A Vida Cobra Seu Preço

Rúben, de repente, de seu torpor que se tornara rotina no hospital, lembrou-se de um episódio constrangedor. Antes do que houvera recentemente, ele já perdia, aos poucos, as funcionalidades essenciais que o mantinham vivo: alimentar-se era uma delas. Rúben gostava muito de apreciar boas comidas, e seus filhos sabiam disso. Ele sempre levava a família para bons restaurantes, e todos saboreavam os alimentos, como quem degusta um bom vinho. Os finais de semana eram sagrados, e variavam as procedências: comida portuguesa, árabe, japonesa, espanhola, mexicana, nordestina, cabocla… cada semana, almoçavam em um local diferente, e isso também valia para as férias, os passeios eventuais e as reuniões em família. Durante o almoço ou jantar, conversavam animadamente, integravam as crianças com os adultos, saboreavam cada porção.

Outro hábito eram as viagens de férias, que se dividiam em metades: uma para as aventuras com os filhos, das quais Katya nunca participava, e outra era do gosto dela, nas praias do sul ou do nordeste, e mais uma vez, o ‘prato principal’ eram as refeições típicas de cada lugar visitado. Não eram ricos, mas tinham um bom padrão de vida, invejável, graças à generosidade de Rúben, que nunca se preocupara em enriquecer, guardar dinheiro ou fazer uma poupança. Para ele, a vida era assim, espontânea, alegre, despreocupada. O futuro nunca chegaria para ele… assim pensava e desse modo vivia.

Porém, depois do infarto e do AVC, sua vida se transformou definitivamente. Primeiro, eram os medicamentos que era compelido a consumir para o resto da vida. Depois, eram suas funções vitais: o coração perdera metade da capacidade de bombear, e isso significava deixar as aventuras de lado e ter um novo modelo de viver, discreto, comedido e condicionado ao ritmo que seu coração permitia.

Mas, depois, vieram as verdadeiras limitações: sua memória começou a falhar, e já não se lembrava dos nomes das pessoas, esquecia-se do que fizera na véspera, deixava de pagar contas, faltava aos compromissos, interrompia as frases pela metade por já não saber sobre o que falavam. Seus amigos compreendiam essa situação e disfarçavam, fingiam que tudo estava bem… mas ele percebia que tinha perdido a coerência… antes, seu raciocínio era lúcido, rápido, e seus argumentos destruíam qualquer lógica de seus interlocutores.

Finalmente, vieram as disfunções vitais… sentia dores na coluna, nas costas, nas pernas, ouvia mal, e enxergava cada vez com mais dificuldade. Tratava-se como possível, e manteve certo nível de dignidade por alguns anos… mas depois tudo se tornara mais difícil. Às vezes corria para o banheiro, incapaz de segurar o desejo de urinar por um tempo… até que um dia, no meio da rua, não pôde se segurar e expôs-se diante das pessoas que passavam, olhando-o com desprezo e nojo… Aquilo foi, para ele, como que uma sentença de morte! Como viver assim? Como justificar-se a si mesmo e aos outros que não era culpa sua, pois nada poderia fazer para evitar?

Todos temos situações assim em nossas famílias… nossos avós, nossos tios, pessoas de nossa intimidade que passaram a usar fraldões para se precaver de tais vexames… porém, a primeira vez chega para nós sem avisar, e o desejo incontido rompe um equilíbrio instável, que se agiganta até que uma explosão do instinto, se avassala e joga-nos na vergonha pública… é muito triste envelhecer…

Rúben se lembrou, naquele instante, de uma expressão eufemística que nada tem a ver com a realidade: “a melhor idade é a velhice, a nossa segunda infância!”. Para quem chegou nessa situação, não há nada de bom na velhice, que também nada tem a ver com a infância! Envelhecer é adquirir dores que nunca sentíramos… as articulações não reagem para nos manterem a prumo… o cansaço chega sem avisar… o corpo arca, incapaz de manter-se ereto… os alimentos não têm o mesmo sabor… a vista se anuvia… a tristeza chega todas as noites para nos fazer companhia… preferimos o silêncio à algazarra das crianças… e também percebemos que ninguém mais presta atenção às nossas falas… não existe “melhor idade” para aqueles que caminham para seu ocaso, como mutilados da longa guerra que a vida travou conosco…

O desejo dos velhos é que a vida cumpra sua tarefa mais rápido, livrando-nos da vergonha de sermos velhos. Cada instante a mais é um ônus terrível para quem perdeu sua dignidade como ser humano. Nossos filhos já nos encaram como um fardo pesado e difícil de ser transportado, e sabemos que o nosso tempo ficou para trás. Tornamo-nos intolerantes, não porque acreditamos que o nosso tempo era melhor, mas sim porque sabemos que já não somos capazes de compreender a juventude… ficamos obsoletos, como artefatos…

Naquele dia, Rúben ficou parado, no meio da rua, todo mijado, enquanto as crianças riam e o apontavam com a irreverência que lhes é peculiar… e ninguém o amparou… ninguém estendeu-lhe as mãos para tirá-lo daquela situação… pelo contrário, desviavam-se, como quem se afasta de um leproso! Olhavam-no com desprezo e raiva por estar ali, diante de todos, incapaz de se mover para qualquer lado.

Voltou para casa o mais rápido que pôde, lavou-se e deitou-se tentando apagar de sua memória aquela cena que se repetia, inexoravelmente, diante de seus olhos… Dali para a frente sua vida mudou. Passou a usar fraldões, mas não contou aos seus filhos o ocorrido. Procurou o seu médico, mas ele pouco poderia fazer, pois já tomava medicamentos para a próstata, cujo efeito se tornava cada vez menos eficaz. Decidiu não sair mais de casa, até que seus filhos perceberam que algo havia acontecido. Acabaram sabendo do fato pelo porteiro do edifício. Mas quem está preparado para ajudar, quando sequer percebem que seu ‘velho’ está deprimido?

O fato é que seu espaço naquele mundo se reduzira a eventuais saídas rápidas e retorno breve para a solidão de seu quarto. Jamais quereria passar por isso novamente… mais uma janela se fechara, definitivamente, em sua existência… esse seria o início de um longo processo que se prolongaria até o desfecho fatal… e, novamente, aquela mensagem sussurrada em seus ouvidos, fazia todo sentido: “a vida nos leva, aos poucos, cada motivo para nos sentirmos felizes…”

Ser velho é um fardo insuportável… a sociedade nos trata como estorvos, como pesos insuportáveis, como peças enferrujadas que não permitem que a sociedade progrida satisfatoriamente… esquecem-se que aqueles que hoje são velhos, enrugados, doentes, já foram os pilares dessa mesma sociedade que os rejeita como pesos indesejáveis, como empecilhos a obstruir os seus caminhos.

Rúben sabia que nada poderia fazer para evitar os efeitos do envelhecimento, mas sentia-se solitário em sua dor, pois não se percebe tais perdas senão quando elas acontecem. Sua solidão aumentava na medida em que os anos se sucediam, roubando-lhe, um a um, os seus dons, as suas habilidades, as suas funções vitais.

Quando somos jovens, olhamos os velhos como empecilhos à nossa felicidade, na medida em que condicionam a vida ao seu redor. Depois que envelhecemos, ao perdermos, um a um, os talentos da juventude, não somos capazes de conversar com nossos filhos sobre o que está acontecendo conosco. Preferimos inventar desculpas a confessar nossa impotência diante das perdas que se sucedem…

E Rúben jamais se recuperaria daquele momento em que tomou plena consciência de tinha se tornado um velho, não apenas para si mesmo, mas para todos aqueles que com ele conviviam.

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Um comentário em “A Vida Cobra Seu Preço

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