Cotidiana vida

Socorro!… Socorro!…

No meio da noite, gritos insistentes e aflitos trouxeram-me à realidade, confundindo o meu entendimento… talvez por invadir meus sonhos, tornando-os em pesadelos, talvez dos próprios pesadelos emergissem os gritos, a povoar a minha realidade.

Já me acostumara àquelas cenas da desconfortável vizinhança, tão próxima e distante, a devassar os contrastes sociais, incômoda convivência involuntária.

Flap-flap-flap- flap-flap- flap-flap- flap-flap- flap-flap- flap-flap- flap-flap…

Tu-tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu…

Pairando sobre a favela e meu apartamento, essa indesejada presença dos helicópteros já se tornara parte de meu cenário, às vezes apenas para ostentar o poder coercitivo da polícia, outras, porém, em busca de bandidos, traficantes, assassinos, seres indesejáveis, cotidianamente presentes em nossa existência metropolitana.

Não raro, tiros se perdiam na escuridão dos sonhos, mesclando ilusão e realidade nos palcos de minhas noites insones e agitadas.

Mesmo durante o dia, em plena luz do sol, papelotes eram trocados por dinheiro, às grossas vistas da polícia, que mantinha um posto armado e motorizado nos arredores, sem função aparente.

Socorro!… Socorro!… Socorro!…

Cada vez mais fracos, os gritos invadiam minha consciência, atormentando meu ser desconsolado. Já desistira de ligar, pedindo ajuda, que nunca chegava. E o mundo lá fora, além de minha janela, indefeso e abandonado…

Afinal, quem se  atreveria a cruzar as fronteiras imaginárias do bom-senso e da razão, mesmo que fosse essa sua única razão de existir como policial?

Era uma voz feminina, quase suave, uma adolescente, talvez…

Percorrendo a lateral do edifício onde eu morava, um beco mal iluminado era a única travessia da avenida para a favela ao longo de 2.000 metros.

Aquela estreita e sinuosa passagem aproximava os dois mundos irreconciliáveis: de um lado, edifícios, lojas, escritórios, residências, e um fluxo incessante de veículos, a provocar um ruído estranho, constante e incômodo nos transeuntes e moradores; do outro lado, barracos e precárias construções de alvenaria se amontoavam por quase quatro quadras, descaracterizando a urbana civilização, povoada de miséria e desolação.

Socorro…

Já não sabia se era um grito abafado ou um gemido sem esperança.

Ousei olhar por entre as frestas da veneziana, procurando entrever o Ser a suplicar por ajuda… Apenas a noite, escura e pesada, e a tênue chama tremeluzente da fraca iluminação, a refletir seus raios nas poças do caminho…

Pou! Pou! Pou!

O choque brusco dos tiros, certeiros e inevitáveis, arrancou-me do torpor da semi-vigília em que me encontrava, evidenciando o trágico desfecho.

Só o silêncio permaneceu no ar.

Ninguém ousara abrir as janelas, ninguém acolhera os gritos de desespero… O drama ficara, outra vez, do lado de fora de nossas vidas…

Naquela noite, não consegui reconciliar meu sono, novamente. Desperto e desconfortável, imaginava aquela pobre vida, interrompida precocemente pela cruel realidade que nos cerca e oprime.

No dia seguinte, um burburinho pelas ruas, pelos botecos, nas calçadas… e a poça de sangue ao lado da jovem seminua… nada mais.

Transeuntes desviavam seu trajeto para poder olhar de perto a nova vítima.

Precariamente coberta por jornais que mal disfarçavam o horror estampado em seu rosto, pouco mais que uma criança, entregue à curiosidade mórbida e perversa dos passantes.

Abalado em minha confiança na humanidade, nos dias que se seguiram confundia minha insônia com o dia interminável, mal reparando no passar das horas.

O mundo à minha volta se reconstituíra, apagando as marcas da tragédia recente. Já não se comentava, às rodas dos desocupados, o triste final de uma vida, ou a inoperância dos aparatos policiais.

