Vestígios


Apenas um arbusto ressequido… Suas formas, no entanto, esteticamente modeladas, permaneciam inalteradas. O pequenino tronco retorcido, parecendo muito mais velho que as idades que vivera, um galho altivo apontando ao infinito, do qual outros derivavam, sua arte ainda bela, qual um escultura planejada. As delicadas folhas sustentavam-se apenas pela inércia assegurada pelos cômodos desertos, com seu ar cheirando a mofo. A mais leve brisa bastaria para removê-las todas de uma só vez. O minúsculo vaso retinha a terra ressecada, com uma relva amarelecida a encobrir-lhe as rachaduras quase evidentes.

Ele olhou, pela última vez, sua paisagem simbólica, que ficara por muitos dias a ornamentar o beiral da janela, contrastando com o concreto das edificações, ao fundo. Parou a meditar em sua própria solidão, exílio voluntário do passado que desejara esquecer.

Qual um espelho, o bonsai refletia sua alma sufocada de desilusões.

Apanhou cuidadosamente o pequeno ser sem vida, embrulhou-o como a um presente e, por fim, depositou-o entre tantos outros objetos descartados de sua vida mais recente. Suspirou em silêncio, como a se despedir de um ente mais querido, aconchegou-se na velha poltrona, e adormeceu.

O dia já se afastava da janela quando despertou de seu torpor angustiado.

Caminhou até a cozinha e, como em um ritual, preparou uma bebida quente, que engoliu sem se aperceber sequer o que havia na caneca de metal esmaltado. O ar estava quente, quase irrespirável. Sentia-se sufocado, deprimido, arrastando-se pesadamente pelos espaços opressivos do crepúsculo.

Vestiu-se discretamente, como de costume, e saiu a caminhar pelas calçadas, sem prestar atenção às buzinas e à fumaça dos carros que passavam, irritados, para lá e para cá, nas ruas em que se amontoavam, sem sentido.

Não saberia por quanto tempo perambulou por aí, nem se apercebendo dos perigos, sem um objetivo ou destino, que soubesse.

Estava em uma ruela, dessas quase sem saída, quando lhe gritaram “sai da frente! Não olha por onde anda, seu idiota?” e quase foi jogado na sarjeta imunda, por onde escorriam os esgotos dos cortiços que margeavam seu caminho. Pessoas mal-encaradas convenceram-no a se retirar para caminhos mais habituais e menos perversos. Logo que se localizou, percebeu-se cansado e perdido num labirinto de pensamentos, ressurgências do fundo lodoso de seu ser mais profundo.

Percebeu-se, afinal, só e faminto, com náuseas de fraqueza a confundir-lhe as vontades.

Voltou penosamente à casa, subiu com grande esforço os degraus que lhe pareceram maiores e mais numerosos do que de costume, abriu a porta, e deixou-se cair lentamente sobre as almofadas no canto da sala. Ficou ali, amontoado como um cão, até que a madrugada iluminou-lhe as faces enrugadas e secas, como seu bonsai.

Muitos anos se passaram naquela longa caminhada sem rumo, pelas noites de seu pensamento entristecido.

Já não sabia qual era sua idade: os dias se sucederam iguais, interminados…

Apenas o bonsai permanecera em suas lembranças, não como a pequenina árvore, mas frondosa, imensa, sob a qual se sentava todas as tardes, deliciando-se daquela sombra generosa, a leve brisa a conduzir seus sonhos, caleidoscópio de imagens coloridas, as nuvens brancas desfilando ao céu azul, formando figuras bizarras… “venha, venha…”, e os pensamentos iam e vinham, sem propósito, sem sentido, sem fim nem começo, apenas a passar como um filme em sua mente, como um carroussel a girar, desde sua infância tão distante.

Ah! Aquela brisa refrescante viera da infância, é certo!

Lá estavam as crianças, correndo, gritando, falando todas ao mesmo tempo, em tons tão diferentes que até pareciam música, pequenos sinos de cristal a tilintar na memória, um movimento contínuo como as ondas, a ir e vir incessantemente, a vida a se manifestar nos sorrisos, nas carinhas alegres, que refletiam o sol daqueles dias tão distantes…

Aos poucos, as vozes silenciavam, cada vez mais distantes, como a luz que se esvaía no Universo, em seu pequeno universo, seu claustro, até que só ficou a escuridão e o silêncio. E um bonsai, pequenino e seco, cujas folhas caíram todas, deixando apenas o esqueleto dos galhos retorcidos, silhueta desbotada e sem vida, na janela de seus pensamentos. Olhou para ele como a um espelho: lá estava, seco e sem vida.

No canto da sala, amontoado nas almofadas, um corpo jazia inerte, o olhar perdido…

Uma réstia de luz alumiava a sala, qual um rastro de poeira a procurar o sol, que se escondera, definitivamente.

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por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

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