos torna expedicionários? A capacidade de automotivação? O fato de sermos destemidos? A superação de nossos limites diante das adversidades? O descaso pela frequente exposição aos riscos e perigos? Ou a convicção inabalável em nossos objetivos?

Apesar da importância de todas essas características somadas, somos humanos e temos necessidade, ainda, de reconhecimento de nossos feitos pela sociedade. Não nos arriscamos por essa fama, mas precisamos dela como alimento para nos sentirmos úteis e mesmo integrados, ainda que por um liame sutil, às pessoas a quem queremos bem… essa é uma constatação difícil de ser aceita, pois temos em nossas mentes a convicção de nossa independência desse mundo, uma sensação de autossuficiência, que não é verdadeira, mas nos preserva a vida.

Pois, rompido esse vínculo, já não haveria mais nenhum apego ao mundo material, e estaríamos sujeitos à perigosa emoção da aventura plena, sem limites, ao domínio da adrenalina sobre a razão…

Talvez, um dia, eu parta para uma expedição extrema, isolado de todos, a centenas de milhas de qualquer sinal de civilização, a experimentar essa sensação do imponderável, da liberdade plena! Não quero envelhecer… tenho medo de chegar à velhice desprovido de minhas capacidades, dependente da compaixão, um peso incômodo, um fardo inútil, uma vez que impotente para corresponder à minha parcela de contribuição ao mundo. Sou, enquanto posso ser útil, ainda que minha concepção de utilidade não seja a mesma desse mundo capitalista e consumista.

Mas, ainda assim, tenho consciência de meu valor, mesmo que seja para contrapor meus pensamentos a essa visão fútil do mundo, que só existe porque produz o excesso e consome demais, que nem ao menos tem consciência de seu peso insustentável para a Natureza.

Por isso, ainda sou útil e espero ser ouvido e compreendido, mesmo que por uma minoria quase irrelevante… se meu exemplo for um incômodo por refletir a verdade, então terá valido a pena, mesmo que eu seja esquecido quando minhas cinzas se espalharem pelos rios e se reintegrarem ao amálgama da Vida!

Pirapora, 24/09/2009

Remei forte, hoje, e percorri cerca de 50 km em cinco horas! Muitas contradições em meu caminho! Primeiro foi a “mata de cenário”: você olha o rio e vê o verde das matas por quilômetros… de imediato, a alegria de perceber aquela mata preservada.

Porém, ela não resiste a um olhar mais acurado: é tudo mentira! Da mata ciliar, o que restou foram somente os “cílios”! A mata não existe! Somente as árvores que se sustentam na encosta dos barrancos, só fachada para enganar os fiscais! Por trás, menos de 10 metros além do rio, é somente a lavoura ou o gado, regados a água tirada do rio por enormes bombas de sucção, muitas delas instaladas dentro do próprio leito!

E o IBAMA, o IEF, a Polícia Florestal? Não vê quem não quer!…

Outros mais descarados arrancaram tudo, até a beira do rio, e continuam desmatando, queimando, destruindo… é um belo e triste cenário… belo porque as árvores sombreiam o rio e dão a ele seu contorno verdejante; triste porque essa mata pobre não sustenta a vida selvagem… não se ouve o canto dos pássaros… tudo vazio…

Alguns chegam a gramar tudo, deixando algumas árvores bem podadas, qual esculturas, plantando paineiras ao redor da bela casa do Senhor Barão!

O calor estava insuportável e tomei uns três litros de água, que não me saciaram…

O rio tem muitas ilhas, centenas delas… algumas grandes, todas baixas… imagino que na temporada de chuvas a maior parte fica submersa com sua bela e diversificada vegetação, mesclada com lavouras de milho, abóbora, mandioca, tomate…

Quase todas as ilhas são habitadas; algumas são concessões da Marinha – comodatos; outras, apenas ocupadas por pescadores, feirantes, vizinhos que moram nas pequenas comunidades ou nas cidades ribeirinhas, e que usam o produto da colheita para consumo próprio, para alimentar o gado ou para escambo.

Nesse trecho, o rio deve ter uns 300 metros de largura, e as águas seguem tranquilas, suavemente levadas pela pequena declividade do terreno.

Creio ainda não ter contado a história da “Criminosa”, ou cachoeira do Ladeiro, como era chamada antes do terrível acidente.

Conta Norberto, o pescador, que um grupo de lenhadores, que cortava as árvores para alimentar as caldeiras dos vapores no início do século XX, agrupava sua carga de troncos sobre as águas do rio antes de conduzi-la pela correnteza até Pirapora.

Naquele dia fatídico os homens tinham bebido além da conta, mas resolveram prosseguir mesmo assim; um deles teve uma paralisia em decorrência de um acidente mas, mesmo assim, os companheiros o acomodaram em uma cadeira sobre a lenha.

O que aconteceu a seguir foi relatado pelo único sobrevivente, curiosamente aquele com paralisia, sentado meio inútil sobre a carga, seguindo à mercê da correnteza e de seus amigos ébrios.

A “cachoeira” do Ladeiro é uma corredeira provocada por enormes blocos de pedra espalhados sobre o leito do rio, provavelmente um desmoronamento de rochas. Quando o rio tem seu volume de águas reduzido, na época da seca, essas pedras ficam perigosamente à superfície sob as águas. Na época das cheias, elas apenas agitam o rio, sem perigo à navegação.

Pois esses lenhadores estavam justamente nessa época perigosa e, desavisados pela bebida, não perceberam o perigo… a “jangada” se esfacelou e os homens desapareceram na turbulência.

Quem teria sido o “criminoso”? A corredeira que sempre lá esteve no curso da história? Ou a “marvada pinga” que turva os espíritos, deixando os homens impotentes…

Assim, a “cachoeira” do Ladeiro passou a ser chamada de “A Criminosa”…

Quando me aproximei de Pirapora o rio se expandiu em todas as direções… tornou-se gigante, como a se preparar para as magníficas corredeiras! Um espetáculo majestoso, como um grande lago, cercado das matas “de cenário”, refletindo o verde e o azul celeste, as nuvens brancas desenhadas nas águas em figuras mutantes…

Em seguida, a ponte nova, sem atrativos, mas já deixando entrever a imponência da belíssima ponte férrea “Marechal Hermes”, construída sobre pilares de pedra, parecendo-se com as pontes de nossos sonhos infantis.

Mais de perto vê-se que ela está interditada para veículos e para o trem que lá nunca passou, e passam apenas pedestres, ciclistas e motos, fazendo um barulho constante, intermitente, como os vagões de um trem sobre os dormentes… de certo modo, esse ruído resgata a frustração da ponte que nunca viu um trem sobre sua bela estrutura.

Se fecharmos os olhos dá até para imaginar a locomotiva “Maria Fumaça” soltando seus rolos de vapor quente e apitando para avisar a cidade de sua chegada!

Parei antes da ponte velha pois sob o seu esqueleto decadente já se percebe o agitar das corredeiras. Fiquei mais de duas horas esperando o transporte da canoa. Eu havia ligado para um contato fornecido pelo meu amigo Closé. Chegou uma pequena caminhonete cheio de galões de água, onde mal couberam minhas sacolas…

Resolvi aceitar a oferta de um garoto para transportarmos juntos a canoa, ele me indicando o caminho; e nós dois, remando, enfrentamos as corredeiras com o barco vazio… pura adrenalina! As quedas d’água eram pequenas, mas o volume de água era o suficiente para estimular as manobras para desviarmos das pedras, a maioria submersa. Só em um pequeno trecho fomos obrigados a tirar a canoa da água, pois a queda era muito brusca e as pedras não permitiam manobras evasivas eficientes.

Foi sensacional! Chegamos ao vapor Benjamin Guimarães, um velho navio trazido da Amazônia, depois de fazer carreira no Mississipi no final do século XIX. Fiquei hospedado em um dos camarotes, bastante simples e pequeno, apenas com uma beliche, uma pequena estante e uma pia; o banheiro ficava na popa, ao fundo do bar.

Esse vapor, cujas caldeiras se alimentam de madeira (muita madeira!), junto com tantos outros, ajudaram a dizimar a mata ciliar no trecho compreendido entre Pirapora, MG e Juazeiro, BA, uma extensão de mais de 1.300 km. Eram cerca de trinta e cinco vapores que transportaram passageiros e carga durante quase meio século.

Hoje, o Benjamin Guimarães faz passeios turísticos entre Pirapora e Januária, passando pelas cidades desse trecho mineiro, e utiliza eucalipto para aquecer sua caldeira… melhor? Não sei… as “florestas” de eucalipto e de pinus são cultivadas onde antes havia matas nativas, de grande diversidade biológica, e hoje não tem habitantes, sejam os pássaros ou qualquer outro tipo de animal, que não consegue subsistir em matas homogêneas e pobres de alimentos.

Dragas à beira do rio para irrigar lavouras e dessedentar o gado

Benjamin Guimarães e os vapores do Velho Chico

O São Francisco já foi conhecido como o “Rio da Integração Nacional”. Isso porque, desde a década de 1920, cerca de 30 vapores e dezenas de barcas de porte médio faziam a rota de Pirapora, em Minas Gerais, a Juazeiro, na Bahia, transportando passageiros e cargas por uma extensão superior a 1.300 quilômetros.

Alguns desses vapores foram trazidos do Mississipi, Estados Unidos, onde navegavam desde o século XIX, e foram aposentados com o surgimento das embarcações movidas a óleo diesel. O vapor Benjamin Guimarães foi um deles; construído em 1913, passou primeiro pelo rio Amazonas e chegou a Pirapora em meados da década de 1920.

A história dos vapores está intimamente ligada à aristocracia social do Nordeste e ao desmatamento nessa região do São Francisco. À primeira, porque em seus camarotes viajavam os nobres de Barra, na Bahia, e de outras cidades da nobreza da época, em suas andanças pelas cidades do oeste baiano e mineiro. Ainda hoje Barra ostenta seus casarões suntuosos e o que resta de sua aristocracia e tradições burguesas.

Mas são os danos ao meio ambiente que marcaram a história desses vapores. Cada vapor consumindo um metro cúbico de madeira por hora, pode-se imaginar o custo ambiental de uma viagem de mil e trezentos quilômetros! Primeiro foram as matas ciliares, derrubadas sem piedade por lenhadores que vendiam a madeira na passagem dos vapores.

Se inicialmente havia algum critério na escolha dos melhores troncos, aqueles que produziam mais calor nas caldeiras, com o tempo essa madeira foi se escasseando e já se aceitava qualquer tipo de arbusto derrubado, desde que os barcos não parassem de circular, escoando a produção do Nordeste e do estado de Minas Gerais.

Depois, com a extinção da mata ciliar em quase todo trajeto dos vapores, passou-se a utilizar as madeiras mais nobres da caatinga e, finalmente, dos cerrados. O desastre foi tremendo e pode-se constatar ainda hoje a devastação causada por esse meio de transporte. É certo que não foi o único, pois muitas indústrias ainda hoje se alimentam do carvão produzido nos fornos clandestinos que se ocultam nessas paragens… mas o vapor teve seu papel preponderante para que, na década de 1980, os militares determinassem a extinção das viagens dessas embarcações tradicionais do rio São Francisco.

Restou o Benjamin Guimarães… tendo passado por vários proprietários, públicos e privados, e por duas reformas restauradoras, o vapor permanece na ativa, agora como barco de turismo, utilizando madeira de reflorestamento de eucalipto, e percorrendo o trecho que lhe coube, de Pirapora a Januária, ambas cidades mineiras.

Com a construção da represa de Sobradinho, no final da década de 1970, o trecho navegável para os vapores se resumiu a esse pequeno trajeto. As enormes ondas provocadas pelos ventos tornaram a navegação no lago de 350 km de extensão e até 60 km de largura, perigosas demais para essas embarcações; e o assoreamento fez o resto.

Atualmente, existem trechos do rio cuja profundidade máxima não passa dos três metros! Mesmo nos trechos navegáveis, percorridos pelo Benjamin Guimarães, sua passagem só é possível com a abertura das comportas de Três Marias e o aumento do volume de águas correspondente a uma lâmina de água de quase um metro!

Os vapores ficaram na memória dos saudosistas e na lembrança de seus comandantes… a nova era do agronegócio e das rodovias sepultou essas embarcações, e mesmo o Benjamin Guimarães tem seu papel questionado por ainda utilizar madeira, mesmo de reflorestamento, como combustível de suas caldeiras… afinal, sua operação ainda seria rentável, ou ela se sustenta nos subsídios públicos que viabilizariam os negócios turísticos de Pirapora?

Uma certeza permanece: a navegabilidade do Velho Chico é um propósito louvável e deveria estar incluída em um projeto de revitalização integrada, compreendendo ações de despoluição das águas, de contenção imediata dos desmatamentos e de recuperação das áreas degradadas. Sem isso, como se pensar em distribuição de suas águas?

 Almoçando com o Inimigo – 25/09/2009 – 14h40

Paguei para almoçar com agricultores e pecuaristas do estado campeão de desmatamento em nosso país: o Mato Groso, arqui-inimigo do meio ambiente, um dos maiores produtores de soja do mundo, incensado pelo entusiasmo da imprensa especializada.

Para produzir soja, criar gado, plantar cana de açúcar, milho e outras monoculturas, a agroindústria, incentivada pela omissão dos órgãos que deveriam fiscalizar o meio ambiente, como IBAMA, IEF, ICMBio, queima e destrói enormes extensões de cerrados, caatinga e florestas tropicais, sem nenhuma preocupação com o futuro de nosso povo.

É curiosa a mentalidade desses “empresários”: Eles desmatam, plantam soja, criam gado e se enriquecem até a terra não produzir mais nada, esgotada que foi pela exploração intensiva e predatória! Depois não querem “pagar a conta”! Não aceitam investir o “seu” dinheiro para recuperar a terra devastada! Simplesmente jogam a conta nas costas do governo e da sociedade que os enriqueceu, e partem para derrubar mais florestas! Disseram-me isso no maior descaramento e naturalidade!

E ainda me perguntaram, ironicamente: “quem paga a conta? A terra já não presta para nada! Nós produzimos alimento para o povo brasileiro e agora precisamos de mais terras para plantio! É necessário ampliar continuamente as fronteiras agrícolas desse país, enquanto a população não parar de crescer!” É muita arrogância ou imbecilidade!

E mais! Dizem na “cara dura” que o estado de Mato Grosso é o que mais respeita a legislação ambiental! É claro que sim! Deixam 20% da parte mais pobre da terra que possuem, a maioria dela grilada em anos passados, sem desmatar… Desmatar o que?

A ironia desses magnatas do agronegócio é exasperante! Enriquecem empobrecendo a terra! Pouco se importam com o destino de nosso mundo… acreditam – e tem razão – que a terra usurpada da Natureza garantirá a seus filhos a continuidade da luxúria! Sim, é verdade: os ricos herdarão a Terra, enquanto bilhões viverão na miséria, passarão fome e sede e perecerão à míngua!

E quando vier a catástrofe inevitável, a hecatombe ambiental, poucos sobreviverão… quem? Os ricos! Justamente quem provocou a tragédia e viveu como um nababo[1]! Revoltante? Claro que não! Se fosse assim, todos que me leem e que tem consciência disso estariam se mobilizando em defesa de seus herdeiros, filhos e netos…

Estou certo de que a maioria das pessoas pensa e sonha em fazer parte dessa minoria, enriquecer e garantir o seu futuro, em detrimento da Humanidade… Infelizmente, os seres humanos ainda são muito egoístas, pensam apenas em si mesmos, e esse comportamento elimina a possibilidade de vitória do bem sobre o mal e garante a continuidade de nossa sociedade de consumo irrestrito e irresponsável!

É uma pena… esse final não será belo, nem mesmo para os que sobreviverem. Pouco restará do que existe para ser apreciado e o mundo herdado será um gigantesco deserto, com poucos oásis onde se agruparão os “eleitos”… haverá uma vaga lembrança de nosso magnífico mundo em zoológicos e pequenas reservas naturais…

Desejo, sinceramente, que todos os omissos também façam parte desses “privilegiados” que herdarão a Terra… árida!… seca!… sem vida… sem o canto dos pássaros… quase sem água… fétida, miserável e povoada por bandidos e saqueadores! Nem todo ouro, nem toda riqueza que restar servirá para mitigar a fome, a sede e o ódio que reinarão nesse ambiente onde a decadência será inevitável!

Façam bom proveito da areia, do sol causticante, do mar sem vida e das mansões abandonadas! Vivam como Mad Max[2], pilotando suas máquinas potentes pelos desertos que semearam, atacando e fugindo dessa horda de inimigos que vocês mesmos criaram, e serão tantos, capazes de matar até por um pouco de água…

Nós, ambientalistas, seremos dizimados na primeira hora, vozes inconvenientes do verdadeiro holocausto que ainda está por vir. Não importa… se for assim, teremos perdido a guerra e nada do que tenhamos dito fará mais nenhum sentido…

O mais incrível é que se a humanidade conseguir evitar a tragédia e despertar a tempo,  ainda assim quem vencerá serão os mesmos ricos que hoje devastam a Natureza! E de algozes assimilarão o discurso da “sustentabilidade”… e cinicamente apregoarão tudo aquilo que hoje abominam. E, novamente, seremos nós, os ambientalistas, os culpados, responsáveis por apregoar o fim do mundo, vozes anacrônicas, Nostradamus contemporâneos… e a nós será reservado o lixo da história, o ostracismo e o desprezo.

Mesmo assim, perseveraremos até o fim, em nome de nossos descendentes.


[1]    Nababo – antigo governante árabe; hoje, a palavra é usada para designar uma pessoa muito rica e ostentadora

[2]    Mad Max – opus citatum pág. 68

Um modelo de desenvolvimento, 25/09/2009 – 14h40

Ao contrário do que se pensa e se fala, até com grande animosidade e – por que não? – ódio, a preservação ambiental e o desenvolvimento econômico não estão, necessariamente, em lados opostos da arena política. Mas é preciso compreender com clareza e sem paixão que, até hoje, o enriquecimento das empresas e dos empresários não trouxe melhoria da qualidade de vida e dignidade humana à população.

Como mencionamos o estado de Mato Grosso, é bom lembrar que os que se enriqueceram não são, via de regra, daquela região, não tendo, portanto, compromisso com a terra, seja quanto à sua memória histórica, seja quanto a relações sociais. A população nativa continua pobre e recebendo as migalhas caídas das mesas desses megaempresários do agronegócio.

Basta olhar as estatísticas do IBGE…

Aos mais velhos, como eu, vale recordar “os bons tempos do milagre brasileiro”, na década de 70. Naquela época os militares no poder falavam em primeiro “fazer crescer o bolo” para depois reparti-lo com o povo. O “bolo” foi, de fato, repartido entre aqueles que se apoderaram do país e de seus asseclas… o povo, mais uma vez, foi esquecido na miséria, na ignorância e à margem do caminho. Agora o governo distribui suas esmolas a milhões de brasileiros que continuam na miséria mas, graças ao “bolsa família”, ajudam o “outro Brasil” a crescer na onda do consumismo!

Então, qual seria esse “novo modelo de desenvolvimento”? Qual é o milagre?

Não há milagre. Para acabar com a miséria só há um caminho: estabelecer limites para a riqueza pessoal, taxando fortemente a renda acima de patamares éticos, e investir intensivamente na cultura, na educação e no saneamento básico. Acabar com os focos de pobreza extrema significa nada menos que distribuir a riqueza extrema.

Isso basta? Claro que não! Mas é o mais difícil, pois mexer com o dinheiro dos ricos é tarefa para um estadista ficar na História como um grande reformador!

E quando falamos de investir na educação e saneamento básico não nos referimos aos estados ricos do sul e do sudeste, que esses tem condições de fazê-lo sem o paternalismo da União. Queremos nos referir aos verdadeiramente pobres irmãos do nordeste, do norte e do centro-oeste, aqueles brasileiros esquecidos de todos, que vivem à míngua, cercados de riquezas naturais e em processo de destruição.

A educação pública tem melhorado muito nos últimos anos, mas nesses lugares remotos o desnível cultural não tem precedentes! É escandaloso, indecente, imoral!

A outra parte do “milagre” é construir uma sociedade Solidária, e isto vai muito além da vontade política. O primeiro passo é enxugar o Estado. De novo? Não, porque nunca foi feito. Isso passa por punir rigorosamente a corrupção, o desvio de verbas, o abuso do poder, eliminar a gigantesca rede de favorecimentos de um governo paralelo!

Fácil falar, difícil realizar…

É verdade, mas um novo país não se constrói sem dor. Os partidos políticos são a fonte de corrupção mais evidente, pois quando um está no poder forma-se um núcleo de partidos adesistas, só interessados nas nomeações para cargos de segundo e terceiro escalão, enquanto que outro grupo se organiza na oposição, cujo único propósito é impedir a governabilidade. Ou seja, na realidade, são apenas dois “partidos” políticos: o da situação e o da oposição. O resto é figuração.

O que os políticos chamam de “jogo democrático” tem tudo a ver com jogo, mas nada com a Democracia! Enquanto um bando se digladia na arena política, no seu mais sórdido significado, uma população inteira é massacrada pelo poder econômico!

A solução é acabar com os partidos políticos, criar conselhos comunitários não remunerados, de preferência com os mais sábios, mais idosos e mais idealistas, lideranças naturais que cada comunidade sabe quem são e o que fazem.

Esses, por sua vez, elegeriam seus representantes regionais, que também escolheriam líderes que os representassem, até chegar ao nível nacional. Essa pirâmide de poder seria mais estável e de confiança de seus liderados e ninguém teria assegurado seu poder, exceto por essa relação delegada que, a qualquer instante poderia ser revogada. O “Politburo”[1] dos estados socialistas é concebido e funciona desta maneira.

Então, por que não deu certo?

Porque a corrupção é o Vampiro de todas as sociedades e sangra até matar! Por isso, o inimigo mortal do povo é a corrupção, esse fantasma que ronda todas as sociedades e esfacela suas estruturas mais sólidas, porque age às escondidas, insinua-se como a prostituta, corrói como o ácido, vicia como a heroína, sangra como o vampiro e se fortalece com a omissão dos fracos e com o medo dos covardes…

Em todos os níveis as decisões seriam tomadas em colegiado e, dependendo da gravidade e impacto social, não havendo unanimidade nem consenso, referendadas nos níveis políticos imediatamente inferiores. Isso garantiria a existência de um Estado Democrático de pleno direito e representatividade, embora sem partidos políticos e sem órgãos consumidores de recursos e incompetentes como as Assembleias, Câmaras e Senado, bem como seus respectivos anexos, assessorias e correlatos.

Só nessas instituições, quantos milhares de empregos seriam eliminados? Empregos desnecessários, diga-se de passagem. Basta, para convencer, analisar a produção de um único mandato de senador, deputado ou vereador, em qualquer instância!…

Ao invés de ministérios e secretarias, grupos de projetos contratados para gerenciar o planejamento e a execução de obras e entregar o produto resultante a uma empresa responsável por sua operacionalização. Isso ocorreria em todas as instâncias do país. Empresas de planejamento urbano seriam criadas para desenvolver propostas de projetos para cada município, apenas se solicitados pelos conselhos comunitários.

Utopia? Sim, é verdade, uma grande Utopia. Mas o Estado, tal como existe hoje em qualquer lugar do mundo, funciona mal e custa caro; as discussões políticas são intermináveis porque realizadas sob o emblema dos partidos políticos, em uma arena onde apenas um lado pode sair vitorioso e o outro ficará aguardando uma oportunidade de revanche, não importa se os interesses da Nação sejam preteridos ou não.

Conselhos de sábios poderiam ser formados para fundamentar as decisões políticas, enriquecendo os resultados com seu saber, maturidade e conhecimento. As decisões seriam rápidas e efetivas, e como não haveria oposição sistemática, mas consenso, os resultados seriam os melhores concebidos pelos conselhos comunitários.

E a questão original, ambientalistas versus desenvolvimentistas, perderia o sentido pois ambos estariam do mesmo lado, lutando pelos mesmos interesses e ideais, e cada obra, cada ação seria analisada à exaustão antes de se decidir por qualquer dano ou agressão ao meio ambiente; e as ações mitigadoras já estariam tomadas a priori.

Novamente, uma grande utopia e, o melhor: factível! Como migrar desse mundo de agressão para este “Admirável Mundo Novo”?

Desfazendo cada estrutura desse Estado paternalista, criando os conselhos comunitários em seus níveis mais elementares e dando-lhes autoridade de veto às ações políticas em sua esfera de ação, criando um novo estilo de tomada de decisões, estimulando o desenvolvimento de consciência coletiva, remodelando métodos de ensino para que as desigualdades regionais sejam eliminadas no longo prazo…

Uma gigantesca revolução cultural, sem a violência chinesa, mas consensualizada em todas as áreas do conhecimento humano e entre todas as camadas sociais.

A gradativa eliminação das indústrias do mal seria imprescindível, e realizado através da taxação crescente de impostos sobre o consumo de bebidas, cigarros e quaisquer produtos supérfluos. Para isso a indústria deveria ter incentivos para a produção de bens de consumo essenciais, de forma a suprir as necessidades de todos os brasileiros. O desperdício e o consumismo são os pilares do modo de produção capitalista e por isso devem ser extirpados como um câncer da sociedade.

A erradicação das drogas através de ações combinadas entre todas as polícias e as Forças Armadas, assim como a punição exemplar de todos os traficantes e grandes consumidores, banindo-os do convívio social são medidas essenciais e urgentes.

Chame-se a isso Comunismo, Socialismo, Comunitarismo ou Anarquismo… não importa, pois o objetivo maior, quase messiânico, seria a salvação do planeta e, consequentemente, da humanidade e de toda vida natural existente na Terra.

Rirão os céticos e os detentores do poder e da riqueza. Mas sorrirão felizes os miseráveis, inebriados pela possibilidade de sua redenção e pelo advento da justiça. É inadmissível uma sociedade conviver com a luxúria e a pobreza sem fazer nada! Apenas com a eliminação do desperdício já seria possível resgatar bilhões de pessoas da miséria absoluta e lhes assegurar vida decente e honesta…


[1]    Politburo, contração do russo Politicheske Byuro (Gabinete de Política) designa um órgão executivo do Estado/Partido Comunista na antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). A estrutura dos soviets consistia num sistema piramidal de conselhos. A base era formada pelos soviets de fábricas, nas cidades, ou de aldeias, no campo. Níveis sucessivos estabeleciam-se a partir de então. Nas cidades soviets de distrito e de província. O conjunto era coroado pelo Congresso de soviets de operários, soldados e camponeses, órgão supremo e soberano, que elegia um Comitê Executivo que, por sua vez, designava um Conselho dos Comissários do Povo, o governo efetivo do País. (Wikipédia)

O outro caminho…

Vamos aceitar o mundo como ele é: cruel, imperfeito, injusto, desonesto e consumista. Vamos prosseguir nessa disputa predatória e fratricida entre o bem e o mal, cada qual convicto de estar do lado certo. Vamos deixar que os recursos naturais sejam exauridos da face da Terra, acreditando que nosso tempo aqui se acabará primeiro, mesmo que nada reste de vida para nossos filhos e netos. Vamos eleger outros milagres: a descoberta de outro planeta, intacto, com as mesmas características de nossa Terra, para que a parcela rica e privilegiada da sociedade migre para lá, deixando-nos o mundo devastado; vamos acreditar em um deus que por sua suprema vontade restaure, em um piscar de olhos, tudo o que a humanidade destruiu…

Utopia é fugir da realidade; é a crença de que para todo mal existe um remédio e nada é ou será irreversível, não importa quanto tenhamos feito para destruir…

Ibiaí, 27/09/2009 – 18h30

Ontem tivemos nosso “cocktail” a bordo do Benjamin Guimarães; estavam presentes a Cristina, da Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo de Pirapora; Anselmo, o Secretário; Narciso, Presidente da EMUTUR; Juliana, a vice-prefeita; Antônio e Closé, jornalistas; Comandante Manoel e Capitão Pedro, do vapor Benjamin Guimarães; outros convidados.

Cristina falou em nome da EMUTUR e convidou, pela ordem, Juliana,  Closé e eu para falarmos a respeito do meio ambiente e da importância de minha expedição em defesa do rio São Francisco. Foi um sucesso!

Em meu discurso falei sobre a fragilidade da vida.

“Quando estive em Bonito, MS, há cerca de dez anos, eu e minha filha visitamos a gruta do Mimoso, uma pequena caverna alagada, e mergulhamos em seu primeiro salão, um enorme espaço vazio e inundado, cujos estalactites foram abatidos a tiro por vândalos; uma tristeza… essa pequena experiência me despertou o interesse por conhecer a vida submarina. Fiz muitos treinamentos e mergulhei em vários lugares mágicos de nossa costa e, passando por formações de corais e pela grande diversidade de vida marinha percebi como aquela vida era frágil e vulnerável às agressões humanas!… basta um aumento de 3 graus na temperatura média dos oceanos para que toda vida marinha desapareça da face da Terra.”

“Depois percorri trilhas em muitas montanhas e parques ecológicos nacionais. Observei que a vegetação das montanhas depende de fatores climáticos e de proteção ambiental permanente. Aves e mamíferos são extremamente vulneráveis e animais de maior porte precisam de muito espaço, áreas enormes para caçar e sobreviver. Qualquer intervenção humana pode dizimar toda uma espécie e fazê-la desaparecer para sempre da face da Terra. Anualmente, dezenas de espécies animais e vegetais deixam de existir e, com eles, uma parte da cadeia alimentar de outras espécies se torna cada vez mais vulnerável, até um dia desaparecer completamente.”

“Seguindo minha busca pelo entendimento da vida selvagem explorei muitas cavernas, e nelas havia vida, pequenos seres albinos, adaptados à escuridão eterna, e outros animais que buscavam no interior das grutas a proteção e o abrigo para sua sobrevivência. Soube que algumas dessas espécies são contadas em unidades, tão poucos são eles dentro de uma caverna. Basta um descuido, uma pegada humana em uma pequena lagoa de alguns centímetros no chão da gruta para que essa espécie desapareça. A vida é extremamente frágil no interior das cavernas…”

Por isso, quando se trata do meio ambiente, qualquer intervenção humana precisa ser cuidadosamente planejada para evitar danos trágicos à vida. É da Natureza que extraímos tudo o que temos hoje para nossa subsistência. Aprendemos a recriar espaços para a produção de alimentos que, sem o entendimento dos processos naturais, jamais teríamos nos tornado a espécie mais bem sucedida desse mundo!

Falei-lhes sobre minha visão de mundo e de minhas concepções ambientalistas. Enfatizei que aqueles que falham nas pequenas coisas, certamente falhará na essência de tudo. Porque, para o meio ambiente, um detalhe insignificante poderá ser fatal! Declarei, assim, meu compromisso inabalável com a preservação da Natureza.

Então, citei uma frase que considero emblemática e definitiva para os amantes da Natureza, e cujo autor desconheço:

“A Terra não é uma herança de nossos pais, mas um empréstimo de nossos filhos!”

Porque, enquanto aquilo que herdamos nos pertence e dele podemos fazer o uso que quisermos, por mais irracional que seja, o que nos é dado por empréstimo terá que ser devolvido nas mesmas condições em que o recebemos… esta é a lei.

Por fim, falei da importância da água, na evolução das sociedades, sempre em torno dos rios, e minha opção irrestrita pelo São Francisco, um ícone nacional dentre as bacias hidrográficas brasileiras pela sua importância histórica e cultural, pela diversidade biológica de suas matas e águas, pela grande população que vive em seu entorno e dele depende para sobrevivência, e pela sua dimensão geográfica.

Minha concepção é de que todas as bacias hidrográficas e sua vida selvagem e natural devem ser caracterizadas como Áreas de Preservação Ambiental, pois elas é que sustentam todos os ecossistemas, direta ou indiretamente; sem água não há vida.

Mencionei, ainda, a concepção retrógrada e predatória de que o país precisa expandir continuamente suas fronteiras agrícolas para assegurar alimentos para sua população e para o mundo. É uma grande estupidez, pois o conceito de “celeiro do mundo” é ultrapassado e perigoso; os rendimentos de comércio de produtos agrícolas são infinitamente inferiores aos produtos de alta tecnologia. Marx desenvolveu o conceito de “mais valia” onde os preços dos produtos crescem exponencialmente na medida em que é agregada mão-de-obra e insumos nos processos de industrialização.

Pior do que estimular o Brasil a ser um país agrícola e comprometer nosso desenvolvimento científico e tecnológico é conceder subsídios a um único setor. Nenhum outro segmento da economia nacional recebe tantos subsídios, seja através de renúncia fiscal, seja pelo oferecimento de crédito financeiro a taxas irrisórias, que nem mesmo a população mais empobrecida pode utilizar.

Foi uma noite agradável e tive a oportunidade de me expressar livremente, para uma plateia qualificada, ainda que de projeção apenas local. Acredito que meu trabalho em pequenos grupos poderá ser valioso para a conscientização da população ribeirinha. Grandes projetos de comunicação, embora atinjam grandes públicos, tem menor poder de persuasão que o trabalho direto, com participação da plateia

Sei que nunca será fácil, e que o poder econômico sempre prevalecerá ao bom-senso e à responsabilidade social, mas se nos omitirmos será muito pior, e o desastre poderá ser inevitável e muito mais rápido. Nossa esperança é a próxima geração, já que a nossa fracassou por completo na tentativa de reverter esse processo de destruição.

Hoje coloquei a canoa no rio às 08h00 e remei cerca de 50 km em pouco mais de 7 horas. Foi um bom desempenho. Estive em Barra do Guaicuí graças a uma carona providencial de uma draga que fazia trabalhos de retirada de areia na confluência dos rios das Velhas com o São Francisco. Disseram-me os operadores da barcaça que a areia se recompõe continuamente naquele local e eles retiram cerca de 150 toneladas em cada viagem de 2 horas, fazendo, em média, 6 viagens por dia: 1000 toneladas!

Não sei avaliar o impacto dessa atividade, uma vez que eles retiram sempre de um mesmo local e essa areia não é o resultado do assoreamento do rio, que ocorre em função da terra que é despejada no desmoronamento dos barrancos desnudados.

O mesmo dilema tenho com relação ao uso do vapor Benjamin Guimarães. Ele queima lenha de “reflorestamento” e já falamos sobre isso; mas também obriga Três Marias a abrir suas comportas a cada viagem a Januária, pois o rio não tem mais um canal suficientemente profundo, na época da seca para permitir a navegação.

No entanto, existe a possibilidade de se utilizar o vapor como meio de conscientização dos turistas que hoje fazem esse percurso. Atualmente, o que se diz aos turistas é apenas o lado belo e romântico, além de estatísticas irrelevantes. O fato é que os turistas querem apenas se divertir, beber, cantar, conversar e curtir a viagem… pouco se importam com a história dos vapores que devastaram as margens do rio…

Panis et circencis”, diria Nero, sob os aplausos da plateia do Coliseu. “E la nave va…”, diria Fellini… e eu sigo meu caminho…

Divisa de Ibiaí e Ponto Chic, 28/09/2009 – 19h00

Ontem visitei as ruínas da igreja de Barra do Guaicuí, à margem direita do rio das Velhas. O lugarejo é um subdistrito de outra cidade cujo nome não registrei. Uma das paredes, onde seria o altar, está coberta pelas raízes de uma imensa e majestosa gameleira. Seus galhos se sobressaem acima do que seria o teto da igreja. As paredes se mantêm de pé, mas não existe telhado, nem imagens, nem mesmo piso! Mesmo assim, é uma figura imponente, graças à gameleira, e por estar à margem do rio e sobre uma pequena colina, dominando a vista das águas que correm abaixo.

Apesar dos esforços desenvolvidos pelo projeto Manuelzão[1], o rio das Velhas ainda é um imenso esgoto a céu aberto, fétido e imundo! A confluência com o São Francisco faz deste a grande vítima dessa poluição, que traz os dejetos da grande Belo Horizonte, com uma população superior a três milhões de habitantes e muitas indústrias poluentes, e se propaga rio abaixo, por quilômetros, tornando impróprias para beber as suas águas, e contaminando os peixes que são capturados e comercializados mesmo assim.

Hoje me levantei muito cedo e consegui iniciar o remo às 06h30. Às 10h30 já estava chegando a Ibiaí. É uma visão estranha: metade do rio é tomada por uma praia de areia, onde construíram um quiosque. Muitas pessoas se divertem à margem… quando o rio sobe, na época das chuvas, o quiosque é levado pelas águas; todos os anos é construído um novo quiosque. A areia se estende, submersa e quase à superfície, até três quartos da largura do rio, tornando difícil a navegação neste local.

A cidade é pequena, muito quente e, fora a prainha, sem nenhum atrativo. Conversando com moradores, soube que não há empregos e a população não cresce, pois muitos jovens buscam outras cidades para trabalhar. Muitos dos que ficam se embriagam e abusam do rio, que já causou muitas vítimas por afogamento. Hoje mesmo, enquanto eu almoçava, um rapaz embriagado desapareceu nas águas barrentas e poluídas do São Francisco.

Logo ao entrar na cidade, encontrei uma senhora, sentada sob a sombra de uma grande árvore, no alto do barranco. Ela resmungava chorosa e bem baixinho… senti pena e lhe perguntei por que estava assim tão triste e inconsolada. Ela me fitou longamente e me disse que tinha perdido seu marido há muitos anos e teve que cuidar sozinha de seus dois filhos. Com o tempo, adolescentes, um se envolveu com drogas e bebidas, o outro se envolveu com ações criminosas; acabaram com tudo o que o marido lhe deixara, e hoje sua modesta pensão não dava sequer para ela se alimentar e viver.

Um sentimento de impotência me tomou, pois nada poderia fazer por aquela mulher sofrida e solitária. Deixei-a ir e prossegui minha busca das razões de tamanho sofrimento… o que leva seres humanos a tamanha decadência moral?

Seguindo meu caminho me deparei com outros locais onde o rio é tão raso que minha canoa chegava a raspar o fundo do casco na areia! Logo depois de uma segunda prainha fui alcançado pelo vapor Benjamin Guimarães, que seguia viagem para Januária, também um de meus destinos. Ao passarem, seu comandante soou o apito do barco, conforme havia me prometido. Aquele som longo me pareceu um lamento, a saudade, talvez, de uma época de glórias, luxúria e riqueza que não existem mais.

Não sei por que, mas fiquei muito feliz com aquela deferência… o barco pareceu-me vazio… poucas pessoas no convés além dos tripulantes.

Amanhã chegarei a São Romão ao final do dia, pois faltam menos de 50 km. Devo pernoitar na cidade e permanecer mais um dia por lá, por se tratar de uma cidade histórica, com mais de 400 anos! Devem existir muitas construções antigas, que espero ver preservadas. Vamos conferir…

Ontem tive uma baixa crítica em meus equipamentos: ao montar a barraca sobre um barranco de uns 2 metros de altura, uma das varetas que sustenta a cobertura escapou de minhas mãos e lançou-se para dentro do rio. Saltei imediatamente na água e mergulhei à procura do objeto, várias vezes, sem êxito… desapareceu… acabei montando a barraca com apenas uma haste, fixando-a em um galho de árvore.

Em Ibiaí encontrei apenas uma barraca de quatro lugares, mas tive que comprá-la. Quando a montei, para minha surpresa, era muito pouco maior que a minha… a barraca é bem alta e confortável, embora de qualidade inferior. Problema resolvido.

À tardinha, depois de ultrapassado pelo Benjamin Guimarães, procurei um local para acampar, mas estava difícil. A mata nas margens era bem densa, e um pescador me alertara sobre a presença de onças na região. Às cinco horas encontrei um lugar, mas era de um rancho. Perguntei a um senhor à beira do rio se poderia acampar ali, e ele me respondeu que sim, desde que pagasse dez reais! É claro que não aceitei! O que ele me oferecia além daquilo que a própria Natureza me dava de graça? Nada!

Para minha sorte, uns metros adiante encontrei um local excelente, apesar do barranco alto e de muitos insetos. Ficava sob uma árvore frondosa e tinha uma bela vista da curva do rio. Encostei a canoa sob um arbusto à beira-rio e subi o barranco. Tive que subir todos os sacolões, pois não queria deixar nada à margem e visível…

Juntei gravetos e galhos secos caídos no barranco e acendi uma fogueira para espantar os insetos. Aproveitei para queimar o lixo deixado por pescadores: muitos sacos plásticos, garrafas pet e outras sujeiras abandonadas sobre o barranco.

Minha canoa ficou protegida atrás do arbusto que se debruçava sobre o rio, escondendo-a completamente, e formando um portinho! Estava bem instalado!

Como ontem, usei a canoa como uma banheira confortável para tomar banho. Foi a maneira mais prática que encontrei quando as margens não me permitem entrar no rio, seja devido à lama, seja pelos insetos. E acabo por lavar o barco também!


[1]    Projeto “Manuelzão” http://www.manuelzao.ufmg.br/ – “Conhecer a realidade de um rio de seu melhor ângulo: o de dentro. Essa foi a proposta da Expedição Manuelzão desce o Rio das Velhas, realizada pelo Projeto Manuelzão em 2003. Três navegadores percorreram de caiaque todo o curso do rio, em seus 804 quilômetros, indo da nascente, na Cachoeira das Andorinhas, até a foz, no São Francisco, em Barra do Guaicuí.”

São Romão, 30/09/2009 – 20h00

Sul: 16º 22′ 12” – Oeste: 45º 04′ 06” – Altitude: 477 metros

Cheguei ontem a São Romão, às 16 horas. Esse trecho foi muito cansativo devido ao calor excessivo; a sensação térmica é acentuada pela evaporação das águas do rio. Imagino que estava próximo dos 50º C. Por duas vezes parei sob a sombra das árvores para retomar o fôlego! Bebi dois litros de água só durante o trajeto, e não foi suficiente para repor os líquidos perdidos pela transpiração.

Encontrei uma praia de areia semelhante àquela existente em Ibiaí: cobria metade do rio e deixava quase inavegável boa parte ao seu redor. Parei para me banhar, mas a água estava quente, por ser tão rasa; e o leito do rio era coberto de lama…

Fiquei em silêncio na maior parte do percurso: a mata inexistente, poucos pescadores e quase nenhum pássaro. Já próximo a São Romão, assim como nas proximidades de Ponto Chic, muitos clubes de pesca e também muitos ranchos.

Eu deixei de relatar um fato interessante: na véspera da chegada a Ibiaí acampei próximo a um pescador. Enquanto eu montava a barraca ele se aproximou e perguntou o que eu fazia no rio e quais os motivos de minha viagem. Ficou admirado de eu estar fazendo isso em defesa de um rio que eu nem mesmo conhecia, e disse que alguém precisava mesmo lutar para protegê-lo. Pareceu-me um homem simples e bom.

No dia seguinte, depois que levantei acampamento, remei até o local onde ele pernoitara, me despedi e segui viagem. Para minha surpresa, cerca de uma hora depois, ele me alcançou. Disse-me que morava com sua mulher em uma ilha antes de Ibiaí, e seguimos conversando, em seu linguajar simples, até que avistamos a ilha.

Ele se adiantou e desembarcou na ilha; percebi que havia muitas casas, todas bem simples, com pequenas plantações à sua volta. Segui viagem e, um pouco adiante ele volta a me alcançar e passa a seguir em marcha lenta ao meu lado, repetindo com frequência que tinha muita água para eu percorrer; parece que não se conformava com minha determinação. Como eu, na minha idade, abandonara tudo para seguir essa longa jornada? E dizia que, pelo menos nesse trecho, ele me fazia companhia! Fiquei muito sensibilizado com esse gesto!

Dei-lhe algumas castanhas; ele provou e guardou as restantes, dizendo que era para sua mulher… mais uma vez me senti tocado por esse gesto de sensibilidade de um homem que, por suas origens e profissão, deveria ser rude. Peguei o pequeno frasco que tinha em mãos e dei-lhe como retribuição. Distanciei-me dele e segui adiante.

Mais uma vez o encontrei, já próximo a Ibiaí, jogando sua tarrafa. Tirei umas fotos até conseguir obter o momento exato em que a rede se abria no ar. Pessoas simples e humildes nos ensinam lições de generosidade e desprendimento.

Hoje passei o dia fazendo algumas compras e fotografando a pequena cidade de São Romão. Pela manhã passei na prefeitura e conversei com a secretária de turismo, mas ela se mostrou pouco interessada em meu projeto; estava ocupada demais para me dar atenção. Passou-me para um assessor de agricultura, que em quase nada pode me ajudar. Soube, por ele, que o desastre ecológico provocado pela indústria de mineração em Três Marias aconteceu em fevereiro de 2004; a indústria acumulava há anos resíduos químicos na lagoa, próximo ao rio e, naquele ano, as chuvas foram fortes.

Quando a usina abriu suas comportas devido ao grande volume de águas do reservatório, o lago foi atingido e todo resíduo químico foi lançado ao rio, provocando a morte de milhões de peixes, que apareceram boiando por quilômetros rio abaixo, passando de São Romão! Os pescadores, revoltados, penduraram as carcaças de grandes peixes, surubins, dourados, piranhas… nas árvores das margens do rio.

Dizem alguns que a introdução do pacu-caraça, espécie estranha ao rio São Francisco, foi uma tentativa inútil daquela indústria de abafar o escândalo e repovoar o rio. Só que esse peixe é um predador, e acabou agravando o problema e levando quase à extinção várias espécies que já estava ameaçadas! O pacu-caraça, peixe de qualidade inferior ao dourado e ao surubim, continua proliferando nessa região, e impedindo até hoje, que as populações daqueles peixes se recuperem da catástrofe.

Abaixo da represa, desde então, já não se encontram grandes espécimes de dourados e surubins, como acontecia no passado. E a lagoa de rejeitos continua lá!

Comprei um guarda-sol e umas peças para que o Joaquim, da oficina mecânica, pudesse instalá-la em minha canoa, utilizando uma coroa de caminhão para servir de contrapeso sem precisar furar a fibra do barco. A ideia dele foi ótima!

Soube que ele dá manutenção nas barcaças que fazem a travessia do São Francisco, levando e trazendo mercadorias, automóveis, caminhões… do outro lado do rio passa uma rodovia federal que liga a cidade ao resto de Minas e a Belo Horizonte.

Fotografei duas igrejas do século XIX, além de um casarão reformado e várias casas antigas em péssimo estado de conservação. Embora afirmem que a cidade tem mais de 400 anos, não há nenhuma evidência que eu tenha percebido que confirme isso. A maioria das casas é velha, com telhados e paredes caindo aos pedaços. Às vezes dá para se ver o interior das casas, mesmo com as portas e janelas fechadas. Tem-se a impressão de que a população não dá valor à cidade, menos ainda os governantes!

Também fotografei dois carros de boi; na verdade, carroças puxadas a boi, pois a estrutura do veículo não é a de um carro de boi tradicional, e as rodas são pneus de borracha. Seja como for, é um veículo anacrônico nessa época de tecnologias emergentes.

Ainda conheci Ludmila, dona de uma padaria moderna, talvez a única da cidade. Ela é formada em Turismo, na cidade de Formiga, e fez MBA em Hospitalidade, na Inglaterra, onde morou durante oito anos. Para ela não deve ser fácil viver neste lugar… No entanto, o povo é gentil e hospitaleiro; uma senhora de BH, que conheci nas ruas de São Romão, se interessou bastante pelo meu projeto, e demonstrou ser muito culta e crítica com relação às políticas regionais.

São Francisco, 01/10/2009 – 18h40

Sul: 15º 58.77′ – Oeste: 45º 01.961′ – Altitude: 459 metros

Saí de São Romão às 07h30, com duas novidades: instalei o guarda-sol e comprei um galão térmico, além da barraca que já havia acrescentado às tralhas em Ibiaí. Tive água gelada durante todo percurso, ou melhor: “sombra e água fresca!”

Hoje avistei muitas tartarugas pequenas, mas elas saltam para a água logo que sentem a vibração dos movimentos da canoa sobre a superfície da água. Vi também uma família de bugios; seu pelo é negro e brilhante, animais bonitos e ariscos, com seu inconfundível ruído grave e gutural, que parece um mantra proferido por monges no interior dos templos budistas: “Ommmmmmmmmm!” Muitos pássaros de diversas espécies, inclusive o cardeal, com seu bico de lacre; mas o que me chamou a atenção desde cedo foi o comportamento das garças e biguás. Estavam agitados, grasnavam muito e, pela primeira vez, pude presenciar um bando deles bem de perto, em uma ilha, provavelmente no que seria uma “dança de acasalamento”!

Eu me mantive a uma distância “respeitosa”, tentando interferir ao mínimo nesse ritual; mas, ao final da tarde, o rio fazia uma grande curva à direita, onde havia uma praia de areia e dezenas desses pássaros e eu não me contive… dessa vez filmei a cena pois era inevitável passar bem perto deles! Fantástico! Eram, em sua maioria, biguás ou marrecas, e poucas garças.

Decidi acampar ali mesmo, pois eles saíram em revoada quando me aproximei. O lugar era belíssimo, estava ameaçando chuva, e parei de remar às 16 horas, quando montei meu acampamento e presenciei um dos mais belos pores-do-sol de minha vida! A profusão de cores provocada pelas densas nuvens de chuva, o cenário magnífico e a areia clara e fina, tudo contribuiu para meu deleite; para completar a cena, um carro de boi apareceu na ilha, puxado por dois touros belíssimos! Eles transportavam areia!

Tiravam areia dessa praia magnífica, mas de que adianta falar de preservação ambiental para pessoas que lutam pela própria sobrevivência? Aqui parece que o tempo parou há mais de 50 anos; o que víamos na nossa infância na pequenina cidade de Dracena, na divisa com o Mato Grosso do Sul, o que minha avó nos contava em suas histórias de infância, estavam presentes agora, à minha frente, em detalhes…

A cidade de São Romão, que acabo de deixar, é um exemplo da falta de oportunidades. As casas decadentes, que ninguém reforma ou conserta, grande parte em ruínas, com portas, janelas e paredes caindo, parte do telhado faltando, e famílias morando “dentro”! Os restaurantes estão vazios, a maioria fechados, e os poucos que se abrem tem quase nada a oferecer. É um processo entrópico!

Por que uma cidade como Iguatama, com seus pouco mais de 7.000 habitantes, é saudável e próspera, enquanto estas (São Romão, Ibiaí) com população bem maior estão decadentes? Por que estas não geram novos empregos, novos negócios? Existe uma boa padaria em São Romão, mas é apenas a exceção que confirma a lastimável situação do município!

Divisa de Pedra de Maria da Cruz e Januária, 03/10/2009 – 18h05

Sul: 15º 41’04” – Oeste: 44º 31’48” – Altitude: 460 metros

São Francisco é uma linda cidade do oeste mineiro! A que mais valorizou o rio até agora, pois sua igreja é vista à distância e, à chegada, há um excelente local para ancoragem de barcos. Todas as cidades ribeirinhas do São Francisco deveriam pensar em sua maior vocação, que é estar e ter nascido à margem do rio, de onde chegam seus alimentos e as pessoas que vivem e se movimentam por essa estrada de água!

Também tem um serviço de balsa, como em São Romão, para travessia de pessoas, veículos e cargas, além do transporte de passageiros em grandes canoas com motor central a diesel. Muitos desses barcos também transportam areia para São Francisco.

A cidade oferece um grande hotel, com diária econômica e excelente café da manhã, 70 quartos em várias categorias, e um belo restaurante, à beira-rio, onde comi a melhor moqueca de surubim da minha vida! Imperdíveis os dois!

Escolhi um quarto mais simples, no térreo, com banheiro e ventilador, cuja diária era de apenas R$15,00 (inclusive com o café da manhã), e que, para meus hábitos espartanos já era um grande luxo! No café, cinco tipos de sucos naturais, cinco tipos de pães e de bolos, cinco frutas diferentes, café, leite, chocolate, chás de vários tipos, mussarela e mortadela! Fartei-me todas as manhãs! Por que cinco? Não sei…

Só encontrei uma lan-house aberta mas consegui fazer o que era necessário: acessar e-mails, publicar um texto no blog, acessar minha conta bancária… as pessoas da cidade foram muito acolhedoras e gentis; sabem receber os turistas! A começar pelo recepcionista do hotel, que não apenas me tratou bem, como me ajudou a levar a canoa e todas as tralhas para o hotel… e não era fácil a altura do barranco! Na minha volta ao rio ele também me ajudou, e até conseguiu um carro para o transporte! Dessa vez levamos tudo em um só carreto, sob os olhares e as fotografias de um funcionário da Comissão Nacional de Energia Nuclear, um técnico que dá apoio aos pesquisadores que estavam lá para analisar a possível contaminação por flúor em poços artesianos.

A cidade demonstra uma forte vocação comercial, principalmente vestuário e calçados. Curiosamente, os comerciantes colocam grande parte de seu estoque nas calçadas, penduradas nos toldos ou amontoadas sobre caixotes! Existem muitas avenidas, quase todas bem arborizadas, com boa sinalização. O calor, assim como nas outras cidades ribeirinhas, é asfixiante! Mesmo bebendo muita água, é insuportável! Estranho é não haver quase sorveterias nessas cidades! Só existem dois estabelecimentos bancários: um público e um privado; nos Correios é possível movimentar também um terceiro.

Saí de São Francisco às 08h00, depois de dois dias na cidade. Remei com muita energia, pois o calor estava forte e queria sair logo de dentro do rio. Depois de algumas horas, lá pelo meio-dia, encontrei um canal estreito, à margem direita, formando uma ilha. Segui por ele sem saber onde iria dar, achando que se tratava apenas de uma pequena ilha. Para minha surpresa, a ilha se estendia por cerca de uma légua[1]!

Foi fantástico pois, sendo estreito, poucos conhecem esse canal e a Natureza, por consequência, está bem preservada, com uma razoável mata ciliar e muitos pássaros. Ao sair do outro lado percebi o quanto o rio está degradado nessa região; fora desse canal, a mata praticamente desapareceu por completo! Os ranchos se sucedem no caminho, com muita gente e muita sujeira atirada no rio sem respeito!

Também encontrei muitos pescadores usando enormes redes de arrasto sem o menor receio, pois não há nenhuma fiscalização! Nos quase oitocentos quilômetros que percorri até agora só encontrei um barco da polícia ambiental. Mais nada! De que adiantam leis que não são observadas nem controladas? Se não há punição para os infratores, a lei é dispensável… pior ainda, pois o estado policial é desmoralizado por quem comete crimes ambientais à revelia da lei, sabendo que não serão punidos.

Nosso país tem excesso de leis e falta absoluta de punições. E o pior é que as leis atuais são de má qualidade, ambíguas, contraditórias e sem regulamentação em muitos dos casos. É isso que assegura à bancada ruralista, truculenta e arrogante, a contínua expansão das fronteiras agrícolas do país, em detrimento do meio ambiente.

Melhor do que a prolixidade das leis seria a formação cultural de nosso povo. Um país onde a população é culta e consciente não precisa de tantas leis nem de tantas prisões. Não creio na Teoria do Bom Selvagem; sei que existem pessoas de má índole desde o berço; mas educação tira muitas pessoas das portas do crime e lhes concede oportunidades de desenvolvimento profissional e financeiro. Sem miséria, 90% dos problemas de criminalidade desaparecem. Sem miséria e com cultura, as famílias conseguem pensar em planejamento familiar e reduzir a marginalidade!


[1]    Uma légua equivale a, aproximadamente, seis quilômetros, e é a medida mais utilizada pelos pescadores e ribeirinhos.

Januária, 14 km depois… 04/10/2009 – 22h54

Não conheci Januária…

Saí cedo de meu acampamento – 06h45! No entanto, ventava muito e o rio estava agitado, formando “marolas” (ou seriam “riolas”?) e até pequenas e sucessivas ondas, dificultando a navegação. Meu ritmo era lento e cada remada exigia grande esforço para um pequeno deslocamento. Atravessei o rio para ver se a margem direita estaria melhor, mas nada adiantou. Segui remando, até porque não havia como parar: encostar a canoa no barranco, nessa situação, poderia causar um acidente.

De repente, no meio do rio dois garotos brincavam, e então percebi que estavam sobre um banco de areia que ocupava metade do leito do rio! Contornei com cuidado e parei perto eles, a canoa encalhada no fundo. Estavam curiosos por saber quem eu era, como chegara até ali e até onde remaria… chamavam-me “papai noel” devido a minha barba branca e longa. Conversamos um bocado; eram gêmeos e logo outros garotos também se aproximaram, diante do inusitado da cena… eram de Pedras de Maria da Cruz e costumavam brincar no rio nessa época do ano.

Conforme me explicaram, Maria da Cruz existiu de fato, e na pequena cidade que leva seu nome tem uma pedreira, o que talvez justificasse a origem do nome; mas não sabiam o que ligava a mulher às pedras… teria morrido lá? Teria sido suicídio? Hoje eu sei que Maria da Cruz foi uma fazendeira, e a cidade, agora com cerca de 10.000 habitantes, a homenageou quando foi emancipada, em 1992.

Segui adiante, pois pretendia chegar a Januária antes que o Benjamin Guimarães zarpasse de volta para a cidade de Pirapora. Nem sei porque queria vê-lo de novo. Decidi não parar em Pedras de Maria da Cruz, que fica na margem direita e acabara de atravessar para a outra margem logo depois do banco de areia. Aquele enorme assoreamento me assustou: em que situação deplorável se encontra o rio!

Havia uma ilha à margem esquerda e imaginei que atrás dela o rio poderia estar mais calmo; mas me enganei… a travessia me custou um esforço enorme, pois as ondas eram maiores e quase viraram minha embarcação! O vento aumentava, minha carga não estava amarrada, e eu não usava o colete! Uma grande imprudência, pensei. Poderia ter prejudicado toda expedição… tive que usar toda minha força para terminar a travessia. Atrás da ilha, realmente, o rio estava calmo; mas era um trecho muito curto para justificar tamanho esforço; logo voltei ao canal principal.

Passei por Pedras de Maria da Cruz pela margem oposta e logo percebi que perdera uma grande oportunidade de conhecê-la… uma igrejinha pintada de azul claro, com duas torres e o que parecia ser um moinho de vento por detrás ornamentavam a colina em que fora construída. Uma grande ponte de arquitetura moderna completavam o cenário! Parecia ser um local aprazível e que merecia ser visitado. Mas já era tarde. Tirei algumas fotos à distância, passando sob a ponte e ao lado de um grande barco de ferro de estranha cor verde claro. Segui adiante lamentando perder a oportunidade.

Logo em seguida a ventania passou e avistei Januária. O rio se alargara e havia uma grande ilha à margem direita. Por sorte, eu estava do outro lado. Se passasse por trás da ilha nem teria avistado a cidade, que se escondia em um feio barranco degradado. Um serviço de barcaças transportava veículos, cargas e pessoas de um lado a outro do rio. À beira do barranco, em um porto improvisado, lá estava o Benjamin Guimarães!

A tripulação me reconheceu, assim como Tina. Convidaram-me a subir a bordo, o que aceitei de imediato. Ofereceram-me um prato de comida e água, que também aceitei. Comi rapidamente, porque o vapor se preparava para um passeio com turistas de Januária, enquanto os passageiros de Pirapora faziam um passeio pela cidade.

Neste momento decidi não parar em Januária; não tinha nenhum contato na cidade, e deixar a canoa no barranco seria uma temeridade; havia uma multidão se acotovelando à margem do rio, todos querendo ver o Benjamin Guimarães! Disseram-me que também havia “visitantes ilustres” na cidade: deputados e senadores a passeio… ilustres?

A cidade não tem nenhum acesso urbanizado ao rio, e é mais uma construída de costas para aquele que lhes dá comida, transporte, empregos, água… é lamentável! Cumprimentei toda tripulação, agradeci o almoço, e parti. Logo em seguida o vapor também zarpava em direção a Pedras de Maria da Cruz…

Remei por mais 14 km e encontrei uma pequena praia onde havia um quiosque de pescador, muito comum nessa região; eles partem para pescar, mas garantem locais de parada de modo a se abrigar à noite e nas tempestades. É uma espécie de alojamento aberto onde guardam um pouco de comida, redes de pesca e de dormir, utensílios de cozinha e alguma roupa, e serve de abrigo provisório nos longos dias de pesca passados no rio. Esse está desabitado hoje.

Aproveitei para me refrescar no rio, pois o calor foi pior ainda com a ventania. A pele resseca mais rápido e o sol queima depressa, mesmo com bloqueador solar. Meus lábios pioraram bastante; estão rachados e ardem, mesmo tomando água sem parar. Nada que eu passe funciona, e até parece piorar! Temo que tenha sido a manteiga de cacau! Mesmo a saliva não causa qualquer alívio e acabo perdendo o apetite.

Até hoje, desde que retomei minha viagem, não preparei nenhuma refeição porque tenho comido quase todos os dias nas cidades por onde passei. Talvez a falta de alimentos sólidos também tenha agravado o problema nos lábios; talvez tenha sido o bico da garrafa térmica que se contaminou pelo uso frequente Pode ser ainda o sal das castanhas…

A caminho de Itacarambi, 05/10/2009 – 06h00

Não fiz anotações no último acampamento, pela manhã… acordei cedo e me surpreendi com a chegada do “dono da ilha”! Isso mesmo! O pescador, dono do quiosque, chegou de madrugada e percebeu que tinha um vizinho acampado ali. Não teve dúvidas, e escreveu na areia, bem próximo de minha barraca: “TEM DONO!”.

Ao acordar, ironizei: “bom dia! Estou abusando de sua hospitalidade?”. O homem ficou sem graça, esboçou um “sorriso amarelo” e, quase murmurando, disse: “não tem problema”… e completou “é que tem muita gente que vem roubar minhas abóboras!”

Tive pena dele, puxei conversa para acabar com o constrangimento, falei de minha viagem, e ele me disse que morava em uma cidade próxima com a família, onde tinha uma pequena lavoura e algumas cabeças de gado… não era tão pobre assim… cultivava abóboras nessa ilha para fazer reclamou que o fazendeiro ao lado soltava o gado para pastar em “sua” ilha. Na última temporada de seca perdera toda sua plantação de milho… já não adiantava mesmo, porque a terra, na ilha, já estava cansada e não produzia o suficiente para justificar o plantio…

“A terra ficou fraca e agora só dava abóbora mesmo…”. E, como de costume, ele construíra o quiosque de palha, mas ninguém mexia, não tinha problema! Aproveitei a confiança adquirida e tirei umas fotos dele, de cócoras, com seu barco de madeira refletido nas águas do rio, com uma suave luz da manhã completando a aquarela. Nós nos despedimos e ele foi embora, satisfeito. Pouco depois eu também partia.

Itacarambi, 06/10/2009 – 23h25

Cheguei na cidade às 16 horas de ontem. O dia foi extenuante devido ao sol intenso e ao vento, que tornavam cansativas e pouco producentes as remadas… progredia lentamente, parando a cada meia hora para beber água e recuperar o fôlego. Com a ventania, meu guarda-sol se tornara inútil, mais um estorvo para transportar na canoa.

O sol abrasador provoca forte evaporação das águas do rio, causando uma desagradável sensação de sufocamento. Meu corpo queimava em febre e me obrigava a passar protetor solar várias vezes por dia… o desconforto era desanimador!

Passei por um enorme banco de areia repleto de pássaros: garças, biguás, quero-queros e uma espécie semelhante a uma gaivota, muito territorialista e atrevida, que ficava fazendo voos rasantes sobre minha cabeça, tentando me afastar dali. Essas aves voavam em bando, sempre fazendo enorme estardalhaço com seus grasnidos agudos e desagradáveis. Gostaria de conhecer seus nomes e saber seus hábitos… Passei ao largo e segui viagem para não molestar os pássaros em seu habitat…

Pouco adiante avistei um barco com dois pescadores que, estranhamente, lançavam uma tarrafa meio fechada bem próximo a um enrosco. Para minha surpresa, ao recolherem a tarrafa, veio um belo surubim de uns 20 quilos, com um tronco escuro… cumprimentei-os de passagem, admirado de sua habilidade em pegar esse peixe em um lugar tão complicado… percebi que esses pescadores têm uma grande intimidade com o rio e sabem exatamente onde se encontram os peixes maiores…

Já avistava um grande morro arredondado há algum tempo, e sabia que tinha algo a ver com a cidade que eu buscava Ita (pedra) carambi (o que é isso?). Dizem que o nome significa “rio cheio de pedras” ou “rio da pedra redonda”… é estranho que não saibam a origem do nome desta cidade, que antes já se chamara Porto do Jacaré…  seja qual for seu significado, está associado a essa pedra solitária à margem do rio.

À chegada me deparei com um barranco barrento, com várias escadas de metal e corrimão, onde os barcos de pescadores atracavam, em um ir-e-vir constante à praia que se formara do outro lado do rio, levando e trazendo mercadorias e banhistas. Junto aos barcos, muitas crianças e adultos, brincando nas águas, deixando-se levar pela correnteza, despreocupadamente… pensei no perigo que a brincadeira representava.

Perguntei por uma pousada à beira do rio e me recomendaram uma logo abaixo, visível desde o rio, sobre o barranco alto. Logo a encontrei: uma casa de madeira, com janelas voltadas para o rio, um pequeno ancoradouro e uma enorme escada de cimento pela qual eu deveria levar minhas tralhas, em sucessivas subidas e decidas estafantes, principalmente para quem remou um bocado, como eu.

Amarrei o barco no cais e subi, com dificuldade, a escadaria, pois me sentia exausto do calor, esforço físico e a falta de alimentação adequada. No alto, um grande portão de ferro trancado com um cadeado, e nenhuma campainha. Bati no ferro e gritei… depois de alguns minutos, apareceu uma senhora e confirmou que havia vagas na pousada. Depois eu saberia que era o único hóspede, que lá moravam a proprietária, seu filho e sua mãe, uma simpática senhora com Alzheimer em avançado estado de degeneração.

Apesar do preço, aceitei ficar ali, até porque não saberia como tirar meu barco da água. Desci e subi várias vezes, pois não havia nenhum funcionário para me ajudar. Finalmente me instalei em um quarto cheio de pernilongos e uma janela que dava para um corredor escuro e sem ventilação. As janelas que davam para o rio eram do quarto do filho, cuja distração era conquistar as meninas da cidade!

À noite, depois de descansar e jantar em um restaurante próximo, recebi a visita da  secretária do Meio Ambiente, pessoa muito agradável e simpática, que ouviu pacientemente minha história e me convenceu a ficar por dois dias na cidade. Na verdade, eu pretendia, inicialmente, ficar uma semana, para conhecer o Parque Nacional “Cavernas de Peruaçu”; no entanto, o custo da pousada era proibitivo para minhas finanças já comprometidas desde o início dessa viagem…

Hoje fui à secretaria da Educação onde a secretária me agendou uma palestra para os professores e diretores das escolas da rede pública de ensino. Almocei na própria pousada, uma comida saborosa feita pela própria dona, uma senhora elegante. Antes fiz fotos de antigos casarões e figuras bizarras das praças temáticas que um prefeito anterior deixara para seus moradores. Não se pode dizer que as praças sejam bonitas; são de um gosto duvidoso, mas bem cuidadas e curiosas!

À tarde proferi minha palestra para cerca de 50 educadores que lotavam a sala de refeitório de uma das duas grandes escolas de primeiro grau do município. Falei bastante: quase duas horas, conseguindo prender a atenção de todos para as questões ambientais do rio São Francisco, para a imperativa necessidade de conscientização do povo e da nova geração que eles conduzem, e para uma diferente visão de desenvolvimento sustentável que não seja tão prejudicial à Natureza.

Mostrei alternativas e declarei o meu comprometimento com as causas ambientais e preservacionistas. Falei da escassez de água doce e potável, justamente onde ela é tão abundante, da fragilidade da vida selvagem e da ação predatória do homem. Não sei se minhas palavras agradaram mais do que agrediram conceitos ultrapassados e arraigados, pois as manifestações entusiásticas só se evidenciaram pelas palmas ao final, que bem podem ter sido de satisfação por eu ter encerrado minha longa preleção!

Seja como for, cumpri minha tarefa e segui para a secretaria de Turismo, instalada em uma belíssima e bem conservada casa de estilo colonial, construída na primeira década do século passado, primorosamente restaurada e decorada com obras de arte!

Fui bem recebido, relatei minha viagem, meus objetivos e a frustração por não poder conhecer o parque de Peruaçu, rico acervo natural com inscrições rupestres e importantes descobertas arqueológicas, como a múmia transferida para o Museu Nacional do Rio de Janeiro, e uma preguiça gigante, animal pré-histórico também encontrado em outras cavernas e regiões do país.

A secretária se comprometeu a tentar uma  visitação ao parque amanhã, ao menos para eu conversar com o espeleólogo do Instituto Chico Mendes. A Sociedade Brasileira de Espeleologia, da qual fui sócio por tantos anos, e a Redespeleo, de cujos eventos participei por tantos anos, ambas ignoraram meus apelos para ajudar no contato com a direção do parque que, por sua vez, também não me atendeu.

Rumo a Manga, 07/10/2009 – 18h25

Sul: 14º 59′ 44” – Oeste: 44º 00′ 06”

Saí de Itacarambi às 14 horas… não consegui viabilizar minha visita a Peruaçu, que eu tanto desejava conhecer. Apesar disso, considero a minha permanência em Itacarambi um sucesso. Conheci a cidade e seus moradores, fotografei casas coloniais e as bizarras praças temáticas, fiz palestra aos professores, inspetores e diretores das escolas públicas de ensino e me alimentei muito bem.

Mais uma vez não consegui postar nada em meu blog por ter ficado na dependência do uso do péssimo equipamento da pousada, que estava sempre indisponível.

De batráquios e evangélicos… 22h12

Em minha bolha infinitesimal do tempo percebo sons confusos dos cânticos evangélicos, recitando uma ladainha de trechos bíblicos incompreensíveis sob o coaxar incessante dos batráquios ao meu redor…

Às vezes, uma fração de silêncio me acalma… calam-se os sapos e o pastor, e assim percebo a lua deixando seu rastro prateado nas plácidas águas adormecidas do Velho Chico. Até escuto seu murmurar discreto, roçando as areias da praia…

Porém, esse momento pouco dura e o matraquear recomeça, metralhando meus ouvidos! Já não ouço as vozes da outra margem… recolheram-se os devotos às suas casas, deixando a tremeluzir as frágeis lamparinas de suas crenças…

Calor sufocante da noite insone me maltrata; onde está o vento que fustigava minha pequena embarcação, endurecendo as águas e tornando inúteis meus esforços ao puxar, vigoroso e compassado o remo enrijecido em meus braços?

Agora é calmaria, apenas…

Ouço pássaros, latidos… e o coaxar irritante em meus ouvidos! O que dizem esses gordos anfíbios? Não há lirismo em sua rouca melodia… apenas o repetir insistente e monossilábico de seu gutural batraquear sem nexo.

Às vezes se cansam e se calam… mas continuo a esperar o recomeço, qual um mantra infinito a ribombar em meus tímpanos! E o sono vem… e se vai no breve adormecer, interrompido pela nova saraivada de coaxares renitentes…

Célere segue a noite em seus preparativos de um novo amanhecer e um longo dia, enquanto o sol aquece outros lugares do planeta…

Os sons da noite se recompõem na distração do silêncio dos batráquios… e sinto a calma tão desejada da harmonia, só possível porque dormem os sapos e os homens… e me integro, afinal, neste momento fugaz de solidão e paz profunda…

Manga & Matias Cardoso, 08/10/2009 – 15h45

Sul: 14º 41′ 13” – Oeste: 43º 54′ 44” – Altitude: 440 metros

Passei por Matias Cardoso (-10.7 km) e Manga (-8.6 km) e nem me preocupei em parar… uma é pequena e sem atrativos, e não me pareceu ter qualquer interesse que justificasse a interrupção de minha viagem; outra está de costas para o rio, com um grande barranco de uns 10 metros ou mais, e não tenho nenhum contato ou ajuda.

Comprei umas linguiças, refrigerantes e água, em um boteco localizado na margem oposta do rio e segui adiante. Como várias outras cidades, Manga está à margem esquerda e a rodovia passa pela margem direita. Essas cidades dependem de balsas, barcaças de maior capacidade para escoar sua produção, receber mercadorias e viabilizar o transporte de passageiros para outras regiões.

Comi as linguiças e bebi um refrigerante, e segui adiante, na expectativa de avançar ainda uns 20 km; mas não foi possível e não evolui quase nada, pois ameaçava uma forte chuva; encontrei uma pequena praia de cascalhos em uma ilha, que me pareceu um excelente local para montar meu acampamento. Os barrancos da margem esquerda do rio estão completamente devastados nessa região. A mata ciliar não mais existe na maior parte do percurso e o que resta está sendo queimado e derrubado com motosserras! Parei o barco para documentar essa tragédia, mas só consegui poucas fotografias, bem de longe. Não sei onde estão nossas autoridades…

Este local me pareceu ótimo e só tenho vizinhos na outra margem. Deverá ser uma boa noite de sono e poderei sair mais cedo em direção  a Carinhanha, minha primeira cidade na Bahia; do outro lado do rio está Malhada. Adiantei bastante meu cronograma sem a visita a Peruaçu e agora sem a parada em Manga. Se tudo der certo nas portagens das represas, creio que poderei chegar a Piaçabuçu dia 5 de dezembro!

Mesmo local – 18:50 horas

Uma súbita mudança no tempo obrigou-me a transferir todo acampamento para um local mais seguro. A praia está acima da água apenas alguns centímetros e bastaria o rio subir meio metro para me deixar dentro d’água. Não foram apenas os relâmpagos, mas uma repentina calmaria e o esvoaçar das aves para longe que me alertaram

Decidi não desmontar nada; mudei primeiro a canoa, amarrando-a na proa e na popa a um arbusto de tronco forte e resistente. Ficará segura, mesmo que debaixo d’água. Trouxe toda carga para um local mais alto, a um metro e meio da água. E finalmente arrastei a barraca sem desmontá-la e a coloquei no alto de um pequeno morro de areia, meu novo local abrigado dos ventos e da inundação; assim espero. Depois de alguns ajustes e reforços na barraca, estava tudo arrumado em menos de uma hora.

É sempre uma imprudência montar uma barraca tão próxima do rio; em nosso treinamento na Chapada Diamantina aprendemos isso com a cautela excessiva de nossos monitores. Eles tinham razão, pois os rios sobem rapidamente quando chegam as tempestades, e levam tudo de arrasto, sem dar chances para os incautos.

Mesmo assim tenho abusado da sorte, apostando sempre nas estatísticas de chuvas na região. Ocorre que, com minha parada de três meses, essas expectativas ficaram no passado e eu deveria ser mais cauteloso. Está chegando a temporada das chuvas, o inverno dos nordestinos, e mesmo no semiárido os temporais podem ser violentos.

Às vezes, uma chuva não percebida nas cabeceiras do rio pode trazer uma elevação rápida do nível das águas, sem tempo de se tomar qualquer decisão. No entanto, é sempre mais agradável ter uma visão do rio correndo ao lado de nossa barraca, e assumirmos conscientemente o risco. Não recomendável!

Talvez nem chova esta noite, mas fiquei incomodado com esses pensamentos e com a sensação de que os pássaros tinham enviado um alerta e resolvi atender à intuição. Seja como for, valeu pela manobra de emergência e o treinamento de evacuação!

Com a calmaria voltaram os insetos. Lá fora, os grilos e os vaga-lumes fazem sua festa. Aqui dentro, mesmo com a barraca fechada, os mosquitos me atacam. Devem ter entrado pelos pequenos furos da tela, às dezenas, e me atordoam com seus ataques irracionais. O jeito é apagar a luz e deixar o silêncio embalar meus sonhos…

 Mesmo lugar e… uma tempestade! 09/10/2009 – 05h35

Que noite terrível! A chuva chegou forte e piorou bastante durante a madrugada! A água começou a entrar, infiltrando-se pelas paredes e pelo zíper da barraca. Em pouco tempo, uma poça d’água se acumulava no piso e metade da barraca estava alagada. Sob o piso, um enorme colchão de água! Eu olhava para fora, tentando controlar o nível do rio, mas não dava para ver nada; porém, nos limites de minha visão não havia água; assim, senti-me seguro, por enquanto.

Decidi sair e recobrir a barraca com a lona da outra barraca. Tirei minha roupa e saí, em meio ao temporal. Peguei a lona no barco, joguei-a sobre a barraca e a ajeitei como pude, amarrando as pontas em specs fincados na areia. Aproveitei para pegar duas sacolas: uma de roupa, para o caso de necessidade; outra de cozinha, onde havia panos secos para eu drenar a inundação dentro da barraca.

Voltei para dentro, me enxuguei, sequei o piso e me vesti novamente. Deu certo: já não havia mais nenhum ponto de infiltração e a situação estava controlada. Poderia descansar. Até que tentei, mas a quantidade de insetos dentro da barraca, zunindo em meus ouvidos e me azucrinando sem parar, me impediam de dormir.

Quando tudo parecia se acalmar ouvi o som de um motor de barco e duas pessoas conversando. Eram pescadores, pegos pela tempestade. Chegaram na “minha” ilha e subiram o barranco, deparando-se com minha barraca. Percebi o silêncio constrangedor e resolvi conversar com eles. Afinal, eles deviam estar cansados e aquele poderia ser o local que buscavam para um repouso. De fato, era isso mesmo!

Convidei-os a ficar em minha barraca, mas eles agradeceram e se ajeitaram ali por perto. Cobriram-se com uma lona ou algo assim e fizeram café; conversaram por algum tempo, falando sobre a vida, o medo de morrer afogado, a vergonha de voltar para casa sem ter o que oferecer à família… coisas assim. Fiquei triste; nada podia fazer.

Eles temiam se afogar no rio, pois não sabiam nadar mas, ao mesmo tempo, diziam que se Deus não quisesse assim, nada lhes aconteceria. Essa visão determinística e fatalista das pessoas humildes é que os faz conformados com todas as adversidades.

A chuva diminuiu e eles foram embora. Ainda tentariam pescar alguma coisa nessa noite para levar às suas famílias… discutir preservação ambiental? Nem pensar! Fiquei a imaginar a solidão e o medo dessa gente simples, sem perspectivas e sem ilusões, onde o desconhecido, o misterioso e as lendas se misturam com a realidade. É triste pensar que o Brasil que se vende na mídia passa muito longe do povo desse país imenso e repleto de desigualdades e conflitos sociais irreconciliáveis…

Será que tenho o direito de falar sobre preservação ambiental para quem não tem nem mesmo o mínimo para sobreviver? Parece-me arrogância levantar tais bandeiras antes de solucionar a questão da vida em um âmbito mais real, pragmático e imediato: o acesso às condições de vida com dignidade e à justiça social!

Choveu a noite toda e continuou chovendo pela manhã. Não sei ainda o que fazer. Pensei em seguir viagem, mas a próxima cidade, Carinhanha, está a cerca de 60 quilômetros de distância e provavelmente só chegaria por lá à noite. E a chuva ainda pode piorar, alagando a canoa; e então eu teria mais um problema para enfrentar. Preferi aguardar mais algum tempo para decidir o que fazer. A situação é bem desagradável…

Nesta noite, antes de tudo isso acontecer, consegui falar com minha família. Relatei a situação e Mory (minha mulher) me disse que a assistente social da prefeitura de Manga  aguardava minha chegada. Deu-me o telefone dela e arrisquei. Disse-lhe como estava minha situação e que, diante desses fatos, não conseguiria remar de volta rio acima. Pedi-lhe que enviasse uma canoa com motor, para que eu pudesse retornar. Afinal, eram apenas 8 km e, para um barqueiro, mesmo com um motor de rabeta, daria para me rebocar em menos de uma hora.

Ela pensou, consultou seus superiores e me telefonou dizendo que a prefeitura de Manga não poderia me acolher porque não tinham verba para pagar o barqueiro e o combustível… eu pensei comigo: e se eu estivesse em apuros… eles me resgatariam?

DE MALHADA A BARRA

Malhada, Bahia, 11/10/2009 – 06h59

Há cerca de 20 dias retomei minha jornada; ao todo, excluindo-se os três meses de interrupção, foram 41 dias de viagem pelo rio São Francisco, cerca de 1.200 km percorridos e 1.100 km efetivamente remados! Atravessei todo estado de Minas Gerais, de sul a norte, visitei 10 cidades e conheci muitas pessoas interessantes!

Os livros nos dão a ilusão do conhecimento. Através deles, parece-nos que tudo se resume a espaços, datas, nomes, números e eventos isolados. A realidade, no entanto, é outra! Há um inter-relacionamento dos fatos, dos ambientes, das pessoas, que a literatura não consegue captar. Tudo faz parte de um mesmo universo, ainda que as barreiras e rupturas aparentes não permitam nosso entendimento dessa integração.

A sistematização do conhecimento tem seu papel didático e de organização do saber para que nossas mentes limitadas consigam compreender esse mundo. Mas esse processo de síntese não pode reduzir tudo a fragmentos desconexos, que venham a mascarar a verdade, ocultando informações relevantes e imprescindíveis ao entendimento.

Falo do São Francisco. Existem descontinuidades naturais, como é o caso da passagem do rio pela Serra da Canastra e a ruptura provocada pela cachoeira Casca D’anta. Repentinamente o rio despenca de forma brusca e passa a correr pelos vales, alternando curvas, remansos e corredeiras, até encontrar o seu plano natural, a partir do qual terá uma declividade de apenas 26 centímetros por quilômetro!

Basta dividir a altura inicial do rio pela sua extensão:

680 m (em Doresópolis) / 2.700 km de extensão = 25 cm /  km

Se reduzirmos as alturas das cachoeiras de Paulo Afonso (90 metros) e das barragens das represas de Sobradinho (70 metros) e Xingó (120 metros), teríamos:

400 / 2.700 = 15cm / km (menos de um palmo por quilômetro!)

É como se o rio só caminhasse porque suas águas são empurradas pela água que vem atrás! Praticamente um rio de planície!… é por essa razão que, quando ventava muito, minha canoa andava para trás; e sem vento a canoa não se movia sem remar. Em compensação, nos trechos de corredeiras entre Vargem Bonita e Doresópolis, a declividade era de quatro metros por quilômetro! Estatísticas são terríveis!

Havia quedas de quase dois metros de altura e trechos de mais de dois quilômetros sem corredeiras, mesmo nesse trecho de serra. Mas para a matemática eu não teria nenhum problema em percorrer o rio São Francisco de canoa canadense! Um conhecido de um amigo meu disse: “O rio São Francisco não tem corredeiras! Muito menos águas brancas!”. É verdade! Mas diga a ele para percorrer todo rio de canoa canadense! Diga-lhe que faça tudo sozinho, sem ajuda externa, sem apoio! Eu fiz!

Existem também as intervenções humanas, violentas como as barragens, que represam milhões de toneladas de água, mudando as feições do rio e afetando profundamente sua fauna e as próprias características da água, seja no reservatório, seja depois dele, por quilômetros! É que a barragem e a represa funcionam como um gigantesco filtro, que decanta todos os resíduos e libera água “limpa”!

E existe ainda a presença humana, dependente do rio, segregada em comunidades, ou esparsa ao longo de suas margens, ora vivendo inocentemente em parceria com o rio, ora transgredindo as leis da preservação da Natureza e ameaçando sua vida.

Já passei por inúmeras regiões e pude constatar a maioria dos problemas descritos na literatura, debatidos publicamente, exibidos em documentários. Porém, nada é mais cruel do que a própria realidade, e só quem percorre o rio lentamente, como eu faço, pode compreender a sua verdadeira dimensão.

O rio São Francisco é um gigante. Ninguém poderia conceber a morte desse colosso, por maiores que sejam os maus tratos a que ele está submetido. No entanto, anda estou na área de formação desse rio, recebendo os últimos tributários perenes que agigantam suas águas. E, no meio de seu curso, onde deveria ter a força da juventude, imensas áreas de assoreamento chegam quase à superfície pela metade de sua largura, aumentando drasticamente o índice de evaporação e perda de águas.

De onde vem tanta areia? Algumas até se transformam em ilhas, outras não… é desse processo contínuo que eu falo: o homem destrói as matas; as águas fazem o resto, arrancando as terras dos barrancos e arrastando-as ao longo do rio. Essas terras se transformam em areia e se depositam no fundo, tornando o rio cada vez mais raso e mais largo. As águas, por consequência, se aquecem e evaporam com mais intensidade. Os peixes de águas profundas, o dourado e o surubim, desaparecem.

A poluição provocada pelos esgotos urbanos, resíduos industriais e agrotóxico complementam a destruição, matando os peixes, que são cada vez menores, seja pela pesca predatória, seja pela degeneração provocada por venenos, seja pelas dificuldades crescentes em se reproduzir (falta dos habitats naturais destruídos).

Pode um rio, gigante como o Velho Chico, morrer? Talvez secar completamente seja difícil e leve anos demais para nossa existência humana constatar. Mas existem outras formas de se morrer: perder a vitalidade, tornar-se imprestável para o consumo humano e para suas lavouras, deixar de abrigar a rica fauna que ainda insiste em subsistir em suas margens… formas talvez mais cruéis de se morrer…

Pois o rio São Francisco está morrendo à míngua! As matas descontínuas já não abrigam mais as grandes espécies de felinos, símios e tantos outros animais, como jacarés, lontras, raposas e grande parte da diversidade biológica de sua vegetação.

As matas de fachada, tristes cenários que ocultam a perversidade do pequeno e do grande produtor rural, apenas evidencia o descaso dos governantes, que não fazem cumprir as leis ambientais e não punem com o rigor devido esses criminosos!

Ainda não senti o peso do semiárido, das baixas pluviosidades das caatingas, e já percebo essas situações extremas. E o poder público, o que faz? Contra grandes problemas, pequenas soluções que se arrastam com a má vontade e a ignorância de quem não conhece a realidade do rio. Minha percepção é limitada ao curso do rio, às poucas comunidades que visitei, aos raros depoimentos que colhi. E, no entanto, já posso afirmar a extrema gravidade do quadro que encontrei.

O Progresso é inexorável, dizem os desenvolvimentistas, para quem tudo é permitido em nome da nova economia e do enriquecimento das elites. Mas seria essa a única via para o futuro da humanidade? Consumir todos os recursos naturais até exaurir o planeta, inviabilizando a vida na Terra? Existem outros caminhos, que passam por um conceito mais sólido de responsabilidade social, compromisso com o meio ambiente e com a eliminação das desigualdades sociais. Dizem que não existem castas em nosso país… seria verdade? E como explicar o inevitável destino reservado às populações menos favorecidas e mesmo na miséria absoluta? A eles, casta inferior e desprezada, só resta se conformar com o futuro, acreditar na vida eterna e convencer seus filhos a não se rebelarem contra as injustiças, o abuso do poder e a arrogância de suas elites abastadas.

Quilombo “Barra do Parateca”, 12/10/2009 – 23h51

Sul: 13º 56′ 09” – Oeste: 43º 37′ 44” – Altitude: 440 metros

Saí de Malhada às 07h00. Jojô (educomunicadora[1] da CPT[2]) e Wilson (seu marido) cuidaram de mim como a um parente próximo ou um grande amigo! Ontem almocei na casa deles e me serviram com todas as atenções… pessoas inesquecíveis!

À tarde estive no quilombo Tomé Nunes e falei com a comunidade. São pessoas muito especiais. Não poderia imaginar a vida em um quilombo; o sofrimento, o abandono, o descaso das autoridades, a violência dos fazendeiros tentando expulsá-los da terra onde nasceram seus avós e que lhe são de direito histórico e de justiça social.

Como se não bastasse sua origem humilde, descendentes de foragidos da escravidão, sem nenhum conforto, humilhados por aqueles que deveriam defendê-los. Nem mesmo a titularidade das terras que ocupam conseguiram do poder público, e vivem sob constante ameaça de despejo. Então, para que serve a certificação de quilombolas?

Nem à água tratada ou a qualquer benfeitoria urbana essa gente tem direito! Vivem por sua conta, lutando pelos direitos mínimos de dignidade de seres humanos que a Constituição Federal deveria lhes assegurar!

Contaram-me suas histórias e suas lendas,.. o Encanto! O que seria isso? Um mito? Um temor constante de ser levado pelo rio por criaturas misteriosas? A materialização do inexplicável? Talvez seja o conjunto de temores que levam nossos sentidos a transformar a fantasia em realidade… sim, o Encanto existe, ao menos na imaginação.

E a pescaria do peixe mais fantástico que jamais existiu? Reminiscências do passado, quando o rio era generoso e os homens menos perversos com a Natureza… conheci Maria Clara, uma velhinha negra e simpática, cheia de energia, cujas estórias nos prendem de perplexidade e emoção! Que mundo é esse que eu nem imaginara existir?

Maria Clara ainda era criança e seu pai costumava levá-la às pescarias… era filha única, situação incomum para as famílias de classe social mais humilde… naquele dia eles foram em um lugar habitual, mas havia um outro pescador lutando com um peixe desesperadamente. Ficaram observando o esforço daquele jovem robusto, que sequer os viu chegar, absorto que estava em não perder seu peixão! Puxava a linha até a vara se curvar a ponto de arrebentar; então soltava e deixava que o peixe corresse um pouco, para retesar novamente a linha. Ficou assim durante horas, e o peixe não demonstrava cansaço, ao contrário do pescador, que se impacientava cada vez mais.

De repente, um puxão mais forte e desajeitado e o peixe salta fora d’água, exibindo seu espetacular brilho prateado contra o sol vespertino; cai num estrondo imenso e a linha se arrebenta e o peixe foge! O jovem pescador se desespera, grita, vocifera, amaldiçoa a tudo e a todos pela perda de seu maior troféu jamais conquistado! Vai-se embora…

Maria Clara e seu pai desistem de pescar por ali; certamente, aquela luta espantara não apenas o enorme peixe, mas também assustara qualquer outro animal que por ali estivesse. Seguem rio acima, margeando o barranco, em silencioso respeito… logo adiante, seu pai decide que é a hora de parar; esgueiram a canoa para um pequeno remanso e ele amarra a proa da embarcação em um tronco, manobrando a canoa para deixar a popa o mais afastado que pode do barranco. Senta-se e prepara a isca…

Pelo anzol, Maria Clara imagina que o pai quer encontrar aquele peixe enorme. Ele ajeita com cuidado a isca, um mandi bem crescido, corta-lhe as barbatanas e lança a linha grossa para bem longe, rio abaixo, perto demais do barranco e de um enrosco que se formara com as últimas chuvas. Ele sabia o que estava fazendo.

Ficaram ali por um tempo que ninguém sabe contar; quando esperamos por alguma coisa, nossa percepção do tempo se torna aguçada, e o dia, as horas, os minutos e segundos se arrastam, como se quisessem que nada se modificasse ao seu redor.

De repente, um estrondo nas águas, e o peixão surge das espumas e se lança no espaço, bem à sua frente! Maria Clara não se conteve e gritou… um misto de encanto e pavor, medo e admiração por aquela vida magnífica que se contorcia na ponta do anzol de seu pai! Foram segundos eternos! Ficaram os dois, pai e filha saboreando esse instante de desarmonia do Universo, onde presa e predador se confundem, e ninguém sabe o desfecho da história… o peixe se soltou e foi embora, não antes de jogar-se novamente, livre, quase sobre a canoa, diante do espanto e terror deles…

Um silencioso respeito se seguiu àquela cena fantástica… ninguém ousava quebrar o Encanto, que durou uma eternidade de alguns segundos, até que fossem embora, felizes! Maria Clara percebeu que seu pai deixara a ponta do anzol um pouco aberta para permitir que o peixe se soltasse, mas nada falou. Ambos tiveram seu Encanto…

Hoje remei forte por 9 horas e percorri cerca de 60 quilômetros, chegando a Barra do Parateca, um quilombo extrativista. Os mesmos problemas de terras e de fazendeiros gananciosos e cruéis, que querem lhes tirar as terras com o apoio da Lei!

Seus líderes já foram presos e ameaçados de morte por capangas dos latifundiários; suas lavouras de lameiro (são vazanteiros) foram destruídas pelo gado, soltos propositadamente sobre as plantações… seus acampamentos colocados abaixo pelas mesmas motosserras dos fazendeiros que destroem as matas ciliares… e até mesmo juízes “seduzidos” pelo poder e dinheiro tentam expropriá-los de seus bens…

Fiz minha palestra em um templo evangélico adventista para cerca de 50 pessoas… falei do rio, de suas mortes possíveis, da escassez de águas no mundo, da poluição e da responsabilidade de cada um por esse nosso mundo. Falei do trágico planeta que o futuro nos reserva se continuarmos a maltratá-lo assim. Dialogamos bastante….

Fui recebido na comunidade pelo Elson, um líder nato com grande capacidade arregimentadora de opiniões. Eles possuem um sistema de alto-falantes, que serve para divulgar eventos, como o meu, e também notícias e alertas de invasões.

Lamentavelmente, no mesmo local onde cultivam suas hortaliças, um enorme barranco de uns 5 metros de altura e cerca de 70 metros de largura desde o rio, existe uma grande quantidade de lixo jogado pelos moradores. São garrafas pet, latinhas, lixo orgânico, papel, de tudo o que se possa imaginar. Em minha palestra fiz questão de chamar a atenção desses moradores para o descaso com o meio ambiente.

Estou hospedado na casa de dona Maria, mãe do pastor Alex, e parteira da comunidade. Diz ela que já realizou quase 200 partos e trouxe ao mundo 179 crianças, pela magia de suas mãos e pela sabedoria de sua vida dedicada às mulheres.

É uma casa ampla e confortável, com três quartos e um grande salão anexo, onde serve refeições caseiras. Deixou-me à vontade e até a acompanhei em uma oração para as crianças e em defesa do Meio Ambiente, que ela fez questão de incluir…

No quintal existe uma criação de galinhas caipiras e d’Angola, e de patos, que convivem curiosamente com os jegues, os porcos e as cabras. Algumas árvores frutíferas, um pouco de ervas plantadas em um pequeno viveiro protegido dos animais.


[1]    Educomunicadora – denominação dada pela Comissão Pastoral da Terra a seus voluntários que se dedicam a orientar os povos das comunidades sobre seus direitos constitucionais e sociais.

[2]    CPT – Comissão Pastoral da Terra, órgão da Igreja Católica, que se dedica a apoiar e orientar as comunidades e os movimentos sociais de luta pela posse da terra e pela reforma agrária.

Bom Jesus da Lapa, a 1.400 km da Foz – 15/10/2009 – 05h13

Sul: 13º 15′ 20” – Oeste: 43º 25′ 11” – Altitude: 441 metros

Cheguei na Lapa ontem às 15 horas. A aproximação da cidade pelo rio é impressionante! Um morro arredondado de rochas calcárias se sobressai no horizonte plano e monótono de caatinga. Quase nada é verde… apenas umas áreas de fazendas que preservaram algumas árvores e irrigaram um gramado enorme, onde o gado pasta pachorrento, à sombra de mangueiras e coqueiros isolados.

O rio parece se expandir e mostrar-se amplo e plácido, como uma imensa lagoa marrom, refletindo o azul celeste. Ao fundo, uma extensa ponte liga Bom Jesus ao oeste baiano. E o morro enorme, solitário, pontiagudo em suas manifestações cársticas, ocultando em seu ventre a caverna mística do Santuário da Lapa.

Parei em uma ilha, tomei um banho “de gato” e coloquei uma roupa menos encardida da longa permanência no rio. Liguei para Samuel, coordenador da Comissão Pastoral da Terra nessa região do São Francisco. Ele estava em Barra, na recepção ao presidente Lula que visitava as “obras da revitalização”, uma proposta para disfarçar o constrangimento de fazer a transposição sem antes recuperar a devastação do rio.

Falei com o Juliano, da CPT de Bom Jesus da Lapa e ele me disse que iria me buscar na beira do rio. Passei por baixo da ponte e procurei um local onde pudesse encostar minha canoa. Logo à frente havia um pequeno porto bem movimentado, com quiosques de palha e muitos barcos, pequenos e grandes, atracados. Fui para lá e encostei o barco.

Liguei também para o secretário de Agricultura de Bom Jesus da Lapa. Ele se prontificou a me ajudar a desembarcar. Eu precisava tirar a canoa e toda minha tralha da água, pois pretendia ficar lá por alguns dias. Tinha combinado com a Mônica, minha filha, de passarmos o final de semana juntos e ela chegaria na sexta-feira.

Será, com certeza, uma das mais fascinantes visitações que farei nesta viagem, tanto pelos aspectos místicos do lugar, como pela companhia de minha filha e a participação nas atividades da CPT na região. Eu tinha uma grande expectativa desse encontro.

Esse portinho é bastante problemático, pois fica a 1,5 km da cidade, tem um canal do rio que o isola das vias de trânsito, e ninguém conhece direito o caminho para chegar. Pelo menos as pessoas que iriam me ajudar a sair de lá… foi necessário contratar uma carroça para atravessar o canal, pois nem o secretário nem Juliano sabiam como sair.

Juliano chegou com a carroça e logo colocamos tudo dentro e atravessamos o canal. Do outro lado estava a caminhonete do secretário, toda limpinha, impecável, e ele constrangido em levar minha carga barrenta para alguma pensão ou hotel.

A carroça acabou levando tudo para o Centro de Treinamento de Líderes, vinculado à igreja católica e aos movimentos sociais apoiados pela CPT. Eu segui com o secretário para um pequeno e caro hotel, de sua propriedade, no centro de Bom Jesus da Lapa, onde fiquei. Combinei com Juliano que iria para a CPT assim que me instalasse no hotel.

Sinto-me cada vez mais próximo das ações missionárias da CPT e da ONG SOS São Francisco, principalmente pelo seu compromisso com as pequenas comunidades de quilombolas e indígenas ribeirinhas. Parece-me um bom caminho para compreender a realidade do rio e de seus habitantes, seus costumes e suas mazelas sociais.

Hoje me reunirei com Juliano e domingo com o Samuel, para definir minha participação efetiva nesses movimentos. Daqui para a frente, formalizado esse acordo, minha expedição passará para uma nova fase, comprometida com as causas da justiça social e da inclusão desse povo subjugado pelas elites do poder econômico.

Depois do último acampamento, esse trecho do rio, apesar de longo e  cansativo, foi excelente, tanto pelo rendimento do barco, como pelas magníficas paisagens, inúmeras ilhas e a infinidade de aves aquáticas, presentes em todo percurso.

Desde Malhada noto a presença, pela primeira vez em todo rio, de plantas aquáticas de bulbo, tipo aguapés, disseminadas em pequenas colônias nas margens e em trânsito rio abaixo. Provavelmente será uma mudança definitiva, dado o grau de proliferação desse tipo de vegetação nos rios. Estranho não haver delas antes…

Já tenho formatado, mentalmente, o esboço de meus discursos daqui para a frente, e que se aprimorará ao longo do caminho, e que versa, primordialmente, sobre o processo de conscientização da sociedade, o meio ambiente e a responsabilidade dos homens pela devastação que tem causado ao longo dos séculos.

Será um discurso único, que poderá conter a essência de meu trabalho e funcionar como fio condutor da narrativa de meu livro, dando-lhe a forma e a estrutura de que necessito para organizar todo material coletado e as ideias desenvolvidas.

Visita a Cocos, oeste baiano, 19 a 21/10/2009

MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens

Reunião promovida pela CPT para definir estratégias de enfrentamento dos “barrageiros”, empresas que desenvolvem projetos para a construção de 49 PCH’s (Pequenas Centrais Hidrelétricas) nos rios Carinhanha, Itaguari, Formoso e Corrente. O problema é que essa quantidade de barragens irá destruir praticamente toda mata bem conservada desses rios e inundar as terras férteis de dezenas de comunidades que vivem à sua margem, no interior do oeste baiano.

Essas empresas, além de não se identificarem para as comunidades, utilizam métodos desonestos para cooptar o apoio de algumas pessoas da população para fornecer-lhes informações acerca das propriedades que pretendem comprar. Fazem propostas, oferecendo valores muito acima dos praticados no mercado, provocando discórdia entre vizinhos e ameaçando colocar sob as águas a história desse povo.

Esses valores, apesar de inflacionados, não seriam suficientes para reassentar essas famílias em outros locais com as mesmas condições e facilidades que hoje possuem. Basta lembrar que na desocupação das margens da represa de Sobradinho foram removidas mais de 72.000 pessoas; muitas foram deslocadas para regiões próximas a Bom Jesus da Lapa, a dezenas de quilômetros de distância de sua morada original.

Nas reuniões discutirão as estratégias de enfrentamento e a argumentação para convencimento da população a não vender seus imóveis e jogar fora seu patrimônio. Essas empresas sabem da fragilidade dessa população inculta e de sua vulnerabilidade a argumentos de seus negociadores, e se aproveitam disso.

Lamentavelmente, o governo não cuida de proteger essas comunidades, que ficam à mercê de oportunistas, interessados apenas na implantação de grandes empresas de agronegócio, lavouras a serem irrigadas pelas águas dessas pequenas hidrelétricas e energia abastecida também por elas. Com isso, áreas significativas de Cerrado estão sendo destruídas para dar lugar às fazendas de monocultura de frutas e de soja.


Pronunciamento no encontro da CPT

22 de outubro de 2009, 09h00

Seminário de Avaliação da Comissão Pastoral da Terra

Sob a estátua de Francisco, nosso mestre, nosso irmão, um pequeno olho d´água, rebento da terra, recém nascido, busca a luz do sol e começa sua jornada nesse mundo de Deus. Mal sabe aquele filete de água, o seu destino; e, como criança, serpenteia pelos vales das colinas da Canastra, juntando a suas águas as de outros regatos pequeninos como ele. Caminha assim, nos altiplanos do cerrado, até formar volume e criar coragem para lançar-se à aventura de saltar da montanha e descer as encostas dos morros, em direção ao mar. É a Casca D’anta, uma das belas cachoeiras que ornamentam nosso país, com seus quase 200 metros de queda pelas rochas, até formar um lago de águas escuras e geladas.

Segui seu curso, caminhando na montanha; desci ao seu lado pelas rochas, e me coloquei em suas águas para descermos juntos daí em diante, unindo meu destino ao seu, entre corredeiras e remansos, cercados de mata virgem e animais silvestres, como gostava o Santo de estar. Suas águas cristalinas correm sobre um leito de pedras arredondadas, seixos roliços de tanto rolar pelos séculos, desde a montanha. Novos riachos depositam suas águas em cascatas prateadas, trazendo consigo a vida de outras matas, peixes, pássaros de toda espécie, num abençoado Jardim do Éden…

Por mais de dez dias, eu, Chiquinho (como o chamam os ribeirinhos) e os animais convivemos nessa terra prometida que os homens, aos poucos, vão devastando, plantando milho onde só havia floresta, criando gado, poluindo suas águas com seus esgotos e agrotóxicos, até que aquela pureza não exista mais.

Quando chega o Samburá, o São Francisco já é quase adulto, mais calmo, águas lamacentas e turvas, quase largo o bastante para não se deixar atravessar às braçadas de um nadador. Se antes as canoas dos pescadores não ousavam descer a montanha, agora surgem às dezenas, plantando caniços nas margens, arrastando redes que cercam os peixes, raspando o fundo do rio, sem chance de sobrevivência para muitos animais.

A algazarra dos pássaros diminui nas margens desnudadas de sua roupagem verde. E a avassaladora força das águas nas cheias leva os barrancos para o meio do rio, arrancando árvores, alargando as margens e tornando raso o leito do rio. Cada vez mais lavouras de monocultura de soja e cana de açúcar, e pastos de brachiaria empobrecem a paisagem, e inundam o rio com produtos químicos, matando seus peixes, que um dia foram grandes e tantos que não faltavam nas mesas dos homens.

Setenta léguas depois, o rio para, contido pela barragem das Três Marias! Um muro gigantesco contém seu ímpeto e o aprisiona no grande lago azul que se formou a montante. É uma falsa pureza esse azul… todo barro que corria junto às águas, agora se assenta no leito da represa, e os peixes de correnteza já não podem mais caçar. Em suas margens, a escassa vegetação já não abriga a vida. Apenas ranchos e clubes de pesca dos homens, que para ali se dirigem apenas para se divertir.

E, ao lado da barragem, o símbolo da ambição desmesurada dos homens se instalou, trazendo consigo a morte. Uma indústria de metais, que nas margens desse rio bendito deposita seus dejetos, produtos químicos e metais pesados, que nas cheias maiores escorrem para as águas, dizimando peixes aos milhares, e contaminando seu leito.

Depois disso, é muita tristeza, trazida pelas mãos dos homens; além dos resíduos industriais, esgotos urbanos e agrotóxicos! Um rio inteiro de esgotos da capital mineira é despejado no rio, depois de Pirapora: o rio das Velhas! Melhor seria chamá-lo o rio das Mortes!

Às vezes o rio é tão raso que quase dá para atravessá-lo a pé, caminhando… e, no entanto, muito de sua beleza resiste e permanece: os mais belos crepúsculos e ocasos, o sol tingindo o céu com todos os matizes de cores, um espetáculo emocionante!

Mas as queimadas e a motosserra não nos deixam esquecer a perversidade do homem, movido pela ganância de roubar do rio sua roupagem de vida. Para que? eu me pergunto… se aquilo que dele roubou para aumentar sua plantação o rio irá tomar de volta nas enchentes? Porém, o rio se alarga ainda mais, e agoniza lentamente, levando, nesse lamento, a vida que abrigava em seu manto sagrado…

É preciso fazer alguma coisa! O rio não pode morrer! Pois ele acolhe também um povo simples, honesto, generoso, o verdadeiro ribeirinho, que há séculos se instalou em suas margens e ali criou sua história de lutas e sofrimento, mas também de respeito pacífico pelo rio São Francisco…

É desse povo, quilombolas, indígenas, pescadores, pequenos agricultores, que sairá o grito de redenção:

Salvem o rio São Francisco!

Salve o nosso Velho Chico!

São Francisco Vivo: Terra, Água, Rio e Povo![2]


[2]    São Francisco Vivo: Terra, Água, Rio e Povo! – “grito de guerra” da ONG SOS São Francisco

BARRA (do rio Grande)

Comunidade Extrativista Quilombola de Piranhas, 26/10/2009 – 00h12

Sul: 12º 42′ 01” – Oeste: 43º 15′ 14” – Altitude: 418 metros

Caixa de texto:  Foto 97: Belíssimo canal protegido pela rica vegetação na entrada da comunidade de Piranhas

Saí de Bom Jesus da Lapa dia 23 de outubro, depois de oito dias de permanência! Segui rio abaixo e entrei no canal que liga o São Francisco à lagoa das Piranhas… belíssimo local, preservado e rico em vida natural, com cerca de dois quilômetros de mata fechada! Os pássaros são um espetáculo de diversidade e beleza!

A lagoa surge aos poucos, revelando sua extensão e tranquilidade.. remei lentamente, saboreando toda paisagem ao meu redor… um espelho d’água onde alguns poucos barcos se movimentavam, transportando a produção de lavradores, ou os peixes trazidos do rio. O silêncio só era quebrado pelo canto dos pássaros e pelo meu remo roçando a água com cuidado para não quebrar aquele encanto!

Fui seguindo a margem à procura da aldeia, sem perguntar a ninguém, acreditando apenas em minha intuição que, a cada dia se tornava mais aguçada e eficiente. Depois de algum tempo avistei algumas casas na encosta, e um pequeno porto. Parei ali, amarrei o barco sob um arbusto, retirei apenas meu equipamento eletrônico e subi em direção à vila. Procurava a casa de Miguel, líder comunitário e presidente da Associação dos Moradores da Comunidade de Piranhas.

Encontrei a casa, mas ele não estava; somente sua filha, Jaqueline, que me atendeu e me disse para procurar Dai, um pescador que conheci no CTL, em Bom Jesus da Lapa. Encontrei um pequeno restaurante instalado na frente da casa dele, muito simples, e falei com sua esposa, Rosa, que logo me convidou a sentar e preparou um almoço: arroz, feijão, macarrão, farinha de mandioca e abóbora, além de uma fritada de mandi[1]. Estava tudo muito saboroso! As crianças logo me cercaram e perguntaram sobre minha viagem, o que eu fazia lá e essas coisas que só mesmo uma criança pode perguntar.

No início daquela semana houve um atentado à comunidade; eles vivem cercados por uma grande fazenda e foram vítimas da truculência dos filhos do fazendeiro, que aprisionaram vários animais que atravessaram sua cerca. Dizem os moradores que os próprios fazendeiros mandaram derrubar a cerca para os animais atravessarem.

Esses animais ficaram presos sem alimentação e sem água, e os agressores exigiam o pagamento de dez reais por cada animal que fosse solto. Para piorar, eles espancaram os animais: uma fêmea que acabara de ter um filhote, e o macho, que foi castrado rudemente, com um canivete sem corte. O filhote, que também tinha sido aprisionado, acabou morrendo devido à falta de alimentos e de água.

Quando foi apresentada queixa na delegacia de Carinhanha, eles soltaram os animais, e isso coincidiu com minha chegada à comunidade. Depois de almoçar, fotografei e filmei o pobre animal castrado; disseram-me que o bichinho era tão manso que comia à mesa junto com a família de Dai. Agora estava ali, com um grave ferimento infectado, correndo o risco de morte, sem assistência veterinária, que não existe na aldeia.

Esses quilombolas, descendentes de escravos, vivem nesse local há mais de um século, sem a titularidade das terras que ocupam e cuidam, à margem da lagoa. Estranho é que, mesmo tendo provas de sua presença no local, não conseguem o registro de propriedade das terras. Até vestígios de ossos humanos com mais de cem anos existem em suas propriedades, além da anciã com mais de 100 anos, já falecida.

Visitei as mandalas, técnica de plantio irrigado por gotejamento, implantada sob orientação do SEBRAE. São dez mandalas[2], cada uma sob os cuidados de várias famílias. Em cada plantação existem muitas variedades de hortaliças, como tomate, alface, mandioca, batata, melancia, abóbora, coco e outros de escolha dos lavradores.

Na vila residem mais de setenta famílias, quase metade ainda em casas de taipa, que serão todas substituídas por casas de alvenaria através de financiamento do governo, em um programa nacional de erradicação dos focos de besouros transmissores da Doença de Chagas. Esse cenário é usual nas comunidades do oeste baiano.

Outro projeto desenvolvido em Piranhas é a criação e comercialização de tilápias, mantidas em viveiros dentro da lagoa. Hoje são vinte gaiolas e chegarão a sessenta, com uma produção anual estimada em sessenta toneladas de pescado. Esses peixes são transferidos para uma Central de Processamento composta de duas grandes salas de preparação, um frigorífico, uma doca de expedição, além das instalações de administração, com computadores e todo mobiliário. O projeto é financiado pelo governo e será pago com a receita proveniente da comercialização do pescado.

De todas as comunidades que visitei, a de Piranhas foi a que mais se desenvolveu através de treinamentos e implantação de tecnologias modernas de produção. No meu entendimento, casos bem sucedidos como este deveriam servir de modelo para que outras comunidades consigam superar a situação de pobreza e estagnação.

Pernoitei na casa de Miguel, depois de conhecer toda comunidade. Visitei uma pequena e antiga capela, as ruínas da sede da fazenda do século XIX, os restos de um pilão de uma antiga fábrica de farinha de mandioca, um curral de madeira, hoje abandonado, além dos cemitérios dos ricos (fazendeiros) e dos pobres (escravos)!

Lá estava o túmulo de uma senhora, filha e neta de escravos, que viveu 115 anos! Foi ela quem comprovou sua origem e assegurou à comunidade o título de quilombolas. Toda terra é muito bem cuidada e protegida por cercas. As crianças nos acompanharam por toda visita; é muito emocionante ver como essa gente simples trata de suas crianças, com todo respeito e atenção, e como essas crianças são educadas e atenciosas conosco.

Saí pela manhã do dia 24 de outubro, com a intenção de cumprimentar os acampados do Movimento 17 de abril. Durante minha estada em Bom Jesus da Lapa fizemos uma visita a esse acampamento, que é controlado pela CETA, Central Estadual de Trabalhadores Rurais Assentados e Acampados, dissidência do MST.

Nossa visita ao acampamento foi motivada por uma homenagem a um líder comunitário assassinado por capangas mandados por fazendeiros. Chamava-se Afonso e sua mulher, Marilene e suas filhas estavam presentes ao encontro, além dos membros da CPT.

Foi uma homenagem muito bonita; fizemos discursos, uma passeata pelo acampamento e foram lembradas as qualidades de liderança de Afonso que durante anos coordenou atividades nos acampamentos da CETA naquela região. Havia um cacto, um mandacaru plantado no meio do terreno, próximo às barracas de lona preta.

Esse cacto representava a tenacidade e determinação dos acampados em prosseguir em sua luta, a despeito das adversidades. Lá no 17 de abril existem cerca de 80 famílias; já foram 120 quando realizaram a invasão, há seis anos. Eles vivem sob a ameaça de um despejo provocado pelas ações de reintegração de posse.

Por tudo isso, retornei ao acampamento quando saí de Piranhas. Eles queriam se despedir de mim, e acabei passando o resto do dia por lá. Conversamos muito, jogamos dominó, assisti a uma partida de futebol, fizemos almoço, jantamos e pernoitei em um dos barracos de lona depois de muitas brincadeiras de memória.

Pela manhã do dia seguinte retomei minha viagem às 06h30, com o propósito de chegar à comunidade de Mangal / Barro Vermelho até o final do dia. Passei por trás de uma ilha que separa o acampamento da cidade de Sítio do Mato, na outra margem do rio. Na ilha ganhei duas melancias de um dos acampados, que as cultiva por lá.

No entanto, um incidente muito grave mudou meus planos e afetou todo resto de minha expedição. Ainda não sei a motivação dessa ameaça que sofri, e talvez nunca venha a saber, mas imagino que esteja relacionada com minhas atividades junto à CPT e meus discursos nas comunidades, sempre em defesa dos mais fracos e oprimidos[5].

Eu já tinha remado algumas horas, talvez (e hoje fica difícil mensurar o tempo, distante dos acontecimentos que irei narrar agora), quando, em um canal do rio, aproveitando a correnteza mais forte, parei de remar e resolvi comer uma das melancias que ganhei. O barco seguia lento e o lugar era muito bonito, com vegetação rica nas margens.

De repente percebo um barco vindo em minha direção; peguei o remo e endireitei a canoa para dar passagem ao outro barco; parece que ele não me via e acabou abalroando a minha canoa, que quase virou. Consegui controlar a situação e, quando me virei para o outro barco, ele manobrava e retornava em minha direção.

Parou ao meu lado; havia duas pessoas no barco e um deles estava de pé, tinha um bigode escuro, uma camiseta listrada de branco, vermelho e preto, e estava armado. O outro estava sentado junto à popa, manobrando o motor que não era de rabeta, e eu não gravei nenhum detalhe que pudesse identificá-lo. Acho que também estava armado.

O que estava de pé me ameaçou falando impropérios em voz alta, xingando-me de “comunista safado”, “alemão de merda” e outras expressões desse tipo, e dizendo que eu me afastasse desse “povinho” do rio, se quisesse sobreviver. Falou rápido, com um sotaque típico do oeste baiano, manobrou o barco novamente, e seguiu rio acima.

Eu fiquei parado, assustado e sem saber o que fazer. Parecia uma cena surreal, sentia como se estivesse em um filme antigo; parecia que sonhava; eu não conseguia pensar. Por alguns minutos (e novamente não sei quanto durou) eu deixei o barco deslizar pelo rio até retomar a consciência e me sentir seguro novamente. Olhei para o alto do rio e não vi mais o barco… a ameaça passara e fiquei pensando nos motivos da agressão verbal.

Sabia que eram pessoas mandadas, mas ignorava a razão. Devem ser meus discursos… pensei… mas os que me ouviram eram pessoas ligadas a esses movimentos de libertação do jugo dos poderosos; não deveriam me delatar… fiquei perplexo! Somente alguém de dentro desses movimentos poderia me denunciar.

Segui adiante, meio confuso, e me concentrei nas remadas; remava forte, como se fugisse do cenário de um crime, cujo protagonista era eu mesmo, e o antagonista era um inimigo do povo, talvez um fazendeiro poderoso, talvez um político reacionário…

Algum tempo depois passei perto de um casal de pescadores. Já estava mais calmo e perguntei onde ficava a comunidade de Mangal / Barro Vermelho. Mostraram-me um barranco bem adiante, de terra vermelha, e compreendi parte do nome do lugar. Agradeci e segui adiante. Mas não sabia o que fazer quando chegasse lá…

Continuei remando, como um autômato, esperando que os acontecimentos decidissem por mim, mas isso era impossível. Tinha que decidir se parava ou seguia adiante, aceitando as ameaças dos jagunços. O barranco vermelho se aproximava… um pouco antes, vi um casal de jovens andando a cavalo pelos campos; havia vários caminhos, trilhas na encosta do morro, e uma grande área que parecia um brejo ou uma plantação de arroz. Resolvi parar antes; tentar subir pela encosta e procurar ajuda.

Parei o barco e o escondi debaixo de um arbusto. Comecei a subir por uma das trilhas que levava até bem próximo de umas casas; cheguei no topo do morro e vi uma construção grande, um barracão onde havia um trator guardado, mas ninguém por perto. Parecia deserto.

Resolvi descer e prosseguir até o barranco de terra vermelha; achei que ninguém me molestaria na frente de pessoas mas, no meio do caminho, como assombração, apareceram os dois jagunços, um com o revólver na mão e o outro, aquele que me abordara antes, com uma carabina de cano serrado, ambos com chapéu. Estavam atrás de uma moita onde uma árvore maior ocultava seus corpos do resto da trilha.

Parei quando ele colocou a boca da arma em meu peito, com um tranco forte! Quase caí, mas me mantive de pé. Agora ele falava baixo, mas firme e muito irritado: “você está querendo morrer, velhote? Não tem medo do meu berro?” Eu parei, mas não tinha medo… eu me sentia como se tudo o que se passava fosse como em um filme; nada era real, nada existia… tive receio dessa reação; será que eles achariam que essa atitude era arrogância minha? Tentei parecer assustado, mas não convenci nem a mim.

Ele falava sem parar, me ameaçava e eu não conseguia me concentrar nas palavras. Lembrei-me das histórias que dois participantes do encontro de Cocos contavam; histórias de seus antepassados, de uma época em que tudo se resolvia à força, em emboscadas como essa. Contaram-me de assassinatos, crimes terríveis cometidos quase sem motivo algum…

Só ouvi o final, quando disseram que eu não entrasse em Mangal[6] se quisesse viver; diziam para eu nem olhar para o lado, para não falar, nem parar o barco. Eu teria que seguir adiante! Eu não poderia falar deles, nem coisa alguma que os identificasse. Falaram e foram embora. Deixaram-me ali, de novo, sem rumo e sem vontade…

Queria andar, mas não conseguia me mover; parecia que eu pesava uma tonelada. Olhei para meu barco, lá em baixo, sob o arbusto, e me pareceu intacto. Eles não iriam destruí-lo se quisessem que eu seguisse adiante, pensei. Segui até ele, entrei.

Soltei o barco e deixei que ele descesse lentamente, sem remar. Passei por umas mulheres lavando roupas… passei por pessoas paradas no barranco; elas falavam, gritavam, mas eu não ouvia nada. O mundo estava em silêncio, mas meus pensamentos gritavam como uma multidão, falando todos de uma só vez.

Não sabia o que fazer. Peguei meu GPS e olhei minha localização, mas não adiantou: não conseguia enxergar nada! Pensei em mandar um sinal do SPOT, mas tive receio de mostrá-lo às pessoas que olhavam incrédulas para mim, em meu barco, passando por eles como se os ignorasse. Na verdade, eu os via como bonecos sem vida, como eu… um zumbi descendo o rio sem destino, sem propósitos, sem vontade.

Definitivamente, eu não iria parar ali; quando o sangue voltou ao meu cérebro, comecei a remar forte, tentando me afastar rapidamente dali. De alguma forma, aquelas pessoas representavam tudo o que eu desejava esquecer, ignorar, fugir delas. Assaltava-me uma sensação de que eu traíra aquele povo, indo sem explicações.

Nada podia fazer… parei em uma praia e acampei sem saber como montara a barraca. Nem me lembro dessa praia… nada ficou em minha memória sobre esse período… não conseguia dormir. Lembrei-me do pobre jegue castrado e pensei que poderia ter sido eu. Descobri que não sei lidar com essa situação e que não estou preparado para morrer… não dessa maneira! Quero terminar minha viagem, meu trabalho!

Decidi evitar o encontro com novas comunidades, pelo menos nessa região! Depois de Sobradinho vou pensar em como prosseguir. Preciso contar tudo isso ao pessoal da CPT, lá de Bom Jesus da Lapa; preciso de alguém que me ajude a pensar!


[1]    Mandi – pequeno peixe consumido frito ou usado como isca para peixes maiores, como o dourado

[2]    Mandala (मण्डल) é a palavra sânscrita que significa círculo, uma representação geométrica, de simetria perfeita, da dinâmica relação entre o homem e o cosmo. As mandalas de plantações lembram essas figuras esotéricas.

[5]    Fracos e oprimidos – expressão muito comum nos Livros Sagrados, demonstrando a eterna disparidade de força e de poder entre os dominadores, seja qual for a cultura e a época, e os dominados, que a eles se submetem

[6]    Mangal / Barro Vermelho – nome de uma comunidade quilombola dessa região onde a terra dos barrancos é vermelha

Algum lugar próximo a Paratinga

Chove Torrencialmente! 26/10/2009 – 04h53

Toda vez que enfrento uma tempestade estou em uma área de risco! Isso devido à minha comodidade e imprudência. Quando parei de remar ontem queria mesmo é descansar e me refazer do susto causado pela ameaça sofrida em Mangal.

Mas o prenúncio da tempestade iminente estava no horizonte: rio abaixo, na altura de Paratinga, onde as nuvens e os relâmpagos anunciavam presença. Mesmo assim montei minha barraca a poucos metros do rio, em terreno quase plano, uma praia de areia, em uma ilha, que aqui chamam de “coroa” (e pronunciam “croa”).

A chuva chegou às 03h00, com força máxima e permaneceu intensa por mais de uma hora. O problema, no entanto, não é aqui, pois essa água engrossará o rio mais abaixo. O meu risco vem da montante do rio. Pode nem estar chovendo aqui e o rio trazer uma inundação!

Ainda estou muito tenso com essa possibilidade, pois não existe um “plano B” desta vez, a não ser jogar tudo dentro da canoa e sair puxando praia acima até que não haja mais praia; e então só restaria mesmo navegar, sob risco ainda maior, pois as águas trazem consigo todo tipo de entulho, inclusive troncos e árvores.

Amanhece mesmo assim. A luz do dia penetra nas frestas da barraca, coberta completamente com a lona da outra barraca avariada. Pelo menos, até agora, estou seco e aquecido. Ouço o barulho de um motor de barco passando, mas não sei como está o rio, pois não tenho nenhuma visibilidade do exterior da barraca.

Quem sairia de barco com esse tempo? E se o rio estiver subindo e o pescador acampado ao meu lado tiver abandonado o seu barraco? E se forem os capangas que vieram me observar para saber se não estou descumprindo a ordem de não parar em comunidades? Será que por aqui tem alguma comunidade?

As surpresas são muitas nessas viagens de aventura, pois vejo que nada conheço deste rio, de seu clima e ciclos sazonais, de seu povo, seus costumes… sou um novato e inexperiente!

Tenho mesmo que me apressar rio abaixo, tentando chegar o mais rápido possível a Barra e, depois, a Xique-Xique. Preciso sair logo dessa região onde a influência do lago de Sobradinho sobre o clima e o comportamento do rio gera muitos imprevistos.

Na verdade, quero mesmo encurtar meu tempo no rio, buscando apenas a essência de cada lugar, e deixando a vivência para outros projetos, não o meu. Já me arrisquei demais, me comprometi demais com problemas que não me dizem respeito.

Provavelmente, quando terminar minha expedição, essas pessoas com as quais convivi por esse tempo que, para mim, foi muito e, para eles, apenas uma passagem irrelevante, essas pessoas terão se esquecido de mim e nada significarei para elas… até mesmo minhas mensagens serão esquecidas e todos voltarão à sua rotina.

Ainda sem destino…

Saí daquela praia e remei forte, correndo contra o tempo, pois sabia que as chuvas não tinham se acabado. Falei com o Juliano, que estava em Paratinga, e contei-lhe em essência o que tinha acontecido; ele me disse que as pessoas que estavam no barranco, em Mangal, ficaram sem entender meu comportamento.

Ele participara de um encontro e resolveu me esperar para conversarmos com mais calma. Precisávamos entender o que houve e tentar descobrir as causas da ameaça, para ir atrás dos prováveis suspeitos de cometer esse tipo de violência.

Mas o tempo novamente não me deixou chegar a Paratinga; fui alcançado pela tempestade e parei em outra praia, armei a barraca bem longe do rio, desta vez, e permaneci por lá enquanto a chuva caía intensamente sobre o rio. Desta vez fiquei tranquilo porque tive tempo para escolher o local e fixar bem a barraca.

Não sei que horas são, pois meus celulares ficaram sem bateria de tanto falar com o Juliano, e não sei onde deixei o relógio; deve estar na canoa, mas com esse tempo prefiro ficar sem saber as horas. Não pude fazer o jantar e, pelo terceiro dia, só comi castanhas e tomei leite com chocolate. Água ainda tenho.

Paratinga, tema recorrente, 29/10/2009 – 06h28

Cheguei a Paratinga no dia 27 de outubro. Juliano e Gutinho me esperavam no porto. É um lugar meio estranho, com um grande edifício reformado acima de uma longa escadaria que vai até a margem do rio. Nas proximidades existe muita areia e é difícil navegar em linha reta. Errei o caminho e fiquei preso em um banco de areia, mas consegui me desvencilhar e corrigir o erro.

Estavam os dois ansiosos desde o dia anterior, pois não dei mais notícia e meus celulares estavam desligados. Nessas situações a imaginação constrói estórias, geralmente com desfechos trágicos, muito distantes da realidade. O fato é que não fui mais importunado.

Conseguiram uma carroça que levou a canoa e minhas tralhas para uma pensão simples no centro da cidade. Para mim estava ótimo, e poderia descansar e comer bastante, tomar um banho de chuveiro e sabonete, e conversar com pessoas amigas; é disso que preciso.

Assim que me acomodei, ligamos para Bom Jesus da Lapa e conversei com o Samuel e a Marilene. Eles decidiram vir até Paratinga e os esperamos para o almoço. Conversamos muito, vieram muitas alternativas de motivações e de suspeitos, mas não chegamos a nenhuma conclusão. Decidi não entrar em outras comunidades e seguir direto para Barra; só passaria por Passagem, na frente de Ibotirama, para acompanhamento e controle de meus amigos.

Combinamos que eu enviaria dois sinais de Spot por dia; um ao meio-dia e outro à noite. Incluiria o Samuel na lista de receptores do sinal para que pudesse me monitorar.

Almoçamos na pensão e eles voltaram todos para Lapa. Gutinho ficou responsável por me acompanhar na cidade e me dar todo apoio de que necessitasse. Visitei sua família, que me recebeu com todo carinho. Sua mãe disse que faria orações diárias para que eu chegasse bem ao final de minha jornada. Senti-me protegido e feliz.

Estou aprisionado pelo tempo. Choveu todos esses dias e, esta noite foi um temporal que desabou sobre Paratinga. Era tanta água que eu tive que mudar a cama de lugar várias vezes. A pensão ocupa uma casa antiga, com mais de cem anos, sem forro e um telhado todo esburacado. Durante o dia dá para ver o céu pelas frestas das telhas… acordei cedo, ou melhor, quase não dormi.

Estou preocupado com minha situação, pois não pretendia ficar tanto tempo em Paratinga. O tempo passa lentamente e leva consigo minha disposição para dar prosseguimento à viagem. Preciso ir embora!

As informações sobre a travessia de Sobradinho são contraditórias: uns dizem que é possível navegar bem próximo à margem direita em todo percurso; outros dizem que mesmo o trecho entre Barra e Xique-Xique é difícil; existe um lugar chamada Mocambo do Vento (ou algo parecido) onde é muito difícil passar.

E assim fico por aqui, gastando o que não tenho, sem nada para fazer, com um futuro incerto pois a temporada de chuvas está para começar e prosseguirá até fevereiro.

Hoje apareceu uma aranha caranguejeira[1] na sala da pensão; acordei com a algazarra do pessoal tentando matá-la. Acabaram colocando fogo na pobre coitada; tinha o tamanho de minha mão e veio se abrigar da chuva. Disseram-me que é comum esse tipo de “caranguejo peludo”, que entra nas casas na época das chuvas.

Segundo comentam, existem muitos jacarés, de até três metros de comprimento, nas margens do rio e em toda extensão do lago de Sobradinho. Eu não vi nenhum, assim como onças e outros bichos exóticos, como o Nêgo D’água, um misto de gente e de surubim!

Contam que é um ser baixinho e forte, com as costelas nas costas e a coluna vertebral no peito, o corpo coberto de escamas, e cuja diversão seria apavorar os pescadores, virando suas canoas para atormentá-los. Curioso é que muita gente acredita nessas lendas como se fossem reais! Um hóspede da pensão chegou a me dizer que se a avó dele contou, é porque era verdade! Interessante é que todos falam dessas lendas com um certo medo, como se, embora inverossímil, devessem ser tratadas com o devido respeito. Afinal, foram seus antepassados que lhes contaram, e eles nunca mentiriam!

Fiquei por aqui, mas não pude visitar as grutas onde existem pinturas rupestres, além de outra manifestação artística ancestral, espécie de figuras em baixo-relevo, esculpidas nas rochas. O local é bem distante e só pode ser atingido a pé, a cavalo, de motocicleta ou em veículo traçado 4×4. Com esse tempo instável não há possibilidade de chegar até lá.

Assim, não visitei Peruaçu, nem Pains, nem Bambuí nem as grutas de Paratinga. Terei que retornar um dia só para conhecer esses lugares fantásticos, plenos de sinais de nossos antepassados, desconhecidos da maioria dos brasileiros.

Há um consenso entre os ribeirinhos que o mangue, o calumbi e o capim d’água seriam as espécies nativas mais indicadas para contenção dos barrancos e para iniciar um projeto de reflorestamento das matas ciliares.

Digo isso porque tive tempo de sobra para conversar com os moradores de Paratinga acerca das condições do rio. Comentei que existem quilômetros de barrancos completamente despojados de sua veste de matas, ruindo dia e noite sobre o rio, e provocando seu assoreamento.


[1]    A tarântula ou caranguejeira é uma aranha da família Theraphosidae que se caracteriza por ter patas longas com duas garras na ponta, e corpo revestido de pelos. (Wikipédia)

A 13 km de Ibotirama, 29/10/2009 – 17h12

Sul: 12º 14′ 55” – Oeste: 43º 16′ 01” – Altitude: 441 metros

Remei cerca de 50 km até as 15 horas, mas não deu para chegar a Ibotirama; fui pego pela tempestade e quase não deu tempo de me proteger. O temporal se avistava no horizonte e vinha rápido; era uma “parede” escura que chegava até o rio, os trovões e relâmpagos se sucedendo; dava para calcular a distância pelo tempo decorrido entre o faiscar dos relâmpagos e o estrondo dos trovões.

À distância percebi uma areia branca em uma ilha grande, bem no meio do rio. Remei rápido e intensamente! Quando cheguei à ilha, mal dava tempo de montar a barraca, e tinha que ser no alto de uma pequena elevação, longe da margem, para fugir do rio que, certamente, subiria mais um pouco, como vem ocorrendo todos os dias. É o prenúncio da temporada de chuvas.

Carreguei a canoa e as tralhas por uns 150 metros. Acho que nunca eu havia montado acampamento tão depressa. E foi bem a tempo! Um vendaval parecia querer levar tudo pelos ares, mas eu havia reforçado os specs em todos os cantos da barraca e amarrado as sacolas nas laterais, segurando o pano, o que foi providencial.

Ainda tive tempo de tirar umas fotos, já sob chuva fraca e um vento muito forte, só para documentar o cenário!

Meu atraso em Bom Jesus da Lapa foi crítico para o projeto. Mesmo tendo a margem de tempo devida ao cancelamento da visita ao parque de Peruaçu, todo cronograma fora afetado. Além disso, tantas visitas a comunidades não eram previstas e isso também agravou minha situação. Agora preciso agilizar minhas paradas para chegar a Xique-Xique antes de quinta-feira, sob o risco de ficar uma semana à espera de uma embarcação.

Na verdade, todo projeto foi comprometido com a parada de três meses em Três Marias. Com isso perdi a melhor época para navegação pelo São Francisco e todo planejamento foi prejudicado pela mudança de época. Agora estou no início da temporada de chuvas, que se estende até fevereiro ou março, e vou conviver diariamente com essa situação. Paciência…

São 17h30 e a chuva está mais branda, mas não vou me arriscar a enfrentar o rio à noite. Amanhã, se amanhecer com bom tempo, sigo em direção a Morpará. Não conseguirei chegar lá em um dia, pois são quase 100 km, e terei que parar em Boa Vista do Pixaim, uma comunidade quilombola. Resolvi voltar a visitar as comunidades… não faz sentido ceder às ameaças, comprometendo os objetivos da expedição. Além disso, se eles tivessem a intenção de me matar, já teriam feito isso em qualquer uma das duas oportunidades que tiveram. Queriam apenas me intimidar, e naquela região!

Dia 31 de outubro devo chegar a Morpará, indo para Barra no dia seguinte, onde pretendo me encontrar com Frei Luiz Cappio. Meu cronograma não está tão comprometido como eu pensava… é só o tempo colaborar e me dar algumas horas a mais por dia, para remar.

Boa Vista do Pixaim, 30/10/2009 – 18h57

Sul: 12º 02′ 02” – Oeste: 43º 20′ 17” – Altitude: 425 metros

Interessante observar as altitudes à medida que evoluo pelo rio. Aparentemente, o rio sobe e desce e as medidas foram tomadas pelo meu GPS com um grau de incerteza de +/- 3 metros. Deveria só descer! Como o rio sobe? Ainda que esteja errada a medição, minha tese é que o rio se movimenta mais pela pressão da água que vem de trás do que pela declividade do terreno; sendo assim, até pode haver algum trecho em que haja discretas elevações do terreno, causando ondas também discretas, contra o sentido natural de descida do rio.

Eu me levantei cedo, mas a neblina cobria o rio e minhas tralhas estavam enlameadas, assim como o barco. Saí às 07h40 e às nove já estava em Ibotirama, só que na margem esquerda, onde fica um pequeno povoado de nome “Passagem”. Parei o barco e liguei para a Associação dos Pescadores. Jailson, um dos diretores, foi me buscar na beira do rio. Deixei o barco na margem e fomos para a sede da Associação. Conversamos bastante e conheci também o presidente, que não me deu nenhuma atenção e ficou o tempo todo em sua sala, ao telefone, como qualquer político (ele é vereador).

Parti às dez horas com destino a Boa Vista do Pixaim. O rio estava agitado com o vento, causando “maretas”, as marolas do rio, e minhas remadas eram exaustivas e rendiam quase nada; além das maretas, o vento também segurava o barco. Eu tinha que ir bem rente à margem, quase me enroscando na vegetação, para poder progredir um pouco. O céu mostrava seu arsenal de nuvens e meu receio era encontrar a tempestade sem estar protegido.

A minha previsão era chegar entre três e quatro da tarde, mas eu não sabia a distância exata, pois o GPS dá a distância em linha reta, desconsiderando as curvas do rio. Aqui, os ribeirinhos calculam as distâncias em léguas (1 légua = 6 km), o que aumenta a incerteza das medições.

Eu teria que permanecer na margem esquerda do rio, embora nas ilhas houvesse excelentes locais de pernoite. Mas era cedo e a chuva ainda iria demorar para se formar. Cheguei em um pequeno porto, isolado do rio por uma vegetação ainda incipientes, ilhotas em formação e aguapés à margem do rio. O vento me impelia sobre os aguapés quando, de repente, um peixe saltou para dentro de minha canoa! Não sabia se cuidava do peixe, para jogá-lo de volta ao rio, ou se manobrava a canoa para não encalhar nos aguapés; por fim, consegui fazer ambos.

O vento estava insuportável e eu não sabia o que fazer; percebi adiante um pequeno grupo de pescadores em um canal, no meio dos aguapés e manobrei a canoa em sua direção. Perguntei a eles sobre o caminho para Boa Vista do Pixaim e me disseram que eu já estava quase lá, que deveria voltar para o rio, contornar a margem e parar.

Fiz o que me disseram e voltei para a ventania e as ondas; mas o que vi logo depois foi um enorme pasto, as terras ressequidas do pisoteamento constante do gado, e algumas casas muito distantes da margem. Desci do barco e andei um pouco acima no barranco, mas não poderia ser por esse caminho. O jeito foi continuar…

Voltei ao barco mais uma vez e comecei a descer o rio quando uma enorme chata passou por mim, subindo o rio lentamente. Devia ter uns 200 metros de extensão e era empurrada por um pequeno rebocador com um motor poderoso! Como essa balsa não atolava no rio? Parei para fotografar e o fiz com muita dificuldade, pois o vento me arremessava em direção ao barranco sempre que parava de remar; mas não podia deixar de registrar isso!

Segui meu curso e, logo após, um lugar que parecia uma miragem, de tão bonito! Era uma praia em formato de uma enseada, com vegetação rasteira isolando essa água quase azul de tão cristalina, duas crianças tentando tirar um barco de madeira encalhado e um pescador. Entrei por uma passagem tão estreita quanto a largura do barco, e entrei na lagoa azul; desci do barco pela terceira vez e perguntei a ele como faria para chegar à aldeia. O rapaz me disse que logo adiante já seria Boa Vista do Pixaim.

Senti muita vontade de ficar por ali, acampar e curtir aquela praia belíssima, tomar uns banhos… mas precisava prosseguir. Logo depois dessa praia havia uma sucessão de pequenos portos no barranco alto que se seguia. Parei em cada um deles onde havia barcos ancorados, subi o barranco, mas só o que via era um imenso terreno semialagado, às vezes com gado e uma trilha quase abandonada que se perdia no matagal.

O barranco já estava terminando quando decidi procurar alguém. Deixei a canoa, com um certo receio, e caminhei pela trilha longa e sinuosa. Depois de algum tempo encontrei dos rapazes, que me olhavam desconfiados. Perguntei-lhes sobre a comunidade e mencionei o nome do líder local. Meio ressabiados, me disseram para seguir adiante que eu encontraria o povoado. E assim foi.

Segui a trilha até a aldeia e, finalmente, encontrei Ivonaldo! Apresentei-me e fui bem recebido; logo ele providenciou um carro para buscar meu barco e as tralhas. Aléssio levou-me até outro porto, mais abaixo, onde havia até uma rampa de terra, bem mais acessível.

Deixei-o lá e fui beirando o barranco, acompanhado de várias crianças, procurar o porto onde deixara o barco. Levei-o pelo rio e o colocamos na Veraneio.

Desta vez deu tudo certo e fui alojado em uma casinha vazia ao lado da residência de Aléssio. O banheiro ficava no terreno ao fundo e era compartilhado com a família dele. Enquanto eu me lavava, Aléssio convocou a comunidade para uma palestra. Chegaram umas 50 pessoas, mesmo com a possibilidade de chuva.

Falei bastante sobre os problemas do rio, enfatizando o papel dos pescadores e lavradores na preservação da Natureza; discorri sobre a poluição, o desmatamento, as barragens, tomando o cuidado para explicar tudo em linguagem simples e objetiva, sem ofendê-los, pois sabia que eles também contribuíam para a devastação do rio.

À frente do barracão onde falávamos, um pequeno riacho de esgoto desfilava entre as casas; parecia uma praça, mas havia porcos, galinhas e cabras soltas entre crianças e adultos; ao fundo, um lixão preenchia as margens de uma lagoa de água de chuva, bem diante das casas… famílias enormes, com seis a doze filhos eram comuns!

Sempre tive consciência das dificuldades de minha missão quase impossível de conscientizar pessoas para quem os problemas imediatos de sobrevivência eram avassaladores e bloqueavam seu entendimento de questões subjetivas, como a preservação ambiental.

Não sei se agradei, mas disse o que pensava, critiquei empresários, fazendeiros e políticos, mas não consegui aplausos. Entraram mudos, saíram calados! Papel ingrato o de um ambientalista messiânico!

Introduzi a questão do defeso[1], da piracema, que paralisa a pesca de novembro a fevereiro, todos os anos, para que a população dos peixes possa se recuperar, e os pescadores, vivendo do seguro desemprego, possam se preparar para nova temporada de pesca.

Até parece uma boa solução, mas além de não ser rigorosamente cumprida, eles alegam que várias espécies desovam antes, em setembro, e ficam de “resguardo” desde agosto. Resguardo é a época em que as ovas se formam dentro das fêmeas; capturá-las nesse estado é tão daninho e pernicioso quanto no período da desova.

Os pescadores de Pixaim querem desenvolver os viveiros de tilápias na sua lagoa, como o fazem os pescadores de Piranhas. É uma solução de produtividade, mas que descaracteriza a produção local, além do enorme risco, quase incontrolável, de contaminar os rios com mais uma espécie exógena, como ocorreu com o tucunaré.

Infelizmente, não há solução satisfatória e sem contraindicações para tantas intervenções humanas! Primeiro, a agressão maior, da construção dos reservatórios e barragens; depois, o desmatamento sem controle, chegando à extinção da mata ciliar em grande parte das margens do rio e de seus afluentes; e, finalmente, a contaminação das águas pelos esgotos domésticos, resíduos industriais e agrotóxicos!

Sem uma política voltada primordialmente para o meio ambiente e não para o agronegócio, não há solução satisfatória, e o desfecho final já pode ser escrito. O que as gerações futuras farão de um mundo devastado e em extinção não se pode conceber. Afinal, caminhamos a passos largos para o ponto sem retorno na destruição da maioria de nossos ecossistemas.

Mentir para nós mesmos dizendo que o desmatamento está controlado, e que hoje se desmata menos do que no passado, é afirmar que somos idiotas, e que apenas estamos adiando o prazo do “juízo final”! Precisamos admitir publicamente que uma poderosa minoria, uma “elite” ou tropa de choque ruralista decidiu, por todos nós, que o desenvolvimento do agronegócio é a “redenção da fome” e de todos os males na face da Terra! Quem acredita nisso?


[1]    Defeso – ação do governo que determina a paralisação das atividades pesqueiras profissionais com tarrafa e redes, para que a população de peixes possa se recuperar. Coincide com o período da piracema, a subida de rio dos peixes migratórios, para desova. Para compensá-los, o governo lhes paga cinco meses de um salário-desemprego.

Imobilizado pelo clima, 31/10/2009 – 07h21

Choveu forte nessa madrugada! Por mais de duas horas a fúria da tempestade atingiu Boa Vista do Pixaim, alagando os baixios. Amanheceu sob intenso nevoeiro, que se prolongava no horizonte e se mantinha estacionário sobre as serras das cercanias.

Aléssio alertou-me sobre os riscos de prosseguir viagem sob essas nuvens carregadas, pois a precipitação das águas pode ser iminente, e eu ser pego em locais de difícil proteção. O perigo está nas ventanias seguidas de chuva intensa, comuns nessa época do ano. Segundo ele, essas condições podem permanecer por muitos dias, dificultando a navegação.

Estou constrangido, pois esse povo é pobre, vive em condições precárias e estou consumindo recursos que podem faltar à sua família. Se tiver que permanecer aqui por mais alguns dias pretendo contribuir para as despesas, sem ofender a hospitalidade e a generosidade de Aléssio. O interessante é que aquilo que para nós, vivendo em grandes centros urbanos, são situações difíceis de se lidar, para essas pessoas humildes se resolve facilmente.

Estou em uma pequena casa, vizinha à de Aléssio, para onde ele puxou um fio e instalou uma lâmpada. A casa possui dois sofás na sala e um colchão colocado no quarto, além de armários na cozinha e no quarto. O banheiro fica no quintal e é compartilhado pelas duas casas. Como de hábito, a água é fria no chuveiro.

Dentro da casa não tem água. Como em todas as comunidades, a água é retirada do rio, sem tratamento, e guardada em caixas; neste caso eles consomem água filtrada para beber, apenas. Muitas comunidades usam a água do rio sem filtrar ou ferver.

Quase todas as casas só possuem reboco e pintura nas fachadas. E ainda existem muitas casas de taipa[1] onde a incidência do barbeiro transmissor da doença de Chagas é notória e consta das estatísticas.

A comunidade obteve a certificação de reconhecimento de quilombola e sua área foi demarcada por cercas que a isolam em todo perímetro, exceto os acessos à estrada e ao rio. Originalmente, havia dois núcleos habitados: o atual e outro às margens da lagoa. Com a certificação, os quilombolas foram obrigados a optar por um deles.

Hoje residem mais de 300 famílias e é comum, como em todo sertão baiano, famílias numerosas, com seis a até doze filhos! A atividade econômica predominante é a pesca, e um comércio incipiente de pequenas vendas e bares. Não há lavoura, e muitas áreas baixas são permanentemente alagadas, e tornaram-se depósitos de lixo. Quase todas as ruas são irregulares e de terra; não há um traçado urbano e as casas não obedecem a nenhuma orientação lógica de alinhamento ao meio-fio. Isso dificulta o trânsito de veículos, quase inexistentes, dentro da comunidade.

Há apenas uma escola de ensino fundamental, pois o ensino médio foi desativado, possivelmente por falta de professores e de alunos. Os jovens não são estimulados a estudar, pois não há empregos, seja nas comunidades, seja nas cidades de toda região, para onde afluem pessoas em busca de oportunidades.

Só existe policiamento nas cidades, e quando são chamados nas comunidades, demoram para chegar e não investigam. Existe uma polícia truculenta que atua no interior do oeste baiano, e é conhecida como “polícia do cerrado” ou “polícia da caatinga”. Atuam geralmente à noite, espancam e matam sem respeitar qualquer lei.

As prefeituras, quase sempre muito pobres e vivendo apenas de recursos do Fundo de Participação dos Municípios e dos salários de aposentados e pensionistas, não investem nesses povoados,  nas estradas de acesso a eles, quase sempre muito precárias.

Assim, as promessas do “programa de aceleração do crescimento” se evidenciam apenas nas placas de obras nas cidades. Essas obras foram agrupadas sem nenhum critério de planejamento integrado, com pretensões eleitoreiras. Não há tratamento de esgotos, que estão sendo apenas canalizados para o rio sob a denominação de “esgotamento sanitário”. Muitas dessas obras já existiam e estavam paradas e hoje as placas demonstram que seus prazos estão vencidos, enquanto que o material comprado apodrece ao lado das obras.

Não há projetos ou obras de contenção de barrancos degradados; não há investimento em viveiros de mudas ou de pássaros para recuperação das matas e de seu repovoamento. A única evidência de peixamentos são os viveiros de tilápias nos engradados…

As lagoas de reprodução natural, via de regra não são protegidas nem fiscalizadas. Aliás, não existem fiscais do Ibama ou de qualquer outro órgão federal responsável pela conservação do meio ambiente; nos 1.500 km já percorridos desde Vargem Bonita, só encontrei um barco de fiscalização, pouco interessado em quais e como os peixes foram capturados por pescadores.

Próximo da comunidade de Juá, 31/10/2009 – 17h57

Sul: 11º 42′ 06” – Oeste: 43º 22′ 33” – Altitude: 410 metros

Consegui sair de Boa Vista do Pixaim às 08h30, quando o céu se abriu um pouco. Aléssio me ajudou com o barco e as tralhas, levando-me de volta ao ponto de desembarque. Levarei gratas lembranças dessa família simples, solidária e admirável! Fico me perguntando como essas pessoas são generosas tendo tão pouco para oferecer sob o ponto de vista material… no entanto, nem se importam que somos estranhos, que estamos incomodando, invadindo sua privacidade, consumindo seus poucos recursos!

Não tinha expectativa de chegar a Morpará, a princípio, porque estava saindo tarde e seriam cerca de 55 quilômetros de remo, com o tempo instável e risco de novas tempestades. No entanto, ao longo do dia, o sol se abriu e fiquei entusiasmado. Ao meio-dia eu já esperava atingir Morpará às 17 horas, e remei com um bom ritmo. Porém, aqui o tempo muda em poucas horas e às três da tarde eu já procurava abrigo, pois o céu se fechou à minha frente, enquanto raios e trovoadas sinalizavam a chegada do temporal.

Encontrei um excelente local, abrigado do vento, em uma praia limpa e protegida, com várias opções de acampamento, a 20 quilômetros de Morpará. Optei por um lugar conservador, mais de dois metros acima do nível do rio, por excesso de precaução.

Apesar de parecer iminente, a chuva só chegou às 17 horas e pude aproveitar a praia, tomar um banho completo e arrumar a barraca de forma segura. Ventou muito e choveu pouco. Em menos de uma hora só restou uma chuva fina… porém, pela noite passada, pode chover forte durante a madrugada.

Amanhã começa o período oficial do defeso e da piracema, com as ressalvas feitas anteriormente. E os pescadores passam a viver apenas do seguro desemprego, do programa “bolsa família” e das pensões dos aposentados, além do cultivo de lavoura e criação de animais em suas propriedades. Alguns também trabalham no comércio, tendo pequenas “vendas” em suas casas.

Em lugar do seguro desemprego, que é conceitualmente paternalista e até humilhante para os trabalhadores, o governo deveria pensar em ações mais efetivas, como o treinamento técnico dessas pessoas para atividades de pesca e também na lavoura e até na qualificação educacional. Muitos pescadores são analfabetos e poderiam utilizar esse período de quatro meses para se preparar e a seus filhos para uma vida melhor.

Também poderiam orientar a população a cuidar melhor de sua terra, não jogando lixo no rio, não despejando esgoto pelas ruas, fazendo campanhas de planejamento familiar e fornecendo os meios para que isso se concretize. Enfim, são muitas as ações que poderiam, efetivamente, mudar o perfil de miséria desse povo.

Se o “bolsa família” e o seguro desemprego ajudaram a dar condições mínimas de subsistência, não mudaram mentalidades. E somente ações de longo prazo poderiam trazer essa população de volta para a realidade contemporânea, saindo do século XIX.

Muitas atividades em mutirão poderiam transformar a paisagem de abandono em que se encontra grande parte de nosso povo. Equipes, como aquelas do antigo e esquecido “Projeto Rondon”, com especialistas multidisciplinares, poderiam percorrer essas comunidades ensinando noções básicas de higiene, prevenção de moléstias, controle da natalidade, preservação ambiental, etc.

O custo social da pobreza é muito maior que qualquer investimento para sua erradicação. Existem técnicas de construção de baixo custo que poderiam ser ensinadas aos líderes comunitários e replicadas a toda população. Uma delas é a Permacultura, que compreende uma série de tecnologias acessíveis e baratas para a construção de moradias, tratamento de dejetos, construção de reservatórios de águas pluviais, plantio, irrigação e fertilização sem produtos químicos, proteção do solo…

Existem organizações não governamentais que replicam esse conhecimento e poderiam ser encarregadas de estabelecer novos núcleos de Permacultura em todas as regiões pobres do país. Com certeza, o custo desses projetos seria bem menor que o da malfadada transposição das águas do São Francisco, e com impactos ambientais positivos, uma vez que são ecológicos!

A criação de animais é um capítulo à parte nesses povoados: patos, galinhas, cães, gatos, porcos, cabras, galinhas d’Angola vivem soltos pelas ruas, fuçando no lixo, bebendo água dos esgotos urbanos e convivendo com as crianças e adultos.

As noções de higiene são precaríssimas! Além da água do rio não ser tratada, muitas casas despejam água servida e esgotos no quintal e nas ruas, contribuindo para aumentar a sujeira e o desmazelo. Sujeira atrai sujeira, e quem não cuida também não se importa em viver nesse ambiente fétido e contaminado.

A tradição de lavar roupas e utensílios domésticos no rio continua uma prática e um folclore regionais. Muitas casas nem possuem água encanada e o banheiro fica em uma fossa atrás das casas.

Assim como as paredes são de barro ou não têm reboco, o piso é de barro ou de cimento, acumulando sujeira e dificultando a limpeza. A presença de todo tipo de insetos, e até sapos e rãs dentro das casas também é muito comum nas cidades e aldeias.

Não existe o hábito de consumo de vegetais crus; apenas a alimentação comum de todo sertão: arroz, feijão, macarrão, abóbora, farinha de mandioca e uma “mistura”[2]. Em todo percurso que fiz, sempre recebi com gratidão os pratos de alimentos que me ofereceram, e não tenho nenhuma restrição em comer alimentos simples, pois eles são feitos com boa vontade e oferecidos com carinho para todo e qualquer visitante que acolhem em suas casas. Minhas considerações são feitas em função da necessidade de melhorar as condições de nutrição dessas famílias e reduzir a mortalidade infantil e as doenças.

Todos acordam muito cedo, antes mesmo do sol aparecer, aos seus primeiros sinais de luminosidade e com o despertar dos animais. Muitas casas, mesmo as de pau-a-pique, usam antenas parabólicas e têm acesso a dezenas de canais de televisão. Essa é uma contradição e uma ofensa a essas populações pobres, pois os programas “globais” costumar valorizar a riqueza excessiva como um bem maior da humanidade e um mérito extremo a ser conquistado pelos afortunados pelo destino! Uma crueldade!

Nenhuma cidade ou povoado possui vida cultural expressiva: não há cinemas ou teatros, as bibliotecas são precárias, muito pouco diversificadas e vivem “às moscas”, a música é de má qualidade, de um gosto duvidoso e sempre valorizando o sexo e a esperteza.

Enfim, uma sociedade que não estimula o desenvolvimento e a emancipação de seu  povo, mantendo todos os habitantes à margem das conquistas tecnológicas, culturais e profissionais. Uma segregação social implícita!


[1]  A técnica da construção de casas de taipa (ou taipa de mão), também conhecida como pau-a-pique, barro armado, taipa de sopapo ou taipa de sebe, consiste em armar uma estrutura de ripas de madeira ou bambu com uma mistura de barro. É uma técnica simples de construção, muitas vezes tratada com preconceito pela aparência rústica e pelo problema de hospedagem do besouro que transmite a doença de chagas. Foi trazida pelos portugueses e é muito utilizada no meio rural, no sertão central, no oeste baiano e em todo interior nordestino.

[2]  O povo ribeirinho chama de mistura as carnes de boi, de porco, de galinha e até mesmo os peixes.

Comunidade Quilombola de Torrinha, 01/11/2009 – 18h10

Sul: 11º 25′ 47” – Oeste: 43º 14′ 45” – Altitude: 402 metros

A chuva foi fraca e terminou cedo. Acabei dormindo bastante e acordei às 05h30. O local foi excelente, sem nada para atrapalhar o meu descanso. Enfim, uma ótima escolha! Interessante observar que nessa longa jornada tive muita sorte na escolha dos locais de acampamento, e isso aconteceu naturalmente, sem procurar muito, sem fazer exigências ou esperar demais de cada local… apenas intuição e confiança!

Coloquei meu barco na água às 07h00 e não havia sinais de chuva no horizonte. Às dez horas já chegava a Morpará, uma cidadezinha simpática incrustada no sopé de um morro arredondado, e com um belo porto gramado à sua frente! Finalmente uma cidade voltada para o rio! Gosto muito disso!

Apesar da vontade de conhecê-la, meu objetivo é o de chegar a Barra amanhã; por isso, e por economia, segui minha viagem. Uns dez quilômetros adiante, uma montanha de rocha exposta e um velho casarão chamaram minha atenção e me induziram a atravessar o rio. Parecia um hotel fazenda e imaginei fazer uma boa refeição naquele lugar; afinal, estava sem comer há dois dias!

Quando me aproximei da margem do rio reparei a chegada de uma comitiva de pessoas e, à sua frente, Juarez, o presidente da associação dos moradores. Eu estava em Torrinha, uma comunidade quilombola que fazia parte de meu roteiro original.

Desci do barco, cumprimentei a todos e fui levado para um restaurante à beira-rio. Era uma casa grande, toda avarandada, onde me prepararam uma refeição, enquanto conversávamos e tomávamos uma cerveja bem gelada, que desceu deliciosa pela minha garganta! Juarez me disse que me esperavam desde o dia 29 de outubro! E ficaram se revezando na margem do rio para me recepcionar! Disse também que havia uma grande expectativa na comunidade pela minha vinda. Queriam que eu pernoitasse em Torrinha mas, apesar da acolhida, não posso comprometer meus planos; preciso chegar em Barra e seguir para Xique-Xique.

Mesmo assim, confirmei minha palestra e uma visita à comunidade antes de partir. Saímos logo após o almoço e visitamos dois casarões do século XIX que eram ocupados pelos senhores da fazenda, na época com trabalhadores escravos, certamente antepassados  dos moradores atuais de Torrinha.

Juarez me explicou que a comunidade já foi reconhecida como quilombola, mas ainda não receberam os títulos das terras; por isso, o atual proprietário da fazenda não permite que eles cultivem a terra. Esse é um procedimento que encontrei em todas as terras ainda não regularizadas, mas não compreendo como pode existir uma situação paradoxal como essa, sem a intervenção da lei.

Os casarões estão em situação precária; o primeiro está em ruínas, as madeiras apodrecendo e as paredes se desfazendo; mesmo assim conserva sua imponência e beleza arquitetônica. O segundo, embora bem conservado e com um mobiliário rico, está completamente descaracterizado por uma reforma que modificou grande parte de sua estrutura interna, incluindo uma decoração de gosto duvidoso e peças antigas de valor inestimável.

Fiz várias fotos internas e externas dos casarões e depois seguimos pelas ruas do vilarejo. Muitas casas ainda são de pau-a-pique, algumas já em estado de deterioração e com muitos vãos no barro das paredes, o que pode favorecer a presença de barbeiros transmissores da Doença de Chagas. Juarez fez questão de mostrar cada detalhe da vida na comunidade, sempre convidando moradores a posar para as fotos de modo natural.

Voltamos para o restaurante onde uma plateia atenta de mais de 50 pessoas me aguardava. Eu me apresentei a todos e fiz minha preleção, insistindo muito na responsabilidade ambiental de cada um, relatando as evidências dos maus tratos a que o rio tem sido submetido. Cada palavra que eu disse foi absorvida atentamente por cada morador! É uma satisfação falar para gente assim, simples e compreensiva com um estranho, complacente com alguém que lhes traz boas-novas mas também muitos agravos decorrentes do estado em que se encontra a Natureza.

Fui cumprimentado por todos os moradores, que me desejaram uma boa viagem, e manifestaram grande expectativa pelos resultados de meus esforços em defesa do meio ambiente e das populações ribeirinhas. Por um momento, eu seria o seu porta-voz  nos grandes centros onde as decisões deveriam ser tomadas.

Barra, 06/11/2009 – 05h30

Cheguei a Barra no dia 2 de novembro. O rio se alarga muito à entrada da barra devido ao encontro com seu último afluente perene, o rio Grande. O visual é magnífico, Barra à frente, bem acima do nível do rio, com suas belas construções clássicas de casarões do século XIX, tendo à esquerda o prédio avermelhado do Mercado Municipal e ao centro as torres da Igreja Matriz.

O vento forte e constante dificultou bastante a navegação, e por diversas vezes tive problemas com as “maretas” e com grandes embarcações que passaram por mim sem se preocupar com as ondas, empurrando-me para cima dos barrancos e das ilhotas.

Encostei o barco diante de uma das escadarias que levam à rua da orla, uns dez metros acima na época em que aportei. À minha direita avistei um hotel a poucos metros dali. Não havia ninguém à minha espera e teria que me virar sozinho, como na maioria das vezes. Alguns garotos que brincavam na água se ofereceram para me ajudar e logo aceitei. Eram cinco meninos.

Levamos tudo para o hotel em duas viagens, a segunda só para transportar a canoa. Gratifiquei os garotos em dinheiro, mas havia uma menininha, a quem dei algumas sacolas de macarrão e suco. A recepcionista do hotel, Conceição, me disse que a mãe da menina se prostituiu depois de ser abandonada pelo companheiro. São histórias tristes e muito comuns em regiões pobres.

Eu me instalei, tomei banho, arrumei minhas coisas, lavei algumas roupas e saí à procura de um restaurante, para almoçar. Encontrei o São Francisco, uma casa grande de “self-service”, mas que mantinha o padrão de oferecer arroz, feijão, macarrão, farinha de mandioca, abóbora, carne e uma salada, o que eu mais precisava.

Do restaurante, caminhei pela área central da cidade, em um reconhecimento dos edifícios históricos, que eu depois fotografaria, como a igreja de Bom Jesus, o Mercado, a Prefeitura e o Palácio Episcopal, que fica defronte a uma bela praça com árvores antigas e de troncos retorcidos, além de um coreto!

Por uma feliz casualidade, saía do palácio uma senhora, a quem me apresentei; era a dra. Eloá, dentista que servia ao bispo Dom Cappio desde que ele se instalara em Barra, há muitos anos. Dra. Eloá convidou-me a acompanhá-la; tomamos um sorvete e fomos à casa de uma freira, a Irmã Maria Isabel, diretora do colégio católico; havia um grupo de pessoas, missionários e religiosos, assistindo a uma missa, ministrada por frei Benjamin.

Ao término da missa fui apresentado aos presentes, e seguiu-se um jantar, para o qual também fui convidado, onde conversamos descontraidamente, eu tendo a oportunidade de relatar a viagem. Fiquei impressionado com a receptividade e o carinho com que fui recebido, um estranho que ninguém conhecia nem ouviram falar.

À saída, dra. Eloá convidou-me a me transferir do hotel para as instalações do palácio, falando em nome de Frei Luiz. Disse-me que eu era bem-vindo e frei Luiz gostaria muito de ouvir minhas histórias. Aceitei prontamente a oferta e disse-lhe que me mudaria pela manhã, já que a diária estava paga e precisaria arrumar um transporte, uma carroça… voltei ao hotel em seguida.

Pela manhã, por recomendação de dra. Eloá e indicação da CPT de Bom Jesus da Lapa, procurei o sr. José Bonifácio, espécie de administrador da Casa Paroquial. Ele estava tomando seu café da manhã e mandou-me esperá-lo no palácio. Aguardei por quase duas horas; finalmente, ele apareceu na porta da Casa Paroquial, não me cumprimentou, perguntou o que eu queria; expliquei-lhe minha expedição, a indicação da CPT e de dra. Eloá, e aguardei sua resposta. Depois de alguns constrangidos minutos de silêncio, ele me disse que poderia trazer minha bagagem e a canoa.

Voltei ao hotel, passando antes pela praça do Mercado, onde contratei uma carroça. Depois de acertar minhas contas no hotel, acomodamos tudo na carroça e desfilamos pelo centro da cidade, passando defronte à igreja e atraindo a curiosidade da população. Ao chegar ao palácio, ficamos mais de uma hora esperando que o sr. José Bonifácio terminasse uma ligação telefônica para autorizar a abertura do portão. Por fim, o carroceiro desistiu, e deixou-me com toda bagagem no meio da rua.

Depois de mais esse constrangimento, consegui me instalar em um amplo cômodo com banheiro privativo, dos dormitórios reservados para os encontros das comissões pastorais da igreja. Nos dias 3 e 4 de novembro seria realizada a Assembleia Geral da CPT em Barra, e eu poderia compartilhar meus relatos com um grande número de pessoas vindas de toda região, além de reencontrar Samuel e Djanete, bons amigos de Bom Jesus…

Saí a passeio e fotografei a maioria dos lugares que selecionara na véspera! Era uma cidade bonita, limpa, de pessoas educadas e cultas, um padrão diferente do que estava acostumado a encontrar nas cidades anteriores que visitara. Sempre fui muito bem recebido, em todos os lugares por que passei, mas Barra tem um diferencial de formação histórica que a torna diferente.

Durante muitos anos, Barra foi um centro regional, ponto de convergência de pessoas ilustres da Corte de Portugal, e espécie de entreposto comercial por onde passavam as grandes embarcações que faziam o percurso de Pirapora a Juazeiro, nos bons tempos dos vapores, com seu luxo e beleza. A cidade perdeu sua riqueza, mas não perdeu a pose e a arrogância.

Fui convidado a participar da Assembleia Geral da CPT, onde seria feita uma avaliação das ações realizadas em 2009, algumas das quais eu fiz parte enquanto permaneci na Lapa, e por isso aceitei de imediato, mesmo sabendo que, com isso, minha viagem se atrasaria mais uma semana. Mas eu não poderia ir embora sem conhecer Frei Luiz Cappio, que estava em viagem há dias.

Frei Luiz é admirado e respeitado por toda comunidade religiosa desde Barra até Bom Jesus, pelas suas posições polêmicas em defesa do povo ribeirinho, oprimido e sofrido, injustiçado e perseguido pelas poderosas “elites” de fazendeiros latifundiários. Está há trinta anos nessa região; durante anos não tinha paróquia e fazia suas peregrinações pelos lugares mais perigosos de Xique-Xique, Pilão Arcado, Barra, onde havia muito banditismo.

Foi ameaçado e perseguido, mas acabou sendo nomeado Bispo da Diocese de Barra, onde se encontra há doze anos. Nesse período fez uma grande peregrinação desde a nascente até a foz do rio São Francisco, que durou um ano, tendo se iniciado no dia 3 de outubro de 1992, utilizando todo tipo de transporte, inclusive a pé. Foi sua primeira grande manifestação em defesa do rio!

Depois, em 2005, voltou a protestar, dessa vez em virtude das obras de transposição do rio São Francisco, divulgada intensamente pelo governo federal. Dom Cappio, não conseguindo convencer as autoridades a avaliar outras propostas, entrou em greve de fome na cidade de Cabrobó, onde ficou durante doze dias.

Apesar de não conseguir o seu intento, de paralisar as obras, frei Luiz acatou as recomendações de seus devotos e suspendeu a greve de fome, com o compromisso do governo de atender a suas reivindicações. Mais uma vez não foi atendido e, em 2007, voltou a se retirar para uma capela, desta vez em Sobradinho, para um jejum que durou 22 dias e o levou a um hospital. E novamente não conseguiu demover as autoridades federais, que prosseguem com as obras da transposição, que custarão mais de seis bilhões de reais aos cofres públicos, sem considerar a urgência de um projeto de revitalização do rio São Francisco. Esse é Dom Luiz!

Pela manhã do dia 4 de novembro fotografei todos os edifícios que me interessavam, inclusive o interior da Capela do Palácio, onde existem várias obras de arte sacra de inspiração barroca.

Voltei ao hotel onde deixara algumas roupas para lavar e, para minha surpresa, lá estavam, à minha espera, os garotos que me ajudaram a sair do rio. Eles disseram que queriam me ajudar a transportar de volta ao rio a minha bagagem e não sabiam que eu tinha me transferido para o Palácio Episcopal.

Fui até a igreja matriz para fotografar o seu interior, com um séquito de meninos, chamando a atenção de todos pelas ruas. Ao sair da igreja, convidei os garotos para tomar um sorvete, pois estava muito quente; um rapaz de moto parou na rua e chamou um dos garotos; percebi que ele chamava a atenção do menino, mas não dava para ouvir o que eles falavam. Ao voltar à mesa, perguntei a ele, mas não quis me dizer a razão da “bronca”.

Voltei ao palácio, parando em uma “lan house” para atualizar meu blog e assim terminou o meu dia. Eu tomava café da manhã e almoçava com os padres e com a Irmã Irene, uma senhora de uns oitenta anos, muito simpática e amável, que me tratava como a um filho. Foram dias inesquecíveis, não fosse um contratempo muito desagradável, um mal-entendido que comprometeu, em mim, a imagem dessa cidade e desse povo de forma definitiva.

Depois de participar de todas as atividades na reunião da CPT, à noite o Samuel e a Djanete me chamaram à parte e me disseram que eu estava sendo investigado pelo Conselho Tutelar e pela Polícia Militar por envolvimento em ações de aliciamento de menores e suspeita de pedofilia! Fiquei estupefato! Logo eu???

Protestei veementemente e lhes perguntei se acreditavam naquela barbaridade. Relatei tudo o que de fato aconteceu, a ajuda das crianças, o dinheiro, o sorvete e só… era tudo o que eu sabia. Eles me recomendaram cautela, perguntaram se eu tinha alguma suspeita de quem fizera esta denúncia, e sugeriram que eu procurasse o Conselho Tutelar e a Polícia para esclarecimentos.

Pela manhã, depois de passar toda noite sem dormir e revoltado com as denúncias, sem acreditar que isso estava acontecendo comigo, relatei o ocorrido à dra. Eloá, que já sabia do fato, assim como todos os padres e funcionários do palácio. Senti-me traído!

Fui primeiro ao Conselho Tutelar, acompanhado de dra. Eloá, e fiz uma veemente declaração de protesto a essa infâmia, uma ofensa a minha dignidade pessoal e um atentado moral à minha pessoa. Falei de meu projeto e de minhas qualificações como ambientalista, minhas certificações como mergulhador e montanhista, as referências do secretário do Meio Ambiente de Ribeirão Preto, de minha história sem máculas e nenhum passado que me envolvesse em qualquer ação dessa natureza.

Depois de ser informado que não havia nenhuma denúncia contra mim no Conselho Tutelar, comecei a suspeitar das origens dessa denúncia, e me dirigi à Polícia Militar, sempre acompanhado de dra. Eloá, como testemunha do que eu estava dizendo.

Depois de esperar por um bom tempo, fui atendido pela policial Yara, que registrou cada detalhe de minha história, outro depoimento enfático de protesto àquela agressão moral contra mim. Assinei o documento, mas ainda não informei a ela as minhas suspeitas. Queira completar o quadro e voltei ao palácio.

Depois soube que quem fez a denúncia foi uma pessoa de nome Mauro, o motoqueiro que passou pela sorveteria e admoestou rudemente uma das crianças, ao invés de me procurar e pedir esclarecimentos. Aqui, as pessoas “se emprenham pelo ouvido”, como dizia um ex-diretor do supermercado onde trabalhei em Recife. É um triste hábito das pessoas que não têm o que fazer senão bisbilhotar a vida de outros, sem mesmo os conhecer…

Procurei Samuel e Djanete e lhes informei a respeito de minhas ações e de minhas suspeitas: contei-lhes como fui recebido pelo sr. José Bonifácio, como fui tratado por ele até mesmo sem me conhecer, e como fui recebido por um dos padres; eles imediatamente chamaram José Bonifácio e me pediram para repetir tudo o que dissera. Reafirmei minhas ações e suspeitas, sob o silêncio constrangedor desse personagem.

Foi quando me disseram, Samuel, Djanete e José Bonifácio, que havia mais um personagem que eu não conhecia: o policial que fizera a denúncia, e que todos eles sabiam quem era e não me informaram! Soube que seu nome era Chagas e levei essa informação à delegacia, complementando o meu depoimento.

Horas depois esse policial apareceu no Palácio para se explicar, se desculpar pelo “mal-entendido” (sic!) e que, em nenhum momento eu era “suspeito” de nada. Fora apenas cautela, uma vez que ele era um dos responsáveis por combater a prostituição infantil e a pedofilia nesta cidade.

Esclarecidos todos os pontos, ficou em mim esse sentimento de ter sido traído por aqueles que me acolheram e afirmavam sua amizade e respeito… tudo mentira? Fui iludido por todos? Sentia-me aliviado, embora a indignação não pudesse ser contida, pela gravidade das acusações e pela forma como foram conduzidas. Lembrei-me de meus primeiros contatos com a CPT e com sua ONG em Salvador, “SOS São Francisco”; diversos e-mails sem resposta, mensagens evasivas, atitudes cautelosas, e nenhum comprometimento.

Por outro lado, eu sempre me ofereci de “peito aberto” a servir de arauto à sua causa, sem preconceitos, sem exigências, sem requisitos… percebi, em um momento, o quanto fui ingênuo em acreditar nessas pessoas que me davam apoio, condicionado a me avaliar cada gesto, cada palavra, cada ato. Ficou em mim o gosto amargo da traição, do oportunismo, da desconfiança que jamais seria superada e que, pouco depois, determinaria o fim de um acordo que nunca existiu. Senti-me expropriado, e desisti de confiar em alguém.

No dia 5 de novembro Frei Luiz Cappio retornou de sua viagem e fez o encerramento do encontro da CPT. Fui recebido pelo Bispo de Barra às 15 horas daquele mesmo dia; relatei minha expedição, meus propósitos preservacionistas, minha atuação junto à CPT de Bom Jesus da Lapa e o lamentável incidente de Barra, assim como minhas suspeitas… ele ficou estupefato!

Disse-lhe que isso maculava minhas convicções a respeito da lealdade daqueles que me trataram bem no passado, mas não apagaria minha crença nas lutas pelas injustiças sociais, em que me envolvi tão completamente, de corpo e alma, até ser vítima de outro atentado, anterior à minha chegada em Barra, e talvez de maior gravidade, pois colocara em risco minha integridade física.

Porém, o atentado à minha integridade moral foi o que mais me impactou, e selou minha dissociação definitiva desse movimento coordenado pela Comissão Pastoral da Terra de Barra e de Bom Jesus da Lapa.

Falei a Dom Luiz sobre minhas visitas às comunidades ribeirinhas, a quem dediquei boa parte de meus esforços e de meu tempo, levando a eles minha mensagem preservacionista, mas também meu compromisso em defender seus direitos e lutar por eles.

Frei Luiz é uma pessoa carismática, de uma expressividade intensa e uma paz interior cativante, e me ouviu pacientemente. Surpreendeu-se com os dois lastimáveis eventos dos quais fui protagonista e vítima, manifestando sua solidariedade.

Ficarei em Barra até domingo, quando pretendo seguir para Xique-Xique, de onde irei percorrer o lago de Sobradinho, provavelmente de carona em barcos de pescadores, passando por Pilão Arcado, Remanso e Sobradinho, e transpondo a barragem em direção a Petrolina e Juazeiro, onde começa o submédio São Francisco, e será a penúltima etapa de minha viagem. O ponto de mutação será em Paulo Afonso.

Hoje frei Luiz Cappio deu sua bênção a minha mãe, a meu pedido, e por telefone, e também a mim e minha canoa, desejando-me sucesso no restante de minha jornada pelo rio São Francisco.

Vivo uma contradição ideológica entre minha posição agnóstica e meu descrédito religioso, e a convicção do importante papel que essa igreja progressista e libertária tem no resgate desse povo. Não posso afirmar minha fé, que não a tenho, mas também não posso renegar essa parceria que existiu, pois acreditei, por algum tempo, nos mesmos ideais que eles defendem e buscam. Seguirei o meu caminho com a certeza de minha coerência nos princípios e valores éticos que nos movem, uma quase aliança não concretizada, mas que deu seus frutos e que vivi intensamente.

Este é o meu momento, espelho de minha alma controvertida e vibrante, embora transpareça em meu semblante a paz que busco nas memórias de meu pai e nas lembranças de minha infância, desde cedo atormentada pelas questões metafísicas que ainda hoje me perseguem e atormentam. A busca da verdade e da razão primordial das coisas e da vida nunca será concretizada. No entanto, é essa a motivação maior de nossas vidas!


Depoimento de Dom Frei Luiz Cappio

Diocese de Barra – 08/11/2009 – 09h02

“Eu estou aqui na companhia do amigo João Carlos, este peregrino do São Francisco, esse navegador das águas barrentas do Velho Chico, que iniciou sua jornada onde o rio nasce e pretende ir até o mar, onde o rio morre e se joga no mar, o céu dos rios. E fico muito feliz de encontrar pessoas que se interessam pelo São Francisco, e que demonstram o seu amor, o seu carinho ao Velho Chico, que hoje necessita tanto de cuidados.

Por que essa valorização do rio São Francisco? Porque ele é um grande dom de Deus; um grande dom de Deus para a vida de milhões de pessoas, que comem o peixe que ele produz e bebem de suas águas, e que comem também os mantimentos que as terras molhadas de suas margens possibilitam.

Então, eu fico assim muito feliz quando pessoas se dedicam a lutar pela vida do Velho Chico, porque na vida do Velho Chico está a vida de toda a população ribeirinha. Eu costumo dizer que ele é o nosso pai e a nossa mãe, e que merece nossos cuidados.

E  o rio está assim, num processo muito acelerado de morte; e quando nós temos alguém na nossa família  que está doente, nós fazemos tudo para que sua saúde seja recuperada. O Velho Chico é nosso parente, é nosso pai, é nossa mãe, é nosso irmão, que conduz a vida desse povo todo; então, nós precisamos cuidar de sua vida, de zelar pela sua vida.

O povo diz assim: ‘Ah… o Velho Chico está na UTI!’

Eu não digo que ele está na UTI, não. Ficaria muito feliz se ele estivesse na UTI. Porque quem está na UTI merece assim todos os cuidados; todo mundo está em cima dele, os médicos, as enfermeiras, aqueles aparelhos todos, para resgatar a vida de quem está morrendo! É… o Velho Chico precisaria estar numa UTI… mas ele não está. Você sabe onde ele está?

Ele está na fila do SUS! E não sabe se vai ser atendido, ou quando é que vai ser atendido… isso é muito triste… aquele que gera vida está morrendo aos poucos. Nós precisamos reverter essa história. Reverter! E gerar vida para quem gera a Vida!

Então, eu quero cumprimentar o amigo João Carlos, que está enfrentando essa jornada. Nós já tivemos a oportunidade de fazer a mesma jornada por ocasião de nossa peregrinação, e sei o quanto ela é bela, mas o quanto ela também é exigente.

Nós desejamos ao João Carlos que seja feliz no seu empreendimento, e que seja mais um a somar com todos aqueles que querem lutar pela vida do Velho Chico.

Muito Obrigado!”

DE BARRA A PILÃO ARCADO

Ainda em Barra

Não tenho anotações desse percurso. Portanto, farei o registro de minhas memórias, sem preciosismos de datas, horas, locais…

Saí de Barra com destino a Xique-Xique. Depois dos lamentáveis incidentes, dra. Eloá convidou-me para acompanhá-la em um mutirão de saúde que realizaria em uma comunidade próxima à cidade; eu logo aceitei, pois seria uma oportunidade de conhecer um pequeno trecho do rio Grande, justamente onde ele se expande com as chuvas, alagando terras e plantações.

Não me lembro o nome dessa pequena vila, mas eram poucas casas, bem simples, mas de alvenaria, no meio da caatinga, e próximas a várias propriedades da igreja. Nota-se que os padres sabem onde investir seu dinheiro, pois são chácaras bem cuidadas e com todas as melhorias e benfeitorias…

Enquanto ela dava atendimento, junto com seus auxiliares (era um projeto do Lions Club), aproveitei a oferta de um companheiro e fomos visitar o rio Grande. Dava para ver claramente o crescimento das águas em direção às terras alagadas. Chegamos a uma “fábrica” de tijolos de confecção artesanal, onde um caminhão e algumas pessoas tentavam salvar a produção. Os tijolos já estavam dentro d’água, assim como as instalações montadas para fazê-los. Eles nos explicaram que quando o rio baixa, reconstroem tudo e retomam as atividades. Os tijolos são confeccionados com a própria lama que o rio traz nas enchentes!

Fantástica essa parceria entre o rio e os ribeirinhos! Agricultura de lameiro e fábrica de tijolos de lama, além das paredes das casas de pau-a-pique, todas “cimentadas” com o barro do rio! Nós não saberíamos aproveitar melhor, e sem nenhum prejuízo para a Natureza, esses processos de cheias e vazantes! Sabedoria…

Remei o dia todo, cerca de 60 quilômetros, guiado pelo GPS, e preocupado com o “famoso” mocambo dos ventos! Nada parecido! O rio fluía normalmente e meu desempenho era ótimo! Cheguei a uma região em que o GPS indicava que deveria haver uma passagem por um canal, na margem direita, que me levaria a Xique-Xique. Mas eu já passava dessa entrada “virtual” e nada via de real… passaram-se quilômetros e eu só via o rio alargar-se em várias direções, com muita vegetação fluvial (aguapés) e nada do canal! Depois de algum tempo comecei a ver barcos tipo “gaiola” entrando à direita bem à frente! Remei mais uns trinta minutos até encontrar o canal, que fazia um cotovelo com o rio; pensei que remaria contra a correnteza, mas isso não aconteceu.

Ao contrário do rio principal, o canal estava tranquilo e cristalino, refletindo a densa vegetação em suas margens. Finalmente, eu via Xique-Xique à minha frente no GPS, minha proa apontada em sua direção! O lugar era belíssimo, e a tarde chegava suavemente, tingindo o céu de dourado, em contraste com o manto negro que gradualmente cobria as árvores em silhuetas!

Parei para fotografar várias vezes. Anoitecia mas, apesar de não ter nenhum contato naquela cidade, não queria perder essas cenas magníficas! Remava lentamente, cruzando cada vez mais embarcações que, aparentemente, retornavam às suas origens, vazias, e tocando sons em um volume exagerado, com músicas de gosto duvidoso, letras eróticas ou debochadas, com expressões grosseiras, sempre se referindo às relações de homens e mulheres. Parece que não há mesmo censura no Brasil; nem para o mau gosto.

XIQUE-XIQUE

O sol, finalmente, se recolheu e deixou-me a escuridão. Remei sem rumo, seguindo apenas a indicação do GPS, até chegar a Xique-Xique. Um muro extenso, no alto de um barranco, isolava a cidade do rio. Alguns barcos atracados no barranco, nenhum porto, ninguém para me dar informações, e um barulho insistente de uma bomba de sucção levava a água do rio para a cidade.

Liguei para Juliano, em Bom Jesus, mas ele disse que não conhecia ninguém para me ajudar. Os contatos deles cessaram antes de Barra; somente dois contatos em Juazeiro, que não responderam às minhas chamadas. Agora estava por minha conta.

Com a escuridão vieram os mosquitos, em nuvens vorazes, querendo enterrar seu ferrão em qualquer parte de meu corpo, até mesmo sobre a pasta de protetor solar que eu passara. Nem mesmo repelente funcionava, pois eles mergulhavam na minha pele, sugando meu sangue misturado com a pasta cremosa.

Tive que sair dali, pois além dos mosquitos, uma população estranha passava por perto. Eu já imaginava ser assaltado por bandidos, jogado no rio para apodrecer ao lado de minha canoa. Voltei contra a correnteza, pois havia uma bifurcação do canal poucos metros acima. Contornei a curva do rio e me deparei com uma grande edificação térrea, toda iluminada, sobre um barranco alto, e vários barcos parados, ancorados, entalados e vazios. A princípio, pensei que se tratasse de um hotel… até pressentia o conforto de me hospedar, ter banho de chuveiro, descansar…

Parei a canoa e subi o barranco. Um velho defecava à beira de uma trilha e um rapaz me abordou, dizendo que eu devia sair dali o quanto antes, pois era um lugar muito perigoso. Disse-me que contornasse mais uma vez o canal, seguindo em frente, e chegaria no porto. Eu estava no prédio da central de abastecimento de Xique-Xique.

Foi assim mesmo: logo que fiz a curva, uma incontável fila de barcos se amontoava, um ao lado do outro, sem espaço entre eles onde coubesse minha pequena canoa. Muita luz, uma praia suja e pessoas andando, conversando, curtindo suas músicas, bebendo, dormindo, comendo… era uma grande feira, com gado em um curral improvisado, mercadorias dentro e fora dos barcos…

Fui seguindo com a canoa até encontrar um pequeno vão entre dois barcos. Parei ao lado de um deles, que me pareceu confiável. Havia um velho, uma moça e um rapaz, preparando-se para dormir. O barco não tinha piso e seu fundo arredondado não se dava para o conforto de uma cama. Todos se ajeitavam em redes, penduradas nas colunas do barco, e assim era com todas as gaiolas que lá estavam ao longo da praia. Eu não tinha uma visão clara do local, pois apesar das luzes, tudo era muito difuso.

Falei com o velho e pedi que ele me concedesse dormir em seu barco. Expliquei-lhe como chegara até ali e que não tinha ninguém que pudesse me ajudar ou me hospedar. Ele prontamente aceitou e disse para eu me ajeitar como desse. Peguei meu saco de dormir, minha sacola com os equipamentos eletrônicos e me instalei sobre a tampa do motor, de forma a poder ver a canoa.

Não dormi, pois os mosquitos não me permitiram. Pela manhã saí para procurar alguma embarcação que fosse para Pilão Arcado. Logo identifiquei duas ou três, mas nenhuma sairia naquele dia, uma terça-feira. Geralmente, os barcos vão na quinta-feira ou na sexta-feira, para poder participar da feira da cidade e voltar no domingo ou na segunda-feira. Levavam todo tipo de mercadoria: roupas, alimentos, frutas, sacos de arroz e de açúcar, vasos de cerâmica, galões de cachaça, cabras, porcos, galinhas, gado…

Encontrei um barqueiro que me fora indicado pela Margarida, do CPP – Conselho Pastoral dos Pescadores de Juazeiro; era o Zé Café e seu barco se chamava “Princesa do Café”; estava ancorado a poucos metros de onde eu me encontrava. Conversei com ele e acertei o preço do transporte: setenta reais, com direito a dormir no barco até a data da partida (quinta-feira).

Trouxe o barco, e seus tripulantes me ajudaram a colocar tudo dentro da “gaiola”. Minha canoa foi colocada na capota! Eu teria dois dias para conhecer a cidade, fotografar o que pudesse, acessar meus e-mails, postar alguma coisa no blog e comer bem!

E foi o que fiz nesses dias, que demoraram a passar; a cidade é pequena e tem poucos atrativos além da praia. O interessante é ver essas pessoas negociando tudo; o barqueiro, na verdade, é o comerciante e seu barco, uma mercearia onde tudo pode ser guardado, comprado, vendido, consumido. Tudo é negociável.

Logo que me instalei senti a necessidade de uma rede; fui à cidade e comprei uma na feira, a poucos metros do porto. Tomei sucos, sorvetes, comi em um restaurante por quilo com grande variedade de verduras e legumes, pela primeira vez em minha viagem! Era caro para meu bolso, mas eu precisava disso!

No final do dia apareceu um rapaz de uns trinta anos, ginga de malandro, boa fala, com uma garrafa de cachaça e uma pequena mala preta. Falou com o Zé Café, que lhe concedeu a viagem de graça. Mas ele não se contentou; durante todos os dias consumiu a cachaça dos galões que cobriam o piso do barco, e de graça!

Puxou conversa comigo e me disse que era de Pilão Arcado, mas estava há alguns anos em São Paulo, para onde fora com os pais, fugindo de um sujeito que o esfaqueara por causa de uma mulher; ele conquistou a mulher do outro e foi descoberto! Daí, fugiu…

Em São Paulo acabou se envolvendo em receptação de roubos e foi preso e condenado a dois anos de reclusão. Passou o diabo na cadeia e, quando foi solto, o pai o mandou de volta para sua terra natal, onde vive sua avó, com quem pretendia ficar. Disse que ela estava bem idosa e, quando morresse deixaria sua casa para ele.

Perguntei-lhe sobre o amante traído e ele me disse que, na verdade, voltava para se vingar, que fora humilhado e não poderia viver com essa mancha… isso significava matar o outro! Perguntei-lhe se não achava isso uma tolice; afinal, matando o sujeito, ele passaria o resto de sua vida na prisão. Sabia disso, mas nada poderia fazer para evitar… sua honra não tinha preço!

Desisti de argumentar com ele. Sabia o que fazia e não era um garoto. Saía todas as noites à caça de mulheres, nos bares e prostíbulos dessa cidade estranha. Durante o dia parecia uma cidade pacata, bonita, com uma bela praça, escolas bem cuidadas, edifícios antigos, um bom restaurante, esse folclórico ir-e-vir de barcos repletos de gente, mercadorias, música brega, e a feira da praia!

À noite diziam que tomasse cuidado, pois havia bandidos por toda parte, prostitutas, travestis, cafetões… eu não vi nada disso, pois não me aventurei a sair do barco. Lá eu ficava em minha rede, apreciando a movimentação intensa dos barcos e das pessoas.

Saímos de Xique-Xique na quinta-feira ao meio-dia; o barco estava cheio de bebidas, sacos de açúcar e muitas pessoas penduradas em suas redes. A viagem seguia monótona, o ruído do motor zumbindo em nossas cabeças, a quilha cortando a água e fazendo um rastro de espuma marrom, e o murmurar do povo.

Cada um cuidava de sua vida; uns conversavam, outros dormiam, uma mulher fazia crochê, eu apreciava a paisagem e, às vezes filmava ou fotografava alguma cena interessante. Nada de ondas gigantes, nenhum risco diferente dos que eu passara até agora! Poderia percorrer todo lago sem problemas, pensei… será?

Tanta gente me alertou para os perigos do Grande Lago de Sobradinho, suas ondas de dois metros de altura, suas paredes de pedra sem condições de abrigo, os bandidos e assaltantes… acho que os ribeirinhos têm uma imaginação fértil; por isso, as lendas do Nêgo d’água, a mula sem cabeça soltando fogo pelo pescoço, o crocodilo gigante, as sereias com seu canto alucinante e tantas estórias assustadoras e inverossímeis! E eu acreditei…

 Passagem

Chegamos à noite em Passagem, uma vila a beira-rio onde chegam as embarcações; de lá, só mesmo de caminhão, de carro ou a pé. Não consegui ver a cúpula da igreja submersa, nem nada que eu pudesse trazer de lembrança desse lugar estranho. Só vi a noite escura, as pessoas esperando perto da fábrica de gelo, nada mais. Passei a noite no barco e acordei cedo com o movimento das pessoas que chegavam para descarregar e transportar…Fui até uma loja de artigos de pesca, que também era uma lanchonete, e consegui retirar a canoa e minhas tralhas e colocá-las na entrada da loja. Assim, fiquei com mais liberdade de procurar um meio de seguir adiante ou ir para a cidade de Pilão Arcado. Fui a uma padaria e fiz um pequeno café da manhã.Por mais que tentasse, ninguém sabia de algum barco que pudesse me levar por todo lago, até Sobradinho. Com muita sorte, conseguiria ir até Remanso, me disseram… as horas se passavam, curiosos se amontoavam em torno da canoa, mas nada de um transporte. Lá pelas dez da manhã eu desisti e contratei uma caminhonete que me levou para Pilão Arcado.

Pilão Arcado

Passamos pelas ruas procurando um caminhão que fazia entregas e pudesse me levar para Remanso. Ninguém se interessava; eram poucos veículos, a cidade não tinha movimento, exceto nos dias de feira, nos fins de semana. O rapaz da caminhonete desistiu e me deixou em um ponto de transporte de VANs, que também não quiseram me levar. Fiquei lá, sozinho.

TRAVESSIA DE SOBRADINHO

Já pelo início da tarde eu quase desistia de conseguir transporte e pensava em voltar para o rio no dia seguinte; dormiria em uma pousada, voltaria para Passagem e enfrentaria esse desafio. Mas apareceu uma enorme carreta que descarregara sacos de cimento e aceitou me levar até Petrolina, passando por Remanso. Pensei que, chegando a Remanso, poderia encontrar outro transporte pelo lago, mas o motorista, preocupado, me demoveu dessa ideia

O lago era mesmo assustador para todos que por lá circulavam! Cada vez mais a ideia de percorrer o lago se tornava uma obsessão em minha cabeça. A carreta seguia devagar… um outro passageiro foi aceito de graça, seguido de duas moças… eu já me sentia enganado por ter pago R$150,00 pelo transporte! Só eu pagava; os outros iam de graça! Mas tive calma e relaxei.

A viagem transcorria sem problemas. Paramos em um posto onde tomamos banho e almoçamos. Em Remanso ficaram os outros passageiros e seguimos eu e o motorista, conversando e apreciando uma outra face das caatingas, verdejantes, viçosas! O que provocava essa mudança? Constatei depois que a construção dessa represa causou outros impactos curiosos na Natureza.Esse era um deles: a pressão de tamanho volume de águas sobre o fundo do lago causou infiltrações no lençol freático e essa água surgia por toda parte, criando um sistema de irrigação raro e permanente. Com isso, a caatinga daqui não seria mais a mesma!Passamos por Casa Nova já ao anoitecer e não deu para ter uma ideia da cidade. Eu já estava cansado de andar na boleia do caminhão e não conseguia manter uma conversa interessante com o motorista… era muito tempo viajando! E não era de barco!

Ele ainda me ajudou a encontrar um hotel em condições e preço razoáveis. Fiquei bem hospedado e o café da manhã era ótimo!

No dia seguinte visitei o Museu do Sertão, muito bem instalado e com um belo acervo, que tive a oportunidade de fotografar. Fiquei impressionado com a cidade de Petrolina. Há cerca de vinte anos, quando morava em Recife, conheci Petrolina e Juazeiro, de passagem para Senhor do Bonfim e Campo Formoso. Eram duas cidades muito parecidas, semelhantes em tudo com aquelas que conheci durante minha viagem: sem muitos atrativos e conforto.

Agora fiquei surpreso com Petrolina: ela se transformara em uma pequena metrópole, com todos os recursos e facilidades de uma cidade moderna, mas preservando suas tradições e valores! Conheci e fotografei a igreja matriz, com seus belíssimos vitrais e torres em estilo europeu; disseram-me que sua arquitetura era francesa, e foi obra de seu primeiro bispo, de grande projeção política, Dom Antônio Maria Malan, homem visionário e emérito.

Naquele dia, Avelar convidou-me a velejar no rio São Francisco. Eu já tivera essa experiência em Recife, em um pequeno barco. Veleiros sempre foram meu sonho de consumo. Durante muito tempo, minha ideia era comprar uma escuna e viver nela, tirar meu sustento dela e realizar meus projetos com ela! Infelizmente, não me empenhei o suficiente para concretizá-lo… Aprendi, na Ordem Rosacruz, que para que um projeto se realize, precisamos construir antes uma imagem mental dele e de cada etapa necessária à sua efetiva realização. Mas nunca pratiquei essa verdade. Abandonei a Ordem antes de me tornar um Mestre.

Fomos no veleiro de um amigo dele, Paulo. Qual não foi a minha surpresa quando descobri que trabalhamos juntos, em uma pequena empresa de Recife, há vinte anos! Eu mal o reconheci; sou péssimo para fisionomias… Passamos um dia fenomenal e aprendi algumas noções de navegação a vela, muito rudimentares. O vento foi nosso algoz durante todo dia… paramos perto de uma ilha e pude nadar no Velho Chico em uma água cristalina, verde esmeralda, de uma beleza incrível! Conhecemos outras pessoas, e Avelar me fez uma surpresa inacreditável: pedi-lhe que gravasse um depoimento e ele me declamou uma poesia, de improviso, que me levou às lágrimas! Avelar é uma pessoa muito especial… o tempo me dirá!

Ele ofereceu-se para me ajudar a conhecer a usina hidrelétrica de Sobradinho, na segunda-feira. Visitarei a barragem e a fotografarei. Conseguindo isso, meus prejuízos por não ter passado por lá se reduzem significativamente. Percebo que uma longa expedição como a minha depende de muitas negociações, principalmente conosco mesmos, uma vez que temos que abrir mão de algumas possibilidades para garantir a consecução do objetivo final!

É muito difícil a negociação interior. Nós, aventureiros, somos implacáveis conosco mesmos! Ceder aos outros é fácil… difícil é ceder a nós mesmos, abrir mão de metas  e preservar o objetivo final! Quantas vezes me defrontei com isso? Estar diante de um espelho e rejeitar a própria imagem! É muito difícil…Quando percorri cerca de 300 quilômetros  de caminhão, deixando  o rio correr no lago de Sobradinho, era como se eu me traísse e aos meus ideais… eu queria conhecer o rio inteiro, percorrer cada metro de água, não importa o esforço, o risco… mas, pensando racionalmente, isso não teria a menor importância: a essência do rio eu captara; eu sabia que não perdera nada de importante!

Amanhã irei a uma festa no clube náutico, a convite de Avelar. Ele me dará um espaço durante o evento para falar sobre minha expedição, e terei minha canoa em exposição no pátio interno. Será uma nova oportunidade de tentar sensibilizar algum patrocinador em potencial. Se conseguir isso, minha viagem prosseguirá com muito menos dificuldades para mim. Mas tenho poucas esperanças, até pelo histórico de sucessivas recusas de apoio de grandes organizações que se dizem comprometidas com o meio ambiente; sem a contraproposta dos incentivos fiscais…Mesmo assim terá valido a pena conhecer Avelar, mais uma referência inesquecível em meu livro, já repleto de personagens importantíssimas para mim, pelo apoio recebido e pela amizade.

Ainda em Petrolina, 15/11/2009 – 23h07

Passei a tarde no clube náutico na companhia de Avelar. Era aniversário do clube e estavam presentes muitos empresários e políticos locais. Avelar me apresentou a todos e fiz minha preleção em uma área aberta onde todos almoçavam. Não foi um local adequado pois, quem vai a um clube não está interessado em ouvir palestras. Mesmo assim, a receptividade foi excelente.

Ao lado de minha canoa conversei com várias pessoas interessadas em conhecer detalhes da expedição, ver meus equipamentos, entender meus motivos, ou apenas para me cumprimentar pela “coragem” e posar para fotos ao meu lado.

Depois saímos com minha canoa e atravessamos o rio até uma estátua do Nêgo D’água, ao lado de Juazeiro, pois amanhã serei entrevistado pela Gazzeta de Petrolina, um jornal da região.

Infelizmente, isso altera meus planos de ir a Sobradinho, que ficaram para terça-feira. Irei de ônibus, pois Avelar tem compromissos e não poderá me acompanhar. Com isso se esgotam meus interesses na visita a Petrolina e Juazeiro.

Apesar da boa intenção de Avelar, não apareceu nenhum interessado em patrocinar a minha expedição, conforme eu previra. Convites públicos de patrocínio nunca funcionam. Preocupam-me os obstáculos que ainda terei que enfrentar nas portagens de Itaparica, Paulo Afonso e Xingó, para os quais não tenho nenhum contato ou informações. Perguntarei a Avelar…

Valores trocados, 17/11/2009 – 00h06

É curioso… um grupo de vinte executivos, munidos de seus potentes jet-skis de última geração conseguiram facilmente o patrocínio de uma bebida famosa, e o apoio da prefeitura e de uma emissora de tv de Petrolina para um passeio pelo rio São Francisco, desde Casa Nova até Belém de São Francisco e depois até a foz, apenas alguns dias antes de minha chegada a esta cidade! Nenhum risco, apoio terrestre, muito dinheiro, festa e toda cobertura da imprensa!

Enquanto isso, meu projeto que se iniciou em dezembro de 2008 e completará um ano na minha chegada à foz, não conseguiu nenhum patrocínio, divulgação ou mesmo financiamento!

Estou há cinco meses no rio São Francisco, documentando a triste realidade dos ribeirinhos, a falta de investimentos na revitalização, e nenhum grande veículo de comunicação se interessou pelo meu projeto! Não consegui patrocínio e percorro o rio quase anônimo! Por que será? Incomodo as elites políticas, econômicas e sociais? Denuncio os poderosos? Coloco em risco a imagem dos governantes que apenas olham para o futuro próximo das eleições e esperam auferir vantagens pessoais? Nem isso acontece pois também não sabem que estou aqui lutando…

Pois prefiro continuar sendo esse estorvo, esse espinho atravessado na garganta dos poderosos, essa voz solitária e rouca de tanto gritar a verdade incômoda, a aderir ao oportunismo das manchetes, a cooptar o apoio condicionado dos políticos!

Sigo meu caminho peregrino, passando desapercebido pelas cidades, registrando o absurdo inconsequente da devastação causada por grandes e pequenos, que pouco ou nada se importam com o destino que está reservado para este rio…

Nossas riquezas seguem sendo dizimadas, parceladas, pulverizadas em troca das migalhas oferecidas pelo latifúndio, pela agroindústria, pelas mineradoras, pelas elites privilegiadas que mal sabem dizer por onde passa o rio São Francisco.

Enquanto isso, autoridades exibem suas penas de pavão à imprensa internacional, posando de defensores do meio ambiente! Pura conveniência eleitoreira que terminará em outubro de 2010, quando novas personagens assumirão o palco, nada fazendo de relevante para reverter os processos de devastação que nos levam, inexoravelmente, à desertificação dos cerrados, da caatinga e da Amazônia. Qual é a bola da vez? O apagão?

Pois vamos explorar, na mídia, esse tema, até que novos eventos venham a distrair nossa atenção do verdadeiro drama da extinção de nossos ecossistemas, das espécies animais, dos indígenas!

Desenvolvimento versus Meio Ambiente

Petrolina é a primeira cidade ribeirinha ao São Francisco que encontro, com estrutura urbana similar aos grandes centros do País. Todas as demais vivem uma situação de meio século de atraso, um universo congelado no tempo onde até carros de boi existem e são utilizados como meio de transporte, assim como muares e cavalos para tração animal, nas cidades e no campo.

A economia do São Francisco, via de regra, é de subsistência e depende apenas do escambo e de um primitivo comércio local. Ocorre um tremendo isolamento devido às péssimas condições das estradas, ao abandono das ferrovias e das hidrovias, e à baixa produtividade das lavouras e da incipiente indústria local.

Enquanto isso, o “Sul Maravilha” se distancia “centenas de milhas daqui”! Aliás, os grandes centros urbanos do Brasil desconhecem a realidade dos sertões nordestinos. E a televisão, quando mostra, exibe um aspecto romântico da miséria, mais próximo do folclore e das lendas do que da vida real. E as decisões são tomadas por pessoas que não conhecem esse Brasil esquecido.

A caminho de Curaçá, 18/11/2009 – 17h44

Sul: 09º 08′ 36” – Oeste: 40º 17′ 47” – Altitude: 348 metros

Estou a cerca de 50 km de Curaçá e devo ter percorrido mais de 40 km desde Petrolina, de onde saí hoje às 08h00. Embora o hotel fosse confortável e tivesse um excelente café da manhã, ficou muito caro para mim: R$300,00 por cinco noites.

Esse trecho do rio é muito bonito e evidencia a grande disparidade entre os estados da Bahia e de Pernambuco, ao menos às margens do São Francisco. Além do padrão de vida melhor, fruto da política desenvolvimentista desencadeada pela irrigação e pelo plantio massivo de frutas tropicais e da produção de vinho de alta qualidade, percebe-se melhor administração dos recursos públicos: Petrolina é hoje bem mais desenvolvida que Juazeiro, do outro lado da ponte. Há vinte anos essas cidades se equiparavam.

Ontem fui a Sobradinho. É um percurso de quase uma hora por terras da caatinga onde se percebe o descaso das autoridades e da população. Evidência disso é o lixão a céu aberto, de ambos os lados da estrada, a meio caminho de Juazeiro.

A cidade fica a cinco quilômetros da barragem, que percorri a pé, a uma temperatura insuportável! E me esqueci de levar água!

Conheci a eclusa, logo à entrada, de uma altura impressionante! Pareceu-me ter a altura de um edifício de dez andares! Estava inativa pois, praticamente, não existe mais transporte fluvial entre Petrolina / Juazeiro e as demais cidades a montante da barragem de Sobradinho. Apenas uma embarcação, a Jurity, percorre esse trecho até Januária, passando pela eclusa uma vez por mês. Considerando-se o custo da obra, sua operação e manutenção, trata-se de um enorme desperdício!

Fui recebido pelo engenheiro Marcelo, amigo de Avelar, que me mostrou as instalações e pude captar imagens magníficas de todo complexo, que tem capacidade nominal de produção de 1 GW de energia. Dentro das instalações há poucos trabalhadores.

Marcelo me levou de volta à cidade, onde fotografei a capela em que frei Luiz Cappio jejuou por mais de 20 dias em 2008. Depois almocei um bode assado, carne gordurosa e fibrosa, mas com excelente sabor. Em seguida, retornei a Juazeiro e Petrolina.

O rio São Francisco apresenta coloração verde esmeralda, tanto no lago de Sobradinho como depois, a jusante, pelo menos até onde cheguei hoje. Lembra-me as águas de Angra dos Reis…

Há muitas pedras no leito do rio, a maioria submersa e à flor da água, representando um grande risco à navegação. É preciso estar muito atento para não bater em uma delas, quase invisíveis.

Às 16h00 encontrei um excelente porto sob árvores frondosas e um terreno plano onde montei acampamento e passarei a noite. Minha tendinite está pior a cada dia. Mesmo assim, aproveitei para dar um jeito nas tralhas e revisar os remendos do barco, que tem apresentado infiltrações de água.

Santa Maria da Boa Vista, 20/11/2009

Sul: 08º 47′ 30” – Oeste: 39º 49′ 42” – Altitude: 374 metros

Curaçá foi uma grata surpresa para mim: um grupo de jovens me indicou uma pousada, pois a do amigo de Avelar ficara para trás; é fora da cidade e não daria para eu voltar remando contra a correnteza. Estou cansado e faminto demais para isso!

Cheguei às 17 horas, depois de 11 horas remando sem parar, com vento muito forte e as ondas e maretas me fustigando! O barco, às vezes, nem saía do lugar! Fora as pedras no caminho…

Encontrei a pousada e decidi ficar lá. Ainda teria que trazer a canoa e as tralhas e tem uma ladeira de uns 300 metros! Mas a sorte mais uma vez estava ao meu lado: Wallace, sobrinho da dona da pousada se ofereceu para me ajudar, e arregimentamos a turma lá da praia também! Em duas viagens levamos tudo.

Convidei a turma para tomar uma cerveja e conhecer a cidade, muito pequena, mas bem cuidada, com praças bonitas, um teatro muito antigo e uma igreja que tem sua história… contam que um morador da cidade fora excomungado por ter assassinado o padre! E a maldição era que o sangue do padre teria que ser lavado pelas águas do rio; mas as cheias nunca atingiram o páteo da igreja e suas escadarias! Agora dizem que será construída uma represa que irá inundar parte da cidade e a maldição será cumprida… o curioso nessa história é que toda cidade pagou pelo crime cometido, em vez de ser punido apenas o assassino!

Hoje pela manhã saí para fotografar a cidade, que possui casas centenárias bem cuidadas. Depois voltei à pousada, transportei o barco e as tralhas de volta para o rio com a ajuda de Wallace, e parti às 08h00. Meu trajeto hoje seria curto: apenas uns 35 km. Mas logo encontrei um canal na margem direita do rio e decidi explorá-lo. Estava bem preservado, com muitos pássaros e rica e densa vegetação, mas não havia ninguém… achei que me levaria a uma lagoa. O canal tinha uns três quilômetros de extensão e, para minha decepção, terminava de repente!

Segui adiante, mas apesar do pouco vento, as águas continuavam agitadas e logo me cansei. O sol estava forte e, mesmo com o bloqueador, minha pele ficou vermelha e ardendo. A paisagem era magnífica! Água límpida e verde esmeralda, vegetação preservada nas margens e ilhas, e muitas pedras! Dessa vez não havia corredeiras, mas as pedras submersas e os “stonebergs”[1] exigem atenção constante. Deve ser fantástico mergulhar aqui!

Mesmo com toda essa beleza à minha volta, estou cansado dessa viagem, que se prolongou por muito mais tempo do que era previsto. Acho que estou um pouco debilitado também…

Cheguei cedo a Santa Maria da Boa Vista. Devia ser duas horas da tarde quando encostei meu barco nas areias da praia. Muitos vieram me perguntar de onde eu vinha, o que eu fazia… um povo simpático e hospitaleiro! A praia tem um quiosque enorme, com muitas mesas e dá para se sentir à beira-mar! Pedi uma refeição.

Liguei para o assessor do prefeito, Adelmir, que prontamente disse que iria me encontrar ali mesmo. Pedi um tambaqui e uma água de coco Curioso é que o tambaqui é um peixe da amazônia e fora introduzido no São Francisco quando da construção da represa de Sobradinho. Foi um erro fatal, pois esse peixe é um predador e contribuiu muito para a redução das populações de outros peixes nativos, hoje quase extintos nessa região.

O peixe demorou tanto para ficar pronto que não pude comê-lo! Chegaram o Adelmir, o prefeito e o presidente da câmara de vereadores, além de vários assessores e amigos.

Conversamos bastante e Adelmir colocou-me ao vivo na rádio local para uma chamada de entrevista que darei amanhã e será colocada no ar na segunda-feira, depois que eu tiver partido.

Levaram-me para uma pousada ótima, com ar condicionado, tv e frigobar, com tudo pago pela prefeitura, inclusive as refeições! Hoje jantaremos juntos e amanhã sigo para Cabrobó. Esse trecho do rio é o seu ponto crítico, tanto pelas plantações de maconha e a presença de traficantes nas ilhas, como pelas inúmeras corredeiras e seus famigerados “panelões”; dizem até que existe um redemoinho gigante, do tamanho do Maracanã, segundo já me alertara o Junior em seus relatos de viagem de 2004. Vamos conferir…

Recomendaram-me a ir sempre  beirando a margem esquerda do rio, pernambucana, para fugir das piores passagens. E também reforçaram a recomendação de não aportar nas ilhas! Com isso perderei a visita à comunidade de Riacho Seco, para a qual eu fui convidado ainda na praia. Paciência, não vou me arriscar ainda mais nessa viagem, depois de tudo o que me aconteceu.

Proximidades de Orocó, 22/11/2009 – 17h00

Sul: 08º 38′ 55” – Oeste: 39º 39′ 59” – Altitude: 339 metros

Saí de Santa Maria à 07h00. Adelmir foi me buscar na pousada e ajudou-me no transporte da canoa. Curiosidade: aos domingos a pousada não serve café aos hóspedes! Dizem os proprietários que é o dia de descanso deles! Nunca vi isso!

Combinei com Jacinto, um amigo de Adelmir, para me encontrar próximo às corredeiras. Ontem visitamos o local por estrada, no meio da caatinga. É o Monte Carmelo, local místico onde ocorrem romarias e peregrinações de todo país.

Trata-se de um penhasco de rochas que se projetam sobre o rio, justamente no local das corredeiras. No alto existe um cruzeiro e um santuário, com uma pequena capela de pedras e muitas cruzes marcando o percurso da via sacra, por onde passam os fiéis. A visão é fantástica! O rio faz uma curva de 270º, rodeando o rochedo. Por todo seu leito, dezenas de ilhas compõem um labirinto de passagens, todas elas recobertas de pedras que dificultam a navegação, criando pequenas corredeiras.

Caixa de texto:  Foto 155: Pedras na base de Monte Carmelo, em Santa Maria da Boa VistaO problema é o que acontece depois dessas corredeiras, entre as pedras: redemoinhos, que aqui são chamados de “panelas” ou “caldeirões”. Algumas são intensas e ameaçam as embarcações.

Como tudo o que é desconhecido ou misterioso por aqui, esses caldeirões viraram lenda e causaram o desaparecimento de barcos e de seus tripulantes, envoltos em suspense e terror!

Cheguei ao local combinado às 10h30, apesar do vento forte e das ondas que impeliam a canoa para trás. Romper essa ventania exige um esforço muito grande e quase inútil… melhor seria esperar o vento passar e remar com mais eficiência. O problema que a ventania só dá tréguas à noite…

Jacinto levou dois sobrinhos, que conhecem bem o rio e sabem os segredos das passagens pelos panelões. Só que eles não tinham barco e tive que deixá-los levar minha canoa enquanto eu rodeava o rochedo de garupa na moto de Jacinto.

Eles passaram rápido pelas corredeiras e eu perdi a oportunidade de conhecê-las e usufruir da adrenalina da aventura. Mas estou mesmo limitando meus riscos nesse final de viagem para não comprometer a expedição. Talvez um cuidado excessivo…

Segui minha viagem por mais algumas horas e acampei pouco antes de Orocó. Amanhã remarei uns 40 km até Cabrobó.

Nesse trecho são poucos os locais para acampamento e é preciso  ficar atento às oportunidades; os aguapés impedem a aproximação das canoas até a margem do rio e, quando isso é possível, o lugar já está ocupado ou existe uma bomba de sucção tirando água do rio para as plantações; às vezes, ainda, a margem é “protegida” por cercas de arame farpado, impedindo a ancoragem dos barcos.

Este local que escolhi é próximo a um sítio e os moradores parecem não ter gostado de minha presença, pois estão fazendo um enorme alvoroço próximo à minha barraca, arrancando mangas.

Legalmente, todo terreno às margens dos rios interestaduais pertencem à União e são (ou deveriam ser) controlados pela Marinha. Mas isso não se aplica ao rio São Francisco, onde as leis não são aplicadas, e não existe nenhuma fiscalização!


[1]    Stonebergs – neologismo associado aos “icebergs”, enormes formações de gelo que flutuam nos mares, com pouco mais de 10% de seu volume fora d’água e o restante submerso, representando grande ameaça à navegação. “Stoneberg” = “iceberg” de pedra!

CABROBÓ

Minha chegada a Cabrobó não poderia ter sido mais complicada! Remei durante 8 horas, desde Orocó, contra um vento forte e muita “mareta”! É cansativo e improdutivo enfrentar o vento, mas não tinha alternativa; precisava chegar a Cabrobó, final da penúltima parte de minha expedição!

O trajeto é ponteado de ilhas, ilhotas, pedras e corredeiras, de muita beleza, mas exigindo atenção redobrada e muito cuidado para não bater nos inúmeros “stonebergs” do rio! Essas pedras imensas às vezes ficam totalmente submersas, muito próximas da superfície da água, prontas para virar qualquer embarcação que apenas resvale o casco em sua borda.

Perto de Orocó já havia passado por uma situação difícil: um trecho acidentado, com poucas alternativas, exigindo decisões rápidas, muito reflexo e, especialmente, SORTE! Entrei na corredeira com determinação e logo percebi que a “encrenca” era maior.

De um lado, as pedras se avolumaram rentes ao casco de minha canoa; o ritmo rápido do rio não dava margens para indecisões; joguei o barco de lado e puxei de volta novamente, conseguindo evitar o impacto! De outro lado, as ondas se formavam perigosamente paralelas à embarcação: se elas chegassem dessa maneira, não haveria como manter o barco na água; com o remo fiz um pivô lateral, girando a canoa sobre seu eixo; consegui colocá-la de frente para as ondas, mas o impacto foi forte e muita água entrou de uma só vez.

Voltei a girar o barco e puxei o remo com força, seguidamente, antes que outra onda me atingisse; consegui, finalmente, sair da zona de formação de ondas e parti para a segunda bateria de corredeiras; tinha que mudar para a outra margem, onde pareciam estar os obstáculos mais fáceis. Remava intensamente, quase no limite de minhas forças, pois não poderia errar: o barco já tinha muita água e qualquer erro seria fatal.

Enfim, consegui superar esses obstáculos… parei em um trecho recoberto de aguapés e esvaziei a canoa lentamente. Bebi água, retomei o fôlego e segui adiante. Não imaginei que, depois de Monte Carmelo, houvesse outro trecho complicado assim.

Quando chegava a Cabrobó percebi que havia outro obstáculo, agora intransponível: o rio fazia uma curva em “S” em torno de uma enorme pedra, sobre a qual várias pessoas se divertiam. Mal tive tempo de jogar o barco sobre a margem, em um matagal. Saltei para o barranco e examinei, de longe, a corredeira: sem nenhuma possibilidade de êxito! Não dava para passar.

Com muito esforço remei de volta, rio acima, até uma bifurcação; girei o barco e me joguei “no escuro”, fazendo uma curva fechada à esquerda; a canoa passou direto sob uma árvore muito baixa e me arranhei com seus espinhos, mas consegui passar. A alegria, porém, durou alguns segundos: à minha frente, outra árvore despencada sobre o rio, já morta!

Bati de frente e o bico da proa se alojou embaixo de um galho! A água entrava rapidamente no barco; não tive tempo de pensar: firmei o pé no tronco e joguei meu corpo para trás, puxando o barco. Na terceira tentativa ele cedeu e saiu de baixo da árvore. Eu me virei e amarrei a popa em uma forquilha, imobilizando o casco. Tentei descolar o barco da árvore, mas cada movimento fazia a canoa girar de lado, entrando mais água. Estava preso!

Tirei a água lentamente, com uma esponja, pois a caneca que eu tinha deve ter caído na água. Com o barco estável, escalei o tronco e pulei para o barranco. Subi rapidamente e gritei por ajuda, mas ninguém respondeu. Temia que o barco virasse e eu perdesse todas as minhas anotações, fotografias, filmagens, tudo o que representava meu trabalho até então. Desisti…

Liguei para Paulo, secretário municipal de Cabrobó que, prontamente, se dispôs a me ajudar. Pediu algumas informações: eu estava a 1,84 km da cidade, pelo meu GPS; estava em um canal do rio (eles chamam de rio pequeno; o rio grande passa por fora da ilha de Assunção) e ouvia sons de animais (cães, galinhas e cabras). Era tudo o que eu soube informar. Alguns minutos depois ele chegava, com mais dois secretários de governo que, com a ajuda de dois índios Trukás, me ajudaram a transportar as sacolas que eu levava no barco para o barranco, em sucessivas escaladas da árvore caída. Aos poucos, tudo se resolvia…

Passei, por fim, a canoa, e seguimos para a cidade. Depois eles me disseram que, por aquele caminho, não seria possível eu chegar: havia outra corredeira, logo abaixo, igual ou pior do que aquela que eu avistara. Levaram-me para a pensão de dona Júlia, uma simpática velhinha, mãe de dona Socorro. Era uma pensão simples e agradável.

À noite jantamos juntos e conheci outros membros do governo municipal, inclusive o prefeito. Comemos bode assado (que, na verdade, era um carneiro). Fui dormir cedo, pois estava cansado.

Paulo tem sido um grande amigo, essencial para minha permanência bem-sucedida nesta cidade: viabiliza tudo com a maior facilidade e está sempre disponível para me ajudar no que for preciso. Sem sua ajuda, minha passagem por Cabrobó talvez nem tivesse sido percebida pela população, como aconteceu em outras cidades…

Cabrobó é uma cidade de 35 mil habitantes, muito agradável, com estilo de vida de cidade de praia, bares e cadeiras nas calçadas, todo mundo se conhecendo e se relacionando com simpatia e em paz. Essa imagem verdadeira é muito diferente daquela transmitida pela imprensa: há muito tempo Cabrobó não conhece a violência e se tornou uma cidade progressista e moderna, com bons restaurantes, padarias e um comércio ativo e forte.

Ontem foi um dia especial: fui entrevistado por duas rádios: a Comunidade, rádio local, e a Grande Rio, que atinge 23 municípios, inclusive Petrolina. Depois fiz palestras em três escolas públicas.

Hoje visitei as polêmicas obras da transposição: muito grande e impressionante! Mais de 8 mil trabalhadores, uma imensidão de canais que levarão as águas para outras bacias, perenizando rios e prometendo melhorar as condições de vida dos sertanejos nordestinos… agora visitarei a comunidade de índios Trukás, na ilha de Assunção. Amanhã sigo para Paulo Afonso. Isso encerra essa etapa e estarei a 250 km da foz…

O interesse de Cabrobó pela Transposição é a contrapartida da construção de uma hidrelétrica em seu município, o que lhes renderia “royalties” por toda vida, e a perenização de um dos seus rios, afluente do São Francisco.

Também contam com o uso da água dos canais da transposição para projetos de irrigação de terras do sertão, o que não é mencionado nos projetos do governo federal. Segundo me informaram, existe uma previsão de “apagão” de águas nos centros urbanos do nordeste para 2016, o que justificaria esta obra gigantesca e bilionária.

Além disso, comentam que existe uma verba anual de um bilhão de reais para projetos de revitalização. Que projetos? Segundo eles, 129 cidades já possuem planos (em execução) para tratamento de esgotos, não só na calha do São Francisco, mas em seus afluentes.

Dizem ainda que 80% dos esgotos de Cabrobó já são tratados e chegarão a 100% até o final desta gestão. Enfim, dados que não são divulgados pelo governo.

Eles ainda mencionaram a hipótese de transposição do rio Tocantins para repor a perda de águas do rio São Francisco. Segundo dizem, uma obra muito mais econômica, uma vez que a cota daquele rio é mais elevada e não haveria necessidade de estações elevatórias e grandes açudes intermediários para sua execução. Então, por que não foi incluída neste projeto? Muitos debates teriam sido evitados.

Não resta dúvida que uma obra dessa magnitude favorecerá o desenvolvimento da região, seja pelos milhares de empregos gerados, seja pelos benefícios diretos da perenização de rios de outras bacias hidrográficas do Nordeste. Assim como os projetos de irrigação transformaram Petrolina em uma cidade progressista e moderna, também a transposição fará o mesmo para essa região.

Provavelmente, se o governo federal tivesse demonstrado maior transparência nos estudos de impactos ambientais e tivesse ouvido a população que seria afetada pelas obras, adaptando o projeto às expectativas desses povos atingidos, não teria encontrado tanta resistência. As comunidades indígenas e as populações mais pobres de Pernambuco e do norte da Bahia deveriam ter sido consultadas.

As audiências públicas realizadas com tanta pressa denotaram os interesses políticos que prevaleceram na contratação dessas obras. Por que não se cumpriram os ritos processuais estabelecidos para as licitações? Por que não se permitiu que essa população fosse ouvida?

Há muitos anos ouve-se falar da “indústria da seca” e dos mecanismos de poder que mantêm uma população de milhões de seres humanos atrelada às verbas que se consomem sem trazer melhoria de qualidade de vida permanente. No entanto, os carros-pipa continuam como a única fonte de salvação nas épocas de seca.

Se há méritos nessas obras, por que não confrontá-los com os danos que possam vir a ser causados? Sabemos das dificuldades de se conduzir processos licitatórios, dada a complexidade da legislação. E a preocupação social às vezes nos parece mais importante que as regras da administração pública. Mas há que se cumprir as leis.

O que se deseja é um programa mais amplo, abrangente e integrado que possa dar fim a tanto desperdício do dinheiro público. Jamais a transposição deveria ter sido iniciada sem estar atrelada a um projeto consistente de revitalização do rio São Francisco e de seus afluentes.

Certamente, se as comunidades que habitam as margens desses rios tivessem sido beneficiadas por projetos que determinassem o fim dos conflitos fundiários e lhes assegurasse a posse definitiva das terras que ocupam há dezenas, senão centenas de anos, certamente a transposição teria sido aceita sem restrições. Esperamos que o governo reflita sobre isso e reformule seus projetos.

Minha visita aos Trukás foi excelente! Ednaldo Cirilo, descendente de Antônio Cirilo, líder dos indígenas, levou-me a conhecer grande parte da ilha, habitada por cerca de 4.000 trukás em vinte e cinco aldeias. A ilha de Assunção era, na época da colonização, habitada pelos indígenas, mas os portugueses os fizeram escravos para trabalhar nas lavouras de cana de açúcar. A Igreja Católica[1], que ajudou na captura desses índios, herdou a ilha e a transferiu para famílias ricas, que a usavam como local de veraneio e criação de gado.

Somente no início do terceiro milênio é que os Trukás recuperaram a posse de suas terras. Hoje, além da ilha de Assunção, mais 84 ilhas fazem parte do patrimônio indígena.

No Reino da Assunção, Reina TRUKÁ

“Sou a cabocla Marcina / Não tenho o que procurar”

“Apenas eu vim dizer / Que a nossa aldeia é Turká”

“Vala-me Nossa Senhora / Por Deus queira nos valer”

“Depois que os índios Turká / Essa batalha vencer”

“Eu fui um Encanto / Lá vi uma mesa galante”

“Na cabeceira da mesa / Lá tava o mestre Turká”

“O capitão Bernardino / Com seu cartãozinho na mão”

“Dando sua declaração / Eia eia reina eia / Eia eia reina oa”

“Eu andava pelo chão / Rodando o chão desse mundo”

“Eu me acostei nos antigos / Sombra de Dom Pedro Segundo”

“Eia eia reina eia / Eia eia reina oa”

“Até logo ó meus índios / Eu já vou me arretirar”

“Vocês já me encomendem a Deus / Até lá no juremá”

“Todo caboclo é poeta / Os índios é lugiador”

“Sei que os índios agora / É o encanto de amor”

“Eia eia reina eia / Eia eia reina oa”

“Adeus, adeus ô meus índios / Eu já vou me arretirar”

“Vocês já me encomendem a Deus / Até lá no beira-mar”

“Ei naei naei naoa / Nae enaoa”

Esse toante veio para confirmar o nome da aldeia que era Turká. Com o tempo, as pessoas trocavam as letras e os funcionários do governo escreviam como queriam, até que se transformou em Truká.

(texto extraído do livro “No Reino da Assunção, Reina TRUKÁ”; organização das Professoras Truká – OPIT Organização de Professores Indígenas Truká.)

COMPLEXO DE PAULO AFONSO

De volta à Bahia, 27/11/2009 – 19h57

Sul: 09º 24′ – Oeste: 38º 13′ 52” – Altitude: 254 metros

Depois de muitos contratempos e adiamentos consegui sair de Cabrobó e chegar a Paulo Afonso. Saí de lá às 13h30 e cheguei às 17h00. A estrada é boa, mas a van parou em Belém de São Francisco, Floresta e Petrolândia para pegar e deixar passageiros, com minha canoa amarrada na capota.

Cruzamos a obra do eixo leste da Transposição do São Francisco, que está bem no início, ainda em fase de terraplenagem. Existe um grande projeto de irrigação em Petrolândia, mas o resto da caatinga está desolador, pois não chove há meses nessa região.

Passamos perto da barragem de Itaparica. O lago é azul como o de Três Marias, mas a barragem não apresenta nenhum atrativo que justificasse perder mais uma semana remando. Creio ter tomado a decisão correta, optando pela portagem.

Cheguei à casa de Alzeni, pesquisadora indicada pela índia Tumbalalá, Maria José, como meu contato nesta cidade. Ela é bem mais jovem do que eu pensava, assim como seu companheiro paulista, o nissei Paulo.

Alzeni coordena o CPP daqui e trabalha com comunidades de pescadores e indígenas, na Universidade Estadual da Bahia. Depois de uma conversa rápida, ela me indicou uma pousada, próxima dali e instalada na sobreloja de um posto de gasolina.

Guardei a canoa na garagem da pousada.

Pousada em Paulo Afonso, 28/11/2009 – 08h00

Estou me concedendo o luxo de uma pousada simples mas confortável, com um quarto muito grande, ar condicionado e frigobar, café da manhã e um sistema estranho de controle: para abrir a porta é preciso ligar para a padaria, onde também é servido o café da manhã, relativamente diversificado.

Pretendo viajam na segunda-feira com destino a Piranhas, em Alagoas, a cerca de 55 km de Paulo Afonso. Será o início da última etapa de minha viagem e talvez a mais tranquila Até a foz serão cerca de 250 quilômetros, que pretendo fazer em cinco dias, mais o tempo que permanecerei em Piranhas.

Foram meses de planejamento, aventuras, desgaste físico extremo, contato com populações quilombolas, indígenas e assentados, visitas a museus, conversas com políticos, líderes religiosos, líderes comunitários, pescadores, visitas a monumentos históricos e às obras da transposição, paradas e interrupções não programadas, portagens complicadas, sol extenuante, ameaças e tentativas de intimidação…

Teria valido a pena por quaisquer desses motivos, seja pela convivência com um povo que eu sequer imaginava como viviam, seja pelo enriquecimento cultural e pela possibilidade de registrar em fotografias, em vídeo e em meu diário de bordo.

Mesmo abrindo mão de quase 500 quilômetros de rio, dos quais me desviei deliberadamente ou induzido por informações erradas, terei percorrido, ao final, cerca de 2.300 quilômetros a remo, sem qualquer ajuda externa e sem apoio ou patrocínio! Mesmo assim, considero minha missão cumprida com êxito.


[1]    Fonte: estudos antropológicos publicados até 2009, comprovam a participação ativa da igreja (ver bibliografia). É sabida e notória a presença de religiosos em todo o processo de colonização. As missões jesuítas provocaram a miscigenação e perda de identidade cultural dos povos tradicionais. Consequentemente, sua submissão aos invasores europeus.

Visita à aldeia Truká Tupã, 13h52

Nas cercanias de Paulo Afonso vivem 26 remanescentes dos Trukás, de mesma etnia daqueles que habitam a ilha de Assunção, em Cabrobó/PE. Por alguma razão eles se dispersaram quando fugiam da escravidão e vieram parar aqui.

Vivem pobremente, em casas de taipa, em uma extensa área de caatinga, desprovidos de água, dependentes de carros-pipa, de uma bomba de recalque de uma fazenda, e das chuvas. Toda lavoura, plantada com feijão de corda, mandioca, melancia e hortaliças foi perdida por falta de irrigação, pois a bomba d’água foi desligada por falta de pagamento. Existem seis açudes em suas terras, na parte alta das terras, mas estão secos. Eles irrigam as lavouras por gravidade.

Alguns coqueiros ainda persistem, mas sem produção; e a criação de animais se restringe a alguns porcos, ovelhas, cabras e galinhas, além de umas poucas cabeças de gado. Vivem do pouco que colhem e da eventual doação de cestas básicas feita pela Funai; mas este ano só receberam uma cesta básica, insuficiente para o consumo de um mês dessas famílias.

Nos limites de suas terras existe um córrego seco, cujas areias estão sendo retiradas por um trator de esteiras. Esse trabalho, feito sem nenhum cuidado, está alargando o leito do riacho e acumulando enormes quantidades de areia em vários pontos. É imprevisível o que sucederá com o riacho nas próximas chuvas.

Interpelado, o autor dessa extração de areia nos disse que todos os anos ele compra a areia de vários riachos e que isso não causa problemas. O Ibama, certamente, ignora esse fato!

Aproveitamos essa caminhada pelas terras dos Trukás-Tupã para conhecer um pouco de seus costumes e também gravar um depoimento de sua cacique para nosso trabalho. Almoçamos com a família da cacique e visitamos a oca de cerimônia Toré, que é realizada semanalmente na aldeia.

Depoimento da Cacique Neide

Aldeia Truká Tupã de Paulo Afonso – 28/11/2009 – 10h15

Eu sou a cacique de meu povo, aqui da aldeia Truká Tupã de Paulo Afonso. A vida da gente é uma vida muito sofrida. Nós já vínhamos sofrendo na terra que a gente estava ocupando, que era uma terra dada pelo prefeito, e que era uma área muito perigosa, que os bandidos sempre ficavam querendo mexer ‘com nós’; eles cobriam o rosto ‘pra’ entrar; atiravam, se escondiam quando tinham algum problema de morte no bairro ‘que nós estava’. O que ‘nós tinha’ eles roubavam, que era galinha, porco, era ovelha, arame, estaca e mais alguma coisa. Então a gente viu que não dava ‘pra’ gente viver lá, senão ia até perder a vida. Eu não podia nem viajar atrás de algum benefício pro meu povo.

Aí o fazendeiro daqui se chama ‘seu’ José Balbino. Aí ele já fazia tempo que convidava ‘nós pra vim pra cá’, mas eu achava que ‘nós ia’ sofrer mais através do alimento. Aí quando foi o ano passado, acho que no mês de dezembro, a  CONAB mandou ‘nós ter’ cesta [básica] e nós tivemos força ‘pra vim pra’ essas terras de caiçara, que se chama Alto do Arapicum. Aí ‘nós se sentimos’ mais fortes e eu achei que nós ‘não ia’ sofrer através do alimento, porque eles tiveram essa compaixão, nosso pai Tupã encaminhou eles ‘pra’ nossa frente, nossa cesta chegou e eu disse: ‘pronto, meu povo, agora é hora de ‘nós ir pra’ terra, o dono está oferecendo ‘pra nós plantar’ e nós vamos ‘se entreter pra’ plantar e o que ‘nós tem pra’ comer uns dias enquanto faz a plantação e ‘vocês ir’ procurar serviço na rua, pela rua’, que eles trabalham na rua também, podando planta. É um serviço muito arriscado, trabalhando de facão em cima da plantação, e também ‘abuso’ na rua, que eu queria que todos trabalhassem dentro de nossa área indígena, porque eu ‘tô vendo eles’ toda hora. Eu sou muito preocupada com meu povo.

Quando ‘chega de sete horas’ eu quero ver todo mundo dentro de nossa aldeia, porque para mim todo mal acontece com eles; festa na rua eu não aceito eles frequentar A nossa festa é o nosso Toré, que é o nosso ritual, que dá a nossa força e a nossa fé. É o que Deus deixou, e nossos antepassados. Então ‘não tem precisão de ir’ em outras festas e se misturar com os não índios, para não perder a vida, não perder sua moral.

Assim mesmo eu me considero uma mulher muito discriminada. O meu documento, em 2004-2005, foi rasgado dentro da Funai. E ‘nós foi que teve’ que pagar por tudo isso que ele tinha feito ‘com nós’, porque quem viu ele rasgando meu documento e querendo me bater, puxando minha blusa, ‘jogando eu praqui, jogando eu pracolá’, não pode falar por nós porque tinha medo de perder os empregos dele. E aí eu passei por isso e é um ‘causo’ que eu nunca esqueço, não vou esquecer. Não sou de guardar mágoa, nem ódio, mas sempre quando eu lembro, quando eu acordo, minhas lágrimas descem.

Quando eu era pequena minha mãe dizia: ‘meus filhos, eu vou trabalhar e vou deixar os documentos aqui guardados’. E aí pegava e colocava em cima das palhas; assim, entre as palhas, que a casa era de palha; porque nem pode tocar fogo nos documentos e nem rasgar porque a polícia prende. E hoje eu [me] acho discriminada por isso, pelo conselho que minha mãe deixou. Eu achei que não ia ficar por isso, pelos meus documentos. E o documento é uma declaração que veio dos Truká, com nosso nome e o nome de nosso órgão federal, a Funai, e nossas lideranças Truká de Pernambuco.

E acho que quando for o tempo de Deus me levar, essa mágoa eu levo. Eu tenho certeza, não sou de guardar raiva, nem rancor, nem ódio, mas sobre o meu documento, dentro da Funai, rasgado, eu sei que nunca vou esquecer. Até meu espírito, quando eu passar desse mundo para o outro, se eu mudar de nossa terra, vou ficar aliviada.

Porque um documento é um documento. A gente tem que ter muito cuidado. E sobre a Funasa também; outro dia eu pedi ao segundo administrador de transporte de carro para falar com um procurador, e ele me gritou que não ia me mandar o carro, eu tinha que dizer ‘pra’ onde eu ia, e me chamou de ‘cabeça de cuscuz’. ‘Cabeça de cuscuz’ acho que é uma discriminação, uma humilhação, falta de respeito e falta de educação, porque eu não tenho leitura, sou uma pessoa que a leitura que Deus me deu só foi o  o meu Toré, minhas matas, que eu gosto das matas, as pedreiras, o rio… é a minha leitura… e ainda sou mais feliz porque eu fico triste do outro lado que eu digo: ‘meu Deus, que eu não aprendi tanto a ler, não sei escrever, mas assim mesmo eu fico alegre o conformada, porque Deus deixou para mim isso’.

A gente só deve aceitar o que Deus deixou ‘pra’ nós. Mas tem as nossas matas, o nosso rio, a nossa Mãe Terra, a pisada do nosso Toré… foi o que Ele deixou ‘pra’ mim e tenho que ficar satisfeita com o que Ele me deixou. E a nossa vida aqui é muito sofrida porque quando nós chegamos aqui o fazendeiro falou uma coisa e foi outra; depois falou que queria ‘tirar nós’; aqui não é retomada, foi combinação com ele, documento passado, que ele passou documento para mim. Depois que nós viemos ‘pra aqui’, de um lado é bom, porque os bandidos não ‘vem’ mexer com nós, mas sobre alimento, sobre nossa plantação que ‘nós planta’, ‘nós ara’ a terra no maior sacrifício, trabalhando fora ‘pra’ arar a terra e deixar de se alimentar, nós cansa, só que ‘nós não esmorece nem perde a fé’, mas nossa plantação morre. E o que ‘nós planta nós não quer’ que morra, ‘nós quer’ que tenha vida, ‘pra’ dar vida a nós, nosso alimento. E é uma tristeza, que até ontem, na data de sexta-feira, eu fiquei o dia todinho desesperada, eu fiquei com dor de cabeça. Eu olhava para a plantação e ‘ver’ todas morrendo sem eu poder fazer nada. Eles desligam a bomba, não sei se o fazendeiro ou a Coelba… um povo desse não ama nem a Deus, porque sabe que ‘nós está passando’ fome, sem tomar banho, sem lavar roupa, nossa plantação morrendo, perto do São Francisco, perto de Paulo Afonso, e não tem água. Nessa aldeia são 26 pessoas e estamos esperando chegar mais. Somos parentes dos Truká de Cabrobó de Pernambuco.

TRAVESSIA DO CANYON

Visita à barragem de Paulo Afonso IV

Na divisa de Alagoas e Bahia, na entrada de Paulo Afonso, existe uma grande ponte de ferro, Dom Pedro I, de oitenta metros de altura, sobre o canyon do São Francisco, um pouco antes da barragem.

É uma visão magnífica de suas águas cor de esmeralda, fluindo pela base das paredes de rocha, passando sob essa ponte belíssima!

Saí do hotel às 14h00 e caminhei até a metade da  ponte sobre a prainha, cujas amuradas estão cobertas de azaleias e de outro arbusto de flores amarelas.

Nesse ponto, um motoqueiro parou e me ofereceu carona até o outro lado da ponte; aceitei, pois o sol estava muito quente e não passava nenhum ônibus.

Ele me disse que eu não devia caminhar a pé pela cidade, pois havia muitos assaltantes e oportunistas. Deixou-me em um ponto de ônibus e sugeriu que eu conseguisse um mototáxi se quisesse chegar até a barragem, pois era muito distante daquele ponto.

Duas mulheres com uma criança de colo também me disseram que tomasse cuidado com minha máquina fotográfica. Diante dessas referências, parei um mototáxi que me levou até a ponte de ferro, mas não quis me esperar por ter medo de assalto. Deixou-me o telefone da central de mototáxi para pedir o retorno que ele me buscaria quando terminasse minhas fotos.

Desci uma longa escada de cimento até a base do canyon sob a belíssima visão da ponte; lá embaixo, um homem nadava perto das pedras, despreocupado. Ao me ver não se assustou; disse que eu poderia caminhar pelas pedras, ao longo do rio, até bem próximo da barragem. Foi o que eu fiz, e não me arrependi.

Consegui belas fotos e admirei cada centímetro daquela magnífica obra da Natureza, em contraste com a obra dos homens, uma muralha gigante e fantástica! Não há como não ficar extasiado com aquele espetáculo e imaginar os enormes esforços para a construção desse monumento de concreto, contornando as rochas.

Percebi, então, que o canyon é navegável desde o começo, mas não existe um local apropriado para descer a canoa até a base das paredes de pedra. Precisarei me informar onde existiria um local de mais fácil acesso, assim como um transporte adequado.

Quando subia o barranco, de volta à estrada, encontrei com Alzeni e Paulo, que se dirigiam a Delmiro Gouveia e me convidaram para acompanhá-los. Como não fui convidado antes, recusei a oferta. Depois eu me arrependi, pois lá fica a mais antiga hidrelétrica do país, Angiquinho, que hoje se transformou em museu.

Delmiro Gouveia foi um grande empreendedor, bem à frente de seu tempo, e deixou muitas obras inovadoras, como essa hidrelétrica, fábrica de tecidos e outras.

DE PIRANHAS A PIAÇABUÇU

Piranhas, 01/12/2009 – 22h22

Visita à Hidrelétrica de Paulo Afonso

A visita a Paulo Afonso foi fantástica! Conhecer as hidrelétricas, ver as cachoeiras mesmo vazias, ver de longe a antiga hidrelétrica de Delmiro Gouveia, Angiquinhos, presenciar aquele cenário que, um dia, foi livre das enormes paredes de concreto, nos faz pensar nos danos permanentes que causamos ao meio ambiente e que são irreversíveis…

Fui com a Alzeni, e caminhamos sem pressa por todas as instalações da CHESF, conhecendo cada detalhe, admirando o cuidado com a urbanização dos ambientes internos, procurando cada cenário mais adequado para as lentes de minha câmera.

É um espaço arborizado e com construções antigas e robustas. Não havia quase ninguém nas vias internas, exceto um guarda na portaria, que nos autorizou a entrada sem maiores exigências, e outro guarda próximo às amuradas das cachoeiras. Pouquíssimos visitantes, pois era segunda-feira.

Ao ver a cachoeira pela primeira vez tive uma decepção: um filete de água descia pelas paredes de pedra e escorria até o canyon, onde o nível de água também era bastante baixo. O bondinho que mostra uma visão panorâmica do canyon estava desativado devido a um acidente com a parede de pedras que o sustenta. Mesmo assim, fomos até o ponto de onde ele sai.

Também visitamos uma espécie de caverna, um respiradouro para o salão das máquinas da hidrelétrica. Um cenário interessante, mas nela havia um grupo de visitantes que não nos deixou ver direito seus detalhes. Só tirei umas duas fotos.

Pelo lado de fora das instalações da CHESF chegamos à beira do lago de retenção das águas da represa, com um belo jardim, muito bem cuidado, ponto de encontro das famílias nos finais de semana, e com muitos carrinhos de sanduíches e garapa.

Chegada a Piranhas

Ontem consegui transporte e levei a canoa para um lugar chamado Rio do Sal, onde existem dois catamarãs que fazem passeios pelos canyons do rio São Francisco. Coloquei o meu barco na água às 10h00, ajudado pelo motorista de uma “caravan” que me levou do hotel até lá, cerca de 20 km.

Os catamarãs seguem rio acima até bem próximo da barragem da hidrelétrica PA IV que eu visitara na véspera. Tive que seguir adiante depois daquele ponto, pois não daria para retornar remando contra a correnteza. Deve ser o trecho mais bonito.

Remei o dia todo e a parte inicial é muito bonita, com paredões de rocha confinando o rio de águas cor de esmeralda, até 80 metros de pedra bruta cercando o corredor. Mas, ao contrário do que imaginava, a correnteza é fraca e progredi lentamente durante todo dia. Ao final da tarde estava a menos de 30 km de Paulo Afonso e distante outros trinta de Canindé de São Francisco. As distâncias não combinavam com a expectativa.

O rio não é uma linha reta, mas uma sucessão de grandes curvas, alargando-se sempre até se tornar um gigante esparramado pelos vales do maciço inundado pela represa. O sol já se punha quando cheguei em um lugar enorme, com uma ilha redonda dividindo o rio e algumas casas incrustadas nos poucos vazios de rocha onde podiam se fixar.

Pensei em pedir um espaço para minha barraca, mas não havia. As casas estavam nos únicos espaços disponíveis. E nelas havia apenas mulheres e crianças indígenas, descendentes dos Pankararus, que deviam estar em suas canoas, pescando nas proximidades.

Ouvi uma música alta em um rancho atrás da ilha redonda: lá parecia haver espaço para acampar e segui em sua direção. Mas quando cheguei no meio do lago, além da correnteza em contrário, começou a chover e a ventar muito forte. Eu não conseguia ir adiante, pois vinham ondas de todas as direções, tentando me arremessar contra as margens, ou virar o barco.

Depois de muito esforço inútil, desisti e voltei com dificuldade. A progressão continuava lenta, mas eu precisava sair dali. Ao lado da ilha, próximo às casas indígenas, havia um grande recuo do rio em forma de enseada, bem tranquilo, e foi para lá que me dirigi. Ali também havia casas nas encostas íngremes, mas continuavam ocupando os únicos espaços disponíveis.

A noite já se aproximava e eu não conseguira abrigo. Dei a volta na enseada e só vi casas rústicas, muitas desocupadas, mas com objetos nas varandas e canoas ancoradas na frente. Pelo menos não havia ondas, e um resto de luminosidade me orientava a navegação. A paisagem era lindíssima!

Encostei a canoa em uma pedra e a fixei com elásticos. Resolvi passar a noite ali mesmo e me ajeitei como pude, deitando-me sobre a bagagem e me cobrindo com a rede e uma toalha. Nesse horário de lusco-fusco os insetos atacam às centenas e não há como evitá-los, pois eles nem se importam com os repelentes ou com o creme do bloqueador solar.

Eu me defendia com a toalha, desferindo golpes para todo lado, sem muita eficiência, pois sentia as picadas em minha pele. A lua iluminava o cenário e, aos poucos, os insetos se foram e fiquei em paz naquele refúgio improvisado. Só ouvia o marulhar das águas nas pedras, e sentia o balanço constante do barco. Acho que cochilei umas duas horas e acordei com a calmaria.

Decidi seguir adiante, contra o bom-senso e a razão. Minha intenção era amanhecer próximo à barragem e remar a noite inteira, quando o rio se acalma. A chuva tinha parado. No entanto, bastou eu sair daquele refúgio e retomar o caminho para o vento voltar mais furioso. Agora não dava para retornar…

Remei vigorosamente contra as ondas, tentando não ser arremessado contra as pedras ou para o meio do rio. O barco ziguezagueava como um doido! Bastava eu puxar o remo de um lado e ele virava bruscamente para o outro! Estava exausto e não conseguia sair daquela situação arriscada, até que vislumbrei uma reentrância na rocha; parecia segura.

Ao seu lado havia uma árvore espinhosa, com os galhos se debruçando sobre a água e abrandando as ondas. Joguei a canoa debaixo dela e me segurei nos galhos como pude. Foi uma boa opção; amarrei os elásticos em vários galhos e o bico da canoa se fixou em uma forquilha, dando certa estabilidade.

O conjunto balançava para todos os lados, fazendo um barulho desagradável e irritante, mas estava seguro. Arrumei as sacolas e me ajeitei de novo como pude, e cochilei por mais algum tempo. Havia relâmpagos no horizonte, mas a chuva se foi e o céu estava estrelado. Via a lua e a via láctea sobre mim.

Acordei com o silêncio. Tudo estava calmo e resolvi prosseguir mais uma vez. A canoa deslizava rápida e me empolguei com a velocidade que imprimia com meu remo! Nem percebi quando uma curva me colocou de volta. Sentia o remo duro na água, e olhei o GPS, desconfiado de que alguma coisa saíra de meu controle. Pensei que tinha pego um canal do rio. Ao ler o GPS ignorei uma informação importante porque não tinha as referências visuais. A remada se tornava cada vez mais difícil.

Depois de meia hora percebi que tinha retornado ao mesmo lugar: lá estava a ilha redonda e a enseada… uma frustração! Perdi uma hora de remo, mas resolvi prosseguir, desta vez com mais atenção e com o GPS sobre o meu joelho, seguindo a bússola e observando as paredes das rochas para encontrar algum padrão que me orientasse. Quando cheguei no ponto em que me perdera percebi o motivo: eu fixara uma referência nas rochas, uma grande mancha esbranquiçada e não vi que as paredes do canyon faziam suave curva à direita o tempo todo. Quando girei o barco para corrigir o rumo vi a passagem aberta em minha frente e segui em sua direção! Foi meu erro!

Remei por muito tempo e perdi a noção da hora. Pensei que logo amanheceria, pois o céu clareava no horizonte. Na verdade, não sei que clareira era aquela porque era apenas uma hora da manhã! O tempo realmente anda devagar no rio! Como já estava muito desgastado pelos enganos e pelo esforço de um dia longo e cansativo, encostei o barco para mais um descanso. Dessa vez não havia vento nem ondas; amarrei a canoa em uma pedra e dormi por três horas.

Acordei às quatro horas da manhã, agora com a claridade real do sol no horizonte. Remei das quatro até as nove horas. O sol estava forte e o rio se tornava um imenso lago de águas paradas, com ramificações em todas as direções. Cheguei a uma pequena praia. Parei o barco e tomei um delicioso banho!

Estava precisando disso para relaxar. A areia tinha umas partículas douradas em suspensão e brilhavam sob o sol. Peguei uma garrafa e coletei a água com a areia dourada.

Voltei a remar e o vento fustigava o barco com violência. Havia uma passagem estreita entre as paredes das montanhas e me dirigi para lá. O GPS apontava para a terra e imaginei que haveria uma curva do rio logo adiante, e que me levaria ao meu destino. Na pequena passagem havia uma casa que parecia um restaurante, vista de longe. Quando me aproximei vi que era uma residência bem estranha: uma varanda com móveis de quarto, inclusive uma cama, ficava com o piso no nível do rio.

Perguntei a um homem na casa se eu estava perto de Xingó e ele me confirmou: era só seguir sempre à direita, depois da passagem estreita. No final eu estaria na barragem!

Depois de muitas voltas a muralha da barragem apareceu à minha frente. Em uma das pontas, três enormes catamarãs estavam ancorados no cais do restaurante das Carrancas. Desembarquei e comi uma muqueca excelente, mas pesada.

Lá me informaram que eu deveria conseguir um transporte para Piranhas, pois seria difícil fazer a portagem a pé devido à altura dos barrancos e à distância por estrada. Havia uma escuna sendo construída à beira da barragem; lá eu encontraria uma pessoa que me levaria onde eu quisesse.

Fui para a casa de Willams, gerente de banco em Piranhas e amigo do Paulo e de Alzeni. Ele me esperava no portão, ajudou-me a guardar a canoa e logo me colocou à vontade em sua casa; deu-me um quarto com banheiro, disse-me que tudo era simples, mas que eu poderia ficar por lá o quanto eu quisesse, como se fosse minha casa.

Pão de Açúcar, 03/12/2009 – 17h05

Sul: 09º 44′ 38” – Oeste: 37º 30′ 04” – Altitude: 13 metros

Ontem pela manhã visitei a parte histórica de Piranhas, cidade das “volantes”, milícias que perseguiam o bando de Lampião, que acabou cercado na gruta de Angicos e foi morto com seus cangaceiros, ao lado de Maria Bonita, e decapitado.

Alguns casarões antigos, bem conservados, como a estação ferroviária, que hoje abriga o Museu do Sertão e a Secretaria de Turismo, a igreja matriz, o cemitério cercado bem no alto do morro, e quase todas as casas simples, caiadas ou pintada em cores vibrantes, tornam Piranhas uma cidade belíssima! A beira-rio, alguns restaurantes e quiosques lembram as cidades praianas do nordeste e mostram a paisagem magnífica de um rio acidentado e repleto de pedras e corredeiras.

Fui ao mirante, uma construção piramidal, de uns três metros de altura, onde se chega por uma escadaria caiada, com luminárias em globo, de algumas dezenas de degraus. De lá se contempla o rio a montante[1], a pequena praia e o rio a jusante[2]. Desse ponto percebe-se com clareza a grande concentração de pedras no leito do rio, que tem profundidade de mais de 80 metros! Também pode-se observar os telhados das casas, a sinuosidade das ruas contornando as encostas, e a pequena capela, construída em local oposto a esta colina.

Depois percorri a pequena cidade, visitei o largo da igreja matriz, que estava fechada, e ouvi um som de metais vindo de um conservatório musical. É a primeira manifestação cultural que percebo em toda extensão do rio… é lamentável a distância entre os grandes centros culturais do país e o sertão.

Em seguida subi as escadarias que davam na capelinha do morro; em certo patamar havia uma árvore retorcida e antiga, um umbuzeiro[3] muito bonito. De lá tirei algumas fotos da cidade. No alto, a capela estava fechada, mas pude contemplar a ponte que liga Piranhas a Canindé de São Francisco, em Sergipe. Dali não era visível a barragem de Xingó.

Ao descer as escadarias sentei-me em uma mesa de bar com vista para o rio São Francisco e pedi uma cerveja bem gelada, pois o calor era intenso e fiquei exposto ao sol por muitas horas. Pouco depois chegou um grupo de crianças acompanhadas de sua professora; montaram estantes de pintura e sentaram-se, desenhando a paisagem que percebiam de seu ponto de vista.

Fiquei emocionado com aquela segunda manifestação artística da cidade e não me contive; pedi autorização da professora e fotografei as crianças, as telas e o rio em perfeita harmonia… filmei um curto depoimento e fiquei apreciando a cena inesquecível por um tempo considerável, admirado das possibilidades humanas, desde que haja boa vontade, dedicação e amor. Isso não exige recursos substanciais…

Comi uma muqueca de surubim, peixe que não é muito apreciado pelos abastados em suas mesas, por viver na lama do fundo do rio, algo inaceitável pela “nobreza”. Eles têm a própria lama para se chafurdar! Estava uma delícia… eu havia comido este mesmo prato em São Francisco e no restaurante, logo que cheguei à barragem de Xingó.

À tarde visitei as instalações da hidrelétrica de Xingó; quem me acompanhou foi Lázaro, amigo de Willams. A usina produz cerca de três gigawatt de potência em seis turbinas, e tem tecnologia das mais avançadas do mundo. Existe a previsão de se construir mais quatro turbinas, elevando a produção para 5.5 gigawatt! Existem projetos de construção de outras hidrelétricas em Riacho Seco, próximo a Santa Maria da Boa Vista, e outra entre Orocó e Cabrobó, nas imediações da captação de águas do projeto de Transposição Eixo Norte. Também está prevista uma hidrelétrica próxima à cidade de Pão de Açúcar. Com tudo isso, o rio São Francisco ficará definitivamente encaixotado em celas de concreto!

O lago de Xingó, onde se localizam seus famosos canyons, pelos quais passei remando, tem profundidades de até 120 metros. Como ele é menos espalhado e mais profundo, dizem que causou menor impacto ambiental e sofre menos variações de extensão nas diferentes estações sazonais.

Saí de Piranhas pela manhã; quem me levou ao rio foi o próprio Willams, em uma caminhonete de um amigo dele. Fiquei muito grato a ele por tudo o que fez por mim, viabilizando meus planos para Xingó e tendo a oportunidade de conhecer essa bela cidadezinha histórica e hospitaleira. Se tivesse que escolher uma cidade para morar no São Francisco, Piranhas seria uma das mais cotadas! É um lugar muito bonito!

Passei um enorme sufoco ontem, durante boa parte do dia; primeiro foram as “panelas”, espalhadas por toda extensão do rio naquela região; depois, as “maretas” (ou “riolas”, como eu as chamo; se no mar são marolas, no rio deveriam ser riolas!). Além disso, o vento intenso e forte me fustigou durante horas. Mesmo assim cumpri meu objetivo de chegar a Pão de Açúcar. Na verdade, optei por parar em uma prainha, a primeira desocupada depois de Piranhas. Aqui existem muitas bombas de recalque para irrigação e, quando não são elas, são portos de ranchos ou os aguapés que impedem o acesso ao barranco.

Aqui montei meu acampamento, preparei um risoto de quinúa e dormi muito bem. A canoa está fazendo muita água e terei que substituir os remendos de silver tape, que cada vez duram menos tempo. Sorte estar no final da expedição… o buraco que fica na popa aumentou, captando a água que é arrastada pelo fundo do barco. A fenda se abriu, mas terá que aguentar até Piaçabuçu, mesmo que eu tenha que refazer os remendos com mais frequência ou esgotar a água a cada parada.


[1]    Montante: diz-se do trecho de rio acima do ponto de visão, em direção à nascente.

[2]    Jusante: diz-se do trecho de rio abaixo do ponto de visão, em direção à foz.

[3]    Umbuzeiro: árvore típica da caatinga, que pode sobreviver às mais severas estiagens, pois armazena água em suas raízes e produz um fruto saboroso e muito apreciado no nordeste.

Porto da Folha, 04/12/2010 – 17h56

Sul: 09º 53′ 31” – Oeste: 37º 14′ 19” –  Altitude: 11 metros

Fiz um reparo na canoa, substituindo os remendos anteriores, e perece que funcionou. Sempre entra água, seja pelo movimento do remo sobre o barco, alternando os braços, seja pelos respingos da “mareta” e das ondas, que agora são frequentes

Saí às 06h45 e foi tarde, pois sempre o vento começa a soprar lá pelas 10 horas, senão antes. Hoje não foi diferente e o rendimento acabou sendo péssimo! Parei às 16 horas, cansado, e tendo percorrido apenas 32 km. Tive que acampar em um pasto, perto de Porto da Folha, a 106 km de Piaçabuçu. Se eu seguisse adiante encontraria uma cadeia de montanhas e provavelmente nenhum lugar apropriado para montar a barraca.

Agora o vento é muito forte e tive que calçar as bases da barraca com pedras e com os sacos de bagagem. Não há previsão de chuvas e o céu está limpo, mas daqui para a frente o rio deverá ficar cada vez mais lento devido à pouca declividade e aos efeitos das marés e da invasão do mar.

Não dá para preparar o jantar com esse vendaval… o vento sopra sempre em direção contrária à correnteza, não importa o trecho do rio ou a direção para onde corre! Isso acontece desde a Bahia e gostaria de saber se há uma explicação científica. Mas estou tranquilo pois, na pior das hipóteses, chegarei à foz dia 8 de dezembro, com uma grande margem de segurança.

Pretendo deixar a canoa em Piaçabuçu. Não quero mais aborrecimentos… só voltar para casa e descansar muito! Depois veremos como resolver o problema do transporte.

Praia de Gararu, 05/12/2009 – 13h00

O pernoite no pasto na noite passada foi excelente! A noite estrelada, o barulho das águas do rio, um bom jantar que acabei fazendo… tudo perfeito! Acordei às 03h30 e foi nesse horário que preparei meu jantar. Ventou muito forte até as 2 horas e preferi não fazer comida enquanto não passasse esse vendaval, embora o fogareiro seja eficiente mesmo assim.

De fato, a lenda é verdadeira: o rio adormece à noite e tudo se acalma… se as águas param, eu não sei, mas o Velho Chico se transforma em uma extensa lagoa, plácida e tranquila..

Comecei a remar às 05h30 e parecia que hoje renderia bastante. Durante cinco horas foi mesmo assim e avancei até aqui, quando então a ventania voltou. Olhei para Sergipe e vi esta praia lindíssima, certamente a mais bela praia fluvial do rio São Francisco! Não resisti e parei bem próximo de um grande quiosque de madeira e palhas de coqueiro. Montei minha rede e retirei o barco do rio. Pronto! Decidi “gazetear” e aproveitar um dia inteiro sem fazer nada, apenas ouvindo o barulho das águas e curtindo esse sossego e a beleza do lugar: a esmeralda líquida, a areia fina e clara em uma extensa praia deserta.

Depois de algum tempo, a uns cem metros daqui, um grupo de pessoas foi chegando e ocupando outros quiosques, onde havia um bar. Cantavam e brincavam alegremente, curtindo o dia. Até uma briga de bêbados eu presenciei quando fui buscar umas cervejas no bar. Um deles estava tão embriagado que não conseguia se manter de pé; e mesmo assim queria brigar!

Passei o dia todo na rede, tomando cerveja e apreciando a paisagem. É curioso que uma praia tão próxima da cidade de Gararu tenha tão poucos visitantes… diversão gratuita… a praia fica isolada da estrada por um matagal espinhento e uns brejos.

Hoje não precisarei montar barraca e dormirei na rede. Na verdade, nem precisaria dormir, pois não fiz nada o dia inteiro!

FOZ DO SÃO FRANCISCO

Missão Cumprida!

A sensação de terminar um projeto tão longo, com tantas e diferentes dificuldades, sem patrocínio e apoio oficial de nenhuma organização, desconhecido pela grande mídia, é indescritível! Consegui vencer por meu próprio mérito e pelo apoio conquistado pelo caminho…

Os três últimos dias foram particularmente difíceis… depois que deixei aquela linda praia de Gararu segui em direção a Porto Real do Colégio e Propriá. Saí de madrugada, ainda noite, para evitar os fortes ventos e a agitação do rio, cada dia mais intensos.

O rio estava plácido, dormindo, como diz a lenda, e o barco deslizava rápido por aquele lago noturno. Logo passei por Traipu… fiz umas fotos sem graça e segui adiante. O que mudou muito na paisagem, desde Xingó, é que agora as ilhas eram pequenas, baixas e cobertas por uma densa vegetação aquática, arbustos verdes…

O rio voltou a ser largo, mas a água continuava límpida e verde esmeralda. No entanto, essa vegetação aquática, muitas vezes submersa e formada por algas longas, quando exposta ao sol apresenta cheiro desagradável.

Quando me aproximei de Porto Real do Colégio ouvi fogos e muita música, embarcações com grandes velas coloridas e “gaiolas” de todos os tamanhos. O barco da “família real”[1] já havia passado por mim e quase me afundara na noite anterior. Por isso, fiquei atento, tentando evitar as fortes ondas que eles fazem ao passar. Havia uma grande estátua no meio do rio e parei de remar para fotografá-la; isso me custou caro, pois as ondas eram fortes, e tive que fazer manobras rápidas para evitar ser apanhado por elas…

Não consegui parar na cidade, nem atravessar até Propriá, porque a algazarra era demais para meus hábitos solitários e o rio estava violento. Pouco antes da grande ponte da BR 101 parei sob umas árvores para descansar. Amarrei o barco como pude e fiquei apreciando o vai-e-vem de barcos, alguns rápidos e movidos a vela, outros lentos, com motor de rabeta, rangendo e lutando contra a correnteza e as ondas.

Fiquei algumas horas parado, analisando as alternativas: por baixo da ponte, a densa vegetação e inúmeras ilhas não me permitiam compreender o caminho; pensei em passar a noite ali, pois o barco estava estabilizado e era um local tranquilo e protegido.

Porém, na ânsia de prosseguir e chegar o mais breve possível até o final, decidi arriscar a sorte e prosseguir. Eram 12 horas. Uma hora e meia depois, lutando contra as águas raivosas do rio, sendo jogado ora para um lado, ora para outro, fazendo manobras bruscas para evitar que o barco girasse sobre si mesmo e eu perdesse o controle, usando todas as minhas forças inutilmente, eu andara menos de dois quilômetros e apenas passara por baixo da ponte… os sons da cidade ainda eram fortes.

Tentei encostar em um barranco e acampar, mesmo em um pasto, mas a canoa batia na lama do barranco sem vegetação e as formigas me devoravam enquanto eu tentava encontrar um meio de retirar as tralhas. Depois de algumas tentativas frustradas, desisti e voltei para a tormenta. Lembrava-me do filme “Mar em Fúria”… esse era o meu “rio em fúria”, mantidas as proporções… meu barquinho, uma “casca de noz”, era jogado sem piedade!

Progredia de forma insignificante, mas precisava encontrar algum lugar protegido no meio daquela barreira de terra destruída. Uns 200 metros adiante vi uma pequena moita de calumbi e capim, e me apeguei a essa possibilidade. Remava com todas as minhas forças e, alguns minutos depois, joguei o barco de lado, forçando-o contra o capim e lá me refugiei, apesar dos espinhos e insetos.

Era evidente a ação protetora daquela simples vegetação para o barranco! As ondas e a correnteza eram domados por uma pequena moita de arbustos… mas os estúpidos fazendeiros continuam a devastar até o último pé de capim, mesmo que o rio venha a cobrar o seu tributo, levando as terras para dentro de seu leito e retirando o medíocre ganho de espaço conquistado pela ganância desses homens.

Amarrei precariamente o barco e me ajeitei como pude no pequeno espaço interno. Sabia que a espera seria longa e cansativa, pois o rio só adormece depois da meia-noite. E ainda teria que esperar pela luz da lua, cada vez mais tardia… já era quarto-minguante e sua tênue luminosidade ainda permitia navegar.

Saí de lá às duas horas da madrugada, sem dormir, sem comer e picado pelos insetos, com o corpo dolorido da incômoda posição. O rio voltara a ser calmo e meu barco parecia um caiaque, deslizando célere pela lagoa encantada em que se transformara o “Velho Chico”.

Remei intensamente, cada vez mais motivado pela possibilidade de encerrar a expedição. Mas o céu se cobria de pesadas nuvens e a visão do rio era precária. Felizmente, não havia nenhuma outra embarcação com a qual eu pudesse me chocar inadvertidamente. Éramos apena eu, quebrando a magia do lago e o silêncio do caminho, com minhas remadas compassadas e firmes…

De repente, começou a chover. Olhei para o céu e era todo nuvens, densas e carregadas. Tive receio de uma tempestade: vento e chuva seriam os ingredientes ideais de uma tragédia, pois ali, a mata era um só manto negro nas margens do rio…

Felizmente, a chuva cessou tão rápido quanto viera, e eu continuava remando com todas as forças. Pela manhã, ao nascer do sol, eu já estava em Penedo, uma cidade curiosa, protegida por uma espécie de enseada longa e curva, que me obrigara a atravessar para a margem direita, contornar o “istmo” e retornar à margem esquerda. A escuridão fazia tudo parecer misterioso… via imagens e as interpretava conforme meu sentimento, às vezes imaginando cenas inexistentes, outras valorizando detalhes insignificantes…

Havia algum movimento de barcos de pescadores e uma balsa, que levava carros, pessoas e mercadorias para o outro lado, onde também havia um povoado. Luzes coloridas, piscando intermitentemente, e música indicavam o final de uma festa, talvez a mesma que agitava Porto Real e Propriá…

Pensei em talvez encontrar algum bar ou quiosque ainda aberto, com aqueles bebedores renitentes, onde poderia encontrar comida… talvez até uma padaria, pois a fome estava me alertando sobre o vazio em meu estômago. Mas não havia nada! O som ecoava no vazio da noite e decidi parar o barco ao lado da balsa, sob um poste iluminado. Tomei dois goles de mel; era o que estava à mão naquele momento.

Um pescador se aproximou e “puxou conversa”. Perguntou de onde eu vinha, de que era feito meu barco e coisas assim… e se eu achara os ventos fortes até então, é porque não conhecia o que haveria adiante! É que a proximidade do mar agora influenciava o rio e, na maré enchente, ele avançava por quilômetros, criando ondas mais fortes e mais altas, além do vento incessante.

Eram seis horas da manhã quando saí de Penedo. Já ventava um pouco e havia uma sucessão de ondas vindo em minha direção, mas eu progredia bem e não me importei com o esforço extra.

Às sete horas encontrei uma região belíssima – acho que o nome é “Marituba” – com ilhas e margens cobertas de rica vegetação. Pela primeira vez desde Paulo Afonso eu voltava a ver e ouvir os pássaros! A água parou e as ondas desapareceram, como por encanto. Pois era assim que eu me sentia, encantado com aquele paraíso; reduzi a marcha e comecei a passear pelo rio, pura meditação em movimento… era como uma espiral, girando sobre si mesma, e escolhi o caminho mais longo para apreciar essa maravilha!

Alguns pescadores jogavam suas tarrafas e os peixes saltavam ao meu redor. Mas, aos poucos, percebi que boa parte daquele lugar já havia sido profanada! Nas ilhas, por detrás das matas, plantações de coqueiros; nas margens, depois da estreita vegetação, o gado tomava conta de tudo!

Sentia o cheiro de mata queimada e molhada pela chuva e, logo depois, uma grande extensão de terra desolada pelo fogo recente, os troncos enegrecidos e retorcidos, à margem do rio… o encanto se quebrou… ainda vi algumas belezas, como um trecho de areia branca, quase à superfície da água; depois uma enorme vegetação de algas submersas, balançando-se ao movimento do rio… e mais nada!

Voltei ao rio, normal e agitado pelos ventos. A chuva também voltou e temia não conseguir chegar a Piaçabuçu antes do vendaval. Já passava das nove horas e teria ainda cerca de 15 quilômetros pela frente, pelas marcações do GPS. O vento aumentou depressa e resolvi parar, pois estava exausto! Encostei sob umas árvores e fixei a canoa. Desci e limpei o lugar, pensando na possibilidade de pernoitar ali. Pelo menos não havia formigas, e tinha até uma minúscula praia para eu tomar um banho. Mas não tinha espaço para armar a barraca e teria que dormir no barco pela segunda noite consecutiva; isso me incomodava…

Aproveitei para colocar tudo em ordem: pendurei a toalha e a rede, tirei a água do barco, tomei banho e falei com minhas filhas, dizendo que poderia me atrasar bastante. Muitos barcos passavam por mim e confesso que tive muita vontade de “pegar carona” e chegar logo ao meu destino…

Segui adiante uma hora mais tarde, quando o vento diminuiu de intensidade. Estava perto de Brejo Grande, a última cidade de Sergipe antes da foz. Mas tive que parar novamente, pois voltou a ameaçar chuva e o vento aumentou bruscamente. Encontrei um abrigo e cobri a canoa com a lona do acampamento. Preparei um leite com chocolate e estava já decidido a ficar por ali mesmo.

Mas depois de algum tempo, perto do meio-dia, resolvi retomar a viagem. Lembrei-me das marés e pensei que, agora, na vazante, elas poderiam me ajudar, puxando o barco com a água do rio em direção ao mar. De fato, apesar do vento e de algumas ondas, o barco voltou a progredir e andar rápido. Era curiosa a ilusão óptica: remando contra as ondas, o rio parecia subir uma leve ladeira! Havia muitos aguapés nas margens.

Passei por um lugar apelidado de “Penedinho”, uma espécie de clube de campo com várias casas, muitos barcos e até “jet-ski”! As propriedades colocaram cercas de arame farpado dentro do rio, impedindo os barcos de atracar! Um absurdo inaceitável! O rio é de todos, uma concessão de uso! No dia anterior eu tinha sido atacado por dois “hotweiller” em uma propriedade dessas, casa de luxo. Agora me mantinha distante das margens, por precaução…

Avistei Piaçabuçu às 13 horas. Bem antes de chegar à cidade, uma longa sucessão de barcos evidenciava uma vila de pescadores. O rio voltou a se agitar, mas agora, com essa visão de “fita de chegada” nada mais me seguraria! Remei intensamente, não me importando com as ondas que faziam a popa do barco se levantar e bater com força nas águas… até gostava desse barulho!

Cheguei a Piaçabuçu e observei o portal à frente, onde se descortinaria o mar… estava, finalmente, no final de minha jornada! Consegui vencer! Uma sensação indescritível!

Parei para me orientar e um pescador me informou que havia uma pousada logo à frente. Segui margeando a orla, que se contorcia à esquerda, alargando o rio antes de se lançar no oceano.

Muitos barquinhos coloridos estavam ancorados na baía, à frente de uma parede de contenção. Logo avistei a pousada e, finalmente, ancorei. Podia comemorar!

Estava completada a expedição que durou 99 dias de atividades intensas, três meses parado em Três Marias, cinco meses de planejamento, uma despesa enorme que consumiu todos os meus recursos e muito mais, e um ano inteiro dedicado ao rio que deveria ser tratado com dignidade, motivo de orgulho de todos os brasileiros.

No entanto, o sentimento que me resta é uma tristeza enorme pelo descaso do poder público em todas as suas esferas, a ignorância no trato com a Natureza pelos fazendeiros e pequenos agricultores, a falta de planejamento para a revitalização da bacia do São Francisco, e o alarde de uma grande obra que, ao invés de atender às carências dos ribeirinhos, levará as águas do Velho Chico para outras bacias do Nordeste, para as grandes cidades, para a agroindústria, mas não para a população rural, de 12 milhões de pessoas, que continuará dependendo dos carros-pipa para poder sobreviver.

A transposição não resolverá os problemas do semiárido porque quem a projetou desconhece os problemas do Sertão, como vive esse povo, do que ele, de fato, necessita para recuperar esse atraso tecnológico e cultural em que se encontra. Não apenas a seca.

A sensação que eu tive ao visitar a maioria das comunidades, principalmente do oeste baiano, é de uma volta ao passado, cinquenta anos atrás, na época da minha infância. Casas de taipa, carros de boi, nenhuma oferta de cultura, economia de escambo ou predatória, pessoas sem perspectivas ou ambição, desemprego, intensos conflitos de terra, exploração da ignorância pelos apelos da fé e das promessas de políticos corruptos, cidades que não tem receita para reverter esse quadro lastimável!

Com a falta de oportunidades e de emprego, os poucos filhos dessa terra que saem para estudar e conseguem uma formação superior abandonam seu lar ancestral e seguem para os grandes centros urbanos.

Centenas de minúsculas comunidades vivem nesse espaço sem perspectivas, e sua única ambição é um pouco de água, um pedaço de chão e condições de cultivar seus alimentos e cuidar da criação. Rezam para que a chuva chegue a tempo de molhar sua plantação para que possam alimentar sua prole que, não raro, se compõe de seis, oito, dez filhos, uma pequena criação de cabras, algumas galinhas, uns poucos porcos, uma ou duas vacas, todos criados soltos, partilhando de sua vida camponesa.

As “ONGs” que aqui atuam incendeiam esse cadinho de tensões sociais, que derrama sua lava nas lutas pela terra, sua ocupação e posse definitiva, conquistada, às vezes, sem eliminar os conflitos.

Algumas comunidades afirmam ser quilombolas ou indígenas para agilizar a pesada e ineficiente máquina federal, ainda que suas feições sejam as mesmas de todo povo sertanejo, e quase todos tenham perdido a memória de seus antepassados, sua língua ancestral, seus costumes, suas crenças, sua história, enfim.

A quem interessa essa pobreza imensa? Às igrejas de todos os cultos, que asseguram seus “rebanhos”, aos políticos de todos os matizes, que a transforma em mote eleitoreiro na sucessão dos anos, aos movimentos sociais e às “ongs”, que delas, as pessoas, fazem sua bandeira e sua luta. E, com isso, o semiárido, verdadeira nação são-franciscana, se esfacela em um misto de fé inabalável e em sua única expectativa de redenção, depois desta vida…

E, com isso, o rio caminha para a sua própria morte, das águas, dos povos, dos animais e da vida em todas as suas manifestações naturais e selvagens. O que será desse povo quando o rio não for mais capaz de se sustentar e mergulhar na entropia irreversível da autodestruição?

Talvez a culpa seja atribuída ao passado, mas é no presente  que agem, intensas, essas forças da destruição. E assim como os demais biomas nacionais, vamos dizimando a Natureza, consumindo as riquezas de nossa redenção.

Somos o país mais rico do mundo em biodiversidades, em hidrologia, em miscigenação racial, em sincretismo religioso… mas não somos capazes de preservá-los e de utilizá-los como alavanca de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, sem demagogias ou mentiras.

Ainda assim, depois de transformar o meu Velho Chico em minha morada e paixão por tanto tempo, posso afirmar que esta foi a maior e mais intensa experiência de minha vida, em aprendizado, em transformações intelectuais, pessoais e definitivas.

Se saberei convertê-las em um produto cultural, se minhas palavras se converterão em um livro, se esse livro influenciará pessoas e influirá em outros destinos, só o futuro me responderá.

Mesmo que nada mais aconteça, eu me transformei, perdi minhas poucas vaidades, fiz dessa expedição um processo peregrino e missionário, e influenciei meu futuro e meu destino. E posso afirmar que valeu a pena!

Faria tudo de novo?

Certamente, não! Porque assim como as águas que nascem da Canastra nunca são as mesmas, ainda que voltasse a cada uma dessas localidades por onde passei, e percorresse os mesmos caminhos, meus olhos já não seriam os mesmos e contemplariam tudo de modo diferente, mais amadurecido, talvez, menos extasiados, certamente, mas com outros sentimentos, diferentes até na perplexidade e no encantamento que só existem no primeiro encontro.

Sou, portanto, mais uma vítima desse rio, um apaixonado que vê a sua amada sendo estuprada pela ganância e pelos interesses mesquinhos e imediatistas que a levarão à morte inevitável e cruel…


[1]    Um descendente da família real percorreu o São Francisco, da foz até Piranhas, AL, para comemorar a passagerm de Dom Pedro II pelo rio há cerca de 150 anos. Um barco (“Tupigy”) foi construído especialmente para essa finalidade

ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕES

O Retorno

Voltar de uma expedição tão longa, depois de ter dedicado um ano de minha vida à causa preservacionista não foi fácil… minha vida ficou condicionada aos movimentos do rio, ao seu ritmo e pulsação, aos costumes e hábitos desse povo que se tornou o meu povo por todo esse tempo, aos pássaros e outros animais que me fizeram companhia pelos intermináveis caminhos do rio.

De repente, acordamos e nos damos conta de que acabou… um vazio profundo toma conta de nosso ser e entala na garganta um sentimento de perda, como se não tivéssemos para onde ir. A saudade da família se confunde com a saudade do rio, daquela rotina que criamos para sobreviver, dos amigos…

Por algum tempo estamos em território alheio, no estrangeiro de nosso eu mais profundo… as cenas do rio ainda passam pela nossa mente, como em um sonho… onde está minha canoa? Para onde irei hoje? Estamos sem destino…

Eu tinha receio desse dia, pois nunca nos preparamos para o fim; terminar um ciclo é como matar um sentimento; mais ainda, é como perder a própria vida! Sentei-me nas areias daquele deserto d’alma e me contemplei mirando o Infinito.

Meu horizonte se despiu do entardecer… as cores esmaeceram no céu de minh’alma e deixaram um vazio intransponível… estou só com minhas indagações! Quem me socorrerá agora?

No rio estava protegido pelo meu barco, pelas margens, pelos pássaros… mas agora não tenho a quem recorrer e isso me deixa triste, contemplativo e sem um propósito definido, senão o de voltar para casa, contar minhas histórias, escrever, recordar.

Mas recordar não é viver! É apenas assistir, passivamente, às cenas do passado, observar a vida passada, os acontecimentos mais expressivos que transformaram nosso futuro… acabou!

Mesmo assim, restaram meus sonhos, minhas verdades, meu novo ser com o qual ainda não me acostumei completamente… e isso me consola e me reconduz à consciência…

O Brasil que “não está no Gibi”

Passei o ano comprometido com meu projeto de expedição pelo rio São Francisco e conheci o mais paradoxal exemplo de anacronismo político de um Brasil que pouca gente conhece e muitos pensam que morreu ou ficou no passado… pois existe, e ainda reflete as mais sórdidas realidades de nossa formação política, econômica e social: o país dos coronéis!

No oeste baiano, uma imensa população de deserdados é submetida, nos dias de hoje, às humilhações e à prepotência de um poder obscuro e, no entanto, real e cruel: grandes propriedades rurais, verdadeiros latifúndios, fazem valer sua vontade sobre pequenos agricultores, submetendo-os ao terror das armas, mantendo-os como testemunhos de uma história que gostaríamos de esquecer.

Visitei muitas dessas comunidades, onde a criação de cabras, porcos, galinhas e até algumas cabeças de gado é mantida solta, nas terras comunitárias, junto com os humanos… esses animais compartilham os mesmos espaços das crianças e dos adultos; as construções ainda são de taipa, e o besouro transmissor da doença de Chagas permanece ativo, fazendo novas vítimas… as oportunidades de trabalho são escassas e se resumem ao extrativismo (pescadores, carvoeiros, garimpeiros), às pequenas lavouras de lameiro, ao escambo e a um comércio regional incipiente e insignificante, que não permite que essas populações saiam da miséria econômica e, sobretudo, cultural. Para agravar ainda mais a situação, as famílias são imensas, com seis, oito, dez, doze filhos, pois a única distração das pessoas é procriar!

É como se voltássemos o relógio do tempo e mergulhássemos no mundo de nossos avós, onde o conforto era um luxo permitido a poucos, a segurança não existia e o futuro era incerto, às vezes até improvável… carros de tração animal, ruas sem calçamento, esgoto escorrendo pelas beiradas das casas, crianças mal nutridas perambulando suas enormes barrigas pela comunidade, lixo jogado a céu aberto, apodrecendo, e o grande paradoxo das antenas parabólicas, desfilando um mundo de fantasias que as pessoas só conhecem pela telinha…

Nenhuma cidade ribeirinha que eu visitei possui cinema; o circo mambembe passa por lá, levando espetáculos tão anacrônicos quanto os carros de boi rangendo pelas ruas, teatro é uma ilusão inacessível, e as igrejas evangélicas, pentecostais e católicas fazem a vida se resumir à esperança de que, ao menos depois da morte, haveria justiça e se tornam a única razão de continuar a viver. Para compensar tanta desgraça, somente a cachaça que corre solta por todo lado, alimentando o crime, a solidão e o desespero inconsolável…

O coronelato domina o poder, mais forte do que aquele constituído e legal, de urnas eletrônicas e falta de consciência política, que elegem aqueles que mais entregam parcas e modestas benesses às vésperas das eleições. O sindicalismo é forte, mas apenas como outra faceta do mesmo grupo dominante, pois suas lideranças se contrapõem aos coronéis apenas para legalizar essa situação absurda e onírica! A eles também interessa preservar a miséria, sua principal matéria-prima de perpetuação nesse poder secundário dos protestos inúteis.

Crimes ocorrem aos montões: políticos, passionais, de vingança ou de “acerto de contas”, de afirmação do machismo dominante, ou simplesmente devido ao excesso de álcool ou de drogas, que correm soltas por todas as partes. As histórias desses crimes “divertem” os mais velhos, que relembram as façanhas de seus antepassados, seja para conquista da terra, seja nas demonstrações de sua vontade e de poder.

Esse Brasil está lá, no nordeste, no oeste baiano, incentivado pela ausência das políticas nacionais, a quem interessa preservar esses currais eleitorais que jamais se extinguirão, mesmo com urnas eletrônicas e sistemas sofisticados de reconhecimento ergométrico de eleitores, pois não é o modo de votar que determina a validade e a representatividade popular, e sim a consciência política e a autonomia econômica e social.

Essas não existem na caatinga, e jamais existirão, enquanto a decisão dos investimentos privilegiar o agronegócio, que chega e se instala aos poucos, excluindo os pequenos e metamorfoseando as paisagens do sertão através das “plantations” contemporâneas que ocupam as novas fronteiras agrícolas nacionais de modo irreversível.

Dizem que o agronegócio levou modernidade e riqueza às terras antes ressequidas e agora férteis do sertão. É verdade. Basta olhar para Petrolina e constatar a pujança dessa nova cidade que emergiu do semiárido nos últimos vinte anos: a estrutura urbana se transformou, edifícios se ergueram com as mesmas linhas das grandes cidades, estradas bem construídas surgiram por todo lado, universidades e centros de pesquisa foram construídos.

Mas não é preciso andar muito para constatar que existe um tênue manto de prosperidade no entorno dessa bela cidade; logo aparece de novo a miséria, a falta de água, a fome, a ausência de oportunidades, pois para os pobres quase nada mudou. O sertão continua lá; as águas do rio São Francisco não chegam às casas dos pobres que habitam as áreas rurais, que ainda dependem exclusivamente das parcas chuvas de “inverno” e da boa vontade dos políticos que manejam a distribuição de água pelos carros-pipa, moeda de troca dos favores…

O Brasil que não está no gibi também não está na consciência da população privilegiada do sul e sudeste maravilha, do centro-oeste do agronegócio, do centro de poder brasiliense, repleto de escândalos e pobre de criatividade para a solução dos gravíssimos e crônicos problemas de distribuição de renda nacionais…

Até quando? Provavelmente, até que essa panela de pressão venha a explodir, o que é improvável, mesmo com tamanha miséria, pois as igrejas fazem com competência o seu papel apaziguador de consciências, solapando qualquer iniciativa de rebeldia desses novos escravos de consciência da era contemporânea!

O PROTOCOLO DO SÃO FRANCISCO

Um manifesto em defesa do Velho Chico

http://www.ipetitions.com/petition/velhochico/

O aquecimento global, os desmatamentos, a ocupação agrícola descontrolada, a exploração intensiva do solo, a poluição provocada por esgotos domésticos e industriais, a mineração e o garimpo, o uso de defensivos agrícolas cada vez mais potentes e a construção de barragens provocam desequilíbrios ambientais irreversíveis e, principalmente, a redução assustadora das reservas de água potável em todo mundo, sinalizando um futuro assustador para a humanidade.

O Brasil é um país privilegiado pelos seus recursos naturais, principalmente hídricos, os maiores do mundo. No entanto, todos esses fatores mencionados vêm causando degradação acelerada de nossas reservas naturais, aproximando-nos, perigosamente, dos limites suportáveis e reversíveis de exploração.

Por outro lado, os conflitos internacionais pela posse desses recursos sinalizam riscos cada vez maiores à nossa soberania e sobrevivência, na medida em que não somos capazes de administrá-los e protegê-los.

A bacia do São Francisco é um complexo hídrico e ecológico singular, uma vez que totalmente inserida em nossas fronteiras, com grande extensão navegável, quase uma centena de afluentes permanentes, quinze milhões de habitantes ribeirinhos e enorme extensão de terras banhadas por suas águas, e delas dependentes para seu cultivo e sobrevivência.

Nesse contexto, conclamamos governadores, prefeitos e vereadores das regiões abrangidas pela bacia do São Francisco a assegurarem, em seus planos de metas e de compromissos com a população, o planejamento e a execução de ações de preservação ambiental e de recuperação do meio ambiente e das águas do rio São Francisco, seus afluentes e seu entorno, prioritariamente a obras de transposição ou de irrigação, compreendendo:

·Tratamento de esgotos domésticos, industriais e agrícolas, antes de serem lançados aos rios;

·Recuperação da mata ciliar, principalmente nas cabeceiras dos rios e em suas confluências; vale lembrar que a extensão das matas ciliares deve ser, por lei, igual ou maior que a largura dos rios em cada uma de suas margens e, no mínimo, de 30 metros;

·Incentivos fiscais a empresas não poluentes (indústrias, agricultura, pecuária) ou aquelas que se comprometam com prazos razoáveis em não mais poluir e a recuperar as áreas em que provocaram degradação;

·Disciplinas escolares em todos os níveis abordando a preservação do meio ambiente, recuperação da memória histórica e cultural, ênfase nos aspectos mais relevantes da importância do rio São Francisco, com o objetivo de se criar uma consciência ambiental sólida e consistente nas futuras gerações;

·Estabelecimento de metas de curto, médio e longo prazo para compatibilizar as atividades das empresas privadas e do setor público dos governos federal, estaduais e municipais com os objetivos propostos neste documento;

·Criação de um prêmio anual de incentivo a ações preservacionistas relevantes, com apoio de governos estaduais, municipais e federal e patrocinado por grandes empresas, de expressão nacional;

·Desenvolvimento de campanhas de conscientização e criação da semana anual de preservação da bacia do São Francisco.

Na passagem pelas cidades ribeirinhas, pretendemos apresentar este protocolo aos prefeitos e vereadores, buscando obter apoio político, formalizado através de assinatura eletrônica neste documento.

Em cada localidade em que passamos foram oferecidas palestras de conscientização aos estudantes e professores da rede pública, através das quais foram expostos os princípios do Protocolo do São Francisco, convidando-os a assiná-lo.

Infelizmente, tivemos muito pouco retorno desse trabalho e quase nenhuma assinatura aconteceu em virtude dessas palestras. Políticos mesmo, não houve nenhum. No total, foram 135 assinaturas dentro do prazo estabelecido para a coleta na internet.

O documento eletrônico será encaminhado ao governos federal, aos governos estaduais da bacia do São Francisco, associações de municípios da bacia do São Francisco, aos Ministérios do Meio Ambiente, Minas e Energia, Integração e Desenvolvimento Regional, Turismo, Transportes e Defesa, à CHESF, à  CEMIG e à CODEVASF, conclamando-os à continuidade das ações preservacionistas.

Também encaminharemos cópia deste documento aos órgãos de imprensa nacionais e regionais, solicitando-lhes que o divulguem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Livros consultados

BRANDAO, Carlos Rodrigues; “São Francisco, Meu Destino”

CALDAS, José; “Oparapitinga Rio São Francisco”

CAMANDAROBA, Joana; “O Último Canto do Cisne”

CARDOSO, Antonila da França; “nosso vale… seu folclore beira-rio”

GONÇALVES Neto, João; “Memórias de Três Marias”

MIRANDA, E. E. de; (Coord.). “Brasil em Relevo”

MIRANDA, E. E. de; COUTINHO, A. C. (Coord.). “Brasil Visto do Espaço”

MOREIRA, Gilvander Luís (org); “Dom Cappio: rio e povo”

NOGUEIRA, Henrique; “Serranos no Rio São Francisco”

RIBEIRO, Manoel do Bonfim Dias; “A Potencialidade do Semi-Árido Brasileiro”

SAINT-HILAIRE, Auguste de; “Viagem às Nascentes do Rio São Francisco”

SAMPAIO, Teodoro; “O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina”

SILVA, Wilson Dias da; “O Velho Chico, sua vida, suas lendas, sua história”

TRUKÁ, Professoras; (org); “No Reino da Assunção, Reina TRUKÁ”

TRUKÁ, Comunidade; Gerlic, Sebastián (Editor) “Índios na visão dos Índios”

VERGNE, Cleonice; MARQUES, Juracy; “Pedras Pintadas”

Sites pesquisados

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AGJunior – Canoagem Velho Chico http://www.agjunior.com.br/index.htm

Ambiente Brasil – Velho Chicohttp://www.ambientebrasil.com.br/composer.php3?base=./agua/doce/index.html&conteudo=./agua/doce/artigos/velhochico.html

Articulação Popular do Baixo São Francisco http://baixosaofrancisco.blogspot.com/

Bacia Hidrográfica do São Francisco – CBHSFhttp://www.saofrancisco.cbh.gov.br/

Bacia Hidrográfica do São Francisco – MMA http://siscom.ibama.gov.br/msfran/index.php?page=a-bacia-do-sao-francisco

Brasil das Águas – rio São Francisco http://www.brasildasaguas.com.br/index.php

Canoa de Tolda – Baixo São Francisco http://www.canoadetolda.org.br/index.htm

Canyon do rio São Francisco http://www.deepstop.org/galeria/2007/20070225_canion/index.htm

CHESF – Centrais Hidrelétricas do São Francisco http://www.chesf.gov.br/riosaofrancisco_historia.shtml

CODEVASF – Cia. Desenv. Vale São Franciscohttp://www.codevasf.gov.br/

Companhia de Canoagem http://www.companhiadecanoagem.com.br/

CPT/BA – Projeto São Francisco http://www.cptba.org.br/joomla15/index.php?option=com_content&view=article&id=17&Itemid=21

Dicionário Livre de Geociências http://www.dicionario.pro.br/dicionario/index.php/P%C3%A1gina_principal

Espelho D´água – uma viagem no rio São Franciscohttp://www.espelhodagua-ofilme.com.br/index2.asp

Fundação Brasil Cidadãohttp://www.brasilcidadao.org.br/

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Instituto Mineiro de Gestão das Águas http://www.igam.mg.gov.br/

Itacarambi – Parque Nacional Cavernas do Peruaçu http://www.itacarambi.com/atrativos_peruacu.php

Lendas do rio São Franciscohttp://www.terrabrasileira.net/folclore/regioes/3contos/lendas.html

Marcelo Min – Velho Chicohttp://www.marcelomin.com.br/mmin/vch/vch000.html

Mininstério da Integração Nacional – São Franciscohttp://www.integracao.gov.br/saofrancisco/rio/index.asp

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Parque Nacional Cavernas do Peruaçu http://www.ecoviagem.com.br/fique-por-dentro/viajantes/expedicao-parques-nacionais/boletins/pn-cavernas-do-peruacu-minas-gerais-1358.asp

Portal ECO Debate – Transposição http://www.ecodebate.com.br/tag/transposicao-do-rio-sao-francisco/

Programa de Revitalização do São Francisco http://sao-francisco.blogspot.com/

Projeto Manuelzão – São Francisco http://www.manuelzao.ufmg.br/folder_atuacao/folder_saofrancisco/

Projeto Remar até o Marhttp://360graus.terra.com.br/remar/

REMA – Rede Atlântico Sulhttp://www.remaatlantico.org/

Represa de Sobradinho – um reservatório estratégico http://www.reporterbrasil.org.br/exibe.php?id=1341

Revitalização do São Franciscohttp://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/03/26/revitalizacao-do-rio-sao-francisco-uma-epopeia-por-manoel-bonfim-ribeiro/

SOS Rios do Brasilhttp://sosriosdobrasil.blogspot.com/

SOS São Franciscohttp://www.agrisustentavel.com/doc/francisco.htm

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