Os acontecimentos corriqueiros do cotidiano se entrelaçavam, nas tragédias eventuais. Porém, a estas, só é concedido o brilhar efêmero dos holofotes no momento em que se manifestam, anônimas, em nossas cercanias.

Mesmo aos mais próximos dessas vítimas ocasionais, só é dado permanecer em suas memórias voláteis pelo tempo necessário a assimilar o medo e o terror de si mesmos, esmaecendo aos poucos, à medida em que a auto-comiseração se esvai e se acaba; ou até que um novo drama se avizinhe e se sobreponha às nossas prioridades imediatas.

Foi assim que, chegando à minha casa, dias mais tarde, fui informado do suicídio de um casal de idosos, antigos moradores do edifício, esquecidos pelos seus amados filhos à solidão reclusa de sua cotidiana vida…

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Sedução mórbida

Não era a primeira vez que ele se expunha publicamente, em busca de uma aventura amorosa. Já não se entusiasmava mais com as relações convencionais: queria sentir prazer no risco de ser descoberto, flagrado em uma situação qualquer, constrangedora para a maioria dos comuns. “Por que?”, perguntava-se incrédulo após perpetrar o ato impensado e tresloucado, que o consumia em desejos. Não saberia se explicar, nem a si mesmo. Mas o fazia, e repetia sempre, cada vez com mais ousadia e despudor.

Naquele dia, porém, sua loucura superou os limites mais tênues da razão que ainda lhe restava. Saíra de casa cedo, caminhando meio sem rumo (nunca planejava suas ações, deixava-as apenas acontecer ao acaso), meio sem vontade. Era sempre assim que tudo começava. Esgueirou-se pelos becos mais sujos e abandonados.

Mendigos, bêbados, crianças cheirando cola ou queimando umas pedras, perdidas na vida que lhes fora reservada pela Sociedade, vadios, putas e travestis decadentes… Aquilo era pura inspiração!

Primeiro, despiu-se completamente e caminhou entre seus semelhantes, procurando perceber alguma reação. Nada! Pouco se importavam com aquele traste nojento, exibindo seus desejos e despudores na sarjeta dos esquecidos. Afinal, que mais poderia acontecer ali? Seguiu, por algum tempo, num misto de excitação e de vergonha. Era como se fosse invisível! Passava incólume pelos caminhos dos sem-destino. Cansado de se mostrar, vestiu-se novamente e saiu depressa daquele lugar horroroso.

Começou, então, a lhe nascer ali aquela idéia sórdida e macabra. Foi para uma estação do metrô, comprou seu ingresso e partiu no primeiro trem que passava. Sentou-se discretamente ao fundo do vagão e começou a observar os transeuntes, imóveis em sua própria solidão. Parecia-lhe sempre a cena de um filme antigo, as pessoas sem identidade, taciturnas diante do tempo perdido naquele vagão frio. Já passava do meio-dia.

Não se sabe por quanto tempo seguiu viagem, ora para um lado, ora para o oposto, pouco se lhe importando o destino. Às vezes saía e mudava de trem, para não despertar suspeitas da Segurança. Na verdade, ele já se tornara uma figura conhecida dos funcionários do metrô, pois costumava gastar horas de seus dias inúteis naqueles passeios sem destino. Mas, como não incomodava nem molestava ninguém, não lhe davam maior atenção; apenas alguns comentários acerca daqueles seus passeios inúteis e esquisitos.

Porém, naquele dia, sua mente pervertida reservara uma aventura que não seria esquecida por muito tempo. A noite se aproximava. Para ele, pouco importava quem seria sua vítima; queria apenas que fosse alguém que pudesse dominar com certa facilidade. O acaso lhe deu de presente esse pobre coitado: um garoto entrou no vagão, justamente quando o movimento rareava, e sentou-se defronte àquele que seria seu mais cruel algoz. Distraído, olhou para ele com indiferença. Mas surpreendeu-se com um sorriso amável e caridoso. O garoto logo simpatizou-se com aquele estranho que o encarava.

