Dinorah

Por ti compadecemos, impotentes, mãe querida,
Sem conhecer-te os sonhos… sem compreender-te a dor…
E de tal modo nos acostumamos com tua breve partida
Que jamais soubemos onde guardavas tanto amor…

Suave, serena e forte, tua chama delicada conduzias…
E enquanto o sofrimento ocultavas no silêncio dos teus dias,
Teu pequenino corpo pressentia o iminente desenlace
Sem uma lágrima sequer jamais verter em tua face.

Valente e decidida, optaste por permanecer presente
Quando a vida, ao teu redor, já perdera todo encanto,
Na escuridão dos dias infinitos, em seu estar silente,
A nos dar o teu carinho… a nos esconder teu pranto…

E agora, que nos deixaste sem o teu calor,
Completamente sós… desamparados… tristes…
A lamentar tua ausência… a compreender tua dor…
O que nos resta é lamentar, calados… e murmurar silentes:

Ah… Dinorah… que falta sentiremos no resto dessa vida!…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Ah… Dinorah, Dinorah!

Eu a vejo partir aos poucos, diante de meus olhos, e me pergunto: por que? Talvez eu sofra muito mais do que ela… e assim como quando meu pai também partiu, um enorme pedaço de meu coração se romperá e se perderá para sempre. Minha mãezinha… o ser mais querido que tenho, e nada posso fazer… lembro-me quando, ainda jovem, muitos anos passados, eu meditava, imaginando ser capaz de estancar a seiva da vida a se esvair, e impedir a morte de meus entes queridos… hoje sei que nem mesmo posso fazê-los felizes… cada um tem o seu destino, e quando pensamos estar no controle do leme da nau de nossa existência, algo muito mais poderoso… um vendaval… uma forte corrente… um sopro divino ou maligno nos arrasta para longe, muito longe… nem sextantes, nem estrelas, nem bússolas podem nos dizer para onde somos levados, e só nos resta nos conformar com a sorte… estranha palavra esta: SORTE! Acaso, destino, bons augúrios… para mim, sempre foi Acaso!

Ah… Dinorah, Dinorah!

Minha primeira professora, mãe querida, colo aconchegante que me protegia das tormentas… agora, quase sem ela, já sem meu pai há tantos anos, não há como evitar as procelas… talvez até as busque, quase como uma auto-punição…

Dinorah! Ah… Dinorah…

Mãe que abriu mão de sua própria vida para cuidar de seus filhos… talvez nunca a tenhamos verdadeiramente conhecido; mulher forte e decidida, capaz, porém, de se entregar às lides de uma simples casa, aos cuidados com seu esposo e filhos, em lugar de seguir o seu destino, sua própria vida… professora criativa e inteligente, que soube inovar quando todos os demais preferiam seguir no seu “Caminho Suave”… nossos caminhos nunca foram suaves; pensamos demais, discutimos demais, lutamos mais do que deveríamos ter feito… no entanto, e mesmo por isso, tornamos tudo tão difícil, desgastante, dolorido… sofremos e fizemos sofrer àqueles a quem tanto amamos; estranha manifestação de afeto!

Ah… Dinorah…

Quisera tê-la abraçado mais, beijado mais, declarado incontáveis vezes o meu carinho incondicional por você! No entanto, foram tão poucas as vezes que conversamos sem a tensão opressora de uma estranha e incompreensível solidão… Nunca foi desamor, mas nos manteve distantes, como polos opostos de um poderoso ímã cujas metades jamais se separam… e mesmo que uma poderosa força o rompa, suas novas metades continuarão se opondo com a mesma tensão e energia, sugando-se uma à outra em um movimento estático e infinito… curiosa é a vida, não é mesmo? Sentimos o que não queremos, dizemos o que não devíamos, e nos ofendemos, às vezes, mesmo pensando em não nos magoar.

Ah… minha querida Dinorah!

Poderia até pensar que faria tudo diferente se a vida assim nos permitisse… mas não é verdade. Tornamos a vida cruel, não porque tenhamos ódio, mas pelo mais puro e sincero amor! Que paradoxo, que desencontro… por isso, seguirei minha vida, me penitenciando sempre, punindo-me pelo que não soube ser, flagelando-me em busca de um perdão que não poderá jamais existir.

Ah… Dinorah…

Acredito que nunca mais a verei… assim foi com Ulysses: um dia, um pequeno cochilo, um descuido, uma saída, e Ulysses se foi para sempre, modesto, humilde e discreto… agora é você, Dinorah, mãe querida… mas sou eu quem te deixa para tão distante e, ainda que quisesse, jamais te encontraria novamente… talvez seja melhor assim; minha limitada compreensão das razões do existir só me fizeram sofrer e, comigo, àqueles a quem tanto amo. Digo para mim que é minha missão… busco razões que não existem… afinal, somos como a poeira na réstia de luz que passa na fresta da janela de nossas vidas… efêmeras vidas… tão curtas, tão insignificantes que nem o maior dos seres humanos poderia mudar o curso das estrelas ou afetar o destino do mundo. Haveremos que nos conformar com essa insignificância e buscar, em cada amanhecer, a motivação para viver apenas por mais um ínfimo dia.

Não te direi adeus, Dinorah… talvez um “até breve” que nunca se realizará… pois ambos pereceremos nas brumas do passado. Nem as lápides, nem os livros, nem as inscrições em pedras e nos anais da História permanecerão. No entanto, um dia, em algum lugar do passado, um filho amou profundamente sua mãe e lhe dedicou esse epitáfio:

“Ah, Dinorah… que falta me fizeste no resto de meus dias…”

Homenagem às Mães

Mãe: a origem da Vida, o começo de tudo, a fonte da Humanidade, ser que todos guardamos com carinho em nossas mentes, em nossos corações… mães sofridas, dedicadas, abnegadas, generosas, tolerantes aos pecados de seus filhos, “seus guris” sempre… mães esquecidas na sua lide diária, não reconhecidas pelos homens que ainda acreditam que elas servem para servi-los… nossas mães, mães das crianças e dos adultos, dos indígenas, dos negros e dos animais.. mãe cujo amor e carinho não tem limites, senão no desejo de nos ver felizes, a nós, filhos ingratos que ainda pensamos que somente hoje é o Dia das Mães! Mãe solteira como “mama África”, mães indígenas esquecidas até pelos que juraram protegê-los e que se esqueceram até que existia um “Dia do Índio”, MÃE: palavra mágica que nos remete aos dias ancestrais de nossa existência, sentimento que não basta para tratá-las com mais respeito, amor e devoção.

Mãe Natureza, esquecida dos homens de má-fé, que querem transformar as florestas em pastos para o gado e fonte de riqueza maldita para nossos descendentes… mãe árvore, mãe dágua, mãe ancestral e bela… o que faremos dessas belezas que herdamos e que não têm o menor valor para esses seres desgraçados? Árvores seculares, testemunhas da nossa história, decapitadas, desfiguradas, desmembradas como lenha, jogadas na fornalha sem o menor respeito por seres que não merecem o título de “Homens”… árvores nascidas das sementes germinadas na Mãe Terra, como as crianças geradas no ventre das mães dos homens e que agora são apenas tábuas, carvão, serragem imprestável!

Mães Yanomami que, na sua simplicidade e pureza se expõem aos olhares maliciosos dos homens ditos “civilizados”, que não percebem a beleza sofrida em seus olhos… mães que levam suas crianças em seu colo precioso, expressando a beleza perdida pelos homens, que apenas traduzem as mães em um mero dia para o consumismo desenfreado e inútil nas agendas do comércio voraz, louco pelo lucro fácil das promoções, “vendendo” homenagens que deveriam ser simples como o carinho que a elas, mães, devemos, não um só dia de 365 dias do ano, mas todos os minutos de nossa plena existência… mães que cuidam de seus homens nas aldeias, trazendo os produtos de sua subsistência e transformando-os em alimentos para seu povo humilde e esquecido nas matas amazônicas, essas mesmas matas que os ambiciosos fazendeiros querem derrubar para fazer crescer e alimentar seu gado insaciável e desnecessário…

Mães selvagens, rudes em sua busca pelos alimentos e sobrevivência, mas delicadas e gentis para com seus rebentos, tolerantes às suas travessuras, como as de qualquer criança, complacente com seus inocentes folguedos, esquecidas das lutas ainda não travadas, dia após dia, para assegurar que seus filhotes consigam superar a rudeza da selva e chegar à idade adulta, fortes e determinados como suas incansáveis mães… mães que escondem seus filhotes dos leões que derrotaram o antigo líder do seu bando e que agora querem devorá-los, apenas assegurar que sua descendência leve a marca genômica dos filhotes paridos de sua leoa…

Pois somos assim, ingratos e cruéis, não apenas com as mães de nossos filhos e com as nossas próprias mães, mas também com tudo que recebemos de herança dessa imensa moradia, que é o nosso planeta… deixamos um rastro de destruição atrás do caminho que trilhamos, e pensamos que nada disso será considerado pelo futuro que nos aguarda. Mas em nosso encalço virá a vingança de outra mãe, não tão misericordiosa assim, e que nos devolverá a maldade em fome, miséria, sede e desolação, um oceano de areia, sem vida, sem recursos naturais, consumidos que foram pelos homens de má vontade que devastaram tudo ao seu redor, apenas para homenagear outra mãe: a moeda, o dinheiro que não saciará nossas necessidades, e se transformará em lixo inútil…

O que faremos com isso depois que todas as florestas e rios tiverem sido destruídos pelos ambiciosos seres que só enxergam a ponta de seus próprios narizes e só têm sentimento em seus bolsos e contas bancárias abastadas? O que restará ao mundo quando apenas um imenso deserto restar aos nossos olhos para contemplar? De que valerá todo ouro que esses poucos poderosos amealharam ao longo de suas vidas inúteis e desgraçadas? Quem são as mães desses miseráveis? Pobres mães, que não souberam cultivar essas sementes podres…

Deixo, portanto, essa minha homenagem pouco amável, mas sincera, como um alerta severo e rude, como será rude o nosso destino, semeado pela ambição inesgotável desses mesquinhos inimigos da Vida, da Natureza, das Belezas da nossa querida Terra… mas, para não terminar de modo tão cruel, deixo essas imagens belas e destemidas de nossa mãe África!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica Com a tag