A Catedral

As cavernas foram um episódio à parte na vida de Rúben. Ele as conhecera, pela primeira vez, no Petar1, localizado no sul de São Paulo, uma das mais importantes concentrações de cavernas do Brasil. Lá existem cerca de 250 cavidades naturais, em três áreas vizinhas: a região da Caverna do Diabo, a cidade de Iporanga e o Parque Intervales, perto de Apiaí, todos no estado de São Paulo.

As cavernas possuem características próprias, relacionadas com o tipo de rocha e a dinâmica do processo de formação que lhes deu origem. No Petar, as cavernas são de origem cárstica, ou seja, de rochas calcárias, que sofrem degradação por meio de rios que abrem as cavidades, formando grandes salões revestidos de espeleotemas2.

Rúben conheceu o Petar nos primeiros anos do século XXI. São muitas cavernas, agrupadas em núcleos: Santana, Caboclos, Casa de Pedra e Ouro Grosso. Apenas o núcleo Caboclos fica fora da região de Iporanga, próximo a Apiaí. Algumas cavernas chegam a ter quilômetros de salões, interligados por túneis, quase todos alagados. São os rios interiores que desmancham a rocha, formando os salões.

Uma das mais belas cavernas é chamada Temimina, que fica no Núcleo Caboclos. Seu acesso não é fácil e exige muito preparo físico para percorrer a longa trilha que a separa da pequena cidade de Apiaí. Já nas proximidades da caverna, uma descida mais íngreme leva a uma ‘janela’, através da qual se vislumbra um enorme salão!

Mas não é apenas um mero salão… lá existe um grande bloco de estalagmite em seu centro, formando uma enorme figura humana, semelhante a um Buda sentado! Ao fundo se descortina uma grande janela para um jardim exuberante! É uma dolina3 imensa, que, ao desabar, isolou a vegetação e a fauna do resto que ficou na superfície! Parece um cenário jurássico, pré-histórico, de incomparável beleza!

Rúben e seu grupo se instalaram naquele local, onde resolveram passar a noite, antes de adentrar a caverna. O local era belíssimo, e lembrava um cenário do filme “Viagem ao centro da Terra4! Montaram as barracas, prepararam a comida e registraram, em fotos, aquele lugar inacreditável! Foi uma noite fantástica!

As cavernas têm uma atração muito intensa para os seres humanos, pois foi nelas que os primeiros hominídeos se abrigaram das intempéries nos primeiros tempos de vida na Terra. As cavernas costumam ter um microclima estável, com temperatura uniforme ao longo do ano, abrigadas das variações que ocorrem na superfície, tornando-se, por isso, um excelente abrigo para se habitar.

No dia seguinte, seguiram pelo salão até encontrar a pequena cavidade que dá entrada ao interior da enorme caverna. Diante da majestade desse átrio, a abertura é pequena e de difícil penetração. Todos entraram e seguiram à procura dos caminhos, que eram todos muito estreitos e sinuosos, dificultando a progressão em seu interior.

Pouco adiante, se arrastando com dificuldade, chegaram a um pequeno salão, sem nenhum tipo de ornamento, onde mal cabiam os membros do grupo. Lá se instalaram para comer um lanche e contemplar a escuridão absoluta onde se encontravam. É estranho ‘contemplar a escuridão’, mas essa é a expressão correta, e todos que penetram em cavernas sabem quanto é assustador esse silêncio no vazio… nenhum som, nenhuma réstia de luz, nenhuma sensação senão a solidão absoluta, medonha, assustadora. Neste momento as pessoas se encontram com seu ‘eu interior’ e percebem o quanto estamos sozinhos neste planeta tão pouco conhecido…

Ao apagar das lanternas, o silêncio e a escuridão, no interior das cavernas, são esmagadores! Nada existe além do vazio… nele nos perdemos e esquecemos nossa identidade neste mundo. Já não sabemos quem somos, o que fazemos ali, quem são os outros que desapareceram na mesma escuridão… perdemos nossa identidade… deixamos de ser meros humanos e nos sentimos absolutamente sós… é uma sensação única, indescritível… aterrorizante, mas, ao mesmo tempo, um processo de catarse que nos leva à paz e ao Conhecimento.

Esse isolamento durou apenas alguns minutos, mas pareceram horas intermináveis… depois, aos poucos, foram recuperando a consciência e ‘despertando’ para o mundo… acenderam as lanternas, e a tênue luz parecia um holofote a cegar seus olhos na escuridão…

Não existe uma edificação tão soberba quanto os imensos salões das cavernas! Nem a igreja da Sagrada Família, de Gaudí5, nem as gigantescas mesquitas muçulmanas do Oriente Médio, nem as catedrais romanas, nada se compara a essa sensação extraordinária! Em seu interior, tudo conspira para a elevação espiritual, o êxtase e a contemplação… é como se houvesse uma ruptura quando entramos nesses espaços e nos isolamos completamente do mundo exterior… o tempo, dentro de uma caverna, não passa… tudo fica estagnado em nosso interior. Mas, quando retornamos à vida, é como se tivéssemos ficado por lá durante dias… observamos o mundo com outros olhos, como se aquele cenário nos tivesse transportado para outro universo!

