Transeuntes

Ele entrou no metrô pela manhã e sentou-se no lugar reservado para idosos. Não se sentia tão velho assim, para merecer um assento especial, mas naquele dia agradeceu a possibilidade de sair do aglomerado de gente se espremendo de pé nas raras composições que passavam, sempre atrasadas, pelos trilhos estridentes que o levavam ao trabalho.

Seguia em silêncio, com seus pensamentos, como de costume, sem atentar para as pessoas ao seu lado, quando sentiu um toque sutil, que o tirou do torpor e despertou-lhe a atenção. Devia ter apenas uns 17 anos, cabelos negros cacheados e pele morena. Tinha nas mãos um rosário muito longo e “debulhava” suas contas, rezando em silêncio.

Observou-a disfarçadamente, enquanto se surpreendia com o roçar de sua perna, ao movimento do trem. Teria sido casual? Atribuiu o contato à lotação do veículo, que dava pouco espaço aos que estavam de pé. Aquietou-se em seus pensamentos, mas já não conseguia concentrar-se, com o frequente tocar, percebido pelo tecido grosso de seu jeans.

A viagem pareceu-lhe menos desconfortável, e rápida demais para o fluir descontrolado de seus pensamentos. Passavam as estações e o trem se esvaziava, mas a garota continuava tão próxima que dava para sentir o seu perfume, exalando o vigor e a beleza da adolescência. O contato sutil o atordoava; seu desejo aumentava e seus instintos despertavam… ocultou-se em seu silêncio, temendo parecer ridículo diante  daquela jovem. Provavelmente, era essa solidão, que o acompanhava há anos, que alimentava ideias de um erotismo que já não podia sustentar.

As estações passavam céleres, como seus pensamentos, e logo chegaria a seu destino, mas não podia ignorar a ostensiva presença da menina, que estimulava seus instintos com seu toque quase imperceptível. Queria se aproximar e declarar sua presença, mas sua auto-censura o continha; fitou-a diretamente nos olhos e percebeu um sorriso delicado em seus lábios carnudos e vermelhos. Seria apenas por simpatia? Baixou os olhos, envergonhado de seus próprios pensamentos.

A próxima estação seria a sua; deveria sair, ou continuaria até o destino da garota, acreditando na ilusão que ele próprio criara em sua mente? O trem desacelera e os segundos se arrastam sobre os trilhos e o ruído estridente do atrito de metais. Desperta à realidade e se levanta; olha para ela, como uma súplica, mas a menina disfarça um rubor e abaixa o olhar. Mesmo sabendo que havia um clima de tensão compartilhado que os unira por esses breves momentos, dirige-se para a porta e desce do vagão; pára na porta e olha para trás: ela também o contempla, decepcionada, talvez…

O trem parte tão rápido quanto chegou, levando sua carga preciosa, e mais um sonho não realizado… segue seu caminho, confortado pela solidão… mais um dia…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Andrajos

 

Da ponta fina e sutil escorre meu pensamento:
Ora, em profunda tristeza, ora, pleno em alegria.

Seria, a tinta, o humor, o sangue de nossas vidas?
Quem alterna o sentimento, da dor à melancolia?
Quem, da mão, faz sua escrava, levando à mente a vontade,
Calando, em si, o desejo, recompondo a harmonia?…

Seria, enfim, ao contrário, apenas por ironia,
Que a vida se originasse da folha em branco e vazia?

Assim, por mero capricho, rabisco esta poesia,
Que nada diz, na verdade, pois nada me restaria,
Senão silêncio e saudade, senão andrajos de amor…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia