A banalização do vulgar

Saí de casa como de costume, já enfrentando o congestionamento habitual, veículos se alternando em uma fila imensa, cada um com seus pensamentos, e as notícias corriqueiras. Um radialista dizia quais caminhos estavam menos engarrafados, entremeando comentários dos ouvintes com músicas toscas… se já não tinha muita vontade de sair de casa, essa sucessão de trivialidades me emudeceu.

O que se percebe é o esgotamento de um modo de vida vazio, sem sentido, onde todos se sentem amortecidos pelos acontecimentos em um mundo sem ideologias, com seres humanos sem altruísmo e políticos sem vergonha na cara. As notícias já não nos surpreendem, as pessoas já não nos emocionam, o futuro já não motiva gestos de dignidade nem comportamento ético ou edificante…

Seguimos pela vida como zumbis, perdidos na multidão ignara e amorfa, antropofagicamente nos devorando sem sentir dor ou prazer. Não há mais ideal que nos leve a um comportamento social aceitável. Tudo é permitido nesse mundo sem leis, sem princípios e sem ídolos com os quais possamos nos identificar. As figuras públicas apodrecem diante de nossos olhos, sem uma punição compatível com os crimes praticados contra as minorias, contra a Natureza, contra os mais elementares valores da Humanidade…

Enquanto o planeta se deteriora diante de nossos olhos, causada pela irresponsabilidade, avareza e desmesurada ambição dos poderosos, a sociedade se aliena nos devaneios das redes sociais, inebriada pela tecnologia anestesiante e estúpida. A cada dia, mais poder é concedido aos grandes responsáveis pela degradação da Terra: latifundiários da soja e do gado, mineradoras, madeireiras, especuladores imobiliários, empreiteiras inescrupulosas envolvidas em escândalos financeiros e políticos… muitos políticos corruptos e atuantes, aproveitando-se de um governo fraco e igualmente corrupto, a legislar em causa própria, sem que um poder judiciário lhes barre o descalabro de seus atos irresponsáveis.

O que será do Brasil? O que será feito desse mundo decadente, perdulário e tresloucado? O que será feito de nós, minoria insignificante de cidadãos honestos e responsáveis, que não temos mais voz para gritar e denunciar tamanhos malfeitos? É provável que essa sociedade putrefacta nos leve à extinção, consumando a trágica obra de milhares de anos de uma humanidade que só teve disposição para a guerra, para os crimes, para a usura e a crueldade, numa História degradante e humilhante de nossa curta existência…

A mim, pouco importa, pois já perdi a esperança de ver um novo ser humano nascer do esgoto que a humanidade plantou neste planeta… o vulgar, o tosco, a sujeira humana prevaleceu contra as expectativas de um mundo digno de se viver… que pena…

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por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

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