A Montanha

Manhã de julho, em um abrigo de montanha. Rúben – era esse o seu nome – acordara cedo, pois pretendia escalar o Pico de Agulhas Negras sozinho, pela primeira vez. O abrigo Rebouças era conhecido da comunidade de montanha por se situar dentro do Parque Nacional de Itatiaia, o primeiro a ser regulamentado no país, como unidade de conservação, em 1953. Estava muito frio, apesar do sol já ter nascido há mais de uma hora… o termômetro marcava -2º Celsius e, naquela noite, a temperatura chegara a -5º C. Era difícil deixar o calor do saco de dormir e se preparar para a longa caminhada. Mas Rúben pulou para fora da barraca e se ajeitou como pôde, vestindo um pulôver de lã, feito por sua mãe. Havia muitos montanhistas no abrigo, e cada um armara sua própria barraca dentro da grande sala. Não era razoável armar barracas ao relento com uma temperatura daquelas.

Rúben preparou seu café com leite em pó, pão integral, geleia de morango e mel. Era preciso comer um bom lanche para não ter que levar excesso de alimentos na mochila de ataque1. A cozinha não era pequena; tinha uma mesa de alvenaria com tampo de azulejos, na qual cabiam umas dez pessoas de cada vez. O leite quente com café caiu bem em seu estômago, aquecendo-o por dentro, e aumentando suas expectativas para a escalada. Voltou à sala, desmontou a barraca e organizou tudo, não se esquecendo do equipamento de emergência: duas lanternas, um canivete, uma pederneira2, o kit de primeiros socorros com ataduras, esparadrapo e esterilizante, um bom cobertor térmico, medicamentos para diarreia, antitérmico, relaxante muscular, anti-inflamatórios e um colete cervical. Levava somente o essencial para subir a montanha e voltar à base no mesmo dia, pois não era permitido pernoitar nos picos e trilhas do Parna3 Itatiaia. Assim, deixou no carro a mochila cargueira com roupas secas, saco de dormir, isolante térmico, fogareiro, barraca e um par de botas grossas. Levava consigo a roupa do corpo, em três camadas: uma camiseta, um fleece4, um anorak5, um gorro de lã, um par de meias, um par de botas leves, calças de moletom e o ‘cuecão’, de que seus amigos zombavam, mas que mantinha suas pernas aquecidas no frio intenso.

A caminhada é muito bonita, circundando um campo alagado, subindo em sucessivas etapas de rochas até chegar ao pé das Agulhas Negras, uma rocha imponente e escura, que lhe dava a denominação, destacando o parque de forma inconfundível, mesmo de longe. Pelo caminho, as poças congeladas pelo frio intenso da madrugada, formando placas de gelo com desenhos exóticos, às vezes opacos, com sulcos esculpidos pela natureza, ainda derretiam aos poucos, sob o fraco calor do sol, que se erguia, lentamente, no horizonte. Só por estar na montanha, Rúben já se sentia feliz, pois amava o silêncio, a paz dos ambientes naturais, a natureza preservada… e aquela solidão consentida. Subiu, com certa facilidade, a última etapa do pico, que não exigia muita técnica, e que ele já conhecia bastante de outras ocasiões em que escalou, com amigos do clube alpino, até chegar ao topo da montanha. Lá havia uma pequena caixa de ferro, com um caderno para registro daqueles montanhistas que conquistavam o pico pela primeira vez. Era de praxe deixar seu registro como visitante.

Rúben se inebriou mais uma vez com a paisagem fantástica, no topo da Serra da Mantiqueira, contemplando, do alto, os campos cobertos de nuvens, qual um tapete de algodão, deixando visíveis apenas os cumes das outras montanhas mais próximas. Sentou-se lá no alto, abriu sua mochila, pegou duas barras de cereais, algumas castanhas e um suco artificial, que ele bebeu e comeu devagarinho, saboreando aquele momento inesquecível, contemplando aquela paisagem de sonhos, como eram todos os lugares pelos quais caminhou nos últimos vinte anos. Estava com cinquenta anos, mas conservava a força, a energia e a determinação de um jovem, graças à sua vida saudável e às frequentes saídas para escalar, caminhar nas montanhas, mergulhar no mar e remar com amigos nos rios quase selvagens que o Brasil ainda tenta conservar, a despeito de tantos crimes ambientais praticados pelos ‘senhores do agronegócio’, os latifundiários para os quais a Natureza não tem nenhum valor, senão o de satisfazer seu apetite insaciável pelo lucro fácil e pela riqueza sem limites, propiciada pelo capitalismo selvagem de nosso país.

Quando resolveu descer a montanha já passava muito do meio-dia, e ele teria que fazer o retorno com muito cuidado, por estar só, sem a ajuda de um companheiro. Aventuras solitárias são muito desafiadoras, mas guardam em si um risco aumentado, e poucos têm a coragem de enfrentá-lo. Não podia correr o risco de um acidente, mesmo que não fosse grave, mas que o imobilizasse no meio da trilha. Rúben sempre levava seu SPOT6 e avisava seus amigos e a família de suas saídas em busca de aventuras. Por precaução, também levava uma corda de escalada, um arnês7, um freio oito e outro ATC8, três ou quatro mosquetões e as sapatilhas. Isso porque pretendia descer um trecho de rapel, para reduzir o tempo de retorno ao abrigo. Porém, quando chegou na base da montanha já estava escurecendo, e teria que caminhar um trecho longo sem a luz do dia. Felizmente, suas duas lanternas tinham carga total e estavam preparadas para serem usadas pelas mais de quatro horas seguidas de caminhada que ainda teria de enfrentar até chegar de volta ao abrigo.

Para sua surpresa, ao começar a caminhada na parte baixa do parque, escutou vozes vindas do meio do matagal. Chamou duas vezes, mas não obteve resposta. Permaneceu por uns instantes naquele local, supondo que poderia haver alguém precisando de auxílio. Depois de alguns minutos, chamando sempre, apareceu um casal de jovens, apenas com roupas de verão, sem nenhum agasalho, de sandálias e morrendo de frio! Deviam ter pouco mais de 15 anos de idade. Rúben cedeu-lhes o que tinha para ajudar a protegê-los do frio, que já era intenso, e os conduziu até o abrigo, que não ficava tão longe do lugar onde os encontrara. Foi uma grande sorte para aqueles garotos terem sido encontrados antes da madrugada pois, certamente, eles estariam em sérios apuros se tivessem que passar a noite perdidos na mata, sem nenhum agasalho, sem experiência de montanha, sem alimentos e sem capacidade de produzir fogo, correndo o risco de morrer por hipotermia, caso não tivessem sido resgatados a tempo.

Já no abrigo, todos se surpreenderam com a ousadia, ou melhor, com a imprudência dessas quase crianças, por terem ido à montanha sem estarem devidamente preparadas para isso. Os ambientes naturais são belíssimos, mas muito perigosos. Não se pode aventurar nesses locais sem um treinamento adequado, sem os equipamentos apropriados e sem um guia experiente. Mesmo assim, sempre que se vai para uma aventura na Natureza, é necessário que pessoas amigas, parentes ou socorristas saibam para onde irão, de quem estão acompanhados e quando pretendem voltar. São procedimentos fundamentais. De preferência, é muito útil levar outros equipamentos de segurança, tais como um GPS9, um sinalizador de localização geográfica e chamada de emergência (o SPOT) e um radiocomunicador tipo talk-about10 para que os guias se comuniquem, nos dois extremos de um grupo, para assegurar que ninguém se perca.

Rúben sempre praticava atividades ‘outdoor’11. Era um mergulhador experiente, com várias certificações técnicas e mais de uma centena de mergulhos na costa brasileira, incluindo o Parcel de Abrolhos e a Laje de Santos, dois dos melhores ‘points’ de mergulho do Brasil; era também um canoeiro habilidoso e um experiente montanhista, muito responsável e seguro em suas ações. Durante mais de dez anos percorreu os caminhos dos parques nacionais, sempre que possível levando seus filhos, e depois seus netos, para educá-los a amar e respeitar a Natureza. Já havia passado por dezenas de parques nacionais e estaduais, visitado dezenas de cavernas, remado por milhares de quilômetros e escalado inúmeras montanhas na serra da Mantiqueira. Tinha certificações como guia de aventuras, e um compromisso inabalável pela defesa intransigente dos ambientes naturais12. Com hábitos saudáveis, procurou disseminar noções de um relacionamento permanente com o Meio Ambiente em toda sua vida.

A cada nova aventura elaborava um planejamento detalhado, lendo tudo que podia a respeito de seu destino, e selecionando todas as informações relevantes para atingir seu objetivo com eficiência e segurança. Traçava os caminhos a percorrer e procurava elaborar rotas alternativas de viagem, utilizando os recursos de georreferenciamento oferecidos por ferramentas como o Google Earth®, pelo qual conseguia encontrar possíveis trilhas, locais de disponibilidade de água potável, lugares adequados para acampar em segurança, rotas de fuga, em caso de acidente, acesso às cidades mais próximas, telefones de emergência locais, reportagens publicadas por outros aventureiros, anotando tudo com o maior critério! Esse planejamento era, para Rúben, tão importante e interessante quanto a expedição em si mesma. Às vezes convidava amigos, com os quais se sentia bem em conviver, para compartilhar essas experiências. Em outras ocasiões, ele preferia sair sozinho, para poder refletir sobre sua vida, ao longo do caminho… chamava a essas reflexões de ‘meditação em movimento’ pois, enquanto caminhava, remava, escalava ou mergulhava, seu pensamento realizava outras viagens ainda mais fantásticas, por lugares desconhecidos do homem, que só existiam em mentes privilegiadas como a sua, e se esvaneciam quando a aventura terminava. E este era o seu problema: não registrara quase nenhum desses acontecimentos ‘inesquecíveis’! O fato é que ele esquecera quase tudo que sua farta imaginação produziu. Ficaram-lhe apenas as fotografias, as anotações e datas das aventuras, os caminhos registrados no GPS, as conversas trocadas nas mensagens eletrônicas… tudo o resto desaparecera com o tempo…

Poucas foram as vezes em que ele fez um relato, um ‘diário de bordo’ de suas experiências. Não porque ele não gostasse de escrever, mas por puro desinteresse e desencanto, pois acreditava que poucos se interessariam por suas narrativas. Seu círculo de aventureiros, na época em que estava no auge de suas capacidades técnicas e físicas para tais práticas, era muito restrito. E ele conhecia poucas pessoas que praticavam assiduamente esportes de aventura, pois era uma pessoa reservada, discreta, ensimesmada, voltada mais para seu interior espiritual e para suas experiências psíquicas do que para as narrativas de aventura. Para Rúben, só quem praticasse a vida na Natureza poderia compreender a dimensão dessas ‘viagens’ a que se dava o ‘luxo’ de sentir e vivenciar, sem o uso de drogas alucinógenas, apenas pela sintonia absoluta com as energias sutis, somente perceptíveis aos iniciados e aos seres das florestas selvagens.

Assim, agora que se encontrava em seu provável leito de morte, arrependia-se de não tê-lo feito, pois negara, a outros espíritos desapegados de materialidade, a oportunidade de saber que tais fenômenos existem, e estão ao alcance daqueles que estão preparados para vivenciá-los. Como diziam os adeptos do Conhecimento Esotérico, “quando o discípulo está preparado, o Mestre aparece”. Essa afirmação é atribuída a um monge Zen Budista, e se tornou uma verdade universal, um axioma daqueles que estão em busca do Conhecimento, aqueles que estão na Senda do Misticismo…

Sim, pois existem mistérios que não se revelam senão àqueles que se dedicam ao Bem, à Justiça, à busca pela Sabedoria dos Mestres e ao longo e difícil aprendizado das Verdades Universais. Esse conhecimento não está nos livros e não se ensina em escolas; é preciso buscá-los entre aqueles que já trilharam seus próprios caminhos, deixando de lado as vaidades e a ganância, dedicando-se a uma vida simples, modesta e de princípios e valores universais.

Rúben era um desse buscadores… dedicou sua vida ao aprendizado das Leis Secretas dos Mestres Espirituais. Talvez sua Iniciação seja, justamente, esse último desafio de enfrentar a morte e o isolamento em um quarto de hospital, pois são inescrutáveis os caminhos do Saber e da Iniciação… talvez, por isso, ela aceitava com tamanha resignação o desafio que lhe fora imposto nesse derradeiro instante de sua vida terrena… sabia, em seu íntimo, que encontraria a Paz nesses momentos de solidão, sofrimento e abandono aos quais estava definitivamente atado em seu leito de morte…

1Mochila de ataque – para ascender a uma montanha, geralmente os escaladores usam mochila pequena, apenas com o essencial para subir e descer no mesmo dia, sem peso extra e materiais desnecessários, mas sem se esquecer do essencial para sua segurança.

2Pederneira ou ‘pedra de fogo’ – A pederneira de magnésio é um bastão que, ao ser atritado por um metal, gera uma faísca de aproximadamente 3.000°C, podendo facilmente acender uma fogueira. É uma ferramenta essencial de sobrevivência. Pode ser usada em qualquer condição climática, sob a chuva e até mesmo a baixas temperaturas.

3Parna – abreviatura de Parque Nacional, que é uma das modalidades de unidades de conservação do ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, subordinado ao Ministério do Meio Ambiente. O Parque Nacional tem por finalidade preservar ecossistemas de grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas, atividades educacionais e de interpretação ambiental, recreação e turismo ecológico, por meio do contato com a natureza. O Brasil possui, atualmente, 72 Parques Nacionais. [fonte: site ICMBio]

4Fleece – é uma camada intermediária no ‘sistema de três camadas’, um tipo de flanela sintética com propriedades típicas (respirabilidade, leveza e compressibilidade), que o tornam indicado para atividades ao ar livre. utilizada para manter a temperatura, ou seja, para isolamento térmico.

5Anorak – é uma espécie de jaqueta com gorro, confeccionada com material resistente. É uma vestimenta utilizada pelos praticantes de esportes ao ar livre com a finalidade de proteger a parte superior do corpo contra o vento, a chuva e a neve, com forro de material poroso, para dissipar a transpiração, e cobertura impermeável, para proteger da chuva. Constitui a ‘terceira camada’.

6SPOT (Personal Tracker) – é um equipamento para rastreamento e comunicação entre um aventureiro e pessoas cadastradas para receber as mensagens de localização geográfica, enviadas durante um percurso de caminhada, ou quando o explorador já estivesse no acampamento.

7Arnês (cadeirinha ou arreio) é uma espécie de cinto de segurança no qual é fixada a corda para a escalada, a espeleologia, o canyonismo, o iatismo, etc. [Wikipedia]

8Freio ATC é um dispositivo de segurança criado pela ‘Black Diamond’, chamado como ‘ATC-Guide’. O significado da sigla ATC é ‘Air Traffic Controller’, (controle aéreo de trafego, que permite fazer uma descida controlada e segura durante um rapel). O Freio Oito é mais simples, mas tem a mesma finalidade, ou seja, controlar a velocidade de descida durante um rapel.

9O GPS (global positioning system), sistema de posicionamento global, é um sistema de posicionamento por satélite que fornece a um aparelho receptor móvel a sua localização geográfica, sob quaisquer condições atmosféricas, a qualquer momento e em qualquer lugar na Terra, desde que o receptor se encontre no campo de visão de, ao menos, três satélites. [Wikipedia]

10Talk About (ou walkie-talkie), mais formalmente conhecido como transceptor de mão, é um radiocomunicador de dois pontos, de médio alcance (cerca de 36 km).

11Atividades outdoor’ (‘além da porta’), ou atividades de aventura em ambientes naturais.

12Leave no Trace – organização internacional que definiu sete regras para realizar uma aventura segura e evitar a destruição dos ambientes naturais. São elas: 1) Planeje com antecedência as suas atividades; 2) Viaje e acampe sempre em superfícies duras (solos compactados); 3) Desfaça-se de seu lixo fora das áreas preservadas; 4) Deixe tudo como estava quando chegou; 5) Minimize os impactos de fogueiras no campo; 6) Respeite a vida selvagem; 7) Tenha consideração e respeito pelos outros visitantes que encontrar no caminho (Leave no Trace (https://lnt.org/)

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Um comentário em “A Montanha

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