Rúben despertou tranquilamente, olhou ao seu redor, observou os rostos de seus companheiros, tomou uma respiração profunda, e contemplou os semblantes daqueles que passaram pela primeira vez por essa experiência. Estavam mudados… o mundo ao seu redor já não tinha o mesmo significado. Tinham superado o átrio e encontrado uma nova e estranha realidade! Cada um, no silêncio de sua alma, olhava, perplexo, para aquele mundo que conheciam tão bem, mas tinha a convicção de que já não era mais o mesmo. Porém, eles é que tinham mudado! E, por instantes, transmigraram para o outro lado da vida!

Retornaram pela longa trilha, em silêncio. Parecia que todos queriam conservar aquele momento mágico por mais algum tempo… por isso, evitavam falar. Nada mudara no exterior, mas para cada um, era uma vida nova que se iniciava… E assim terminaram aquela experiência, certos de que jamais voltariam a ser as mesmas pessoas.

As cavernas fizeram parte significativa da existência de Rúben. Durante sua vida, ele explorara as cavernas de Santana, Água Suja, Ouro Grosso, Alambari (de Cima e de Baixo), Couto, Temiminas, Aranhas, Laje Branca, dentre outras, todas situadas no Petar. Também explorou outras cavernas, como Lapa Doce, Lapão, Torrinha, Gruta Azul e Poço Encantado, todas na Chapada Diamantina, na Bahia. Ainda conheceu a famosa Gruta de Maquiné, em Cordisburgo, MG, tornada conhecida pelo explorador dinamarquês Peter Willerm Hund, e imortalizada pelos contos de João Guimarães Rosa, e a Gruta de Bom Jesus da Lapa, um dos mais belos santuários do Brasil, localizada na Bahia, às margens do rio São Francisco, que Rúben percorreu, anos depois, remando uma canoa canadense, pelos seus quase 3.000 km de extensão, sozinho, durante 99 dias e noites.

Só deixou de visitar as cavernas quando sua saúde não mais o permitiu percorrer os difíceis labirintos subterrâneos que marcaram tanto sua vida. Considerava as cavernas como Templos da Natureza, lugares encantados onde o ser humano encontra suas origens e se aproxima da Eternidade. Fazia essas excursões por amor à vida e respeito aos monumentos naturais, mais do que mero explorador.

Em uma de suas visitas ao Petar conheceu a morte, em um acidente que vitimou um guia e um jovem, ambos afogados na caverna Casa de Pedra. Esse episódio o afastou, por uns tempos, das cavernas, pelo choque causado em suas convicções. Até então, julgava-se imune às artimanhas do Destino, uma espécie de ‘corpo fechado’ que o mantinha distante de acidentes graves em aventuras.

Depois, outros incidentes não tão graves, permearam suas incursões pelas montanhas e sob as águas do mar, mas nunca teve dúvidas quanto à importância da exploração do mundo pelos lugares sagrados que teve o privilégio de conhecer. As cavernas, as montanhas e o fundo do mar foram seus mestres espirituais, muito mais expressivos do que a extensa literatura esotérica que consumiu anos de sua vida, em busca do Conhecimento absoluto…

1 PETAR – Parque Estadual e Turístico do Alto do Ribeira

2Espeleotemas são os ornamentos das cavernas, que assumem diferentes denominações, das quais as mais conhecidas são as estalactites e as estalagmites, ambas formadas pela sedimentação de calcário pelo escorrimento da água pelo teto dos salões.

3Quando o teto de um salão da caverna desaba, forma um rebaixamento de solo denominado ‘dolina’. Essa área isolada dentro de uma caverna forma, por sua vez, um pequeno ecossistema.

4Viagem ao Centro Da Terra é um livro de ficção, de autoria do escritor francês Júlio Verne, lançado em 1864 e considerado como um dos clássicos do gênero de aventuras.

5Antoni Gaudí i Cornet (Reus ou Riudoms, 25 de junho de 1852 — Barcelona, 10 de junho de 1926) foi um famoso arquiteto catalão e figura de ponta do Modernismo. Grande parte da obra de Gaudi é marcada pelas suas grandes paixões: arquitetura, natureza e religião. Gaudi dedicava atenção aos mais ínfimos detalhes de cada uma das suas obras, incorporando nelas uma série de ofícios que dominava: cerâmica, vitral, ferro forjado e marcenaria. A obra de Gaudí é reconhecida internacionalmente, sendo apreciada não só por arquitetos como pelo público em geral. A sua obra-prima, a inacabada igreja da Sagrada Família, é um dos monumentos mais visitados de Espanha.

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Um comentário em “A Catedral

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