Oração do Velho Chico

Senhor, fazei-me instrumento de vossa generosidade!

Onde houver Seca, que eu espalhe Águas da Fertilidade!
Onde houver Miséria, que eu distribua a Fartura das Colheitas!
Onde houver Sertão, que eu me torne o Mar da Vida!
Onde houver Trevas, que eu conceda Energia e Luz!
Onde houver Isolamento, que eu mostre Caminhos da Integração!
Onde houver Fome, que eu abasteça de Água as Plantações!
Onde houver Discórdia, que eu seja Reencontro e Harmonia!

Que meus braços se estendam e se multipliquem pela transposição de meus domínios, levando ao Sertão e ao Agreste a transpiração de minhas águas férteis, para que…

…Onde houver Desespero, que eu seja a Esperança!

Leia mais sobre minha expedição pelo rio São Francisco em Meu Velho Chico

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

A Solidão de cada um

“Oh! Bendito o que semeia
Livros … livros à mão cheia …
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar.” Castro Alves

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O Poeta não imaginava que o mundo seria inundado de livros, revistas, blogs, msn´s, orkut´s… e nessa imensidão de palavras continuaríamos ignorantes e vazios… sim, pois que a verborragia do mundo também é um mal incurável… não se pensa naquilo que se escreve! Just Copy & Paste!

E por detrás dessa convivência frenética dos chats, dos podcasts, dos universos virtuais, a solidão de cada um se exacerbou, “fechando-se em conchas” quem pensa ter amigos sinceros… tudo “ilusão passageira”, enorme engano que nos submete ao isolamento total, absoluto, em meio a tanta tecnologia digital, instantânea e sem conteúdo que valha alguma coisa…

As cidades, os grandes aglomerados urbanos são os nossos claustros, nossa prisão involuntária e inconsciente! E, na ânsia por fugir da solidão, o ser humano fala demais, escreve demais, pensa de menos… somos ilhas no infinito urbano de cada um… indivíduos, e não coletividade!

As pessoas “se amam” como nunca, em tempo algum, se amaram! Porém, é um sentimento efêmero, que dura o instante de “se conhecerem”, se beijarem, se entrelaçarem num abraço erótico… e pronto! aí terminou o relacionamento! Nada mais há a se conhecer…

Discutir o relacionamento? Para que? É mais fácil arranjar um novo companheiro a tentar compreender as razões “do outro”… não existe vida conjugal… só o EGO, imenso ego!

Na internet, o site “O Pensador” (que ironia!) exibe milhares de frases que podem ser usadas no seu dia-a-dia, para impressionar um amigo, para criar um PPT, para disseminar uma idéia de quem nunca as teve, por uma rede de pessoas que se deslumbrarão com a inteligência do brilhante colega!

Lá no site estão, em um mesmo patamar intelectual, Nietsche, Bob Marley, Fernando Pessoa e o Marquês de Maricá! A Logosofia é uma chamada para os incautos que buscam sentido em sua medíocre existência! Nas biografias, Adriana Falcão (quem será essa?), Arquimedes, Dalai Lama e Millôr!

Barbaridade! Frases de todo o tipo, que podem ser ilustradas com GIF´s animados, coloridos e… bregas! E nenhum pensamento novo! Nenhuma idéia própria!

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Pobres filósofos de nossos dias…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Mentiras da burguesia

A reação das elites aos movimentos raciais, às minorias sociais e às ações de preservacioistas evidencia o preconceito e a cólera pela perda de seus privilégios, quase sempre adquiridos pelos confiscos sociais havidos no decorrer  de nossa história burguesa.

Já na distribuição das terras do Novo Mundoprevaleceu a “generosidade” da coroa portuguesa à nobreza vadia, através da entrega de sesmarias e datas, doações para quem nunca trabalhou e nunca soube o valor do esforço humano. Depois, com a escravidão, a coisa se complicou de vez!

Vejam o que diz o jurista Ives Gandra da Silva Martins *:

Hoje, tenho eu a impressão de que o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que sejam índios, afrodescendentes, homossexuais ou se autodeclarem  pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.”

“Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior.”

”Os índios, que, pela Constituição (art. 231), só deveriam ter direito às terras que ocupassem em 5 de outubro de 1988, por lei  infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado. Menos de meio milhão de índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também – passaram a ser donos de 15% do território  nacional, enquanto os outros 185 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% dele.. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados.”

