Os Diferentes Universos

Os dias e as noites, normalmente, eram intermináveis. No começo ele se incomodava muito, porque não podia fazer nada para mudar essa situação… ele estava lá, à mercê de tudo; da presença das visitas, da presença das enfermeiras, da presença dos médicos, da presença da dor que não significava nada para ele, porque aquela dor não penetrava nele; era uma dor externa. Perfuravam-no, aplicavam coisas… e aquilo não lhe dizia mais respeito. Quanto tempo ele estava nessa situação? Não saberia dizer… apenas estava ali…

De repente, algumas memórias do passado. Ele se viu no oceano profundo… ele sabia que era um oceano, e pensava “Eu já estive aqui”. Ele via cardumes de estranhos peixes das mais variadas espécies e colorações, e até sentia, na sua pele, aquela friagem da água… e o silêncio era muito semelhante àquele silêncio que ele experimentara no mar, como ausência de tudo… mas não era uma ‘ausência de tudo’; era uma ‘presença de tudo’! Ele estava inserido naquele universo aquático, como nunca esteve inserido no universo de ar. A água tocava integralmente seu corpo. Ele estava na água como todos aqueles outros seres vivos estavam lá, diferentemente do universo fora da água, em que você está, mas se sente isolado, ali você é Um com o Todo! Você faz parte do Todo! Você é o Todo.

E aí ele percebeu, naquele instante, a diferença entre o ‘mundo Terrestre’ e o ‘mundo Submarino’, o mundo das águas e o mundo do ar… e aí ele percebeu também a leveza do ar… estranho… quando ele caminhava de manhã ele sentia aquele ar fresco, aquela temperatura agradável… ele sabia que o ar estava lá, mas ele não o viu lá. E agora, nesse oceano infinito, ele sentia intensamente a sua presença num corpo gigantesco que era todo formado de água! Essas sensações começaram a se alternar, e ele conseguia até deslocar a sua presença imaginária entre um ambiente de ar e um ambiente de água, um ambiente de fogo, de calor intenso, e um ambiente de frio, um frio insuportável… e ele começou a experimentar essas sensações como se elas pudessem ser manipuladas. Ele se alternava entre cada um desses universos com a maior naturalidade, como nunca teve em vida.

E ele percebeu que aquilo era uma sensação nova, única, que não poderia ser compartilhada com ninguém… porque ele estava só. Ele não tinha como se comunicar, nem com quem se comunicar… como sair daquele seu ambiente de solidão e de imobilidade, e se deslocar para o movimento, onde estão todas as pessoas ao seu redor. E ele sabia da sua existência: eles estavam ali, mas, ao mesmo tempo, ele não interagia com elas, ele não pertencia a elas e nem elas a ele. Eram dois mundos isolados, incomunicáveis… no entanto, dentro da sua percepção da consciência, ele tinha vários mundos diferentes, e poderia permanecer em cada um deles, separadamente, isoladamente, obtendo todas as sensações que na sua vida consciente ele nunca percebera. Ele já mergulhou muito… mas a sensação dessa plenitude de consciência ele nunca tivera em vida… e assim, ele adormeceu.

Naquele dia Rúben acordou diferente. Não era um adulto… era uma criança. E ele percebeu que estavam correndo, brincando… mas percebeu também que era diferente das outras crianças, porque podia brincar com elas, mas a sensação que tinha era de um mundo seu, que ele não podia compartilhar. Brincadeiras de pique, corre pra lá, corre pra cá… Estavam todos nessa algazarra de crianças gritando por todo lado. Mas ele era como uma ilha… ele também corria… ele também gritava… fazia tudo que as outras crianças faziam, mas percebia que não estava naquela brincadeira. A presença dele vinha de outro universo. E começou a refletir como, em sua vida toda, sempre fora uma ilha, mesmo nos momentos mais íntimos com sua mulher, com sua família… mesmo assim, quando ele falava, era como se falasse de dentro de um mundo seu, para transmitir uma mensagem para o mundo que está lá fora. E ficou a pensar: “será que todos os seres humanos são assim? será que cada um tem seu próprio universo, e da intersecção desses universos é que se processa a comunicação?”… só que ninguém consegue realmente compartilhar sua vida com outro ser, a não ser por palavras, por atos, pela presença física… mas a alma, não! Ela estava lá dentro guardada, protegida, disfarçada… naquele mundo em que estivera imerso durante toda sua vida…

70 anos de vida… aquele mundo era apenas o seu mundo, a realidade que ele via, que ele sentia, que ele percebia, e era apenas dele… ninguém mais percebia a mesma realidade… será que as cores, os sabores, o tecido das coisas, será que cada um tinha percepções diferentes das suas? Será que aquilo que ele dizia ser vermelho, na verdade era igual ao vermelho que os olhos das outras pessoas também percebiam, ou apenas por uma convenção, todos chamavam de vermelho as percepções diferentes da mesma cor? Ou será que cores diferentes davam a mesma percepção para pessoas diferentes? De repente, ele se deu conta de que não existe apenas um universo, mais bilhões de universos, e o universo de cada um não está fora de nós. O universo está dentro de cada ser, e por isso, torna-se impossível duas pessoas se comunicarem. Qualquer comunicação entre duas pessoas é apenas um meio de transmitir uma mensagem, cujo entendimento não se garante que seja sempre o mesmo.

Há um consenso nesse processo de comunicação que permite que os seres se comuniquem. Mas, dentro de cada um, dentro de cada ser, há um entendimento único, incompartilhável… e ele se percebeu, pela primeira vez, completamente solitário… Mas, já naquele dia, sua percepção despertou para conversas ao seu redor… ele ouve aquelas pessoas… estavam todos ali ao seu redor. É curioso que nesse novo estado, já não dava para ele perceber a voz de cada um como sendo vozes distintas, e que ele conhecera em vida, como se cada voz pertencente a um ser, um filho, uma filha e um neto, à sua própria mulher. Não, as vozes eram todas iguais, o ritmo das palavras era sempre o mesmo. E aí ele percebeu que, nessa uniformidade da comunicação, a própria comunicação se perdeu. Ele ouvia, mas não concatenava as palavras… era como um burburinho, como quando você está na multidão, que você escuta fragmentos de conversas, mas não consegue construir uma frase, ou reconstituir uma comunicação. Você não consegue discernir entre as frases ditas por uma pessoa e por outra. É como se você não soubesse de onde vêm aquelas palavras, e que elas estão misturadas, não em frases coerentes, mais soltas pelo espaço; e que você só consegue perceber a palavra quando decodifica cada fragmento numa ordem exata, perfeita… naquele dia ele não era capaz de concatenar nenhuma das falas ao seu redor.

Sabia que estavam todos conversando… até imaginava que fosse a respeito dele, porque havia certo cuidado em elaborar as frases, na manifestação das palavras. Mas o que eles estariam a dizer? Às vezes, o tom aumentava, outras vezes baixava, às vezes era um murmúrio ou sussurro, como se quisessem esconder dele alguma coisa como se ele ainda não soubesse. Mas, na verdade, ele não sabe de nada, porque não se interessava pelo que estava sendo dito ali. Aquela sensação perdurou por muito tempo, até que o silêncio se fez.

Então, para Rúben, aquelas palavras que estavam soltas no espaço começaram a fazer sentido… era como se reconstituíssem, espontaneamente, as palavras, as frases ditas, e elas passassem a ter um significado real para ele. De fato, elas falavam a respeito dele, a respeito do estado de saúde dele, irreversível… e diziam não só do sofrimento dele, mas do sofrimento de cada um por vê-lo nessa situação, de cada um por ter que se deslocar de suas casas para visitá-lo. Com que frequência será que eles visitavam o próprio pai, o avô? Então, ele percebeu que era, de fato, um estorvo na vida das pessoas a quem ele mais queria bem. No entanto, essa constatação não o fez sentir-se infeliz, pois, de fato, ele entendia que era um estorvo; e, de alguma forma, ele também queria dar um fim nisso… quantas vezes ele pensara “como seria bom se eu parasse de viver…”.

Ele pensava realmente em pôr fim a essa situação; não que ela o incomodasse; honestamente, ele não estava sentindo incômodo nenhum. Já teve outras situações assim. Porém, ele sabia que era um peso para todos da sua família, mas não podia fazer nada. Ele não controlava nem a própria respiração, não tinha movimentos, não era capaz de paralisar o sangue que corria incessantemente em suas veias; então, a sua existência não mais lhe pertencia; e, nesse estado, de repente, começou a notar que, de fato, sua família sentia uma imensa tristeza por ter que conviver com ele assim. Mas nada podia fazer. Foi depois desse dia que conseguiu compreender o que eles estavam começando a refletir… e como pôr fim a esse sofrimento. Foi a primeira vez que ele ouviu a palavra ‘eutanásia’; foi a primeira vez que ele ouviu o médico explicar aos seus familiares o que era a eutanásia… como realizá-la sem sofrimento, sem dor… e o que a lei dizia a respeito da eutanásia. Eles falavam que era possível desligar os aparelhos; só que agora ele já não tinha mais aparelhos para serem desligados; estava no quarto. A única coisa que ele recebia era soro, alimento, e medicamentos; e isso a lei não permite suprimir.

E ele vivia assim, uma vida que nem ele, nem ninguém queria, por que era uma vida em que nada podia compartilhar com ninguém, a não ser o sofrimento; e, ao mesmo tempo, todos eram escravos da situação. A partir desse momento, Rúben começou a ter consciência de tudo que eles pensavam. E sentiu que não só as suas memórias tinha retornado, plenas, mas que também ele podia conduzir o seu próprio pensamento pela primeira vez, depois de tanto tempo, que nem mesmo ele saberia dizer quão longo era…

De qualquer forma, agora Rúben tinha consciência de que podia construir mentalmente os seus próprios raciocínios. Com base nesse raciocínio, ele refletia “será que eu ainda consigo voltar à minha consciência? Será que um dia eu ainda vou poder conversar com meus filhos, abraçar meus netos, contar histórias, relatar essa experiência do vazio que eu tive? Será que, da minha vida, ainda resta um trecho a ser vivido?” Nesse momento ele sentiu medo. E percebeu que a família caminhava em busca de uma tentativa de pôr fim a esse sofrimento, e que, de repente, a vida dele poderia se extinguir, sem que ele tivesse voltado a conversar com seus familiares. Nesse instante, ele achou que poderia reviver. Poderia despertar cada célula do seu corpo, de modo que algum movimento começasse a acontecer. Quem sabe, um piscar de olhos… quem sabe, o mover de um músculo, o derramar de uma lágrima… quem sabe, o articular de um som ou até mesmo transmitir, mentalmente, um sentimento diferente para aqueles a quem ele queria tão bem. Ele passou a se dedicar, dia após dia, noite após dia, a tentar construir uma imagem mental que o retornasse à vida. Passava longas horas experimentando novos pensamentos… tentando reconstruir, mentalmente, suas células… passava momentos intermináveis tentando articular um som, tentando, ainda que minimamente, mover seus olhos… suas pálpebras… No seu pensamento, ele até fazia isso; Porém, ninguém ‘ouvia’ seus pensamentos, o que significava que nada, como efeito disso, acontecia na prática. Depois de tanto tempo, ele percebeu que isso lhe causava uma imensa angústia. De certo modo, ele se sentia como um condenado, sendo conduzido ao patíbulo para uma sessão de enforcamento. Diante dessa situação, ele optou por não pensar mais… desistiu desse propósito. “Vou pensar de outra forma… já que estou sozinho, já que eu não tenho mais contato com ninguém, vou construir meus castelos… vou edificar um novo mundo, que será apenas meu”. A partir desse dia, ele passou a ignorar toda presença ao seu redor. Passou a concentrar-se em si mesmo, nos seus pensamentos, nas construções mentais… e nas vivências espirituais, como um despertar da sua consciência. A cada dia, ele já tocava toda sua energia mental na construção do seu universo paralelo. Edificava templos onde fazia sua meditação, construía paisagens maravilhosas onde experimentava a sensação de estar em um novo ambiente, completamente puro, selvagem, intocado, onde só o Bem existiria.

Isso o deleitava, de certo modo. Mas ele não sabia se era um deleite ou se era, simplesmente, uma sensação letárgica, sem um significado específico… já não percebia mais as presenças à sua volta, nem as manipulações que faziam em seu corpo durante o tempo que estava sobre aquela cama. Nem coisa alguma em relação a nada no mundo material fora dele. Durante um certo tempo, essa foi sua parte na longa permanência no hospital. Será que, fisicamente, seus parentes já o olhavam como uma figura diáfana, quase desprovida de matéria, que ia desaparecendo, aos poucos, naquele leito de hospital, enquanto sua família planejava seu destino, sem ele saber? Era triste sentir a vida indo embora tão lentamente, quase imperceptível, tão longos eram os dias, tão curtas eram as noites. A cada dia, era como se uma parte dele tivesse se esvaído e, mesmo sem conversar uns com os outros a esse respeito, todos tinham esse mesmo sentimento.

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Um comentário em “Os Diferentes Universos

  1. Pingback: Sumário | NA IMENSIDÃO AZUL

Aguardo sua resposta...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s