Pensando o futuro da Nação

Homo Neandertalis – gabinete do novo mandatário de Passárgada

Havia uma sociedade onde as pessoas eram livres para pensar e agir, edificada ao longo de muitos anos de discussões e conflitos sociais, decorrentes de preconceitos e ignorância. Essa sociedade fora submetida a 21 anos de violências, torturas e assassinatos praticados por uma casta de militares, para os quais, a masculinidade sobrepujava as noções de igualdade de direitos, justiça social e diversidade de costumes, culturas e raças. O terror predominara por três ciclos de sete anos, arrastando consigo multidões de mártires e vítimas da prepotência e arrogância dos quartéis. Esse período profícuo das Artes, da Cultura e das manifestações de Cidadania deram origem a uma sociedade dinâmica, na qual as ideologias podiam se expressar livremente, razão pela qual uma nova Constituição selou um pacto democrático que se tornou o “livro sagrado” desse povo.

Passadas três décadas, vários governos e mandatários exerceram o poder livremente, embora graves distorções aparecessem e desvirtuassem as liberdades conquistadas. As oligarquias, que sempre dominaram esse país desde o Período Colonial, se aproveitaram da ingenuidade do povo para seu próprio enriquecimento e da classe política que se formara com base nesses valores sociais inquebrantáveis. Essas novas oligarquias, não baseadas na riqueza da Nação mas sim dos mandatários, subverteu o poder e arrastou o povo para um período de miséria, de fome e de desemprego, esgarçando o frágil tecido da Democracia incipiente que se formara. A corrupção alimentou o monstro das ditaduras, que despertara de seu sono profundo, abrindo espaço para um novo período de fascismo e perda de liberdades.

Paradoxalmente, o mesmo povo que se insurgiu contra as ditaduras passou a enaltecê-las alimentando o monstro do terror, das torturas e da violência. Enquanto nossa “Pátria mãe tão distraída” não percebia que era subtraída de suas maiores riquezas, que concentravam o poder e o dinheiro nas mãos de poucos, o povo padecia da miséria, da fome e da violência. Esse clima propício às ditaduras despertou o “monstro da lagoa”, um ser desprezível, mesquinho e preconceituoso que aniquilaria todas as conquistas sociais em nome de um falso liberalismo fascista disfarçado de salvador da pátria!

O desmanche da Democracia é, contudo, irreversível… suas consequências são imprevisíveis e poderão aniquilar todas as conquistas sociais dessa sociedade maniqueísta que se forma nas sombras e nos pântanos do mal, do ódio e do preconceito. O resultado desse retrocesso social será a aniquilação da sociedade, que passará a ser dominada por forças malignas e obscuras, que se agigantam nas trevas e prosperam na podridão. Com o passar dos anos esses seres nefastos se tornarão a referência para as novas gerações, incapazes de construir seu próprio destino. Por isso, seu modelo de ser humano será o estereótipo medíocre de seres malformados.

Se um antigo governante criou o mote “Cinquenta anos em cinco”, essa nova horda de Neandertais recriou seu lema: “Quatrocentos anos em quatro”, para demonstrar que é muito mais fácil destruir do que edificar. A alienação intelectual não é apenas a consequência das ações pérfidas dos Neandertais, mas também o resultado da mediocridade dessa sociedade tecnológica, onde os efeitos de dependência são muito mais poderosos e perenes do que as drogas alucinógenas, afetando diretamente a essência de cada ser humano, transformando-o em um zumbi, um morto-vivo, um fantasma…

É importante destacar que não existem antídotos para os Neandertais, pois a regressão intelectual também afeta as sinapses cerebrais, desconectando-as e transformando o cérebro em um amontoado de neurônios vazios e desprovidos da capacidade de criar e armazenar o conhecimento. É como uma praga bíblica que se propaga em qualquer meio, do vácuo ao vento, das rochas às águas, das esfinges aos monumentos, das antas aos rinocerontes… Passados cerca de vinte anos, toda a sociedade será meramente um aglomerado amorfo de seres desprovidos de inteligência, e a humanidade regredirá aos primórdios da Civilização, um milhão de anos atrás…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

GRITOS DE SOLIDÃO

Enormes ondas de luzes coloridas percorriam os céus do mundo, pipocando a alegria dos povos ditos “civilizados”, ao som da sua maior festa de confraternização, que se manifestava espontânea nas praias, nas praças, ruas e avenidas, nos salões, nas casas… Porém, alguns sequer percebiam essas manifestações coletivas, pois estavam esquecidos, abandonados, párias das sociedades jogados nas calçadas, escondidos nas matas, solitários em suas masmorras voluntárias onde a festa não encontrava eco nem felicidade… talvez essa pequena minoria nem soubesse que os ponteiros do tempo teriam percorrido mais uma volta na imensidão dos tempos do Universo… talvez sua solidão fosse tamanha (e tão inconveniente) que não valia a pena que o mundo ao seu redor se preocupasse com seu isolamento, esquecidos das sociedades hipócritas que os envolvia em um manto de invisibilidade, tristeza e esquecimento… é possível mesmo que essas criaturas já tivessem perdido sua própria consciência de pertencimento a qualquer sociedade…

De minha cápsula do tempo, tais pensamentos se alternavam à balbúrdia das telinhas de TV, onde cantores se revezavam nos palcos, repórteres falavam incessantemente sobre a Harmonia e a Paz Mundial, sobre as esperanças de que o simples girar das engrenagens do Universo tornasse o mundo mais “Humano”, mais “Justo”, mais “Solidário” e mais “Generoso” para aqueles seres esquecidos de sua própria identidade, perdida nas memórias do passado. Enquanto a alegria tomava as praias e as avenidas asfaltadas, tais criaturas, abandonadas de si mesmas, sequer percebiam que nosso pobre planeta terminara de dar mais uma volta em torno de sua pequenina estrela flamejante… e lá estava ele, cada vez mais pobre de diversidade biológica, cada dia mais igual em sua superfície estereotipada pelos padrões humanos de habitações e modos de existir, onde pouco espaço fora dado a preservar, para fazer caber mais seres viventes, que desapareceriam na inexorável sucessão dos dias…

Eu também estava só, mas minha solidão era imperceptível mesmo para mim, pois as telas de TV refletiam essas manifestações que se propagavam mundo afora, incendiando os céus com seu espetáculo de cores e explosões, desconfortáveis como os tiroteios nas favelas… curiosamente, esse é o único dia em que o mundo inteiro manifesta sua alegria e sua festa, a despeito do ódio latente, das divergências políticas, dos conflitos religiosos e étnicos, dos preconceitos, das línguas e culturas que mais separam que unem os povos desse pequenino e devastado planeta… e hoje, o “day after” da humanidade, todos acordaram esquecidos da ressaca de “Felicidade” que inundou a Terra, e voltaram às suas diferenças brutais, às suas guerras fratricidas, a seus preconceitos e divergências irreconciliáveis, esquecidos de que juraram, em meio às multidões, que esse Novo Ano seria diferente, que haveria bondade e solidariedade para todos, a despeito de crenças, interesses e ideologias…

E cá estamos nós, despertando da “Festa de Democracia” que já se apagou das memórias voláteis de que somos feitos, sem vergonhas, sem remorsos, sem culpas pelas irreconciliáveis diferenças que sempre nos separaram ao longo de nossa curta e conturbada História. Novamente cobertos de nossas máscaras, individuais ou coletivas, que já não mais percebem que nada mudou nesses breves instantes que uniram mais de sete bilhões de seres humanos em uma confraternização em que as promessas de Paz e Harmonia já se quedaram esquecidas… afinal, o que se transformou em nossas consciências? O que uniu tais povos em uma catarse de sons, luzes e sentimentos manifestados com a “mais pura sinceridade” diante das câmeras e telinhas de TV?… Nada… somos os mesmos povos, beligerantes, egoístas, mesquinhos, insignificantes diante da magnificência desse Universo que mal conhecemos, e que, no entanto, é bem maior que nossas pobres divergências…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica