Eu me sinto só…

Tenho 68 anos e vivo longe de minha terra natal… meu “furusato”…

Aqui não (re) conheço ninguém e ninguém me (re) conhece…

Poucos sabem quem sou, o que aprecio, que valores direcionam minha existência… e também pouco me importa que me enxerguem no meio dessa multidão…

Às vezes caminho pelas vias dessa grande cidade, admirando as obras do grande arquiteto, mas não vejo nada, senão prédios, concreto, paisagismo e urbanidade…

Curioso: Urbanidade! Essa palavra me traz significados talvez desconhecidos pelos habitantes dessa metrópole incrustada no meio do Cerrado… para mim, Urbanidade me traz à lembrança o respeito entre transeuntes, habitantes do mesmo espaço geográfico, independentemente de classes sociais ou meios de locomoção. Porém, não é isso que percebo nas inter-relações sociais de seus habitantes.

Até compreendo que, em uma megalópole como São Paulo, os seres que lá habitam tenham perdido a noção de Urbanidade. No entanto, Brasília tem apenas 58 anos! Praticamente uma criança no meio dessa imensidão territorial do Brasil Central.

Essas reflexões me trazem ao passado, nos anos 1950-60, quando essas terras ainda eram virgens do contato “civilizado” das populações europeizadas pela mordaz colonização. Aqui habitavam somente indígenas… chegar a este local seria uma grande aventura…

No entanto, nesses pouco mais de meio século, conseguimos dizimar a vida silvestre e arrasar a biodiversidade que sustenta esse grande espaço geográfico que, por sua vez, sustenta o Brasil. Pouco resta do Cerrado em tão pouco tempo da civilização qua aqui se instalou.

Nesse sentido me encontro aqui, solitário e desolado perante o futuro dessa civilização que se diz “inteligente”. Certamente não somos tão inteligentes assim… basta constatar que viviam nessa região povos “bárbaros”, selvagens que remontam a um milhão de anos! Onde estariam esses vestígios de humanoides que aqui viveram em paz?

Tudo isso são fatos comprovados pela Ciência, pela Antropologia, pela Paleontologia, pela Arqueologia, pela simples leitura das reminiscências preservadas nas ranhuras geológicas ainda não tocadas pela civilização contemporânea….

O que restará dessas terras daqui a cinquenta anos? Daqui a cem anos? Esses prazos são tão exíguos quanto a nossa memória, ou nossa curta existência e, no entanto, somos incapazes de refletir acerca do futuro daqueles que herdarão este legado.

Nada direi sobre as opções humanas nesse curto espaço de tempo de minha própria vida, pois sei exatamente tudo o que aconteceu ao meu redor em tão pouco tempo de vida… porém, causa-me surpresa, desconforto, tristeza, melancolia, desencanto, pavor… saber que nada pudemos fazer para preservar a vida para nossos descendentes… que o mundo que herdarão meus netos será muito pior daquele que herdamos de nossos próprios pais, ainda que, nesse curto período de vida tenhamos superado duas guerras mundiais e inúmeros conflitos regionais… ainda que, em menos de cem anos de História, tenhamos mudado todos os conceitos da antiga civilização europeia que nos antecedeu… é surpreendente que, em tão poucos anos, tenhamos feito tanto para mudar consciências, sem, contudo, termos sido capazes de assegurar a sobrevivência da humanidade, e sem conseguirmos romper as barreiras dos preconceitos de séculos de existência anteriores!

Por isso, vivo só… sou um ser em extinção… sou um espécime raro e inútil diante da eternidade do Universo… sou apenas um grão de areia nos desertos intergaláticos… Quem me suceder poderá afirmar que praticamos a mais nefasta política de ocupação desse pequeno planeta da constelação que habitamos… e estarão cobertos de razão.

Neste resquício de vida que me resta, nada mais me sobra senão lamentar que só percebi essa verdade quando era tarde demais… tantos anos passei lutando contra o preconceito, contra as ditaduras, contra as desigualdades sociais, e por ideologias esdrúxulas que me esqueci de me engajar na principal batalha da Humanidade: a da sua própria sobrevivência… porém, agora é tarde demais…

Essa é a sina de todos seres humanos, pois sua vida é tão curta que nada lhes resta senão refletir acerca da amplidão desse universo e da insignificância do próprio ser humano… por isso, permanecerei só, ainda que sobreviva por mais algumas poucas dezenas de anos, cada vez menos consciente, cada vez menos capaz de interferir nos destinos da humanidade. Resta-me apenas saber que, na minha curta existência, jamais silenciei, em nenhum momento me calei, mesmo quando minha interpretação do mundo real fosse tão equivocada quanto à de meus antecessores…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

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