Vida Insensata

 

Tia Elza, querida amiga, sinto sua falta entre nós… recuso-me a imaginá-la inerte, em uma cama de hospital… prefiro lembrar-me de sua voz suave, gentil como de minha querida sogra, sua irmã Carolina, que nos deixou há mais de 20 anos, e que permanece em minha memória, sussurrando sua bondade, meiga e amável, a todos a quem recebia, generosa, em sua casa. Saudade… muita falta vocês me fazem… De tia Elza ainda não nos despedimos… talvez nunca o façamos, pois de seres iluminados não se despede; apenas lamenta-se a perda do convívio, e isso é o que menos importa.

São poucos os espíritos que perambulam nesse mundo tão impessoal e egoísta. A tecnologia teve o dom de aproximar seres humanos (seria a aldeia global?), mas também vulgarizou o relacionamento. Hoje entra-se no Facebook e escreve-se algo assim: “meu cachorrinho está doente…”; ou então “estou com raiva!”. Ficamos esperando alguma fala que complemente o raciocínio, mas o que vem depois é “curtir”, ou então “tadinho!”… vulgaridades cotidianas.

Falta conteúdo ao mundo globalizado, e não era essa a mensagem de McLuhan! Ele falava da volta à simplicidade de uma aldeia, todos se comunicando ao redor do mundo, mas com inteligência e sofisticação intelectual! Algo como um nivelamento “por cima” das classes sociais. Acontece que a aldeia que ele concebia era aquela que temos em mente quando imaginamos os indígenas no meio da selva amazônica. Porém, quando lá chegamos, encontramos antenas parabólicas para assistir as novelas da Globo e muita cachaça para fazer o caxiri e embebedar-se até cair no chão… o índio perdeu a inocência!

E nessa vida insensata vamos perdendo a capacidade de confabular, de nos agacharmos diante das casinhas simples do interior que conheci na minha infância, apenas para conversar, de conceber inconsequentes teorias de evolução da humanidade, de preservar o verde, as águas e os animais, de sonhar com a paz, como fez John Lennon… e por isso nos arrastamos pelos becos de nossa inocência ultrajada, lamentando o mundo que nunca mais poderá encontrar sua aldeia natal, e lá simplesmente sentir o frescor das tardes de domingo, à beira-rio, jogando conversa fora com amigos de verdade, e acreditando em uma vida melhor…

Roubaram nossas possibilidades de sermos simplesmente felizes…

Anúncios

A Bicicleta

Hoje percebo o quanto a bicicleta faz parte de minhas memórias; ainda pequeno ganhei uma de meu pai, e até me lembro de sua marca: Merckswiss (acho que era assim que se escrevia). Era pequena e azul, e eu me equilibrava nela com muita dificuldade, mal tocando a ponta do pé no chão, ao parar.

Foi nessa bicicleta que quebrei meu dente; uma árvore, em meu caminho, foi a culpada; e caí, batendo a boca no “guidon”. Mas nem por isso desisti de minhas duas rodas, que me acompanharam por toda vida. Cheguei a pensar até em ser um atleta, ou um artista, sei lá, contracenando com a “magrela” pela vida afora. Depois passou, e me esqueci da companheira, que ingrato!

Em Dracena, interior de São Paulo, aprendi a andar, a correr pelo aterro da estação de trem, em construção. Descíamos em grupo pela sua encosta em desabalada carreira e só mesmo o acaso nos livrava das consequências dos acidentes “inevitáveis”. Perambulávamos pelas ruas em bandos de crianças, meninos e meninas, sem preocupação; não havia o risco dos automóveis, pois a pacata cidadezinha tinha uma pequena frota de veículos, geralmente táxis, que andavam vagarosos pelas ruas de terra, contracenando com as charretes puxadas a cavalos.

Quando me mudei para Ribeirão Preto, certo dia assisti um maluco ficar dias seguidos girando em uma praça, sobre um tablado, na frente do Theatro Pedro II, demonstrando sua resistência e habilidades para o povo admirado! Havia poucas opções de diversão, e esses mambembes faziam sucesso pelo interior do Brasil. Decidi que, um dia, faria o mesmo e conseguiria bater o “record” mundial de permanência sobre o selim; a partir de então, passava horas girando com minha bicicleta em torno da velha mangueira lá de casa, deixando minha mãe desesperada com minhas loucuras.

Não bati nenhum “record”, mas desenvolvi minhas habilidades na “magrela”. Gostava de percorrer, em desabalada carreira, as ruas da cidade, descendo ladeiras e fazendo curvas “impossíveis”, até que me “ralei” todo numa queda no asfalto da avenida. Mas criança não tem memória, e poucos dias depois eu voltava a me aventurar nessas corridas inconsequentes.

Assim, a bicicleta fazia parte de minha vida, trazendo-me oportunidades de viver os dias sobre duas rodas. Às vezes desafiava meus primos a seguir pela estrada comigo até os municípios vizinhos, sem o conhecimento de minha mãe; como eles não iam, seguia sozinho. A bicicleta era minha companheira nesses momentos de solidão. Gostava de “pensar em movimento”, meditação dinâmica que cultivei ao longo de minha vida, e que foi de grande valia pelas dificuldades que tinha em conviver com os outros meninos de minha idade.

Acho que a bicicleta e, depois, a canoa, foram os paliativos de minha solidão. Nunca me importei muito com isso, pois acabei gostando de compartilhar meus pensamentos apenas com meus companheiros invisíveis, que povoaram minha imaginação. A bicicleta esteve sempre presente, e eu costumava “conversar” com ela enquanto andava sem destino, soltando as mãos, subindo no selim, fazendo pequenas acrobacias com esse meu instrumento de manifestação de meu poder pessoal, nunca compartilhado com a “turma” que não existia.

Ainda tenho uma bicicleta e, mesmo hoje, nos meus sessenta e um anos bem vividos, não perdi a mania de andar nos meus limites, correndo pelas ruas dessa pequena cidade do Amazonas, sem me importar com o que se passa em meu redor. Mas terei que deixá-la aqui, ao me transferir para a Capital do país, pois minhas bagagens já ultrapassaram de longe minha capacidade de transportá-las. Sentirei sua falta, mas logo encontrarei outra inseparável companheira, estou certo disso, e continuarei compartilhando com ela meus sentimentos mais profundos, discretos e silenciosos.

MADRASTA SOLIDÃO

 

Vejo-a com meus olhos de menino
Encantado por sua dedicação
E nada fiz por merecê-la
Simplesmente existi

Vejo-me pelos seus olhos pequeninos
Embaciados pela vida que passou
E nada fiz por recompensá-la
Pois só cuidei de mim

Enclausurada em sua solidão sem fim
Não a encontro mais perto de mim
E nada posso fazer por revivê-la
Senão fechar os olhos

…e adormecer também…

ESTRANHA CIDADE

 

Não pertenço mais a esta cidade
Mas algo me traz de volta aqui
Venho apenas para reviver
Os sonhos que algures deixei

Meu pai talvez soubesse a razão
Porém, ele se foi e me deixou vazio
Levou consigo nosso castelo de ilusão
E me escondi em outros pesadelos

Entreguei-me ao prazer de conduzir
Almas, seres humanos, gente como eu
Perdidos nas incertezas do amanhecer

Mas não existe Amanhã no Ser…
Por isso, talvez, perambulei por aí
Buscando, quem sabe qual motivo
Para perseverar, ainda que disperso
Em pensamentos que não são meus

Como posso refletir se já não tenho paz?
E, no entanto, continuo aqui…

AMAZÔNIA

 

Estranho mundo perdido no passado
Entristecida gente deixada no caminho
Inebriada pelo falso brilho da civilização

Não são brancos, pardos, negros, índios…
São só caboclos, despidos de identidade

Chamam-se ingenuamente de parentes
Como a dispersar assim as desavenças
Deixadas pela dominação caucasiana

Gente sem passado, cantam suas ilusões
Fingem preservar, assim, as tradições

Mas elas não existem mais… se foram…
E não haverá quem as resgate do passado
E viverão assim na eternidade que não há…

SEM DESTINO

 

Quisera não compreender a realidade
Iludir-me, como o fazem todos os demais
Fingir que ainda acredito na humanidade
Que ainda existem esperanças nesta vida

Mas não sou assim: perdi a ingenuidade
E sei que um dia tudo encontrará seu fim
E que não é possível salvar este planeta

Porém, já terei ido quando isso acontecer
E o mundo se ocultará de vez nas trevas
E os homens padecerão os seus pecados
Pagando o preço do desprezo pela vida

E não haverá mais florestas, flores, animais
E o que restará serão somente os desertos

Mas, ainda assim, existirão os homens
Enclausurados em seu planeta morto
E chamarão a isso o Grande Progresso
E cultuarão suas próprias invenções
Sem perceber que nada valem de per si

Talvez migrem até para outros mundos
Colonizando escravos, destruindo tudo
Como fizeram por milênios por aqui

Talvez apenas desapareçam, um dia
Sem deixar rastros, nem lembranças
E se reintegrem ao pó da Eternidade…

SONS INESQUECÍVEIS

 

Ouço o silêncio obscuro de meu interior
Que os sons deste mundo já não ouço mais
Parecem-me ruídos, gritos esganiçados,
Ofendem meus ouvidos já cansados

Ouço o som do Universo ao meu redor
Meu pai diria: “ouça o som das esferas”
E vejo os mundos a rodopiar nos céus
E o brilho inconfundível desses astros
E o som inaudível da luz cortando o éter

Ouço o murmúrio das águas pelas pedras
E sinto a paz que já não existe mais

Ouço o burburinho das crianças
Algazarra feliz, descontraída e bela
Cantigas ancestrais trazidas da lembrança
Bailam em roda, despreocupadamente
Ainda não perderam a pureza dos anjos
Nem se tornaram perversas como os pais

Ouço o farfalhar das folhas na floresta
E o sublime cantar dos passarinhos
A chamar suas fêmeas, a tecer seus ninhos
Percebo a sombra dos grandes animais
E suponho suas vozes, a rugir, medonhos…
A espantar inimigos… a impor domínios…
Apenas sons imaginários… nada mais

Reflexões Insólitas

 

Dizem que o Universo tem 15 bilhões de anos, o Sistema Solar 4 bilhões de anos e a Terra só surgiu há um bilhão de anos. Na verdade, esses números são apenas referências abstratas de quão longa é a existência do Universo, já que ninguém poderá contestá-los. O homem se diferenciou dos primatas há cerca de um milhão de anos e o Homo Sapiens surgiu há cerca de 300 mil anos. O homem “moderno”, tal qual o conhecemos hoje, só apareceu há 50.000 anos e a história da civilização remonta a 10.000 anos atrás.

