O Rio da Vida

Olhava, silenciosamente, o rio passando diante de mim…
Eram restos da civilização se arrastando pelas águas malemolentes.
Silentes… inconscientes… tangentes às margens nuas e barrentas…
Pedaços de vidas desconexas que seguiam sem saber para onde.
Não havia pássaros ou peixes… apenas lixo descartado por alguém…

Lembrei-me de quando por lá passei há muitos anos…
Algazarra, eu dizia, ao ouvir a profusão de vida naquele rio.
Garças, quatis, marrecos, macacos, araras, quero-queros…
As matas cercavam o rio e protegiam a vida em seu redor…
As águas cristalinas mostravam cardumes indolentes…

Pequenas canoas, como a minha, singravam os caminhos…
Não havia barulho de máquinas cortando a terra,
Apenas os sons da vida selvagem, quase intocada, pura…
Pescadores retiravam do rio peixes enormes… surubins… dourados…
Onde estão agora? O que foi feito de meu rio? Nada mais restou…

Meu rio está morto, assim como a alma das florestas…
Meu planeta sofre a dor da devastação que se propaga, célere…
Em lugar das matas, imensos campos de soja, sem cor e sem forma…
Infinitas pastagens vazias… só o gado, pachorrento, à espera da morte…
Em lugar da vida e da diversidade, os mesmos seres escravizados…

Os que moram nas cidades, aqueles que nasceram depois de mim,
Nunca conheceram a beleza da vida, da Natureza, do silêncio…
Apenas os sons dos carros, das motos, dos ônibus, dos zumbis…
Imensas concentrações humanas desprovidas de alma,
Incapazes de amar, de sentir a fragrância da verdadeira vida…

Quanta tristeza…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Civilização tóxica

Jequitibá de 3.000 anos no Parque Estadual de Vassununga, Santa Rita do Passa Quatro, SP

Seu fim está próximo e não se trata de mais uma profecia. Apenas a constatação do óbvio que se apossou desse pequeno e insignificante mundo.

Não sei quem matou Deus, ou se, de alguma forma, ele jamais existiu, mas estamos sós como nunca, nesse vazio espectral do Universo.

De repente, a Humanidade se tornou desprezível, fria, mesquinha, irrelevante, sombria, nefasta, pequena demais para se fazer existir.

Matamos nossas florestas, as árvores, os animais, os regatos, as belezas desse mundo, o prazer de apenas permanecer na chuva, sentindo seu gotejar inebriante, a alegria de estar, simplesmente, abandonado aos pensamentos e reflexões embaixo de uma sombra às margens da cachoeira… só nos restou um imenso deserto, árido e estéril.

Banalizamos o Amor e as Amizades… destruímos a Família pelo isolamento das tecnologias avassaladoras do cotidiano, e sepultamos nossos valores mais perenes, para nos transformarmos em mortos-vivos, seres ensimesmados e ausentes em pensamento, daqueles que nos são queridos…

Não há mais silêncio, nem escuridão. Não há privacidade, nem a solidão suave do meditar, do refletir, do emanar boas energias ao Universo… Desapareceram a gentileza e a emoção. Restou apenas a profunda e inexorável Imensidão do Nada a permear nossas vidas…

As ideologias, as crenças, as histórias contadas no recôndito do lar ficaram no passado inexpugnável das memórias esquecidas… as doces lembranças se tornaram irrelevantes, pois tudo agora é igual, medíocre, mesquinho e fortuito, irrelevante e efêmero.

Viver deixou de ser perigoso, surpreendente, fantástico… tudo se transformou em monotonia, mesmice, desgraça, insanidade… e só nos resta deitar e morrer, inúteis e desamparados.

No horizonte ficaram apenas a fumaça, a fome, a morte, o terror, a miséria, o ódio, a ganância, e a infinita devastação das paisagens amarelecidas…

Um imenso e contínuo Dèja Vu se apossou desse planeta repleto de zumbis, vagando inconscientes, atônitos, perdidos na sua solidão sepulcral.

Tudo agora é inútil e desnecessário… até mesmo o interminável processo da vida: nascer, crescer, viver, procriar e morrer, pois o Ser Vivente, que existia em cada um de nós, se apequenou e desapareceu na própria insignificância do existir.

Restaram, tão somente, os frangalhos despedaçados da vida que se esvai, rapidamente, no limiar desconhecido desta Terra agonizante.

O que fazer, então, senão esperar, desalentado, que o Fim se manifeste, aqui e agora, eliminando o sofrimento e sepultando a Humanidade?

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia