Pequeno Conto que virou Lenda

“Seu” José era um homem rude, sem fé. Morava sozinho à beira do rio desde que sua mulher, Donana, falecera, havia muitos anos. Não tiveram filhos. Vivia daquilo que a Natureza lhe dava. Às vezes caçava uma capivara, outras pescava um surubim na canoa a remo que ele mesmo construíra.

Não tinha luxos em sua casa; nem geladeira ele possuía, pois acreditava que nunca lhe faltaria o que comer… Também não plantava. Não queria ter a responsabilidade de cultivar a terra, plantar, cuidar, colher, estocar… Apesar disso, não era um homem preguiçoso. Com seus quase setenta anos acordava com o nascer do sol e cuidava de seu pequeno rancho, onde tudo funcionava e tinha uma razão de existir, que só mesmo ele conhecia.

Cuidava de suas próprias roupas, costurava, remendava e as mantinha limpas e arrumadas. Nunca passara nenhuma roupa, pois achava perda de tempo. Não se ausentava do rancho senão para pescar ou caçar. Frutos ele colhia das árvores de seu pomar, quando havia.
Nunca recebera ninguém em sua casa e todos dele se afastavam com receio de seu temperamento.

Mas “seu” José também tinha as suas manias, crendices, esquisitices, que só mesmo ele saberia explicar, caso falasse com alguém. Viram-no, certa feita, dependurando as penas de uma garça que abatera e comera, uma por uma, no arame farpado da cerca que instalara defronte ao rio.

Deixou-as lá por alguns dias e depois retirou cada uma delas, cavou vários buracos ao longo da cerca, e as enterrou, como em um ritual.
Dos animais que caçava guardava os ossos, mantendo, sabe-se lá como, o esqueleto perfeito e limpo. Via-se da janela uma prateleira repleta deles. Quando aparecia a lua cheia ele se plantava nu sobre o telhado, e permanecia agachado, olhando atentamente para o céu, até que o astro desaparecesse no horizonte.

Ele vivia tão só que se imaginava que já nem soubesse falar direito. No entanto, ouvia-se noite adentro seus resmungos e lamentos, quase um cântico funesto e triste. Às vezes o viam proferindo palavras incompreensíveis em direção ao rio.

Um dia ele desapareceu; saiu com sua canoa e não voltou mais. Acreditava-se que tinha morrido, ou tenha ido embora para outro lugar.
Passaram-se os dias, semanas, meses, e nada do “seu” José. O rancho estava abandonado, a cerca despencara, o telhado já apresentava buracos das telhas que caíram, o mato se alastrava por toda a parte e temia-se que as cobras e outros bichos tomassem conta do lugar e acabassem por passar para as propriedades vizinhas.

Resolveram, então, os seus vizinhos, ir até à sua casa e tentar compreender o que poderia ter acontecido, tomando alguma providência para limpar aquela imundície.

Em um dos armários todas as gavetas estavam repletas de folhas manuscritas com poemas incompreensíveis: eram palavras desconhecidas, porém com rimas, métrica e ritmo! Não havia como compreendê-las…

Lembraram-se das penas da garça, enterradas no quintal, próximo à cerca. Por curiosidade as desenterraram; estavam todas recortadas, em forma de desenhos estranhos. Parecia terem um código secreto registrado nesses formatos. Junto a elas havia embalagens vazias…
Mas não conseguiram decifrá-lo… e esse mistério só fez aumentar a lenda sobre o velho pescador. Com o passar dos anos, cada esquisitice encontrada no rancho se tornava uma história, incluindo assassinatos, tesouros, rituais satânicos, esquizofrenia…

“Seu” José era um homem simples e não sabia ler nem escrever. Apenas tentava copiar palavras de antigas revistas de poesia que sua mulher colecionara ao longo dos anos. E recortava as penas das garças, imitando os códigos de barras das embalagens encontradas no rio…

Anúncios
por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Meu destino em ti…

Não houve tempo de esperar que me aceitasses… entrei em tua intimidade como em um estupro! Violei tuas águas, tuas praias, tuas matas… invadi tuas beiras e me apossei dos espaços roubados de teus filhos, as aves, os peixes, os seres até então ocultos em teus recônditos segredos… nossos caminhos se entrelaçaram, não por tua vontade, mas pela minha, ansioso por desvendar os teus mistérios…

A princípio, nada encontrei que me detivesse a marcha; como um visitante indesejado, percorri teus vales e descobri teus súditos, vassalos teus, tributários de tua grandeza a doar suas vidas para te enriquecer e te encorajar ao grande salto, inevitável, no vazio…

Por instantes segui outros caminhos, como quem oculta as intenções, e vi o momento em que te projetavas sobre as rochas, como quem se atira ao desconhecido, destemido, inconsequente e audaz como qualquer adolescente. Busquei tua calma e em teu colo me deitei, levando-me contigo à revelia, para onde estivesses a ir, não me importava…

Percebi, então, que tu também não conhecias o teu destino, e me encantei por ti… e assim nos tornamos íntimos, cúmplices dos mesmos segredos, que desvendávamos a cada anoitecer… tu me aceitaste assim, em minha fragilidade, mais vulnerável até que as cristalinas águas de tua alma, teu corpo e razão do existir…

Daí, então, seguimos juntos, amantes apaixonados, um ao outro nos levando, sem um propósito qualquer,senão o de seguir adiante. À nossa volta, a presença de outros seres, assim tão íntimos e livres como o ar, as águas, o som, as cores, os inebriantes aromas…

A cada dia, em cada despertar, a ansiedade enlouquecida de nossas contradições: um ser que nasce e morre sem cessar, criança, jovem e velho a um só tempo, e outro ser que morre e envelhece, no inexorável badalar das horas, a me levar daqui… e mesmo neste ser envelhecido, o jovem e a criança permanecem, ao menos nas lembranças; e isso torna a ambos companheiros, ainda que um só, e tão somente, irá permanecer ao fim do longo dia, quase eterno, da jornada…

Porém, os dias às noites sucedendo, de ti surrupiaram a inocência, das águas te roubaram a pureza cristalina, das margens desnudaram tuas vestes… e as aves, tuas amigas, te deixaram, assim como as outras criaturas, tão belas, tão ingênuas… e eu, desiludido, desencantado, a tudo assim presenciava, aturdido, impotente… roubaram-te de mim em pleno dia!

Das praias, em lama, as alvas areias se tornaram; das matas, somente um ralo mato é que restou; dos morros, às águas, o solo fértil se deixou arrastar, turvando as tuas águas, matando pouco a pouco nossos peixes, cobrindo de barro o leito fundo, a se deixar levar contigo a outras plagas.

Uma angústia, um nó entalado na garganta, tristeza inconsolável de mim se apoderou, ao presenciar as árvores, às centenas, arrancadas, ancoradas em teu leito devastado… assim, seguimos juntos e calados, dias e noites a prantear a maldade dos homens, como eu… roubaram-te a beleza, saquearam-te as riquezas… transformaram-te nessa estrada lamacenta, a fluir, incessantemente, em direção ao mar.

Infeliz, como um amante atraiçoado, recusei continuar… e me afastei de ti, ferido mortalmente, cansado, desiludido e só.

Precisarei regressar um dia, e resgatar tua pureza, restaurar tuas vestes, trazer de volta a vida que tiveste… e então renasceremos juntos, e tu me levarás ao meu destino, que é também o teu… repousarei de novo em tuas margens, presenciando a iluminada Via Láctea, a derramar estrelas cintilantes em teu regaço, até o repositório infinito do Oceano… e encontrarei, em ti, a minha Paz!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

A Cachara

Minha mãe estava prenhe de mim quando meu pai morreu. Estava quase pra parir e ainda ia, todas as manhãs, bem cedinho, na barranca do rio, ver as “pindas” que tinha deixado lá no fim da tarde… pegava sempre alguma piranha, às vezes um bom surubim, raramente um dourado… mas dava pra ela dar de comer pra meus seis irmãozinhos; o mais velho tinha nove anos, e ficava tomando conta dos outros enquanto ela estava no rio ou cuidava da horta no fundo do sítio.

Naquele dia que eu nasci, minha mãe estava na beira do rio, tirando uma cachara grandona que se enroscara na rede deixada na corredeira; ela lutava com o peixe, ainda vivo, e tentava arrastar a rede, presa nos entulhos e cheia de galhos quebrados; a única coisa que prestava era aquela cachara!