Ou seja, nós só começamos a transformar o mundo em que vivemos a partir das antigas civilizações, dos Sumérios, dos Babilônios, dos Fenícios, dos Persas, dos Chineses, dos Egípcios, dos Gregos e dos Romanos… de 5.000 anos antes de Cristo para cá. Desde então, a evolução do conhecimento humano ocorre em velocidade exponencial.

No entanto, nem todo o conhecimento humano é suficiente para atender às nossas expectativas e responder às questões elementares de todo ser humano: de onde vim, o que sou, para onde vou. As religiões surgiram e continuam a existir para preencher as lacunas do nosso conhecimento.

No início dos tempos, as aldeias onde se assentavam os seres humanos estavam cercadas por demônios e divindades, que simbolizavam o terror sentido por aqueles indivíduos diante dos fenômenos incompreensíveis que dominavam suas existências. Para eles não existiam opções, e a vida era um tormento marcado pela necessidade de sobreviver, de procriar e de dominar seus semelhantes.

As religiões surgiram para explicar o inexplicável, criando uma entidade abstrata que justificaria tudo o que fosse incompreensível: Deus, a fonte da Sabedoria, o Criador de todas as coisas, o Ser Supremo que tudo pode. O Deus único substituiu as antigas divindades e consolidou o domínio de todas em um só Ser Todo Poderoso e Eterno.

Ao longo dos tempos desenvolveram-se três tipos de religião. Para a primeira, a vida é uma só, única e irreversível; e conforme nosso desempenho e conduta nessa vida, teríamos como destino o Céu, o Inferno ou o Purgatório. As contradições desse tipo de religião são evidentes, a começar pela injustiça latente na origem de cada ser humano e suas possibilidades de sucesso ou fracasso nesta vida, e na duração da própria vida, que poderia abortar uma possibilidade de sucesso antes mesmo que o indivíduo provasse seus méritos para a vida eterna.

A segunda hipótese é a das reencarnações, uma sucessão de vidas ao longo das quais o ser humano se aperfeiçoaria até que não precisasse mais retornar à vida terrena e estaria libertado desse ciclo do renascer. O paradoxo não explicado é o crescimento contínuo da população terrestre e a motivação desse processo evolutivo, uma vez que Deus seria um ser perfeito e suficiente em si mesmo. Então, para que o ser humano?

A terceira hipótese é uma variação da anterior; só que, atingindo a perfeição neste mundo, o espírito passaria para mundos sucessivamente mais sutis, onde continuaria seu processo evolutivo. Quantos níveis evolutivos existiriam? Quem teria voltado da Eternidade para explicar a existência desses outros mundos sutis? Por que os mundos sutis reproduziriam as mesmas condições terrenas de nosso mundo grotesco?

Existe uma quarta via: o Universo é constituído de fragmentos desse ser superior, dessa sabedoria infinita, explosão primal de um Deus que a tudo permeia e que, no interminável rolar dos dias, se recomporá na imponderável concepção do Deus de todos os seres, de todos os planetas, de todas as constelações, de todas as galáxias…

Enquanto a Ciência trabalha para destruir esses simplórios dogmas religiosos, as crenças humanas permanecem intactas, uma vez que o homem não sabe praticamente nada a respeito desse complexo Universo. A religião é necessária para que os homens possam viver em sociedade. Sim, pois se não houvesse um parâmetro de controle, por que as pessoas viveriam em relativa paz? Por que lutariam pela ética, pela justiça, pela dignidade, pela solidariedade?

Nenhum código de vida seria aceito e respeitado se soubéssemos que, com nossa morte, tudo se acabaria, que não existem recompensas pelo bom comportamento, assim como não existem punições para o “pecado”. E o mundo se tornaria um caos, e a barbárie nos levaria de volta aos tempos primitivos, onde a única lei era a do mais forte e desleal.

A Terra terá seu fim, seja porque o Sol se acabará um dia, seja porque o próprio Homem conseguirá antecipar a destruição do planeta pelos seus atos predatórios contra o meio ambiente, e toda fonte de água, de alimentos e de energia se extinguirá em pouco tempo.

Então, todo o conhecimento acumulado pelos homens será perdido para sempre. Talvez existam sobreviventes; talvez o homem encontre outros mundos, outros planetas para ocupar e destruir depois da Terra; mas são meras conjecturas… afinal, o Homo Sapiens é apenas uma aberração genética, uma mutação acidental da vida em suas infinitas manifestações.

Seja como for, assim como ocorreu com todas as civilizações que nos precederam, nossa sociedade contemporânea também chegará a seu ocaso e declínio, desaparecendo em função dos abusos cometidos e da extinção de suas fontes de suprimento. A única diferença é que agora vivemos em escala global, todas as sociedades interligadas em uma única rede de produção e de consumo, sujeitas às mesmas regras que nos destruirão a todos. Curiosamente, se isso acontecer, as sociedades que têm maior probabilidade de sobreviver são as mais remotas, as mais pobres, as mais esquecidas, as mais injustiçadas e humilhadas…

E se esse Universo que concebemos for apenas o interior de uma pequena célula de um Universo muito maior que o contém? E se esse pensamento recursivo se propagar ao infinito, evidenciando nossa total irrelevância no concerto universal das coisas, que jamais caberia em nossa limitada compreensão? E se muito além de nossa imaginação não passarmos de pensamentos nas mentes de outros seres muito mais poderosos e eternos?

Meras reflexões de um passeio pelo bosque…

O Sagrado, o Profano e o fim da espécie humana

Desde suas origens, no momento em que o homem se diferenciou dos primatas pela inteligência, o desconhecido fascinou sua mente e estimulou seus pensamentos acerca do paradoxo de nossa existência. Essa perplexidade diante da vida se manifestou pela contradição entre o profano e o sagrado, entre as forças demoníacas do Mal e as divinas forças do Bem. Essa foi a origem das religiões sagradas e dos ritos satânicos.

Na verdade, a religião, seja ela sagrada ou satânica, existe e foi criada para preencher as lacunas da ignorância humana em seu processo de desenvolvimento da cultura e do saber. Por essa razão, as religiões primitivas eram simplórias e cultuavam as forças poderosas da Natureza, adorando os raios, os trovões, os terremostos, as erupções vulcânicas, as tempestades… tragédias e bonanças, fome e fartura representavam o humor dos deuses, satisfeitos ou não com a conduta humana.

Para aplacar a “cólera dos deuses”, eram feitas oferendas e sacrifícios, às vezes de animais, outras de seres humanos! Quantas jovens virgens não foram assassinadas com o propósito de acalmar tais deuses?

Mas as religiões evoluíram, tornaram-se mais complexas, mais “civilizadas”, criaram-se dogmas, doutrinas e livros sagrados, supostamente inspirados pelos deuses a seres “iluminados”, estabeleceram-se regras de moral e de conduta, restringindo a liberdade do homem em troca de promessas de salvação, de uma vida eterna e plena de alegrias depois da morte, ou de um destino cruel, para os “pecadores”, condenados a arder para sempre nos fogos do inferno!

E sempre que a Ciência dos homens esclarecia um mistério dos deuses, ou destruía um dogma das religiões, estas se adaptavam, criavam novas interpretações dos textos sagrados, pois o desconhecido será sempre muito maior do que o saber humano. Era, portanto, fácil “maquiar” o lapso de ignorância desvendado!

Mas não apenas as religiões se aproveitavam da ignorância humana, pois a fantástica indústria de homens super dotados, possuidores de um poder quase divino e motivados para o Bem, e de super-inimigos, criminosos que a eles se contrapõem em uma luta sem fim, também se alimenta do desejo humano pelo poder ilimitado dos deuses. Mas os deuses não existem, assim como os super-heróis. E não conseguimos conviver com a terrível verdade de que nossa existência é tão efêmera quanto uma simples bolha de sabão.

Nada levaremos desta vida, e não subsistiremos ao tempo, além da morte. Tudo ficará para trás: nossas idéias, nossas crenças, nossos amigos, parentes, pais, irmãos, companheiros… nem o amor sobreviverá e tudo se extinguirá no instante da morte…

É muito difícil aceitar essa verdade, pois ela elimina também o conceito do Bem e do Mal, “assim como falou Zaratustra”, personagem essencial do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Por que cultivar as virtudes? por que não sucumbir ao vício e ao prazer igualmente efêmero? para que trabalhar honestamente, se não existe a dicotomia do Bem se contrapondo ao Mal? Por que não nos entregamos à luxúria, ao oportunismo, às mentiras e à falsidade em proveito próprio? Apenas para preservar o mito da existência humana?

Os mitos religiosos e sagrados tentam manter a humanidade dentro dos parâmetros e regras da sociedade, pois a perda da convicção e da fé religiosa nos levaria, inexoravelmente, ao Caos! A religião, seja ela qual for, satânica ou sagrada, é conveniente para manter a ordem e a sustentabilidade no convívio humano. Senão, o que ensinar aos nossos filhos? Como convencê-los a se manterem dentro dos limites de normalidade usualmente aceitos?

Ser ateu é romper com as regras sociais; é perverter a ordem e o “stabilishment”; é provocar o Caos

Daí se constata a fragilidade das estruturas sociais, que só se mantêm de pé graças à cegueira espontânea de seus componentes. Diz o ditado: “O pior cego é o que não quer ver!” Ou seja, todos os crentes deste mundo!

A vida seria impossível sem as religiões e, portanto, as sociedades só evoluíram ao longo da história porque os homens se negaram a olhar para dentro de si mesmos e constatar: “A Humanidade é inviável!” Sim, apenas a Natureza, inculta e ingênua, inconsciente de si mesma, é passível de existir, e o futuro da humanidade está destinado à extinção.

O DILEMA DA EMANCIPAÇÃO ÉTNICA

Este é o tempo em que minorias assumem o protagonismo de suas vidas e, no entanto, mesmo entre essas populações marginalizadas há um tratamento desigual e injusto. Senão, vejamos: enquanto os descendentes das tribos africanas são, no máximo, considerados “quilombolas” e confinados em territórios onde, na maioria das vezes, mal é possível a sobrevivência, os descendentes dos povos tradicionais da América do Sul são tratados como nações independentes, com imensos territórios preservados, legislação específica e generosa e grandes volumes de recursos para estimular sua transição para a sociedade capitalista. Já os afro-descendentes levam anos para conseguir receber seu título de quilombola, e isso é apenas o começo: às vezes são necessários outros tantos anos para que sejam reconhecidos como seres humanos pelos seus algozes, geralmente latifundiários que cercam suas pobres terras confinadas às margens de um rio ou no sertão mais perverso, pela escassez de chuvas. Se os indígenas têm dezenas de ONG´s repletas de recursos estrangeiros para investir em suas tradições seculares, já os quilombolas, deixados à margem de nossa história, sequer sabem o que é uma ONG!

Mas falo aqui dos dilemas da emancipação étnica, e esse dilema não existe em nenhum dos dois casos citados. Quilombolas serão segregados enquanto a cor de sua pele não se dissolver na miscigenação racial, ainda que nas novelas globais os personagens digam o contrário. Já os indígenas, dificilmente aceitariam essa emancipação, pois perderiam as imensas vantagens conquistadas nos processos de demarcação de suas terras. Alegam que precisam dessas terras para pescar e caçar, para mover sua roça pelas campinas ou baixios, ou mesmo pelos terrenos desmatados; ocorre que a cada dia esses indígenas abandonam suas tradições em troca das modernidades, sejam elas boas ou não.

Falo da bacia do Rio Negro, na região conhecida como “Cabeça de Cachorro”. Aqui, as zarabatanas foram substituídas pelas espingardas; a pesca com timbó ou flecha deu lugar às tarrafas, redes, anzóis ou mesmo aos tanques de piscicultura. Nas comunidades, cada vez mais urbanas, as “vantagens” do capitalismo “solidário”: luz elétrica, internet, celular, antenas parabólicas, televisão, novelas que destroem os valores tradicionais desses povos… cachaça, drogas, prostituição, contrabando, crimes hediondos…

Para algumas etnias, a língua escrita ou falada já desapareceu, e eles assimilam uma farsa trazida pelos religiosos salesianos: o nheengatu, uma língua híbrida e simplificada, traduzida dos Tupinambás e imposta aos alunos dos internatos onde sabe-se lá o que se ensinava, além das letras e números… e os filhos da floresta já não acompanham seus pais e se apegam a outras fantasias do consumismo: as roupas e penteados exóticos, a música tecnobrega importada do Pará, as boates onde rolam sexo e drogas…

Nesse “paraíso” no meio da selva amazônica os esgotos correm pelas sarjetas até encontrar um igarapé, deixando seu cheiro fétido pelo caminho; o lixo se acumula a céu aberto a menos de 10 km do centro da cidade; no final da noite, as sarjetas abrigam os embriagados pelo “caxiri” moderno, temperado a cachaça e emborcado sem parcimônia.
Diante desse cenário sem retoques, o que pensar dos líderes que defendem seus interesses acima das sociedades que representam? Aqueles que querem as benesses do capitalismo sem abrir mão das vantagens quase monárquicas de preservar metade da Amazônia para seu deleite, exploração de minérios, extração de madeira, tráfico de drogas, só para citar alguns poucos vícios adquiridos e defendidos à exaustão…

Dilema? Que dilema existiria no (des) conforto dessa (in) decisão?

Inspiração e arte

Perdi a minha Arte… já disse, um dia, em um poema, que “Arte é Inspiração”. Pelo menos, assim penso que seja quando se trata de poesia. A poesia não depende do talento; ela brota de dentro do ser e irrompe avassaladoramente, obrigando o poeta a manifestá-la perante o mundo, ainda que contra a sua vontade! Foi assim comigo; durante dois anos esse fluxo de mensagens fluía naturalmente, sem que eu precisasse sequer retocar o que escrevia com tanta facilidade.

Se minha arte era rica, não importa. Sei que tinha seu valor e expressava meus pensamentos de forma clara, concisa e lírica como eu nunca mais o faria, pois essa erupção poética se extinguiu assim como chegou. Não lamento, pois creio ter dito tudo o que desejava nesses poucos meses em que fui visitado pela Poesia.

Meus textos são duros, difíceis de encontrar adeptos porque eu falo aquilo que todos se recusam a admitir: que o mundo dos homens não é belo, que a brutalidade das relações se esconde sob as máscaras de cada um, enquanto nossos pensamentos refletem nossa verdadeira personalidade, que ocultamos até de nós mesmos.

Escrevi por mais dois anos sobre o rio… não um rio qualquer, mas o Meu Velho Chico, companheiro de viagem, confidente e amigo, que me acolheu por tanto e longo tempo, compreendendo minhas razões e expondo seu sofrimento devido à ação cruel dos homens. O Velho Chico está lá, percorrendo incessantemente os mesmos caminhos, definhando amarguradamente enquanto dilaceram sua artérias, inexoravelmente…

Eu, por meu turno, segui outros caminhos, não para enriquecer-me de belezas, mas para sentir a dor ainda maior de conviver com inimigos, percebê-los tramando contra mim, que continuo passivo, apenas aguardando o fim que se aproxima. Não da vida, que dela nada sei; nem da morte, que essa seria definitiva e expiaria todo sofrimento… mas da existência por si mesma, aquela dádiva não desejada, concedida ao nascer e confiscada em cada instante do viver. Para ela não há salvação possível, apenas esperar.

No entanto, esses caminhos cruéis que tomei para mim não têm compensações, como aquele por-do-sol que está no ocaso de cada novo dia. Apenas mágoas e revoltas inúteis, pois sou eu quem está na trilha errada; todos os demais encontram-se em seu ambiente natural, e nem percebem que ele é escuro, perverso, sem vida, sem cores, sem sonhos…

Cá estou, no âmago do monstro que me devora vivo, arrastando-me pelas estradas que levam ao meu destino final: a expiação de meu pecado original de pensar em um mundo melhor, justo, digno, ético, igualitário e feliz. Não devemos sonhar: é proibido, perigoso e inútil!

Missão Cumprida!

A sensação de terminar um projeto tão longo, com tantas e diferentes dificuldades, sem patrocínio e apoio oficial de nenhuma organização, desconhecido pela grande mídia, é indescritível! Consegui vencer por meu próprio mérito e pelo apoio conquistado pelo caminho… os três últimos dias foram particularmente difíceis; depois que deixei aquela linda praia de Gararu segui em direção a Porto Real do Colégio e Propriá. Saí de madrugada, ainda noite, para evitar os fortes ventos e a agitação do rio, cada dia mais intensos.

O rio estava plácido, dormindo, como diz a lenda, e o barco deslizava rápido por aquele lago noturno. Logo passei por Traipu… fiz umas fotos sem graça e segui adiante. O que mudou muito na paisagem, desde Xingó, é que agora as ilhas eram pequenas, baixas e cobertas por uma densa vegetação aquática e arbustos verdes…

O rio voltou a ser largo, mas a água continuava límpida e verde esmeralda. No entanto, essa vegetação aquática, muitas vezes submersa e formada por algas longas, quando exposta ao sol apresenta cheiro desagradável.

Quando me aproximei de Porto Real do Colégio ouvi fogos e muita música, embarcações com grandes velas coloridas e “gaiolas” de todos os tamanhos. O barco da “família real” já havia passado por mim e quase me afundara na noite anterior. Por isso, fiquei atento, tentando evitar as fortes ondas que eles fazem ao passar. Havia uma grande estátua de Nosso Senhor dos Navegantes no meio do rio e parei de remar para fotografá-la; isso me custou caro, pois as ondas eram fortes, e tive que fazer manobras rápidas para evitar ser apanhado por elas…

Não consegui parar na cidade, nem atravessar até Propriá, porque a algazarra era demais para meus hábitos solitários e o rio estava violento. Pouco antes da grande ponte da BR 101 parei sob umas árvores para descansar. Amarrei o barco como pude e fiquei apreciando o vai-e-vem de barcos, alguns rápidos e movidos a vela, outros lentos, com motor de rabeta, rangendo e lutando contra a correnteza e as ondas.

Fiquei algumas horas parado, analisando as alternativas: por baixo da ponte, a densa vegetação e inúmeras ilhas não me permitiam compreender o caminho; pensei em passar a noite ali, pois o barco estava estabilizado e era um local tranquilo e protegido.

Porém, na ânsia de prosseguir e chegar o mais breve possível até o final, decidi arriscar a sorte e prosseguir. Eram 12 horas. Uma hora e meia depois, lutando contra as águas raivosas do rio, sendo jogado ora para um lado, ora para outro, fazendo manobras bruscas para evitar que o barco girasse sobre si mesmo e eu perdesse o controle, usando todas as minhas forças inutilmente, eu andara menos de dois quilômetros e apenas passara por baixo da ponte… os sons das cidades ainda eram fortes.

Tentei encostar em um barranco e acampar, mesmo em um pasto, mas a canoa batia na lama do barranco sem vegetação e as formigas me devoravam enquanto eu tentava encontrar um meio de retirar as tralhas. Depois de algumas tentativas frustradas, desisti e voltei para a tormenta. Lembrava-me do filme “Mar em Fúria”… esse era o meu “rio em fúria”, mantidas as proporções… meu barquinho, uma “casca de noz”, era jogado sem piedade!

Progredia de forma insignificante, mas precisava encontrar algum lugar protegido no meio daquela barreira de terra destruída. Uns 200 metros adiante vi uma pequena moita de calumbi e capim, e me apeguei a essa possibilidade. Remava com todas as minhas forças e, alguns minutos depois, joguei o barco de lado, forçando-o contra o capim e lá me refugiei, apesar dos espinhos e insetos.

Era evidente a ação protetora daquela simples vegetação para o barranco! As ondas e a correnteza eram domados por uma pequena moita de arbustos… mas os estúpidos fazendeiros continuam a devastar até o último pé de capim, mesmo que o rio venha a cobrar o seu tributo, levando as terras para dentro de seu leito e retirando o medíocre ganho de espaço conquistado pela ganância desses homens.

Amarrei precariamente o barco e me ajeitei como pude no pequeno espaço interno. Sabia que a espera seria longa e cansativa, pois o rio só adormece depois da meia-noite. E ainda teria que esperar pela luz da lua, cada vez mais tardia… já era quarto-minguante e sua tênue luminosidade ainda permitia navegar.

Saí de lá às duas horas da madrugada, sem dormir, sem comer e picado pelos insetos, com o corpo todo dolorido da incômoda posição. O rio voltara a ser calmo e meu barco parecia um caiaque, deslizando célere pela lagoa encantada em que se transfomara o meu “Velho Chico”.

Remei intensamente, cada vez mais motivado pela possibilidade de encerrar a expedição. Mas o céu se cobria de pesadas nuvens e a visão do rio era precária. Felizmente, não havia nenhuma outra embarcação com a qual eu pudesse me chocar inadvertidamente. Éramos apena eu, com minhas remadas compassadas e firmes, quebrando a magia do lago e o silêncio do caminho…

De repente, começou a chover. Olhei para o céu e era todo nuvens , densas e carregadas. Tive receio de uma tempestade: vento e chuva seriam os ingredientes ideais de uma tragédia, pois ali, a mata era um só manto negro nas margens do rio…

Felizmente, a chuva cessou tão rápido quanto viera, e eu continuava remando com todas as forças. Pela manhã, ao nascer do sol, eu já estava em Penedo, uma cidade curiosa, protegida por uma espécie de enseada longa e curva, que me obrigara a atravessar para a margem direita, contornar o “istmo” e retornar à margem esquerda. A escuridão fazia tudo parecer misterioso… via imagens e as interpretava conforme meu sentimento, às vezes imaginando cenas inexistentes, outras valorizando detalhes insignificantes…

Havia algum movimento de barcos de pescadores e uma balsa, que levava carros, pessoas e mercadorias para o outro lado, onde também havia um povoado. Luzes coloridas piscando intermitentemente, e música indicavam o final de uma festa, talvez a mesma que agitava Porto Real e Propriá…

Pensei em talvez encontrar algum bar ou quiosque ainda aberto, com aqueles bebedores renitentes, onde poderia encontrar comida… talvez até uma padaria, pois a fome estava me alertando sobre o vazio em meu estômago. Mas não havia nada! O som ecoava no vazio da noite e decidi parar o barco ao lado da balsa, sob um poste iluminado. Tomei dois goles de mel; era o que estava à mão naquele momento.

Um pescador se aproximou e “puxou conversa”. Perguntou de onde eu vinha, de que era feito meu barco e coisas assim… e disse que se eu achara os ventos fortes até então, é porque não conhecia o que havia adiante! É que a proximidade do mar agora influenciava o rio e, na maré enchente, ele recuava por quilômetros, criando ondas mais fortes e mais altas, além do vento incessante.

Eram seis horas da manhã quando saí de Penedo. Já ventava um pouco e havia uma sucessão de ondas vindo em minha direção, mas eu progredia bem e não me importei com o esforço extra.

Às sete horas encontrei uma região belíssima – acho que o nome é “Marituba” – com ilhas e margens cobertas de rica vegetação. Pela primeira vez desde Paulo Afonso eu voltava a ver e ouvir os pássaros! A água parou e as ondas desapareceram, como por encanto. Pois era assim que eu me sentia, encantado com aquele paraíso; reduzi a marcha e comecei a passear pelo rio, meditação em movimento… era como uma espiral, girando sobre si mesma, e escolhi o caminho mais longo para apreciar essa maravilha!

Alguns pescadores jogavam suas tarrafas e os peixes saltavam ao meu redor. Mas, aos poucos, percebi que boa parte daquele lugar já havia sido profanada! Nas ilhas, por detrás das matas, plantações de coqueiros; nas margens, depois da estreita vegetação, o gado tomava conta de tudo!

Sentia o cheiro de mata queimada e molhada pela chuva e, logo depois, uma grande extensão de terra desolada pelo fogo recente, os troncos enegrecidos e retorcidos, à margem do rio… o encanto se quebrou… ainda vi algumas belezas, como um trecho de areia branca, quase à superfície da água; depois uma enorme vegetação de algas submersas, balançando-se ao movimento do rio… e mais nada!

Voltei ao rio, normal e agitado pelos ventos. A chuva também voltou e temia não conseguir chegar a Piaçabuçu antes do vendaval. Já passava das nove horas e teria ainda cerca de 15 quilômetros pela frente, pelas marcações do GPS. O vento aumentou depressa e resolvi parar, pois estava exausto! Encostei sob umas árvores e fixei a canoa. Desci e limpei o lugar, pensando na possibilidade de pernoitar ali. Pelo menos não havia formigas, e tinha até uma minúscula praia para eu tomar um banho. Mas não tinha espaço para armar a barraca e teria que dormir no barco pela segunda noite consecutiva; isso me incomodava…

Aproveitei para colocar tudo em ordem: pendurei a toalha e a rede, tirei a água do barco, tomei banho e falei com minhas filhas pelo celular, dizendo que poderia me atrasar bastante. Muitos barcos passavam por mim e confesso que tive muita vontade de “pegar carona” e chegar logo ao meu destino…

Segui adiante uma hora mais tarde, quando o vento diminuiu de intensidade. Estava perto de Brejo Grande, a última cidade de Sergipe antes da foz. Mas tive que parar novamente, pois voltou a ameaçar chuva e o vento aumentou bruscamente. Encontrei um abrigo e cobri a canoa com a lona do acampamento. Preparei um leite com chocolate e estava já decidico a ficar por ali mesmo.

Mas depois de algum tempo, perto do meio-dia, resolvi retomar a viagem. Lembrei-me das marés e pensei que, agora, na vazante, elas poderiam me ajudar, puxando o barco com a água do rio, em direção ao mar. De fato, apesar do vento e de algumas ondas, o barco voltou a progredir e andar rápido. Era curiosa a ilusão óptica: remando contra as ondas, o rio parecia subir uma leve ladeira! Havia muitos aguapés nas margens.

Passei por um lugar apelidado “Penedinho”, uma espécie de clube de campo com várias casas, muitos barcos e até “jet-ski”! Nas propriedades colocaram cercas de arame farpado dentro do rio, impedindo os barcos de atracar! Um absurdo inaceitável! O rio é de todos, uma concessão de uso! No dia anterior eu tinha sido atacado por dois “hotweiller” em uma propriedade dessas, casa de luxo, talvez um marajá da era Collor… agora me mantinha distante da margem, por precaução…

Avistei Piaçabuçu às 13 horas. Bem antes de chegar à cidade, uma longa sucessão de barcos evidenciava uma vila de pescadores. O rio voltou a se agitar, mas agora, com essa visão de “fita de chegada”, nada mais me seguraria! Remei intensamente, não me importando com as ondas que faziam a popa do barco se levantar e bater com força nas águas… até gostava desse barulho!

Cheguei a Piaçabuçu e observei o portal à frente, onde se descortinaria o mar… estava, finalmente, no final de minha jornada! Consegui vencer! Uma sensação indescritível!

Parei para me orientar e um pescador me informou que havia uma pousada logo à frente. Segui margeando a orla, que se contorcia à esquerda, alargando o rio antes de se lançar no oceano.

Muitos barquinhos coloridos estavam ancorados na baía, à frente de uma parede de contenção. Logo avistei a pousada e, finalmente, ancorei. Podia comemorar!

Estava completada a expedição que durou 99 dias de atividades intensas, três meses parado em Três Marias, cinco meses de planejamento, uma despesa enorme que consumiu todos os meus recursos e muito mais, e um ano inteiro dedicado ao rio que deveria ser tratado com dignidade, motivo de orgulho de todos os brasileiros.

No entanto, o sentimento que me resta é uma tristeza enorme pelo descaso do poder público em todas as suas esferas, a ignorância extrema de fazendeiros e pequenos agricultores, a falta de planejamento para a propalada revitalização, e o alarde eleitoreiro de uma grande obra que, ao invés de atender às carências dos ribeirinhos, levará as águas do Velho Chico para outras bacias do Nordeste, para as grandes cidades, para a agro-indústria, mas não para a população rural, de 12 milhões de pessoas, que continuará dependendo dos carros-pipa para poder sobreviver!

A transposição não resolverá os problemas do semi-árido porque quem a projetou não sabe o que é o Sertão, como vive esse povo, do que ele, de fato, necessita para recuperar esse atraso tecnológico e cultural em que se encontra.

A sensação que eu tive ao visitar a maioria das comunidades, principalmente do oeste baiano, é de uma volta ao passado, cinquenta anos atrás, na época da minha infância. Casas de taipa, carros de boi, nenhuma oferta de cultura, economia de escambo ou predatória, pessoas sem perspectivas ou ambição, desemprego, intensos conflitos de terra, exploração da ignorância pelos apelos da fé e das promessas de políticos corruptos, cidades que não tem receita para reverter esse quadro lastimável!

Com a falta de oportunidades e de emprego, os poucos filhos dessa terra que saem para estudar e conseguem uma formação superior abandonam seu lar ancestral e seguem para os grandes centros urbanos.

Centenas de minúsculas comunidades vivem nesse espaço sem perspectivas, e sua única ambição é um pouco de água, um pedaço de chão e condições de cultivar seus alimentos e cuidar da criação. Rezam para que a chuva chegue a tempo de molhar sua plantação para que possam alimentar sua prole que, não raro, se compõe de seis, oito, dez filhos, uma pequena criação de cabras, algumas galinhas, uns poucos porcos, uma ou duas vacas, todos criados soltos, partilhando de sua vida camponesa.

As “ONGs” que aqui atuam incendeiam esse cadinho de tensões sociais, que derrama sua lava nas lutas pela terra, sua ocupação e posse definitiva, conqusitada, às vezes, sem eliminar os conflitos.

Algumas comunidades afirmam ser quilombolas ou indígenas para agilizar a pesada e ineficiente máquina federal, ainda que suas feições sejam as mesmas de todo povo sertanejo, e quase todos tenham perdido a memória de seus antepassados, sua lingua ancestral, seus costumes, suas crenças, sua história, enfim.

A quem interessa essa pobreza imensa? Às igrejas de todos os cultos, que asseguram seus “rebanhos”, aos políticos de todos os matizes, que a transforma em mote eleitoreiro na sucessão dos anos, aos movimentos sociais e às “ongs”, que delas, as pessoas, fazem sua bandeira e sua luta. E, com isso, o semi-árido, verdadeira nação são-franciscana, se esfacela em um misto de fé inabalável e em sua única expectativa de redenção, depois desta vida…

E, com isso, o rio caminha para a sua própria morte, das águas, dos povos, dos animais e da vida em todas as suas manifestações naturais e selvagens. O que será desse povo quando o rio não for mais capaz de se sustentar e mergulhar na entropia irreversível da auto-destruição?

Talvez a culpa seja atribuída ao passado, mas é no presente que agem, intensas, essa forças da destruição. E assim como os demais biomas nacionais, vamos dizimando a Natureza, consumindo as riquezas de nossa redenção.

Somos o país mais rico do mundo em biodiversidade, em hidrologia, em miscigenação racial, em sincretismo religioso… mas não somos capazes de preservá-los e de utilizá-los como alavanca de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, sem demagogias ou mentiras.

Ainda assim, depois de transformar o meu Velho Chico em minha morada e paixão por tanto tempo, posso afirmar que esta foi a maior e mais intensa experiência de minha vida, em aprendizado, em transformações intelectuais, pessoais e definitivas.

Se saberei convertê-las em um produto cultural, se minhas palavras se coverterão em um livro, se esse livro influenciará pessoas e influirá em outros destinos, só o futuro me responderá.

Mesmo que nada mais aconteça eu me transformei, perdi minhas poucas vaidades, fiz dessa expedição um processo peregrino e missionário, e influenciei meu futuro e meu destino. E posso afirmar que valeu a pena!

Faria tudo de novo?

Certamente, não! Porque assim como as águas que nascem da Canastra nunca são as mesmas, ainda que voltasse a cada uma dessas localidades por onde passei, e percorresse os mesmos caminhos, meus olhos já não seriam os mesmos e contemplariam tudo de modo diferente, mais amadurecido, talvez, menos extasiados, certamente, mas com outros sentimentos, diferentes até na perplexidade e no encantamento que só existem no primeiro encontro.

Sou, portanto, mais uma vítima desse rio, um apaixonado que vê a sua amada sendo estuprada pela ganância e pelos interesses mesquinhos e imediatistas que a levarão à morte inevitável e cruel…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

O dia em que o Sol não nasceu

[Diamantina FEAL] Incêndio na Chapada 1032 Naquela noite fomos todos dormir cedo. Havíamos caminhado o dia todo, a mochila pesando em nossos ombros… e o deslumbramento, ainda, da caverna que enchera nossos olhos! Não esperava encontrar uma gruta no alto da montanha, em meio àquela mata fechada e diante da paisagem que se estendia por quilômetros à nossa frente… era uma pequena travessia e nos levava ao outro lado do Castelo, como se conhecia esse local privilegiado, no meio do vale do Pati.
Montamos nosso acampamento à beira de um regato, próximo a uma daquelas casinhas rústicas que dominam o vale com sua singela beleza… o jantar foi preparado em grupo, como de costume, e conversamos longamente, ainda extasiados pelo cenário que se registrou em nossas mentes. Seria difícil dormir com toda essa excitação, apesar do cansaço. Mas a noite veio lentamente pelo vale, escondeu o sol por detrás de suas paredes, e trouxe consigo uma brisa suave e refrescante.

Adormecemos…

Já era tarde quando eu despertei; mas me pareceu noite… a escuridão era total! Olhei em meu relógio: 10:22 horas! Não é possível, pensei!… estava tão escuro que precisei utilizar a lanterna, apesar das estrelas que tomavam toda a abóbada celeste. Olhei com deslumbramento para a Via Láctea, um rastro de névoa branca percorrendo o céu de um lado a outro.

Olhei ao meu redor e só então percebi que todos estavam de pé, igualmente perplexos com aquela noite em pleno dia, olhando para o céu, incrédulos como eu. O que significava isso? Por que o Sol não cumpriu sua obrigação de nos trazer de volta o dia?

Aos poucos, meus olhos se acostumavam com a escuridão e eu já podia perceber melhor as sombras e contrastes da Natureza ao redor. Mas notei, também, estupefato, que animais noturnos não se recolheram, e aqueles de hábitos diurnos saíram de suas tocas e esconderijos e não sabiam o que fazer. Cheiravam o ar e se entreolhavam; moviam-se com receio e permaneciam afastados das trilhas, como a pressentir que algo errado estava acontecendo.

Não podíamos desmontar o acampamento, mas também não tínhamos como ficar inertes ali, sem saber o que se passara durante aquela noite prolongada. Preparamos nosso café da manhã na expectativa de que tudo se esclarecesse com o evoluir das horas. Podia ser um eclipse?

Já era meio-dia quando decidimos partir, mesmo no escuro, e tentar contato com a civilização que deixáramos há mais de 10 dias, no início de nossa viagem. Era difícil caminhar pela mata à noite, mas tínhamos nosso GPS e a carta topográfica da redondeza. Só não podíamos nos afastar demais das trilhas, para não complicar ainda mais nossa situação.

Caminhávamos lentamente… agora tanto fazia a hora de parar e montar acampamento! Fazíamos pequenas paradas para descansar, comer e reidratar. Quase não conversávamos, pois estávamos assustados e temerosos diante desse fenômeno inexplicável. Tentamos nos manter nos vales dos rios, seguindo no sentido de sua correnteza. Certamente ele nos levaria para algum povoado, embora isso não mudasse em nada essa estranha realidade.

Para não perder a noção do tempo, anotávamos as horas e a localização em cada parada. Seguimos assim por três dias, acampando quando encontrávamos uma “clareira” (essa palavra perdera o sentido diante dessa situação), até chegar a Guiné, um pequeno povoado, um distrito de Mucugê. Pelo relógio eram três horas da madrugada, mas as ruas estavam repletas de pessoas assustadas e incrédulas. As beatas rezavam, de terços nas mãos; as crianças corriam de um lado para outro, achando graça da liberdade de estar na rua a essa hora da noite; as lojas e bares funcionavam, pois os comerciantes se aproveitavam para vender mais; os bêbados faziam a maratona 24 horas de embriaguez!

A polícia e as autoridades não sabiam o que fazer! A televisão não funcionava e as linhas telefônicas estavam tão congestionadas que ninguém conseguia completar uma ligação. Carros de som bradavam o “fim do mundo”, enquanto grande parte da população chorava e gritava palavras desconexas, às vezes xingamentos sem nenhum propósito!

Curiosamente, no horizonte havia uma tênue luminosidade avermelhada, como se os raios de sol procurassem uma fresta para voltar à vida… não havia essa luz quando estávamos nas trilhas… será que tudo voltaria ao normal? Os cães ladravam nervosos, atacando todos que aparecessem à sua frente; o delegado mandou matá-los, mas a população não permitiu.

As notícias que chegavam, esporadicamente, das poucas ligações completadas, eram contraditórias e apavorantes! Alguns diziam que o mundo inteiro mergulhara nas sombras; outros, que a Terra se desprendera de sua órbita e vagava pelo Universo sem controle; outros ainda diziam que espíritos malignos desceram à Terra e buscavam as almas depravadas para levá-las para o Inferno! O pânico se alastrava e bandos de desocupados invadiam as lojas, levando tudo o que podiam: comida, roupas, aparelhos elétricos… mas levar para onde? levar para que?

Alto-falantes foram instalados nas ruas e mensagens de ordem eram pronunciadas continuamente, tentando restabelecer a tranquilidade à população. Mas não adiantava; os próprios locutores denunciavam seu pânico na voz balbuciante. Os mais preparados tentavam organizar grupos de defesa civil, arregimentando pessoas mais controladas. Porém, não havia tempo para que esses grupos se entendessem e formulassem planos eficazes diante do desconhecido.

Foi nessa situação que chegamos a Mucugê, horas depois, levados por uma kombi velha conduzida por um motorista apavorado. O veículo sacolejara tanto que estávamos todos enjoados e doloridos. Mas era preciso seguir para um lugar com mais recursos, pois sabíamos que em Guiné não tinha o que fazer para controlar a situação.

Para nossa surpresa, os moradores de Mucugê estavam tranquilos e conversavam animadamente nas ruas e praças da cidade. Procuramos o prefeito e relatamos o caos de Guiné e buscamos informações sobre o fenômeno sobrenatural. Apesar da aparente tranquilidade, ninguém podia esclarecer nada! O mundo estava mesmo na escuridão!

No quarto dia, um fraco sinal de tevê podia ser captado. Uma tela foi colocada na pracinha e o povo se reuniu diante daquele ícone, como se fosse um altar, um oráculo que, a qualquer momento, traria um esclarecimento lógico, uma explicação científica ou religiosa para a escuridão do mundo… mas os noticiários eram tão confusos quanto o povo!

O tempo se passava e os mantimentos escasseavam nas prateleiras. Já não havia muitos bens essenciais e a população tentava sobreviver com coisas mais simples, como sementes, leite em pó, frutas, verduras… os animais haviam sido abatidos e devorados nos primeiros dias, em um ritual satânico impressionante, que nada deixava a dever para Fellini, em Satyricon! Os que sobraram fugiram dos cercados, ou foram libertados pelas almas bondosas…

Dez dias depois do anoitecer já não havia água potável nas torneiras; os riachos foram contaminados pelos dejetos lançados, pois não havia nenhum serviço público que funcionasse: coleta de lixo, saúde, segurança, educação, transporte… tudo sucateado em meio a preocupações com o pânico cada vez mais violento! Assassinatos, saques coletivos, brigas violentas se sucediam e tornavam quase impossível a vida nos aglomerados urbanos.

Nós fugimos de Mucugê enquanto era possível, e nos refugiamos no leito seco de um rio; mudávamos de lugar continuamente para evitar que fôssemos descobertos. Mantínhamos vigília o tempo todo, alternando as sentinelas, enquanto os demais cuidavam de nossa sobrevivência. Nossos mantimentos também escasseavam, mas conseguimos montar um plano de baixo consumo e de coleta que ainda nos sustentava. Não podíamos fazer nada além disso.

Uns trinta dias depois que o fenômeno aconteceu, o mau cheiro se alastrava pelo ar, cada vez mais próximo de nós. Nos lugarejos, queimavam corpos em fogueiras para evitar epidemias. As mortes por violência diminuíam na medida em que a população quedava adoecida e fraca, a ponto de não mais lutar pela própria vida. Usávamos lenços improvisados sobre o rosto para reduzir o risco de contágio e prolongar a vida, ainda esperançosos de que tudo teria um fim.

Sabíamos que o Sol estava em algum lugar; que a Terra não se afastara de sua órbita; caso contrário, já teríamos morrido de frio. Nossas teorias eram extravagantes e, não fosse a trágica situação, até engraçadas… dizíamos que a Natureza se sublevara contra a agressão do Homem e escondera o Sol em suas matas, nas cavernas ou nas profundezas do oceano…

Para alguns de nós, até fazia sentido… durante nossa caminhada, antes do escurecer, constatamos, inúmeras vezes, a marca da degradação causada pelo homem, nos rios, na extinção das espécies animais e vegetais, nas montanhas… é claro que não havia um deus das florestas, mas estávamos sendo punidos, de alguma maneira. Contar casos e elaborar hipóteses para a escuridão era nosso único entretenimento, fora a busca incessante por comida.

Não sei quanto durou a escuridão. Nós também morríamos lentamente e, depois de algum tempo que me pareceu a eternidade, eu estava só, dentro daquela caverna, no alto da montanha. Às vezes saía para olhar o horizonte: as chamas devastavam tudo que sobrou e iluminavam a paisagem. Voltava para dentro e não fazia nenhuma diferença; havia muito tempo que minhas baterias se acabaram e eu estava na completa escuridão. Aprendi o caminho, instintivamente, de tanto percorrê-lo, e encontrava com facilidade o leito preparado nas pedras. Aos poucos, desanimei de viver e de esperar… e resolvi ficar aqui dentro até que tudo se consumasse… acho que essas serão minhas últimas palavras…

Na boca da caverna, a silhueta de um felino me observa.

 

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Pequeno Conto que virou Lenda

“Seu” José era um homem rude, sem fé. Morava sozinho à beira do rio desde que sua mulher, Donana, falecera, havia muitos anos. Não tiveram filhos. Vivia daquilo que a Natureza lhe dava. Às vezes caçava uma capivara, outras pescava um surubim na canoa a remo que ele mesmo construíra.

Não tinha luxos em sua casa; nem geladeira ele possuía, pois acreditava que nunca lhe faltaria o que comer… Também não plantava. Não queria ter a responsabilidade de cultivar a terra, plantar, cuidar, colher, estocar… Apesar disso, não era um homem preguiçoso. Com seus quase setenta anos acordava com o nascer do sol e cuidava de seu pequeno rancho, onde tudo funcionava e tinha uma razão de existir, que só mesmo ele conhecia.

Cuidava de suas próprias roupas, costurava, remendava e as mantinha limpas e arrumadas. Nunca passara nenhuma roupa, pois achava perda de tempo. Não se ausentava do rancho senão para pescar ou caçar. Frutos ele colhia das árvores de seu pomar, quando havia.
Nunca recebera ninguém em sua casa e todos dele se afastavam com receio de seu temperamento.

Mas “seu” José também tinha as suas manias, crendices, esquisitices, que só mesmo ele saberia explicar, caso falasse com alguém. Viram-no, certa feita, dependurando as penas de uma garça que abatera e comera, uma por uma, no arame farpado da cerca que instalara defronte ao rio.

Deixou-as lá por alguns dias e depois retirou cada uma delas, cavou vários buracos ao longo da cerca, e as enterrou, como em um ritual.
Dos animais que caçava guardava os ossos, mantendo, sabe-se lá como, o esqueleto perfeito e limpo. Via-se da janela uma prateleira repleta deles. Quando aparecia a lua cheia ele se plantava nu sobre o telhado, e permanecia agachado, olhando atentamente para o céu, até que o astro desaparecesse no horizonte.

Ele vivia tão só que se imaginava que já nem soubesse falar direito. No entanto, ouvia-se noite adentro seus resmungos e lamentos, quase um cântico funesto e triste. Às vezes o viam proferindo palavras incompreensíveis em direção ao rio.

Um dia ele desapareceu; saiu com sua canoa e não voltou mais. Acreditava-se que tinha morrido, ou tenha ido embora para outro lugar.
Passaram-se os dias, semanas, meses, e nada do “seu” José. O rancho estava abandonado, a cerca despencara, o telhado já apresentava buracos das telhas que caíram, o mato se alastrava por toda a parte e temia-se que as cobras e outros bichos tomassem conta do lugar e acabassem por passar para as propriedades vizinhas.

Resolveram, então, os seus vizinhos, ir até à sua casa e tentar compreender o que poderia ter acontecido, tomando alguma providência para limpar aquela imundície.

Em um dos armários todas as gavetas estavam repletas de folhas manuscritas com poemas incompreensíveis: eram palavras desconhecidas, porém com rimas, métrica e ritmo! Não havia como compreendê-las…

Lembraram-se das penas da garça, enterradas no quintal, próximo à cerca. Por curiosidade as desenterraram; estavam todas recortadas, em forma de desenhos estranhos. Parecia terem um código secreto registrado nesses formatos. Junto a elas havia embalagens vazias…
Mas não conseguiram decifrá-lo… e esse mistério só fez aumentar a lenda sobre o velho pescador. Com o passar dos anos, cada esquisitice encontrada no rancho se tornava uma história, incluindo assassinatos, tesouros, rituais satânicos, esquizofrenia…

“Seu” José era um homem simples e não sabia ler nem escrever. Apenas tentava copiar palavras de antigas revistas de poesia que sua mulher colecionara ao longo dos anos. E recortava as penas das garças, imitando os códigos de barras das embalagens encontradas no rio…

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Meu destino em ti…

Não houve tempo de esperar que me aceitasses… entrei em tua intimidade como em um estupro! Violei tuas águas, tuas praias, tuas matas… invadi tuas beiras e me apossei dos espaços roubados de teus filhos, as aves, os peixes, os seres até então ocultos em teus recônditos segredos… nossos caminhos se entrelaçaram, não por tua vontade, mas pela minha, ansioso por desvendar os teus mistérios…

A princípio, nada encontrei que me detivesse a marcha; como um visitante indesejado, percorri teus vales e descobri teus súditos, vassalos teus, tributários de tua grandeza a doar suas vidas para te enriquecer e te encorajar ao grande salto, inevitável, no vazio…

Por instantes segui outros caminhos, como quem oculta as intenções, e vi o momento em que te projetavas sobre as rochas, como quem se atira ao desconhecido, destemido, inconsequente e audaz como qualquer adolescente. Busquei tua calma e em teu colo me deitei, levando-me contigo à revelia, para onde estivesses a ir, não me importava…

Percebi, então, que tu também não conhecias o teu destino, e me encantei por ti… e assim nos tornamos íntimos, cúmplices dos mesmos segredos, que desvendávamos a cada anoitecer… tu me aceitaste assim, em minha fragilidade, mais vulnerável até que as cristalinas águas de tua alma, teu corpo e razão do existir…

Daí, então, seguimos juntos, amantes apaixonados, um ao outro nos levando, sem um propósito qualquer,senão o de seguir adiante. À nossa volta, a presença de outros seres, assim tão íntimos e livres como o ar, as águas, o som, as cores, os inebriantes aromas…

A cada dia, em cada despertar, a ansiedade enlouquecida de nossas contradições: um ser que nasce e morre sem cessar, criança, jovem e velho a um só tempo, e outro ser que morre e envelhece, no inexorável badalar das horas, a me levar daqui… e mesmo neste ser envelhecido, o jovem e a criança permanecem, ao menos nas lembranças; e isso torna a ambos companheiros, ainda que um só, e tão somente, irá permanecer ao fim do longo dia, quase eterno, da jornada…

Porém, os dias às noites sucedendo, de ti surrupiaram a inocência, das águas te roubaram a pureza cristalina, das margens desnudaram tuas vestes… e as aves, tuas amigas, te deixaram, assim como as outras criaturas, tão belas, tão ingênuas… e eu, desiludido, desencantado, a tudo assim presenciava, aturdido, impotente… roubaram-te de mim em pleno dia!

Das praias, em lama, as alvas areias se tornaram; das matas, somente um ralo mato é que restou; dos morros, às águas, o solo fértil se deixou arrastar, turvando as tuas águas, matando pouco a pouco nossos peixes, cobrindo de barro o leito fundo, a se deixar levar contigo a outras plagas.

Uma angústia, um nó entalado na garganta, tristeza inconsolável de mim se apoderou, ao presenciar as árvores, às centenas, arrancadas, ancoradas em teu leito devastado… assim, seguimos juntos e calados, dias e noites a prantear a maldade dos homens, como eu… roubaram-te a beleza, saquearam-te as riquezas… transformaram-te nessa estrada lamacenta, a fluir, incessantemente, em direção ao mar.

Infeliz, como um amante atraiçoado, recusei continuar… e me afastei de ti, ferido mortalmente, cansado, desiludido e só.

Precisarei regressar um dia, e resgatar tua pureza, restaurar tuas vestes, trazer de volta a vida que tiveste… e então renasceremos juntos, e tu me levarás ao meu destino, que é também o teu… repousarei de novo em tuas margens, presenciando a iluminada Via Láctea, a derramar estrelas cintilantes em teu regaço, até o repositório infinito do Oceano… e encontrarei, em ti, a minha Paz!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

A Cachara

Minha mãe estava prenhe de mim quando meu pai morreu. Estava quase pra parir e ainda ia, todas as manhãs, bem cedinho, na barranca do rio, ver as “pindas” que tinha deixado lá no fim da tarde… pegava sempre alguma piranha, às vezes um bom surubim, raramente um dourado… mas dava pra ela dar de comer pra meus seis irmãozinhos; o mais velho tinha nove anos, e ficava tomando conta dos outros enquanto ela estava no rio ou cuidava da horta no fundo do sítio.

Naquele dia que eu nasci, minha mãe estava na beira do rio, tirando uma cachara grandona que se enroscara na rede deixada na corredeira; ela lutava com o peixe, ainda vivo, e tentava arrastar a rede, presa nos entulhos e cheia de galhos quebrados; a única coisa que prestava era aquela cachara!

De repente, com a força que fazia pra puxar a rede, eu nasci! Pois é, não consegui me segurar lá dentro, e caí no barranco, rolei pra dentro do rio, levando a mãe comigo… ela ainda conseguiu se segurar nas raízes de uma árvore e me puxou, pelo cordão, me segurou pela cabeça, e me arrastou pra cima do barranco, como se eu fosse a cachara deixada na rede lá embaixo!

Não me lembro nada disso; foi ela que me contou depois, rindo da minha desgraça de nascer desse jeito desajeitado! Todo mundo me gozava, dizendo que eu nasci de uma cachara! Assim ficou o meu nome: Maria das Dores, a “Cachara”! Nunca me livrei do apelido e hoje sou apenas a Cachara…

Cresci quase sem cuidados, sujinha no meio daquela molecada danada de ruim comigo! Era como se eu fosse uma boneca de pano, levada pra todo lado, que minha mãe não tinha tempo de me cuidar mesmo: estava sempre lidando na horta, limpando seus peixes, fazendo comida, lavando roupa, varrendo a casa… e eu lá, pendurada no colo dos moleques, como um brinquedo velho!

Minha mãe morreu quando eu tinha oito anos. Quase não me lembro dela… só da trabalheira danada que ela tinha pra manter seus sete filhos: seis meninos e eu. Ela nem se dava conta da gente, atarefada de dia, cansada demais de noite pra ter disposição de olhar pra gente… coitada!…

Mesmo assim, sinto falta dela… depois que ela morreu, meus irmãos mais velhos cuidavam de tudo, meio desengonçados, pois ela nunca preparou a gente pra viver sem ela. Ninguém sabia pescar, ninguém sabia nadar, ninguém sabia cozinhar… só o que sabíamos era lavar as louças, as roupas, limpar o quintal e varrer a casa, porque isso minha mãe deixava pra gente cuidar.

Ela morreu afogada, quando um dourado puxou a rede com ela junto, pra dentro daquela lameira toda, que corria com as águas do rio… ela não sabia nadar. Meu pai também morreu no rio, só que de morte matada; um jagunço cismou que ele era o sujeito que tinha contado pra polícia sobre um crime que cometeram lá em Doresópolis. Ele ficou preso dez anos e depois voltou pra matar meu pai. Nunca me disseram se ele tinha mesmo entregado o assassino…

Crescemos juntos até que meu irmão mais velho resolveu ir embora. Ele disse que ia cuidar da vida, que “aquilo não era vida” pra um homem feito! “Aquilo” era a gente: cuidar da gente, pescar e fazer as vezes da mãe que nunca tive… mas isso ele também não fazia. Nunca mais voltou.

A gente aprendeu mesmo a se cuidar depois que ele se foi. Aprendi até a pescar e fiquei boa nisso. Peguei muito peixe naquele rio; era eu também que fazia a comida e lavava as roupas, porque “isso é trabalho de mulher”, eles me diziam, rindo da “Cachara”! Eu só não pescava cachara; quando elas se enroscavam na minha linha eu jogava de volta pro rio, que já bastavam as piadas que eu ouvia…

Meus irmãos também se foram por esse mundão de Deus; cada um, do seu jeito, saiu, assim, de repente, sem se despedir, que a gente não era mesmo de muitos agrados e chamegos. Fui ficando sozinha, ali no meu rancho, envelhecendo sem ninguém do meu lado; nunca soube o que era o amor, que pai não conheci, e minha mãe não encontrou mais ninguém depois que o pai se foi.

Hoje me olho nas águas do Velho Chico e vejo minha mãe, estampada no meu rosto. Sou igualzinha a ela, rosto fino, enrugado dos anos, pele seca e desbotada, olhos tristes e quase se fechando… nem me cuido direito, vivo com meus trapos velhos, perambulando pela plantação abandonada, ou conversando com meus peixes na barranca do rio; às vezes pego um deles e me desculpo antes de cozinhar, porque preciso viver… preciso viver? Não sei o que isso quer dizer…eu sou apenas a “Cachara”, preta velha e cansada, sem saber porque nasci…

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Natureza Selvagem

Intensas emoções, monótonas belezas… Complexos universos, paisagens imutáveis… Contemplativo campo onde as batalhas nunca terminam; não há vencidos ou vencedores, não há heróis nem coadjuvantes…
Uma garça é qualquer garça… milhares de árvores se confundem em nossa percepção limitada da realidade… tudo igualmente verde; tudo igualmente difuso…
Aqueles patos mandarins teriam sido sempre os mesmos durante toda a viagem? Não importa? A água que flui incessantemente no mesmo lugar seria a mesma água todos os dias, todas as horas, o tempo todo? Aquela que chega à foz, de onde veio, afinal?
Em nossos mundos individuais tudo tem nome, endereço, origem… e nos diferenciamos pelo olhar, pela voz, pelo movimento, pelas palavras… até mesmo pelas roupas!
Seríamos, deveras, diferentes? Mudamos constantemente durante a vida, e aquele que nasceu, no momento seguinte já não mais existe…
Quando partir não serei eu mesmo e, no entanto, aqui não deixarei meus rastros. E nada levarei, senão as recordações, as imagens registradas na memória… ou nas máquinas digitais… talvez algum pensamento ou emoção escape de mim e corra para a selva, sem que eu possa perceber. E passe, então, a viver como os outros animais…
Sentirão eles as minhas emoções?
Talvez alguém, daqui a muitos anos, ao passar por aqui, encontre os meus pensamentos, mas eles também não serão os mesmos, pois se tornaram bichos, embrenharam-se nas matas, circularam pelas mentes de outros seres e também se transformaram…
Fará algum sentido, então, esse antigo pensamento? Talvez não… pode ser até que não haja, sequer os animais… as árvores terão caído ou sido derrubadas… talvez o rio esteja seco… casas, pessoas, concreto, asfalto, poluição talvez estejam aqui, em seu lugar…
E aquele pensamento, aqueles sentimentos anacrônicos se perderão para sempre, assim como minhas recordações e as lembranças que porventura tenham de mim… e eu terei sido levado pelo tempo, pelo vento… assim como meus pensamentos…
E minhas palavras se perderão no deserto que ficou por aqui.
Infinita e monótona beleza, é por isso que não resistirás! Não há utilidade na Beleza! Beleza não se produz… Beleza não se consome… ela apenas está aí, enquanto a querem. Não vale a pena lutar por preservar a Beleza…
Por isso, quando te vi, quando contemplei tua vastidão infinita, quedei-me a teus pés e só fiz chorar… haverá, um dia, um mundo sem luz, sem cor, sem pássaros e seu cantar, sem as águas cristalinas de uma cascata, jorrando, sem cessar, o seu frescor e pureza…
Nesse mundo eu não quero estar…
por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

A Hipocrisia da Preservação Ambiental


As preocupações com o Meio Ambiente só se evidenciam quando uma tragédia de grandes proporções ocorre na Natureza. Prova disso é que o Ministro do Meio Ambiente só se manifesta anualmente, para dizer que o desmatamento "diminuiu"! Ou seja, só estão destruindo um campo de futebol por dia de nossas florestas!

O Greenpeace só sabe fazer listinhas de abaixo-assinados contra as devastações da Amazônia e contra os transgênicos, como se isso fosse fundamental! Ou então pendurando faixas na Golden Gate ou no Elevador Lacerda! E a Rede Globo criou um site para que os ingênuos constatem que existem alguns milhares de focos de incêndio na Amazônia, como se isso fosse reverter o processo de desmatamento!

Enquanto isso, Blairo Maggi, nas altitudes de seu poder governamental, e com o apoio de seus omparsas (leia-se UDR e Ronaldo Caiado!), continua devastando as florestas e os cerrados, transformando tudo em uma imensa plantação de soja transgênica!

Programas como Globo Ecologia, Terra da Gente e correlatos mostram as belezas que se acabam e que nossos filhos e netos somente irão conhecer pelos documentários da National Geographic…

A água doce aos poucos se torna salobra ou contaminada, reservando aos nossos descendentes um mundo de fome e sem cores… nossos aquíferos não serão suficientes para mitigar a sede dos que virão; o ar será tão contaminado que precisaremos usar máscaras para respirar; a população continuará a crescer, gerando novas rebeliões e legando o ódio e o desespero aos que herdarão o mundo deixado por nós…

Enquanto isso, continuamos nossa vida de consumismo desenfreado, indiferentes aos alertas que não apenas a Natureza nos encaminha, mas também esse Capitalismo podre que fala pelo idioma das Bolsas de Valores e dos Analistas Econômicos que se divertem digladiando seu conhecimento inútil e supérfluo… tanto faz se a culpa é dos bancos ou dos especuladores; o resultado é o mesmo: alguém irá lucrar muito com isso, enquanto toda a Humanidade sofre pelo desespero da fome! Com toda a certeza, já se esqueceram de Bangladesh e de Ruanda…

A tragédia maior ainda está por vir: depois de devastada, a Floresta Amazônica se transformará em um imenso deserto! Nossos rios serão esgotos ao ar livre! Nossas cidades litorâneas serão submersas pelo aquecimento global e pelo derretimento dos Glaciares e do gelo Ártico e Antártico… não há retorno para essa destruição! O resultado será, inevitavelmente, a Morte, as lutas fratricidas, o ódio e a devastação!

E o mundo se acabará? Certamente NÃO! Ainda viveremos para "admirar nossa obra-prima": um mundo parecido com a ficção… desertos, fome, desgraça…

E os privilegiados da Elite, como ficarão? A História responde a essa indagação: basta ver o desaparecimento das grandes civilizações do passado; os Maias, os Aztecas, os Incas, os Egipcios, os Romanos, os Persas… os primeiros a serem executados serão os poderosos! Afinal, eles decidiram, pela sua "liderança" ou pelo poder imposto, o destino de cada um de nossos descendentes…

Continuemos a fingir que essa desgraça não nos atingirá! Vamos manter nossos hábitos de desperdício e de abuso, imaginando, como o fizeram os antigos, que alguma força superior reverterá a situação e nos trará de volta o Welfare State dos economistas do iníco do século XX!

Afinal, serão os nossos filhos e netos que herdarão a Terra, não nós…

queimadas

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Dogma e Ignorância

Na época da ditadura militar, o Arcebispo de Olinda e Recife era Dom Hélder Câmara, que eu tive o privilégio e a honra de conhecer. Dom Hélder foi um homem corajoso, que defendeu os mais fracos e oprimidos, perseguidos pela violência militar, como deveria se esperar de quem professa a doutrina cristã… Ele nunca se omitiu, nem mesmo quando ameaçado pelos fuzis do autoritarismo, que tantas vítimas deixaram em nossas lembranças.

Mas, infelizmente, não é de tão admirável figura que eu tenho de falar, e sim de seu sucessor, cujo nome nem me preocupo em mencionar… e de um fato lamentável, que me leva a escrever: uma criança de 9 anos, violentada pelo padrasto, grávida de gêmeos, com sua frágil vida em alto risco! O que um pequenino corpo, ainda nem preparado para a gestação, suportaria se essa gravidez covardemente imposta fosse levada adiante?

Pois, com responsabilidade e coragem, os médicos interromperam essa gestação e, pasmem, o dito arcebispo excomungou médicos, famiiares e a própria vítima, e ainda afirmou que o aborto seria um “pecado” mais grave do que o estupro!!! Como assim??? Quem, qual filósofo poderia defender tese tão absurda?

É impossível conceber qualquer argumento que suporte essa teoria, cujo único fundamento se sustenta nos dogmas estabelecidos pela igreja católica. Nenhuma religião pode se intrometer dessa forma na vida dos seres humanos! Quem lhes concedeu tal poder? Que deus poderia justificar tamanha ignomínia? Estamos no século XXI, o emblemático ano 2.000 foi superado sem que o mundo se acabasse, mas a ignorância eclesiástica prevalece nas doutrinas medievais da igreja!

Até mesmo pela atrocidade do ato, o arcebispo deveria ter se calado: pois essa criança foi vítima da monstruosidade de seu padrasto, assim como sua irmã, durante pelo menos três anos! Ou seja, desde os seis anos de idade essa criança foi violentada por esse monstro! E ninguém a defendeu nem denunciou o facínora!

Deveríamos, sim, ter pena de morte ou punição mais cruel para crimes hediondos como o que ocorreu! Um monstro como este nunca poderia ser colocado em convívio com outros seres humanos, se é que se pode admitir que essa aberração seja um “ser humano”! Mas não, ele ainda será julgado, e poderá ser considerado inimputável e levado para uma prisão especial, e ainda voltar à liberdade em poucos anos… e quem resgatará a inocência dessa criança? O Arcebispo de Olinda e Recife?

Dom Hélder Câmara, os homens de bem, dignos, honestos, decentes, que acreditam na vida e na justiça, lhe pedem perdão!…

mepope pope padrespedofilia heil

Seriam esses, pecados menores do que o aborto e o estupro???

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Razões do Existir

Quando nos deparamos com um mistério, um obstáculo intransponível à nossa lógica e entendimento, nossa insaciável necessidade pela compreensão nos compele a recorrer às divindades e ao sobrenatural, justificando o lapso de conhecimento que nos constrange e sufoca.

Mesmo diante da grandiosidade do Universo, da beleza incomensurável da Natureza e dos sentimentos altruístas que nos acometem eventualmente, buscamos no esotérico, no místico, no religioso, no eterno, a explicação das razões do existir.

No entanto, nossa pequenez não nos permite constatar a contradição que nos acomete e nos cega: ao mesmo tempo em que nos surpreendemos e nos extasiamos com a percepção sensorial do Belo, através de nossos olhos, ouvidos e pele, com nossas mãos, ferramentas e invenções o destruímos, contaminamos com nossos dejetos, corrompemos com nossos atos, condenamos com nossas omissões e covardias…

A existência de cada indivíduo, que mal ultrapassa um século, nos impõe os limites do tempo e do espaço… infinito é incompreensível! A existência do homo sapiens, que não chega a 10.000 séculos, nos credita a convicção de nossa superioridade diante da Vida… A existência do Universo, a partir do Big Bang, que supomos não ultrapassar os 40 milhões de séculos, nos leva à indagação: mas, e antes disso, o que existiria?

E a resposta confortável está na Bíblia: "no Princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus!"… e por uma palavra de Deus, o Universo se formou, e o dia se separou da noite, e a terra se separou das águas, e os seres vivos se separaram da matéria…

E tudo se resolve em nossas mentes… e, ainda que o Ser Humano venha a desaparecer da face da Terra, seja por uma fatalidade dos transtornos climáticos, seja por sua ação maléfica e daninha sobre a Natureza e sobre si mesmo, ainda assim, em outros planetas, haverá Vida, que se perpetuará pela transformação e evolução natural, gerando ou não seres conscientes de si mesmos, sendo bela por si mesma, ainda que não percebida por ninguém, ainda que não tocada, não vista, não declamada em versos…

E, no entanto, na pequenez de nós mesmos, estaremos a acreditar que a Beleza existe apenas porque nossos sentidos a tornam assim… e que o Universo foi criado apenas para que nós, reles seres humanos, vermes cósmicos imperceptíveis, consumíssemos seus recursos, impunemente, ao nosso bel-prazer! E que, por isso, somos eternos!

Minha missão, consciente de minha insignificância no concerto do Universo, será a de tão-somente declarar minha gratidão por existir, de dedicar a vida que me resta a lutar pela preservação da Natureza, por ser capaz de perceber tanta beleza e poder compartilhar, em palavras e atos, meus sentimentos com vocês…

Janelão9315

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio