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Apenas queria dizer que não me importo
Que não preciso de recompensas
Que posso viver sem retribuições pelo meu caráter impecável
Que sou capaz de ser bom, honesto, digno sem esperar reconhecimentos
Quero pensar que não preciso ser feliz
Que a retidão de meu comportamento não tem preço
Que sou capaz de perseverar no caminho do bem sem nada esperar em troca

Mas nem tudo isso é verdade...
Não sou Budha, nem Krishna, nem Allah ou mesmo Gandhi
Sou apenas um homem idealista, mas tremendamente infeliz
E talvez não haja nenhuma razão para isso, a não ser a consciência que tenho desta vida
Ela não me deixa me iludir... sei que a existência é apenas isso

Nada existe no amanhã... nada haverá no dia depois de minha morte
E não tenho a muleta de um santo, de um deus, de uma crença, de uma promessa de vida eterna
Sei que, quando meus olhos se fecharem para sempre, minha mente se esvaziará completamente
E só restarão as palavras que deixei, esparsas, nas minhas manifestações desesperadas por sobreviver

E ninguém terá notado que vivi... serei apenas uma tênue lembrança que se apagará tão depressa quanto o tempo necessário para que as areias se assentem novamente nas dunas eternas das paisagens áridas do deserto depois de uma tempestade

É só isso... sou nada, sou ninguém, serei apenas o passado que se foi nas brumas da memória que se apagou para sempre

Então, por que perseverar? Por que insistir em dizer o que não foi dito ainda com tanta veemência e convicção? Por que deixar um rastro tão sutil que a menor aragem o apagará das areias finas das praias desertas?

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por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

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