Feliz Ano Novo!

 

Sempre que um ano se encerra temos a sensação ilusória de que o mundo se renova e uma nova oportunidade se manifesta para que o ser humano se regenere e cuide dos outros, da Natureza, dos esquecidos e necessitados, dos segregados pelas injustiças de um mundo desigual, ressurgindo uma efêmera solidariedade que dura o tempo da troca de presentes e das comemorações de Natal e Ano Novo. Nesses dias de muita festa, muita bebida e generosos gastos com presentes, as mensagens trocadas falam de PAZHARMONIA AMOR

Quanto desses desejos são intenções verdadeiras? Quanto de cada um de nós está verdadeiramente comprometido com as mudanças, com uma nova visão de mundo que não segregue a miséria, a cor da pele, a origem étnica e as classes sociais desprivilegiadas? Quanto de nós colocamos nesses textos bonitos e edificantes, que falam de um mundo que nunca existiu?

Pois, apesar de toda hipocrisia contida nessas mensagens, cada ciclo de nossas vidas, quando se encerra, traz um momento de reflexão que até poderia gerar mudanças de comportamento, extraindo de cada um de nós o que de melhor existe. Mas é preciso mais do que palavras, mais do que presentes, mais do que manifestações passageiras de solidariedade. Enquanto estivermos fechados em nosso mundo de privilégios “conquistados”, olhando o Universo através de uma janela, por detrás da cortina e das grades que nos protegem, a vida permanecerá a mesma, e começaremos um novo ano com muitas promessas que jamais se concretizarão.

Portanto, desejo a todos um ano novo diferente, em que as mazelas do mundo nos incomodem o bastante para gerar verdadeiras mudanças, e que não seja mais possível fingir que somos piedosos, solidários e generosos… que a humanidade sofra, de fato, as consequências de suas atrocidades, e que todos nós sejamos, pelo menos, conscientes de nossa parcela de culpa em todo esse processo cruel, deprimente, degradante, injusto e repleto de privilégios inaceitáveis.

Somente assim poderemos mudar, definitivamente, nosso papel na vida e encontrar, em nossos semelhantes, os seres humanos que se ocultam na pobreza, na degradação moral, na sujeira, nas esquinas suspeitas, nos vícios… esse seria o sermão dos seres iluminados que por aqui passaram e deixaram suas doutrinas para nos inspirar. Não existem livros sagrados se as práticas de seus devotos são incoerentes com as palavras que professam nas cerimônias religiosas, se suas vidas são o avesso das suas orações…

Com muito carinho e esperança em um mundo novo e verdadeiramente admirável…

FELIZ ANO NOVO!

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Vida Insensata

 

Tia Elza, querida amiga, sinto sua falta entre nós… recuso-me a imaginá-la inerte, em uma cama de hospital… prefiro lembrar-me de sua voz suave, gentil como de minha querida sogra, sua irmã Carolina, que nos deixou há mais de 20 anos, e que permanece em minha memória, sussurrando sua bondade, meiga e amável, a todos a quem recebia, generosa, em sua casa. Saudade… muita falta vocês me fazem… De tia Elza ainda não nos despedimos… talvez nunca o façamos, pois de seres iluminados não se despede; apenas lamenta-se a perda do convívio, e isso é o que menos importa.

São poucos os espíritos que perambulam nesse mundo tão impessoal e egoísta. A tecnologia teve o dom de aproximar seres humanos (seria a aldeia global?), mas também vulgarizou o relacionamento. Hoje entra-se no Facebook e escreve-se algo assim: “meu cachorrinho está doente…”; ou então “estou com raiva!”. Ficamos esperando alguma fala que complemente o raciocínio, mas o que vem depois é “curtir”, ou então “tadinho!”… vulgaridades cotidianas.

Falta conteúdo ao mundo globalizado, e não era essa a mensagem de McLuhan! Ele falava da volta à simplicidade de uma aldeia, todos se comunicando ao redor do mundo, mas com inteligência e sofisticação intelectual! Algo como um nivelamento “por cima” das classes sociais. Acontece que a aldeia que ele concebia era aquela que temos em mente quando imaginamos os indígenas no meio da selva amazônica. Porém, quando lá chegamos, encontramos antenas parabólicas para assistir as novelas da Globo e muita cachaça para fazer o caxiri e embebedar-se até cair no chão… o índio perdeu a inocência!

E nessa vida insensata vamos perdendo a capacidade de confabular, de nos agacharmos diante das casinhas simples do interior que conheci na minha infância, apenas para conversar, de conceber inconsequentes teorias de evolução da humanidade, de preservar o verde, as águas e os animais, de sonhar com a paz, como fez John Lennon… e por isso nos arrastamos pelos becos de nossa inocência ultrajada, lamentando o mundo que nunca mais poderá encontrar sua aldeia natal, e lá simplesmente sentir o frescor das tardes de domingo, à beira-rio, jogando conversa fora com amigos de verdade, e acreditando em uma vida melhor…

Roubaram nossas possibilidades de sermos simplesmente felizes…