De repente, com a força que fazia pra puxar a rede, eu nasci! Pois é, não consegui me segurar lá dentro, e caí no barranco, rolei pra dentro do rio, levando a mãe comigo… ela ainda conseguiu se segurar nas raízes de uma árvore e me puxou, pelo cordão, me segurou pela cabeça, e me arrastou pra cima do barranco, como se eu fosse a cachara deixada na rede lá embaixo!

Não me lembro nada disso; foi ela que me contou depois, rindo da minha desgraça de nascer desse jeito desajeitado! Todo mundo me gozava, dizendo que eu nasci de uma cachara! Assim ficou o meu nome: Maria das Dores, a “Cachara”! Nunca me livrei do apelido e hoje sou apenas a Cachara…

Cresci quase sem cuidados, sujinha no meio daquela molecada danada de ruim comigo! Era como se eu fosse uma boneca de pano, levada pra todo lado, que minha mãe não tinha tempo de me cuidar mesmo: estava sempre lidando na horta, limpando seus peixes, fazendo comida, lavando roupa, varrendo a casa… e eu lá, pendurada no colo dos moleques, como um brinquedo velho!

Minha mãe morreu quando eu tinha oito anos. Quase não me lembro dela… só da trabalheira danada que ela tinha pra manter seus sete filhos: seis meninos e eu. Ela nem se dava conta da gente, atarefada de dia, cansada demais de noite pra ter disposição de olhar pra gente… coitada!…

Mesmo assim, sinto falta dela… depois que ela morreu, meus irmãos mais velhos cuidavam de tudo, meio desengonçados, pois ela nunca preparou a gente pra viver sem ela. Ninguém sabia pescar, ninguém sabia nadar, ninguém sabia cozinhar… só o que sabíamos era lavar as louças, as roupas, limpar o quintal e varrer a casa, porque isso minha mãe deixava pra gente cuidar.

Ela morreu afogada, quando um dourado puxou a rede com ela junto, pra dentro daquela lameira toda, que corria com as águas do rio… ela não sabia nadar. Meu pai também morreu no rio, só que de morte matada; um jagunço cismou que ele era o sujeito que tinha contado pra polícia sobre um crime que cometeram lá em Doresópolis. Ele ficou preso dez anos e depois voltou pra matar meu pai. Nunca me disseram se ele tinha mesmo entregado o assassino…

Crescemos juntos até que meu irmão mais velho resolveu ir embora. Ele disse que ia cuidar da vida, que “aquilo não era vida” pra um homem feito! “Aquilo” era a gente: cuidar da gente, pescar e fazer as vezes da mãe que nunca tive… mas isso ele também não fazia. Nunca mais voltou.

A gente aprendeu mesmo a se cuidar depois que ele se foi. Aprendi até a pescar e fiquei boa nisso. Peguei muito peixe naquele rio; era eu também que fazia a comida e lavava as roupas, porque “isso é trabalho de mulher”, eles me diziam, rindo da “Cachara”! Eu só não pescava cachara; quando elas se enroscavam na minha linha eu jogava de volta pro rio, que já bastavam as piadas que eu ouvia…

Meus irmãos também se foram por esse mundão de Deus; cada um, do seu jeito, saiu, assim, de repente, sem se despedir, que a gente não era mesmo de muitos agrados e chamegos. Fui ficando sozinha, ali no meu rancho, envelhecendo sem ninguém do meu lado; nunca soube o que era o amor, que pai não conheci, e minha mãe não encontrou mais ninguém depois que o pai se foi.

Hoje me olho nas águas do Velho Chico e vejo minha mãe, estampada no meu rosto. Sou igualzinha a ela, rosto fino, enrugado dos anos, pele seca e desbotada, olhos tristes e quase se fechando… nem me cuido direito, vivo com meus trapos velhos, perambulando pela plantação abandonada, ou conversando com meus peixes na barranca do rio; às vezes pego um deles e me desculpo antes de cozinhar, porque preciso viver… preciso viver? Não sei o que isso quer dizer…eu sou apenas a “Cachara”, preta velha e cansada, sem saber porque nasci…

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto