Prolegômenos (*)

Um quarto de UTI em um hospital modelo. Apenas um leito, com controles para facilitar o trabalho de enfermagem, manipulado por sensores e monitores eletrônicos, inclusive um aparelho de eletrocardiograma embutido na cama. Ao lado do leito, uma Smart TV com canais em circuito fechado e programas dedicados à recuperação dos enfermos, além de informações de interesse do corpo médico e de enfermagem, personalizadas por paciente. Do outro lado do quarto, uma passagem para o banheiro, equipado para facilitar os trabalhos de enfermagem e as necessidades do próprio paciente, quando possível. Não há porta entre o quarto e o banheiro, por questões de segurança do paciente. O quarto não tem a parede frontal, apenas uma cortina sanfonada, aberta, pois só passam pelo corredor os profissionais de saúde e eventuais visitantes dos enfermos, cujo controle de acesso é rigoroso. Apesar disso, o ambiente é agradável.

A narrativa é protagonizada por um doente em estado terminal, internado há meses, vítima de um AVC1, sem perspectivas favoráveis de cura ou reversão, ainda que parcial, de seu estado mental, que alterna momentos de lucidez e desvario, mas não consegue discernir entre elementos do passado recente e do tempo remoto; em sua mente tudo se confunde. Suas lembranças não são pronunciadas. Ele está completamente imóvel, no leito, e alguns parentes mais próximos podem visitá-lo e conversar banalidades, enquanto seu pensamento vagueia… e essas conversas acabam se entremeando com as memórias do velho, trazendo a ele cenas conturbadas acerca de sua vida.

A história transcorre nessa alternância entre as confusas memórias do que ficou para trás e fatos do presente, até que, em dado momento, o médico explica à família, a pedido deles, a situação do enfermo, que está inconsciente como um ser letárgico, em estado vegetativo; segundo o médico, ele já não tem mais atividade cerebral, o que não é verdade, como viremos a saber no decorrer deste relato. A família, então, passa a discutir a hipótese da eutanásia2 como alternativa; porém, ele ouve tudo… e essa discussão interfere em suas memórias, bem como na forma como ele passa a encarar a sua vida passiva. Independente de tudo, ele continua lutando em vão para sua memória não ser destruída. E vai tomando consciência, aos poucos, da sua realidade, voltando, lentamente, à lucidez, sem que ninguém se aperceba disso, e sem que isso modifique o seu estado físico aparente. E o momento em que a lucidez se torna quase verdadeira coincide com o instante em que a família opta por desligar os aparelhos…

A proposta é que esse personagem seja uma pessoa culta… que tenha tido uma vida intensamente ativa, e que tenha realizado diversas experiências extraordinárias… e essa existência, longa e profícua, esteja associada aos diferentes períodos da História recente.

Sua infância transcorreu nos idos de 1950, anos de pós-guerra, durante a Guerra Fria, momento bastante atribulado da sociedade mundial e, ao mesmo tempo, do lento processo de retorno à paz e à reconstrução dos cenários da guerra… Sua adolescência ocorre na efervescência do movimento pela emancipação da mulher, do movimento hippie, da ditadura militar, do surgimento do rock’n roll e da bossa-nova, da MPB e do Festival de Woodstock… aquele cadinho de lutas, transformações, efervescência social, disputas, violência… prisões… torturas… nos quais ele esteve presente, ativa ou passivamente.

Já como adulto, participa do processo de transformação social decorrente da introdução de novas tecnologias, desenvolvidas durante e após os conflitos mundiais… e ele se envolveu com essa nova onda tecnológica e de crescimento da Economia mundial… e absorveu essas novidades, mas nunca as aceitou para si como sendo um modo satisfatório de vida… assim, ele vive uma contradição entre o uso da tecnologia e o sonho de uma vida tranquila e pacífica, numa praia ou montanha… em algum lugar assim… paradisíaco. E ele passa 30, 40, 50 anos trabalhando… e ao longo desse prolongado período, sua vida é construída… tem filhos, vêm os netos… enfim, ele edifica sua vida neste dualismo… nessa contradição… nesse antagonismo entre o ser tecnológico, bem-sucedido na vida profissional, e o sonhador, que nunca realizou o desejo de ter uma vida simples, discreta e em paz.

E, ao final da sua vida, ele constata que, apesar de tudo, viveu intensamente seus momentos, e passou por grandes experiências, que poucos têm a oportunidade de realizar. Mas nunca encontrou a paz… ao fim, separa-se de sua esposa e acaba sozinho, pois os filhos já têm sua própria vida. E aí chega o Alzheimer3… e ele começa a perder a memória… e se desespera com essa perda… a loucura de perder a consciência de toda a sua existência… Então, como um recurso derradeiro, ele tenta registrar tudo o que se passou em sua vida, primeiro escrevendo e depois gravando… mas a doença evolui mais rápido que sua capacidade de resgatar os anos que se foram… ele não consegue registrar quase nada… perdera a capacidade de preservar sua própria história… assim, está tudo em sua memória, mas ele não tem como comunicar isso a ninguém. Está só e desamparado…

Para ele, pouco importa a veracidade das lembranças, pois sua mente confusa se satisfaz com a lógica de tais recordações. Alterna suas memórias com os folguedos infantis, pois se tornara quase uma criança, com a mente esvaziada pela enfermidade, que avança sobre os períodos mais recentes, e segue destruindo as sinapses construídas por um cérebro privilegiado, embora condenado ao esquecimento.

A família está ciente desse processo degenerativo e nada pode fazer para amenizar seu estado, nem para dar a atenção que ele necessita, razão pela qual contratou-se um cuidador experiente, que o acompanha em período integral, fazendo leituras de suas preferências, ouvindo clássicos e jazz, que ele escuta atentamente, enquanto repete algumas frases soltas e desconexas. Sua vida se restringe a isso.

Assim, o ancião se torna, a cada dia, mais isolado dos seus entes queridos que ele tanto amou, pois o colocaram em um pequeno quarto nos fundos, onde não atrapalha as atividades da família, e pode ser cuidado, sem interferir na rotina da residência. Quando chegam algumas visitas, ele é preparado para ser exibido como um velho bem-comportado, ainda que imerso em suas reflexões e desvarios.

E os dias transcorrem assim, sem fatos que mereçam ser registrados, até que tudo muda com um derrame cerebral, que levará a família toda ao desespero e a conceber decisões nunca antes imaginadas por nenhum de seus componentes. Da noite para o dia, um terremoto atinge a família, e desorganiza completamente seu modo de vida e sua paz. E, aparentemente, ele perde o que lhe resta de sua memória… fica em um estado letárgico e é internado em um hospital… passam-se os dias, os meses… até que, nesse momento, começam suas reflexões acerca dessa vida extraordinária… só que, agora, desconectada, imprecisa, confusa… plena de déjà-vu4… porque ele não consegue mais distinguir entre o presente, o passado e as imagens do porvir… o tempo recente e o passado remoto… a sequência natural das coisas… tudo para ele se confunde naquele leito de hospital; e é dessa forma que ele narra sua vida para si mesmo, na tentativa de manter e preservar sua lucidez e consciência… ele discorre sobre os acontecimentos numa ordem que ele próprio reconstruiu, completamente diferente daquela em que os fatos se sucederam… e, dessa forma, ele constrói, das suas memórias distorcidas, uma nova história para sua própria vida.

Esse redemoinho, ou melhor, esse furacão avassalador tira o equilíbrio de todos na família, e os lança de encontro a dilemas que jamais esperariam acontecer em suas vidas. A escolha de um desfecho precoce não passa pela escolha da própria vítima que, para todos, já não possui atividade cerebral e encontra-se vivo apenas pelas funções orgânicas que mantêm o corpo funcionando, sem reações externas.

Não há consenso em situações como essa, e os diálogos se tornam acirrados, às vezes ácidos, dividindo seus entes queridos em dois polos irreconciliáveis. Se, para uns, a eutanásia não passa de um assassinato consentido, para outros, representa o alívio ao paciente e o retorno da família à vida normal. Os núcleos familiares se rompem na discórdia e no desalento do impasse a que chegaram depois de muito discutir. Todos os argumentos se cristalizam, impedindo o entendimento. Assim, nenhuma decisão é tomada e a vida continua…

O que se segue são narrativas esparsas, como esparsas se tornaram as lembranças do paciente e de toda família, pois ninguém sabia de tudo que esse homem vivera. Só quando perdemos um ente querido é que percebemos quão pouco nos conhecemos em família. O desaparecimento dos mais idosos vai tornando as pessoas mais pobres em histórias vividas e não registradas. Assim é com quase todos. A própria História do Mundo é repleta de fragmentos desconexos e de teorias que buscam religar os episódios conhecidos, construindo as narrativas que aprendemos no estudo dos fatos históricos. Se em uma pequena família já somos estranhos demais uns aos outros, o que dizer de um povo, uma nação e o mundo todo ao longo de milhares de anos, civilizações sem escrita, apenas sustentadas pela tradição oral?

Quanto mais distante de nós os eventos, no tempo e no espaço, nosso conhecimento se revela mais frágil e insustentável, mesclando realidades a lendas construídas para engrandecer a saga e a pujança de uma civilização que se extinguiu há milhares de anos. Como não há comprovações, o esforço dos historiadores é extrair dessas lendas a hipótese mais plausível, mas, mesmo assim, improvável…

* Prolegômeno – Amplo texto introdutório que contém noções preliminares necessárias à compreensão de um livro; introdução; prefácio. Prolegómeno (prolegômena plural, prolegomenon – singular) é um termo literário derivado do particípio grego que significa “as coisas que são ditas antes”. O termo prolegômeno tem sido usado como introdução (ou prefácio) a um estudo mais particular de qualquer ciência. É uma espécie de estudo preparatório para que se possa compreender melhor o assunto numa exploração posterior. [Wikipedia]

1Acidente Vascular Cerebral, mais conhecido pela sigla AVC, é uma séria condição médica que acontece quando o suprimento de sangue que vai para o cérebro é rompido. Isso acontece porque, como todos os órgãos, o cérebro necessita de oxigênio e determinados nutrientes que provêm do sangue. Portanto, quando há uma interrupção no fluxo sanguíneo, as células do cérebro começam a morrer, ocasionando diversos problemas cerebrais, podendo chegar à morte. [Wikipedia]

2Eutanásia (do grego ευθανασία – ευ ‘bom’, θάνατος ‘morte’) é a prática pela qual se abrevia a vida de um enfermo em estado terminal de maneira controlada e assistida por um especialista. Independentemente da forma de eutanásia praticada, seja ela legalizada ou não (em Portugal e no Brasil, esta prática é ilegal), ela é um assunto controverso, existindo sempre prós e contras – teorias mutáveis com o tempo e a evolução da sociedade, tendo sempre em conta o valor de uma vida humana. [Wikipedia]

3A Doença de Alzheimer é uma enfermidade incurável que se agrava ao longo do tempo, mas pode e deve ser tratada. Quase todas as suas vítimas são pessoas idosas. Talvez, por isso, a doença tenha ficado erroneamente conhecida como ‘esclerose’ ou ‘caduquice’. A doença se apresenta como demência, ou perda das funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte de células cerebrais.

4Déjà-vu é um galicismo que descreve a reação psicológica da transmissão de ideias de que já se esteve naquele lugar antes, já se viveu aquelas cenas antes, ou já se viu aquelas pessoas antes. O termo é uma expressão da língua francesa que significa, ‘Eu já vi’. [Wikipedia]

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

A Montanha

Manhã de julho, em um abrigo de montanha. Rúben – era esse o seu nome – acordara cedo, pois pretendia escalar o Pico de Agulhas Negras sozinho, pela primeira vez. O abrigo Rebouças era conhecido da comunidade de montanha por se situar dentro do Parque Nacional de Itatiaia, o primeiro a ser regulamentado no país, como unidade de conservação, em 1953. Estava muito frio, apesar do sol já ter nascido há mais de uma hora… o termômetro marcava -2º Celsius e, naquela noite, a temperatura chegara a -5º C. Era difícil deixar o calor do saco de dormir e se preparar para a longa caminhada. Mas Rúben pulou para fora da barraca e se ajeitou como pôde, vestindo um pulôver de lã, feito por sua mãe. Havia muitos montanhistas no abrigo, e cada um armara sua própria barraca dentro da grande sala. Não era razoável armar barracas ao relento com uma temperatura daquelas.

Rúben preparou seu café com leite em pó, pão integral, geleia de morango e mel. Era preciso comer um bom lanche para não ter que levar excesso de alimentos na mochila de ataque1. A cozinha não era pequena; tinha uma mesa de alvenaria com tampo de azulejos, na qual cabiam umas dez pessoas de cada vez. O leite quente com café caiu bem em seu estômago, aquecendo-o por dentro, e aumentando suas expectativas para a escalada. Voltou à sala, desmontou a barraca e organizou tudo, não se esquecendo do equipamento de emergência: duas lanternas, um canivete, uma pederneira2, o kit de primeiros socorros com ataduras, esparadrapo e esterilizante, um bom cobertor térmico, medicamentos para diarreia, antitérmico, relaxante muscular, anti-inflamatórios e um colete cervical. Levava somente o essencial para subir a montanha e voltar à base no mesmo dia, pois não era permitido pernoitar nos picos e trilhas do Parna3 Itatiaia. Assim, deixou no carro a mochila cargueira com roupas secas, saco de dormir, isolante térmico, fogareiro, barraca e um par de botas grossas. Levava consigo a roupa do corpo, em três camadas: uma camiseta, um fleece4, um anorak5, um gorro de lã, um par de meias, um par de botas leves, calças de moletom e o ‘cuecão’, de que seus amigos zombavam, mas que mantinha suas pernas aquecidas no frio intenso.

A caminhada é muito bonita, circundando um campo alagado, subindo em sucessivas etapas de rochas até chegar ao pé das Agulhas Negras, uma rocha imponente e escura, que lhe dava a denominação, destacando o parque de forma inconfundível, mesmo de longe. Pelo caminho, as poças congeladas pelo frio intenso da madrugada, formando placas de gelo com desenhos exóticos, às vezes opacos, com sulcos esculpidos pela natureza, ainda derretiam aos poucos, sob o fraco calor do sol, que se erguia, lentamente, no horizonte. Só por estar na montanha, Rúben já se sentia feliz, pois amava o silêncio, a paz dos ambientes naturais, a natureza preservada… e aquela solidão consentida. Subiu, com certa facilidade, a última etapa do pico, que não exigia muita técnica, e que ele já conhecia bastante de outras ocasiões em que escalou, com amigos do clube alpino, até chegar ao topo da montanha. Lá havia uma pequena caixa de ferro, com um caderno para registro daqueles montanhistas que conquistavam o pico pela primeira vez. Era de praxe deixar seu registro como visitante.

Rúben se inebriou mais uma vez com a paisagem fantástica, no topo da Serra da Mantiqueira, contemplando, do alto, os campos cobertos de nuvens, qual um tapete de algodão, deixando visíveis apenas os cumes das outras montanhas mais próximas. Sentou-se lá no alto, abriu sua mochila, pegou duas barras de cereais, algumas castanhas e um suco artificial, que ele bebeu e comeu devagarinho, saboreando aquele momento inesquecível, contemplando aquela paisagem de sonhos, como eram todos os lugares pelos quais caminhou nos últimos vinte anos. Estava com cinquenta anos, mas conservava a força, a energia e a determinação de um jovem, graças à sua vida saudável e às frequentes saídas para escalar, caminhar nas montanhas, mergulhar no mar e remar com amigos nos rios quase selvagens que o Brasil ainda tenta conservar, a despeito de tantos crimes ambientais praticados pelos ‘senhores do agronegócio’, os latifundiários para os quais a Natureza não tem nenhum valor, senão o de satisfazer seu apetite insaciável pelo lucro fácil e pela riqueza sem limites, propiciada pelo capitalismo selvagem de nosso país.

Quando resolveu descer a montanha já passava muito do meio-dia, e ele teria que fazer o retorno com muito cuidado, por estar só, sem a ajuda de um companheiro. Aventuras solitárias são muito desafiadoras, mas guardam em si um risco aumentado, e poucos têm a coragem de enfrentá-lo. Não podia correr o risco de um acidente, mesmo que não fosse grave, mas que o imobilizasse no meio da trilha. Rúben sempre levava seu SPOT6 e avisava seus amigos e a família de suas saídas em busca de aventuras. Por precaução, também levava uma corda de escalada, um arnês7, um freio oito e outro ATC8, três ou quatro mosquetões e as sapatilhas. Isso porque pretendia descer um trecho de rapel, para reduzir o tempo de retorno ao abrigo. Porém, quando chegou na base da montanha já estava escurecendo, e teria que caminhar um trecho longo sem a luz do dia. Felizmente, suas duas lanternas tinham carga total e estavam preparadas para serem usadas pelas mais de quatro horas seguidas de caminhada que ainda teria de enfrentar até chegar de volta ao abrigo.

Para sua surpresa, ao começar a caminhada na parte baixa do parque, escutou vozes vindas do meio do matagal. Chamou duas vezes, mas não obteve resposta. Permaneceu por uns instantes naquele local, supondo que poderia haver alguém precisando de auxílio. Depois de alguns minutos, chamando sempre, apareceu um casal de jovens, apenas com roupas de verão, sem nenhum agasalho, de sandálias e morrendo de frio! Deviam ter pouco mais de 15 anos de idade. Rúben cedeu-lhes o que tinha para ajudar a protegê-los do frio, que já era intenso, e os conduziu até o abrigo, que não ficava tão longe do lugar onde os encontrara. Foi uma grande sorte para aqueles garotos terem sido encontrados antes da madrugada pois, certamente, eles estariam em sérios apuros se tivessem que passar a noite perdidos na mata, sem nenhum agasalho, sem experiência de montanha, sem alimentos e sem capacidade de produzir fogo, correndo o risco de morrer por hipotermia, caso não tivessem sido resgatados a tempo.

Já no abrigo, todos se surpreenderam com a ousadia, ou melhor, com a imprudência dessas quase crianças, por terem ido à montanha sem estarem devidamente preparadas para isso. Os ambientes naturais são belíssimos, mas muito perigosos. Não se pode aventurar nesses locais sem um treinamento adequado, sem os equipamentos apropriados e sem um guia experiente. Mesmo assim, sempre que se vai para uma aventura na Natureza, é necessário que pessoas amigas, parentes ou socorristas saibam para onde irão, de quem estão acompanhados e quando pretendem voltar. São procedimentos fundamentais. De preferência, é muito útil levar outros equipamentos de segurança, tais como um GPS9, um sinalizador de localização geográfica e chamada de emergência (o SPOT) e um radiocomunicador tipo talk-about10 para que os guias se comuniquem, nos dois extremos de um grupo, para assegurar que ninguém se perca.

Rúben sempre praticava atividades ‘outdoor’11. Era um mergulhador experiente, com várias certificações técnicas e mais de uma centena de mergulhos na costa brasileira, incluindo o Parcel de Abrolhos e a Laje de Santos, dois dos melhores ‘points’ de mergulho do Brasil; era também um canoeiro habilidoso e um experiente montanhista, muito responsável e seguro em suas ações. Durante mais de dez anos percorreu os caminhos dos parques nacionais, sempre que possível levando seus filhos, e depois seus netos, para educá-los a amar e respeitar a Natureza. Já havia passado por dezenas de parques nacionais e estaduais, visitado dezenas de cavernas, remado por milhares de quilômetros e escalado inúmeras montanhas na serra da Mantiqueira. Tinha certificações como guia de aventuras, e um compromisso inabalável pela defesa intransigente dos ambientes naturais12. Com hábitos saudáveis, procurou disseminar noções de um relacionamento permanente com o Meio Ambiente em toda sua vida.

A cada nova aventura elaborava um planejamento detalhado, lendo tudo que podia a respeito de seu destino, e selecionando todas as informações relevantes para atingir seu objetivo com eficiência e segurança. Traçava os caminhos a percorrer e procurava elaborar rotas alternativas de viagem, utilizando os recursos de georreferenciamento oferecidos por ferramentas como o Google Earth®, pelo qual conseguia encontrar possíveis trilhas, locais de disponibilidade de água potável, lugares adequados para acampar em segurança, rotas de fuga, em caso de acidente, acesso às cidades mais próximas, telefones de emergência locais, reportagens publicadas por outros aventureiros, anotando tudo com o maior critério! Esse planejamento era, para Rúben, tão importante e interessante quanto a expedição em si mesma. Às vezes convidava amigos, com os quais se sentia bem em conviver, para compartilhar essas experiências. Em outras ocasiões, ele preferia sair sozinho, para poder refletir sobre sua vida, ao longo do caminho… chamava a essas reflexões de ‘meditação em movimento’ pois, enquanto caminhava, remava, escalava ou mergulhava, seu pensamento realizava outras viagens ainda mais fantásticas, por lugares desconhecidos do homem, que só existiam em mentes privilegiadas como a sua, e se esvaneciam quando a aventura terminava. E este era o seu problema: não registrara quase nenhum desses acontecimentos ‘inesquecíveis’! O fato é que ele esquecera quase tudo que sua farta imaginação produziu. Ficaram-lhe apenas as fotografias, as anotações e datas das aventuras, os caminhos registrados no GPS, as conversas trocadas nas mensagens eletrônicas… tudo o resto desaparecera com o tempo…

Poucas foram as vezes em que ele fez um relato, um ‘diário de bordo’ de suas experiências. Não porque ele não gostasse de escrever, mas por puro desinteresse e desencanto, pois acreditava que poucos se interessariam por suas narrativas. Seu círculo de aventureiros, na época em que estava no auge de suas capacidades técnicas e físicas para tais práticas, era muito restrito. E ele conhecia poucas pessoas que praticavam assiduamente esportes de aventura, pois era uma pessoa reservada, discreta, ensimesmada, voltada mais para seu interior espiritual e para suas experiências psíquicas do que para as narrativas de aventura. Para Rúben, só quem praticasse a vida na Natureza poderia compreender a dimensão dessas ‘viagens’ a que se dava o ‘luxo’ de sentir e vivenciar, sem o uso de drogas alucinógenas, apenas pela sintonia absoluta com as energias sutis, somente perceptíveis aos iniciados e aos seres das florestas selvagens.

Assim, agora que se encontrava em seu provável leito de morte, arrependia-se de não tê-lo feito, pois negara, a outros espíritos desapegados de materialidade, a oportunidade de saber que tais fenômenos existem, e estão ao alcance daqueles que estão preparados para vivenciá-los. Como diziam os adeptos do Conhecimento Esotérico, “quando o discípulo está preparado, o Mestre aparece”. Essa afirmação é atribuída a um monge Zen Budista, e se tornou uma verdade universal, um axioma daqueles que estão em busca do Conhecimento, aqueles que estão na Senda do Misticismo…

Sim, pois existem mistérios que não se revelam senão àqueles que se dedicam ao Bem, à Justiça, à busca pela Sabedoria dos Mestres e ao longo e difícil aprendizado das Verdades Universais. Esse conhecimento não está nos livros e não se ensina em escolas; é preciso buscá-los entre aqueles que já trilharam seus próprios caminhos, deixando de lado as vaidades e a ganância, dedicando-se a uma vida simples, modesta e de princípios e valores universais.

Rúben era um desse buscadores… dedicou sua vida ao aprendizado das Leis Secretas dos Mestres Espirituais. Talvez sua Iniciação seja, justamente, esse último desafio de enfrentar a morte e o isolamento em um quarto de hospital, pois são inescrutáveis os caminhos do Saber e da Iniciação… talvez, por isso, ela aceitava com tamanha resignação o desafio que lhe fora imposto nesse derradeiro instante de sua vida terrena… sabia, em seu íntimo, que encontraria a Paz nesses momentos de solidão, sofrimento e abandono aos quais estava definitivamente atado em seu leito de morte…

1Mochila de ataque – para ascender a uma montanha, geralmente os escaladores usam mochila pequena, apenas com o essencial para subir e descer no mesmo dia, sem peso extra e materiais desnecessários, mas sem se esquecer do essencial para sua segurança.

2Pederneira ou ‘pedra de fogo’ – A pederneira de magnésio é um bastão que, ao ser atritado por um metal, gera uma faísca de aproximadamente 3.000°C, podendo facilmente acender uma fogueira. É uma ferramenta essencial de sobrevivência. Pode ser usada em qualquer condição climática, sob a chuva e até mesmo a baixas temperaturas.

3Parna – abreviatura de Parque Nacional, que é uma das modalidades de unidades de conservação do ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, subordinado ao Ministério do Meio Ambiente. O Parque Nacional tem por finalidade preservar ecossistemas de grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas, atividades educacionais e de interpretação ambiental, recreação e turismo ecológico, por meio do contato com a natureza. O Brasil possui, atualmente, 72 Parques Nacionais. [fonte: site ICMBio]

4Fleece – é uma camada intermediária no ‘sistema de três camadas’, um tipo de flanela sintética com propriedades típicas (respirabilidade, leveza e compressibilidade), que o tornam indicado para atividades ao ar livre. utilizada para manter a temperatura, ou seja, para isolamento térmico.

5Anorak – é uma espécie de jaqueta com gorro, confeccionada com material resistente. É uma vestimenta utilizada pelos praticantes de esportes ao ar livre com a finalidade de proteger a parte superior do corpo contra o vento, a chuva e a neve, com forro de material poroso, para dissipar a transpiração, e cobertura impermeável, para proteger da chuva. Constitui a ‘terceira camada’.

6SPOT (Personal Tracker) – é um equipamento para rastreamento e comunicação entre um aventureiro e pessoas cadastradas para receber as mensagens de localização geográfica, enviadas durante um percurso de caminhada, ou quando o explorador já estivesse no acampamento.

7Arnês (cadeirinha ou arreio) é uma espécie de cinto de segurança no qual é fixada a corda para a escalada, a espeleologia, o canyonismo, o iatismo, etc. [Wikipedia]

8Freio ATC é um dispositivo de segurança criado pela ‘Black Diamond’, chamado como ‘ATC-Guide’. O significado da sigla ATC é ‘Air Traffic Controller’, (controle aéreo de trafego, que permite fazer uma descida controlada e segura durante um rapel). O Freio Oito é mais simples, mas tem a mesma finalidade, ou seja, controlar a velocidade de descida durante um rapel.

9O GPS (global positioning system), sistema de posicionamento global, é um sistema de posicionamento por satélite que fornece a um aparelho receptor móvel a sua localização geográfica, sob quaisquer condições atmosféricas, a qualquer momento e em qualquer lugar na Terra, desde que o receptor se encontre no campo de visão de, ao menos, três satélites. [Wikipedia]

10Talk About (ou walkie-talkie), mais formalmente conhecido como transceptor de mão, é um radiocomunicador de dois pontos, de médio alcance (cerca de 36 km).

11Atividades outdoor’ (‘além da porta’), ou atividades de aventura em ambientes naturais.

12Leave no Trace – organização internacional que definiu sete regras para realizar uma aventura segura e evitar a destruição dos ambientes naturais. São elas: 1) Planeje com antecedência as suas atividades; 2) Viaje e acampe sempre em superfícies duras (solos compactados); 3) Desfaça-se de seu lixo fora das áreas preservadas; 4) Deixe tudo como estava quando chegou; 5) Minimize os impactos de fogueiras no campo; 6) Respeite a vida selvagem; 7) Tenha consideração e respeito pelos outros visitantes que encontrar no caminho (Leave no Trace (https://lnt.org/)

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

A Catedral

As cavernas foram um episódio à parte na vida de Rúben. Ele as conhecera, pela primeira vez, no Petar1, localizado no sul de São Paulo, uma das mais importantes concentrações de cavernas do Brasil. Lá existem cerca de 250 cavidades naturais, em três áreas vizinhas: a região da Caverna do Diabo, a cidade de Iporanga e o Parque Intervales, perto de Apiaí, todos no estado de São Paulo.

As cavernas possuem características próprias, relacionadas com o tipo de rocha e a dinâmica do processo de formação que lhes deu origem. No Petar, as cavernas são de origem cárstica, ou seja, de rochas calcárias, que sofrem degradação por meio de rios que abrem as cavidades, formando grandes salões revestidos de espeleotemas2.

Rúben conheceu o Petar nos primeiros anos do século XXI. São muitas cavernas, agrupadas em núcleos: Santana, Caboclos, Casa de Pedra e Ouro Grosso. Apenas o núcleo Caboclos fica fora da região de Iporanga, próximo a Apiaí. Algumas cavernas chegam a ter quilômetros de salões, interligados por túneis, quase todos alagados. São os rios interiores que desmancham a rocha, formando os salões.

Uma das mais belas cavernas é chamada Temimina, que fica no Núcleo Caboclos. Seu acesso não é fácil e exige muito preparo físico para percorrer a longa trilha que a separa da pequena cidade de Apiaí. Já nas proximidades da caverna, uma descida mais íngreme leva a uma ‘janela’, através da qual se vislumbra um enorme salão!

Mas não é apenas um mero salão… lá existe um grande bloco de estalagmite em seu centro, formando uma enorme figura humana, semelhante a um Buda sentado! Ao fundo se descortina uma grande janela para um jardim exuberante! É uma dolina3 imensa, que, ao desabar, isolou a vegetação e a fauna do resto que ficou na superfície! Parece um cenário jurássico, pré-histórico, de incomparável beleza!

Rúben e seu grupo se instalaram naquele local, onde resolveram passar a noite, antes de adentrar a caverna. O local era belíssimo, e lembrava um cenário do filme “Viagem ao centro da Terra4! Montaram as barracas, prepararam a comida e registraram, em fotos, aquele lugar inacreditável! Foi uma noite fantástica!

As cavernas têm uma atração muito intensa para os seres humanos, pois foi nelas que os primeiros hominídeos se abrigaram das intempéries nos primeiros tempos de vida na Terra. As cavernas costumam ter um microclima estável, com temperatura uniforme ao longo do ano, abrigadas das variações que ocorrem na superfície, tornando-se, por isso, um excelente abrigo para se habitar.

No dia seguinte, seguiram pelo salão até encontrar a pequena cavidade que dá entrada ao interior da enorme caverna. Diante da majestade desse átrio, a abertura é pequena e de difícil penetração. Todos entraram e seguiram à procura dos caminhos, que eram todos muito estreitos e sinuosos, dificultando a progressão em seu interior.

Pouco adiante, se arrastando com dificuldade, chegaram a um pequeno salão, sem nenhum tipo de ornamento, onde mal cabiam os membros do grupo. Lá se instalaram para comer um lanche e contemplar a escuridão absoluta onde se encontravam. É estranho ‘contemplar a escuridão’, mas essa é a expressão correta, e todos que penetram em cavernas sabem quanto é assustador esse silêncio no vazio… nenhum som, nenhuma réstia de luz, nenhuma sensação senão a solidão absoluta, medonha, assustadora. Neste momento as pessoas se encontram com seu ‘eu interior’ e percebem o quanto estamos sozinhos neste planeta tão pouco conhecido…

Ao apagar das lanternas, o silêncio e a escuridão, no interior das cavernas, são esmagadores! Nada existe além do vazio… nele nos perdemos e esquecemos nossa identidade neste mundo. Já não sabemos quem somos, o que fazemos ali, quem são os outros que desapareceram na mesma escuridão… perdemos nossa identidade… deixamos de ser meros humanos e nos sentimos absolutamente sós… é uma sensação única, indescritível… aterrorizante, mas, ao mesmo tempo, um processo de catarse que nos leva à paz e ao Conhecimento.

Esse isolamento durou apenas alguns minutos, mas pareceram horas intermináveis… depois, aos poucos, foram recuperando a consciência e ‘despertando’ para o mundo… acenderam as lanternas, e a tênue luz parecia um holofote a cegar seus olhos na escuridão…

Não existe uma edificação tão soberba quanto os imensos salões das cavernas! Nem a igreja da Sagrada Família, de Gaudí5, nem as gigantescas mesquitas muçulmanas do Oriente Médio, nem as catedrais romanas, nada se compara a essa sensação extraordinária! Em seu interior, tudo conspira para a elevação espiritual, o êxtase e a contemplação… é como se houvesse uma ruptura quando entramos nesses espaços e nos isolamos completamente do mundo exterior… o tempo, dentro de uma caverna, não passa… tudo fica estagnado em nosso interior. Mas, quando retornamos à vida, é como se tivéssemos ficado por lá durante dias… observamos o mundo com outros olhos, como se aquele cenário nos tivesse transportado para outro universo!

Rúben despertou tranquilamente, olhou ao seu redor, observou os rostos de seus companheiros, tomou uma respiração profunda, e contemplou os semblantes daqueles que passaram pela primeira vez por essa experiência. Estavam mudados… o mundo ao seu redor já não tinha o mesmo significado. Tinham superado o átrio e encontrado uma nova e estranha realidade! Cada um, no silêncio de sua alma, olhava, perplexo, para aquele mundo que conheciam tão bem, mas tinha a convicção de que já não era mais o mesmo. Porém, eles é que tinham mudado! E, por instantes, transmigraram para o outro lado da vida!

Retornaram pela longa trilha, em silêncio. Parecia que todos queriam conservar aquele momento mágico por mais algum tempo… por isso, evitavam falar. Nada mudara no exterior, mas para cada um, era uma vida nova que se iniciava… E assim terminaram aquela experiência, certos de que jamais voltariam a ser as mesmas pessoas.

As cavernas fizeram parte significativa da existência de Rúben. Durante sua vida, ele explorara as cavernas de Santana, Água Suja, Ouro Grosso, Alambari (de Cima e de Baixo), Couto, Temiminas, Aranhas, Laje Branca, dentre outras, todas situadas no Petar. Também explorou outras cavernas, como Lapa Doce, Lapão, Torrinha, Gruta Azul e Poço Encantado, todas na Chapada Diamantina, na Bahia. Ainda conheceu a famosa Gruta de Maquiné, em Cordisburgo, MG, tornada conhecida pelo explorador dinamarquês Peter Willerm Hund, e imortalizada pelos contos de João Guimarães Rosa, e a Gruta de Bom Jesus da Lapa, um dos mais belos santuários do Brasil, localizada na Bahia, às margens do rio São Francisco, que Rúben percorreu, anos depois, remando uma canoa canadense, pelos seus quase 3.000 km de extensão, sozinho, durante 99 dias e noites.

Só deixou de visitar as cavernas quando sua saúde não mais o permitiu percorrer os difíceis labirintos subterrâneos que marcaram tanto sua vida. Considerava as cavernas como Templos da Natureza, lugares encantados onde o ser humano encontra suas origens e se aproxima da Eternidade. Fazia essas excursões por amor à vida e respeito aos monumentos naturais, mais do que mero explorador.

Em uma de suas visitas ao Petar conheceu a morte, em um acidente que vitimou um guia e um jovem, ambos afogados na caverna Casa de Pedra. Esse episódio o afastou, por uns tempos, das cavernas, pelo choque causado em suas convicções. Até então, julgava-se imune às artimanhas do Destino, uma espécie de ‘corpo fechado’ que o mantinha distante de acidentes graves em aventuras.

Depois, outros incidentes não tão graves, permearam suas incursões pelas montanhas e sob as águas do mar, mas nunca teve dúvidas quanto à importância da exploração do mundo pelos lugares sagrados que teve o privilégio de conhecer. As cavernas, as montanhas e o fundo do mar foram seus mestres espirituais, muito mais expressivos do que a extensa literatura esotérica que consumiu anos de sua vida, em busca do Conhecimento absoluto…

1 PETAR – Parque Estadual e Turístico do Alto do Ribeira

2Espeleotemas são os ornamentos das cavernas, que assumem diferentes denominações, das quais as mais conhecidas são as estalactites e as estalagmites, ambas formadas pela sedimentação de calcário pelo escorrimento da água pelo teto dos salões.

3Quando o teto de um salão da caverna desaba, forma um rebaixamento de solo denominado ‘dolina’. Essa área isolada dentro de uma caverna forma, por sua vez, um pequeno ecossistema.

4Viagem ao Centro Da Terra é um livro de ficção, de autoria do escritor francês Júlio Verne, lançado em 1864 e considerado como um dos clássicos do gênero de aventuras.

5Antoni Gaudí i Cornet (Reus ou Riudoms, 25 de junho de 1852 — Barcelona, 10 de junho de 1926) foi um famoso arquiteto catalão e figura de ponta do Modernismo. Grande parte da obra de Gaudi é marcada pelas suas grandes paixões: arquitetura, natureza e religião. Gaudi dedicava atenção aos mais ínfimos detalhes de cada uma das suas obras, incorporando nelas uma série de ofícios que dominava: cerâmica, vitral, ferro forjado e marcenaria. A obra de Gaudí é reconhecida internacionalmente, sendo apreciada não só por arquitetos como pelo público em geral. A sua obra-prima, a inacabada igreja da Sagrada Família, é um dos monumentos mais visitados de Espanha.

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

No Azul Profundo

Reflexões de um Pensamento sem Autor1

Talvez, um dia, venham a me encontrar…
Somente assim, descobrir
ão minha verdadeira identidade…”

Que faço, então, aqui, neste silêncio eterno?

A recorrência desse pensamento leva-me a crer que o tempo, enfim, parou… ao menos para mim… e que a vida em suspensão, que penso acontecer, na verdade, existe! Estranhamente, sinto-me incorporado a este universo, como se as ideias surgissem, espontâneas, dessas paredes de calcário…

Se assim não fosse, de onde viriam, então?

Pois, se percebo a realidade que me cerca, não é pelos olhos de um corpo que foi meu, que este, com certeza, já não mais existe! As impressões que sinto manifestam-se em todos os detalhes dessa caverna, fria e submersa… E se luz já não mais existe, pouco importa, que falta já não faz. A percepção é algo permanente, imanente à própria escuridão, com a qual me identifico…

No entanto, a memória dos acontecimentos me é nítida, como se tudo ainda acontecesse, ao mesmo tempo, passado e presente se fundindo, na consciência plena do momento…

Lá estou, à boca da caverna, admirando seus segredos e mistérios, ansiando pelo meu destino, tantas vezes imaginado…

Às costas, os instrumentos de mergulho, cuidadosamente conferidos, cada um, em todos os seus detalhes, o pensamento se alternando entre o medo (ou o pavor absoluto) e a ansiedade (paixão completa pelo desconhecido dentro em mim).

Cansado da longa caminhada, repouso, nas pedras, o meu equipamento, enquanto observo a natureza em meu redor: a mata densa e úmida, os insetos impertinentes, o canto dos pássaros, que não os vejo, nem os reconheço… o cheiro do mato, ainda sob o frescor do orvalho da manhã…

Por sua negra boca, a caverna me observa. Sei que, ali dentro, o tempo não existe… e apenas eu não o compreendo… milhões de anos, gota a gota, esculpindo seus pontiagudos dentes – estalactites, estalagmites – prestes a me deglutir…

Recuperado o fôlego, reúno meus equipamentos e me aproximo do ponto de descida. Amarro firmemente as cordas nas pedras da entrada, e lanço suas extremidades no desconhecido… nenhum som. Experimento os nós. Observo o mapa da caverna e constato, novamente, o amplo espaço para eu me preparar para o mergulho, bem abaixo.

Amarro os tanques de ar, e desço-os com cuidado, pela primeira corda, até sentir o toque no fundo da caverna. O resto dos instrumentos seguirá comigo.

A primeira impressão, logo à entrada, é de uma escuridão sem fim. Nada vejo, nem mesmo silhuetas. Somente a luz atrás, na abertura, cada vez menor e mais distante.

Mesmo assim, não acendo, de imediato, as lanternas. Sigo descendo, cauteloso, resvalando pelas pedras, até tocar o solo úmido e escorregadio, do limo que lá permanece desde os tempos, sem memória, do passado.

Embora meus olhos já se acostumassem à noite eterna, e pudesse até perceber alguns contrastes em seu interior, acendo as luzes para observar melhor aquela imensidão deserta, onde até minha respiração ofegante reverbera, como um eco grave e profundo.

Que maravilha!

Cenário encantado e solene, reprodução dos céus sem as estrelas, que reverencio com respeito e emoção incontida… Fico, por alguns instantes, admirando, extasiado, a cena inesquecível…

Um lago cristalino se espalha à minha frente, por todo o salão. Experimento a água, não muito fria para essa época do ano, meados de outono. Mesmo assim, coloco as luvas e o capuz, e completo a vestimenta, cuidando para conferir, mais uma vez, todos os instrumentos.

Estou pronto! Meu coração bate mais rápido, pela ansiedade incontida. Confiro os mapas: este primeiro salão termina na garganta escura, a uns 15 metros de profundidade, ao final do lago. Depois, o salão principal, imenso, com inúmeras colunas de calcário, formando galerias, qual um labirinto.

Precisarei sinalizar o meu trajeto para facilitar o retorno à superfície. Atingirei uns 25 metros, até o fundo. E então, dois caminhos se apresentam: um, seguindo direto à frente, conduzirá ao terceiro salão, cujo teto se encontra parcialmente fora d’água, como uma bolha de ar irrespirável. Pequeno e desconfortável, repetição do trajeto anterior – não me interessará, suponho.

Seguindo à esquerda, contornando as formações calcárias, encontrarei um estreitamento perigoso, pequena abertura tortuosa que leva ao último e ambicionado salão dos meus sonhos, cujas águas chegam a atingir quase 50 metros abaixo do nível da lagoa, onde me encontro. Será este o meu destino!

Um misto de ansiedade e angústia me dominam. Contenho-me e me recomponho. Decidido, verifico o computador, para me certificar dos tempos para cada etapa do mergulho. Tudo bem planejado: haverá ar suficiente para todo o percurso, ainda que me demore a apreciar todos os detalhes no caminho, suas esculturas naturais e seus recantos…

São dois reservatórios e o lastro, mais de 10 quilos que assegurarão o equilíbrio de meu corpo ao longo do trajeto. Faço minhas últimas anotações no diário que deixarei à beira da lagoa.

Entro, aos poucos, na água, para me acostumar à temperatura, apesar da roupa de neoprene. Inicio a contagem do cronômetro e a descida. Percorro o lago em toda sua profundidade, admirando as concavidades, suavemente incrustadas nas paredes cinzentas.

O mundo lá de fora já não mais existe. Sinto-me eterno em minha frágil carcaça humana. O único som que ouço e percebo é das bolhas, que se desprendem compassadas de meu regulador.

Lanterna acesa, sou devorado pela garganta negra, e penetro, finalmente, na Eternidade…

Por mais que tenha lido sobre esse mundo quase inexplorado, ainda que examinasse centenas de fotografias de cavernas, mesmo experiente em mergulhos em outras grutas, a emoção sentida é sempre única e indescritível! Puro êxtase!

As colunas pareciam vir do nada, penetrando na imensidão sem fim. Retorcidas em filigranas, que nenhum escultor poderia sequer imaginar, gradualmente matizadas, de um branco suave ao ocre carregado das ferrugens, assemelhavam-se a cenários à espera de um espetáculo que jamais viria a acontecer.

Deslizei suavemente ao redor de muitos desses blocos, com a sensação de paz das mais profundas meditações, deixando que o acaso me mostrasse as sendas que haveria de trilhar. Já não haveria mapas ou sinais que pudessem me indicar onde eu me encontrava. Não sei por quanto tempo fiquei a me admirar desse universo. Porém, por algum acaso, em dado instante me defrontei com a estreita abertura, a passagem para o outro lado… da vida!

Esgueirando-me com minha pesada e desajeitada vestimenta, cheguei, com grande esforço, ao outro salão. A princípio, não me pareceu assim tão belo como imaginara, nem tão majestoso e grandioso como aquele de onde acabara de chegar.

Era vazio… poucas esculturas, raras galerias, com imensas colunas a sustentar sua estrutura envelhecida. Como no outro, quase nenhuma vida perceptível. Apenas pequenas formas primitivas, a navegar furtivas nas proximidades das paredes.

Percorria seus espaços sem muito entusiasmo quando, pela primeira vez, despertado daquele encantamento, senti necessidade de verificar meus instrumentos… Pânico! Restavam-me poucos minutos para que o ar se extinguisse nos cilindros! Mas não poderia ser! Eu tinha autonomia para muito tempo… muito além do que me pareceu ali estar. Confiro as válvulas: tudo normal. Olho o cronômetro: Parado! Travado alguns segundos após minha descida! Leio os indicadores de consumo de ar: curiosamente, estive a respirar tão calmamente que poderia estar vagueando há horas, submerso!

Em desespero, nadei em busca da abertura que me conduziria de volta à vida… passava rente às paredes, à procura de uma pequena cavidade, perdida nas infinitas pregas das pedras da caverna. Em vão! Jamais encontraria a saída…

Consumia rapidamente o pouco ar que me restava.

Aos poucos, constatei o quão inútil se tornara aquele desespero. Parei de lutar. Deixei que a vida se esvaísse ao seu próprio tempo. Então, subitamente, uma tranquilidade incompreensível se apossou de mim… a paz de quem, enfim, compreendera a vida!

Parei de me mover em desatino. Deixei que as águas me levassem, sem destino, ao seu desejo e capricho.

Repentinamente, constatei que não mais respirava e, no entanto, não sentia nenhuma sensação de asfixia, ou de afogamento, sensação que me perseguira em todos os meus sonhos e pesadelos, ao longo de meus dias, como uma obsessão inevitável!

E, no entanto, estava vivo! Assim me parecia, pois havia ali os pensamentos, a consciência, a percepção de tudo que estava a me acontecer. Apenas não sentia mais a presença de meu corpo.

Eu parecia existir apenas em consciência!

Já não via com os olhos a que me acostumara em vida.

Nem sentia a pele a cobrir meu corpo…

Apenas consciência… plena, absoluta, onisciente, como se percebesse tudo ao mesmo tempo, como se passado e presente se fundissem em um só momento, em que a precedência dos fatos não existia… e nem importava!

Quem seria eu, agora, afinal?

Aqui estou… nas pedras… nas águas… na minha caverna…

Nem sequer percebo o vazio incompreensível de meu Ser…

Quantas vezes já terei rememorado essa história, sem nem mesmo saber se existiu, de fato? Se hoje existo, ou existi, um dia?

Serei apenas pensamentos, reverberando eternamente, incessantemente, pelas paredes obscurecidas da caverna?

Talvez, um dia, venham a me encontrar…

1 Este texto foi encontrado entre as anotações de Rúben, que, pela sua beleza poética, acredito serem relevantes para compreender seu espírito inescrutável, e esclarecer alguns dos inquietantes mistérios de sua vida. Por isso, optei por incluí-lo em suas memórias…

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Perdas e Danos

Rúben só parou de praticar aventuras quando sofreu seu primeiro ataque cardíaco1, que quase o matou, reduzindo à metade sua capacidade de bombeamento do sangue pelas artérias. Foi um incidente inusitado; caminhava solitário pelo bosque perto de sua casa quando teve uma revelação. Veio-lhe à mente um pensamento estranho: “a vida é uma sucessão de perdas… a cada passo no caminho sentirás que perdeste uma parte de teu ser… ainda que não compreendas esta verdade agora, tua vida cuidará de te ensinar”…

Essas palavras chegaram claras à sua mente, como se alguém sussurrasse em seus ouvidos, mas não havia ninguém por aqueles lugares desertos, e já tinha se afastado muito de sua casa. Continuou a caminhar, intrigado com aquelas palavras, buscando compreendê-las em seu significado esotérico. Sabia que a vida era, de fato uma sucessão de perdas, assim como a morte de seus pais, avós, parentes e amigos mais velhos. Mas sabia que a mensagem não se restringia a tais perdas naturais, mas a algo muito mais profundo…

Foi nesse momento que sentiu uma forte dor no peito, algo como se fosse apertado por duas tenazes, que quase o deixavam sem condições de respirar. Sabia, por sua experiência como socorrista, que estava tendo um infarto. Sentou-se e se recostou a uma árvore. Pegou o celular e ligou para um de seus filhos, o mais velho, e relatou o ocorrido, dando sua localização pelo próprio celular, e aguardou a chegada de ajuda. O tempo parecia não transcorrer, tamanha era a dor que sentia. Tentava controlar sua respiração, mas era difícil inspirar, pois seus pulmões pareciam estar travados pela forte pressão no peito.

Sabia que tinha pouco tempo para ser socorrido, pois já quase perdera a consciência, e seu temor era uma parada cardiorrespiratória, o efeito seguinte nesse tipo de evento. Aos poucos, sua consciência foi se apagando, até que a perdeu completamente. Daí, não sabia quanto tempo permaneceu nesse estado, até despertar em um quarto de hospital, uma UTI, onde estava sendo monitorado, com seu filho ao seu lado. Passaram-se vários dias até que retornasse para um quarto comum, e outro tanto para ser liberado para voltar para casa.

Teve que ser submetido ao uma cirurgia de ponte safena para não morrer. Por quase um ano esteve sob intenso tratamento, que acrescentara vários medicamentos à sua dieta, além de exercícios para fortalecimento muscular. Foram meses de tratamento, exames os mais variados para acompanhar a recuperação, e visitas constantes a seu cardiologista, que passou a ser seu novo amigo, conselheiro e orientador. Sua vida jamais voltaria a ser a mesma do passado.

Agora sabia o significado daquela mensagem, que recebera instantes antes de sofrer o infarto. Sabia também que sua vida perdera parte do encantamento, e não poderia mais ter suas grandes aventuras, escalar montanhas, mergulhar em oceanos, remar… tudo se modificara em sua rotina de vida, mas teria que se adaptar a isso. A vida, realmente, cuidou de lhe ensinar sua mais difícil lição…

Mesmo assim, depois de sua recuperação, continuou a fazer pequenas caminhadas e passear com os filhos pelos parques nacionais. Jamais se conformou com essa perda… dizia que parte dele havia morrido com a metade de seu coração. O curioso é que continuava se sentindo jovem, mesmo depois dos 65 anos de idade. Ainda fazia planos de escalar uma grande montanha, como o Aconcágua2, mas sabia que isso era impossível. Então, sonhava com suas aventuras, lia textos de outros grandes aventureiros, assistia filmes, tinha milhares de amigos aventureiros nas redes sociais, com quem, eventualmente, se comunicava e, através deles, recordava…

Agora que já não podia mais fazer grandes planos, vivia de seu passado, rememorando cada viagem, cada expedição, cada aventura praticada em diferentes lugares, sempre inesquecíveis. Porém, lamentou-se quando seus filhos deixaram de se aventurar pelo mundo… estava claro que eles só faziam essas atividades para agradar o velho, mas a rotina da vida acaba ceifando as melhores partes das nossas experiências. Algumas pessoas jamais fariam essas aventuras, seja por medo, por comodidade ou simplesmente por achá-las inúteis, mesmo sem nunca terem se lançado no vazio infinito das experiências extraordinárias, que a vida selvagem pode nos propiciar.

Para a maioria das pessoas é impensável dormir numa barraca de tecido, no meio da floresta ou em uma clareira na montanha, comer alimentos desidratados, beber água da chuva, retirada de córregos, esterilizada com cloro ou através da fervura… seria absurdo para a maioria dos viventes ter um relacionamento tão próximo com animais que só existem em ambientes ‘hostis à civilização’… para eles, é inconcebível pensar que o ser humano evoluiu das cavernas e da idade da pedra, criou seu próprio mundo artificial, repleto de ‘tentações’ tecnológicas, para depois voltar à natureza e se equiparar aos trogloditas3 que habitam esse planeta há um milhão de anos.

Não sabem eles que essas fantásticas experiências de regressão espontânea à vida ancestral são importantíssima para resgatar valores esquecidos da vida humana, bem como para fortalecer o caráter, a autoestima e o respeito pela Natureza. Rúben chegara à conclusão, em seus devaneios, de que, se existe tanta maldade e violência nos dias atuais, é porque o homem perdeu o contato com o mundo natural. Por isso, também, é muito fácil para qualquer um destruir milhões de hectares de floresta para criar gado e plantar soja, para construir cidades cada vez mais tecnológicas e sofisticadas, ainda que esses espaços ‘esterilizados’ pudessem, no futuro, acabar com todas as fontes de água potável e destruir suas ‘riquezas’, tornando a vida impossível, pela absoluta incapacidade do planeta em sustentar dez bilhões de seres humanos… Para Rúben, esse mundo hipócrita, repleto de tecnologias e distrações da mente, não lhe pertencia.

Para ele, parecia-lhe muito estranho que, mesmo tendo havido tanto desenvolvimento tecnológico, ainda que a ciência tenha evoluído tanto nas mais diversas áreas do conhecimento, ainda assim exista tamanha desigualdade e injustiça entre os seres humanos, alguns acumulando tanta riqueza que não se consegue sequer imaginar, enquanto a maioria dos homens vive em plena miséria, no obscurantismo, no abandono e no sofrimento, sem alimento suficiente e sem os direitos essenciais para cuidar de seus filhos, enquanto poucos desperdiçam tamanha quantidade de recursos que seriam suficientes para acabar com toda fome e miséria deste mundo!

Essa desigualdade, essa injustiça no mundo dos homens era incompreensível para quem não tinha nenhum apego a bens materiais, a cargos, à fama e à maioria das vaidades que todo ser humano cultivava nesse mundo de futilidades, atrativos tecnológicos e bens materiais. Para Rúben, a vida se resumia ao pensamento e às atividades no mundo natural. Apreciar as belezas desse mundo era tudo o que fazia sentido para ele. Por isso, tornara-se calado e evitava as pessoas, pois já não se encaixava no mundo dos homens.

Rúben nascera em uma pequena cidade do interior, e desde criança sentia sua afinidade com a Natureza e os animais que a habitavam. Em sua casa tinha um cão que seu pai batizara de Teco, sabe-se lá por que, mas que se tornara seu melhor amigo. Teco era um companheiro insubstituível para ele e para todos que conviviam naquela pequena cidade. Era parte da ‘turma’, seja quando faziam travessuras nas ruas de terra do vilarejo, seja quando se aventuravam nos matagais e brejos ao redor. Seu pai confiava nos instintos daquele animal, sabendo que ele protegeria seus filhos dos perigos naturais.

E foi assim que aprendeu a caminhar pelo mato, próximo aos regatos, pelas encostas dos morros e pelas ruas tranquilas da cidade, por onde passavam apenas pessoas, carroças de boi, gemendo com o atrito dos eixos e as rodas de madeira, e charretes puxadas a cavalos. Lá, Rúben era feliz com seus amigos e seu fiel companheiro, o Teco.

Lá, naquela pequena cidade, ele cresceu e aprendeu a amar tudo o que fazia sentido na sua vida: as pessoas simples e generosas, os gatos, os pássaros, as árvores, os jardins floridos e o galinheiro, onde entrava todos os dias com o Teco, para alimentar os ‘penados’ e limpar sua sujeira, que era depois usada para adubar os jardins de sua casa, e seus pais generosos e sempre dispostos a lhe ensinar a viver.

Lá viveu, de fato, toda sua infância e adolescência, sem as maldades que depois viria a conhecer na cidade grande, a qual não aprendera a enfrentar, e que lhe traria suas primeiras lições de como sobreviver em ambientes hostis, que não eram as matas e as florestas, nem os rios e os animais, mas sim o mundo dos homens.

Mas o mundo que conhecera enquanto criança já não existia. Tudo mudou desde então, principalmente a mentalidade das pessoas, que se tornaram mais isoladas em si mesmas, em seu mundo tecnológico e digital. As relações sociais se tornaram restritas a pequenos grupos de interesse, banindo a espontaneidade que existia nos primórdios do século passado. A convivência se transformara em um estorvo, um inconveniente indesejado para a maioria dos seres.

Rúben tinha plena consciência disso, e procurava não se aproximar dos colegas de trabalho e nem mesmo de familiares. Sua vida se tornara introspectiva e limitava-se a seus estudos e reflexões acerca do sentido da vida e da missão dos seres humanos na Terra. Porém, com o infarto, recolheu-se mais ainda ao seu mundo interior. Aos poucos, deixara de caminhar, mesmo nos parques da cidade, pois isso não lhe trazia mais prazer. Sentia que a vida se esvaía com o sangue que pulsava em suas artérias. Era-lhe penoso até sair de casa.

Assim, foi se tornando um velho solitário e desencantado com tudo aquilo que construíra no passado. Já não se importava sequer com a Natureza, que tanto cuidara em seus tempos de aventura. Para Rúben, o destino da Terra estava traçado, na medida em que as florestas eram devastadas, os rios desapareciam, os animais selvagens eram extintos e as belezas naturais eram substituídas por grandes cidades e imensas monoculturas de grãos ou pastagens para o gado…

1IAM – Infarto Agudo do Miocárdio – nome científico do processo que ocasiona a parada cardíaca e que, muitas vezes, nos leva à morte. A sensação do infarto varia com cada pessoa, mas alguns sintomas são comuns: intensa dor no peito, como se algo comprimisse o peito, impedindo o coração de pulsar; ansiedade pela sensação clara da possibilidade da morte; incapacidade de tomar qualquer atitude, mesmo de se locomover ou entrar em contato com outra pessoa.

2Aconcágua (pronunciação espanhola: [akoŋkaɣwa]) é a montanha mais alta fora da Ásia, com 6.961 metros de altitude, e, por extensão, o ponto mais alto, tanto no Hemisfério Ocidental quanto no Hemisfério Sul. Está localizado na Cordilheira dos Andes, na província de Mendoza, Argentina, e está situado 112 quilômetros a noroeste de sua capital (Mendoza). O cume está localizado a 5 km da Província de San Juan e a 15 quilômetros da fronteira com o Chile. [Wikipedia]

3A palavra Troglodita costuma designar os habitantes de cavernas ou de rochas, falhas ou grutas naturais nas falésias, em tempos pré-históricos. A palavra vem do latim, trōglodyta (‘povo que habita cavernas’), e do grego antigo, τρωγλοδύτης. [Wikipedia]

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Uma Estranha Realidade

O dia em que o sol não nasceu1

Naquela noite fomos dormir cedo. Havíamos caminhado o dia todo, a mochila pesando em nossos ombros… e o deslumbramento, ainda, da caverna que enchera nossos olhos! Não esperava encontrar uma gruta no alto da montanha, em meio àquela mata fechada e diante da paisagem que se estendia por quilômetros à nossa frente… era uma pequena travessia e nos levava ao outro lado do morro do Castelo, como se conhecia esse local privilegiado, no vale do Pati.

Montamos nosso acampamento à beira de um regato, próximo a uma daquelas casinhas rústicas que dominam o vale com sua singela beleza… o jantar foi preparado em grupo, como de costume, e conversamos longamente, ainda extasiados pelo cenário que se registrou em nossas mentes. Seria difícil dormir com toda essa excitação, apesar do cansaço. Mas a noite veio lentamente pelo vale, escondeu o sol por detrás de suas paredes, e trouxe consigo uma brisa, uma aragem leve, suave e refrescante.

Adormecemos…

Já era tarde quando despertei; mas me pareceu noite… a escuridão era total! Olhei em meu relógio: 10:22 horas! Não é possível, pensei!… estava tão escuro que precisei utilizar a lanterna, apesar das estrelas que tomavam toda a abóbada celeste. Olhei com deslumbramento para a Via Láctea, um rastro de névoa branca percorrendo o céu de um lado a outro, em sua imensidão eterna…

Olhei ao meu redor e só então percebi que todos estavam de pé, igualmente perplexos com aquela noite em pleno dia, olhando para o céu, incrédulos como eu. O que significava isso? Por que o Sol não cumpriu sua obrigação de nos trazer de volta o dia?

Aos poucos, meus olhos se acostumavam com a escuridão e já podia perceber melhor as sombras e contrastes da Natureza ao redor. Mas notei, estupefato, que os animais noturnos também não se recolheram, e aqueles de hábitos diurnos saíram de suas tocas e esconderijos e não sabiam o que fazer. Cheiravam o ar e se entreolhavam; moviam-se com receio e permaneciam afastados das trilhas, como a pressentir que algo errado estava acontecendo.

Não podíamos desmontar o acampamento, mas também não tínhamos como ficar inertes ali, sem saber o que se passara durante aquela noite que se prolongara, invadindo os espaços do que seria o dia. Preparamos nosso café da manhã na expectativa de que tudo se esclarecesse com o evoluir das horas. Poderia ser um eclipse?

Já era meio-dia quando decidimos partir, mesmo no escuro, e tentar contato com a civilização que deixáramos há mais de 10 dias, no início de nossa caminhada. Era difícil andar pela mata à noite, mas era preciso descobrir o ocorrido… e tínhamos nosso GPS e o mapa da redondeza para nos orientar. Só não podíamos nos afastar demais das trilhas, para não complicar ainda mais nossa situação.

Caminhávamos lentamente… agora tanto fazia a hora de parar ou de montar acampamento! Fazíamos pequenas paradas apenas para descansar, comer e reidratar. Quase não conversávamos, pois estávamos assustados, incrédulos e temerosos diante desse fenômeno inexplicável. Tentamos nos manter nos vales dos rios, seguindo no sentido de sua correnteza. Certamente eles nos levariam para algum povoado, embora isso não mudasse em nada essa estranha realidade.

Para não perder a noção do tempo, anotávamos as horas e a localização em cada parada. Seguimos assim por três dias, acampando quando encontrávamos uma ‘clareira’ (essa palavra perdera o sentido, diante daquela situação), até chegar a Guiné, um pequeno povoado do lado oposto do Parque com relação a Mucugê. Pelo relógio, eram três horas da madrugada, mas as ruas estavam repletas de pessoas assustadas e incrédulas. As beatas rezavam, de terços nas mãos; as crianças corriam de um lado para outro, achando graça da liberdade de estar na rua a essa hora da noite; as lojas e bares funcionavam, pois os comerciantes se aproveitavam para vender mais; e os bêbados faziam a maratona de 24 horas de embriaguez!

A polícia e as autoridades não sabiam o que fazer! A televisão não funcionava e as linhas telefônicas estavam tão congestionadas que ninguém conseguia completar uma ligação. Carros de som apregoavam o ‘fim do mundo’, juntamente às beatas e aos crentes, enquanto grande parte da população chorava, gritando impropérios e palavras desconexas, às vezes xingamentos sem nenhum propósito!

Curiosamente, no horizonte havia uma tênue luminosidade avermelhada, como se os raios de sol procurassem uma fresta para voltar à vida… não havia essa luz quando estávamos nas trilhas… será que tudo voltaria logo ao normal? Os cães ladravam nervosos, atacando todos que aparecessem à sua frente; o delegado, irritado e impotente, mandou matá-los, mas a população não permitiu.

As notícias que chegavam, esporadicamente, das poucas ligações completadas, eram contraditórias e apavorantes! Alguns diziam que o mundo inteiro mergulhara nas sombras; outros, que a Terra se desprendera de sua órbita e vagava pelo Universo sem destino; outros ainda diziam que espíritos malignos desceram à Terra e buscavam as almas depravadas para levá-las para o Inferno! O pânico se alastrava e bandos de ladrões e desocupados invadiam as lojas, levando tudo o que podiam: comida, roupas, aparelhos elétricos… mas levar para onde?… levar para que?

