A Vida fala por si

Difícil é envelhecer. Dizem que começamos a envelhecer no dia em que nascemos, mas isso não é verdade. Nosso corpo começa a mostrar sinais de envelhecimento quando os olhos já não mais conseguem se fixar nas palavras de um livro, quando as idéias se confundem no embaralhamento dos sentidos, quando a mente manifesta a intenção de agir, mas o corpo não reage no momento esperado. Envelhecemos quando a paciência deixa de ser uma de nossas virtudes, quando o corpo declara a dor que se instala, cruelmente em cada articulação. Envelhecemos quando, finalmente, admitimos esta realidade.

Não é verdade o eufemismo da terceira idade, da “melhor idade”! Só os tolos acreditam nisso. A velhice é a idade da solidão, da melancolia, da insegurança e do sofrimento. Mesmo a alegria, quando chega, é contida, temerosa de seu inevitável fim. Manifesta-se cautelosamente, incrédula, quase triste…A velhice é a espera da morte, sem eufemismos, crua e cruel. É a certeza de que o nosso tempo passa a ser contado em ordem decrescente, o quanto ainda temos para sofrer e suportar as dores do envelhecimento. E a única esperança é que ela venha rápido e dure pouco. O medo de ficar em uma cama, entregue aos cuidados de um estranho, um estorvo para os filhos, uma presença indesejada, esse é o sentimento que acalenta nossos pesadelos.

Já não é assim para aqueles que acreditam em Deus. Os crentes ainda esperam pela “providência divina”, pelo “paraíso”, pela “ressurreição”; mas nós, ateus, sabemos que a morte é, simplesmente, o fim de uma vida. E nada haverá depois da vida. Essa é a razão das religiões terem tantos adeptos: quem, afinal, consegue encarar o vazio após a morte? O NADA? A ausência absoluta de tudo o que fomos em vida? Como, enfim, viver, se sabemos que nada temos e nada levaremos no desenlace de nosso cordão umbilical com esse inferno terreno?

Pior do que morrer, seja lá como for, é o sentimento claro, a percepção inequívoca de nosso envelhecimento, a perda de nossas capacidades adquiridas ao longo do caminho, o isolamento dos jovens, que já não mais nos compreendem, a consciência de que tudo aquilo porque lutamos foi, simplesmente, inútil… para que “Causas Altruístas” se mesmo o mundo, tal qual o conhecemos, perecerá um dia? Por que acreditar que a Natureza é bela, se nossa percepção do mundo é limitada por sentidos frágeis? Seria, o que vemos, a verdadeira natureza das coisas, ou apenas a ilusão de nossos olhos e de nossas mentes? Seria, o que sentimos, Amor, ou tão-somente um apego primário a outro ser, temerosos de nossa própria solidão?

Sim, a Vida é efêmera… mas pior ainda é temer que mesmo esse curto existir foi fundamentado em percepções equivocadas, ilusões de nossa mente! Resta-nos, apenas, admitir a insignificância do ser, e deixar que a areia escorra, lentamente, levando-nos com ela para o infinito inexistente…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

A POLÍTICA A SOCIEDADE E O GOVERNO DO FUTURO

Cyberspace: o mundo do futuro, onde as distâncias perdem o significado

Muito se fala sobre “Reforma Política”, “Reforma do Estado”, “Reforma das Instituições” e outras “reformas” necessárias à contemporaneidade do mundo. No entanto, tais reformas, tal como têm sido concebidas e propostas, nada possuem de contemporâneo e muito menos de visionário. Tratam-se apenas de adaptações que ignoram as transformações extraordinárias que vêm ocorrendo, principalmente, em função das novas tecnologias da Informação e da Comunicação. Não são meras mudanças decorrentes da tecnologia, mas a superação dos espaços, tais como concebidos em eras anteriores ao século XX.

Para se compreender a complexidade desse “Admirável Mundo Novo” e os impactos que dele advirão para as sociedades do futuro, é necessário antever algumas das possibilidades tecnológicas e as transformações que acarretarão na vida humana. Basta, porém, ter a convicção de que as instituições que existem hoje não terão lugar na sociedade do futuro. E esse futuro já bate à nossa porta, e as tecnologias existentes já permitiriam que essas transformações se processassem, não daqui a dez, cinquenta ou cem anos, mas agora!

O que certamente desaparecerá nesse mundo novo? O papel, os automóveis, o petróleo, os latifúndios, as aldeias, o casamento, as cadeias, a polícia, o exército, as assembleias, câmaras, congressos, partidos políticos e outras associações, a propriedade privada, os escritórios e organizações, os cinemas e as salas de espetáculo, as igrejas e as religiões, as escolas, os animais de abate, os zoológicos, a carne como alimento, o esgoto e os lixões, os fios, as linhas de transmissão de energia e as hidrelétricas, as ideologias e as guerras.

Muitos se perguntarão como seria possível um mundo sem essas instituições e sem esses objetos e conceitos, hoje essenciais para a vida de qualquer ser humano. Mas, se observarmos atentamente, todas essas “coisas” e conceitos são primitivos, e vinculados às características de nosso mundo em transição. Assim, passarei a descrever cada um deles e as causas de seu desaparecimento.

PAPEL. Só existe porque é usado, ainda, como meio de comunicação. Porém, as tecnologias digitais já tornam supérfluo e inaceitável o “papel” como mídia destinada à veiculação de idéias, de notícias e de conhecimentos. Estou escrevendo em um meio digital, para ser publicado em um espaço virtual, para conhecimento de milhões de pessoas que se interessem pelo tema e que sejam estimuladas pelas “tags” (ou palavras-chave) que eu colocar em minha mensagem. Tudo sem usar o papel. Além disso, o papel é fruto da destruição das florestas.

AUTOMÓVEIS. Como meio de transporte, os automóveis são resquícios de uma sociedade aristocrática e ineficiente. Todas as vias construídas para esse tipo de veículo são sub-aproveitadas, assim como o próprio veículo per se, que ocupa o espaço de dez pessoas sentadas em um veículo coletivo, mas transporta, em média, apenas duas. Veículos individuais e coletivos, percorrendo trajetos planejados, utilizando energias renováveis, substituirão os automóveis assim que outros paradigmas sociais tenham sido removidos.

PETRÓLEO. Simples corolário do item anterior, além do resultado do esgotamento desse combustível fóssil, o petróleo desaparecerá assim que sua produção e comercialização sejam inviabilizados pela produção de outras formas de energia renováveis, mais econômicas e não poluidoras. Talvez mesmo antes de que os investimentos do pré-sal tenham sido amortizados, o petróleo já terá se transformado em uma fonte proibitiva e inviável, política e economicamente, superado por fontes limpas e sustentáveis de energia.

LATIFÚNDIOS. Esse tipo de lavoura, que utiliza espaços gigantescos com baixa produtividade em relação ao consumo humano, e com enorme impacto sobre o meio ambiente, deverá ser substituído por fábricas de alimentos sintéticos, resultado do desenvolvimento da biogenética e de novas versões de transgênicos que não dependam do solo para sua fertilização e produção. Os latifúndios são o reflexo de uma sociedade feudal inaceitável, e que já deveria ter sido extinta, pois é geradora de privilégios e comportamentos inadmissíveis em um mundo superpovoado, como será a Terra no final deste século.

ALDEIAS. Pequenas aglomerações humanas se tornarão impossíveis em um mundo cujos espaços sejam cada vez mais insuficientes para abrigar uma gigantesca civilização cibernética. A ideia romântica de vilas, povoados e aldeias dará lugar ao pragmatismo da sobrevivência da espécie humana. Comunidades indígenas, quilombolas, de lavradores e ribeirinhos não caberão nesse mundo novo que se prenuncia. Serão absorvidas pelas novas cidades cibernéticas.

CASAMENTO. A união conjugal vem passando por transformações históricas. Embora a homossexualidade seja tão antiga quanto o homem, só neste século é que a sociedade passou a admitir que a escolha de parceiros sexuais é uma decisão que não cabe à sociedade julgar, em termos de moralidade. Por outro lado, o casamento, que nas suas origens representava a bênção da igreja para a procriação, deixou de fazer sentido com essas modalidades conjugais, tornando-se mero contrato social destinado a assegurar os direitos de cada parte na união.

CADEIAS. Prisões são feitas para isolar o indivíduo que quebra as regras de convivência social, em prejuízo de alguém que se sentiu lesado, ou como prevenção a novos crimes praticados contra a sociedade. Com o crescimento demográfico, as cadeias passaram a ser amontoados de pessoas, sem que pudessem cumprir a finalidade a que se propõem, qual seja a de dar ao prisioneiro uma oportunidade de se redimir pelos erros cometidos e se reintegrar na sociedade. A sociedade do futuro terá outros mecanismos e instrumentos para controlar e fiscalizar esses indivíduos, sem que, para isso, tenham que ser afastados do convívio social e serem mantidos em celas que mais parecem um zoológico. O que se prevê é a “reprogramação comportamental” através de sessões de medicação, condicionamento intelectual e até mesmo interferências genéticas na mente do indivíduo “meliante”.

POLÍCIA. O aparato policial de que dispõe a sociedade para coibir, reprimir e capturar criminosos é desproporcional à sua finalidade social, e fonte de corrupção e descaminho. O futuro produzirá meios de controle social sem o uso de armas ou de violência, e poderá ser monitorado por centenas, milhares, senão milhões de câmeras distribuídas estrategicamente nos agrupamentos urbanos, e de aparatos (chips) instalados no indivíduo ao nascer. E a captura do criminoso se dará por meios legítimos de neutralização e remoção do indivíduo da cena do crime, até que sua “readaptação” social seja efetivada.

EXÉRCITO. Essa instituição só tem sentido na medida em que existem fronteiras, limites geográficos, e nações e países, que acreditam que o espaço de confinamento demonstra e caracteriza a personalidade e a identidade das pessoas com o espaço nacional dos países em que habitam. Abolindo-se as fronteiras, as bandeiras, os hinos e a história isolada desses países, o Exército se tornará inútil e supérfluo, e as guerras de conquista serão apenas memórias históricas de um mundo dividido por ideologias e conceitos medievais.

REPRESENTAÇÕES POPULARES. As assembleias, câmaras, senado, partidos políticos e outros tipos de representações populares serão consideradas nefastas e geradoras de discórdias. Por outro lado, o poder de manifestação será melhor exercido através de recursos tecnológicos que permitam, não apenas a formação de grupos virtuais heterogêneos, como estarão disponíveis através de diferentes ferramentas destinadas a criar e desfazer alianças temporárias, para finalidades variadas, conforme o interesse dos cidadãos, permitindo-lhes o exercício da democracia plena e da representatividade absoluta em cada nova situação.

PROPRIEDADE PRIVADA. A posse de bens é, talvez, a mais nefasta das concepções humanas, na medida em que cria a falsa ideia de que o mundo pode ser loteado para poucos, em prejuízo de muitos. Por outro lado, para que possuir bens se tudo pode ser usufruído por todos em qualquer situação, sem que, para isso, seja concedida a posse exclusiva e egoísta desses bens a um único indivíduo? O direito de uso não agrega valor a uma existência efêmera de poucas décadas. E a herança desses bens é o mais poderoso instrumento de perpetuação de castas e privilégios que a humanidade já tenha criado.

ESCRITÓRIOS DO FUTURO. Ainda nos parece essencial ter um lugar físico para se exercer as atividades burocráticas de uma organização. A esses lugares se denominou, no passado, de “escritórios”, ou “lugar para se escrever”. A ação de se escrever era, no passado, difícil e restrita aos poucos (geralmente, os “escribas monásticos”) que dominavam a “arte da escrita”, ou seja, o conhecimento de um idioma, com seus símbolos gráficos, regras de sintaxe e ortografia, e o manuseio de pincéis ou canetas; as máquinas de escrever e, principalmente, a estrutura organizacional física surgiram com a revolução industrial. Escritórios do futuro já existem, e são virtuais. Podem estar em locais compartilhados e temporários, podem estar nas casas dos funcionários, os “home office”, ou podem, simplesmente, não existir, na medida em que cada pessoa estaria exercendo suas atividades em qualquer lugar, conforme seu conhecimento ou experiência, sendo que a articulação dos processos seria construída conforme a necessidade momentânea ou duradoura de um projeto, programa ou plano. Assim, não existiriam organizações formais, mas grupos de trabalho destinados a exercer atividades específicas, enquanto fossem necessárias, desfazendo-se quando a função, ou a missão, ou o projeto estivesse concluído. Simples assim.

CINEMAS E SALAS DE ESPETÁCULO. As manifestações artísticas e culturais estariam disponíveis a todo momento, cada grupo podendo se apresentar virtualmente, para quaisquer públicos interessados. Estes, por sua vez, teriam condições de se manifestar virtualmente, fazendo parte do espetáculo de forma interativa, anônima ou não, agrupando-se também de forma virtual, enquanto fosse de seu interesse. Cada indivíduo ou grupo, seja de atores, seja de espectadores, se formaria e se desintegraria para cada apresentação. Todos os espetáculos poderiam ser guardados virtualmente, fazendo parte do acervo individual ou coletivo, através de filtros de seleção e preferências manifestadas.

IGREJAS OU RELIGIÕES. Assim como os partidos políticos, as igrejas e as religiões, bem como países e estados, e qualquer tipo de agrupamento de seres humanos cria instituições sectárias preconceituosas, perniciosas à harmonia social, devendo ser definitivamente extintos e proibidos. A manifestação de ideologias, sociais ou espirituais, deve ser livre e fazer parte da cultura de qualquer indivíduo, sem que, para isso, se converta em seita de fanáticos, que se manifestam coletivamente, perdendo sua identidade individual, e tornando-se, portanto, impessoal e ameaçadora à paz e à liberdade coletiva. Talvez, esta seja a maior das transformações que o mundo, tal qual o conhecemos e o experimentamos, presenciará nas próximas décadas, uma vez que extinguirá a farsa que domina, pela ignorância, as mentes dos menos privilegiados, intelectualmente.

ESCOLAS. Pode parecer estranho não existir escolas, mas elas apenas existem porque a transmissão do conhecimento ainda é primitiva e lenta. Passamos cerca de um quarto de nossas vidas aprendendo coisas inúteis, desconexas ou desnecessárias às atividades que exercemos, deixando de aprender o essencial, que é o conhecimento da finalidade da vida, da missão da sociedade humana, da percepção das sinapses que construímos em nossas mentes, e dos valores e princípios que deveriam nortear o comportamento humano, sem ter, contudo, o domínio do processo de organização desses complexos caminhos de armazenamento, de busca e de organização da inteligência humana.

ZOOLÓGICOS, ANIMAIS DE ABATE E A CARNE. Uma das mais importantes mudanças no comportamento humano será o entendimento de que não podemos ser carnívoros, seja porque as proteínas da carne não são as únicas que poderiam suprir nossas necessidades diárias, seja porque, neste futuro utópico, a comida será sintetizada artificialmente, acabando com as fazendas agrícolas e a criação de animais para abate, seja, ainda, porque precisaremos de todo espaço disponível na Terra para o lazer, as habitações e as atividades humanas. Zoológicos são aberrações que criamos para conhecer os animais, que deveriam estar vivos em seus habitats, e não confinados em jaulas ou em paisagens artificiais, construídas para serem usadas como presídios de visitação e deleite dos seres humanos.

DEJETOS HUMANOS: OS LIXÕES. Segregamos locais para despejar o nosso lixo, transportado por tubulações e veículos de carga, deixando de reaproveitá-lo para reuso e consumo. Esses lixões e esgotos são uma excrescência de nossa civilização e deverão ser eliminados. Os processos de separação de lixo devem fazer parte de nossa rotina diária, e não servir de motivo de segregação de uma população diminuída em seu papel de seres humanos catadores e separadores de nosso próprio lixo.

PRODUÇÃO E TRANSPORTE DE ENERGIA. Outra forma primitiva de vida, que caracteriza nossa sociedade humana, é a produção e o transporte de energia: hidrelétricas, termelétricas, usinas nucleares, linhas de transmissão, com enormes perdas pelo caminho, estações rebaixadoras e todo esse processo antiquado de produção, transporte e distribuição de energia deverá ficar no passado. Cada unidade humana, seja uma residência, seja uma unidade produtiva, seja qualquer equipamento útil, deverá ter sua própria fonte de energia, eliminando toda essa estrutura produtora e portadora que existe hoje.

IDEOLOGIAS E GUERRAS. Talvez devêssemos acrescentar, a essa dupla concepção, as religiões, já tratadas junto aos partidos políticos e associações. O fato é que toda dissidência humana se inicia em um embate de ideias sem o propósito construtivo da manifestação intelectual, mas apenas com a intenção de fazer prevalecer nosso ponto de vista ao dos nossos adversários. Daí, talvez, a necessidade de se discutir, aqui também, as atividades competitivas dos seres humanos, como o futebol e outros esportes geradores de discórdia e desunião. Mas trataremos apenas das ideologias e das guerras. Extintos os territórios, os países e seus limites, as guerras deixariam de existir, assim como as disputas pela sua posse. Não precisamos de terrenos murados, cercas, bloqueios de qualquer espécie, destinados, única e exclusivamente, a demarcar territórios que não nos pertencem. O mundo é dos seres vivos, independentemente de sua inteligência, sua cultura, suas linguagens e suas construções mentais. Quem contestará o fato de que surgimos da evolução das espécies? Quem assegurará que outras espécies poderão, eventualmente, evoluir para outras formas de vida inteligente, até mais qualificadas do que os seres humanos, tal como somos?

Essas considerações despretensiosas foram escritas para meditarmos a respeito do que nos separa, daquilo que nos segrega em nossa sociedade atrasada e arrogante, tornando ideias, que deveriam existir para serem compartilhadas, em armas para nos separar e desunir. Acabamos de sair de uma disputa ideológica que não trouxe vitoriosos, mas apenas perdedores. Tendo sido discutido exaustivamente o tema das “MUDANÇAS” por ambas as candidaturas finais do confronto ideológico, tudo o que não aconteceu foram “MUDANÇAS”! Ficou o mesmo grupo no poder, com as mesmas ideologias ultrapassadas, confrontadas com outro grupo ideológico também ultrapassado. Ficou um gosto amargo da derrota para ambas as partes, que não conseguiram convencer o eleitorado da prevalência de suas ideias às ideias opostas. Usou-se de artifícios e mentiras para iludir uma parcela indefesa da sociedade. Perdeu-se uma oportunidade de nos afastarmos da disputa ideológica para algo mais pragmático, como a “SUSTENTABILIDADE” de nossos processos produtivos, sociais, intelectuais, comportamentais, diante de um mundo em transformação, onde as “MUDANÇAS CLIMÁTICAS” determinarão os rumos de nossas vidas nas próximas décadas.

O que virá do caos decorrente de nossas ações predatórias sobre o Meio Ambiente? O que restará depois dos desastres ecológicos que arruinarão nossos sistemas produtivos medievais? Como subsistiremos à morte de nossas fontes de recursos naturais, quando os processos predatórios tiverem exaurido essas riquezas naturais, que desaparecerão pela perversidade e ignorância de governos despreparados para gerir o Universo em que habitamos? São essas as questões que estão em pauta, não a cor da pele e de nossa ideologia, ou a “magnanimidade” das migalhas distribuídas a uma parcela desta sociedade desigual, arcaica, feudal, primitiva, egoísta, sem solidariedade, sem compaixão, sem amor ao próximo, que são estes os princípios e valores essenciais à vida inteligente.

E não saberemos dizer quando teremos outra disputa que valha a pena ser realizada. Esta, certamente, não serviu para nada. Saímos perdedores, acusando-nos, mutuamente, dos mais torpes preconceitos! Perdemos diante de nossos “inimigos”, que são nossos irmãos de sangue, de culturas, de herança genética, de vizinhança, de território, de costumes, ainda que primitivos! Quando teremos nossa próxima oportunidade de rever nossos conceitos? Quando aprenderemos a debater ideias sem que, para isso, tenhamos que humilhar nossos adversários com palavras grotescas e arrogantes, acreditando que as “Nossas Verdades” sejam melhores que as “Verdades Alheias”?

Não existem VERDADES! Existem conceitos divergentes, que o próprio tempo cuidará de comprová-los falsos e decorrentes de nossa percepção míope do Universo que nos cerca. E esse tempo, que nos levará muito antes que tenhamos tempo de aprender o suficiente para sermos humildes, acabará por dar fim a essa humanidade que se vangloria de ser a espécie mais bem sucedida da face da Terra! Será mesmo? Pois seremos nossos próprios algozes, e exterminaremos nossa própria raça, a despeito de cores, credos, ideologias, conhecimentos científicos, realizações materiais ou desenvolvimento tecnológico.

Ao pó das estrelas retornaremos, e lá permaneceremos por milhões, bilhões de anos terrestres, à espera de que a casualidade combine nossas moléculas esparsas, catalizadas por acontecimentos e fenômenos igualmente aleatórios, reconstituindo novas formas de vida que, por sua vez, se reorganizarão até que, um belo dia, nova vida “inteligente” venha a surgir e se desenvolver, cometendo os mesmos erros e determinando o fim dessa nova espécie.

Esse é o ciclo do próprio Universo. Existirá um DEUS, uma inteligência que, como um maestro, conduza o tempo fictício e os eventos cósmicos  em direção à constituição cíclica de eras geológicas, manifestações naturais, surgimento de espécies “VIVAS” e seu desaparecimento, sem que, aparentemente, nada faça sentido para nós, reles seres humanos em vias de extinção? Jamais saberemos.

AS REDES SOCIAIS COMO INSTRUMENTO DE MANIPULAÇÃO DA CONSCIÊNCIA COLETIVA

O advento das redes sociais já foi tema de livros, filmes e debates, pelo seu papel transgressor de comportamentos, e de protagonista das ações sociais em situações de crise ou de instabilidade institucional. Esse recurso tecnológico introduziu um novo modelo de intervenção social, de profundo significado para a organização social e política de países, democráticos ou não, embora para os primeiros essa manifestação se processe sem culpas e sem punições. O propósito desse artigo é discutir a tempestividade dessa ferramenta, e sua apropriação pelos atores sociais, adquirindo recursos tradicionais de análise como arcabouço intelectual para seu suporte, e de profundo impacto para as transformações que presenciamos na sociedade contemporânea.

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Abstracts

The advent of social networks has been the subject of books, films and discussions, the role of transgressive behavior, and protagonist of social actions in crisis situations or institutional instability. This technological feature introduced a new model of social intervention, of profound significance for the social and political organization of countries, democratic or not, although for the first countries, this manifestation is carried out without guilt or punishment. The purpose of this article is to discuss the timing of this tool, and its appropriation by social actors, acquiring traditional resource analysis as intellectual framework for its support, and a profound impact to the changes that we found in contemporary society.

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Nos primórdios de 1970 surgiu a Internet, na época apenas uma rede de relacionamentos acadêmicos destinada a compartilhar trabalhos científicos entre Universidades e Centros de Pesquisa (ARPANET). Era ainda um recurso incipiente, com pouca interatividade, similar aos atuais correios eletrônicos (ou e-mails). A tecnologia que lhe servia de suporte ainda não possuía as interfaces gráficas desenvolvidas, e que surgiram apenas em 1984, com o Macintosh, que viria a se tornar o símbolo da Apple, empresa notabilizada por Steve Jobs e sua equipe como modelo de criatividade produtiva.

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A família Apple se desenvolveu e o Macintosh® se transformou simplesmente em “Mac”, dando origem a uma família de equipamentos, conhecidos como iMac® (“i” de interativo, inovador, interligado), e com um sistema operacional robusto e consistente, que inspirou outro jovem, Bill Gates, a criar a empresa que seria líder do mercado incipiente de computadores pessoais, a Microsoft®, base para a implementação de tecnologias impensáveis nas décadas que os antecederam. Esses equipamentos custavam uma pequena fortuna em seus primórdios e, com a evolução tecnológica e o crescimento acelerado da demanda, acabaram por se tornar indispensáveis a todos os indivíduos, símbolo de sucesso e de status social.

No entanto, durante as quase quatro primeiras décadas, a computação eletrônica, hoje simplesmente conhecida como Informática, e transformada pelas Ciências da Computação em área específica de conhecimento, tinha sua infraestrutura suportada por máquinas de grandes proporções e de altíssimo custo, além de exigir conhecimentos técnicos complexos para sua utilização e para o desenvolvimento de programas e aplicações, exclusivamente de uso científico, industrial e comercial. Eram, então, impensáveis as atuais facilidades tecnológicas.

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O advento do computador de uso pessoal (PC – Personal Computer) ocorreu a partir da década de 1970, mas sua evolução inicial foi lenta e seus recursos limitados, em sua origem. Porém, o surgimento do mercado potencial de usuários injetou-lhe enormes investimentos, que transformaram sua evolução em uma curva exponencial, com resultados surpreendentes, principalmente para os usuários, que não podiam prescindir de um técnico especializado para construir suas próprias aplicações. Surgiram as “Suítes” de aplicativos, como o Lótus 123®, o Quattro®, o Microsoft Office® e tantos outros que viriam em suas pegadas. Para que essas ferramentas se desenvolvessem e compartilhassem recursos entre usuários remotos, outra tecnologia foi produzida com a mesma rapidez e eficiência: as redes locais, inicialmente, as remotas, em seu encalço e, finalmente, a Internet.

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Diversas tecnologias complementaram a “caixa de ferramentas” do usuário contemporâneo, e uma delas foi o advento dos correios eletrônicos (e-mails). As primeiras experiências de redes remotas exigiam um provedor de comunicações (ISP – Internet Service Provider) e sua velocidade de tráfego de dados dificultava seu uso. Alguns desses provedores se transformaram em Portais de Informação, como o AOL®, UOL®, TERRA®, IG®, dentre tantos outros. Os conceitos de Portal de Negócios e de Portal de Informações surgiram na década de 1990, transformando a Internet em um mercado de transações comerciais e de divulgação de notícias. Como negócio, as trocas de mensagens comerciais viriam e se denominar EDI – Electronic Data Interchange, baseada em um conjunto de protocolos (regras de uso e de sintaxe: EDIFACT – Electronic Data Interchange For Administration, Commerce and Transportation), que transformaram a vida das pessoas e das empresas. Esse novo modelo de negócio viria a ser conhecido como Comércio Eletrônico (e-Commerce), e compreendia duas modalidades básicas: B2B (Business to Business – “transações comerciais entre empresas”) e B2C (Business to Consumer – “transações de vendas ao consumidor final”).

O universo da Informática é tão grande nos dias atuais que se torna difícil, senão impossível, resumi-lo em um texto, e esse não é nosso objetivo No entanto, esses conceitos elementares são necessários para apresentar a questão da evolução tecnológica que permitiu o surgimento das redes sociais. Elas apareceram no contexto da Informática na virada do século, logo depois de uma transformação que viria a impactar todo parque tecnológico instalado de computadores, sejam eles domésticos (pessoais) ou empresariais: o evento ficou conhecido como “o bug do milênio”, espécie de praga que viria a inviabilizar, se ocorresse, o uso desses equipamentos.

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É difícil explicar, para quem hoje faz uso da Informática, como e por que essa situação aconteceu; mas, propondo uma síntese, diríamos que as limitações tecnológicas e o elevado custo dos computadores em sua origem, aliados à falta de perspectiva histórica e de antevisão da demanda por esses equipamentos levou os especialistas (programadores e analistas de sistemas) a elaborar uma simplificação prática que, hoje, seria tida como “incompetência” ou “irresponsabilidade”: todas as datas utilizadas (ou armazenadas) em arquivos e sistemas de informação tiveram o “século” suprimido de seu formato (DDMMAA), e eram novamente inseridas em relatórios, como uma constante (19AA). Isso significava que, na mudança de século (3º milênio), todos os relatórios seriam impressos “voltando” 100 anos na exibição de datas: “21/12/2001” seria mostrado como “21/12/1901”, por exemplo.

Esse erro conceitual foi utilizado, inclusive, no desenvolvimento dos sistemas operacionais dos mainframes, e dos pequenos componentes, conhecidos como BIOS, que nada mais eram que minúsculos programas para iniciar o PC (personal computer). O custo das mudanças foi enorme (bilhões de dólares) para as empresas e para os países, mas provocou a mais dramática transformação do uso da Tecnologia da Informação: uma nova geração de máquinas e de programas foi implementada em tempo recorde em todo o mundo, quase que simultaneamente, graças aos enormes investimentos para superar essa falha técnica exemplar, apenas justificada pela incapacidade de se prever que tais sistemas sobreviveriam por décadas e chegariam ao ano 2.000 ainda ativos.

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Sistemas Corporativos

O Novo Milênio trouxe novos conceitos, novas tecnologias e uma redução de custos sem precedentes para os equipamentos de Informática. Se os investimentos no final do século passado se dirigiam à tecnologia per se, criando as grandes estruturas de bancos de dados, os conceitos de orientação a objetos, e os pacotes empresariais conhecidos como ERP – Enterprise Resource Planning, MRP – Manufactoring Resource Planning, dentre outros, no Novo Milênio a preocupação voltou-se para o Relacionamento entre Organizações em seu processo negocial. Surgiram novos conceitos nesta linha de raciocínio, como o CRM – Customer Relationship Management, o CPFR – Collaborative Planning, Forecasting and Replenishment, e os Portais de Negócio. Este último substituiria as tecnologias tradicionais de troca eletrônica de mensagens por novos modelos interativos para o estabelecimento de parcerias comerciais e negociação interativa. Essa nova modalidade atenderia, principalmente, uma cadeia de relacionamentos conhecida como Supply Chain Management, ou Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos, que contemplava desde os fornecedores de matérias-primas até o consumidor final, passando pelas indústrias de transformação, pelos canais de distribuição e, finalmente, pelos pontos de venda. Era uma revolução no processo de produzir e comercializar bens de consumo.

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As Redes Sociais

A contrapartida nos relacionamentos sociais e no uso da computação pessoal viria através das redes sociais. A primeira e mais conhecida rede social foi o Orkut®, seguida pelo Facebook®, que viria a se tornar a maior rede de relacionamentos do mundo, penetrando, inclusive, em países da antiga “Cortina de Ferro” (China e Rússia) e nos países muçulmanos (Paquistão, Líbano, Argélia, Egito), todos com a tradição de extremas restrições dogmáticas aos seus cidadãos. No princípio, foi necessário um extenso aprendizado, tanto por parte dos desenvolvedores, quanto dos usuários desses novos recursos. A interface gráfica carecia de praticidade e as regras de utilização não inibiam abusos, que quase inviabilizaram o desenvolvimento desse mundo novo que se prenunciava.

Esse aprendizado ainda continua, e novas funcionalidades e novas regras são implementadas continuamente, com o objetivo de respeitar leis e costumes dos países, bem como assegurar a privacidade e o respeito aos usuários em sua rede de relacionamentos. Conflitos precisam ser administrados para coibir os abusos, e até sistemas de punições foram estabelecidos para permitir que pessoas se relacionassem em segurança e com comportamentos aceitáveis pelos membros dessas novas comunidades. Hoje, pode-se dizer que essas redes estão maduras e funcionam a contento, permitindo que pessoas de todas as nacionalidades, falando os mais diferentes idiomas, professando diferentes crenças e tendo variados costumes e tradições possam se comunicar. As redes sociais são a Torre de Babel dos tempos atuais, onde cada um fala o seu idioma, só que com capacidade de comunicação e de compreensão. A tradução entre idiomas é simples, embora ainda careça de confiabilidade semântica.

As transformações sociais no mundo contemporâneo

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O Papel da Televisão

Não apenas as redes sociais surgiram no mundo atual. Desde a década de 1950, transformações sociais ocorrem, subvertendo costumes e compelindo pessoas a mudar suas regras e combater preconceitos. Não foi a Informática que iniciou essas mudanças, mas outra tecnologia: a televisão. Depois da Segunda Guerra Mundial, e em função dos investimentos em pesquisa científica e produção de armamentos, novos recursos tecnológicos surgiram para suprir as demandas por supremacia militar. Dentre eles, o que mais impactou as relações sociais foi a televisão. Fruto do desenvolvimento de equipamentos de comunicação durante a guerra, a televisão surgiu no início da década de 1950, tendo evoluído constantemente desde então, tanto com relação a seus recursos tecnológicos (tubo de raios catódicos, transmissão via satélite, integração com a Internet, TV´s de LED e de plasma, redução de custo de componentes, etc.), quanto à sua utilização midiática (recursos de design, programação, interatividade, competitividade pelo comando de audiência, versatilidade de temas, etc.).

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Como recursos de comunicação “ao vivo” e instantâneos, a televisão passou a ser um instrumento de transformações sociais tão importante que, desde seu início, tornou-se alvo de censura e de constrangimentos por parte de governos e igrejas, que não se conformavam com a queda sucessiva de seus dogmas e tradições e com a perda de controle sobre seus membros. O mundo viu, atordoado e em tempo real, o surgimento dos movimentos beatniks, hippie e woman´s lib, nos anos 1960, a implantação de ditaduras militares nas décadas de 1960 e 1970, a queda das mesmas ditaduras nos anos 1980, as guerras do Oriente Médio nos anos 1960 a 1980, os atentados terroristas e a liberdade de escolha de preferências sexuais dos anos 1990 e 2000… todos esses acontecimentos sociais e muitos outros apareciam “ao vivo” nas telas da TV e mobilizavam os sentimentos e emoções de toda a Humanidade.

Pela primeira vez, o homem podia se considerar participante da sua História, membro atuante ou mero expectador de todos os fatos sociais. O jornalismo de notícias e investigativo foi elevado à categoria de líder de vídeo audiências, e presença constante na maioria das casas do mundo civilizado. O papel do rádio, como elemento integrador da sociedade às famílias, foi reduzido às pequenas comunidades desprovidas de recursos da “modernidade”. As novelas e séries de televisão foram, no entanto, os fatores mais importantes das transformações sociais, uma vez que não retratavam a realidade, mas criavam “novas realidades”, jamais concebidas, confrontando regras morais e religiosas e criando uma nova sociedade baseada na liberdade absoluta de expressão e de conduta.

As Redes Sociais como Instrumento de Manipulação da Consciência Coletiva

Ainda que sem esse propósito, as redes sociais ofereceram, de imediato, um instrumento de enorme penetração e sem ônus para seus usuários, e certamente seriam utilizadas para quaisquer fins que se pretendesse: divulgação e comercialização de produtos e serviços, debates e propagação de ideias, publicação de fotografias, músicas, filmes, livros e textos, criação e veiculação de enquetes, uso de jogos eletrônicos, agendamento, divulgação e controle de participação de pessoas em eventos, publicação de curriculum vitae, agenda de aniversariantes, comunicado de fatos pessoais e públicos relevantes, intercâmbio de mensagens, formação de grupos de interesse, construção e gerenciamento de redes sociais privadas, integração de sistemas de mensagens com outras redes sociais, mensagens publicitárias, construção de páginas pessoais, dentre tantas outras funcionalidades.

Logo se percebeu a importância e o alcance desse novo recurso de comunicação e relacionamento, mas ainda não se percebia seu impacto nas relações sociais coletivas. Grupos de interesse com características e propósitos bem definidos logo passaram a veicular ideias e propostas, conclamando os componentes de suas redes para adesão às propostas. As redes, antes individuais, começaram a se interligar, formando suas próprias “sinapses” sociais, fato inusitado e inesperado, seja para os criadores dessas poderosas ferramentas, seja para seus usuários: as redes “aprendiam” com suas próprias experiências, criando estruturas complexas, como são as sociedades humanas. As redes atingiram sua maturidade e começaram a influenciar a Humanidade.

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Essa situação evoluía paralelamente às transformações que o mundo sofria em suas próprias estruturas sociais e políticas. As “primaveras árabes” e as manifestações da Comunidade Europeia, as primeiras em busca de Liberdade e Democracia e as segundas em protesto contra as medidas econômicas na Zona do Euro e o crescimento do desemprego, encontraram nas redes sociais o instrumento adequado de propagação de protestos e de conclamação do povo para manifestações públicas. Eram as redes sociais intervindo na consciência coletiva e funcionando como instrumento de mobilização social em defesa de seus direitos.

No Brasil, um tema aparentemente irrelevante – o aumento de vinte centavos nas passagens de ônibus – foi o estopim das manifestações de rua. Mais uma vez, o meio eram as redes sociais, e o resultado foi a mobilização de dezenas, depois centenas e, por fim, milhares de pessoas, coletivamente manifestando seu direito constitucional de protestar contra o que consideravam injusto na sociedade brasileira. Dos “vinte centavos” originais, dezenas de slogans demonstravam a revolta de um povo aparentemente avesso a protestos e acomodado em suas casas, independentemente das injustiças que presenciavam e que, direta ou indiretamente, afetavam suas vidas.

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Dos transportes coletivos à saúde, à educação, às minorias étnicas oprimidas, à devastação da Amazônia, à política e à corrupção tudo era permitido e, pela primeira vez, se constatava um fenômeno inusitado nas manifestações populares: uma mesma passeata poderia conter os mais diversificados temas, sem com isso perder sua representatividade e significado. Pela primeira vez, também, nenhum partido político teve condições de manipular as massas em seu favor, pois todos os políticos eram “persona non grata” nas manifestações, e foram rechaçados espontaneamente pelo povo, pois não havia líderes carismáticos conduzindo-os; cada um caminhava por si mesmo, por suas ideias, por suas causas e revoltas.

Conclusão

Esse fenômeno, que surgiu da própria evolução tecnológica e foi inspirado na maneira como os jovens se comunicam e se relacionam, assumiu vida própria, instruindo, de certo modo, seus criadores a adaptar seus recursos e funcionalidades a esse mundo novo e admirável, que não tem regras claras, não tem líderes nem legendas, e se manifestam com a mesma naturalidade que demonstram em sua vida real.

Qual o seu limite? Até que ponto esse processo evoluirá e quais novas mudanças ainda estão por vir e serem descobertas, fruto da experiência e do relacionamento interpessoal, cada vez mais complexo e espontâneo, cada vez mais imprevisível, apaixonante e assustador, na medida em que uma espécie de sociedade anárquica passa a existir e a impor seus domínios ao poder constitucionalmente estabelecido e cada vez mais anacrônico?

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Vale destacar que a tecnologia ainda não se mostrou completa (nunca será) e novas possibilidades se apresentam com a evolução dos eletrônicos, cada vez mais interligados, cada vez mais simples em sua utilização e complexos em sua concepção e construção. Da tecnologia embarcada da indústria automobilística para a tecnologia implementada em todos os objetos de nossa vida cotidiana, fazendo-nos parecer personagens de ficção científica, mas, ao mesmo tempo, constatando que os paradigmas que nortearam a constituição de nossas estruturas sociais já não funcionam mais e precisam ser reformados. Haverá, ainda, paradigmas nessa nova sociedade?

Talvez não apenas “reformadas”, mas verdadeiramente aniquiladas para dar origem a uma nova forma de organização social, econômica e política. O modo de produção capitalista atingiu seu apogeu, caminha para o ocaso, e precisa ser substituído. A globalização funcionou perfeitamente, mas foi protagonista e vítima de sua própria entropia, calando a dialética das sociedades desiguais, ainda que desumanas. As diferenças ideológicas se acabaram por falta de criatividade e deram lugar ao vazio intelectual que presenciamos.

Essa juventude, que tínhamos como amorfa e incapaz de protagonizar a mudança, é hoje a única capaz de conduzir, compreender e gerir tais mudanças, buscando na diversidade étnica, sexual e espiritual as fontes de inspiração para superar o risco de extinção da espécie humana, devido ao esgotamento dos nossos recursos naturais, às convulsões sociais e ao consumismo desenfreado e insano. Nessa juventude, desinformada ou incapaz de processar as informações em excesso, depositamos nossas esperanças, acreditando em seu poder criativo e seu comportamento leve e irreverente, que não sabemos, nós da geração que se aposenta, compartilhar ou compreender.As redes sociais talvez não tenham tamanha importância na conjuntura do Universo, mas hoje é o instrumento essencial das transformações que presenciamos, estarrecidos e encabulados, em nosso mundo contemporâneo. Como evoluirá esse instrumento de comunicação? Talvez os novos recursos de comunicação, as novas mídias, nos tragam os esclarecimentos de que necessitamos para compreender essa nova situação e nos indiquem, ainda que involuntariamente, os próximos passos que nem mesmo esses jovens saberiam quais são.

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Não esperes, de mim, palavras doces…

Chapada Diamantina

E Ele me disse, na escuridão de meus ouvidos: 

“De que reclamas, se, em tua vida, realizastes mais do que a maioria dos mortais?”

E insiste, enfático:

“O que esperas de mim, se, convicto, me negastes durante teus curtos dias nesta Terra, espaço inútil, a quem amas mais intensamente do que àquele que te criou e concebeu?”

Mas eu, no mais obscuro silêncio dos recônditos esconderijos de minh’alma, ouso responder:

“Jamais reclamo, pois sei que, de minha efêmera existência, nada levo, tampouco nada deixo para trás; sequer saberia dizer para onde se destinam as almas, se existem, quando a vida deixam para trás…”

E, entusiasmado com a retórica de minha inaudita afirmação, prossigo, irreverente:

“Se Tu existes somente na imaginação dos homens, a cada um mostrando a outra face – não a Tua – por que iludes assim a humanidade, crente em recompensas que nem mesmo o silêncio das eternas moradas as revelará, ainda que muitos afirmem tê-las visto, vagamente, na penumbra da quase-morte do infinito renascer matutino, reverberando em suas próprias construções mentais?”

Prossigo, ainda, insistente, em minhas confabulações inúteis:

“Onde estão aqueles que doaram suas vidas a causas iníquas, se Tua Sabedoria Universal afirma a efemeridade de tudo o que existe, existiu ou virá a ser, um dia, neste transitório mundo dos homens?

Finalmente, satisfeito com minha argumentação vazia, lanço meu veredito:

“Se confabulo com o Inexistente, mas apenas meus pensamentos ouço em derredor, onde estaria, enfim, o derradeiro Reino que escreveste em todos os Livros Sagrados, em diferentes línguas, em variadas metáforas e parábolas, em artimanhas do pensamento, que só os homens, em suas manifestações terrenas acreditam compreender? Onde estaria, afinal, Tua Morada, ainda que não fosse, tão-somente, outra das inesgotáveis armadilhas construídas pela imaginação humana?”

“Não esperes, de mim, palavras doces, daquelas que escutastes dos poetas, dos amantes nas alcovas, a prometer, em versos, o seu amor eterno, e a esquecê-las, céleres, ao amanhecer!”

“Não creias, pois, nos pensamentos que vazam, aos borbotões, nas frases que se despejam, sem cessar, dos textos que publico, na intenção não manifesta de iludir os meus leitores, ao afirmar a ilusão da própria vida, em suas manifestações inesgotáveis, neste eterno alvorecer.”

Não o faço, porém, com a má-fé dos “pastores de alma”, que encontram, em palavras vãs e sibilinas, a provável indicação do eterno Reino daquele que, tendo sido o “Criador das criaturas”, delas não fez um ser perfeito, deixando, a cada um, a missão improvável de resgatar a alma impecável que existiria, supostamente, na obscuridade do futuro, desconhecido e cruel.

Apenas creio saber, no âmago de meu ser, que tudo o que fizemos e deixamos para trás, no ocaso de nossos dias terrenos, de nada servirá para salvar a humanidade, nascida órfã e deixada aqui, abandonada “neste vale de lágrimas”, a padecer eternamente, enquanto vivos.

Não esperes, de mim, palavras doces, mensagens de conforto ou de consolo, pois, na tumba em que repousará o teu cadáver, serás apenas, e tão-somente, alimento aos vermes… nada mais.

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Memórias de meu Mestre

Meu MESTRE

Hoje ele teria quase 94 anos, porém, há dez anos nos deixou para sempre. Meu pai se foi antes do tempo, assim como se vão aqueles a quem amamos e respeitamos pela sua coerência, sabedoria, humildade e LUZ! Sim, ele foi o farol de meu caminhar, e continuará sendo. Sempre que me encontro em uma encruzilhada, inseguro, incerto, pergunto a meu pai qual a direção a seguir. Por algum mecanismo que desconheço, a resposta vem durante meus sonhos, como um sussurro, uma imagem desfocada, um sopro suave de ideias que me restituem a confiança e a certeza de ter encontrado o rumo. E sigo em frente, confiante de  que o meu Mestre continuará me orientando e me ajudando a tomar as decisões corretas para o resto de meus dias.

Lembro-me da paciência com que ele nos preparou para a vida, deixando seu exemplo de uma conduta impecável, de Ética e de Honestidade acima de qualquer outra possibilidade. Assim como eu sigo seus passos, espero que, quando eu me for, as minhas filhas e meus netos tenham em mim um bom exemplo para clarear os seus caminhos. Que os exemplos de nossa sociedade não influenciem meus descendentes, pois a cada dia se torna mais difícil encontrar pessoas dignas e honestas. Assim como meu pai, eu não tenho apego a lugares ou a valores materiais. Para muitos, seria uma irresponsabilidade e uma temeridade, pois acreditam que acumular dinheiro e propriedades é a essência de sua ideologia consumista. Para mim, o caminhar tornou-se leve, pois nada carrego além de meus valores e de minhas convicções. E isso eu devo ao meu Mestre, Ulysses.

Minhas referências são as pessoas que amo, e meu pai terá sempre seu lugar de destaque em minha vida. Dele herdei o amor à Natureza, aos seres vivos, ao rio onde costumávamos remar e apreciar o por do sol, às caminhadas sem destino, que eram a fonte de novas descobertas e de novas reflexões. Seu carinho e compreensão fizeram de mim um ser mais tolerante, embora mais inflexível quando estou diante de injustiças ou situações inaceitáveis para minha consciência.

Meu pai querido, por mais que tenhamos sido grandes amigos e companheiros, é muito difícil não ter mais sua companhia para me confortar… sempre que faço algo de que me orgulho, penso em você e agradeço seus ensinamentos. Afinal, quem teve o privilégio de ser filho de um ser espiritual, cuja sabedoria está além dos livros sagrados, cujos exemplos são tantos e tão expressivos que não precisaria recorrer a nenhuma doutrina ou religião? Um Homem que nos encantou a todos pela sua simplicidade e bondade?

Pai querido, quisera acreditar que a vida não se encerra com a morte, que eu ainda terei o privilégio de te reencontrar, mas isso também seria trair os seus ensinamentos. O aqui e o agora são os únicos momentos conscientes e reais de nossa existência. E não precisei de um Mestre Zen para compreender essa verdade. Por mais que seja difícil saber, não tornaremos a nos encontrar, mas ainda guardo em mim a felicidade de tê-lo conhecido, de ter bebido na fonte de seus ensinamentos, de preservar em minha memória, enquanto eu existir, sua imagem, suas lembranças, suas palavras e seus ensinamentos. Não preciso de mais nada…

O Passar dos Anos

Aparados da Serra

O tempo é uma dimensão estranha para o ser humano… nos primórdios das eras, quando surgiram os Neandertais, e, depois, o Homo Sapiens, a percepção do dia e da noite foi a primeira constatação dos ciclos da vida. Sua alternância combinava as atividades do dia com os temores da escuridão e a necessidade do sono e repouso. Depois veio a percepção da Lua, aquele estranho halo que aparecia, alternadamente, como uma semi-esfera ou como um círculo perfeito de luz branca, suave, iluminando os caminhos e reduzindo a escuridão… perceberam, nossos ancestrais, que sua duração também era cíclica, como o dia e a noite, só que com maior duração: a cada sete dias, uma nova forma da Lua aparecia. Mais além, na formação do seu conhecimento, também notaram que o calor e o frio, a estiagem e as chuvas, se repetiam em outro ciclo mais amplo ainda… além disso, a própria vida humana tinha seus ciclos, desde sua formação no interior do corpo da mãe até o nascimento, o crescimento, a plena capacidade de sua força, o envelhecimento e a morte, enfim…

Essas noções primitivas foram as sementes do entendimento do significado do tempo para os seres humanos. Parece óbvio, mas cada sociedade construiu sua compreensão da vida em função do tempo: o período da caça, a maturação das lavouras, o culto às tradições e folclores, as oferendas às divindades, a formação e preparação do indivíduo para exercer seu papel na sociedade… tudo, enfim, passou a girar em função do tempo! A espontaneidade das atitudes se submeteram a normas construídas pelo papel do tempo na vida de cada ser humano. Porém, esses ciclos se sobrepunham, às vezes como visões complementares, outras como concorrentes e inadequadas para o entendimento. O ano de nosso calendário, por exemplo, foi construído sobre uma estrutura desconexa da duração dos meses com os ciclos da Lua, apenas porque o Sol ignora que a Lua demore 28 dias para girar em torno da Terra, e esta, mais preguiçosa, leva 365 dias para circundar o Sol…

Parece um jogo de palavras, mas muitas teorias sobre os ciclos da Vida foram construídas com base na lógica e alternância desses ciclos: 24 horas do dia, 7 dias da semana, 28 dias da Lua, 365 dias do ano solar…

Esse preâmbulo foi escrito apenas para tentar entender por que nosso aniversário é comemorado… nosso Ano Novo começa, de fato, no dia em que comemoramos nosso nascimento! O dia 1º de Janeiro é mera convenção, sem nenhum significado relevante. Na verdade, ele nem marca o início de uma das estações do ano, pois, em cada quadraante da Terra, as estações são diferentes. Também não pode ser a marca do início de um ciclo de giro da Terra em torno do Sol, pois esse início poderia ser estabelecido em qualquer ponto da órbita do planeta.

Porém, o dia de nosso nascimento marca, definitivamente, o início da vida de cada ser humano, diferentemente! Somos, na verdade, 365 grupos de pessoas com a mesma data de nascimento no mundo inteiro! Mera curiosidade? Nem tanto… a astrologia construiu sua cosmogonia a partir desse entendimento, mas criou 12 subdivisões arbitrárias para os signos do Zodíaco, igualmente arbitrárias como os meses do ano de nosso calendário juliano, buscando reagrupar as pessoas e suas diferenças e semelhanças conforme as “casas” ocupadas por esses signos no espaço sideral, embora não apenas isso.

Para mim, basta saber que hoje um novo ciclo se inicia em minha vida. Os ponteiros do relógio de minha vida deram mais uma volta e recomeçam a marcar o que ainda me falta para percorrer nessa longa caminhada. “Longa”? Nem tanto… somos frações do tempo geológico, tão insignificantes quanto os grãos de areia do deserto do Sahara… mas, para nossa precária compreensão, a vida é longa e o caminhar nem sempre é suave…

De certa forma, é um momento de reflexão em que podemos avaliar o trajeto já percorrido e redirecionar o caminhar para que nossas expectativas dêem sentido ao Existir. Olhamos para trás e vemos erros e acertos, sonhos mal construídos e não realizados, e árduas conquistas que nos alegram e nos motivam para  novas experiências. Percebemos o quanto a vida é efêmera, mas também nos alegramos de estar vivos e poder continuar a caminhada, de poder mudar o curso de nossa pequena história e mirar um novo ponto, ainda distante, em nosso horizonte. Isso dá sentido à vida e motivação para acordar a cada novo dia.

Hoje faço 64 anos. Não sou daqueles que se julgam importantes; sei de minhas limitações. Mas também não penso que minha vida transcorreu sem batalhas, sem conflitos, sem confrontos. Não. Lutei o quanto pude, dentro dessas limitações que apenas eu estabeleci para mim mesmo, venci algumas guerras, e perdi outras tantas. Enfrentei preconceitos e construí minhas convicções, minha ideologia, meus valores… Assumi posturas nem sempre confortáveis, mas desenvolvi a coerência de meu comportamento com base nesse arcabouço de conhecimentos seletivos que garimpei durante esses anos de caminhada. Sou o fruto dessas escolhas.

Por isso, olho para meu futuro e compreendo que já percorri bem mais da metade do caminho. Hoje tenho muito menos capacidade de lutar, fisicamente, para superar meus limites. Porém, estou bem mais preparado, intelectualmente, para defender meus pontos de vista e para comunicar, a quem se interesse, minha experiência de vida. Percebo o tempo como meu aliado, na medida em que já não me preocupo com o seu avanço constante, incontrolável, célere e inexorável. Nada posso fazer nesse sentido, e só me resta perseverar.

Portanto, meus amigos, sou fruto de meu passado, de minhas escolhas, das decisões tomadas e da percepção, correta ou equivocada, que me trouxeram até aqui. Não posso mudar o passado e não quero disfarçar meus equívocos, pois eles fazem parte de minha formação. Tenho grandes razões para ser feliz, mas não sei se a felicidade é um estado de espírito ou uma ilusão temporária. Não somos felizes, embora possamos estar, por breves momentos, naquele estado de prazer ao qual denominamos “felicidade”. Busco a paz interior, esse estado do espírito que não se importa com o que ocorre ao redor, pois apenas “somos” enquanto temos percepção do próprio “Ser”. E isso nada tem a ver com o Universo, com as pessoas, com as coisas materiais…

Agradeço àqueles que enriqueceram minha vida com suas presenças, com seu carinho, com suas próprias ideologias e contradições, com tudo aquilo que compartilharam comigo e que os tornaram parte de minha própria existência. E nesse mosaico incompreensível, que é a Vida, lá eu me encontro, apenas como um ponto imperceptivel. No entanto, é a conjunção de todos esses pontos que fazem esse mosaico nos parecer lógico, coerente, relevante e pleno em seu significado, embora apenas para cada um de seus componentes. O fantástico dessa teia é que cada um de nós faz parte de seu próprio e único mosaico! Por isso, o Universo não é único… infinitos são os universos dos bilhões de seres humanos, cada um compondo seu próprio mosaico do Existir…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Recuso-me a falar de AMOR…

_JCF5319Enquanto houver miséria, injustiça, prepotência, arrogância, enquanto houver hipocrisia, vaidade, egoísmo, crueldade, recuso-me a falar de AMOR. Não porque soe piegas, mas porque é absolutamente inaceitável conviver com a falsidade… em nosso redor o que vemos é abuso de autoridade, corrupção, destruição da Natureza, genocídio de indígenas, exploração de trabalho humano e enriquecimento ilícito de políticos, empresários, multinacionais e falsos profetas de religiões messiânicas e fundamentalistas!

Houve um tempo em que eu pregava a revolução, o socialismo e o igualitarismo. Cheguei mesmo a me envolver com os movimentos políticos das décadas de 1960 e 1970, acreditando que o comunismo seria nossa redenção. Acreditava tanto nessa via socialista que me engajei de corpo e alma na luta contra a ditadura militar e contra os crimes praticados nos porões do DOI-CODI e do DOPS paulista. Coloquei minha vida nessa batalha perdida, que durou cerca de 21 anos e acabou com nossas lideranças.

No entanto, veio, finalmente, algo parecido com a Democracia, foi feita uma Constituição solidária com povos indígenas e quilombolas, criou-se mecanismos para que partidos socialistas se instalassem e ganhassem o poder. Ficamos todos eufóricos e elegemos LULA, o “sapo barbudo” e oPTei pelo Partido dos Trabalhadores, certo de que tudo mudaria nesse país. Ledo engano! Lula passou oito anos no poder e deu seu apoio incondicional ao agronegócio, às empreiteiras e mineradoras estrangeiras!

Vi o PT se desmanchar no MENSALÃO, vergonha nacional que o poder judiciário demorou quase DEZ ANOS para levar a julgamento, com um resultado insatisfatório, coberto de regalias e manifestações de “apoio e solidariedade” aos meliantes que roubaram nosso pais e cuspiram em nossa dignidade! Vimos os Zés (Dirceu e Genoíno) fazendo o gesto comunista, punho cerrado e braço esquerdo no ar, caminhando para a CADEIA como se fossem prisioneiros de guerra ou vítimas da ditadura militar!

Vi LULA, o sapo barbudo perder a barba e a vergonha na cara e eleger DILMA, a “gerente do PAC”, desconhecida e burra, subindo a rampa do Palácio da Alvorada, que deveria ser rebatizado como Palácio da Corrupção e do Entreguismo! Sim, DILMA entregou o país aos RURALISTAS AGROTÓXICOS, plantadores de SOJA e criadores de GADO! Nosso país virou a DESPENSA DO MUNDO, entregando nossas riquezas (OURO, FERRO, FLORESTAS, PETRÓLEO) a preço de BANANA e comprando BUGIGANGAS da CHINA a preço de DIAMANTE. Estamos entregando as FLORESTAS, os RIOS e as MONTANHAS para dar a melhor condição de vida aos nossos CLIENTES em troca da MISÉRIA de nossas populações marginalizadas pela pobreza!

Vejo, a cada dia, nossa população bestificada e alienada aceitar essas trocas imbecis, sem reclamar, sem perceber que estamos sendo espoliados, preparando o futuro de nossos filhos com a desgraça que virá quando nosso MEIO AMBIENTE estiver completamente degradado e imprestável até mesmo para CRIAR GADO, PLANTAR SOJA E CANA DE AÇÚCAR e EXTRAIR MINÉRIOS! E esse futuro não está assim tão distante como pensam esses cretinos que votam no PT: nossos netos já não terão lugar para viver com dignidade; nossos indígenas, a maior riqueza étnica do mundo, já terão sido extintos, dizimados pela miséria, corrompidos pela sociedade consumista e pelos empreendedores que constroem estradas e hidrelétricas na AMAZÔNIA!…

Então, por que falar de AMOR diante dessa tragédia anunciada? Por que insistir que “a vida é bela” se sabemos que vivemos uma tremenda ilusão de desperdício e consumismo desenfreado, alimentando a fome insaciável dessa civilização do consumo sem limites? Para que insistir acreditando que tudo vai mudar, que os movimentos sociais estão assumindo o poder, se sabemos que tudo é MENTIRA implantada pela mídia em nossos cérebros vazios de ideias e de altruísmo? Para que perseverar nessa luta entre DAVI e GOLIAS, que não terminará como nos textos bíblicos, mas sim em um esvaimento da seiva da vida que ainda corre nas veias de alguns poucos GUERRILHEIROS DO BEM? Cansei de lutar e de acreditar no SER HUMANO, essa estúpida criatura que não percebe que os verdadeiros tesouros estão na simplicidade da vida, na beleza da NATUREZA, no amor verdadeiro…

Recuso-me a falar de amor simplesmente porque já não acredito mais na salvação da HUMANIDADE e penso que os seres humanos precisam, urgentemente, ser banidos da face da Terra para que uma nova civilização ressurja e tente se livrar dos vícios de nosso passado, escrito com o sangue dos inocentes e construído sobre fortunas acumuladas dos saques dos pobres e oprimidos!

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

MEU RUBI

Rosas-vermelhas-imagem-4Existem momentos inesquecíveis em nossas vidas, quando o mundo parece ter amanhecido apenas para nós, em que as flores se mostram mais belas, e o sol brilha com cores que somente nós podemos perceber. Para mim, esse momento aconteceu em um dia como hoje, há 40 anos, quando levei o meu amor para compartilhar a vida ao meu lado.

Era uma pequena capela, entre sete, em um bosque no Morro de São Bento. Ela estava deslumbrante, com aquele brilho que inunda a vida de alegria e admiração. Eu perdi a noção do tempo e das coisas, e meus olhos só viam aquela pequena menina que conquistou meu coração para sempre. MORY é o seu nome!

Lembro-me de um tempo mais distante, em que despertei para essa preciosa criatura, que modificou a minha vida para sempre. Já se passaram 47 anos… ela fazia as aulas se tornarem mais interessantes, a própria vida vibrando intensa naquela pequena criatura. E para mim ela reservou uma frase singela: “Para seu caderno, o meu nome; para você, toda minha sincera amizade!” (06 de outubro de 1966)

Mory, minha linda japonesinha, minha Tyo-Tyo-San, amor eterno que se fez presente nas mais importantes cenas de minha vida! Mory, a quem dediquei tudo que fiz de bom nesta vida!

Hoje completamos nossas Bodas de Rubi (ou de Esmeralda)!

O tempo passou depressa demais para nós, e as adversidades nos afastaram algumas vezes, cruelmente esmaecendo aquele sentimento sublime e eterno. Porém, o amor que jurei tantas vezes prevaleceu e nos conservou unidos por aquela “sincera amizade” que recebi pelas suas doces palavras, e que se gravaram para sempre em meu coração.

Mory, minha doce menina, amor de minha vida, mãe dedicada que me deu dois maravilhosos presentes, Luciana e Mônica, que iluminaram meu caminho e me trouxeram essas crianças encantadoras que, hoje, são a razão de meu viver: Nícolas e Eduardo!

Nada disso teria acontecido se, há 47 anos, minha querida Mory não tivesse escrito palavras tão doces e tão singelas… sim, pequenos detalhes transformam para sempre nossas vidas! Por isso, é essencial que esses sentimentos se manifestem no momento em que inundam nosso ser…

Obrigado, minha querida Mory, por existir, por compartilhar comigo sua vida, por ser tão encantadora e por me amar, como eu te amo! Que nosso amor seja eterno!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Mensagem de Fim de Ano

Jardim de Maitreia - Chapada dos Veadeiros, Goiás

Jardim de Maitreia – Chapada dos Veadeiros, Goiás

Já nem me lembro de quantas vezes estive nessa região mística e encantadora… mas lá encontro a paz com que sempre sonhei, longe dos homens e de suas maldades. Porém, não consegui me estabelecer por lá, apesar de minha imensa vontade de viver mais simples, sem luxos, sem supérfluos, sem as ambições e contradições que a sociedade nos impõe…

Agora, chega mais um fim de ano, e as promessas e os votos de Paz, Amor, Fraternidade, estão presentes nas palavras vazias de um mundo que não tem mais jeito… as palavras não saem do coração… E nos iludimos com essas falsas promessas e até nos redimimos de nossos erros e de nossa tremenda omissão, como se deixássemos de ser os veículos do mal desse planeta.

Infelizmente, não é verdade… ainda que esses desejos fossem sinceros, pensamentos e palavras não movem o mundo, e logo um novo ciclo se inicia, sem que nada tenha transformado a essência de cada ser que habita esse pequeno universo chamado TERRA. Seguimos o mesmo caminho de erros, de desperdício, de ausência de qualquer sentimento que possa minimizar as terríveis diferenças que existem entre o discurso dos líderes e a VERDADE que separa ricos de pobres, poderosos dos humildes, tiranos de líderes verdadeiros. O mundo que conhecemos é injusto e desigual, como sempre.

De que adiantam, então, as promessas, as religiões, as nobres causas que defendemos, se a cada dia estamos mais perto do abismo intransponível que sucumbirá a nossa Civilização, como já ocorreu tantas vezes na História da Humanidade? Somos tão somente o pó do deserto, que os ventos espalham pela planície, completamente indiferenciados da paisagem que nos cerca…

Então, não façamos promessas vãs… não joguemos palavras ao vento… não desperdicemos o tempo na ilusão de que “dizer” é melhor do que “fazer”, pois a simples manifestação de desejos frágeis jamais os tornará realidade. Vamos assumir nossa verdadeira personalidade: injusta, cruel, desumana, egoísta, arrogante e prepotente, sabendo que caminhamos para a extinção como todas as civilizações que nos antecederam e desapareceram sem deixar senão vestígios de seu poder e de sua arrogância. O futuro não será diferente…

Talvez, um dia, uma tremenda catástrofe varra os homens da face da Terra, e nem o dinheiro, nem o poder, nem a vaidade, nem a ganância que caracterizam esse presente que tentamos tornar mais digno do que, de fato, é, nos salvará e nos redimirá dos males que causamos, não apenas a nossos semelhantes, mas a todos os seres vivos desse imenso paraíso que queremos ver destruído e transformado pela ambição de nos acreditarmos ser divinos…

Portanto, não desejo “Feliz Ano Novo” porque seria apenas mais uma hipocrisia…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

“Moço, me dá boas festas?”

03 - CRIANÇAS de RUA e cachorro

Quando eu ainda era criança era comum baterem à nossa porta, na época de Natal, com esse pedido curioso: “Moço, me dá boas-festas?”… na minha inocência de criança, ingenuamente, eu pensava: “Boas Festas!”. Mas logo minha mãe entrava e buscava um prato de comidas bem farto e entregava a cada um dos pedintes, que comiam com gosto e vontade, agradeciam e iam embora. E lá ficava eu com meus botões, analisando, à minha maneira infantil, por que algumas crianças tinham ceias de natal, roupas novas, presentes caros, enquanto tantas outras perambulavam pelas ruas à espera da generosidade de tão poucos.

Muitas décadas se passaram, o Brasil se transformou, vieram ditadores, caudilhos, demagogos, prometeram “dividir o bolo” depois de fazê-lo crescer… e então disseram para o povo que a miséria havia se acabado, e que agora o “papai noel” (aquele patético velhinho da Coca-Cola!) entregaria presentes em todas as casas, de ricos e de pobres, e que ninguém mais morreria de fome, e todos teriam suas casas, iriam à escola e teriam acesso a tudo o que a modernidade pode oferecer! Sim, é verdade! Já não vemos mais mendigos nas ruas e nas praças, não há mais crianças batendo em nossas portas e pedindo ”Moço, me dá boas festas?”… o Brasil é um país do 1º mundo!

É… infelizmente, não dá para mentir… nem para acreditar em papai-noel… tudo continua na mesma… apenas os pobres perderam o que resta de esperança, e os ricos perderam o pouco que lhes restava de solidariedade e hoje bateriam a porta na cara dessas “crianças inconvenientes”! Será que toda verdade é “Inconveniente”?

Mas lá, na cidade grande, as ruas estão ricamente enfeitadas, vendendo sonhos que só os ricos podem realizar! Imensos “papais-noéis” tocam trumpete, bateria e saxofone em uma jazz-band na Avenida Paulista, enquanto as prateleiras e vitrines dos shopping centers estão repletas de brinquedos, bugigangas eletrônicas e roupas caríssimas. Enquanto isso, nas grandes empresas, funcionários bem vestidos e bem-comportados combinam “happy-hours”, e trocam presentes de amigos secretos em festas de confraternização… e entre abraços e beijos até parecem amigos, de fato!

Con-frater-nizar: o ato de se juntar (ou de se reunir) como irmãos; comemorar.

Poucos se lembram das origens do verdadeiro Natal, aquele da cisjordânia, com muito deserto e nenhuma neve! Mesmo aqueles que se dizem cristãos e se ajoelham nos genuflexórios das igrejas cobertas de ouro, não se recordam das mensagens de paz, amor, igualdade e justiça de seu Cristo socialista, o homem “filho de Deus” que veio à Terra para salvar o seu “rebanho”; aquele que se imolou na cruz quando percebeu que sua missão tinha fracassado porque o povo não se importava com seus ensinamentos.

Existe uma certa hipocrisia no Natal: primeiro essa figura grotesca e de mau gosto do “papai noel” travestido de garoto-propaganda da Coca-Cola; depois, a ausência completa do sentido religioso das festas de final de ano; e depois, o egoísmo dos presentes caríssimos para os mais próximos e o esquecimento de que uma horda de seres sub-humanos se arrasta pelas ruas das grandes e pequenas cidades implorando pelos restos de comidas das comilanças, para matar sua fome! E todos terminam suas festas nababescas se abraçando e desejando reciprocamente um “Feliz Natal!”…

Passa o tempo, e o ano se acaba num carnaval fora de propósito ou numa bebedeira sem limites e inconsequente; alguns fazem promessas para cumprir no ano seguinte, e assim a vida se esvai… olhando para o passado distante percebemos que nossa sociedade pouco se difere das sociedades de castas da idade média, dos senhores e dos escravos, dos barões e da plebe ignara… uma minoria privilegiada e arrogante, expropriando um grande contingente de pobres e miseráveis acreditando que, um dia, terão sua recompensa nos céus dos esquecidos… triste ilusão que as religiões dos ricos levam aos pobres para que eles continuem abastecendo suas mesas e geladeiras com os prazeres que aos outros será sempre negado.

E, à nossa porta, à porta de nossa consciência adormecida, bate uma criança quase desnuda, rostinho sujo, olhinhos remelentos, pedindo, quase em súplica: ”Moço, me dá boas festas?”… só que já nos esquecemos o que isso significa, e fechamos a porta, voltando felizes e sem remorsos para a nossa festa!

BOAS FESTAS!

Dane-se o mundo!

Amo alguém que não existe
Não sou quem eu penso ser
Acredito no Absurdo
Confio na Solidão
Escuto o que não ouço
Sigo os passos do Oculto
Vejo tudo na escuridão

Sei que são Assombrações
Nada além da Imaginação
Fico cego na Evidência
Sou ninguém, sou traiçoeiro
Inimigo da Razão
Minha senda é a Sedução

Mas não cedo à tentação
De ser apenas apático
De confiar na Justiça
Na Bondade, na Ilusão
Sou apenas prisioneiro
Do óbvio, da contradição

Renuncio ao meu direito
De ser o beneficiário
De ser somente cidadão
De ser apenas cordato
Na vida que se apresenta
Nesse mundo de ilusão

Enquanto tudo se esgarça
Em vaidades, miséria, esbórnia
Em ambição desvairada
Enquanto poucos se fartam
Da mesquinhez do mundo cão

Sou um simples marginal
Desse mundo desigual
Luto só por ideal
Supondo até ser possível
Um universo real
Onde primam a Justiça, o Bem e a Bondade

E o Amor sem compromisso
E a Vida só, sem maldade

Mas tudo isso é bobagem
De um pensamento pagão

Afinal, somos apenas loucos
De confiar na suposição
De que além desta vida
Existe a compensação
De tamanho sofrimento
Por um Paraíso de Amor
De Paz e de Compreensão

No fundo… tudo e tão-somente
São os frutos da Ilusão!

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

?

Apenas queria dizer que não me importo

Que não preciso de recompensas

Que posso viver sem retribuições pelo meu caráter impecável

Que sou capaz de ser bom, honesto, digno sem esperar reconhecimentos

Quero pensar que não preciso ser feliz

Que a retidão de meu comportamento não tem preço

Que sou capaz de perseverar no caminho do bem sem nada esperar em troca

Mas nem tudo isso é verdade…

Não sou Budha, nem Krishna, nem Allah ou mesmo Gandhi

Sou apenas um homem idealista, mas tremendamente infeliz

E talvez não haja nenhuma razão para isso, a não ser a consciência que tenho desta vida

Ela não me deixa me iludir… sei que a existência é apenas isso

Nada existe no amanhã… nada haverá no dia depois de minha morte

E não tenho a muleta de um santo, de um deus, de uma crença, de uma promessa de vida eterna

Sei que, quando meus olhos se fecharem para sempre, minha mente se esvaziará completamente

E só restarão as palavras que deixei, esparsas, nas minhas manifestações desesperadas por sobreviver

E ninguém terá notado que vivi… serei apenas uma tênue lembrança que se apagará tão depressa quanto o tempo necessário para que as areias se assentem novamente nas dunas eternas das paisagens áridas do deserto depois de uma tempestade

É só isso… sou nada, sou ninguém, serei apenas o passado que se foi nas brumas da memória que se apagou para sempre

Então, por que perseverar? Por que insistir em dizer o que não foi dito ainda com tanta veemência e convicção? Por que deixar um rastro tão sutil que a menor aragem o apagará das areias finas das praias desertas?

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por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Transeuntes

Ele entrou no metrô pela manhã e sentou-se no lugar reservado para idosos. Não se sentia tão velho assim, para merecer um assento especial, mas naquele dia agradeceu a possibilidade de sair do aglomerado de gente se espremendo de pé nas raras composições que passavam, sempre atrasadas, pelos trilhos estridentes que o levavam ao trabalho.

Seguia em silêncio, com seus pensamentos, como de costume, sem atentar para as pessoas ao seu lado, quando sentiu um toque sutil, que o tirou do torpor e despertou-lhe a atenção. Devia ter apenas uns 17 anos, cabelos negros cacheados e pele morena. Tinha nas mãos um rosário muito longo e “debulhava” suas contas, rezando em silêncio.

Observou-a disfarçadamente, enquanto se surpreendia com o roçar de sua perna, ao movimento do trem. Teria sido casual? Atribuiu o contato à lotação do veículo, que dava pouco espaço aos que estavam de pé. Aquietou-se em seus pensamentos, mas já não conseguia concentrar-se, com o frequente tocar, percebido pelo tecido grosso de seu jeans.

A viagem pareceu-lhe menos desconfortável, e rápida demais para o fluir descontrolado de seus pensamentos. Passavam as estações e o trem se esvaziava, mas a garota continuava tão próxima que dava para sentir o seu perfume, exalando o vigor e a beleza da adolescência. O contato sutil o atordoava; seu desejo aumentava e seus instintos despertavam… ocultou-se em seu silêncio, temendo parecer ridículo diante  daquela jovem. Provavelmente, era essa solidão, que o acompanhava há anos, que alimentava ideias de um erotismo que já não podia sustentar.

As estações passavam céleres, como seus pensamentos, e logo chegaria a seu destino, mas não podia ignorar a ostensiva presença da menina, que estimulava seus instintos com seu toque quase imperceptível. Queria se aproximar e declarar sua presença, mas sua auto-censura o continha; fitou-a diretamente nos olhos e percebeu um sorriso delicado em seus lábios carnudos e vermelhos. Seria apenas por simpatia? Baixou os olhos, envergonhado de seus próprios pensamentos.

A próxima estação seria a sua; deveria sair, ou continuaria até o destino da garota, acreditando na ilusão que ele próprio criara em sua mente? O trem desacelera e os segundos se arrastam sobre os trilhos e o ruído estridente do atrito de metais. Desperta à realidade e se levanta; olha para ela, como uma súplica, mas a menina disfarça um rubor e abaixa o olhar. Mesmo sabendo que havia um clima de tensão compartilhado que os unira por esses breves momentos, dirige-se para a porta e desce do vagão; pára na porta e olha para trás: ela também o contempla, decepcionada, talvez…

O trem parte tão rápido quanto chegou, levando sua carga preciosa, e mais um sonho não realizado… segue seu caminho, confortado pela solidão… mais um dia…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Andrajos

 

Da ponta fina e sutil escorre meu pensamento:
Ora, em profunda tristeza, ora, pleno em alegria.

Seria, a tinta, o humor, o sangue de nossas vidas?
Quem alterna o sentimento, da dor à melancolia?
Quem, da mão, faz sua escrava, levando à mente a vontade,
Calando, em si, o desejo, recompondo a harmonia?…

Seria, enfim, ao contrário, apenas por ironia,
Que a vida se originasse da folha em branco e vazia?

Assim, por mero capricho, rabisco esta poesia,
Que nada diz, na verdade, pois nada me restaria,
Senão silêncio e saudade, senão andrajos de amor…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Dinorah

Por ti compadecemos, impotentes, mãe querida,
Sem conhecer-te os sonhos… sem compreender-te a dor…
E de tal modo nos acostumamos com tua breve partida
Que jamais soubemos onde guardavas tanto amor…

Suave, serena e forte, tua chama delicada conduzias…
E enquanto o sofrimento ocultavas no silêncio dos teus dias,
Teu pequenino corpo pressentia o iminente desenlace
Sem uma lágrima sequer jamais verter em tua face.

Valente e decidida, optaste por permanecer presente
Quando a vida, ao teu redor, já perdera todo encanto,
Na escuridão dos dias infinitos, em seu estar silente,
A nos dar o teu carinho… a nos esconder teu pranto…

E agora, que nos deixaste sem o teu calor,
Completamente sós… desamparados… tristes…
A lamentar tua ausência… a compreender tua dor…
O que nos resta é lamentar, calados… e murmurar silentes:

Ah… Dinorah… que falta sentiremos no resto dessa vida!…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Ah… Dinorah, Dinorah!

Eu a vejo partir aos poucos, diante de meus olhos, e me pergunto: por que? Talvez eu sofra muito mais do que ela… e assim como quando meu pai também partiu, um enorme pedaço de meu coração se romperá e se perderá para sempre. Minha mãezinha… o ser mais querido que tenho, e nada posso fazer… lembro-me quando, ainda jovem, muitos anos passados, eu meditava, imaginando ser capaz de estancar a seiva da vida a se esvair, e impedir a morte de meus entes queridos… hoje sei que nem mesmo posso fazê-los felizes… cada um tem o seu destino, e quando pensamos estar no controle do leme da nau de nossa existência, algo muito mais poderoso… um vendaval… uma forte corrente… um sopro divino ou maligno nos arrasta para longe, muito longe… nem sextantes, nem estrelas, nem bússolas podem nos dizer para onde somos levados, e só nos resta nos conformar com a sorte… estranha palavra esta: SORTE! Acaso, destino, bons augúrios… para mim, sempre foi Acaso!

Ah… Dinorah, Dinorah!

Minha primeira professora, mãe querida, colo aconchegante que me protegia das tormentas… agora, quase sem ela, já sem meu pai há tantos anos, não há como evitar as procelas… talvez até as busque, quase como uma auto-punição…

Dinorah! Ah… Dinorah…

Mãe que abriu mão de sua própria vida para cuidar de seus filhos… talvez nunca a tenhamos verdadeiramente conhecido; mulher forte e decidida, capaz, porém, de se entregar às lides de uma simples casa, aos cuidados com seu esposo e filhos, em lugar de seguir o seu destino, sua própria vida… professora criativa e inteligente, que soube inovar quando todos os demais preferiam seguir no seu “Caminho Suave”… nossos caminhos nunca foram suaves; pensamos demais, discutimos demais, lutamos mais do que deveríamos ter feito… no entanto, e mesmo por isso, tornamos tudo tão difícil, desgastante, dolorido… sofremos e fizemos sofrer àqueles a quem tanto amamos; estranha manifestação de afeto!

Ah… Dinorah…

Quisera tê-la abraçado mais, beijado mais, declarado incontáveis vezes o meu carinho incondicional por você! No entanto, foram tão poucas as vezes que conversamos sem a tensão opressora de uma estranha e incompreensível solidão… Nunca foi desamor, mas nos manteve distantes, como polos opostos de um poderoso ímã cujas metades jamais se separam… e mesmo que uma poderosa força o rompa, suas novas metades continuarão se opondo com a mesma tensão e energia, sugando-se uma à outra em um movimento estático e infinito… curiosa é a vida, não é mesmo? Sentimos o que não queremos, dizemos o que não devíamos, e nos ofendemos, às vezes, mesmo pensando em não nos magoar.

Ah… minha querida Dinorah!

Poderia até pensar que faria tudo diferente se a vida assim nos permitisse… mas não é verdade. Tornamos a vida cruel, não porque tenhamos ódio, mas pelo mais puro e sincero amor! Que paradoxo, que desencontro… por isso, seguirei minha vida, me penitenciando sempre, punindo-me pelo que não soube ser, flagelando-me em busca de um perdão que não poderá jamais existir.

Ah… Dinorah…

Acredito que nunca mais a verei… assim foi com Ulysses: um dia, um pequeno cochilo, um descuido, uma saída, e Ulysses se foi para sempre, modesto, humilde e discreto… agora é você, Dinorah, mãe querida… mas sou eu quem te deixa para tão distante e, ainda que quisesse, jamais te encontraria novamente… talvez seja melhor assim; minha limitada compreensão das razões do existir só me fizeram sofrer e, comigo, àqueles a quem tanto amo. Digo para mim que é minha missão… busco razões que não existem… afinal, somos como a poeira na réstia de luz que passa na fresta da janela de nossas vidas… efêmeras vidas… tão curtas, tão insignificantes que nem o maior dos seres humanos poderia mudar o curso das estrelas ou afetar o destino do mundo. Haveremos que nos conformar com essa insignificância e buscar, em cada amanhecer, a motivação para viver apenas por mais um ínfimo dia.

Não te direi adeus, Dinorah… talvez um “até breve” que nunca se realizará… pois ambos pereceremos nas brumas do passado. Nem as lápides, nem os livros, nem as inscrições em pedras e nos anais da História permanecerão. No entanto, um dia, em algum lugar do passado, um filho amou profundamente sua mãe e lhe dedicou esse epitáfio:

“Ah, Dinorah… que falta me fizeste no resto de meus dias…”

Homenagem às Mães

Mãe: a origem da Vida, o começo de tudo, a fonte da Humanidade, ser que todos guardamos com carinho em nossas mentes, em nossos corações… mães sofridas, dedicadas, abnegadas, generosas, tolerantes aos pecados de seus filhos, “seus guris” sempre… mães esquecidas na sua lide diária, não reconhecidas pelos homens que ainda acreditam que elas servem para servi-los… nossas mães, mães das crianças e dos adultos, dos indígenas, dos negros e dos animais.. mãe cujo amor e carinho não tem limites, senão no desejo de nos ver felizes, a nós, filhos ingratos que ainda pensamos que somente hoje é o Dia das Mães! Mãe solteira como “mama África”, mães indígenas esquecidas até pelos que juraram protegê-los e que se esqueceram até que existia um “Dia do Índio”, MÃE: palavra mágica que nos remete aos dias ancestrais de nossa existência, sentimento que não basta para tratá-las com mais respeito, amor e devoção.

Mãe Natureza, esquecida dos homens de má-fé, que querem transformar as florestas em pastos para o gado e fonte de riqueza maldita para nossos descendentes… mãe árvore, mãe dágua, mãe ancestral e bela… o que faremos dessas belezas que herdamos e que não têm o menor valor para esses seres desgraçados? Árvores seculares, testemunhas da nossa história, decapitadas, desfiguradas, desmembradas como lenha, jogadas na fornalha sem o menor respeito por seres que não merecem o título de “Homens”… árvores nascidas das sementes germinadas na Mãe Terra, como as crianças geradas no ventre das mães dos homens e que agora são apenas tábuas, carvão, serragem imprestável!