( * Ives Gandra da Silva Martins é renomado professor emérito das universidades  Mackenzie e UNIFMU e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército e presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo )

Esse argumento vem sendo usada como justificativa por todos os que defendem aqueles que desmatam a Amazônia e outros paraísos naturais, com apoio da bancada ruralista e do ex-governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, um dos maiores latifundiários e produtor de soja em territórios desmatados e incendiados pelo país!

É uma falácia! Um argumento que não se sustenta! Os índios, assim como os animais selvagens, fazem coleta e caça na floresta, sem danificar a Natureza, e eles precisam de muito mais espaço para sobreviver do que a dita “civilização branca”, que além de amontoar as pessoas nas cidades, faz um uso do solo de forma predatória e, na maioria das vezes, irreversível para a preservação ambiental. Os índios são os nossos defensores da Natureza!

Quanto às comunidades quilombolas, eu tenho certeza que o Ives Gandra nunca esteve numa delas! Eles vivem miseravelmente, na maioria das vezes, e como os índios, precisam de proteção. Muitas dessas comunidades estão inseridas em áreas de proteção ambiental, e trabalham com agricultura familiar, de sobrevivência, artesanato e outras atividades mal remuneradas.

Já as cotas das universidades, isso precisaria ser mais bem regulamentado, pois existem abusos… basta o sujeito ter a pele “lá pelas cinco da tarde” e já se acha um afrodescendente! Aliás, que palavrinha mais preconceituosa essa, “afrodescendente”! Por que não dizer simplesmente NEGRO? Sim, pois ser negro não é vergonha e dizer “Negro”, desde que com respeito, não é preconceito! É apenas uma questão da quantidade de melanina na pele…

Com relação aos países latino-americanos que fazem fronteira conosco, principalmente o Paraguai e a Bolívia, nós somos para eles o que os EUA são para nós: Imperialistas! Colonialistas! Basta lembrar o genocídio que praticamos durante a guerra do Paraguai, e que dizimou praticamente toda população masculina adulta e não descendente dos índios de lá. É por isso que eles são tão parecidos com os índios hoje em dia… desapareceram as características dos europeus…

Se nós pregamos a nossa independência e autonomia com relação ao primeiro mundo, particularmente EUA e Europa, precisamos ser, pelo menos, coerentes, e agir de forma diferente de nossos “colonizadores e exploadores”! Sermos mais solidários e menos mesquinhos!

Esses juízes que vivem no luxo e na riqueza, com salários milionários recebidos às custas dos trabalhadores comuns e da prática da extorsão do Imposto de Renda sobre os assalariados, deveriam se envergonhar de sua aristocracia e se calar, em vez de falar asneiras como essas!

E matar índio queimado, em Brasília? Isso pode para um filho de um juiz?

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

As contradições de um povo

Quase me compadeci dos sofrimentos dos judeus na Terra Santa de Israel quando as guerras (também) santas dos seus vizinhos árabes apregoavam o extermínio desse povo! Afinal, o Holocausto foi uma das piores tragédias da História contemporânea e talvez uma das maiores chacinas de toda a Humanidade ao longo de sua existência de ódio e guerra…

No entanto, o Tempo nos faz refletir melhor e julgar com mais parcimônia as razões de cada parte nos conflitos intermináveis do Oriente Médio. Quando, em 1948, a ONU decidiu-se pela criação do Estado de Israel, optou também por desprezar a existência dos Palestinos, quase da mesma origem étnica dos judeus, e também espalhados mundo afora.

Sempre que uma decisão injusta é tomada, um conflito se eterniza entre os povos, acirrando as disputas, incentivando o ódio, alimentando a discórdia e o desentendimento. E agora, sessenta anos depois, aquela região continua imersa nos mesmos conflitos, matando-se por razões inaceitáveis por qualquer padrão humano que se adote, simplesmente porque as novas gerações não sabem viver em paz, não conhecem outra realidade senão esse conflito absurdo e sem nexo.

Agora, diante dos olhares perplexos do mundo, a violência de Israel se manifesta covardemente pela ocupação de Gaza, matando civis, mulheres e crianças indefesas, em nome de sua própria segurança. Mas não se resolve a questão dessa maneira; mesmo que todos os combatentes do Hammas fossem dizimados pela brutal superioridade militar de Israel, seus filhos continuarão a mesma luta, em um círculo vicioso de vinganças eternas e de posições irreconciliáveis!

Até quando?

De que serve o Conselho de Segurança da ONU se o principal aliado de Israel ninguém mais é do que o maior de todos os vilões contemporâneos, a nação que se diz arauto e defensor da Democracia e, no entanto, mantém seus soldados em terra estrangeira, matando inocentes, desenvolvendo e experimentando suas poderosas armas de destruição?

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Expedição pelo rio São Francisco

Quando terminamos a expedição FEAL na Chapada Diamantina, eu já sabia que algo tinha se transformado, definitivamente, em meu ser. Minhas convicções já não eram as mesmas, minhas expectativas se ampliaram, meu universo se tornou mais amplo. Isso não se deveu apenas aos desafios que enfrentamos, mas, principalmente, ao meu contágio com algo que pensei já se tivesse dissipado dentro de mim.

Foi então que decidi fazer uma experiência mais radical, definitiva, exploratória e comprometida com meu mundo exterior: e escolhi o rio São Francisco, o mais representativo de nosso país, pelas suas características de integração, por ter sido o primeiro grande rio nacional a ser descoberto e exlporado, pelas suas lendas e tradições…

Para divulgar, documentar e elaborar o planejamento da expedição, criei um blog, que agora compartilho com vocês: Meu Velho Chico. Não deixem de visitar e dar seus palpites! Preciso de sugestões, de novas idéias…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Expedição Chapada Diamantina – FEAL OBB 2008

Quando decidi fazer essa expedição não imaginava sua verdadeira dimensão e o esforço exigido: foram 4.000 km percorridos de carro em quatro dias, ida e volta, mais de 50 horas dirigindo até o nosso destino, cerca de 120 km de caminhadas, 40 km de canoagem, muito calor, incêndios por todo o Parque, muito cansaço, novas descobertas, amizades novas… um verdadeiro reencontro com meu ser primordial e mais um recomeço em minha vida de aventureiro.

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Saí de Ribeirão Preto no dia 3 de novembro e segui diretamente para São Paulo, onde se juntaria a mim o Paulo Eduardo, no dia 4, para seguirmos nossa viagem rumo à Bahia, Chapada Diamantina, nosso destino final. Chegamos a Mucugê no dia 5, já no início da noite, e lá pernoitamos, depois de visitar e fotografar o cemitério Bizantino (Santa Izabel), com suas pequenas edificações caiadas em branco, sob um grande bloco de rocha de uns 70 metros de altura.

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Passamos por Igatu no dia seguinte, onde encontramos uma área de garimpo de diamantes perfurada na rocha, quase um túnel, onde se formara um lago. Estava deserto e invadi o local com um certo receio de ser descoberto pelos seus “proprietários”, uma vez que havia uma placa nos informando que se tratava de uma propriedade privada (dentro da área do Parque Nacional!).

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Seguimos viagem até Andaraí, onde almoçamos, antes de nos instalar na Pousada Sincorá, de onde partiria a expedição na segunda-feira, dia 10 de novembro. Nosso propósito era escalar algumas rochas nos dois dias que precediam o início do treinamento. Porém, fazia um calor escaldante, havia muitos focos de incêndio por toda a Chapada, e precisávamos estar inteiros para as longas caminhadas que se seguiriam.

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Mudamos nossos planos e resolvemos descer a Ladeira do Império e caminhar em direção ao Vale do Pati no tempo que nos restava. Fizemos isso na sexta-feira, pela manhã. Já recuperados da longa viagem da véspera, saímos cedo em direção ao Pati. A descida foi cansativa, mas chegamos até a base da montanha, pela trilha, e acampamos à beira do rio, onde nos banhamos e comemos alguma coisa antes do anoitecer. Pela manhã continuamos nosso trajeto e ultrapassamos a ponte que, praticamente, delimita o Pati..

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Algumas horas depois constatamos que não teríamos tempo suficiente para chegar ao Pati e retornar a Andaraí antes do início da expedição. Retornamos daquele ponto. Subir a ladeira foi um esforço superior às nossas condições físicas. Chegamos no cume ao anoitecer, exaustos e sem água; bebíamos mais de 4 litros por dia e não havia fontes limpas para reabastecer nossos cantis a partir do início da subida. Resolvemos pernoitar por lá e finalizar a trilha no dia seguinte.

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Chegamos a Andaraí no dia 8, sedentos e estafados, e nos retiramos para nossos quartos. Precisávamos estar em perfeitas condições físicas até o final da semana. Dormi umas 12 horas seguidas; meus pés queimavam, minha cabeça doía, meu corpo todo sofria com aquela caminhada sem planejamento!

Dia 10 pela manhã já tinham chegado todos os participantes da expedição; os instrutores seriam a Mita (Mariana Candeias), uma jovem psicóloga e exímia escaladora da Paraíba, e o Tonhão (Antônio Calvo), um jovem canoísta, com treinamento no Canadá e muitas outras competências e habilidades que descobriríamos ao longo de nossa jornada.

DSCN0649 MITA

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De imediato, uma revisão de todas as coisas que havíamos colocado em nossas mochilas reduziu as vestimentas a pouquíssimas roupas, nenhum equipamento pessoal e nada supérfluo. Aprenderíamos a viver com simplicidade, como o exigiam os ambientes remotos, nosso destino. Deixei para trás várias camisetas, meias, bermudas, calças, um “talk about”, “baby wypes”, tudo o que antes me parecia completamente imprescindível para essa expedição.

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Os alimentos e equipamentos comunitários foram distribuídos por todo o grupo: fogareiros, panelas, benzina, temperos… a mochila ficou mais pesada, mas era tudo o que precisávamos para nossas necessidades nos próximos 15 dias longe da civilização. Partimos por volta do meio-dia em direção a Igatu. Os riachos estavam completamente secos e exibiam suas entranhas, cercados por uma vegetação ressecada e propícia para alimentar um incêndio.

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Estes se alastravam por todo o parque, destruindo as encostas das montanhas, lambendo as matas ciliares dos rios ressequidos, deixando atrás de si uma destruição sem precedentes… durante todo o dia ouvíamos as pás das hélices dos helicópteros sobre nossas cabeças, anunciando o drama vivido pela população local.

Acampamos em Igatu e saímos no dia seguinte após nosso primeiro café da manhã ao ar livre. A partir daí esta seria nossa rotina diária: tomar café, levantar acampamento, caminhar durante horas, parando somente para procurar e repor as águas dos cantis e “camelbacks”, procurar um bom local para acampamento, prepara o jantar, lavar as louças e dormir. Nas paradas tínhamos atividades de dinâmica de grupo, “feed-back” de nossa atuação e “debrieffing” das atividades. À noite, antes de nos recolhermos às barracas, uma pequena preleção sobre os objetivos individuais e coletivos da expedição, a missão, os valores e princípios da OBB (Outward Bound Brasil), e qualquer outro assunto que alguém do grupo quisesse trazer a todos para discussão.

Em pouco tempo os participantes se integraram e passaram a se comportar conforme as expectativas mais otimistas de nossos instrutores. Surpreendentemente, não havia conflitos a administrar, as lideranças se formavam e se desfaziam, dando oportunidade a todos de demonstrar suas habilidades na condução da trilha, sem vaidades pesoais, sem exibicionismos, sem intenção de fazer prevalecer suas opiniões sobre a dos demais.

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Seguimos em direção ao Pati e chegamos a um lugar bem degradado, conhecido como Cascalheira, onde alguns brigadistas se reuniam à noite para organizar os grupos de combate aos incêndios. Apesar das barracas que encontramos no acampamento, eles não estavam lá. Saímos pela manhã, orientados por bússolas e mapas da redondeza, conferindo com a localização dada pelo meu GPS. Passamos por terrenos repletos de arbustos com seus galhos secos e prontos para alimentar o fogo que se movia por todos os lados que nossa visão podia alcançar.

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Chegamos a um grande rio seco, desnudado pela falta de chuvas, formando canyons extensos e solitários, de uma beleza triste e devastada. Encontramos o que deveria ser uma cachoeira de uns 10 a 15 metros de altura, intransponível pela falta de equipamentos de segurança. Percorri o local em busca de uma alternativa, um outro caminho que nos levasse para baixo, sem riscos. Encontrei outro rio, afluente daquele, que precisávamos subir para contornar a queda d´água vazia.

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Seguimos até um ponto onde não havia trilhas nem picadas, e o mato se alastrava em todas as direções. Apesar do desconforto e do risco, entramos mato adentro até a beirada da montanha. O grupo ficou disperso e desfizeram-se as lideranças; devíamos tomar providências, mas os conflitos de opinião nos cegavam para o óbvio: alguém teria que assumir a liderança e levar a tropa montanha abaixo. Depois de muitas discussões, os líderes da expedição reassumiram suas posições, talvez frustrados por não ter surgido a liderança que esperavam de nós naquele momento.

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Chegamos ao sopé da montanha e retornamos por uma trilha à procura do rio que não conseguíramos transpor. Ao longe, no horizonte, as chamas destruíam os arbustos à nossa frente, evidenciando a catástrofe que se abatia sobre a Chapada Diamantina. Apesar de sua assustadora presença, aquele não era o maior foco de incêndio; soubéramos depois que as brigadas de incêndio sequer sabiam da existência desse foco, em uma área conhecida como Mar de Espanha.

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Na confluência do rio Paraguassu com aquele que margeávamos montamos nosso acampamento, com um sentimento de receio e dúvida quanto à nossa segurança naquele local. Levamos nossas preocupações ao chefe da expedição que decidiu, de imediato, levantar acampamento e buscar local mais protegido e seguro. Ficamos em uma clareira cujo incêndio nos dias que se antecederam já tinha acabado com todo o matagal ao redor. Já estava evidente a todos que não conseguiríamos transpor aquele obstáculo pelo trajeto original planejado.

No dia seguinte fomos para Mucugê, em busco de uma nova alternativa à progressão rumo ao Vale do Pati. Seguimos para Guiné, pequeno povoado aos pés da fortaleza de montanhas que se estendiam por quilômetros nos limites do parque e protegiam o Pati em seu interior. Acampamos ao lado de uma escola e as crianças se divertiram a tarde toda, assistindo as nossas atividades, às representações teatrais e às aulas preparadas pelos alunos, conforme orientação da OBB.

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Saímos no dia seguinte pela manhã, em direção às montanhas que tínhamos que transpor. Seguimos por uma trilha muito bonita, protegidos do sol e do calor pelas nuvens que se formavam no cume da montanha e prometiam uma melhora das condições climáticas, o que só se efetivaria muitos dias depois. Chegamos ao planalto algumas horas mais tarde, cansados mas reconfortados por termos tomado essa decisão: o trajeto era muito mais bonito, estava longe dos incêndios e podíamos, finalmente, ter certeza de que, naquele mesmo dia, avistaríamos o Pati.

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Chegamos a um mirante que dominava toda a paisagem ao redor: lá estava o Pati, majestoso e gigantesco, sob nossos pés, à nossa frente, cercado de montanhas, coberto de uma vegetação viva e perene, sobre a qual rasgavam-se as trilhas que percorreríamos a seguir. Depois de uma sessão de lanches e fotografias, começamos a descida por uma pirambeira perigosa e escorregadia e, depois de uma hora de desescalaminhada, atingimos o Vale do Pati!

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Seguimos pelas trilhas, passando por casas de moradores que viviam lá desde antes da criação do parque. Eram os guardiões das matas, protetores da fauna e da flora riquíssima dessa região fantástica e bela. Finalmente, encontramos o local onde pretendíamos acampar e onde ficamos por duas noites, à beira de um riacho de águas transparentes e geladas. Este seria nosso refúgio para desvendar alguns segredos da mata ao nosso redor.

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No dia seguinte, pela manhã, partimos com a carga mínima, para escalar o Castelo, uma montanha majestosa, da qual pretendíamos avistar todo o vale, antes do entardecer. Havia uma pequena caverna, pela qual passamos para atingir o outro lado da rocha. Aproveitei a oportunidade para dar algumas informações a respeito da gênese das cavernas, suas principais formações e ornamentos, tipos de rochas, animais que as habitam, sua importância científica, cultural e cênica.

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Do alto da montanha visualizamos uma pequena cachoeira, a do Funil, que iríamos visitar ao descer, depois do tradicional lanche e da sessão de fotos. À beira do abismo, balançando-se ao vento em um pequeno galho, um rato comia as folhas, agarrado apenas pela cauda, e indiferente ao perigo que corria.

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A cachoeira era pequena, tinha pouca água, mas foi o suficiente para nos refrescarmos e nadar no poço formado à sua frente. Finalmente, voltamos para o acampamento, executamos nossas rotinas habituais e nos retiramos para descansar. No dia seguinte deixaríamos aquele local, dando início ao nosso retorno.

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Saímos cedo e, em poucas horas, chegaríamos a uma ponte onde pretendíamos acampar ao fim daquele dia. No meio do trajeto paramos para um lanche e assistimos a uma apresentação de técnicas adaptadas de salvamento, utilizando recursos de nossa própria bagagem e de materiais encontrados no local de um suposto acidente. Juntamente com as lições de navegação, leitura do clima e técnicas de salvamento no mar, esses depoimentos acrescentaram o sabor e o tempero da expedição.

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Chegamos à ponte bem cedo, com bastante tempo para montar o acampamento, assistir a outras preleções de nossos instrutores e, ainda, tomar banho no rio Pati. No dia seguinte iniciaríamos o retorno a Andaraí. Ainda havia uma decisão a tomar: voltar pela Ladeira do Império, enfrentando o calor, a forte aclividade do terreno e a falta de fontes de água no caminho, ou procurar um novo trajeto, menos íngreme e com boas alternativas de acampamento e fontes de água.

Decidimos seguir pelo leito do rio Paraguassu e por trilhas às suas margens, que sabíamos existir pelos relatos de nativos. Logo encontramos uma trilha, bem fácil de seguir, que começou na margem esquerda do rio e logo o atravessou, seguindo pelo outro lado. Encontramos a casa de mais um morador local, que nos alertou para os riscos de ataques de abelhas e para a extensão da trilha. Seguimos adiante, mais cautelosos e atentos aos insetos. Felizmente, nada aconteceu.

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Andamos durante todo o dia; procurávamos um acampamento de garimpeiros, onde sabíamos existir uma boa área para o pernoite. Já escurecia quando, finalmente, aqueles que seguiam adiante encontraram a casa de garimpeiros, protegida por rochas altas e farta vegetação. Era um excelente local, e acampamos. À noite, um banho coletivo de rio, com direito a observação do céu, brincadeiras descontraídas, e um jantar agradável sob a luz da lua cheia.

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No dia seguinte, nossos líderes nos abandonaram: deveríamos conduzir o grupo sem a presença deles, tomando decisões sozinhos e seguindo até a ponte sobre a rodovia que liga Andaraí a Mucugê. Eles se atrasariam e seguiriam depois. Deveríamos nos reencontrar na cachoeira da Donana. Depois de uma longa caminhada, chegamos à Donana e qual não foi nossa surpresa ao encontrá-los lá, à nossa frente, inteiros, como se não tivéssemos percorrido o mesmo terreno!

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Refeitos da surpresa, tomamos um lanche e retornamos a Andaraí. Fizemos compras de frutas e legumes e seguimos para o Marimbus, um pantanal com muitas semelhanças ao mato-grossense. Lá ficaríamos acampados em uma fazenda, aprendendo a manobrar um barco canadense que deveria ser utilizado nos dias restantes da expedição, rumo ao Poço Azul, onde seríamos resgatados, ao final de 14 dias de caminhada e remo, levados de volta à fazenda e, depois, à pousada, onde terminaria o nosso treinamento. Mas não chovera um só dia durante mais de uma semana que caminháramos… como encontrar água para remar?

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Surpreendentemente, ao chegarmos ao Marimbus, a chuva despencou sobre nós. Fizemos um treinamento de técnicas básicas de canoagem no primeiro dia, e retornamos ao acampamento. Porém, aquela noite ainda nos reservava uma surpresa: durante todos aqueles dias que se antecederam carregamos uma lona, que era utilizada para cobrir o solo nos serviços do café da manhã, almoço e jantar. Também servira para nos sentarmos durante as preleções e aulas de yoga e, ainda, para dormirmos ao relento, quando as condições do local assim o permitiam. Havia, no entanto, outra função para as lonas…

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Naquela noite fomos informados que dormiríamos ao relento, sem barraca, apenas com a lona para nos servir de abrigo. Isso não teria sido problema se o tempo não tivesse decidido complicar as nossas vidas: logo antes de sermos “expulsos do paraíso”, uma forte tempestade caiu sobre nós! Tivemos que seguir sob a chuva e fomos deixados, um após o outro, em pequenas clareiras no matagal, apenas com a lona, um lanche que fizéramos às pressas, isolantes térmicos e sacos de dormir, lanterna, apito e uma folha de papel sulfite, onde deveríamos registrar nossos pensamentos sobre a experiência do FEAL em nossas vidas.