Alto-falantes foram instalados nas ruas, e mensagens de ordem eram pronunciadas continuamente, tentando restabelecer a tranquilidade à população. Mas não adiantava; os próprios locutores denunciavam seu pânico na voz balbuciante. Os mais preparados tentavam organizar grupos de defesa civil, arregimentando pessoas mais controladas. Porém, não havia tempo para que esses grupos se entendessem e formulassem planos eficazes diante do desconhecido.

Foi nessa situação que chegamos a Mucugê, horas depois, levados por uma kombi velha conduzida por um motorista apavorado. O veículo sacolejara tanto que estávamos todos enjoados e doloridos. Mas era preciso seguir para um lugar com mais recursos, pois sabíamos que em Guiné também não tinha o que fazer para controlar a situação. Para nossa surpresa, porém, os moradores de Mucugê estavam tranquilos e conversavam animadamente nas ruas e praças da cidade. Procuramos o prefeito e relatamos o caos de Guiné e buscamos informações sobre o fenômeno sobrenatural. Apesar da aparente tranquilidade, ninguém podia esclarecer nada! O mundo estava mesmo na escuridão, e nada havia a ser feito!

No quarto dia, um fraco sinal de tevê podia ser captado. Uma tela foi colocada na pracinha e o povo se reuniu diante daquele ícone, como se fosse um altar, um oráculo que, a qualquer momento, traria um esclarecimento lógico, uma explicação científica ou religiosa para a escuridão do mundo… mas os noticiários eram tão confusos quanto o sentimento do povo, de cada um diante daquela situação absurda!

O tempo se passava e os mantimentos escasseavam nas prateleiras. Já não havia muitos bens essenciais e a população tentava sobreviver com coisas mais simples, tais como sementes, leite em pó, frutas, verduras… os animais haviam sido abatidos e devorados nos primeiros dias, em um ritual satânico impressionante, que nada deixava a dever para Ferreri, em ‘A Comilança’2! Os que sobraram fugiram dos cercados, ou foram libertados pelas almas bondosas…

Dez dias depois do anoitecer já não havia água potável nas torneiras; os riachos foram contaminados pelos dejetos lançados, pois não havia nenhum serviço público que funcionasse: coleta de lixo, saúde, segurança, educação, transporte… tudo sucateado em meio a preocupações com o pânico cada vez mais violento! Assassinatos, saques coletivos e brigas insensatas se sucediam, tornando quase impossível a vida nos aglomerados urbanos.

Fugimos de Mucugê enquanto era possível, e nos refugiamos no leito seco de um rio; mudávamos de lugar continuamente para evitar que fôssemos descobertos. Mantínhamos vigília o tempo todo, alternando as sentinelas, enquanto os demais cuidavam de nossa sobrevivência. Nossos mantimentos também escasseavam, mas conseguimos montar um plano de baixo consumo e de coleta que ainda nos sustentava. Não podíamos fazer nada além disso.

Uns trinta dias depois que o fenômeno apareceu, o mau cheiro se alastrava pelo ar, cada vez mais próximo de nós. Nos lugarejos, queimavam corpos em fogueiras para evitar epidemias. As mortes por violência diminuíam na medida em que a população quedava adoecida, a ponto de não mais lutar pela própria vida. Usávamos lenços improvisados sobre o rosto para reduzir o risco de contágio e prolongar a vida, ainda esperançosos de que tudo teria um fim.

Sabíamos que o Sol estava em algum lugar; que a Terra não se afastara de sua órbita; caso contrário, já teríamos morrido de frio. Nossas próprias teorias eram extravagantes e, não fosse a trágica situação, até engraçadas… dizíamos que a Natureza se sublevara contra a agressão do Homem e escondera o Sol em suas matas, nas cavernas ou nas profundezas do oceano…

Para alguns de nós, até fazia sentido… durante nossa caminhada, antes do escurecer, constatamos, inúmeras vezes, a marca da degradação causada pelo homem, nos rios, na extinção das espécies animais e vegetais, nas montanhas… é claro que não havia um deus das florestas, mas estávamos sendo punidos, de alguma maneira. Contar casos e elaborar hipóteses para a escuridão era nosso único entretenimento, fora a busca incessante por comida.

Não sei quanto durou a escuridão. Nós também morríamos lentamente e, depois de algum tempo que me pareceu a eternidade, eu estava só, dentro daquela caverna, no alto da montanha. Às vezes saía para olhar o horizonte: as chamas devastaram tudo que sobrou e iluminavam a paisagem. Voltava para dentro e não fazia nenhuma diferença; havia muito tempo que minhas baterias se acabaram e eu estava na completa escuridão. Aprendi o caminho, instintivamente, de tanto percorrê-lo, e encontrava com facilidade o leito preparado nas pedras. Aos poucos, desanimei de viver e de esperar… e resolvi ficar aqui dentro até que tudo se consumasse… afinal, refletindo sobre o absurdo daquela situação, eu me conformei com meu destino e permaneci deitado, olhando a tênue claridade que vinha lá de fora… acho que essas serão minhas últimas palavras…

Na boca da caverna, a silhueta de um felino me observa…

1Transcrevo esse pequeno conto de Rúben, de realismo fantástico, o qual ele me repassara depois de uma expedição pela Chapada Diamantina, no coração da Bahia. Ele idealizou esse sonho após percorrer os fantásticos caminhos daquele Parque Nacional, um dos mais belos só Brasil…

2La grande bouffle (em italiano: La grande abbuffata; no Brasil, A Comilança; em Portugal, A Grande Farra) é um filme franco-italiano de 1973, um drama dirigido por Marco Ferreri, em que quatro homens de meia-idade e bem-sucedidos decidem se refugiar em uma mansão para cumprir uma missão: comer até morrer. A Comilança põe em xeque o limite ao gozo que sabemos ser a principal consequência das contravenções que o sujeito exerce por habitar o espaço da cultura…

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

A Separação

Para quem o conhecia, Rúben era um filósofo, um sonhador, um pensador sem ambições nem vaidades, tendo uma vida reservada e comedida, sem desperdícios e incapaz de acumular riquezas. Talvez tenha sido este o motivo maior que o levou a se separar de sua mulher, depois de quase cinquenta anos de casamento. Ele sempre a amou, a adorou de uma forma idealizada, como a conhecera na adolescência. Era muito estranho que tenham se gostado tanto e convivido por tantos anos, sendo assim tão diferentes. Katya era uma mulher forte, determinada, agitada e extremamente ativa. Chegou a ter três empregos de uma só vez. Se somadas as horas que ela trabalhava em cada um, não lhe restariam horas suficientes para seu descanso. Ela era a referência familiar para a competência absoluta!

Fazia amizades com muita facilidade, comunicava-se com todos que a encontravam, era o centro das atenções onde estivesse. Sabia conquistar as pessoas pela sua presença marcante, pela sua inteligência e lucidez, pelo carisma que atraía a todos. Onde estivesse, todos a rodeavam para ouvir suas palavras e serem contaminados pela sua jovialidade e inteligência. Por essas qualidades ela conquistou Rúben, que a amava intensamente, apesar de não ser correspondido.

Katya tinha uma personalidade dominadora, chegando a ser agressiva e intolerante com Rúben e, depois, também com os filhos. Ao mesmo tempo, estava sempre pronta a ajudar àqueles que precisassem. Não se importava com nada que não fosse seu trabalho, seus amigos de serviço e sua liberdade absoluta em tomar decisões intempestivas, das quais jamais se arrependera, pois tinha o hábito de atribuir a outros os seus próprios erros, sem qualquer remorso. Graças a isso, eles tiveram muitos problemas de relacionamento, que Rúben acabava por assumir como seus, para evitar discussões e poupá-la de desfechos indesejáveis, o que o tornava culpado de tudo que ocorria.

Katya tinha alguns hábitos extremamente nocivos ao meio ambiente, como usar materiais descartáveis: copos, talheres, pratos… o descarte desses materiais contrastava com o cuidado de Rúben em manipular o mínimo de produtos não perecíveis. Enquanto ela desperdiçava em tudo, ele procurava usar qualquer coisa com absoluta parcimônia. Além disso, Katya era uma mulher tipicamente acumuladora. Guardava de tudo: roupas, medicamentos, enfeites, lembranças; tudo que lhe caía às mãos encontrava sempre um espaço na casa para ser armazenado, mesmo que nunca mais tivesse qualquer utilidade para ela, que os amontoava nos armários e fora deles, em sacolas e caixas, na sala e nos quartos… até na garagem e no próprio carro ela estocava uma enorme quantidade de objetos inúteis e descartáveis, que guardava como ‘tesouros’ inimagináveis!

Esse conflito durou quase cinquenta anos entre os dois. Muitas vezes ele tentava agradá-la, fazendo-lhe um carinho ou um agrado, trazendo-lhe alimentos na cama, onde ela passava todas as horas em que não estivesse trabalhando, falando com seus amigos na internet, jogando cartas e dormindo sobre o teclado, onde, não raro, caíam água e café, duas coisas que ela bebia exageradamente. Em dado momento, Rúben se cansou, e decidiu separar-se e viver solitário em um pequeno apartamento, bem próximo à sua amada, pois seu amor por ela nunca foi questionado, assim como sua tolerância.

Mas o motivo declarado da separação foi um flagrante que ela lhe deu, ao encontrá-lo com uma jovem em um boteco de esquina, perto de sua casa. Todos diziam que ele fora tolo demais, e se expôs de maneira infantil a uma situação injustificável. Porém, só ele sabia quantas vezes fizera coisas assim, deixando-se flagrar em cenas comprometedoras. Parece que, de fato, ele queria provocar a separação, pois não tinha coragem de deixá-la sozinha depois de tantos anos. E ela lhe cobrava: “não adianta reclamar, pois minha mãe disse a você que eu era assim, e que ela não aceitaria devolução”. De fato, embora fosse um argumento pueril, isso pesava muito para ele.

Naquele dia, ela o levou aos gritos pela rua, agredindo-o com as piores palavras que encontrou para humilhá-lo. Mas ele prosseguiu calado, ao seu lado, caminhando um pouco atrás, em passo lento, seguindo-a até dentro da casa. Lá, ela prosseguiu aos gritos até que sua emoção aflorou e pôs-se a chorar copiosamente, como nunca antes houvera acontecido. Nesse momento ele se viu acuado, pego em sua mais sensível fragilidade: Rúben não conseguia vê-la chorar, talvez porque ela só chorava depois de longas e dolorosas discussões. Mas, daquela vez, ele suportou em silêncio, calou-se, deixou que ela se acalmasse, e depois se afastou para seu quarto. Há vários anos eles já não dormiam no mesmo quarto, o que fora uma decisão terrível para Rúben, que amava até mesmo o calor de seu corpo junto ao dele.

No dia seguinte, ele entregou a Katya uma longa carta de despedida, uma declaração de amor. Deixou que ela lesse em silêncio, deu-lhe um beijo no rosto, preparou seu último cafezinho, trouxe-lhe torradas, frios, geleias e requeijão, em uma bandeja, e deixou-a sobre a cama. Não falou mais uma só palavra, e foi-se embora. Ao chegar na rua, suas pernas tremiam, sua vontade enfraquecia, seu corpo não se sustentava de pé, e ele deixou-se cair sobre um banco do jardim, em frente à casa. Permaneceu assim por algumas horas… ouvia os pássaros cantando nas árvores, via os carros passando sem lhe notar, via transeuntes apressados, tratadores de cães levando seus bichinhos, crianças com seus pais ou cuidadoras, indo para a escola… era um dia como outro qualquer, mas não para ele. Estava só como nunca esteve.

Sentiu-se, ao mesmo tempo, livre e desconsolado… jurara para si mesmo que a faria feliz, dedicara sua vida a cuidar-lhe, tentava adivinhar seus mais secretos pensamentos e desejos, procurava satisfazer seus menores desejos, dava-lhe presentes em todas as datas importantes para ela, abria mão de seus próprios interesses para satisfazer os dela… Porém, por uma razão que ele desconhecia, nada a tornava mais amável, gentil ou delicada. Rúben era um homem de poucas palavras, mas tinha certo talento para escrever, e seus bilhetes, suas cartas, seus poemas eram sempre dedicados à sua paixão por Katya. Ela, porém, desprezava essas gentilezas, escondia os presentes que recebera e aumentava, a cada dia, sua intolerância aos menores sinais de ‘desobediência’ de Rúben às suas rígidas determinações.

Levantou-se do banco do jardim e caminhou durante horas pelas ruas, pela madrugada, pelas lembranças… alternava a tristeza com a frustração de não ter podido torná-la feliz. Trazia para si a culpa dos desencontros do casal, como se ele tivesse descumprido alguma regra de ouro do relacionamento conjugal quando sentou-se com aquela rapariga num bar de esquina. Ele não conhecia a garota… viu-a passar e, quase por instinto, convidou-a a sentar-se, ofereceu-lhe uma bebida, admirou-a, conversaram trivialidades e foram para o quarto dela em um prédio de segunda categoria, onde ela dizia morar. Era um lugar sombrio, lúgubre, sinistro… sentiu-se mal e saiu, com a garota atrás dele… sentaram-se de volta à mesa do bar e ficaram em silêncio… e foi aí que Katya apareceu e os encontrou ali, tão estranhos um ao outro quanto dois desconhecidos de pé, lendo, cada um, seu jornal, em um vagão do metrô, às seis horas da tarde…

Já de fora do bar, na calçada, ela vociferava impropérios impronunciáveis, atraindo a atenção de todos que estavam no boteco e na calçada em frente. Rúben não teve iniciativa nem tranquilidade suficiente para desmentir o que pareceria óbvio a qualquer pessoa. Ela era uma garota de programa e ele, um velho decrépito, em uma aventura escandalosa, diante de todos. Fora flagrado em público, e não se defendeu. O que se passou em seguida é a narrativa que antecede a esses esclarecimentos totalmente desnecessários.

Esse fato poderia ter sido contornado, evitado, esquecido… mas ele preferiu usá-lo como argumento infeliz de sua derradeira despedida. Ele se foi com sua mágoa, com sua vergonha, tristeza e arrependimento, deixando a ela, sua mulher, a justificativa que queria para a sociedade, que nada tinha a ver com suas existências. Certamente, seria motivo para horas de cochichos, fofocas e fantasias eróticas nos salões de beleza, nos saguões dos edifícios, nos cafezinhos do trabalho de ambos, nos meios familiares e nos clubes que frequentavam. Para Rúben, esses seriam motivos suficientes para que ele mudasse completamente sua vida e os ambientes que frequentara por mera educação. Para Katya, sua ‘vergonha’ era, ao mesmo tempo, assunto para denegrir ainda mais o nome do ex-marido, e motivo para chorar publicamente sua desgraça, enquanto sentia um alívio por ter se livrado, definitivamente daquele estorvo que tanto espezinhara enquanto permaneceram ‘juntos’.

Nenhum dos dois voltou atrás, nem manifestou qualquer arrependimento, pois o desgaste do relacionamento era tão grande que essa decisão parecera conveniente a ambos, talvez tardia, talvez errada, mas adequada. Depois desse desfecho nunca mais se falaram. Mantiveram uma distância segura, não visitando os filhos sem antes verificar se ‘o outro’ não tivera a mesma intenção.

Para os filhos, passado o escândalo, também pareceu algo que poderia ter acontecido há muito tempo, sem desentendimentos e de forma ‘civilizada’, como costuma acontecer nos casamentos que se acabam. Afinal, a separação conjugal é a forma amigável para evitar dissabores… poucos, porém, superam com elegância essa situação…

Depois de um ano nenhum dos dois pareceu ter sofrido muito com a separação. Katya continuou se dedicando ao trabalho e aos amigos, enquanto Rúben se fechou em seu mundo particular, dedicando-se à leitura, aos longos textos que costumava escrever, e aos filhos e netos, que acabaram achando a solução excelente.

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

O AVC

É uma casa confortável, simples, para onde se mudara depois da separação. Deixara de trabalhar, por ter-se aposentado, e fora buscar um local adequado, mais simples, próximo à natureza, e com possibilidade de cuidar de um pequeno sítio. Uma pessoa de idade, tranquila, sozinha… imersa em suas reflexões… todos os dias levanta-se ao nascer do sol, deita-se quando ele se põe, como uma ladainha, um canto gregoriano que parece não ter fim. A vida é assim, para ele e para todos os seres da Floresta. Ali era sua floresta, no meio dos homens, mas apartado de todos. Sua existência era um paradoxo, uma contradição para aqueles que não o viam, não o compreendiam. Ele amava essa solidão em que vivia. Dormia com o escurecer, acordava com o alvorecer, se alimentava como os animais selvagens. Não planejava nada, pois acreditava que tudo existia para ser apreciado e utilizado na medida certa, na hora exata de sua necessidade, nunca antes, nem depois. Essa era sua filosofia de viver.

No seu exílio voluntário, cuidava da horta, alimentava seus animais, brincava com o cão, preparava os alimentos, dentre os quais abdicara-se das carnes desde que fora morar sozinho. Cuidava da terra para que ela revivesse com as sementes que lá existiam, em longa letargia, dormentes sob a terra, mas não mortas. Essa era a figura de sua futura condição. Também ele entraria nesse estágio letárgico até que uma alma generosa aparecesse para despertá-lo, e aquele seria seu momento de ir-se para sempre. Ele sabia disso mas não se preocupava, pois era o destino que desejara por toda a vida.

Naquele dia ele percebeu que era chegado o momento de se despedir da vida consciente. Cuidou, como sempre, de seus afazeres, como se nada estivesse por acontecer. Retirou os ovos dos ninhos das galinhas, varreu o terreiro, colocou o milho nos cochos, cuidou das hortaliças, refez o ciclo de compostagem, colheu as verduras e legumes que estavam no ponto, tirou o leite da vaquinha que, como todas as vacas das histórias, se chamava Mimosa. Seu cão Teco, o mesmo nome do cãozinho que tivera na infância, o acompanhava por todo lado. Era seu único e fiel companheiro inseparável.

Recebeu seus vizinhos, que todos os dias, no mesmo horário, iam comprar seus produtos orgânicos, inclusive o leite da Mimosa. Eles sempre pediam para comprar as galinhas, mas ele não as vendia, para que não fossem mortas, levadas à panela e devoradas. Era um vegetariano, depois de tantos anos comendo carne. A renda dos ovos e das hortaliças eram suficientes para sua sobrevivência. Não tinha automóvel. Quando precisava ir à cidade, pedia para um de seus filhos, que o levavam e traziam, com carinho e dedicação. Já não se lembrava de sua vida passada, quando ainda trabalhava em empresas, como tecnólogo da informação… não era uma boa lembrança.

Não assistia televisão. Para ser mais exato, ele não tinha televisão. Possuía um computador apenas, porque assim não precisava ir ao banco para efetuar pagamentos. Sua vida era pacata e tranquila. Aos fins de semana recebia a visita de seus filhos e netos, que brincavam com as galinhas e com o Teco, que como seu antecessor, adorava crianças, mesmo que elas, às vezes, o incomodassem bastante. Depois que todos iam embora, o sítio também descansava…

Mas naquele dia ele sabia que algo de muito ruim estava por acontecer. Por isso, recolheu-se mais cedo, não sem antes preparar os alimentos dos animais, em dobro do que costumava. Certamente, já esperava que essa coisa ruim o impediria de cuidar de seus animais. Foi para o quarto, deixando ao seu lado o celular, outra novidade tecnológica da qual não se apartava, pois sabia que era imprescindível para quem morava sozinho. Desta vez, não ativou os alarmes de segurança, pois talvez precisasse que alguém o socorresse no meio da noite. Deitou-se e se cobriu, pegou um livro sobre o criado-mudo, acendeu o abajur e apagou a luz do quarto, pôs-se a ler com dificuldade. Percebeu que não conseguia se concentrar. Sentia um desconforto estranho, uma vontade de dormir, um medo de morrer…

De repente, sente uma dor de cabeça muito forte e tenta pedir socorro, mas não consegue; é uma dor terrível, e ele não pode articular uma só palavra sequer… ele não consegue movimentar a mão para usar o celular e chamar as pessoas… aquela dor lancinante faz com que tudo fique obnubilado1 na sua consciência. Então, como um último e derradeiro gesto, ele aperta o botão de emergência do celular e, em seguida, desmaia. Aquele gesto quase inconsciente fora muitas vezes imaginado, e acionaria duas ligações gravadas para seus dois filhos… e eles sabiam que aquilo significava uma situação de emergência com seu pai… e que eles teriam que correr, pois o pai, provavelmente, não conseguira se comunicar. Seus filhos mais velhos chegam quase ao mesmo tempo e o encontraram prostrado, caído no chão à beira da cama, inconsciente. Nem esperam a chegada da ambulância, levando-o rapidamente para o hospital. E então, depois de alguns exames, os médicos constatam que ele tivera um acidente vascular cerebral. Ele é internado imediatamente.

A partir desse dia começa um longo e sofrido processo de tratamento… e intermináveis momentos de silêncio e solidão passam a acontecer na vida daquele moribundo. Ele está em um quarto na UTI… e, do fundo da sua consciência, surge um pensamento vago, perdido, inútil assim como ele… Um vai e vem constante de pessoas passando pela porta do quarto da UTI… médicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos de laboratório… é noite… e aquele movimento continua… a consciência dele é muito tênue e apenas percebe que existem movimentos e pessoas passando sem cessar… ele pensa “onde estou?” mas ele não consegue entender ainda onde está… porque estaria ali… quem o levou para aquele lugar… De vez em quando, uma enfermeira entra e pronuncia algumas palavras, que ele não é capaz de compreender. Tira o sangue… Verifica o soro… Injeta um medicamento na sua veia… enfim, ele está sendo tratado, mas a consciência é muito superficial; ele não consegue concatenar nenhum raciocínio, e aquela situação começa a se tornar a sua nova vida.

Aos poucos volta-lhe a consciência, e ele percebe que sofreu um AVC… mas Rúben está imóvel; ouve seus filhos chegando, conversando com ele, perguntando coisas, às vezes chorando… e ele não sabe o que fazer, porque não tem movimento algum. E aí começa a se lembrar do passado, da época em que esses filhos eram crianças e ele os levava a passear em parques e montanhas, tentando dar-lhes uma consciência ambiental, ter respeito pela vida… não só pela vida humana, mas por toda a vida que existe nesse planeta. Ele se lembra de contar longas histórias para as crianças… passear tranquilamente pelos bosques, relatando aquilo que foi para ele uma construção de longos anos de trabalho: o meio ambiente, a natureza e, contrapondo a isso, a visão tecnicista que dominava a sua vida profissional. Foi um programador de computadores e analista de sistemas; ele trabalhava com essas máquinas para construir a consciência, se assim podemos dizer, dessas máquinas. Ele as fazia viver, de alguma forma. E aquele que conseguia fazer uma máquina viver, não conseguia, ele próprio, demonstrar que está vivo. Porém, o que lhes parece é que ele está inconsciente. Essa angústia é o seu primeiro momento do despertar. E de percepção da situação em que foi colocado devido ao derrame.

Nesse momento percebe que já não enxerga mais nada, nem um clarão sequer… seu mundo penetrou na mais profunda ‘caverna’ que sua mente consegue relembrar… ‘escuta’ aquele silêncio vindo do interior das cavidades que ele visitou, e se sente em casa, por alguns instantes… mas é estranho ouvir vozes, palavras quase incompreensíveis, e ao mesmo tempo estar em uma ‘caverna’ de seu próprio corpo, na escuridão que não lhe poupou, sequer por um segundo… estava em um outro mundo que não o seu, diferente de tudo que ele construíra com tanto esmero enquanto em vida…

Daquele instante já não poderia mais se comunicar com seus filhos e netos, não poderia mais contar-lhes suas aventuras, explicar-lhes seus pensamentos mais profundos, falar de seus valores, seus princípios, tudo aquilo que norteou seus atos. Definitivamente, estava só como nunca antes estivera em vida… nem mesmo na solidão das florestas e das montanhas se sentira tão solitário como naquele quarto de hospital… recolhera-se, definitivamente, ao silêncio mortal que o levaria da presença de seus entes queridos, mas nem sabia por quanto tempo permaneceria nesse limbo de escuridão e de silêncio.

Dias e noites seriam, para ele, a mesma coisa, o mesmo éter que preenche todos os espaços do Universo sem que ninguém saiba defini-lo. E naquele éter estava ele a flutuar, no mais absoluto silêncio que nenhum ser vivo pode conceber. Silêncio, escuridão e solidão…

Rúben percebe que uma muralha se ergueu entre ele, o mundo exterior e as pessoas que ele tanto amava. Já não podia colocar seus netinhos no colo, contar-lhes as histórias de aventura que ele próprio vivera, mas que as crianças ainda não eram capazes de compreender.

E esse muro intransponível o tornara prisioneiro de sua mente avariada, onde passado e presente se confundem na desordem de seus pensamentos desconexos… mesmo os sons difusos que percebe não lhe são compreensíveis, como palavras proferidas em outra língua estranha. Seus olhos mergulharam na escuridão e, sua mente, confusa.

Aos poucos toma consciência desse estado letárgico que agora era seu novo mundo, sem personagens, sem ação, sem palavras. Já não poderia conversar, nem ler, nem degustar um alimento… tornara-se um morto-vivo, um personagem de um livro não escrito…

E, nessa paisagem morta, ele sequer estava representado, pois sua mente, sem a sensibilização das imagens do mundo real, também não conseguia lembrar-se das imagens que estiveram presentes ao longo de toda sua vida… nem rostos de pessoas conseguia recordar.

Uma sensação claustrofóbica acometeu-o por alguns instantes, mas logo desapareceu, por não ter como se manifestar através daquele ser transformado em uma esfinge, uma escultura, um mero retrato. Não, ele era, na verdade, um espaço vazio, um objeto que permanecia ali, sem vida aparente, embora, em suas artérias, o sangue ainda corresse, alimentando as células, sem permitir, contudo, que elas adquirissem forma e conteúdo, como em todos os seres humanos…

Finalmente, conformou-se com esse novo estado de não-ser em que se tornara… aquietou-se a sua alma, se ainda a tinha, e uma sensação de alívio tomou conta de seu ser… sabia que estava vivo!

1Obnubilado – ofuscado; que se escureceu; que se tornou obscuro, como se visto por nuvens: visão obnubilada. Acometido por obnubilação, alteração da consciência definida pela ofuscação da vista e ‘escuridão’ do pensamento. [Wikipedia]

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Relembranças

Mesmo cenário: um quarto de hospital… a UTI. Tudo em alta tecnologia, equipamentos de última geração. Uma atividade frenética! O tempo todo essa agitação… e, vez por outra, alguém entra no quarto, fala alguma coisa para ele, mesmo sabendo que ele não pode responder… não tem como reagir. Realmente, ele não entende o que estão dizendo. Ele só sabe que está lá, naquele hospital, naquele quarto de ‘hotel dos enfermos’, sozinho. Sai uma visita… as pessoas têm bastante carinho por ele, mas ele não tem como fazer um único gesto em retribuição. Às vezes ele devaneia, volta à sua infância… lembra-se daquela cidadezinha do interior… em sua casa havia um galinheiro, um cachorro chamado Teco, passarinhos presos na gaiola. A cidade não tinha calçamento. Também não tinha água corrente, nem esgoto… cada casa era como uma unidade autônoma: tinha seu poço, com manivela e balde, de onde era retirada a água para beber e cozinhar… tinha a cisterna, onde eram jogados os dejetos humanos, outro poço profundo, e uma laje de concreto tapando sua boca… havia algumas árvores frutíferas e também as galinhas. Havia um grande gramado, onde as roupas eram estendidas para corar, que se chamava ‘quarador’ (ou coradouro)… não tinha luz elétrica… apenas lampiões a querosene, que chamavam de ‘Aladim’, a lâmpada maravilhosa do gênio oriental, e ele se lembra que era feliz com seu pai e sua mãe… eles eram felizes naquela simplicidade de dar dó…

Aquela pequena cidade era como a extensão de sua família, e ele cresceu assim, lembrando dos detalhes dessa vida: as brincadeiras da molecada, as obras da estação ferroviária, as corridas desenfreadas das bicicletas na descida do aterro, onde colocariam os trilhos do ‘trem de ferro’, os carrinhos de ‘rolimã’ (uma prancha de madeira, com duas traves como eixos, e rolamentos de caminhão para servir de rodas), as longas horas colando folhas de papel de seda em dois gravetos de bambu, cruzados, para empinar papagaio… tudo aquilo havia na pequenina e simples sociedade de então.

Ele se lembra disso e, ao mesmo tempo, essas memórias são interrompidas pelas falas das pessoas, que entram e saem do seu quarto, mergulhado na penumbra por grossas cortinas cheirando a mofo… e aquele silêncio que ficava quando todos saíam, deixando-o só com seus pensamentos… um silêncio tão grande que calava até mesmo os seus pensamentos, as suas lembranças… um silêncio ensurdecedor que transforma tudo num vazio absoluto… e, de repente, retorna algum barulho, alguma fala, alguma presença que ele não consegue perceber ou discernir… seus olhos não veem… estão voltados para dentro da sua própria alma. Era através da sua alma que ele enxergava seu próprio passado. E assim vão se seguindo os primeiros anos de escola, aprendendo com sua mãe o ‘beabá’, aprendendo a ler, a escrever, a fazer números e contas, a entender que aquela cidadezinha não era o mundo dos seus livros. “Mas que mundo estranho é esse que eu ando… ando… ando… e não saio do lugar… Como pode um mundo ser tão grande como eles dizem?…” E o passado?… o passado de uma criança é aquilo que ele fez no dia anterior, em dois dias antes, em uma semana antes… é aquilo que cabe na sua pequena memória, ainda em formação, em construção.

E assim ele vai aprendendo, e vai se transformando em um adolescente. E, de repente, nesse turbilhão de memórias, ouve-se um barulho! e todos correm para o leito dele, o Rúben… “aparentemente, alguma coisa está errada. Será que estou morrendo?” e vêm todos correndo para cima dele… e ele perde a consciência… os médicos estão muito agitados, a família foi chamada; ele teve mais uma parada cardíaca – parada cardiorrespiratória – e foi ‘ressuscitado’… deram-lhe medicamentos para que ele não parasse de viver. “Mas que viver é esse? que viver é esse que não permite que um ser interaja com seu próprio meio?”… Os filhos conversam sobre essa situação. “Como nosso pai foi chegar a esse ponto? Como ele conseguiu fazer tanta coisa na vida e agora estar aí, como um fardo abandonado, e nós não conseguimos mais nos comunicar com ele? Pai! Pai! Você está nos escutando, pai?” …só o silêncio… “Pai, nós viemos aqui te ver…” um beijo… um abraço… uma lágrima escorre, discreta, disfarçada, em sua face… tão disfarçada que ninguém se apercebeu disso… mais nenhuma reação, e tudo mergulha de novo na escuridão e no silêncio.

Passam-se os dias… passam-se as semanas… e aquele estado letárgico, inerte, não se modifica. O problema cardíaco foi superado; porém nenhuma possibilidade de cura. Nenhum resquício de vida se manifesta naquele corpo semivivo… os filhos já não o veem com tanta frequência, mergulhados que estão nas suas próprias vidas, atribuladas, corridas, tentando conquistar seus próprios espaços nesse mundo… e o pai fica lá… aos poucos, de dentro desse ser, começam a voltar seus pensamentos, as memórias… tudo muito espaçado… sem concatenação… sem relação com a realidade ao seu redor… apenas pensamentos que passam por aquela mente, aparentemente vazia… e ele começa a perceber, novamente, a presença das pessoas… começa a ter noção daquele Novo Universo em que ele se encontra não se sabe há quanto tempo. Seriam semanas? Seriam meses? …talvez anos…. Pouco lhe importa o tempo… nada significa.

E vem uma enfermeira lhe dar banho, vem outra e lhe injeta alguma coisa na veia… falam algumas palavras… dizem seu nome. “Olha, senhor Rúben, nós vamos dar-lhe um remédio agora, certo? Fique calmo, que vamos cuidar do senhor”… e lhe viram e reviram, tiram-lhe a roupa, lavam-no como a um bebê, passam óleos, pomadas… passam-lhe cremes para não formar escaras… lavam-lhe o rosto, escovam-lhe os dentes, sem que ele tenha que movimentar um só músculo! Limpam-lhe as orelhas, cortam-lhe os cabelos… e ele ali, como um boneco de pano, sendo movimentado para lá e para cá… tiram-lhe daquela cama e colocam-no em outra maca para fazer uma radiografia… uma tomografia… depois trazem-no de volta.

Sua vida fica restrita a esse movimento incessante que acontece ao seu redor. Ele se tornara um espectador de si mesmo, com alternância de algumas memórias e, às vezes, um silêncio que recai sobre elas… absoluto… um limbo, um vazio de pensamentos… uma solidão que não dói… uma solidão que não se sente…

Mas alguma coisa faz com que ele desperte desse estado de catarse e volte a perceber a presença de alguém… ainda que apenas por um momento. Agora é um parente que veio visitar-lhe. E traz consigo alguma coisa: um bolo, salgadinhos, refrigerantes… outros chegam e cantam “parabéns a você!”… “é o seu aniversário!”, dizem… “viemos comemorar com você!”, justificam-se… comem, bebem, abraçam-se, beijam-se… conversam… fazem de tudo para fingir, ou parecer que é uma situação normal… uma família. “Estou perto de uma mesa… mas lá só tem um corpo… inerte… o meu!”.

E logo essas pessoas despedem-se e vão-se embora, e volta aquele vazio interminável… apenas aquele tempo que não transcorre… nem mesmo as frações de segundo são desperdiçadas para mostrar que o ciclo da sua vida é uma eternidade.

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

A Eutanásia

No quarto do hospital, as pessoas conversam agitadamente a respeito da decisão sobre desligar os aparelhos do pai… do avô que está ali na cama, imóvel e, aparentemente, sem saber de nada. E cada um se lembrava de algum detalhe do passado… memórias sobre como ele era quando estava bem de saúde, como era a dinâmica da sua casa, como ele gostava de viver… como ele lutava por participar de tudo, da vida em família… das discussões políticas… das questões sociais e ambientais… de tudo! E, de repente, aquele terrível choque, aquele baque decorrente do dano cerebral… a hemorragia… o AVC!

Lá estão, filhos e netos, discutindo como seria difícil tomar uma decisão como essa! Mas, enfim, todos concluem: “mas coitado… ele está aqui, nesse hospital, há tanto tempo… desse mesmo jeito, imóvel, inútil, sofrendo, com dificuldade de digerir, mesmo que tivesse apenas nutrição parenteral1, incapaz de se comunicar… tornou-se um ser em estado vegetativo… um ser inerte…”; alguém chegou a afirmar “eu não gosto disso… é muito difícil decidir… mas, por outro lado, estamos fazendo um enorme sacrifício para manter nosso pai… nosso avô vivo, sendo que ele não compartilha mais nada conosco… ele se tornou um incômodo… enfim, é para o seu próprio bem”. E aqueles argumentos vêm para justificar aquilo que ninguém queria fazer, mas todos almejavam, no fundo da sua alma… todos queriam acabar com esse sofrimento, que era de todo mundo, enfim.

Depois, essa discussão vai aos poucos se tornando mais branda, menos tensa, menos constrangedora, e todos acabam por se conformar com a decisão consensualizada de desligar os aparelhos. Enquanto tudo isso acontece na mente daquele ancião, milhões de imagens voltam em cena… e ele pensa “eles vão me matar! Vão por fim à minha vida… justamente agora que eu sei… que estou consciente… eu só preciso voltar a me movimentar… preciso me comunicar com eles… preciso tomar conta do meu corpo novamente… pois sei que estou vivo… sou capaz de me lembrar de detalhes da minha vida… minha consciência voltou… e quero voltar a viver… não posso morrer agora!” …mas aqueles que estão de fora daquele corpo não sabem que ele não quer morrer. O que eles pensam é que, de fato, ele não tem consciência de mais nada. É apenas um organismo inerte que está lá, sem consciência, sem vontade, sem capacidade de reação… um morto-vivo, “um estorvo”…

Então, na medida em que essa situação se evidencia, na dicotomia entre o que está na mente daquele moribundo e o que está em discussão em torno dele, chega o médico. “E então, família, vocês chegaram a alguma conclusão? Vocês sabem o que querem fazer? É preciso decidir logo, pois não poderemos mantê-lo para sempre neste leito do hospital. As despesas estão elevadas para vocês, eu sei, e faltam leitos para outros doentes. Se preferirem, podem levá-lo para casa, deixá-lo aos cuidados de enfermeiros. Pode ser que ele viva algum tempo mais…”. Porém, o filho mais velho diz: “Não, doutor. Nós decidimos… nós optamos por desligar os aparelhos”. Isso fez com que aquela mente despertasse, momentaneamente, daquele torpor… e ficar desesperado… O ancião estava tão angustiado que pensou, quase gritando, “eu não quero morrer!”… mas Rúben não consegue mexer uma pálpebra.. ele não consegue esboçar um sorriso… ele não consegue mover nem mesmo um dedo… ele não consegue fazer nada para dizer “olha, eu estou aqui! E estou vivo!”

Nesse momento, Rúben se recorda daquela mensagem que captou antes de sofrer o infarto: “a vida é uma sucessão de perdas…”. Sim, parecia claro, agora! E essas perdas não são apenas físicas, mas éticas, morais, sentimentais, familiares… tudo se tornara mais nítido em sua mente… ele estava perdendo o afeto de sua família, tornara-se um fardo, um estorvo, um objeto descartável, inútil, desprovido de sentimentos, pronto para ser excluído do meio familiar e ser esquecido como algum objeto deixado em alguma estação de metrô…

Nesse momento, sua consciência se apagou… deixou-se levar pelas ondas de pensamento como um fluído que se esvanece no ar, levado pela brisa delicada que exala das profundezas e segue, sem controle, pela atmosfera, sabe-se lá para onde, como o néctar de uma fruta a se transformar em mel… ele se fora para longe deste mundo…

Um ser sem corpo flutua no espaço, como um sopro a empurrar uma pétala, que se balança, sobe, desce, é levada por uma corrente de ar e se perde no infinito… Rúben já não percebe seu corpo, mas movimenta-se conforme sua vontade, percorrendo espaços em frações de tempo impossíveis de se mensurar.

O que lhe move são os pensamentos, e ele os segue sem esforço, sem cansaço, sem a percepção do espaço percorrido. Basta imaginar a cena e Rúben está lá, torna-se o próprio cenário e os objetos que o preenchem. Uma sensação de leveza, de fluidez, de ausência de peso e mesmo do ar a dificultar os movimentos.

Seus olhos, bem como seu corpo, não existem, e mesmo assim ele se sente inteiro, pleno em corpo e consciência, pois interage com aquilo que lhe parece outra dimensão do espaço-tempo, que ele desconhece. Tudo é um só fluído, mas cada qual tem sua forma, única, diferenciada, coisas, seres e espaço com sua personalidade…

Não precisa de esforço para ‘ver’, ‘mover-se’, ‘sentir’, pois Rúben é pleno Ser naquele espaço em que nada se dissocia do resto. Por mais incompreensível que lhe pareça, ele não consegue se diferenciar do que está ‘fora’ de sua própria dimensão.

Tudo e Um se confundem, porém mantêm diferentes aspectos, sensações, cores, temperaturas, densidades, formas… e, no entanto, nada lhe parece estranho, como se sempre tivesse estado ali, interagindo permanentemente com todo o Universo ao seu redor…

Aos poucos, tais sensações se afastam e ele adormece…

1Nutrição parenteral (para – além do, ènteron – intestino) – administração, por via endovenosa, de nutrientes como glicose e proteínas, bem como água, eletrólitos, sais minerais e vitaminas. (Alimentação por sonda, em linguagem coloquial) [Wikipedia]

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Tempos de Escuridão

Passa o tempo e passam, também, os seus familiares. Falam com ele… mas alguma coisa parece que mudou. É um quarto comum, e eles falam “que bom! ele já não precisa mais ficar monitorado o tempo todo! pode ficar numa cama!” Tiraram-lhe os aparelhos. Está lá, deitado na cama, igualmente inerte, completamente imóvel. Mas agora tem apenas uma perfuração na veia… um caminho que lhe conduz alimentos, medicamentos, soro… é a conservação da vida, em um momento estático, que não se transforma. E suas memórias voltam… e ele se lembra do tempo em que todos tinham medo.

E ele sente o medo, como sentira no passado. Não era medo; era pavor!… era terror!… era o desespero de saber que, de um momento para outro, ele poderia ser pego e levado para os calabouços da ditadura, torturado das formas mais cruéis, enfiando nele fios ‘vivos’, em todos orifícios de seu corpo, dando-lhe choques, batendo nele no ‘pau-de-arara’1, enfiando-lhe a cabeça dentro d’água até quase morrer afogado… pessoas gritando, chutando, violentando-o… e não era apenas ele; eram muitas pessoas, cada hora uma!… e ele se lembra de tudo, e sente a dor daqueles momentos intermináveis.

E parece que estar inerte aumenta mais ainda aquela dor, aquele sentimento… está no seu interior, e agora ele não pode fazer nada para fugir desse tormento. Ele está enclausurado dentro das masmorras da ditadura e sofre o terror de seus algozes!… sofre como nunca sofreu!… como nunca na sua vida sentiu!… porque agora, mais do que nunca, ele não pode fazer nada; nem se quisesse confessar, delatar seus companheiros, nem isso ele pode. E aquele sentimento de rancor, de ódio guardado no coração por tantos anos, contra essas pessoas que não são seres humanos, são monstros!… e que ainda o domina… ainda permanece arraigado em sua alma…

Uma sensação de impotência, de incapacidade de reagir… esse estado durou horas, talvez dias, quem sabe. Ele não sabe o que é matar o tempo, mas a sensação era muito pior do que a realidade que ele viveu! A dor era muito maior que ele… não sangrava, mas sentia o sangue se esvair de suas veias, correndo para o ralo. Aquelas imagens permearam todo espaço ao seu redor, e não percebia mais as pessoas que estavam lá. Voltou a sentir-se só… Talvez assim, alguma imagem Rúben pudesse transmitir aos outros, mostrando que ele tinha alguma consciência diante de tanto terror. Mas não… aos poucos se acalmava, e via que, ao seu redor, as pessoas conversavam as mesmas coisas, as mesmas banalidades, as mesmas inutilidades de cada visita, ora o tratando com carinho, e dizendo que sentiam sua falta, ora conversando trivialidades do seu próprio dia a dia, ora reiterando a necessidade de se tomar uma decisão a respeito do seu pai…

Suas masmorras não eram nas torres de um castelo medieval, mas dentro de sua alma… eram feridas não cicatrizadas, produzidas por vinte e um anos de ditadura feroz, medonha, cruel, que afetou milhares de famílias, órfãs de seus próprios filhos, não mortos, mas desaparecidos, como fumaça na escuridão… eram zumbis que vagueavam pelos caminhos obscuros daquele mundo que não era o nosso, como não era aquele o país em que nascemos, nem os soldados, igualmente filhos de brasileiros como nós, mas que guardavam na alma a crueldade de assassinos sanguinários… e Rúben conhecera muito de perto esse estranho país – prisão – sanatório onde seres humanos eram torturados até além dos limites da resistência heroica, inglória, injusta, até confessarem o inconfessável, muitas vezes mentiras que inventavam apenas para ter alguns minutos de clemência até voltarem os horrores cometidos em nome da ‘Pátria’!

E o que seria uma pátria, senão um território ocupado por gente, cercado por fronteiras que impediam o vai-e-vém de pessoas de outras ‘pátrias’ semelhantes, vizinhas, que passavam pelo mesmo clima de terror e ódio sem tamanho?… Esse pesadelo durou uma geração inteira, que se rebelou, que lutou, que desapareceu, que morreu sem ter trazido a paz para a Nação Brasileira, esse sim um conceito verdadeiro, repleto de significado e significâncias que acrescentamos ao nosso lar cada vez que enriquecemos nossas culturas, nossas tradições, nosso amor pelo povo que aqui vive e aqui morre feliz por ter nascido em um lugar tão belo e tão nosso!

Mas a Nação verdadeira é apenas uma Utopia, uma abstração do pensamento, um sonho nunca realizado, apesar de tantos que morreram em nome dessa esperança de ter, para seus filhos, aquilo que nunca conheceram em vida… Nação de todas as etnias…

A realidade é outra, muito diferente, a de um país cujos seres originários foram massacrados durante cinco séculos, reduzidos a reles animais, escravizados, esbulhados de suas culturas, seus valores, suas crenças, suas tradições, suas divindades, apenas para enriquecer os invasores, de cujas terras eles jamais ouviram falar..

A realidade é bem outra, onde as florestas e seus habitantes, animais das mais diversas formas, cores e belezas incomparáveis, foram dizimados por cinco séculos para satisfazer a ganância dos invasores, que se enriqueceram de ouro, sugando as riquezas verdadeiras que essa terra guardara durante milhões de anos.

Outra é a realidade onde as minorias se enriquecem ao empobrecer as maiorias, expurgando-as dos direitos mais fundamentais de qualquer ser vivo, de procriar, de se alimentar dignamente, de ter suas próprias moradias, de conviver em paz!

No entanto, tantos anos de escravidão, de desperdícios, de devastação, de emporcalhamento desse território tão belo e tão desprezado, justamente por aqueles que mais se locupletaram de seus tesouros, para proveito de tão poucos, como se essa terra tão rica não pudesse fazer felizes a todos os seus habitantes, de todas as etnias e crenças, de todas as origens e falares, de todas as memórias…

1 ‘pau-de-arara’ – trave horizontal onde o prisioneiro, de olhos vendados, é pendurado de cabeça para baixo, entrelaçando as mãos sob os joelhos dobrados, amarrado pelos tornozelos e punhos, onde é submetido a choques elétricos, pauladas, banhos de água gelada e tortura psicológica.

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Expansão da Consciência

Um dia, ele ‘despertou’… ou melhor, se deu conta… não se pode dizer que ele acordou, porque já quase não dormia, ou, pelo menos, dormia apenas seus sonos intermitentes. Alternava as perdas de consciência e as retomadas, mas não tinha a percepção do dia e da noite, de acordar e de dormir, de repousar e estar em atividade, ter algum movimento… ele apenas percebia ou deixava de perceber… e, nesse momento, ele percebeu-se num ambiente estranho, praticamente desconhecido… parecia uma imensa montanha… cumes congelados, árvores altíssimas… e o silêncio da vida era tão grande quanto o silêncio da sua alma. Ele percebeu-se num deserto gelado, um lugar extasiante, uma paisagem ao mesmo tempo bela e transcendente. A solidão absoluta, porque ali nem almas existiam.

Nem a própria alma dele estava lá… apenas a percepção desse espaço aparentemente infinito… ele imaginara que talvez tivesse passado dessa vida para outro estágio de consciência. Sentiu até uma certa paz. Sentiu uma relativa tranquilidade. Não havia mais dor, até porque a dor que ele sentia não era uma dor física, era uma dor espiritual; mas, naquele momento, diante daquela imensidão toda de vazio, ele não sentia nem percebia a ausência das pessoas… será que lá estariam as mesmas pessoas, naquele quarto? Ele não sabia… era uma solidão sem dor. O vazio era mais do que uma solidão… era um vazio maior do que uma ausência… era o Nada!… aí ele se deu conta do que é ser ‘nada’. Até a paisagem gelada desapareceu.

Ele estava num limbo absoluto… sem luz… sem som… sem movimento… sem as sensações táteis. Era um estágio em suspensão, vazio… tão vazio, tão vazio, que ele era incapaz até de sentir. Não havia nada; era simplesmente a ausência de tudo. Pela primeira vez em toda sua vida ele percebeu o que é a ‘ausência de tudo’, diante dele, nessa imensidão. Ele pensou… finalmente, saiu um pensamento. Pessoalmente, ele ‘disse’ a si mesmo: “será que é ‘isso’ que havia antes de existir alguma coisa, antes do universo existir? O ‘nada’ é isso? O ‘nada’ é não estar suspenso em lugar nenhum? O ‘nada é o vazio absoluto? Pois é exatamente isso que estou sentindo…”

E ele já não pertencia mais a lugar nenhum. Ele não possuía nada em si mesmo, absolutamente nada… nada, pelo menos, que um ser humano fosse capaz de compreender… Naquelas elucubrações, ele mergulhou profundamente nesse vazio… nesse silêncio… nessa ausência… nesse ‘nada’. Por quanto tempo ele esteve assim sem nenhuma sensação, sem nenhum pensamento, sem nenhuma presença? É como se, no passado, em suas recordações, houvessem roubado dele um período da sua vida. Será que esse período vazio estivera sempre dentro das suas próprias memórias? Será que, em algum lugar do universo, existe esse vazio, onde você pode penetrar sem estar dentro dele fisicamente? Então, ele apercebeu-se de que existiam dois estados: o estado de ‘presença’ e o estado de ‘ausência’.

E assim, como que adormeceu… ao despertar, estava de novo de volta ao seu quarto, sozinho, abandonado pelas pessoas e pelos pensamentos… esse era agora seu ‘estado natural’, se assim pode-se dizer… ao seu redor, nada havia mudado: nem a cama, nem os lençóis, nem a estante de soro, nem o dreno da urina pendurado embaixo da cama, nem mesmo a escadinha ao lado da cama, completamente inútil em seu caso particular, nem aquele cheiro estranho de remédios e de ambiente esterilizado que permeava tudo ao seu redor, ou aquele lusco-fusco permanente, controlado pelas grossas cortinas e pela iluminação artificial que ele nunca percebera, pois seus olhos se fecharam permanentemente para o mundo exterior… enfim, estava lá, naquela redoma de concreto, da qual, provavelmente, jamais sairia com vida…

Rúben voltou à sua condição original, resultante de tudo o que vivera, agora interiorizada em sua mente complexa, depois de tantas confabulações. Agora sabia da existência do nada absoluto, do vazio que preenche o Universo, das conclusões que sua mente fora capaz de alcançar, mesmo estando imobilizado e inútil em sua reclusão involuntária e irreversível. Sabia que seu pensamento conservara a essência da vida, embora não pudesse chamar de ‘vida’ aquilo que estava acontecendo com seu corpo. Mas sabia também que essa consciência era muito mais completa e absoluta do que a vida física, material, dependente de movimento, de alimento, de um corpo real… mas o que seria ‘real’? Tudo aquilo que construíra sem mover sequer um músculo de seu corpo não poderia ser chamado de real?

E aquela ‘realidade’ ao seu redor, da qual não participava, na qual sequer era incluído por aqueles a quem tanto queria bem, e, no entanto, aos quais já não mais pertencia… qual seria a ‘verdadeira’ realidade em seu estado atual de consciência? Dois mundos para os quais não havia intersecção, já não era possível a interação… dois espaços contíguos, entre os quais cabia, no entanto, outro Universo, completamente estranho a seus entes queridos e a seus cuidadores…

Rúben, em sua solidão, sabia que ambos os universos estavam lá, mas não poderia transitar entre ‘seu’ Universo silencioso e o ‘outro’ Universo, ao qual jamais voltaria a pertencer… estava em uma espécie de ‘limbo’, semelhante em tudo àquele das religiões de seus pais, que ele renegara em vida, por julgá-lo impossível de existir…

Nesse seu universo particular não existiam outros seres; somente ele permanecia inerte, silente e imóvel em seu sarcófago, em sua câmara de morte, a contemplar o vazio que se formara ao seu redor. Era como se estivesse congelado nessa redoma invisível…

E com essas reflexões, adormeceu…

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Os Diferentes Universos

Os dias e as noites, normalmente, eram intermináveis. No começo ele se incomodava muito, porque não podia fazer nada para mudar essa situação… ele estava lá, à mercê de tudo; da presença das visitas, da presença das enfermeiras, da presença dos médicos, da presença da dor que não significava nada para ele, porque aquela dor não penetrava nele; era uma dor externa. Perfuravam-no, aplicavam coisas… e aquilo não lhe dizia mais respeito. Quanto tempo ele estava nessa situação? Não saberia dizer… apenas estava ali…

De repente, algumas memórias do passado. Ele se viu no oceano profundo… ele sabia que era um oceano, e pensava “Eu já estive aqui”. Ele via cardumes de estranhos peixes das mais variadas espécies e colorações, e até sentia, na sua pele, aquela friagem da água… e o silêncio era muito semelhante àquele silêncio que ele experimentara no mar, como ausência de tudo… mas não era uma ‘ausência de tudo’; era uma ‘presença de tudo’! Ele estava inserido naquele universo aquático, como nunca esteve inserido no universo de ar. A água tocava integralmente seu corpo. Ele estava na água como todos aqueles outros seres vivos estavam lá, diferentemente do universo fora da água, em que você está, mas se sente isolado, ali você é Um com o Todo! Você faz parte do Todo! Você é o Todo.

E aí ele percebeu, naquele instante, a diferença entre o ‘mundo Terrestre’ e o ‘mundo Submarino’, o mundo das águas e o mundo do ar… e aí ele percebeu também a leveza do ar… estranho… quando ele caminhava de manhã ele sentia aquele ar fresco, aquela temperatura agradável… ele sabia que o ar estava lá, mas ele não o viu lá. E agora, nesse oceano infinito, ele sentia intensamente a sua presença num corpo gigantesco que era todo formado de água! Essas sensações começaram a se alternar, e ele conseguia até deslocar a sua presença imaginária entre um ambiente de ar e um ambiente de água, um ambiente de fogo, de calor intenso, e um ambiente de frio, um frio insuportável… e ele começou a experimentar essas sensações como se elas pudessem ser manipuladas. Ele se alternava entre cada um desses universos com a maior naturalidade, como nunca teve em vida.

E ele percebeu que aquilo era uma sensação nova, única, que não poderia ser compartilhada com ninguém… porque ele estava só. Ele não tinha como se comunicar, nem com quem se comunicar… como sair daquele seu ambiente de solidão e de imobilidade, e se deslocar para o movimento, onde estão todas as pessoas ao seu redor. E ele sabia da sua existência: eles estavam ali, mas, ao mesmo tempo, ele não interagia com elas, ele não pertencia a elas e nem elas a ele. Eram dois mundos isolados, incomunicáveis… no entanto, dentro da sua percepção da consciência, ele tinha vários mundos diferentes, e poderia permanecer em cada um deles, separadamente, isoladamente, obtendo todas as sensações que na sua vida consciente ele nunca percebera. Ele já mergulhou muito… mas a sensação dessa plenitude de consciência ele nunca tivera em vida… e assim, ele adormeceu.

Naquele dia Rúben acordou diferente. Não era um adulto… era uma criança. E ele percebeu que estavam correndo, brincando… mas percebeu também que era diferente das outras crianças, porque podia brincar com elas, mas a sensação que tinha era de um mundo seu, que ele não podia compartilhar. Brincadeiras de pique, corre pra lá, corre pra cá… Estavam todos nessa algazarra de crianças gritando por todo lado. Mas ele era como uma ilha… ele também corria… ele também gritava… fazia tudo que as outras crianças faziam, mas percebia que não estava naquela brincadeira. A presença dele vinha de outro universo. E começou a refletir como, em sua vida toda, sempre fora uma ilha, mesmo nos momentos mais íntimos com sua mulher, com sua família… mesmo assim, quando ele falava, era como se falasse de dentro de um mundo seu, para transmitir uma mensagem para o mundo que está lá fora. E ficou a pensar: “será que todos os seres humanos são assim? será que cada um tem seu próprio universo, e da intersecção desses universos é que se processa a comunicação?”… só que ninguém consegue realmente compartilhar sua vida com outro ser, a não ser por palavras, por atos, pela presença física… mas a alma, não! Ela estava lá dentro guardada, protegida, disfarçada… naquele mundo em que estivera imerso durante toda sua vida…

70 anos de vida… aquele mundo era apenas o seu mundo, a realidade que ele via, que ele sentia, que ele percebia, e era apenas dele… ninguém mais percebia a mesma realidade… será que as cores, os sabores, o tecido das coisas, será que cada um tinha percepções diferentes das suas? Será que aquilo que ele dizia ser vermelho, na verdade era igual ao vermelho que os olhos das outras pessoas também percebiam, ou apenas por uma convenção, todos chamavam de vermelho as percepções diferentes da mesma cor? Ou será que cores diferentes davam a mesma percepção para pessoas diferentes? De repente, ele se deu conta de que não existe apenas um universo, mais bilhões de universos, e o universo de cada um não está fora de nós. O universo está dentro de cada ser, e por isso, torna-se impossível duas pessoas se comunicarem. Qualquer comunicação entre duas pessoas é apenas um meio de transmitir uma mensagem, cujo entendimento não se garante que seja sempre o mesmo.

Há um consenso nesse processo de comunicação que permite que os seres se comuniquem. Mas, dentro de cada um, dentro de cada ser, há um entendimento único, incompartilhável… e ele se percebeu, pela primeira vez, completamente solitário… Mas, já naquele dia, sua percepção despertou para conversas ao seu redor… ele ouve aquelas pessoas… estavam todos ali ao seu redor. É curioso que nesse novo estado, já não dava para ele perceber a voz de cada um como sendo vozes distintas, e que ele conhecera em vida, como se cada voz pertencente a um ser, um filho, uma filha e um neto, à sua própria mulher. Não, as vozes eram todas iguais, o ritmo das palavras era sempre o mesmo. E aí ele percebeu que, nessa uniformidade da comunicação, a própria comunicação se perdeu. Ele ouvia, mas não concatenava as palavras… era como um burburinho, como quando você está na multidão, que você escuta fragmentos de conversas, mas não consegue construir uma frase, ou reconstituir uma comunicação. Você não consegue discernir entre as frases ditas por uma pessoa e por outra. É como se você não soubesse de onde vêm aquelas palavras, e que elas estão misturadas, não em frases coerentes, mais soltas pelo espaço; e que você só consegue perceber a palavra quando decodifica cada fragmento numa ordem exata, perfeita… naquele dia ele não era capaz de concatenar nenhuma das falas ao seu redor.

Sabia que estavam todos conversando… até imaginava que fosse a respeito dele, porque havia certo cuidado em elaborar as frases, na manifestação das palavras. Mas o que eles estariam a dizer? Às vezes, o tom aumentava, outras vezes baixava, às vezes era um murmúrio ou sussurro, como se quisessem esconder dele alguma coisa como se ele ainda não soubesse. Mas, na verdade, ele não sabe de nada, porque não se interessava pelo que estava sendo dito ali. Aquela sensação perdurou por muito tempo, até que o silêncio se fez.

Então, para Rúben, aquelas palavras que estavam soltas no espaço começaram a fazer sentido… era como se reconstituíssem, espontaneamente, as palavras, as frases ditas, e elas passassem a ter um significado real para ele. De fato, elas falavam a respeito dele, a respeito do estado de saúde dele, irreversível… e diziam não só do sofrimento dele, mas do sofrimento de cada um por vê-lo nessa situação, de cada um por ter que se deslocar de suas casas para visitá-lo. Com que frequência será que eles visitavam o próprio pai, o avô? Então, ele percebeu que era, de fato, um estorvo na vida das pessoas a quem ele mais queria bem. No entanto, essa constatação não o fez sentir-se infeliz, pois, de fato, ele entendia que era um estorvo; e, de alguma forma, ele também queria dar um fim nisso… quantas vezes ele pensara “como seria bom se eu parasse de viver…”.

Ele pensava realmente em pôr fim a essa situação; não que ela o incomodasse; honestamente, ele não estava sentindo incômodo nenhum. Já teve outras situações assim. Porém, ele sabia que era um peso para todos da sua família, mas não podia fazer nada. Ele não controlava nem a própria respiração, não tinha movimentos, não era capaz de paralisar o sangue que corria incessantemente em suas veias; então, a sua existência não mais lhe pertencia; e, nesse estado, de repente, começou a notar que, de fato, sua família sentia uma imensa tristeza por ter que conviver com ele assim. Mas nada podia fazer. Foi depois desse dia que conseguiu compreender o que eles estavam começando a refletir… e como pôr fim a esse sofrimento. Foi a primeira vez que ele ouviu a palavra ‘eutanásia’; foi a primeira vez que ele ouviu o médico explicar aos seus familiares o que era a eutanásia… como realizá-la sem sofrimento, sem dor… e o que a lei dizia a respeito da eutanásia. Eles falavam que era possível desligar os aparelhos; só que agora ele já não tinha mais aparelhos para serem desligados; estava no quarto. A única coisa que ele recebia era soro, alimento, e medicamentos; e isso a lei não permite suprimir.

E ele vivia assim, uma vida que nem ele, nem ninguém queria, por que era uma vida em que nada podia compartilhar com ninguém, a não ser o sofrimento; e, ao mesmo tempo, todos eram escravos da situação. A partir desse momento, Rúben começou a ter consciência de tudo que eles pensavam. E sentiu que não só as suas memórias tinha retornado, plenas, mas que também ele podia conduzir o seu próprio pensamento pela primeira vez, depois de tanto tempo, que nem mesmo ele saberia dizer quão longo era…

De qualquer forma, agora Rúben tinha consciência de que podia construir mentalmente os seus próprios raciocínios. Com base nesse raciocínio, ele refletia “será que eu ainda consigo voltar à minha consciência? Será que um dia eu ainda vou poder conversar com meus filhos, abraçar meus netos, contar histórias, relatar essa experiência do vazio que eu tive? Será que, da minha vida, ainda resta um trecho a ser vivido?” Nesse momento ele sentiu medo. E percebeu que a família caminhava em busca de uma tentativa de pôr fim a esse sofrimento, e que, de repente, a vida dele poderia se extinguir, sem que ele tivesse voltado a conversar com seus familiares. Nesse instante, ele achou que poderia reviver. Poderia despertar cada célula do seu corpo, de modo que algum movimento começasse a acontecer. Quem sabe, um piscar de olhos… quem sabe, o mover de um músculo, o derramar de uma lágrima… quem sabe, o articular de um som ou até mesmo transmitir, mentalmente, um sentimento diferente para aqueles a quem ele queria tão bem. Ele passou a se dedicar, dia após dia, noite após dia, a tentar construir uma imagem mental que o retornasse à vida. Passava longas horas experimentando novos pensamentos… tentando reconstruir, mentalmente, suas células… passava momentos intermináveis tentando articular um som, tentando, ainda que minimamente, mover seus olhos… suas pálpebras… No seu pensamento, ele até fazia isso; Porém, ninguém ‘ouvia’ seus pensamentos, o que significava que nada, como efeito disso, acontecia na prática. Depois de tanto tempo, ele percebeu que isso lhe causava uma imensa angústia. De certo modo, ele se sentia como um condenado, sendo conduzido ao patíbulo para uma sessão de enforcamento. Diante dessa situação, ele optou por não pensar mais… desistiu desse propósito. “Vou pensar de outra forma… já que estou sozinho, já que eu não tenho mais contato com ninguém, vou construir meus castelos… vou edificar um novo mundo, que será apenas meu”. A partir desse dia, ele passou a ignorar toda presença ao seu redor. Passou a concentrar-se em si mesmo, nos seus pensamentos, nas construções mentais… e nas vivências espirituais, como um despertar da sua consciência. A cada dia, ele já tocava toda sua energia mental na construção do seu universo paralelo. Edificava templos onde fazia sua meditação, construía paisagens maravilhosas onde experimentava a sensação de estar em um novo ambiente, completamente puro, selvagem, intocado, onde só o Bem existiria.

Isso o deleitava, de certo modo. Mas ele não sabia se era um deleite ou se era, simplesmente, uma sensação letárgica, sem um significado específico… já não percebia mais as presenças à sua volta, nem as manipulações que faziam em seu corpo durante o tempo que estava sobre aquela cama. Nem coisa alguma em relação a nada no mundo material fora dele. Durante um certo tempo, essa foi sua parte na longa permanência no hospital. Será que, fisicamente, seus parentes já o olhavam como uma figura diáfana, quase desprovida de matéria, que ia desaparecendo, aos poucos, naquele leito de hospital, enquanto sua família planejava seu destino, sem ele saber? Era triste sentir a vida indo embora tão lentamente, quase imperceptível, tão longos eram os dias, tão curtas eram as noites. A cada dia, era como se uma parte dele tivesse se esvaído e, mesmo sem conversar uns com os outros a esse respeito, todos tinham esse mesmo sentimento.

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

A Vida Cobra Seu Preço

Rúben, de repente, de seu torpor que se tornara rotina no hospital, lembrou-se de um episódio constrangedor. Antes do que houvera recentemente, ele já perdia, aos poucos, as funcionalidades essenciais que o mantinham vivo: alimentar-se era uma delas. Rúben gostava muito de apreciar boas comidas, e seus filhos sabiam disso. Ele sempre levava a família para bons restaurantes, e todos saboreavam os alimentos, como quem degusta um bom vinho. Os finais de semana eram sagrados, e variavam as procedências: comida portuguesa, árabe, japonesa, espanhola, mexicana, nordestina, cabocla… cada semana, almoçavam em um local diferente, e isso também valia para as férias, os passeios eventuais e as reuniões em família. Durante o almoço ou jantar, conversavam animadamente, integravam as crianças com os adultos, saboreavam cada porção.

Outro hábito eram as viagens de férias, que se dividiam em metades: uma para as aventuras com os filhos, das quais Katya nunca participava, e outra era do gosto dela, nas praias do sul ou do nordeste, e mais uma vez, o ‘prato principal’ eram as refeições típicas de cada lugar visitado. Não eram ricos, mas tinham um bom padrão de vida, invejável, graças à generosidade de Rúben, que nunca se preocupara em enriquecer, guardar dinheiro ou fazer uma poupança. Para ele, a vida era assim, espontânea, alegre, despreocupada. O futuro nunca chegaria para ele… assim pensava e desse modo vivia.

Porém, depois do infarto e do AVC, sua vida se transformou definitivamente. Primeiro, eram os medicamentos que era compelido a consumir para o resto da vida. Depois, eram suas funções vitais: o coração perdera metade da capacidade de bombear, e isso significava deixar as aventuras de lado e ter um novo modelo de viver, discreto, comedido e condicionado ao ritmo que seu coração permitia.

Mas, depois, vieram as verdadeiras limitações: sua memória começou a falhar, e já não se lembrava dos nomes das pessoas, esquecia-se do que fizera na véspera, deixava de pagar contas, faltava aos compromissos, interrompia as frases pela metade por já não saber sobre o que falavam. Seus amigos compreendiam essa situação e disfarçavam, fingiam que tudo estava bem… mas ele percebia que tinha perdido a coerência… antes, seu raciocínio era lúcido, rápido, e seus argumentos destruíam qualquer lógica de seus interlocutores.

Finalmente, vieram as disfunções vitais… sentia dores na coluna, nas costas, nas pernas, ouvia mal, e enxergava cada vez com mais dificuldade. Tratava-se como possível, e manteve certo nível de dignidade por alguns anos… mas depois tudo se tornara mais difícil. Às vezes corria para o banheiro, incapaz de segurar o desejo de urinar por um tempo… até que um dia, no meio da rua, não pôde se segurar e expôs-se diante das pessoas que passavam, olhando-o com desprezo e nojo… Aquilo foi, para ele, como que uma sentença de morte! Como viver assim? Como justificar-se a si mesmo e aos outros que não era culpa sua, pois nada poderia fazer para evitar?

Todos temos situações assim em nossas famílias… nossos avós, nossos tios, pessoas de nossa intimidade que passaram a usar fraldões para se precaver de tais vexames… porém, a primeira vez chega para nós sem avisar, e o desejo incontido rompe um equilíbrio instável, que se agiganta até que uma explosão do instinto, se avassala e joga-nos na vergonha pública… é muito triste envelhecer…

Rúben se lembrou, naquele instante, de uma expressão eufemística que nada tem a ver com a realidade: “a melhor idade é a velhice, a nossa segunda infância!”. Para quem chegou nessa situação, não há nada de bom na velhice, que também nada tem a ver com a infância! Envelhecer é adquirir dores que nunca sentíramos… as articulações não reagem para nos manterem a prumo… o cansaço chega sem avisar… o corpo arca, incapaz de manter-se ereto… os alimentos não têm o mesmo sabor… a vista se anuvia… a tristeza chega todas as noites para nos fazer companhia… preferimos o silêncio à algazarra das crianças… e também percebemos que ninguém mais presta atenção às nossas falas… não existe “melhor idade” para aqueles que caminham para seu ocaso, como mutilados da longa guerra que a vida travou conosco…

O desejo dos velhos é que a vida cumpra sua tarefa mais rápido, livrando-nos da vergonha de sermos velhos. Cada instante a mais é um ônus terrível para quem perdeu sua dignidade como ser humano. Nossos filhos já nos encaram como um fardo pesado e difícil de ser transportado, e sabemos que o nosso tempo ficou para trás. Tornamo-nos intolerantes, não porque acreditamos que o nosso tempo era melhor, mas sim porque sabemos que já não somos capazes de compreender a juventude… ficamos obsoletos, como artefatos…

Naquele dia, Rúben ficou parado, no meio da rua, todo mijado, enquanto as crianças riam e o apontavam com a irreverência que lhes é peculiar… e ninguém o amparou… ninguém estendeu-lhe as mãos para tirá-lo daquela situação… pelo contrário, desviavam-se, como quem se afasta de um leproso! Olhavam-no com desprezo e raiva por estar ali, diante de todos, incapaz de se mover para qualquer lado.

Voltou para casa o mais rápido que pôde, lavou-se e deitou-se tentando apagar de sua memória aquela cena que se repetia, inexoravelmente, diante de seus olhos… Dali para a frente sua vida mudou. Passou a usar fraldões, mas não contou aos seus filhos o ocorrido. Procurou o seu médico, mas ele pouco poderia fazer, pois já tomava medicamentos para a próstata, cujo efeito se tornava cada vez menos eficaz. Decidiu não sair mais de casa, até que seus filhos perceberam que algo havia acontecido. Acabaram sabendo do fato pelo porteiro do edifício. Mas quem está preparado para ajudar, quando sequer percebem que seu ‘velho’ está deprimido?

O fato é que seu espaço naquele mundo se reduzira a eventuais saídas rápidas e retorno breve para a solidão de seu quarto. Jamais quereria passar por isso novamente… mais uma janela se fechara, definitivamente, em sua existência… esse seria o início de um longo processo que se prolongaria até o desfecho fatal… e, novamente, aquela mensagem sussurrada em seus ouvidos, fazia todo sentido: “a vida nos leva, aos poucos, cada motivo para nos sentirmos felizes…”

Ser velho é um fardo insuportável… a sociedade nos trata como estorvos, como pesos insuportáveis, como peças enferrujadas que não permitem que a sociedade progrida satisfatoriamente… esquecem-se que aqueles que hoje são velhos, enrugados, doentes, já foram os pilares dessa mesma sociedade que os rejeita como pesos indesejáveis, como empecilhos a obstruir os seus caminhos.

Rúben sabia que nada poderia fazer para evitar os efeitos do envelhecimento, mas sentia-se solitário em sua dor, pois não se percebe tais perdas senão quando elas acontecem. Sua solidão aumentava na medida em que os anos se sucediam, roubando-lhe, um a um, os seus dons, as suas habilidades, as suas funções vitais.

Quando somos jovens, olhamos os velhos como empecilhos à nossa felicidade, na medida em que condicionam a vida ao seu redor. Depois que envelhecemos, ao perdermos, um a um, os talentos da juventude, não somos capazes de conversar com nossos filhos sobre o que está acontecendo conosco. Preferimos inventar desculpas a confessar nossa impotência diante das perdas que se sucedem…

E Rúben jamais se recuperaria daquele momento em que tomou plena consciência de tinha se tornado um velho, não apenas para si mesmo, mas para todos aqueles que com ele conviviam.

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Sócrates

Esse era o seu querido pai, que herdou dos gregos o seu nome e profissão. Sócrates fora geógrafo, e ensinou ao filho os infinitos caminhos da Terra, suas belezas e seus mistérios. Amava a Natureza e esse sentimento também passou a seu filho, que aprendeu a respeitar aquilo que assegura aos homens a sobrevivência e a beleza infinita.

Com Sócrates, Rúben aprendeu a remar e explorar lugares que a maioria das pessoas não conhece. Os rios passaram a ser uma obsessão para Rúben, que mandara construir sua canoa e a mantivera sempre vinculada às mais belas experiências que tivera o privilégio de viver. Com seu pai, subiam o rio até que faltassem forças para prosseguir remando. Então, deixavam os remos de lado, e o frágil barco voltava, lentamente, ao ponto de partida, enquanto seu pai lhe dava as primeiras lições de vida, de Filosofia e de Esoterismo.

Seu pai era um sábio, um mestre que conhecia as doutrinas secretas do Oriente, e ensinava Rúben a perceber as sutilezas que se ocultam da vida dos seres comuns que cruzam nossos caminhos. Falava da Eternidade, não como a concebem os seres de pouco saber, mas como a relatividade do tempo e do espaço. Eterna é a percepção dos iluminados, algo como se a duração das horas não existisse de fato, a não ser como referência para as atividades humanas.

Falava de um lugar na consciência de cada um, para onde se pode ir quando tudo parece ruir em nossas vidas, e lá encontrar os verdadeiros mestres do ocultismo, sempre disponíveis a nos elucidar os segredos da Eternidade. Para Sócrates, as divindades eram figuras simbólicas e não uma realidade transcendente, onipresente, eterna e todo-poderosa, pronta a punir os ‘pecadores’, e premiar os ‘santos’, sempre vigilante e autoritária perante os defeitos humanos. Em seu pai encontrara as respostas que buscava em seus longos períodos de meditação e espiritualidade. Ele era seu grande Mestre Zen…

Porém, na velhice seu pai se tornara humano, sofrera a dor da degeneração física, lutara contra um câncer irreversível, perdera sua lucidez e suas memórias, e morrera precocemente, depois de uma existência exemplar e justa. Rúben sentiu a ausência do pai, e passou longos anos tentando compreender sua transição. Perguntava-se “por que um ser de luz precisa padecer as dores terrenas, se sua sabedoria está muito além da compreensão da maioria dos mortais?”.

Esse fora o mistério que Sócrates deixara para seu filho refletir. Em suas noites insones, Rúben rememorava cada momento de seu profícuo convívio com o Mestre, buscando as razões metafísicas para a dor e o sofrimento. “Por que sofremos? Se Deus existe, por que Ele haveria de querer que seus filhos sofressem? Qual o verdadeiro sentido do sofrimento dos homens em sua curta passagem pela Terra?” E lembrava-se das Quatro Nobres Verdades de Buda. Elas eram a resposta para o que sempre buscara… para os não iniciados, tais ‘verdades’ poderiam ser interpretadas como palavras inúteis, talvez incompreensíveis em seu profundo significado. Mas essa é a essência da Sabedoria mística: o significado das palavras não está nelas mesmas, mas em algo que transcende sua compreensão.

Por isso, o Caminho da Iluminação está disponível apenas para poucos, apenas para aqueles que já se tornaram merecedores, e compreendem que seu aprendizado será longo, difícil e doloroso. E, estes, mesmo assim, perseveram, pois já vislumbraram, do ocultismo das palavras, o reflexo do significado que neles se dissimula.

Muitos se perguntarão: “por que a verdadeira Sabedoria se oculta da maioria dos buscadores?”. A resposta não pode ser dada, pois ela não está nas palavras, embora nelas se oculte. A aparente contradição dessa afirmação reside no fato de que é preciso ser um discípulo, aceitar o estado de buscador, ter perseverança e humildade para que seja merecedor de seus ocultos segredos mais profundos…

Não se encontrará, em nenhum livro sagrado, a resposta para os mistérios dos Sábios. Eles não os deixariam à mercê dos homens incapazes de compreendê-los… longo é o caminho da Verdade, e pequena é a compreensão humana e a perseverança do discípulo… por isso, muitos se perdem nos caminhos, outros desistem sem encontrar sequer os traços da Sabedoria para continuar na busca…

Sócrates, pai de Rúben, deixou muitas lembranças, mas nenhum escrito que pudesse orientar seu filho. Sabia que não se pode facilitar o caminho do Conhecimento, pois nenhum Livro Sagrado foi de alguma valia para os discípulos alcançarem a Iluminação.

Com seu passamento, Rúben se afastou, por muitos anos, dos caminhos da compreensão, até que um dia se deparou com um Ser Iluminado. Era apenas um velho, sentado sob uma grande árvore, à beira de uma trilha na montanha que Rúben tentava escalar. Perdido e sem orientação, perguntou ao velho como alcançar o cume daquela montanha, ao que o homem respondeu: “volte ao pé da montanha e encontrará o seu caminho”. Rúben achou a resposta imbecil, pois já fizera aquele longo percurso e não voltaria a fazê-lo inutilmente.

Tentou seguir em frente, mas depois de muito caminhar, sempre retornava ao mesmo ponto, onde estava o velho, sereno, a observá-lo. Por fim, repetiu a pergunta, e o velho lhe disse: “já passaste tantas vezes pelo seu destino, sem perceber que o que procuras não existe. Volta à base da montanha e encontrarás o teu caminho”. Desta vez, Rúben compreendeu a mensagem do velho.

Retornou ao pé da montanha e viu, extasiado, que o caminho ao cume estava iluminado por uma luz difusa. Seguindo a luz, chegou ao cume, e lá encontrou o Mestre, que o esperava, satisfeito.

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

O Anjo da Morte

Depois da decisão pela eutanásia, Rúben se acalmou e voltou a tentar se recuperar, tentando mover os olhos, as pálpebras, um dedo que fosse, para se comunicar com a família. Mas isso não funcionou. Continuava inerte em sua cama de hospital. As visitas familiares se restringiram, aos poucos, aos finais de semana, pois como ele não era mais monitorado, não havia o que desligar, e a eutanásia fora deixada de lado, definitivamente. Agora, o que se discutia era o Plano B: levá-lo para casa, ou para um asilo? E a decisão seria, com certeza, o asilo, ou ‘casa de repouso’, um eufemismo pedante, que não disfarçava o fato de que a família estava abdicando de suas obrigações de cuidar do pai-avô, que estava ‘inválido’, palavra igualmente agressiva para quem cuidara tão bem de seus descendentes.

A decisão fora tomada e o levaram para um asilo. Lá chegando, colocaram-no em um quarto confortável, bem iluminado, com cama, criado-mudo, uma penteadeira, sabe-se lá para que serviria, dois tapetes aos lados da cama, banheiro privativo, que ele nunca poderia utilizar, por não se mover e não ter controle sobre suas funções intestinais e da bexiga, e um quadro na parede, de um enfermo idoso sendo tratado por uma exuberante enfermeira de seios voluptuosos, igualmente inútil. Haveria um dia da semana para as visitas, entrega dos relatórios semanais de evolução do paciente, além de três refeições por dia, igualmente desnecessárias, uma vez que ele continuaria com a nutrição parenteral, por sonda.

A ‘clínica’, como a chamavam, tinha vários enfermeiros e médicos, além dos cuidadores que atendiam aos residentes. Era uma casa grande, com corredores longos e discretamente iluminados, uma sala de convivência, que Rúben também jamais usaria, um belo jardim florido à frente da casa, e estacionamento para os visitantes. Fora dos dias de visita a clínica faria uma exceção para a família de Rúben, devido ao estado terminal em que ele se encontrava, mas esse dia extra de visitas nunca seria utilizado. Já era um grande ‘sacrifício’ ter que visitá-lo uma vez por semana, justamente no sábado!

E assim, os dias se passam na monotonia de um quarto vazio, com horários para banho, troca de roupas, limpeza e verificação do soro, alimentos e medicamentos. Fora desses horários, Rúben só escutava os pássaros nas árvores defronte à sua janela, e o ruído incessante do tráfego na avenida, que passava em frente à clínica. Com isso, seus pensamentos fugiam para lugares distantes, enredando-se por fantásticos caminhos desconhecidos, rememorando experiências alucinantes e permitindo que ele recuperasse sua calma e paciência, retirando a expectativa improvável de uma recuperação, por menor que fosse. Os dias se tornaram mais longos e tristes, pois ele sabia que já era quase um retrato desbotado no pensamento de seus filhos e netos. Era um deserdado à espera da morte…

Mas, um dia, sua neta Acácia, de cujo rosto nem se lembrava, aliás, nem dela ele recordava, chegou para visitá-lo em um dia fora do calendário, sabe-se lá como conseguiu convencer os funcionários da clínica, e sentou-se ao seu lado, depois de beijar-lhe a face. Ele sentiu aquele gesto de carinho, ouviu a doçura de sua voz, e se encantou, como há muito tempo não acontecia, com essa menina que lhe era estranha até há poucos minutos. “Bom dia, vovô! Sabe quem eu sou?” Ele teve o ímpeto de responder, fez um esforço inaudito, mexeu-se por dentro, como nunca mais fizera, e voltou a relaxar, desconsolado por ter perdido a oportunidade de mostrar-se vivo. Mas, curiosamente, ela deu um grito incontido e disse: “Você se mexeu! Você me escutou e entendeu o que eu disse! Enfermeira! Venha aqui depressa!”, mas ninguém atendeu. Havia um botão na cabeceira da cama para chamar por auxílio, e então ela o acionou.

Em um minuto chegou um enfermeiro idoso, talvez o mais velho funcionário da clínica, e perguntou a ela o que houve. E ela, com a ansiedade de uma descoberta inacreditável e improvável, relatou o ocorrido, quase que atropelando suas palavras ao dizê-las. O enfermeiro olhou para Rúben, incrédulo, e não viu um só movimento. Perguntou novamente a ela o que vira: teria sido apenas um espasmo involuntário? Piscara um olho? Mexera alguma parte do corpo? Qual parte teria sido? Mas a menina Acácia não soube responder… só sabia que viu o avô se mover, um movimento quase imperceptível.

Era necessário que o gesto se repetisse, mas o avô se perdera, novamente, em seus pensamentos confusos, e se esqueceu da netinha que o vira estar presente, vivo, consciente, se é que se poderia chamar assim a um imperceptível movimento… a menina não se conformou. Saiu do quarto, esperou alguns momentos, e voltou, repetindo o mesmo procedimento da primeira vez: beijou-o na face, e falou “Bom dia, vovô! Sabe quem sou eu?”. Desta vez não funcionou. O avô continuava ausente, distante, incomunicável. O enfermeiro foi embora, e pediu que a menina abreviasse sua visita, pois já tinha acabado o tempo concedido a ela pela recepção da clínica.

Acácia ficou inconsolada, e pôs-se a chorar, copiosamente, deitada sobre o peito do avô. Suas lágrimas escorreram pelo rosto, molhando o corpo de Rúben, que sentiu aquela umidade em seu peito… percebeu o que ocorrera, e aquela ansiedade em comunicar-se voltou a acontecer. Discretamente, com um pequeno movimento tocou, com um dedo, a menina, e ela o agarrou com força, segurou-o abraçada, tentando manter aquela sensação maravilhosa de ter sido a privilegiada que descobriu que seu avô querido estava consciente. Continuou a chorar baixinho por alguns instantes, até que se acalmou. Ainda sentia um leve roçar da mão do avô, e temia perdê-lo naquele momento. Abraçava-o ainda forte quando o enfermeiro retornou ao quarto com a intenção de retirá-la. Mas viu a cena e também se emocionou. Afastou-se discretamente, deixando-os sozinhos naquele instante essencial da vida, em que um milagre acontecia.

Não o ‘milagre’ das religiões, que exigem comprovação e testemunhas, mas o milagre da vida, que vem depois de se esvair na solidão e no abandono… Acácia quase adormeceu sobre o avô, feliz por ter sido a escolhida para trazê-lo de volta ao mundo dos homens. Porém, depois de um tempo que nenhum relógio poderia medir, ela percebeu que seu avô se fora, talvez para sempre. Já não sentia seu toque suave… mas também não sentia o bater de seu coração… seu choro retornou com outra intensidade, e chamou o enfermeiro, desta vez, desesperada. Ele entrou rapidamente no quarto e percebeu que algo ruim estava acontecendo. Delicadamente, afastou a menina e mediu o pulso do paciente… não havia pulso. Apertou o botão de emergência e o médico apareceu em poucos segundos.

Rúben estava morto. Tentaram ressuscitá-lo fazendo massagem cardíaca, respiração artificial, choques elétricos, mas nada o faria voltar à vida. Ele se fora para sempre, não sem antes passar a mensagem de que, por todo o tempo, estivera ali, na presença de todos, esperando que alguém percebesse sua presença, mas ninguém teve a sensibilidade para captar sua mensagem. Somente uma menina, Acácia, sua netinha de quem havia se esquecido, soube tocá-lo a ponto de ativar suas mais profundas energias, fazendo-o mover um músculo que faria toda a diferença: ele estava consciente, estava ali o tempo todo, esperando por essa mensagem de amor, de ternura, de carinho e desprendimento, que ninguém mais soubera compreender…

Rúben não voltaria à vida. Seu tempo se extinguira nesse último gesto desesperado. Não conseguiu preservar suas memórias, nem desfazer os liames que o prendiam à imaginação. Seus sonhos, suas ilusões, suas viagens astrais se foram também para sempre e ninguém saberia que elas existiram. Sua missão não fora cumprida, segundo seu desejo. Porém, ele atingira seus objetivos, na medida em que sua vida fora coerente com seu pensamento, com seus valores e princípios, dos quais nunca tergiversara. Sempre encarou seus desafios e os venceu, ainda que sua mensagem não tenha sido compreendida por aqueles a quem quisera tanto bem. Foi um incompreendido porque nunca soubera valorizar a palavra escrita. Preferia o sentimento, a energia sutil, a presença da alma na ausência do corpo. Olhou a vida como deveria ser vista por todos, com a delicadeza do amor aos seres invisíveis que habitam o interior de todos os seres viventes, mas que a maioria se recusa a perceber. Não amealhou riquezas materiais, mas construiu castelos nas almas daqueles poucos que o compreenderam. Guardou-se para esse instante final em que um ser puro chegasse até ele e captasse aquela força interior, que emergiu suavemente, tocando a alma de Acácia e, sem que proferisse uma só palavra, transferiu a ela seu poder imenso. Se ela soube disso? Talvez… mas uma pequena semente foi plantada e poderá eclodir um dia, para sucedê-lo nessa missão reservada para poucos, compreendida por apenas aqueles iluminados que voltam à vida para prosseguir sua missão.

Seu corpo foi cremado, de acordo com sua vontade, declarada desde a infância, e suas cinzas jogadas na nascente de um regato que compunha uma das mais belas bacias hidrográficas do planeta. Ele dizia que suas cinzas caminhariam lentamente para o mar, indo juntar-se a outras águas de todos os rios que existem no planeta. Como dizia um monge franciscano, “o mar é o céu dos rios”… ele ouviu isso daquele monge quando percorria as águas daquele rio que agora o levava para seu destino final, o mar dos mestres e iniciados…

Durante a cerimônia de cremação, uma figura discreta se colocara no fundo da sala, com a cabeça coberta por um véu, vestida de preto, absorta em suas memórias… era Katya… ela soube da morte de seu ex-marido por Acácia, que mantinha por ela uma grande admiração. Ela permaneceu assim, em silêncio e solitária, até o final dos procedimentos, mas não acompanhou os familiares, preferindo ir-se embora antes que os outros saíssem. Depois da separação, sua relação com a família se tornou cada vez mais distante, e ela também se impôs um exílio voluntário, morando, até o fim de sua vida, no ‘flat’ que comprara com a venda de alguns bens de família.

Não existe vida futura, assim como não existe vida passada… todas as vidas estão no presente, aqui, onde elas acontecem… passado e futuro são abstrações mentais dos homens, mas não das criaturas da Floresta. Para estas, passado e futuro são apenas palavras vazias. O tempo é o senhor da vida, mas a vida só existe no presente. Esse paradoxo, deixo-lhes como legado de Rúben, que sempre soube viver plenamente o presente, mas não desvencilhou-se do passado…

Como não poderia ter uma lápide, Rúben optou por me incumbir dos escritos de seu livro, que nunca soube produzir. Não saberão meu nome, da mesma forma que não lhes revelarei como tive acesso às suas memórias, já que ele também nunca as revelou a mais ninguém. Existe um propósito para que eu lhes coloque este enigma, e Shakespeare deu-nos sua melhor contribuição em sua hermética profecia: “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia…”. Mas Rúben se superou ao deixar para mim mais esta curiosa e hermética frase: “Existe apenas um caminho para a Eternidade, e todos teremos de trilhá-lo. Alguns o percorrerão por muitas vezes, por não saber onde chegar, mesmo já estando lá… outros se perderão pelo caminho, e seguirão em círculo por toda a Eternidade, sem nunca compreender que também já a alcançaram… outros ainda prosseguirão diretamente para seu destino, mas nunca compreenderão por que chegaram lá tão cedo, e concluirão que a Eternidade jamais existiu. Pois saibam vocês que há, de fato, somente um caminho, e ele está na Eternidade.” Dizem que a Esfinge sussurra a todos os seus visitantes: “Decifra-me, ou te devorarei!”

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

Textos Apócrifos

O mistério profundo e os outros ‘eus’

Meu amado e fraterno amigo,

Recorro a este raro expediente pois sei que estás ansioso por compreender os fatos recentes que levaram Rúben à transição. Seu tempo ainda não se cumprira quando veio a falecer, e quero crer que ele sabia o que estava por acontecer a seu espírito soberano. Em sua generosa compreensão, estou certo de que aceitou seu destino com resignação, embora sofresse com o fato de acreditar que não poderia cumprir sua missão. Porém, de fato, ele a cumpriu, como saberás.

Rúben nunca foi de reclamar de dores e sofrimentos… durante cinquenta anos trocamos mensagens herméticas pelos meios que você bem conhece, buscando evitar que outros interceptassem os mistérios profundos que ocultam a vida de nossos avatares. Sabemos que esses conhecimentos precisam ser merecidos antes de se tornarem apropriados àqueles que buscam a Verdade. Rúben, certamente, era um deles e vislumbrou sua transição, e preparou-se para o grande momento, no que foi possível diante de seu estado físico e mental.

Pouco antes de Rúben se desagregar deste mundo, recebi uma mensagem inusitada: “venha me ver agora”, dizia, simplesmente, a mensagem que recebi. Sabia que era dele porque o vira recentemente, e compreendia que seus segredos estavam ameaçados pela situação crítica em que se encontrava, e como ele estaria preocupado com isso.

Fui imediatamente ao seu encontro, mas evitei um contato direto, preferindo nossos recursos metafísicos, no santuário de nossas mentes. Lá estava ele me aguardando, perplexo diante do avanço rápido da doença que o acometia, preocupado com a preservação e a transmissão dos ensinamentos sagrados que lhe foram confiados.

Procurei confortá-lo, ciente de que jamais trairia a Causa ou deixaria explícito aos não iniciados qualquer segredo que não pudesse ser revelado. Conversamos longamente, como há muito tempo não fazíamos, e percebi que Rúben continuava inquieto e preocupado. Por fim, disse-lhe: “podes confiar em nós, caro amigo, pois sabemos o quanto é difícil manter a consciência em situações como essa. A distância entre a realidade humana e o espaço esotérico é tão pequena quanto a espessura da página de um pergaminho oriental. Estamos atentos e te daremos todo apoio durante tua longa jornada…”

Dito isso, sua imagem se esvaneceu nas brumas da memória, deixando aquela fragrância tradicional que o acompanhara por toda sua vida, perceptível a poucos. Rúben se fora, mas ficara a sensação de que ele voltaria em breve. Com certeza, não ficara tranquilo.

O pensamento lógico não pode ser usado para se alcançar a Compreensão. Apenas com a sensibilidade e a pureza da não-mente se pode conquistar a Verdade Eterna. Busca-a e encontrarás”!

Este foi nosso último encontro antes de sua transição…

Depois das cerimônias de cremação, passei alguns dias meditando acerca daquele breve encontro e dos segredos que nosso amigo teria para nos revelar. Porém, eu deveria aguardar que ele me chamasse novamente, pois o tempo, fora das dimensões humanas, não segue as mesmas regras que nosso pequeno sistema solar estabeleceu para os humanos. Além das fronteiras terrestres não existe ‘tempo’ nem ‘espaço’, pelo menos, não como o concebemos em nossa limitada percepção humana do Grande Universo Metafísico.

Fui despertado de um sonho estranho quando Rúben voltou a me procurar. Na sutileza da percepção extrassensorial que nos aproxima a todos do outro lado da Vida, fui chamado pelas palavras secretas que nos foram reveladas para compreender que era um dos nossos avatares quem me chamava. Era Rúben, em sua identidade espiritual. Sua mensagem era clara e me dirigi ao Sanctum1.

Assim, naquela fração de tempo em que mantivemos contato, Rúben relatou suas angústias e aflições no período que precedera seu afastamento físico de nossa fraternidade. Cada instante me foi revelado e compreendi o quanto fora testado pelos seres etéreos antes de se extinguir a chama que o mantinha em nosso estágio de vida.

Finalmente, deixo-te um texto escrito por Rúben, em algum momento de perplexidade diante de sua própria vida, que demonstra seu desconsolo para com os seres humanos, em sua mediocridade enquanto apegados à vida material, para tua reflexão e conclusões…

Qualquer dos meus dias”

Hoje, serei um pássaro, de grandes asas brancas e porte majestoso, a flutuar sobre seus mundos alados, placidamente, mas afastado o bastante para não perceber os detalhes desta vida, que a tornam monótona, medíocre e mesquinha.

Apenas silhuetas e sombras me interessam, a povoar as paisagens: edificações e arruamentos, pelos quais se movem veículos, carregando cérebros e mentes, incessantemente, à busca de transformar o Paraíso herdado de suas sagradas religiões.

Sigo, porém, mais alto: não quero sentir-me vinculado a esses comprometimentos… Agora, percebo apenas luzes, pedras preciosas, contas coloridas de um imenso tesouro, desconhecido dos homens que nele habitam. É o silêncio que me sufoca: ensurdecedor, em meus incessantes pensamentos. Busco a Paz, transpondo as nuvens, imensos flocos pairando pelo espaço…

Percebo o mundo em camadas… abaixo, entre os vãos das nuvens, o chão dos homens, ora recortado em geométricas formas cultivadas, ora ainda preservando alguma natureza em sua desordem estética, ora pontilhado de civilização e de pecados… acima, novo teto de nuvens comportadas, pairando como carneiros, agrupados e ordeiros, deixando apenas réstias de um azul profundo e infinito.

Estou no Éden… uma incontida beleza me preenche e me confunde. Serei, ainda, um pássaro? Nada sou. Incorporo-me à totalidade do Universo. Sou Deus! Sou levado para além de minha própria consciência. Uma profusão de cores… um turbilhão de formas desconexas… qual um caleidoscópio…

Que foi feito de meu Shangrilá? Sou um pensamento… uma ideia fixa, parada, como um filme emperrado. Sou a cena que não se move, sem sentido, sem contexto… Seria assim a Morte?

Desperto em minha cama, frustrado e solitário. No rádio, o Concerto nº 1 de Max Bruch, com Yehudi Menuhin.

Definitivamente, não sou um pássaro. Minha rotina impele-me para a vida… Seria assim a Vida? Talvez um mero pesadelo… Pássaros têm pesadelos? Serei eu um pássaro sonhando em ser… humano?

O chuveiro me desperta; lembro-me da reunião das 9:00… preciso finalizar os preparativos: pastas, gráficos, relatórios… A sala está confirmada? E os participantes?

Preciso organizar o café para os visitantes…

Escovo meus dentes, pensado no bico do pássaro…
Sigo meu ritual profilático. Ao sair do banho, penso nos intermináveis compromissos da semana: centenas de e-mails a responder, telefonemas, reuniões, formalidades, troca de cartões, atas e outros afazeres dos homens sérios na sociedade dos negócios.

Preparo meu café da manhã, sem fome e sem vontade:
leite com cereais, frutas com mel… Ainda bem que não como insetos nem minhocas! Creio que não me daria bem com a dieta dos pássaros… Leio as manchetes do dia… qualquer dos meus dias…

A Bolsa permanece em queda…”

O dólar continua em alta…”

Pinochet e Médici não serão julgados pelos seus crimes…”

O preço do petróleo ameaça as economias emergentes…”

Seremos emergentes?

A paz ameaçada no Oriente Médio…”

Talvez uma nova guerra nos desertos, para consumir o excedente obsoleto dos armamentos produzidos pela indústria bélica americana… mais uma ‘guerra controlada’, supervisionada pela OTAN e pela ONU, com os protestos de praxe e o repúdio diplomático e inútil dos países do Terceiro Mundo…

Seremos do Segundo Mundo? Que mundo é esse, afinal?!

Desligo a televisão. Visto-me apressado, mas sem me descuidar dos detalhes: o perfume, a gravata, o relógio… Já na calçada, as pessoas passam sisudas, apressadas, mal-humoradas, atropelando-se sem se cumprimentar, sem desejar um ‘Bom dia!’ como faziam nossos antepassados, antigamente…

Sorrisos? Nem pensar! Apenas amanhece e já levamos conosco as tensões de toda uma existência descuidada. Para que?

Cá estou, acomodado em meu lugar, na janela do ônibus, fones de ouvido, atento a mais um concerto, evitando o diálogo com meu companheiro de viagens, meu vizinho de jornadas, meses a fio… quase sem nos conhecermos de verdade… Longos minutos a atravessar minha cidade enfileirada, congestionada… Carros a se engalfinhar em corridas, cada um querendo ganhar a posição da frente, trocando incessantemente de fila e de lugar, até voltar à mesma situação em que se encontravam.

As mesmas ruas, os mesmos outdoors…

Finalmente em nosso destino, deixamos os ônibus aos tropeços, apressados por alcançar os pés das escadas rolantes, que nos levarão a todos aos mesmos lugares, todos os dias. Agora já nos reconhecemos, alguns… Uns até se cumprimentam! Monossílabos formais, algumas gentilezas… “um cafezinho?”

Já em minha mesa, um toque de humanidade: as fotos de meus filhos e netos, o arranjo de plantas, o Feng Shui… O dia passa, como de costume. A sensação de andar em círculos, de correr atrás do rabo como um cão abandonado…

Mais gentilezas, mais formalidades, algumas delicadezas, muitas falsidades. Muita encenação para delimitar o território.

Os cães mijam para marcar os seus domínios… Será que devo mijar ao redor de minha mesa?

O relógio parece não ter mais pressa… E cada um trabalha para não ter que olhar as horas… Enfim, o almoço! Fofocas de bastidores… “Quem subiu?” … “Quem caiu?”

Quanta hipocrisia… quanta mediocridade!

De volta ao bunker e à luta por se mostrar, cada um, mais importante… mais insubstituível nos negócios que não são seus…

O que você vendeu hoje?”

A minha Alma!”

E o dia segue… e a vida se esvai como a areia da ampulheta… Amanhã é só virá-la novamente, e tudo volta a se repetir…

Cá estou eu, de novo em minha cama, pensando na aventura de meus sonhos… Volto a desprender-me de meu corpo e escolher um novo bicho… uma cobra? Não, já rastejei por demais em minha vida! Um tubarão? Talvez… atemorizando os oceanos…

Não. Serei apenas uma semente, daquelas quais pequenas plumas, que o vento levará não sei para onde e – quem sabe? – germinar… sem consciência… sem retorno… apenas por viver…

1Sanctum: lugar sagrado de meditações e encontros entre os membros da “Grande Fraternidade Branca”, espécie de conclave de mestres espirituais “edificado” (concebido) no espaço esotérico por um dos avatares da AMORC – Antiga e Mística Ordem da Rosa Cruz”.

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance

A Alma flutua no espaço

No imponderável interstício das galáxias, as almas de todos os seres do Universo se movem, aleatoriamente, sem consciência de si mesmas, como partes dos arquivos ‘acásicos’1, que perpetuam o Conhecimento acumulado através dos séculos… tempos eternos…

Já não possuem identidade nem razão de ser próprias, apenas existem, como fragmentos celulares de um imenso sistema universal. Compõem o Saber anônimo das Galáxias. Na imensidão dos vazios intergaláticos essas “almas” são a essência do Ser que se forma a partir do nada, na pulsação interminável do desconhecido…

Conceitos terrenos e humanos, como ‘de onde vim’, ‘por que existo’ ou ‘para onde vou’ perdem o significado, assim como a própria existência de um ‘Deus’, um ser superior, onisciente, onipresente e todo poderoso. Apenas nossa mente finita poderia conceber a existência de deuses… no Universo, isso não faz sentido.

Aqui transcrevo outro texto de Rúben, uma antevisão da Eternidade na qual, agora, seu espírito se dissolveu para sempre:

Se Deus existe, é razoável supor que todas as existências do Universo são decorrentes de sua vontade e criação. Também é justo concluir que, antes de existir o Universo, certamente, apenas Deus existiria.”

Portanto, no ato da Criação do Universo, algo se transformou na própria essência de Deus, do qual emanaram todas as forças (energia e matéria) que deram origem a tudo que existe depois do ato da Criação.”

Portanto, é também razoável supor que a criação do Universo se fez pela dissolução desse Ser Infinito em bilhões, trilhões, n’lhões de partículas, corpos celestes, éter e tudo o que compõe a Infinita Essência de Deus.”

Como cada uma dessas infinitas partículas do Universo e, portanto, fragmentos de Deus, não tem senão consciência de si mesma e do pequeno universo que a cerca, é também de se supor que Deus, ao criar o Universo, perdeu a consciência de si mesmo e se dispersou nos infinitos fragmentos de consciência que nos permitiram existir.”

Sendo assim, a plena aceitação da existência de Deus nos faz supor que a ele não poderemos nunca recorrer, pois somos apenas e tão somente parte de sua própria essência, parte dessa incomensurável consciência que busca, por fim, se recompor, para reconstituir a unicidade de Deus. Por que teria Deus, então, se dissipado no Universo?”

Talvez porque, sendo uno, nada mais lhe restava conhecer, senão a si mesmo. Para crescer, Deus precisou se autodestruir e renascer do pó em que se transformou… portanto, conhece-te a ti mesmo e encontrarás teu próprio Deus!”

Quando nos deparamos com um novo mistério, um obstáculo intransponível à lógica e ao entendimento comuns, nossa insaciável necessidade de compreensão da Vida nos compele a recorrer às divindades e ao sobrenatural, justificando o lapso de conhecimento que nos constrange e sufoca.”

Mesmo diante da grandiosidade do Universo, da beleza incomensurável da Natureza e dos sentimentos altruístas que nos acometem, eventualmente, buscamos no esotérico, no místico, no religioso, no eterno, a explicação das razões do existir.”

No entanto, nossa pequenez não nos permite constatar a contradição que nos acomete (e nos cega): no momento em que nos surpreendemos e nos extasiamos com a percepção sensorial da beleza incomparável da Natureza, através de nossos olhos, ouvidos e pele, ao mesmo tempo, com nossas próprias mãos, ferramentas e invenções a destruímos, a contaminamos com nossos dejetos, a corrompemos com nossos atos, e a condenamos com nossas omissões e covardia…”

A existência de cada indivíduo, que mal ultrapassa um século, nos impõe os limites da percepção do espaço-tempo… o ‘infinito’ é (e será sempre) incompreensível! A existência do homo sapiens, que não chegaria a 10.000 séculos, credita-nos a convicção de nossa superioridade diante da Vida… A existência do Universo, a partir do Big Bang, que supomos não ultrapassar os 40 milhões de séculos, nos leva à indagação: mas, e antes disso, o que existiria?”

E a resposta, confortável e equivocada, está na Bíblia: – no Princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus! – e, por uma palavra de Deus, o Universo se formou, e o dia se separou da noite, e a terra se separou das águas, e os seres vivos se separaram da matéria…”

E assim, tudo se resolve em nossas mentes… e, ainda que o Ser Humano venha a desaparecer da face da Terra, seja por uma fatalidade dos transtornos climáticos, seja por sua ação maléfica e daninha sobre a Natureza e sobre si mesmo, ainda assim, em outros planetas haverá Vida, que se perpetuará pela transformação e evolução natural, gerando (ou não) seres conscientes de si mesmos, sendo bela por si mesma, ainda que não percebida por ninguém, ainda que não tocada, não vista, não declamada em versos…”

E, no entanto, na pequenez de nós mesmos, continuaremos a acreditar que a Beleza existe apenas porque nossos sentidos a tornam assim… e que o Universo foi criado apenas para que nós, reles seres humanos, vermes cósmicos imperceptíveis, consumíssemos seus recursos, impunemente, ao nosso bel-prazer! E que, por isso, somos eternos! A empáfia de todo ser humano é acreditar que sua medíocre vida poderia justificar a razão de ser do Universo e a existência de Deus, a partir de cuja vontade teríamos sido criados, à Sua imagem e semelhança… é muita pretensão e arrogância crer que somos assim.”

1AMORC – Antiga e Mística Ordem da Rosacruz (http://camaraexterna.amorc.org.br)

por João Carlos Figueiredo Postado em Romance