Mães Yanomami que, na sua simplicidade e pureza se expõem aos olhares maliciosos dos homens ditos “civilizados”, que não percebem a beleza sofrida em seus olhos… mães que levam suas crianças em seu colo precioso, expressando a beleza perdida pelos homens, que apenas traduzem as mães em um mero dia para o consumismo desenfreado e inútil nas agendas do comércio voraz, louco pelo lucro fácil das promoções, “vendendo” homenagens que deveriam ser simples como o carinho que a elas, mães, devemos, não um só dia de 365 dias do ano, mas todos os minutos de nossa plena existência… mães que cuidam de seus homens nas aldeias, trazendo os produtos de sua subsistência e transformando-os em alimentos para seu povo humilde e esquecido nas matas amazônicas, essas mesmas matas que os ambiciosos fazendeiros querem derrubar para fazer crescer e alimentar seu gado insaciável e desnecessário…

Mães selvagens, rudes em sua busca pelos alimentos e sobrevivência, mas delicadas e gentis para com seus rebentos, tolerantes às suas travessuras, como as de qualquer criança, complacente com seus inocentes folguedos, esquecidas das lutas ainda não travadas, dia após dia, para assegurar que seus filhotes consigam superar a rudeza da selva e chegar à idade adulta, fortes e determinados como suas incansáveis mães… mães que escondem seus filhotes dos leões que derrotaram o antigo líder do seu bando e que agora querem devorá-los, apenas assegurar que sua descendência leve a marca genômica dos filhotes paridos de sua leoa…

Pois somos assim, ingratos e cruéis, não apenas com as mães de nossos filhos e com as nossas próprias mães, mas também com tudo que recebemos de herança dessa imensa moradia, que é o nosso planeta… deixamos um rastro de destruição atrás do caminho que trilhamos, e pensamos que nada disso será considerado pelo futuro que nos aguarda. Mas em nosso encalço virá a vingança de outra mãe, não tão misericordiosa assim, e que nos devolverá a maldade em fome, miséria, sede e desolação, um oceano de areia, sem vida, sem recursos naturais, consumidos que foram pelos homens de má vontade que devastaram tudo ao seu redor, apenas para homenagear outra mãe: a moeda, o dinheiro que não saciará nossas necessidades, e se transformará em lixo inútil…

O que faremos com isso depois que todas as florestas e rios tiverem sido destruídos pelos ambiciosos seres que só enxergam a ponta de seus próprios narizes e só têm sentimento em seus bolsos e contas bancárias abastadas? O que restará ao mundo quando apenas um imenso deserto restar aos nossos olhos para contemplar? De que valerá todo ouro que esses poucos poderosos amealharam ao longo de suas vidas inúteis e desgraçadas? Quem são as mães desses miseráveis? Pobres mães, que não souberam cultivar essas sementes podres…

Deixo, portanto, essa minha homenagem pouco amável, mas sincera, como um alerta severo e rude, como será rude o nosso destino, semeado pela ambição inesgotável desses mesquinhos inimigos da Vida, da Natureza, das Belezas da nossa querida Terra… mas, para não terminar de modo tão cruel, deixo essas imagens belas e destemidas de nossa mãe África!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica Marcado
A flor que nasce do lodo com sua exuberante beleza

Os Ciclos da Vida

 

Percebemos nossa existência pelas passagens da Terra em sua rota infinita na elipse ao redor do Sol. É estranho dizer, mas sempre foi assim, desde a remota antiguidade. Todas as civilizações que por aqui passaram e tiveram seu apogeu e sua glória, marcaram sua presença pelos Ciclos da Vida. Para nós, seres humanos, reles mortais, não é diferente, e a cada novo ciclo que se inicia, renovamos nossos compromissos com ideais, sonhos, desejos…

Hoje completo 62 anos de existência… e faço uma breve retrospectiva do que fiz ou deixei de fazer… não há como nos arrepender do passado, nem mesmo lamentar; fizemos o que foi possível, o que nos pareceu justo e correto, a melhor opção diante de cada instante de nossas vidas, de acordo com nossa sempre limitada consciência. E fizemos bem, se não nos desviamos de nossos principios!

Tive uma infância privilegiada, em uma pequenina cidade do interior. Brinquei como todas crianças brincavam; fiz amizades que ficaram no passado… e cresci; tive uma adolescência atribulada, como foi a vida naquele momento difícil de nossa história; mas o sofrimento de ter a liberdade cerceada me permitiu ver o mundo com os olhos políticos que todos temos; tive o privilégio de conhecer pessoas brilhantes e batalhadoras, que não limitavam sua ação pelo medo da tortura.

Tive muitas oportunidades de estudar; fiz engenharia, letras, administração, história e logística; mas não terminei nenhuma faculdade; poderia dizer que o destino não quis, mas não foi assim: abandonei cada curso por decisão própria, algumas por desencanto, outras por necessidades do momento, mas sempre fui eu quem decidiu, e não me arrependo.

Segui minha carreira ao escolher, em uma encruzilhada, um dos caminhos que se mostravam à minha frente; trabalhei muito, durante anos, e me aposentei em 2007; pratiquei inúmeras atividades na Natureza e aprendi a amá-la acima de tudo, até mesmo dos homens, que lhe faltam sempre ao respeito; hoje sou um ambientalista, um ativista em defesa do Meio Ambiente.

Também optei por defender as minorias e me tornei indigenista; trabalhei na Amazônia e percebi que a realidade não é tão simples quanto nos parece, e que as lideranças desses povos humildes não são assim tão humildes, e defendem interesses próprios em detrimento de seu próprio povo, algo assim como nossos políticos, corruptos e desonestos…

Mas assim é a vida… meu pai me dizia que trilhar o caminho do bem não é fácil, pois não há reconhecimento; e mesmo quando optamos por preservar nossos princípios, somos desprezados pela sociedade, que prefere fechar seus próprios olhos e admitir que não tem remédio! Mas temos um compromisso com nossos descendentes, e esse compromisso é inadiável, inarredável, e deverá ser defendido intransigentemente, a despeito de nossos próprios interesses pessoais. Só assim consigo perceber minha missão aqui na Terra.

Hoje se incia um novo ciclo para mim, e novos desafios se apresentam. Começarei uma nova faculdade, de Fotografia, e estou me planejando para um projeto audacioso, ao menos para mim: escalar o pico do Aconcágua até 2015, pela Face Sul, a mais fácil e menos perigosa; mas para mim será um extremo desafio e um motivo a mais para perseverar em meu caminho. Sei que contarei com o apoio de minha família e de meus amigos…

Um grande abraço a todos que se lembraram de mim nesse dia!

Chapada Diamantina - Flor de Maracujá

Feliz Ano Novo!

 

Sempre que um ano se encerra temos a sensação ilusória de que o mundo se renova e uma nova oportunidade se manifesta para que o ser humano se regenere e cuide dos outros, da Natureza, dos esquecidos e necessitados, dos segregados pelas injustiças de um mundo desigual, ressurgindo uma efêmera solidariedade que dura o tempo da troca de presentes e das comemorações de Natal e Ano Novo. Nesses dias de muita festa, muita bebida e generosos gastos com presentes, as mensagens trocadas falam de PAZHARMONIA AMOR

Quanto desses desejos são intenções verdadeiras? Quanto de cada um de nós está verdadeiramente comprometido com as mudanças, com uma nova visão de mundo que não segregue a miséria, a cor da pele, a origem étnica e as classes sociais desprivilegiadas? Quanto de nós colocamos nesses textos bonitos e edificantes, que falam de um mundo que nunca existiu?

Pois, apesar de toda hipocrisia contida nessas mensagens, cada ciclo de nossas vidas, quando se encerra, traz um momento de reflexão que até poderia gerar mudanças de comportamento, extraindo de cada um de nós o que de melhor existe. Mas é preciso mais do que palavras, mais do que presentes, mais do que manifestações passageiras de solidariedade. Enquanto estivermos fechados em nosso mundo de privilégios “conquistados”, olhando o Universo através de uma janela, por detrás da cortina e das grades que nos protegem, a vida permanecerá a mesma, e começaremos um novo ano com muitas promessas que jamais se concretizarão.

Portanto, desejo a todos um ano novo diferente, em que as mazelas do mundo nos incomodem o bastante para gerar verdadeiras mudanças, e que não seja mais possível fingir que somos piedosos, solidários e generosos… que a humanidade sofra, de fato, as consequências de suas atrocidades, e que todos nós sejamos, pelo menos, conscientes de nossa parcela de culpa em todo esse processo cruel, deprimente, degradante, injusto e repleto de privilégios inaceitáveis.

Somente assim poderemos mudar, definitivamente, nosso papel na vida e encontrar, em nossos semelhantes, os seres humanos que se ocultam na pobreza, na degradação moral, na sujeira, nas esquinas suspeitas, nos vícios… esse seria o sermão dos seres iluminados que por aqui passaram e deixaram suas doutrinas para nos inspirar. Não existem livros sagrados se as práticas de seus devotos são incoerentes com as palavras que professam nas cerimônias religiosas, se suas vidas são o avesso das suas orações…

Com muito carinho e esperança em um mundo novo e verdadeiramente admirável…

FELIZ ANO NOVO!

Chapada Diamantina - Xique-Xique do Igatu

Vida Insensata

 

Tia Elza, querida amiga, sinto sua falta entre nós… recuso-me a imaginá-la inerte, em uma cama de hospital… prefiro lembrar-me de sua voz suave, gentil como de minha querida sogra, sua irmã Carolina, que nos deixou há mais de 20 anos, e que permanece em minha memória, sussurrando sua bondade, meiga e amável, a todos a quem recebia, generosa, em sua casa. Saudade… muita falta vocês me fazem… De tia Elza ainda não nos despedimos… talvez nunca o façamos, pois de seres iluminados não se despede; apenas lamenta-se a perda do convívio, e isso é o que menos importa.

São poucos os espíritos que perambulam nesse mundo tão impessoal e egoísta. A tecnologia teve o dom de aproximar seres humanos (seria a aldeia global?), mas também vulgarizou o relacionamento. Hoje entra-se no Facebook e escreve-se algo assim: “meu cachorrinho está doente…”; ou então “estou com raiva!”. Ficamos esperando alguma fala que complemente o raciocínio, mas o que vem depois é “curtir”, ou então “tadinho!”… vulgaridades cotidianas.

Falta conteúdo ao mundo globalizado, e não era essa a mensagem de McLuhan! Ele falava da volta à simplicidade de uma aldeia, todos se comunicando ao redor do mundo, mas com inteligência e sofisticação intelectual! Algo como um nivelamento “por cima” das classes sociais. Acontece que a aldeia que ele concebia era aquela que temos em mente quando imaginamos os indígenas no meio da selva amazônica. Porém, quando lá chegamos, encontramos antenas parabólicas para assistir as novelas da Globo e muita cachaça para fazer o caxiri e embebedar-se até cair no chão… o índio perdeu a inocência!

E nessa vida insensata vamos perdendo a capacidade de confabular, de nos agacharmos diante das casinhas simples do interior que conheci na minha infância, apenas para conversar, de conceber inconsequentes teorias de evolução da humanidade, de preservar o verde, as águas e os animais, de sonhar com a paz, como fez John Lennon… e por isso nos arrastamos pelos becos de nossa inocência ultrajada, lamentando o mundo que nunca mais poderá encontrar sua aldeia natal, e lá simplesmente sentir o frescor das tardes de domingo, à beira-rio, jogando conversa fora com amigos de verdade, e acreditando em uma vida melhor…

Roubaram nossas possibilidades de sermos simplesmente felizes…