Prolegômenos (*)

Um quarto de UTI em um hospital modelo. Apenas um leito, com controles para facilitar o trabalho de enfermagem, manipulado por sensores e monitores eletrônicos, inclusive um aparelho de eletrocardiograma embutido na cama. Ao lado do leito, uma Smart TV com canais em circuito fechado e programas dedicados à recuperação dos enfermos, além de informações de interesse do corpo médico e de enfermagem, personalizadas por paciente. Do outro lado do quarto, uma passagem para o banheiro, equipado para facilitar os trabalhos de enfermagem e as necessidades do próprio paciente, quando possível. Não há porta entre o quarto e o banheiro, por questões de segurança do paciente. O quarto não tem a parede frontal, apenas uma cortina sanfonada, aberta, pois só passam pelo corredor os profissionais de saúde e eventuais visitantes dos enfermos, cujo controle de acesso é rigoroso. Apesar disso, o ambiente é agradável.

A narrativa é protagonizada por um doente em estado terminal, internado há meses, vítima de um AVC1, sem perspectivas favoráveis de cura ou reversão, ainda que parcial, de seu estado mental, que alterna momentos de lucidez e desvario, mas não consegue discernir entre elementos do passado recente e do tempo remoto; em sua mente tudo se confunde. Suas lembranças não são pronunciadas. Ele está completamente imóvel, no leito, e alguns parentes mais próximos podem visitá-lo e conversar banalidades, enquanto seu pensamento vagueia… e essas conversas acabam se entremeando com as memórias do velho, trazendo a ele cenas conturbadas acerca de sua vida.

A história transcorre nessa alternância entre as confusas memórias do que ficou para trás e fatos do presente, até que, em dado momento, o médico explica à família, a pedido deles, a situação do enfermo, que está inconsciente como um ser letárgico, em estado vegetativo; segundo o médico, ele já não tem mais atividade cerebral, o que não é verdade, como viremos a saber no decorrer deste relato. A família, então, passa a discutir a hipótese da eutanásia2 como alternativa; porém, ele ouve tudo… e essa discussão interfere em suas memórias, bem como na forma como ele passa a encarar a sua vida passiva. Independente de tudo, ele continua lutando em vão para sua memória não ser destruída. E vai tomando consciência, aos poucos, da sua realidade, voltando, lentamente, à lucidez, sem que ninguém se aperceba disso, e sem que isso modifique o seu estado físico aparente. E o momento em que a lucidez se torna quase verdadeira coincide com o instante em que a família opta por desligar os aparelhos…

A proposta é que esse personagem seja uma pessoa culta… que tenha tido uma vida intensamente ativa, e que tenha realizado diversas experiências extraordinárias… e essa existência, longa e profícua, esteja associada aos diferentes períodos da História recente.

Sua infância transcorreu nos idos de 1950, anos de pós-guerra, durante a Guerra Fria, momento bastante atribulado da sociedade mundial e, ao mesmo tempo, do lento processo de retorno à paz e à reconstrução dos cenários da guerra… Sua adolescência ocorre na efervescência do movimento pela emancipação da mulher, do movimento hippie, da ditadura militar, do surgimento do rock’n roll e da bossa-nova, da MPB e do Festival de Woodstock… aquele cadinho de lutas, transformações, efervescência social, disputas, violência… prisões… torturas… nos quais ele esteve presente, ativa ou passivamente.

Já como adulto, participa do processo de transformação social decorrente da introdução de novas tecnologias, desenvolvidas durante e após os conflitos mundiais… e ele se envolveu com essa nova onda tecnológica e de crescimento da Economia mundial… e absorveu essas novidades, mas nunca as aceitou para si como sendo um modo satisfatório de vida… assim, ele vive uma contradição entre o uso da tecnologia e o sonho de uma vida tranquila e pacífica, numa praia ou montanha… em algum lugar assim… paradisíaco. E ele passa 30, 40, 50 anos trabalhando… e ao longo desse prolongado período, sua vida é construída… tem filhos, vêm os netos… enfim, ele edifica sua vida neste dualismo… nessa contradição… nesse antagonismo entre o ser tecnológico, bem-sucedido na vida profissional, e o sonhador, que nunca realizou o desejo de ter uma vida simples, discreta e em paz.

