GRITOS DE SOLIDÃO

Enormes ondas de luzes coloridas percorriam os céus do mundo, pipocando a alegria dos povos ditos “civilizados”, ao som da sua maior festa de confraternização, que se manifestava espontânea nas praias, nas praças, ruas e avenidas, nos salões, nas casas… Porém, alguns sequer percebiam essas manifestações coletivas, pois estavam esquecidos, abandonados, párias das sociedades jogados nas calçadas, escondidos nas matas, solitários em suas masmorras voluntárias onde a festa não encontrava eco nem felicidade… talvez essa pequena minoria nem soubesse que os ponteiros do tempo teriam percorrido mais uma volta na imensidão dos tempos do Universo… talvez sua solidão fosse tamanha (e tão inconveniente) que não valia a pena que o mundo ao seu redor se preocupasse com seu isolamento, esquecidos das sociedades hipócritas que os envolvia em um manto de invisibilidade, tristeza e esquecimento… é possível mesmo que essas criaturas já tivessem perdido sua própria consciência de pertencimento a qualquer sociedade…

De minha cápsula do tempo, tais pensamentos se alternavam à balbúrdia das telinhas de TV, onde cantores se revezavam nos palcos, repórteres falavam incessantemente sobre a Harmonia e a Paz Mundial, sobre as esperanças de que o simples girar das engrenagens do Universo tornasse o mundo mais “Humano”, mais “Justo”, mais “Solidário” e mais “Generoso” para aqueles seres esquecidos de sua própria identidade, perdida nas memórias do passado. Enquanto a alegria tomava as praias e as avenidas asfaltadas, tais criaturas, abandonadas de si mesmas, sequer percebiam que nosso pobre planeta terminara de dar mais uma volta em torno de sua pequenina estrela flamejante… e lá estava ele, cada vez mais pobre de diversidade biológica, cada dia mais igual em sua superfície estereotipada pelos padrões humanos de habitações e modos de existir, onde pouco espaço fora dado a preservar, para fazer caber mais seres viventes, que desapareceriam na inexorável sucessão dos dias…

Eu também estava só, mas minha solidão era imperceptível mesmo para mim, pois as telas de TV refletiam essas manifestações que se propagavam mundo afora, incendiando os céus com seu espetáculo de cores e explosões, desconfortáveis como os tiroteios nas favelas… curiosamente, esse é o único dia em que o mundo inteiro manifesta sua alegria e sua festa, a despeito do ódio latente, das divergências políticas, dos conflitos religiosos e étnicos, dos preconceitos, das línguas e culturas que mais separam que unem os povos desse pequenino e devastado planeta… e hoje, o “day after” da humanidade, todos acordaram esquecidos da ressaca de “Felicidade” que inundou a Terra, e voltaram às suas diferenças brutais, às suas guerras fratricidas, a seus preconceitos e divergências irreconciliáveis, esquecidos de que juraram, em meio às multidões, que esse Novo Ano seria diferente, que haveria bondade e solidariedade para todos, a despeito de crenças, interesses e ideologias…

E cá estamos nós, despertando da “Festa de Democracia” que já se apagou das memórias voláteis de que somos feitos, sem vergonhas, sem remorsos, sem culpas pelas irreconciliáveis diferenças que sempre nos separaram ao longo de nossa curta e conturbada História. Novamente cobertos de nossas máscaras, individuais ou coletivas, que já não mais percebem que nada mudou nesses breves instantes que uniram mais de sete bilhões de seres humanos em uma confraternização em que as promessas de Paz e Harmonia já se quedaram esquecidas… afinal, o que se transformou em nossas consciências? O que uniu tais povos em uma catarse de sons, luzes e sentimentos manifestados com a “mais pura sinceridade” diante das câmeras e telinhas de TV?… Nada… somos os mesmos povos, beligerantes, egoístas, mesquinhos, insignificantes diante da magnificência desse Universo que mal conhecemos, e que, no entanto, é bem maior que nossas pobres divergências…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

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