Parecia que ele compreendera, de um só olhar, todo o seu drama de criança abandonada pelos pais, pela vida, pela sociedade. No fundo, ansiava pela mão amiga que lhe trouxesse de volta a esperança, que o levasse daquela solidão precoce e sem jeito que o consumia.

Na troca de olhares que se seguiu, entabularam uma conversação que somente os mais solitários poderiam compreender. Daí ao que se processou depois foi apenas uma conseqüência natural: já saíram do trem como velhos amigos que se reencontram, conversando animadamente, ele se insinuando discretamente à sua presa indefesa. Pagou um farto lanche ao menino, e isto foi o sinal definitivo a selar sua “amizade”. Seguiram para um parque, por sugestão do maníaco, “para se conhecerem melhor”. Tinha uma casa grande, dizia ele, onde poderiam morar juntos por algum tempo, até que arranjasse um lugar definitivo para o garoto. Em sua ingenuidade de criança, qualquer manifestação solidária seria benvinda, como de fato foi.

Tomou o menino em seu colo, a pretexto de consolá-lo pela emoção do padrinho caridoso que acabara de arranjar. Aproveitando-se do enlevo do momento, primeiro beijou ternamente a face ingênua que se recostava em seu peito. Depois, arriscou-se mais e acariciou o menino em suas partes íntimas, delicadamente, carinhosamente.

Fragilizado, entregou-se à agradável sensação de ser bolinado pelo novo amigo. Em seguida, ousou beijar-lhe a boca. Assustado, o menino tentou se afastar, mas já não tinha forças, dominado que estava por aquele corpo imenso sobre o seu. Fez menção de gritar, mas a dor de uma repentina penetração do dedo em seu ânus, esmoreceu-lhe a vontade. Estava sendo brutalmente despido, sem que pudesse esboçar qualquer reação. Depois, foi a vez do marmanjo. E lá estavam eles, nus, isolados pela escuridão da noite e pela solidão do parque ermo e distante.

Sentia-se como um boneco, sendo manejado sem qualquer gentileza por aquele homem rude e frio. Atordoado, chegou a sentir até um certo prazer enquanto era estuprado. Depois, ficou envergonhado quando o grandalhão lhe chupava o pequeno pênis ainda não completamente desenvolvido. Mas, com aquele movimento contínuo dos lábios do monstro, voltou a sentir um prazer que ainda não conhecera. O que era aquele líquido que saía aos jatos de seu pintinho duro?

Em seguida, foi a sua vez. Teve medo, teve vontade de morder aquela carne enrijecida que era obrigado a chupar. Mas estava por demais excitado e apavorado para reagir ao grandalhão. Obedeceu. Chupava freneticamente o membro duro até que saiu aquele líquido quente e gosmento, que foi obrigado a engolir. Teve náuseas, vomitou sobre a pele suada de seu dominador, sentiu o forte impacto do soco recebido, assustou-se com o berro violento, caiu meio desfalecido sobre o chão frio e cimentado do parque.

Não teve tempo de despertar completamente: logo, um pontapé foi desferido em sua barriga, depois diretamente em sua cabeça.Ainda consciente, viu o homem se aproximar e, em um golpe fatal,  percebeu-o esmagar-lhe o crânio com uma pedra grande e pontiaguda. Ficou estendido ali, sem vida, no parque deserto e silencioso… para sempre. Como de outras vezes, após sua insânia, despertou assustado com o que acabara de fazer, mas já era tarde.

Desta vez, fora longe demais. Sentiu medo, vergonha, remorso, mas sabia que aquilo fora apenas mais um passo rumo ao destino que delineara para si. Retomou a consciência do ato que praticara. Arrastou o corpo inerte até o matagal, no fim do parque. Suas ações eram acobertadas pela noite negra e sem lua. Jogou-o sobre os entulhos acumulados pelo mato adentro. Não satisfeito, cobriu-o de galhos arrancados das árvores mais baixas e próximas. Ao não ver mais aquele pequeno corpo desfigurado, sossegou suas ansiedades e retornou para casa. Não tinha mais por que se preocupar. De qualquer modo, amanhã seria um novo dia!

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Cidadania, Política e Ideologia


Chegam os dias de muito debate político e, infelizmente, de mentiras, agressões, ofensas, falsidades.
Pois é assim o "nosso" modo de convencer o eleitorado. Tudo é válido, tudo é permitido, pois o que interessa é que o "nosso" candidato chegue ao poder. Nem importa se somos seres do anonimato para aqueles que lá chegarem, e que irão nos "subtrair" dos ganhos conquistados com muito trabalho e esforço. Então, por que nos comprometemos e nos expomos tanto por aqueles que nos trairão?
 
O homem é um ser político, e a discussão das idéias nos empolga e absorve nossa razão e bom-senso.
 
Nós elegemos nossos políticos. Por isso, já se disse à exaustão que merecemos aqueles que nos governam. Mas não posso concordar com isso: seria muito confortável assumir a culpa coletiva e "deixar rolar" a corrupção descarada que nos destrói o sentido da Cidadania. Pois é, às escolas cabe essa culpa, e aos educadores, aos nossos pais, aos nossos líderes (aqueles bons), porque não nos ensinaram o que significa essa palavra tão expressiva de nossos direitos e deveres, mas já completamente desgastada e esvaziada em expressão pelo (ab)uso ou (des)uso.
 
Nas doutrinas socialistas, a Dialética assumia um papel determinante na formação política dos indivíduos. De modo simplista, diríamos que dialética é a "arte da discussão das idéias". É o que nos falta hoje, pois os meios de comunicação "digerem" as notícias para nós, "poupando-nos" o trabalho de análise e discussão de seus complexos significados.
 
É assim que vemos pessoas de todas as camadas sociais e culturais (o que é bom) "discutindo" temas como educação, saúde, política nacional e internacional, economia, … mas as suas opiniões se restringem a repassar as matérias veiculadas nas manchetes dos jornais das redes de televisão (o que é mau). Ou seja, é um SPAM coloquial de idéias anônimas!
 
No passado, alguns partidos políticos manifestavam Ideologias programáticas, o que assegurava àquele que se afiliasse a eles a certeza de que suas diretrizes seriam respeitadas nas ações, seja em campanha, seja nos cargos públicos a que fossem investidos. Isso, infelizmente, não acontece mais. Após a revisão da geopolítica dos anos 80 e 90, não há lugar para ideologias.
 
Como poderemos, então, cobrar coerência de nossos governantes, se eles nos mandam "esquecer tudo o que disseram" ou defenderam como acadêmicos e intelectuais, se alianças espúrias descaracterizam governos de esquerda ideológica, se os partidos oportunistas permanecem sempre como "reserva de voto" e de aprovação de leis em troca de cargos fisiológicos?
 
Seria muito importante que, mesmo em minoria, nossa consciência política e ideológica prevalecesse nas próximas eleições, e que os nosso candidatos tivessem, ao menos, a decência de se manter coerentes com tudo o que disserem diante das câmeras.
 
Esperar mais dessa classe política, com esses partidos e com essa realidade nacional, talvez seja apenas ilusão, quimera…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Analfabetismo Cultural

Somente a Cultura poderá nos redimir, um dia, do subdesenvolvimento, da ignorância e do obscurantismo intelectual. A mais grave situação do ser humano é sua incapacidade de compreender o mundo em sua diversidade e em seus inter-relacionamentos.Quando um fato ou situação se apresenta ao indivíduo, e seu limitado entendimento não reflete a sua verdadeira dimensão, distorcendo seu contexto, suas causas e conseqüências, isto é preocupante; estaremos diante do analfabetismo cultural.

É isso que se destaca às vésperas das eleições: pessoas despreparadas até mesmo para identificar a grande farsa dos candidatos, separando aqueles que poderiam, eventualmente, agregar algum valor às nossas vidas e à comunidade a que pertencemos.

Eles caminham entre nós com desenvoltura, destacando a miséria, como se dela não fizessem parte, ou como se nunca houvera a oportunidade de resolvê-la em suas atuações atuais ou passadas. Vestem a máscara da pureza e da idiotice (triste paradoxo!), fingindo não fazer parte desse mundo de tragédias, de fome, de miséria, de exploração humana, de corrupção que nos rodeia e oprime.

Olham-se uns aos outros como seres de outro mundo, segurando crianças, beijando mulheres, abraçando operários, comendo o prato feito da periferia, caminhando na lama que invade as casas, não hoje, mas todos os dias do resto das vidas desse povo enganado.

Fazem promessas absurdas e impossíveis, fazendo crer que depois do pleito tudo será diferente…

E mais uma vez entramos naquela sala de mentiras e colocamos nosso voto nessas pessoas, tornando-nos cúmplices da sua mentira e desfaçatez, fazendo-nos culpados de seus futuros atos imorais e impunes, tornando-os mais ricos pela fuzarca dos contratos e das propinas, das medições falsas das obras que nunca terminam, e que não refletem as verdadeiras necessidades desse nosso povo.

Desta vez não será diferente, pois são eles, os mesmos candidatos, com as mesmas posturas e a mesma hipocrisia.

Vamos, pois, votar na esfinge que nos devorará, pois nunca a decifraremos…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

…e Marx tinha razão…

A Vida não leva a nada,
Senão à Morte !

Não há Sorte, nem recompensas:
Promessas de Vida Eterna
Só foram boas para tua Igreja
E para o teu Patrão !

Pois quem suportaria tal privação,
Se não houvesse um Paraíso a lhe esperar ?

Mas não te iludas,
Teu sacrifício foi mesmo em vão !

Teu dízimo e teu rosário,
Tuas rezas, tuas promessas,
O relicário… o Santuário…
As missas, a procissão,
São pantomimas
A disfarçar tua infinita Solidão !
Por isso, eu te esconjuro,
Meu caro Irmão !

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

IndigNação

Perdeste, de nós, o respeito, Pátria minha,
Mãe tão pouco gentil…
Terra em que tudo se dá,
Fecundada a bem só de poucos,
Estuprada de má semente,
Parida na escuridão !…

Indigna é essa Nação
De cabisbaixa Gente calada,
Descrente de seu Porvir…

Onde brilhará o Sol de nossa Liberdade,
Se seus fugidios raios
A poucos, somente, aquece,
Aos poucos se arrefece,
Minguando-se a energia,
Desnutrido em alegrias,
Da Alma que se perdeu ?!!!

Proscrita a Ideologia,
Quem irá nos resgatar
A Honra, a Justiça, a Igualdade ?…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Transeuntes

Ausentes, silentes,
Rostos rebuscam o vazio,
Em face com a solidão…

Quem sois ? quem são ?
Olhares perdidos na imensidão
Do Infinito, da Turba, da Multidão !…

Rumores ressoam roucos,
Incompreensíveis…
Movem-se assim, como loucos…
Desvarios do coletivo inconsciente…

Que passa, enfim, nesse mundo,
Repleto de seres moventes,
Semoventes que não se vêem ?

Perdeu-se a causa primeira,
A Razão do Ser Vivente…
Somos, pois, tão-somente,
Transeuntes…
Desprovidos de Paixão…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

O fim do mundo segundo JC

A cada ano, o mundo se acaba para 100 milhões de pessoas… e não nos perguntamos o porquê, não nos desesperamos, e nem sequer nos importamos com seus pobres destinos…

A cada dia, 300 mil seres deixam de existir… e o mundo nem mesmo sente sua discreta, humilde e definitiva ausência…

A cada minuto, 100 almas abandonam seu espaço terreno…
e apenas umas poucas pessoas se incomodam com esse corriqueiro e irrelevante acontecimento…