E, ao final da sua vida, ele constata que, apesar de tudo, viveu intensamente seus momentos, e passou por grandes experiências, que poucos têm a oportunidade de realizar. Mas nunca encontrou a paz… ao fim, separa-se de sua esposa e acaba sozinho, pois os filhos já têm sua própria vida. E aí chega o Alzheimer3… e ele começa a perder a memória… e se desespera com essa perda… a loucura de perder a consciência de toda a sua existência… Então, como um recurso derradeiro, ele tenta registrar tudo o que se passou em sua vida, primeiro escrevendo e depois gravando… mas a doença evolui mais rápido que sua capacidade de resgatar os anos que se foram… ele não consegue registrar quase nada… perdera a capacidade de preservar sua própria história… assim, está tudo em sua memória, mas ele não tem como comunicar isso a ninguém. Está só e desamparado…

Para ele, pouco importa a veracidade das lembranças, pois sua mente confusa se satisfaz com a lógica de tais recordações. Alterna suas memórias com os folguedos infantis, pois se tornara quase uma criança, com a mente esvaziada pela enfermidade, que avança sobre os períodos mais recentes, e segue destruindo as sinapses construídas por um cérebro privilegiado, embora condenado ao esquecimento.

A família está ciente desse processo degenerativo e nada pode fazer para amenizar seu estado, nem para dar a atenção que ele necessita, razão pela qual contratou-se um cuidador experiente, que o acompanha em período integral, fazendo leituras de suas preferências, ouvindo clássicos e jazz, que ele escuta atentamente, enquanto repete algumas frases soltas e desconexas. Sua vida se restringe a isso.

Assim, o ancião se torna, a cada dia, mais isolado dos seus entes queridos que ele tanto amou, pois o colocaram em um pequeno quarto nos fundos, onde não atrapalha as atividades da família, e pode ser cuidado, sem interferir na rotina da residência. Quando chegam algumas visitas, ele é preparado para ser exibido como um velho bem-comportado, ainda que imerso em suas reflexões e desvarios.

E os dias transcorrem assim, sem fatos que mereçam ser registrados, até que tudo muda com um derrame cerebral, que levará a família toda ao desespero e a conceber decisões nunca antes imaginadas por nenhum de seus componentes. Da noite para o dia, um terremoto atinge a família, e desorganiza completamente seu modo de vida e sua paz. E, aparentemente, ele perde o que lhe resta de sua memória… fica em um estado letárgico e é internado em um hospital… passam-se os dias, os meses… até que, nesse momento, começam suas reflexões acerca dessa vida extraordinária… só que, agora, desconectada, imprecisa, confusa… plena de déjà-vu4… porque ele não consegue mais distinguir entre o presente, o passado e as imagens do porvir… o tempo recente e o passado remoto… a sequência natural das coisas… tudo para ele se confunde naquele leito de hospital; e é dessa forma que ele narra sua vida para si mesmo, na tentativa de manter e preservar sua lucidez e consciência… ele discorre sobre os acontecimentos numa ordem que ele próprio reconstruiu, completamente diferente daquela em que os fatos se sucederam… e, dessa forma, ele constrói, das suas memórias distorcidas, uma nova história para sua própria vida.

Esse redemoinho, ou melhor, esse furacão avassalador tira o equilíbrio de todos na família, e os lança de encontro a dilemas que jamais esperariam acontecer em suas vidas. A escolha de um desfecho precoce não passa pela escolha da própria vítima que, para todos, já não possui atividade cerebral e encontra-se vivo apenas pelas funções orgânicas que mantêm o corpo funcionando, sem reações externas.

Não há consenso em situações como essa, e os diálogos se tornam acirrados, às vezes ácidos, dividindo seus entes queridos em dois polos irreconciliáveis. Se, para uns, a eutanásia não passa de um assassinato consentido, para outros, representa o alívio ao paciente e o retorno da família à vida normal. Os núcleos familiares se rompem na discórdia e no desalento do impasse a que chegaram depois de muito discutir. Todos os argumentos se cristalizam, impedindo o entendimento. Assim, nenhuma decisão é tomada e a vida continua…

O que se segue são narrativas esparsas, como esparsas se tornaram as lembranças do paciente e de toda família, pois ninguém sabia de tudo que esse homem vivera. Só quando perdemos um ente querido é que percebemos quão pouco nos conhecemos em família. O desaparecimento dos mais idosos vai tornando as pessoas mais pobres em histórias vividas e não registradas. Assim é com quase todos. A própria História do Mundo é repleta de fragmentos desconexos e de teorias que buscam religar os episódios conhecidos, construindo as narrativas que aprendemos no estudo dos fatos históricos. Se em uma pequena família já somos estranhos demais uns aos outros, o que dizer de um povo, uma nação e o mundo todo ao longo de milhares de anos, civilizações sem escrita, apenas sustentadas pela tradição oral?

Quanto mais distante de nós os eventos, no tempo e no espaço, nosso conhecimento se revela mais frágil e insustentável, mesclando realidades a lendas construídas para engrandecer a saga e a pujança de uma civilização que se extinguiu há milhares de anos. Como não há comprovações, o esforço dos historiadores é extrair dessas lendas a hipótese mais plausível, mas, mesmo assim, improvável…

* Prolegômeno – Amplo texto introdutório que contém noções preliminares necessárias à compreensão de um livro; introdução; prefácio. Prolegómeno (prolegômena plural, prolegomenon – singular) é um termo literário derivado do particípio grego que significa “as coisas que são ditas antes”. O termo prolegômeno tem sido usado como introdução (ou prefácio) a um estudo mais particular de qualquer ciência. É uma espécie de estudo preparatório para que se possa compreender melhor o assunto numa exploração posterior. [Wikipedia]

1Acidente Vascular Cerebral, mais conhecido pela sigla AVC, é uma séria condição médica que acontece quando o suprimento de sangue que vai para o cérebro é rompido. Isso acontece porque, como todos os órgãos, o cérebro necessita de oxigênio e determinados nutrientes que provêm do sangue. Portanto, quando há uma interrupção no fluxo sanguíneo, as células do cérebro começam a morrer, ocasionando diversos problemas cerebrais, podendo chegar à morte. [Wikipedia]

2Eutanásia (do grego ευθανασία – ευ ‘bom’, θάνατος ‘morte’) é a prática pela qual se abrevia a vida de um enfermo em estado terminal de maneira controlada e assistida por um especialista. Independentemente da forma de eutanásia praticada, seja ela legalizada ou não (em Portugal e no Brasil, esta prática é ilegal), ela é um assunto controverso, existindo sempre prós e contras – teorias mutáveis com o tempo e a evolução da sociedade, tendo sempre em conta o valor de uma vida humana. [Wikipedia]

3A Doença de Alzheimer é uma enfermidade incurável que se agrava ao longo do tempo, mas pode e deve ser tratada. Quase todas as suas vítimas são pessoas idosas. Talvez, por isso, a doença tenha ficado erroneamente conhecida como ‘esclerose’ ou ‘caduquice’. A doença se apresenta como demência, ou perda das funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte de células cerebrais.

4Déjà-vu é um galicismo que descreve a reação psicológica da transmissão de ideias de que já se esteve naquele lugar antes, já se viveu aquelas cenas antes, ou já se viu aquelas pessoas antes. O termo é uma expressão da língua francesa que significa, ‘Eu já vi’. [Wikipedia]

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Um comentário em “Prolegômenos (*)

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