Despedida

Querida minha, paixão e razão de meus momentos, musa e mãe de minha inspiração, mote contínuo de toda uma existência: estas serão as palavras que nunca ousei ter dito, por temê-las, por sabê-las, por nelas selar o fim de uma conjunção que dores teve – e muitas – porém muitas mais, infinitas seduções.

Neste meu exílio nem tanto voluntário, incontáveis vezes revisitei a nossa longa intimidade, procurando não-sei-o-quê que explicasse em que instante cruel se rompera o tênue laço do entendimento, aquele descuido do destino que nos colocou em rotas paralelas, um ao outro vendo, sentindo-nos as angústias, tão próximos e, no entanto, sem poder tocar-nos a alma, o sentimento, estranhamente atados em uma caminhada em que a ironia das vaidades, a volúpia das ambições nos arrastava sem piedade.

Pouco importa, ou nada que eu compreenda, se a mão da vida e do acaso conjurou para, em silêncio, e sem que percebêssemos, furtar-nos o sonho e suas possibilidades. Pouco há, ou nada, a se fazer, se inquietas forças seduziram nossas mentes em estradas enganosas, se querendo ser deuses de nós mesmos, logramos pretender fugir da roda do destino que, inexoravelmente, nos arrasta à trilha original de nossas vidas.

Hoje, contudo, essas paralelas se afastam. Não fui talhado para as amarras do cais, ou para a segurança das enseadas. Tenho, e isto me compunge e impele, o destino dos náufragos, arrastado pelas correntes, jogado em desertas praias do desconhecido, novamente sugado pelas marés e retornado continuamente aos infinitos mares da insatisfação e do desejo.

Não me julgue, porém, tão apressada: não sou eu quem decide – são as ondas, imensas ondas que emergem das entranhas de meu incompreendido ser, incontroláveis movimentos que, ao me afastar de praias tão amadas, lançam-me ao largo das efêmeras paixões, roto, descuidado, insano.

Sua luz, seu ser iluminado, qual um farol a me alentar das tormentas que me esperam, não bastam para conduzir minha nau sem rumo. Não me pertence a vida, nem a quero, não sou eterno nem em pensamentos; sou fruto do acaso, do irracional desprendimento, joguete da sorte, fragmentos imemoriados do ser ancestral que vive em cada um de nós. Tenho a alma e a inquietação de todo artista, sem contudo contar com seu talento – triste ironia!

Quem me leva, quem conduz essa carcaça inerme? Talvez o traço dessas descuidadas linhas, talvez o azul que no horizonte me confunde, quem sabe a imagem da mulher amada que, um dia, deixei nas enseadas do passado, não sei…

Querida, amada minha, não me segure, que a dor da ruptura já é imensa demais para suportá-la. Deixe que eu flutue solto, sem destino; só assim, talvez, não me arrebente nas pedras do cais de amarração. Seja feliz, que em todo o firmamento, não há estrela mais bela e luzidia, a um só tempo delicada e forte, em um só momento frágil e infinita!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

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