Trilhas Urbanas

Asfalto não se demarca, como uma trilha no mato. Porém, entre os desfiladeiros dos prédios enfileirados, quase dá prá perceber o rastro dos andarilhos, dos carros desatinados.

A pressa é tanta e tamanha que passa tudo de lado: retratos no outdoor, garotos esfaimados, os postes, fios e bueiros, o cheiro desagradável, garotas bem maquiadas nas calçadas, nas esquinas, buzinas desenfreadas, e mesmo os malabares jogando fogo pro alto.

Seguem o mesmo trajeto nos carros, metrô e ônibus, a pé ou de bicicleta, deixando, sempre, prá trás, o tempo desperdiçado. Quase dá prá perceber o zumbir dos pensamentos cruzando nos cruzamentos das ruas e avenidas desta cidade encantada.

Os seres nem se desculpam pela grita e a freada, pelo puro esquecimento de um gesto ou uma risada.

Seguem cegos, os autômatos, como bois numa manada, sem mesmo deixar registro dos rastros pela estrada. Às vezes, nem se apercebem que chegam a seu destino, e prolongam mais um pouco o correr e o desatino, até mesmo prá passar outro louco no caminho.

Repetem, dia após dia, os pensamentos passados, como reza ou a desdita gravada fundo na alma. Com os pés, ou com o solado de seus carros importados, vão deixando para trás os espaços percorridos, pedaços já esquecidos das trilhas não demarcadas.

É curioso, no entanto, o destino desse povo, que rumina, sem parar, suas desgraças e tristezas, mas se esquecem, com certeza, que alienam suas vidas em troca do dissabor. Dia após dia repetem as urbanas trilhas da dor, sentimento tão presente em seres desconhecidos, que agridem, gritam e clamam, sem perceber a razão.

Percorrem o mesmo caminho, trilhas urbanas, visíveis apenas aos que conseguem parar o tempo e o espaço, observando a demência de tantos desesperados.

Ao fim do dia, cansados da longa jornada de stress, retornam pelas travessas da cidade em desalinho, das longas filas de espera, mil buzinas no caminho, a relembrar, incessantes, que a vida desenfreada vai se tornar o destino dos seres desenganados a viver sem esperanças de, um dia, enfim, se livrarem dessas trilhas intermináveis, urbanas e delirantes.

Ao final de uma semana, exaustos e desgastados, buscam, nos parques e praças, novas trilhas a seguir, a recompor suas forças para enfrentar, novamente, o mundo em competição. E lá, no verde do espaço dos terrenos confinados, mal percebem as belezas dos lagos, repletos de pássaros, a viver, despreocupados.

Em vez disso, outra vez, seguem as trilhas urbanas dos seres desencantados, a caminhar, desgastados, arfando, angustiados, a mostrar os seus semblantes perdidos, desconfiados, percorrendo, pelo asfalto, os trechos bem demarcados dos caminhos verdejantes.

Contam, nos passos marcados, seu caminhar compassado, olhando, a cada instante, o relógio intolerante, a ditar seu infortúnio de escravo alforriado, que não sabe desfrutar a vida em liberdade, e lutam por preservar as correntes, as amarras, que reduzem sua mente ao silêncio e à escuridão.

Trilhas urbanas os levam à pobre meditação, ao pensamento corrente, à tristeza e à solidão.

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por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

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