O AVC

É uma casa confortável, simples, para onde se mudara depois da separação. Deixara de trabalhar, por ter-se aposentado, e fora buscar um local adequado, mais simples, próximo à natureza, e com possibilidade de cuidar de um pequeno sítio. Uma pessoa de idade, tranquila, sozinha… imersa em suas reflexões… todos os dias levanta-se ao nascer do sol, deita-se quando ele se põe, como uma ladainha, um canto gregoriano que parece não ter fim. A vida é assim, para ele e para todos os seres da Floresta. Ali era sua floresta, no meio dos homens, mas apartado de todos. Sua existência era um paradoxo, uma contradição para aqueles que não o viam, não o compreendiam. Ele amava essa solidão em que vivia. Dormia com o escurecer, acordava com o alvorecer, se alimentava como os animais selvagens. Não planejava nada, pois acreditava que tudo existia para ser apreciado e utilizado na medida certa, na hora exata de sua necessidade, nunca antes, nem depois. Essa era sua filosofia de viver.

No seu exílio voluntário, cuidava da horta, alimentava seus animais, brincava com o cão, preparava os alimentos, dentre os quais abdicara-se das carnes desde que fora morar sozinho. Cuidava da terra para que ela revivesse com as sementes que lá existiam, em longa letargia, dormentes sob a terra, mas não mortas. Essa era a figura de sua futura condição. Também ele entraria nesse estágio letárgico até que uma alma generosa aparecesse para despertá-lo, e aquele seria seu momento de ir-se para sempre. Ele sabia disso mas não se preocupava, pois era o destino que desejara por toda a vida.

Naquele dia ele percebeu que era chegado o momento de se despedir da vida consciente. Cuidou, como sempre, de seus afazeres, como se nada estivesse por acontecer. Retirou os ovos dos ninhos das galinhas, varreu o terreiro, colocou o milho nos cochos, cuidou das hortaliças, refez o ciclo de compostagem, colheu as verduras e legumes que estavam no ponto, tirou o leite da vaquinha que, como todas as vacas das histórias, se chamava Mimosa. Seu cão Teco, o mesmo nome do cãozinho que tivera na infância, o acompanhava por todo lado. Era seu único e fiel companheiro inseparável.

Recebeu seus vizinhos, que todos os dias, no mesmo horário, iam comprar seus produtos orgânicos, inclusive o leite da Mimosa. Eles sempre pediam para comprar as galinhas, mas ele não as vendia, para que não fossem mortas, levadas à panela e devoradas. Era um vegetariano, depois de tantos anos comendo carne. A renda dos ovos e das hortaliças eram suficientes para sua sobrevivência. Não tinha automóvel. Quando precisava ir à cidade, pedia para um de seus filhos, que o levavam e traziam, com carinho e dedicação. Já não se lembrava de sua vida passada, quando ainda trabalhava em empresas, como tecnólogo da informação… não era uma boa lembrança.

Não assistia televisão. Para ser mais exato, ele não tinha televisão. Possuía um computador apenas, porque assim não precisava ir ao banco para efetuar pagamentos. Sua vida era pacata e tranquila. Aos fins de semana recebia a visita de seus filhos e netos, que brincavam com as galinhas e com o Teco, que como seu antecessor, adorava crianças, mesmo que elas, às vezes, o incomodassem bastante. Depois que todos iam embora, o sítio também descansava…

Mas naquele dia ele sabia que algo de muito ruim estava por acontecer. Por isso, recolheu-se mais cedo, não sem antes preparar os alimentos dos animais, em dobro do que costumava. Certamente, já esperava que essa coisa ruim o impediria de cuidar de seus animais. Foi para o quarto, deixando ao seu lado o celular, outra novidade tecnológica da qual não se apartava, pois sabia que era imprescindível para quem morava sozinho. Desta vez, não ativou os alarmes de segurança, pois talvez precisasse que alguém o socorresse no meio da noite. Deitou-se e se cobriu, pegou um livro sobre o criado-mudo, acendeu o abajur e apagou a luz do quarto, pôs-se a ler com dificuldade. Percebeu que não conseguia se concentrar. Sentia um desconforto estranho, uma vontade de dormir, um medo de morrer…

De repente, sente uma dor de cabeça muito forte e tenta pedir socorro, mas não consegue; é uma dor terrível, e ele não pode articular uma só palavra sequer… ele não consegue movimentar a mão para usar o celular e chamar as pessoas… aquela dor lancinante faz com que tudo fique obnubilado1 na sua consciência. Então, como um último e derradeiro gesto, ele aperta o botão de emergência do celular e, em seguida, desmaia. Aquele gesto quase inconsciente fora muitas vezes imaginado, e acionaria duas ligações gravadas para seus dois filhos… e eles sabiam que aquilo significava uma situação de emergência com seu pai… e que eles teriam que correr, pois o pai, provavelmente, não conseguira se comunicar. Seus filhos mais velhos chegam quase ao mesmo tempo e o encontraram prostrado, caído no chão à beira da cama, inconsciente. Nem esperam a chegada da ambulância, levando-o rapidamente para o hospital. E então, depois de alguns exames, os médicos constatam que ele tivera um acidente vascular cerebral. Ele é internado imediatamente.

A partir desse dia começa um longo e sofrido processo de tratamento… e intermináveis momentos de silêncio e solidão passam a acontecer na vida daquele moribundo. Ele está em um quarto na UTI… e, do fundo da sua consciência, surge um pensamento vago, perdido, inútil assim como ele… Um vai e vem constante de pessoas passando pela porta do quarto da UTI… médicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos de laboratório… é noite… e aquele movimento continua… a consciência dele é muito tênue e apenas percebe que existem movimentos e pessoas passando sem cessar… ele pensa “onde estou?” mas ele não consegue entender ainda onde está… porque estaria ali… quem o levou para aquele lugar… De vez em quando, uma enfermeira entra e pronuncia algumas palavras, que ele não é capaz de compreender. Tira o sangue… Verifica o soro… Injeta um medicamento na sua veia… enfim, ele está sendo tratado, mas a consciência é muito superficial; ele não consegue concatenar nenhum raciocínio, e aquela situação começa a se tornar a sua nova vida.

Aos poucos volta-lhe a consciência, e ele percebe que sofreu um AVC… mas Rúben está imóvel; ouve seus filhos chegando, conversando com ele, perguntando coisas, às vezes chorando… e ele não sabe o que fazer, porque não tem movimento algum. E aí começa a se lembrar do passado, da época em que esses filhos eram crianças e ele os levava a passear em parques e montanhas, tentando dar-lhes uma consciência ambiental, ter respeito pela vida… não só pela vida humana, mas por toda a vida que existe nesse planeta. Ele se lembra de contar longas histórias para as crianças… passear tranquilamente pelos bosques, relatando aquilo que foi para ele uma construção de longos anos de trabalho: o meio ambiente, a natureza e, contrapondo a isso, a visão tecnicista que dominava a sua vida profissional. Foi um programador de computadores e analista de sistemas; ele trabalhava com essas máquinas para construir a consciência, se assim podemos dizer, dessas máquinas. Ele as fazia viver, de alguma forma. E aquele que conseguia fazer uma máquina viver, não conseguia, ele próprio, demonstrar que está vivo. Porém, o que lhes parece é que ele está inconsciente. Essa angústia é o seu primeiro momento do despertar. E de percepção da situação em que foi colocado devido ao derrame.

Nesse momento percebe que já não enxerga mais nada, nem um clarão sequer… seu mundo penetrou na mais profunda ‘caverna’ que sua mente consegue relembrar… ‘escuta’ aquele silêncio vindo do interior das cavidades que ele visitou, e se sente em casa, por alguns instantes… mas é estranho ouvir vozes, palavras quase incompreensíveis, e ao mesmo tempo estar em uma ‘caverna’ de seu próprio corpo, na escuridão que não lhe poupou, sequer por um segundo… estava em um outro mundo que não o seu, diferente de tudo que ele construíra com tanto esmero enquanto em vida…

Daquele instante já não poderia mais se comunicar com seus filhos e netos, não poderia mais contar-lhes suas aventuras, explicar-lhes seus pensamentos mais profundos, falar de seus valores, seus princípios, tudo aquilo que norteou seus atos. Definitivamente, estava só como nunca antes estivera em vida… nem mesmo na solidão das florestas e das montanhas se sentira tão solitário como naquele quarto de hospital… recolhera-se, definitivamente, ao silêncio mortal que o levaria da presença de seus entes queridos, mas nem sabia por quanto tempo permaneceria nesse limbo de escuridão e de silêncio.

Dias e noites seriam, para ele, a mesma coisa, o mesmo éter que preenche todos os espaços do Universo sem que ninguém saiba defini-lo. E naquele éter estava ele a flutuar, no mais absoluto silêncio que nenhum ser vivo pode conceber. Silêncio, escuridão e solidão…

Rúben percebe que uma muralha se ergueu entre ele, o mundo exterior e as pessoas que ele tanto amava. Já não podia colocar seus netinhos no colo, contar-lhes as histórias de aventura que ele próprio vivera, mas que as crianças ainda não eram capazes de compreender.

E esse muro intransponível o tornara prisioneiro de sua mente avariada, onde passado e presente se confundem na desordem de seus pensamentos desconexos… mesmo os sons difusos que percebe não lhe são compreensíveis, como palavras proferidas em outra língua estranha. Seus olhos mergulharam na escuridão e, sua mente, confusa.

Aos poucos toma consciência desse estado letárgico que agora era seu novo mundo, sem personagens, sem ação, sem palavras. Já não poderia conversar, nem ler, nem degustar um alimento… tornara-se um morto-vivo, um personagem de um livro não escrito…

E, nessa paisagem morta, ele sequer estava representado, pois sua mente, sem a sensibilização das imagens do mundo real, também não conseguia lembrar-se das imagens que estiveram presentes ao longo de toda sua vida… nem rostos de pessoas conseguia recordar.

Uma sensação claustrofóbica acometeu-o por alguns instantes, mas logo desapareceu, por não ter como se manifestar através daquele ser transformado em uma esfinge, uma escultura, um mero retrato. Não, ele era, na verdade, um espaço vazio, um objeto que permanecia ali, sem vida aparente, embora, em suas artérias, o sangue ainda corresse, alimentando as células, sem permitir, contudo, que elas adquirissem forma e conteúdo, como em todos os seres humanos…

Finalmente, conformou-se com esse novo estado de não-ser em que se tornara… aquietou-se a sua alma, se ainda a tinha, e uma sensação de alívio tomou conta de seu ser… sabia que estava vivo!

1Obnubilado – ofuscado; que se escureceu; que se tornou obscuro, como se visto por nuvens: visão obnubilada. Acometido por obnubilação, alteração da consciência definida pela ofuscação da vista e ‘escuridão’ do pensamento. [Wikipedia]

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Um comentário em “O AVC

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