Essa carta seria endereçada a nós mesmos, seis meses depois de encerrada a expedição.

A chuva, os mosquitos, as formigas, o frio e o isolamento foram nossos companheiros da noite insone. A carta foi escrita e eu nem me lembro o que registrei na folha de papel. Voltamos ao acampamento na manhã do dia seguinte, sob a chuva que teimava em cair, e demos início à segunda parte de nosso treinamento: descer o rio Santo Antônio, passar para o Paraguassu e seguir até o Poço Azul, cerca de 40 km abaixo da Fazenda Marimbus. Remar, agora, parecia-nos a mais leve das atividades, não fora um imprevisto: as lagoas do Marimbus não se conectavam devido aos baixos volumes de águas nos seus rios formadores.

Após pouco tempo de navegação nos encontramos diante de um obstáculo bizarro: um trecho de mais de cem metros de terreno coberto pela vegetação aquática que nascia sobre uma profunda camada de lama, repleta de caramujos. Achei, de imediato, que voltaríamos, pois me parecia irracional nos arriscarmos a um contágio com o principal vetor de esquistossomose: o caramujo dos pântanos.

Mas não paramos por aí. Amarrando as cordas de todos os barcos umas às outras, foi improvisado um processo de arrasto para puxar os barcos sobre aquela vegetação que agora me parecia nojenta, enquanto os outros rastejavam na lama, empurrando os barcos. Não sei quanto tempo durou aquela atividade insana, mas os barcos transpuseram, finalmente, o obstáculo e, agora, estavam livres para navegar rio abaixo.

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Essa atividade de canoísmo foi uma das mais agradáveis da expedição, exigindo pequeno esforço e possibilitando um forte entrosamento dos participantes. Fizemos dois acampamentos ao longo do rio, acompanhando de perto o crescimento de suas águas, o que nos garantiu chegar ao destino, Poço Azul, final de nossa inesquecível expedição. Provavelmente, essa terá sido uma de minhas melhores experiências em ambiente natural. Das lições que me ficaram, um conceito se esclareceu, definitivamente em meu pensamento: “leave no trace”! Deixamos a Natureza como a encontramos… nossos filhos agradecerão!

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Lembrei-me de um pensamento, cujo autor desconheço: “La Tierra no es una herencia de nuestros padres, sino un prestimo de nuestros hijos!”

Descansei feliz e realizado…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Feliz dia de Hoje!

Dizem os discípulos de Budha: o que importa é “o aqui e o agora”. Muito se tem repetido esse aforismo, embora pouco se tenha meditado a respeito de seu pleno significado.

Não vou cansá-los tentando explicar o que me parece óbvio! Mas sei que o passado já foi escrito e o futuro ainda está por se registrar nas páginas das nossas vidas… só o presente está “aqui e agora”, pronto para ser degustado, experenciado, vivido em toda a sua plenitude! Ou então, deixado à sua própria sorte, passando ao largo de nossos olhos, de nossos pensamentos, de nossos sentimentos e ações possíveis!

[Aparados] Canyon Fortaleza - comemorando com lote 43 0036

Brindemos, pois, ao presente, que só ele nos pertence!

E à Natureza, que preserva nossa pureza, ingenuidade, simplicidade e beleza, únicas e incomparáveis! Saudemos esse Universo que nos envolve, com suas miríades de estrelas que cintilam em nossos olhos, turvos de civilização e de conflitos, obscurecidos pela brutalidade trazida pelos próprios homens à sua cotidiana vida… não é a violência das selvas que nos assusta, e sim a escuridão da alma humana, embaciada pelos vícios e ambições terrenas…

Sempre que mais um ano se completa em nossas vidas, percebemos a grandeza do Cosmo diante de nós, mas, ainda assim, continuamos apegados demais às fraquezas, que seduzem mais do que o entardecer… Não quero antever os dias que virão, com promessas que não sei se cabem em minhas possibilidades futuras… quero, apenas, viver o que o tempo me oferece a cada dia…isso me bastará sempre!

Desejo, portanto, àqueles que se importam comigo, e àqueles a quem entrego meus pensamentos, um feliz dia de hoje, a cada novo amanhecer…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica