O Sagrado, o Profano e o fim da espécie humana

Desde suas origens, no momento em que o homem se diferenciou dos primatas pela inteligência, o desconhecido fascinou sua mente e estimulou seus pensamentos acerca do paradoxo de nossa existência. Essa perplexidade diante da vida se manifestou pela contradição entre o profano e o sagrado, entre as forças demoníacas do Mal e as divinas forças do Bem. Essa foi a origem das religiões sagradas e dos ritos satânicos.

Na verdade, a religião, seja ela sagrada ou satânica, existe e foi criada para preencher as lacunas da ignorância humana em seu processo de desenvolvimento da cultura e do saber. Por essa razão, as religiões primitivas eram simplórias e cultuavam as forças poderosas da Natureza, adorando os raios, os trovões, os terremostos, as erupções vulcânicas, as tempestades… tragédias e bonanças, fome e fartura representavam o humor dos deuses, satisfeitos ou não com a conduta humana.

Para aplacar a “cólera dos deuses”, eram feitas oferendas e sacrifícios, às vezes de animais, outras de seres humanos! Quantas jovens virgens não foram assassinadas com o propósito de acalmar tais deuses?

Mas as religiões evoluíram, tornaram-se mais complexas, mais “civilizadas”, criaram-se dogmas, doutrinas e livros sagrados, supostamente inspirados pelos deuses a seres “iluminados”, estabeleceram-se regras de moral e de conduta, restringindo a liberdade do homem em troca de promessas de salvação, de uma vida eterna e plena de alegrias depois da morte, ou de um destino cruel, para os “pecadores”, condenados a arder para sempre nos fogos do inferno!

E sempre que a Ciência dos homens esclarecia um mistério dos deuses, ou destruía um dogma das religiões, estas se adaptavam, criavam novas interpretações dos textos sagrados, pois o desconhecido será sempre muito maior do que o saber humano. Era, portanto, fácil “maquiar” o lapso de ignorância desvendado!

Mas não apenas as religiões se aproveitavam da ignorância humana, pois a fantástica indústria de homens super dotados, possuidores de um poder quase divino e motivados para o Bem, e de super-inimigos, criminosos que a eles se contrapõem em uma luta sem fim, também se alimenta do desejo humano pelo poder ilimitado dos deuses. Mas os deuses não existem, assim como os super-heróis. E não conseguimos conviver com a terrível verdade de que nossa existência é tão efêmera quanto uma simples bolha de sabão.

Nada levaremos desta vida, e não subsistiremos ao tempo, além da morte. Tudo ficará para trás: nossas idéias, nossas crenças, nossos amigos, parentes, pais, irmãos, companheiros… nem o amor sobreviverá e tudo se extinguirá no instante da morte…

É muito difícil aceitar essa verdade, pois ela elimina também o conceito do Bem e do Mal, “assim como falou Zaratustra”, personagem essencial do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Por que cultivar as virtudes? por que não sucumbir ao vício e ao prazer igualmente efêmero? para que trabalhar honestamente, se não existe a dicotomia do Bem se contrapondo ao Mal? Por que não nos entregamos à luxúria, ao oportunismo, às mentiras e à falsidade em proveito próprio? Apenas para preservar o mito da existência humana?

Os mitos religiosos e sagrados tentam manter a humanidade dentro dos parâmetros e regras da sociedade, pois a perda da convicção e da fé religiosa nos levaria, inexoravelmente, ao Caos! A religião, seja ela qual for, satânica ou sagrada, é conveniente para manter a ordem e a sustentabilidade no convívio humano. Senão, o que ensinar aos nossos filhos? Como convencê-los a se manterem dentro dos limites de normalidade usualmente aceitos?

Ser ateu é romper com as regras sociais; é perverter a ordem e o “stabilishment”; é provocar o Caos

Daí se constata a fragilidade das estruturas sociais, que só se mantêm de pé graças à cegueira espontânea de seus componentes. Diz o ditado: “O pior cego é o que não quer ver!” Ou seja, todos os crentes deste mundo!

A vida seria impossível sem as religiões e, portanto, as sociedades só evoluíram ao longo da história porque os homens se negaram a olhar para dentro de si mesmos e constatar: “A Humanidade é inviável!” Sim, apenas a Natureza, inculta e ingênua, inconsciente de si mesma, é passível de existir, e o futuro da humanidade está destinado à extinção.

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