Missão Cumprida!

A sensação de terminar um projeto tão longo, com tantas e diferentes dificuldades, sem patrocínio e apoio oficial de nenhuma organização, desconhecido pela grande mídia, é indescritível! Consegui vencer por meu próprio mérito e pelo apoio conquistado pelo caminho… os três últimos dias foram particularmente difíceis; depois que deixei aquela linda praia de Gararu segui em direção a Porto Real do Colégio e Propriá. Saí de madrugada, ainda noite, para evitar os fortes ventos e a agitação do rio, cada dia mais intensos.

O rio estava plácido, dormindo, como diz a lenda, e o barco deslizava rápido por aquele lago noturno. Logo passei por Traipu… fiz umas fotos sem graça e segui adiante. O que mudou muito na paisagem, desde Xingó, é que agora as ilhas eram pequenas, baixas e cobertas por uma densa vegetação aquática e arbustos verdes…

O rio voltou a ser largo, mas a água continuava límpida e verde esmeralda. No entanto, essa vegetação aquática, muitas vezes submersa e formada por algas longas, quando exposta ao sol apresenta cheiro desagradável.

Quando me aproximei de Porto Real do Colégio ouvi fogos e muita música, embarcações com grandes velas coloridas e “gaiolas” de todos os tamanhos. O barco da “família real” já havia passado por mim e quase me afundara na noite anterior. Por isso, fiquei atento, tentando evitar as fortes ondas que eles fazem ao passar. Havia uma grande estátua de Nosso Senhor dos Navegantes no meio do rio e parei de remar para fotografá-la; isso me custou caro, pois as ondas eram fortes, e tive que fazer manobras rápidas para evitar ser apanhado por elas…

Não consegui parar na cidade, nem atravessar até Propriá, porque a algazarra era demais para meus hábitos solitários e o rio estava violento. Pouco antes da grande ponte da BR 101 parei sob umas árvores para descansar. Amarrei o barco como pude e fiquei apreciando o vai-e-vem de barcos, alguns rápidos e movidos a vela, outros lentos, com motor de rabeta, rangendo e lutando contra a correnteza e as ondas.

Fiquei algumas horas parado, analisando as alternativas: por baixo da ponte, a densa vegetação e inúmeras ilhas não me permitiam compreender o caminho; pensei em passar a noite ali, pois o barco estava estabilizado e era um local tranquilo e protegido.

Porém, na ânsia de prosseguir e chegar o mais breve possível até o final, decidi arriscar a sorte e prosseguir. Eram 12 horas. Uma hora e meia depois, lutando contra as águas raivosas do rio, sendo jogado ora para um lado, ora para outro, fazendo manobras bruscas para evitar que o barco girasse sobre si mesmo e eu perdesse o controle, usando todas as minhas forças inutilmente, eu andara menos de dois quilômetros e apenas passara por baixo da ponte… os sons das cidades ainda eram fortes.

Tentei encostar em um barranco e acampar, mesmo em um pasto, mas a canoa batia na lama do barranco sem vegetação e as formigas me devoravam enquanto eu tentava encontrar um meio de retirar as tralhas. Depois de algumas tentativas frustradas, desisti e voltei para a tormenta. Lembrava-me do filme “Mar em Fúria”… esse era o meu “rio em fúria”, mantidas as proporções… meu barquinho, uma “casca de noz”, era jogado sem piedade!

Progredia de forma insignificante, mas precisava encontrar algum lugar protegido no meio daquela barreira de terra destruída. Uns 200 metros adiante vi uma pequena moita de calumbi e capim, e me apeguei a essa possibilidade. Remava com todas as minhas forças e, alguns minutos depois, joguei o barco de lado, forçando-o contra o capim e lá me refugiei, apesar dos espinhos e insetos.

Era evidente a ação protetora daquela simples vegetação para o barranco! As ondas e a correnteza eram domados por uma pequena moita de arbustos… mas os estúpidos fazendeiros continuam a devastar até o último pé de capim, mesmo que o rio venha a cobrar o seu tributo, levando as terras para dentro de seu leito e retirando o medíocre ganho de espaço conquistado pela ganância desses homens.

Amarrei precariamente o barco e me ajeitei como pude no pequeno espaço interno. Sabia que a espera seria longa e cansativa, pois o rio só adormece depois da meia-noite. E ainda teria que esperar pela luz da lua, cada vez mais tardia… já era quarto-minguante e sua tênue luminosidade ainda permitia navegar.

Saí de lá às duas horas da madrugada, sem dormir, sem comer e picado pelos insetos, com o corpo todo dolorido da incômoda posição. O rio voltara a ser calmo e meu barco parecia um caiaque, deslizando célere pela lagoa encantada em que se transfomara o meu “Velho Chico”.

Remei intensamente, cada vez mais motivado pela possibilidade de encerrar a expedição. Mas o céu se cobria de pesadas nuvens e a visão do rio era precária. Felizmente, não havia nenhuma outra embarcação com a qual eu pudesse me chocar inadvertidamente. Éramos apena eu, com minhas remadas compassadas e firmes, quebrando a magia do lago e o silêncio do caminho…

De repente, começou a chover. Olhei para o céu e era todo nuvens , densas e carregadas. Tive receio de uma tempestade: vento e chuva seriam os ingredientes ideais de uma tragédia, pois ali, a mata era um só manto negro nas margens do rio…

Felizmente, a chuva cessou tão rápido quanto viera, e eu continuava remando com todas as forças. Pela manhã, ao nascer do sol, eu já estava em Penedo, uma cidade curiosa, protegida por uma espécie de enseada longa e curva, que me obrigara a atravessar para a margem direita, contornar o “istmo” e retornar à margem esquerda. A escuridão fazia tudo parecer misterioso… via imagens e as interpretava conforme meu sentimento, às vezes imaginando cenas inexistentes, outras valorizando detalhes insignificantes…

Havia algum movimento de barcos de pescadores e uma balsa, que levava carros, pessoas e mercadorias para o outro lado, onde também havia um povoado. Luzes coloridas piscando intermitentemente, e música indicavam o final de uma festa, talvez a mesma que agitava Porto Real e Propriá…

Pensei em talvez encontrar algum bar ou quiosque ainda aberto, com aqueles bebedores renitentes, onde poderia encontrar comida… talvez até uma padaria, pois a fome estava me alertando sobre o vazio em meu estômago. Mas não havia nada! O som ecoava no vazio da noite e decidi parar o barco ao lado da balsa, sob um poste iluminado. Tomei dois goles de mel; era o que estava à mão naquele momento.

Um pescador se aproximou e “puxou conversa”. Perguntou de onde eu vinha, de que era feito meu barco e coisas assim… e disse que se eu achara os ventos fortes até então, é porque não conhecia o que havia adiante! É que a proximidade do mar agora influenciava o rio e, na maré enchente, ele recuava por quilômetros, criando ondas mais fortes e mais altas, além do vento incessante.

Eram seis horas da manhã quando saí de Penedo. Já ventava um pouco e havia uma sucessão de ondas vindo em minha direção, mas eu progredia bem e não me importei com o esforço extra.

Às sete horas encontrei uma região belíssima – acho que o nome é “Marituba” – com ilhas e margens cobertas de rica vegetação. Pela primeira vez desde Paulo Afonso eu voltava a ver e ouvir os pássaros! A água parou e as ondas desapareceram, como por encanto. Pois era assim que eu me sentia, encantado com aquele paraíso; reduzi a marcha e comecei a passear pelo rio, meditação em movimento… era como uma espiral, girando sobre si mesma, e escolhi o caminho mais longo para apreciar essa maravilha!

Alguns pescadores jogavam suas tarrafas e os peixes saltavam ao meu redor. Mas, aos poucos, percebi que boa parte daquele lugar já havia sido profanada! Nas ilhas, por detrás das matas, plantações de coqueiros; nas margens, depois da estreita vegetação, o gado tomava conta de tudo!

Sentia o cheiro de mata queimada e molhada pela chuva e, logo depois, uma grande extensão de terra desolada pelo fogo recente, os troncos enegrecidos e retorcidos, à margem do rio… o encanto se quebrou… ainda vi algumas belezas, como um trecho de areia branca, quase à superfície da água; depois uma enorme vegetação de algas submersas, balançando-se ao movimento do rio… e mais nada!

Voltei ao rio, normal e agitado pelos ventos. A chuva também voltou e temia não conseguir chegar a Piaçabuçu antes do vendaval. Já passava das nove horas e teria ainda cerca de 15 quilômetros pela frente, pelas marcações do GPS. O vento aumentou depressa e resolvi parar, pois estava exausto! Encostei sob umas árvores e fixei a canoa. Desci e limpei o lugar, pensando na possibilidade de pernoitar ali. Pelo menos não havia formigas, e tinha até uma minúscula praia para eu tomar um banho. Mas não tinha espaço para armar a barraca e teria que dormir no barco pela segunda noite consecutiva; isso me incomodava…

Aproveitei para colocar tudo em ordem: pendurei a toalha e a rede, tirei a água do barco, tomei banho e falei com minhas filhas pelo celular, dizendo que poderia me atrasar bastante. Muitos barcos passavam por mim e confesso que tive muita vontade de “pegar carona” e chegar logo ao meu destino…

Segui adiante uma hora mais tarde, quando o vento diminuiu de intensidade. Estava perto de Brejo Grande, a última cidade de Sergipe antes da foz. Mas tive que parar novamente, pois voltou a ameaçar chuva e o vento aumentou bruscamente. Encontrei um abrigo e cobri a canoa com a lona do acampamento. Preparei um leite com chocolate e estava já decidico a ficar por ali mesmo.

Mas depois de algum tempo, perto do meio-dia, resolvi retomar a viagem. Lembrei-me das marés e pensei que, agora, na vazante, elas poderiam me ajudar, puxando o barco com a água do rio, em direção ao mar. De fato, apesar do vento e de algumas ondas, o barco voltou a progredir e andar rápido. Era curiosa a ilusão óptica: remando contra as ondas, o rio parecia subir uma leve ladeira! Havia muitos aguapés nas margens.

Passei por um lugar apelidado “Penedinho”, uma espécie de clube de campo com várias casas, muitos barcos e até “jet-ski”! Nas propriedades colocaram cercas de arame farpado dentro do rio, impedindo os barcos de atracar! Um absurdo inaceitável! O rio é de todos, uma concessão de uso! No dia anterior eu tinha sido atacado por dois “hotweiller” em uma propriedade dessas, casa de luxo, talvez um marajá da era Collor… agora me mantinha distante da margem, por precaução…

Avistei Piaçabuçu às 13 horas. Bem antes de chegar à cidade, uma longa sucessão de barcos evidenciava uma vila de pescadores. O rio voltou a se agitar, mas agora, com essa visão de “fita de chegada”, nada mais me seguraria! Remei intensamente, não me importando com as ondas que faziam a popa do barco se levantar e bater com força nas águas… até gostava desse barulho!

Cheguei a Piaçabuçu e observei o portal à frente, onde se descortinaria o mar… estava, finalmente, no final de minha jornada! Consegui vencer! Uma sensação indescritível!

Parei para me orientar e um pescador me informou que havia uma pousada logo à frente. Segui margeando a orla, que se contorcia à esquerda, alargando o rio antes de se lançar no oceano.

Muitos barquinhos coloridos estavam ancorados na baía, à frente de uma parede de contenção. Logo avistei a pousada e, finalmente, ancorei. Podia comemorar!

Estava completada a expedição que durou 99 dias de atividades intensas, três meses parado em Três Marias, cinco meses de planejamento, uma despesa enorme que consumiu todos os meus recursos e muito mais, e um ano inteiro dedicado ao rio que deveria ser tratado com dignidade, motivo de orgulho de todos os brasileiros.

No entanto, o sentimento que me resta é uma tristeza enorme pelo descaso do poder público em todas as suas esferas, a ignorância extrema de fazendeiros e pequenos agricultores, a falta de planejamento para a propalada revitalização, e o alarde eleitoreiro de uma grande obra que, ao invés de atender às carências dos ribeirinhos, levará as águas do Velho Chico para outras bacias do Nordeste, para as grandes cidades, para a agro-indústria, mas não para a população rural, de 12 milhões de pessoas, que continuará dependendo dos carros-pipa para poder sobreviver!

A transposição não resolverá os problemas do semi-árido porque quem a projetou não sabe o que é o Sertão, como vive esse povo, do que ele, de fato, necessita para recuperar esse atraso tecnológico e cultural em que se encontra.

A sensação que eu tive ao visitar a maioria das comunidades, principalmente do oeste baiano, é de uma volta ao passado, cinquenta anos atrás, na época da minha infância. Casas de taipa, carros de boi, nenhuma oferta de cultura, economia de escambo ou predatória, pessoas sem perspectivas ou ambição, desemprego, intensos conflitos de terra, exploração da ignorância pelos apelos da fé e das promessas de políticos corruptos, cidades que não tem receita para reverter esse quadro lastimável!

Com a falta de oportunidades e de emprego, os poucos filhos dessa terra que saem para estudar e conseguem uma formação superior abandonam seu lar ancestral e seguem para os grandes centros urbanos.

Centenas de minúsculas comunidades vivem nesse espaço sem perspectivas, e sua única ambição é um pouco de água, um pedaço de chão e condições de cultivar seus alimentos e cuidar da criação. Rezam para que a chuva chegue a tempo de molhar sua plantação para que possam alimentar sua prole que, não raro, se compõe de seis, oito, dez filhos, uma pequena criação de cabras, algumas galinhas, uns poucos porcos, uma ou duas vacas, todos criados soltos, partilhando de sua vida camponesa.

As “ONGs” que aqui atuam incendeiam esse cadinho de tensões sociais, que derrama sua lava nas lutas pela terra, sua ocupação e posse definitiva, conqusitada, às vezes, sem eliminar os conflitos.

Algumas comunidades afirmam ser quilombolas ou indígenas para agilizar a pesada e ineficiente máquina federal, ainda que suas feições sejam as mesmas de todo povo sertanejo, e quase todos tenham perdido a memória de seus antepassados, sua lingua ancestral, seus costumes, suas crenças, sua história, enfim.

A quem interessa essa pobreza imensa? Às igrejas de todos os cultos, que asseguram seus “rebanhos”, aos políticos de todos os matizes, que a transforma em mote eleitoreiro na sucessão dos anos, aos movimentos sociais e às “ongs”, que delas, as pessoas, fazem sua bandeira e sua luta. E, com isso, o semi-árido, verdadeira nação são-franciscana, se esfacela em um misto de fé inabalável e em sua única expectativa de redenção, depois desta vida…

E, com isso, o rio caminha para a sua própria morte, das águas, dos povos, dos animais e da vida em todas as suas manifestações naturais e selvagens. O que será desse povo quando o rio não for mais capaz de se sustentar e mergulhar na entropia irreversível da auto-destruição?

Talvez a culpa seja atribuída ao passado, mas é no presente que agem, intensas, essa forças da destruição. E assim como os demais biomas nacionais, vamos dizimando a Natureza, consumindo as riquezas de nossa redenção.

Somos o país mais rico do mundo em biodiversidade, em hidrologia, em miscigenação racial, em sincretismo religioso… mas não somos capazes de preservá-los e de utilizá-los como alavanca de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, sem demagogias ou mentiras.

Ainda assim, depois de transformar o meu Velho Chico em minha morada e paixão por tanto tempo, posso afirmar que esta foi a maior e mais intensa experiência de minha vida, em aprendizado, em transformações intelectuais, pessoais e definitivas.

Se saberei convertê-las em um produto cultural, se minhas palavras se coverterão em um livro, se esse livro influenciará pessoas e influirá em outros destinos, só o futuro me responderá.

Mesmo que nada mais aconteça eu me transformei, perdi minhas poucas vaidades, fiz dessa expedição um processo peregrino e missionário, e influenciei meu futuro e meu destino. E posso afirmar que valeu a pena!

Faria tudo de novo?

Certamente, não! Porque assim como as águas que nascem da Canastra nunca são as mesmas, ainda que voltasse a cada uma dessas localidades por onde passei, e percorresse os mesmos caminhos, meus olhos já não seriam os mesmos e contemplariam tudo de modo diferente, mais amadurecido, talvez, menos extasiados, certamente, mas com outros sentimentos, diferentes até na perplexidade e no encantamento que só existem no primeiro encontro.

Sou, portanto, mais uma vítima desse rio, um apaixonado que vê a sua amada sendo estuprada pela ganância e pelos interesses mesquinhos e imediatistas que a levarão à morte inevitável e cruel…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica