Saudades de meu Samurai…


Nunca pensei que ele me faria tanta falta assim… mas, ao ver outros espécimens da mesma família, um sentimento de tristeza tomou conta de meus pensamentos… lembrei-me das longas horas que passamos juntos, monologando sem censuras sobre o universo, a vida e tantos outros assuntos que não me arriscaria a compartilhar com mais ninguém… ele, o meu Samurai, conservaria os meus segredos!

Quantas viagens fizemos pelas estradas desse país! quantas paisagens inesquecíveis! quantos momentos dexados em minhas lembranças ao lado de meu Samurai! Itatiaia, Petar, Aparados da Serra, Florianópolis, Ubatuba… tantos outros…

Como poderia esquecê-lo? Como, enfim, abandoná-lo à própria sorte depois de tantas vivências?

Mas ele está lá, um monte de ferragens inertes, ao relento, submetido ao seu perverso destino de carcaça imprestável, sem ninguém que se disponha a trazê-lo de volta à vida e às infinitas possibilidades de minhas reminicências futuras… pobre Samurai!

Despido de sua força e intrepidez, incapaz sequer de se locomover como antes, desbravando estradas intransitáveis, conquistando montanhas inacessíveis, rompendo a inércia dos desvalidos caídos pelos caminhos como tantas vezes fizera, agora é apenas um amontoado de ferros imprestáveis… meu pobre Samurai…

Com ele andei mais de 40 mil quilômetros! uma volta completa em nosso planeta!

Dele eu cuidei com o carinho de quem cuida de um ser vivo, recuperando cada peça de sua mecânica incomparável, até trocar sua alma: o motor e o câmbio! Não medi esforços nem recursos, mesmo contra a recomendação de meus outros amigos…

Meu Samurai inesquecível… nunca o abandonei… nunca mais terei um… exceto na lembrança!

Anúncios
por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Wasuregusa

Já não me lembro mais da lenda… acho que também bebi da “erva do esquecimento”… “wasuregusa”! Eram dois jovens… mas não sei bem o que eles faziam nessa história… e havia também uma outra erva, a das recordações: “omowaregusa”… sei que a erva do esquecimento servia para apagar as lembranças… de mais, eu não me recordo. Afinal, tantos anos já se passaram!

Ontem passei o dia esperando… um telefonema, um torpedinho, um email, até mesmo uma visita dos meus amigos! Mas o dia se passou, e eles não estavam comigo… devem ter tomado, também, a erva do esquecimento… esqueceram-se do meu aniversário!

Justo eu, que nunca me importei com datas, agora me tornei sentimental, vejam só! Queria mesmo não ser esquecido…

Lembrei-me desses 58 anos passados, minhas viagens, minhas aventuras, os lugares que visitei, as pessoas que conheci, os livros que devorei na solidão das madrugadas insones, a companhia inesquecível de minhas filhas, compartilhando tantos momentos só nossos!

Lembrei-me, contudo, e principalmente, dos meus amigos, aqueles de quem nunca nos esquecemos, e que estiveram presentes em muitas dessas passagens de minha vida, amigos com quem compartilhei alegrias e sofrimentos, segredos e sentimentos, vontades e pensamentos…

Onde estarão meus amigos?

O dia se passou, e eu decidi também tomar a minha pequena dose de “wasuregusa”… deitei-me, cansado da espera e do silêncio, e lamentei perder as esperanças… em meu recolhimento, saboreei a erva amarga do esquecimento e, finalmente, adormeci…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica