Qualquer dos meus dias


Hoje, serei um pássaro, de grandes asas brancas e porte majestoso, a flutuar sobre seus mundos, placidamente, afastado o bastante para não perceber os detalhes desta vida, que a tornam monótona, medíocre e mesquinha.

Apenas silhuetas e sombras me interessam, a povoar as paisagens. Edificações e arruamentos, pelos quais se movem veículos, carregando cérebros e mentes, incessantemente à busca de transformar o Paraíso herdado de suas sagradas religiões.

Sigo mais alto. Não quero sentir-me vinculado a esses comprometimentos… Agora, percebo apenas luzes, pedras preciosas, contas coloridas de um imenso tesouro, desconhecido dos homens que nele habitam.

É o silêncio que me sufoca. Ensurdecedor, em meus incessantes pensamentos. Busco a Paz, transpondo as nuvens… imensos flocos pairando pelo espaço…

Percebo o mundo em camadas… abaixo, entre os vãos das nuvens, o chão dos homens, ora recortado em geométricas formas cultivadas, ora ainda preservando alguma natureza em sua desordem estética, ora pontilhado de civilização e de pecados… acima, novo teto de nuvens comportadas, pairando como carneiros, agrupados e ordeiros, deixando apenas réstias de um azul profundo e infinito.

Estou no Éden… Uma beleza incontida me preenche e confunde. Serei, ainda, um pássaro ?

Nada sou.
Incorporo-me à totalidade do Universo.
Sou Deus !

Sou levado para além de minha própria consciência.
Uma profusão de cores… um turbilhão de formas desconexas…
qual um caleidoscópio…

Que foi feito de meu Shangrilá ?

Sou um pensamento…uma idéia fixa !
Parada, como um filme emperrado.
Sou a cena que não se move, sem sentido, sem contexto…

Seria assim a Morte ?

Desperto em minha cama, frustrado e solitário.
No rádio, o Concerto nº 1 de Max Bruch, com Yehudi Menuhin.
Definitivamente, não sou um pássaro.
Minha rotina impele-me para a vida…

Seria assim a Vida ?

Talvez um mero pesadelo… Pássaros têm pesadelos ?
Serei eu um pássaro sonhando em ser… humano ?

O chuveiro me desperta; lembro-me da reunião das 9:00 horas… preciso finalizar os preparativos: pastas, gráficos, relatórios… A sala está confirmada ? E os participantes ?

Preciso pedir café para os visitantes…

Escovo meus dentes, pensado no bico do pássaro…
Sigo meu ritual profilático.

Ao sair do banho, penso nos intermináveis compromissos da semana: centenas de e:mail’s a responder, telefonemas, reuniões, formalidades, troca de cartões, atas e outros afazeres dos homens sérios na sociedade dos negócios.

Preparo meu café da manhã, sem fome e sem vontade:
leite com cereais, frutas com mel…

Ainda bem que não como insetos nem minhocas !
Creio que não me daria bem com a dieta dos pássaros…

“A Bolsa permanece em alta…”
“O dólar continua em queda…”
“Pinochet não será julgado pelos seus crimes…”
“O preço do petróleo ameaça as economias emergentes…”

Seremos emergentes ?

“A paz está ameaçada na Europa…”

Talvez uma nova guerra nos Bálcans, para consumir um pouco dos armamentos produzidos pela indústria bélica americana… uma “guerrinha” controlada, supervisionada pela OTAN e pela ONU, com os protestos de praxe e o repúdio diplomático dos países do Primeiro Mundo…

Seremos do Segundo Mundo ? Que mundo é esse, afinal?!!!

Desligo a televisão.

Visto-me apressado, mas sem me descuidar dos detalhes: o perfume, a gravata, o prendedor… Já na calçada, as pessoas passam sisudas, apressadas, mal-humoradas, atropelando-se sem se cumprimentar, sem desejar um “Bom dia !” como antigamente.

Sorrisos ? Nem pensar ! Apenas amanhece e já levamos conosco as tensões de toda uma existência descuidada. Para que ?

Cá estou, acomodado em meu lugar, na janela do ônibus, fones de ouvido, atento a mais um concerto, evitando o diálogo com meu companheiro de viagens, meu vizinho de jornadas, meses a fio… quase sem nos conhecermos de verdade… Longos minutos a atravessar minha cidade enfileirada, congestionada… Carros a se engalfinhar em corridas, cada um querendo ganhar a posição da frente, trocando incessantemente de fila e de lugar, até voltar à mesma situação em que se encontravam.

As mesmas ruas, os mesmos outdoor’s… “Que Peitchen !”

Finalmente em nosso destino, deixamos os ônibus aos montões, apressados por alcançar os pés das escadas rolantes, que nos levarão a todos ao mesmo lugar, todos os dias. Agora já nos reconhecemos, alguns. Alguns até se cumprimentam… Cumprimentos formais, algumas gentilezas… “um cafezinho ?”

Já em minha mesa, um toque de humanidade: as fotos de minhas filhas, o arranjo de plantas, o Feng Shui não-sei-prá-quê…

O dia passa, como de costume.
A sensação de andar em círculos, de correr atrás do rabo…

Mais gentilezas, mais formalidades, algumas delicadezas, muitas falsidades. Muita encenação para delimitar o território.

Os cães mijam para marcar os seus domínios…
Será que devo mijar ao redor de minha mesa ?

O relógio parece não ter mais pressa…
E cada um trabalha para não ter que olhar as horas…
Enfim, o almoço ! Fofocas de bastidores…
“Quem subiu ?” … “Quem caiu ?”

Quanta hipocrisia… quanta mediocridade !

De volta ao bunker e à luta por se mostrar, cada um, mais importante… insubstituível nos negócios que não são seus…

“O que você vendeu hoje ?”
“A minha Alma !”

E o dia se esvai como a areia da ampulheta…
Amanhã é só virá-la novamente, e tudo voltará a se repetir…

Cá estou eu de novo em minha cama, pensando na aventura de meus sonhos… Vou desprender-me de meu corpo e escolher um novo bicho… uma cobra ? Não ! Já rastejei por demais em minha vida ! Um tubarão ? Talvez… atemorizando os oceanos…

Não. Serei apenas a semente, daquelas como plumas, que o vento irá levar não-sei-prá-onde e – quem sabe ? – germinar…
sem consciência… sem retorno… apenas por viver…

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por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

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