Um dia, no entanto, alguém desperta e se recorda que, há mais de cinco séculos, um louco desvairado disse, em seus herméticos pensamentos, que o mundo se acabaria no ano santo de nosso senhor jesus cristo, de hum mil novecentos e noventa e nove, ao décimo primeiro dia do seu oitavo mês, pela chegada não anunciada de um estranho astro vagueante, que ao nosso belo planeta iria se chocar, dizimando homens, animais, plantas e todo e qualquer ser vivente, de sua superfície repleta e desgastada…

Quando, afinal, se acabaria o mundo ? Quando dele perdêssemos nós a consciência, ou quando um Ser, cuja infinita existência nem sequer podemos assegurar, perde de nós a sua própria, ubíqua e onisciente consciência ????

Assim, por um medieval sofisma, em plena Era do Conhecimento, passa o mundo a viver sua neurose, a um só tempo ansiando e temendo seu final destino que, de princípio, a cada um de nós já fora, para um dia qualquer, assegurado !…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

João, Camarada!

Liberdade !
Tardia, seja quando houver !
Que os grilhões, que aos pobres escravizam,
São de dor… são de Dor !
Da sutil ignorância que nos cala…

Fraternidade !..
Irmãos somente
Nos miseráveis restos
Que a Sociedade nos legou !

Igualdade !
Absoluta e impossível,
Posto que a força que nos move
Jamais conduzirá ao Poder,
Que aos justos e humildes não pertence !

Lutar… para que ?
Se a batalha última perdida
Nos faz rir…
O amargo riso da imagem
Que o passado nos deixou…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Empáfia

Fátuos fogos do Orgulho !
Tola vaidade dos incautos !…
Lúmens efêmeras na oscuridad que nos cerca…
Vagas Lúmens… luminares…

Frágeis seres inflados de si mesmos…
Meras personagens em busca da Ilusão…
Falso poder humano… Ledo engano !…

Afinal, quem sois ?… Nadie…
Apenas imagens refletidas nas paredes da caverna…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Repúdio

A dor se fora com os anos…
Assim como as lembranças…

Morto – como um rato !
Pouco a pouco, dilacerado…
Humilhado, como a uma meretriz !

Nu,
Caquético, em sua privações…
As unhas, todas elas arrancadas,
Uma a uma… como pétalas !
Tantas marcas de tal espancamento,
Em seu franzino espectro…
A dor que ninguém viu.

Quem mais se ocuparia em recordar ?

Na cova rasa,
Vala comum dos Ideais,
O saco plástico,
Ainda a lhe cobrir o rosto exangüe,
Esbugalhados olhos cegos
A delatar inútil desespero.

Sobre seu corpo esfacelado,
Farrapos da bandeira comunista,
Final alegoria dos carrascos !

Segue o Tempo…
Passa a Vida…
E o Augusto General
Cruza novamente o Oceano…
E à Casa torna,
Altivo… indiferente…
Sem remorsos…
Sem receios…
Sem constrangimentos…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Salvador Allende (1973)

Adeus, camarada!
Último alento, Allende se foi…
Um tiro… o sangue… silêncio.

Infâmia!

Adeus, camarada Allende!
Tua vida não foi em vão!
Mil mortes te honraram!

Teus companheiros te clamam…
O vazio se hospedou em nossas almas, camarada!
Mil vozes te clamam…

Teus companheiros te honraram!
As fardas se alojaram em La Moneda.
Nem mil mortes podem vencê-las…

Mas teus camaradas não caíram.
Porque somos a Essência!
E a Essência não pode ser vencida.

Somos o Ideal e o Filosófico!
E viveremos para o dia da Perfeição e da Igualdade…

Adeus, Camarada Allende!

Tua morte não foi em vão!

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Meta-linguagem


Metáfora das metáforas:
A essência poética
É uma vivência hermética!

Busca, o Poeta, ocultar, em suas palavras,
O sentido da sua própria expressão.

Em cada figura, uma armadilha
Ao leitor desatento:
"Não me lerás assim, tão facilmente!
Decifra-me e, ainda assim, te enganarei!"

Não há segredo mais guardado
Que a Alma do Poeta!
Ele não tem compromissos…
Nem Razão!

Busca, na rima, na contradição,
Distrair, do leitor, a atenção.
E, nos melindres de sua paixão,
Despistar sua própria emoção.

Sofre, com as Palavras!
Não somente com a Alma…
Devora-lhe o temor
De ser, um dia, desvendado
Pela interpretação, desmascarado,
Exposto à crítica,
Ao mais vulgar entendimento,
Qual um texto banal…

Assim, fugindo à lógica,
Persegue, em tortuosos labirintos,
Encontrar sua própria, absurda
E única Verdade!

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Verso inútil

Dei, de mim, apenas a melhor parcela:
Palavras destiladas lentamente,
Como o suor das pedras, após as tempestades.

Entreguei-me à mais antiga profissão
Dos pensadores,
Prostituído do desejo de criar,
Em versos desatentos,
Meu próprio Universo.

Povoei meus mundos
Com a Vida que me foi negada em vida…

E surpreendi-me
Na desilusão da realidade…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Engodo

Sofro a dor do mundo,
Que me cala.

É esta, enfim, a sina do Poeta,
Sem consolo.

Às suas palavras, não há entendimento,
Apenas solidão.
Assim, recria ele seu espaço
E, dele, faz seu mundo
De mentiras,
De ilusão…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Obra autônoma

Li teus versos, poeta das calçadas !
E confabulei com minha inspiração:
Seria essa, também, a minha sina ?

Pois não será, ainda que admire tal dedicação !
Não sou assim, a procurar quem reconheça,
Nas palavras que libero,
Os pensamentos que a mim não mais pertencem,
E buscam eco em outrem,
Alguém que desconheço…

Não interessa a mim se lhes toca a alma
O que senti…
O que saiu de mim…
O que se esvaiu no universo…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Pena máxima

Quem irá me redimir
Dessa vergonha, sem limite,
De viver ao seu redor, sem possuí-la ?

Por quantos séculos haverei de renascer
Para purgar o mal extremo
Que me houve dominar,
Apenas pelo desejo de querê-la minha ?

Em que dobras do tempo se preserva
A beleza oculta em meu passado,
E de cuja lembrança
Só me restam traços desconexos ?

Que pecado é esse, enfim,
Para o qual jamais haverá perdão…
… ou recompensa ?

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Arte e Criação

Conceituar a Arte!
Mais que percebê-la, senti-la!
Ainda mais, interpretá-la!
Acima de tudo, ser seu Criador!

Quem seria o artista, afinal?
Aquele, capaz de discernir
Entre o tosco som e a melodia?
A palavra crua, a Poesia?
Das tintas captar a Inspiração?

Seria Arte…
Do instrumento extrair a harmonia?
Na voz perfeita rever a Diva da canção?

O Artista é, também, o Artesão…

De sons dispersos, palavras, cores, formas,
Produzir mundos, idéias, personagens,
Da fria pedra, o ser oculto libertar…
Gerar beleza, sentimento, emoção…

Pois, na verdade, Arte é a Criação!

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Coadjuvante

À Vida observo
Como a um filme antigo:
A ele não pertenço,
Nem sou contemporâneo de seus fatos…

Porém, agrada-me pensar
Que alguém criou
E deu significado a seu roteiro,
Montou esses cenários,
Forjou as personagens,
E assegurou um fim a essa história…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Vivo nu

Exponho-me a olhares desatentos,
Que não enxergam, em mim, o Outro Ser…
Exibo-me à ganância insaciável dos medíocres,
Que não percebem suas próprias formas
Em meu corpo pleno…

Cá estou, armadilha dos incautos,
Que se vexam de seu próprio ser embrutecido,
Que de seu corpo enrubescem, vendo o meu…

Sou assim, espelho de suas vergonhas!…
Reflexo de seu pudor hipócrita,
Objeto da nudez humana, que não se vê!

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia