O Passar dos Anos

Aparados da Serra

O tempo é uma dimensão estranha para o ser humano… nos primórdios das eras, quando surgiram os Neandertais, e, depois, o Homo Sapiens, a percepção do dia e da noite foi a primeira constatação dos ciclos da vida. Sua alternância combinava as atividades do dia com os temores da escuridão e a necessidade do sono e repouso. Depois veio a percepção da Lua, aquele estranho halo que aparecia, alternadamente, como uma semi-esfera ou como um círculo perfeito de luz branca, suave, iluminando os caminhos e reduzindo a escuridão… perceberam, nossos ancestrais, que sua duração também era cíclica, como o dia e a noite, só que com maior duração: a cada sete dias, uma nova forma da Lua aparecia. Mais além, na formação do seu conhecimento, também notaram que o calor e o frio, a estiagem e as chuvas, se repetiam em outro ciclo mais amplo ainda… além disso, a própria vida humana tinha seus ciclos, desde sua formação no interior do corpo da mãe até o nascimento, o crescimento, a plena capacidade de sua força, o envelhecimento e a morte, enfim…

Essas noções primitivas foram as sementes do entendimento do significado do tempo para os seres humanos. Parece óbvio, mas cada sociedade construiu sua compreensão da vida em função do tempo: o período da caça, a maturação das lavouras, o culto às tradições e folclores, as oferendas às divindades, a formação e preparação do indivíduo para exercer seu papel na sociedade… tudo, enfim, passou a girar em função do tempo! A espontaneidade das atitudes se submeteram a normas construídas pelo papel do tempo na vida de cada ser humano. Porém, esses ciclos se sobrepunham, às vezes como visões complementares, outras como concorrentes e inadequadas para o entendimento. O ano de nosso calendário, por exemplo, foi construído sobre uma estrutura desconexa da duração dos meses com os ciclos da Lua, apenas porque o Sol ignora que a Lua demore 28 dias para girar em torno da Terra, e esta, mais preguiçosa, leva 365 dias para circundar o Sol…

Parece um jogo de palavras, mas muitas teorias sobre os ciclos da Vida foram construídas com base na lógica e alternância desses ciclos: 24 horas do dia, 7 dias da semana, 28 dias da Lua, 365 dias do ano solar…

Esse preâmbulo foi escrito apenas para tentar entender por que nosso aniversário é comemorado… nosso Ano Novo começa, de fato, no dia em que comemoramos nosso nascimento! O dia 1º de Janeiro é mera convenção, sem nenhum significado relevante. Na verdade, ele nem marca o início de uma das estações do ano, pois, em cada quadraante da Terra, as estações são diferentes. Também não pode ser a marca do início de um ciclo de giro da Terra em torno do Sol, pois esse início poderia ser estabelecido em qualquer ponto da órbita do planeta.

Porém, o dia de nosso nascimento marca, definitivamente, o início da vida de cada ser humano, diferentemente! Somos, na verdade, 365 grupos de pessoas com a mesma data de nascimento no mundo inteiro! Mera curiosidade? Nem tanto… a astrologia construiu sua cosmogonia a partir desse entendimento, mas criou 12 subdivisões arbitrárias para os signos do Zodíaco, igualmente arbitrárias como os meses do ano de nosso calendário juliano, buscando reagrupar as pessoas e suas diferenças e semelhanças conforme as “casas” ocupadas por esses signos no espaço sideral, embora não apenas isso.

Para mim, basta saber que hoje um novo ciclo se inicia em minha vida. Os ponteiros do relógio de minha vida deram mais uma volta e recomeçam a marcar o que ainda me falta para percorrer nessa longa caminhada. “Longa”? Nem tanto… somos frações do tempo geológico, tão insignificantes quanto os grãos de areia do deserto do Sahara… mas, para nossa precária compreensão, a vida é longa e o caminhar nem sempre é suave…

De certa forma, é um momento de reflexão em que podemos avaliar o trajeto já percorrido e redirecionar o caminhar para que nossas expectativas dêem sentido ao Existir. Olhamos para trás e vemos erros e acertos, sonhos mal construídos e não realizados, e árduas conquistas que nos alegram e nos motivam para  novas experiências. Percebemos o quanto a vida é efêmera, mas também nos alegramos de estar vivos e poder continuar a caminhada, de poder mudar o curso de nossa pequena história e mirar um novo ponto, ainda distante, em nosso horizonte. Isso dá sentido à vida e motivação para acordar a cada novo dia.

Hoje faço 64 anos. Não sou daqueles que se julgam importantes; sei de minhas limitações. Mas também não penso que minha vida transcorreu sem batalhas, sem conflitos, sem confrontos. Não. Lutei o quanto pude, dentro dessas limitações que apenas eu estabeleci para mim mesmo, venci algumas guerras, e perdi outras tantas. Enfrentei preconceitos e construí minhas convicções, minha ideologia, meus valores… Assumi posturas nem sempre confortáveis, mas desenvolvi a coerência de meu comportamento com base nesse arcabouço de conhecimentos seletivos que garimpei durante esses anos de caminhada. Sou o fruto dessas escolhas.

Por isso, olho para meu futuro e compreendo que já percorri bem mais da metade do caminho. Hoje tenho muito menos capacidade de lutar, fisicamente, para superar meus limites. Porém, estou bem mais preparado, intelectualmente, para defender meus pontos de vista e para comunicar, a quem se interesse, minha experiência de vida. Percebo o tempo como meu aliado, na medida em que já não me preocupo com o seu avanço constante, incontrolável, célere e inexorável. Nada posso fazer nesse sentido, e só me resta perseverar.

Portanto, meus amigos, sou fruto de meu passado, de minhas escolhas, das decisões tomadas e da percepção, correta ou equivocada, que me trouxeram até aqui. Não posso mudar o passado e não quero disfarçar meus equívocos, pois eles fazem parte de minha formação. Tenho grandes razões para ser feliz, mas não sei se a felicidade é um estado de espírito ou uma ilusão temporária. Não somos felizes, embora possamos estar, por breves momentos, naquele estado de prazer ao qual denominamos “felicidade”. Busco a paz interior, esse estado do espírito que não se importa com o que ocorre ao redor, pois apenas “somos” enquanto temos percepção do próprio “Ser”. E isso nada tem a ver com o Universo, com as pessoas, com as coisas materiais…

Agradeço àqueles que enriqueceram minha vida com suas presenças, com seu carinho, com suas próprias ideologias e contradições, com tudo aquilo que compartilharam comigo e que os tornaram parte de minha própria existência. E nesse mosaico incompreensível, que é a Vida, lá eu me encontro, apenas como um ponto imperceptivel. No entanto, é a conjunção de todos esses pontos que fazem esse mosaico nos parecer lógico, coerente, relevante e pleno em seu significado, embora apenas para cada um de seus componentes. O fantástico dessa teia é que cada um de nós faz parte de seu próprio e único mosaico! Por isso, o Universo não é único… infinitos são os universos dos bilhões de seres humanos, cada um compondo seu próprio mosaico do Existir…

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por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Recuso-me a falar de AMOR…

_JCF5319Enquanto houver miséria, injustiça, prepotência, arrogância, enquanto houver hipocrisia, vaidade, egoísmo, crueldade, recuso-me a falar de AMOR. Não porque soe piegas, mas porque é absolutamente inaceitável conviver com a falsidade… em nosso redor o que vemos é abuso de autoridade, corrupção, destruição da Natureza, genocídio de indígenas, exploração de trabalho humano e enriquecimento ilícito de políticos, empresários, multinacionais e falsos profetas de religiões messiânicas e fundamentalistas!

Houve um tempo em que eu pregava a revolução, o socialismo e o igualitarismo. Cheguei mesmo a me envolver com os movimentos políticos das décadas de 1960 e 1970, acreditando que o comunismo seria nossa redenção. Acreditava tanto nessa via socialista que me engajei de corpo e alma na luta contra a ditadura militar e contra os crimes praticados nos porões do DOI-CODI e do DOPS paulista. Coloquei minha vida nessa batalha perdida, que durou cerca de 21 anos e acabou com nossas lideranças.

No entanto, veio, finalmente, algo parecido com a Democracia, foi feita uma Constituição solidária com povos indígenas e quilombolas, criou-se mecanismos para que partidos socialistas se instalassem e ganhassem o poder. Ficamos todos eufóricos e elegemos LULA, o “sapo barbudo” e oPTei pelo Partido dos Trabalhadores, certo de que tudo mudaria nesse país. Ledo engano! Lula passou oito anos no poder e deu seu apoio incondicional ao agronegócio, às empreiteiras e mineradoras estrangeiras!

Vi o PT se desmanchar no MENSALÃO, vergonha nacional que o poder judiciário demorou quase DEZ ANOS para levar a julgamento, com um resultado insatisfatório, coberto de regalias e manifestações de “apoio e solidariedade” aos meliantes que roubaram nosso pais e cuspiram em nossa dignidade! Vimos os Zés (Dirceu e Genoíno) fazendo o gesto comunista, punho cerrado e braço esquerdo no ar, caminhando para a CADEIA como se fossem prisioneiros de guerra ou vítimas da ditadura militar!

Vi LULA, o sapo barbudo perder a barba e a vergonha na cara e eleger DILMA, a “gerente do PAC”, desconhecida e burra, subindo a rampa do Palácio da Alvorada, que deveria ser rebatizado como Palácio da Corrupção e do Entreguismo! Sim, DILMA entregou o país aos RURALISTAS AGROTÓXICOS, plantadores de SOJA e criadores de GADO! Nosso país virou a DESPENSA DO MUNDO, entregando nossas riquezas (OURO, FERRO, FLORESTAS, PETRÓLEO) a preço de BANANA e comprando BUGIGANGAS da CHINA a preço de DIAMANTE. Estamos entregando as FLORESTAS, os RIOS e as MONTANHAS para dar a melhor condição de vida aos nossos CLIENTES em troca da MISÉRIA de nossas populações marginalizadas pela pobreza!

Vejo, a cada dia, nossa população bestificada e alienada aceitar essas trocas imbecis, sem reclamar, sem perceber que estamos sendo espoliados, preparando o futuro de nossos filhos com a desgraça que virá quando nosso MEIO AMBIENTE estiver completamente degradado e imprestável até mesmo para CRIAR GADO, PLANTAR SOJA E CANA DE AÇÚCAR e EXTRAIR MINÉRIOS! E esse futuro não está assim tão distante como pensam esses cretinos que votam no PT: nossos netos já não terão lugar para viver com dignidade; nossos indígenas, a maior riqueza étnica do mundo, já terão sido extintos, dizimados pela miséria, corrompidos pela sociedade consumista e pelos empreendedores que constroem estradas e hidrelétricas na AMAZÔNIA!…

Então, por que falar de AMOR diante dessa tragédia anunciada? Por que insistir que “a vida é bela” se sabemos que vivemos uma tremenda ilusão de desperdício e consumismo desenfreado, alimentando a fome insaciável dessa civilização do consumo sem limites? Para que insistir acreditando que tudo vai mudar, que os movimentos sociais estão assumindo o poder, se sabemos que tudo é MENTIRA implantada pela mídia em nossos cérebros vazios de ideias e de altruísmo? Para que perseverar nessa luta entre DAVI e GOLIAS, que não terminará como nos textos bíblicos, mas sim em um esvaimento da seiva da vida que ainda corre nas veias de alguns poucos GUERRILHEIROS DO BEM? Cansei de lutar e de acreditar no SER HUMANO, essa estúpida criatura que não percebe que os verdadeiros tesouros estão na simplicidade da vida, na beleza da NATUREZA, no amor verdadeiro…

Recuso-me a falar de amor simplesmente porque já não acredito mais na salvação da HUMANIDADE e penso que os seres humanos precisam, urgentemente, ser banidos da face da Terra para que uma nova civilização ressurja e tente se livrar dos vícios de nosso passado, escrito com o sangue dos inocentes e construído sobre fortunas acumuladas dos saques dos pobres e oprimidos!

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio