Civilização tóxica

Jequitibá de 3.000 anos no Parque Estadual de Vassununga, Santa Rita do Passa Quatro, SP

Seu fim está próximo e não se trata de mais uma profecia. Apenas a constatação do óbvio que se apossou desse pequeno e insignificante mundo.

Não sei quem matou Deus, ou se, de alguma forma, ele jamais existiu, mas estamos sós como nunca, nesse vazio espectral do Universo.

De repente, a Humanidade se tornou desprezível, fria, mesquinha, irrelevante, sombria, nefasta, pequena demais para se fazer existir.

Matamos nossas florestas, as árvores, os animais, os regatos, as belezas desse mundo, o prazer de apenas permanecer na chuva, sentindo seu gotejar inebriante, a alegria de estar, simplesmente, abandonado aos pensamentos e reflexões embaixo de uma sombra às margens da cachoeira… só nos restou um imenso deserto, árido e estéril.

Banalizamos o Amor e as Amizades… destruímos a Família pelo isolamento das tecnologias avassaladoras do cotidiano, e sepultamos nossos valores mais perenes, para nos transformarmos em mortos-vivos, seres ensimesmados e ausentes em pensamento, daqueles que nos são queridos…

Não há mais silêncio, nem escuridão. Não há privacidade, nem a solidão suave do meditar, do refletir, do emanar boas energias ao Universo… Desapareceram a gentileza e a emoção. Restou apenas a profunda e inexorável Imensidão do Nada a permear nossas vidas…

As ideologias, as crenças, as histórias contadas no recôndito do lar ficaram no passado inexpugnável das memórias esquecidas… as doces lembranças se tornaram irrelevantes, pois tudo agora é igual, medíocre, mesquinho e fortuito, irrelevante e efêmero.

Viver deixou de ser perigoso, surpreendente, fantástico… tudo se transformou em monotonia, mesmice, desgraça, insanidade… e só nos resta deitar e morrer, inúteis e desamparados.

No horizonte ficaram apenas a fumaça, a fome, a morte, o terror, a miséria, o ódio, a ganância, e a infinita devastação das paisagens amarelecidas…

Um imenso e contínuo Dèja Vu se apossou desse planeta repleto de zumbis, vagando inconscientes, atônitos, perdidos na sua solidão sepulcral.

Tudo agora é inútil e desnecessário… até mesmo o interminável processo da vida: nascer, crescer, viver, procriar e morrer, pois o Ser Vivente, que existia em cada um de nós, se apequenou e desapareceu na própria insignificância do existir.

Restaram, tão somente, os frangalhos despedaçados da vida que se esvai, rapidamente, no limiar desconhecido desta Terra agonizante.

O que fazer, então, senão esperar, desalentado, que o Fim se manifeste, aqui e agora, eliminando o sofrimento e sepultando a Humanidade?

Tempos estranhos…

No Universo interior de cada ser existem duas realidades:
A que se vê, onde se vive, com quem se relacionam os seres…
E outra realidade, mais intensa, mais sutil e, portanto, inacessível
Aos olhos e sentidos de quase todos nós.

Essa presença óbvia e permanente ofusca a outra, etérea e difusa…
Seres abstratos se movem lentamente na imensidão de tudo,
Interpenetrando espaços e certezas, desapercebidos e silentes…
A eles pouco importa essa realidade crua, dura, material.
Apenas energia, pura, leve, impermanente e luzidia,
Vibrando em intensidades imperceptíveis neste mundo,
Realidade e ficção: apenas duas faces da mesma eternidade.

Incompatíveis, irreconciliáveis, noite e dia, dia e noite,
Clarão e escuridão, multidão e solidão, paz e violência…
Aos que vivem apenas da realidade pura, material.
Não existe PAZ… e o AMOR se restringe a efêmeros instantes…
Não existe LUZ, exceto aquela visível, pálida e monótona.
Não existe ETERNIDADE, e todos estão sujeitos à morte em vida.

Aos Seres Iluminados, contudo, lhes é dada a percepção de tudo:
PAZ, AMOR, PERMANÊNCIA, ETERNIDADE, INFINITUDE…
Aos Terrenos, a curta permanência, a dor e o sofrimento;
Aos Etéreos, a Compreensão e Harmonia Universal!
Porém, para atingir tal percepção, não basta viver…
É preciso sofrer e morrer… é necessário abdicar de TUDO!

É imperativo o DESAPEGO… e como é difícil desapegar…
O caminho do aprendizado é longo e tenebroso…
A poucos é dado o Conhecimento… não basta querer…
As duas realidades estão diante de nós, mas poucos podem vê-las.

A esses é dada a opção: voltar ao mundo real ou enfrentar o MITO!
O Mito é um ser gigante, impiedoso e forte. Imbatível!
Mas, se é imbatível, como enfrentá-lo?
Esse é o Caminho: a Mitologia mostra esse dilema.

Mas poucos conseguiram ler os pergaminhos da Sabedoria…
E mesmo àqueles que o compreenderam, poucos sobreviveram…
Pois a imagem do OUTRO LADO é apavorante, para os não iniciados…
Para compreendê-la é imprescindível abrir mão de TUDO!

Talvez ninguém que lê esse texto compreenda o que significa TUDO…
Todos estamos imersos em um Universo dual: CERTO ou ERRADO.
Mas o CAMINHO não é o do Certo ou Errado… é o da VERDADE!

Poucos podem olhar para ele! Poucos podem “queimar seus navios”…
Interessante como a Literatura oculta sinaliza esse Caminho…
Apesar de ÓBVIA, poucos a compreenderam,
E criaram diferentes interpretações primárias, singulares…
Mas a SABEDORIA está muito além de nossa compreensão…

“Quando o Discípulo está preparado, o Mestre aparece”, diziam os mestres budistas…
Mas como é difícil perceber a figura do MESTRE na infinitude dos seres terrenos…
Pois ele não está entre nós… O Mestre está oculto nas palavras…

Mas por que ele não se apresenta claramente aos buscadores?
Porque, mesmo entre aqueles que estão no Caminho,
Poucos são capazes de compreender as Verdades Eternas…
Você está preparado? Pode se desfazer de suas vestes?

Pode se oferecer ao sacrifício no Altar dos Templos?
Muitos interpretaram essa indagação como uma verdade,
Mas não existe Verdade nas palavras de qualquer idioma…
A verdade está além… muito além das palavras…

E mesmo que vivas muitas reencarnações,
Pode ser que jamais compreendas o Significado!
E aqui Reproduzo as palavras mais sábias, mais absolutas, mais completas
que um Mestre poderia dizer aos que não alcançaram a Iluminação.

São palavras de Mabel Collins, discípula de Helena Petrovna Blavatski,
A grande mestra da Teosofia! A Mestra das Mestras…

“Antes que os olhos possam ver, devem sem incapazes de lágrimas;
Antes que o ouvido possa ouvir, deve ter perdido a sensibilidade;
Antes que a voz possa falar em presença dos Mestres;
Devem ter perdido a possibilidade de ferir;
Antes que a Alma possa erguer-se na presença dos Mestres…
É necessário que seus pés tenham sido lavados no sangue do coração.”

O CAOS E A PERFEIÇÃO

O que me encanta é o CAOS, não a Perfeição!

É no Caos que se manifesta a Perfeição do Universo, e sua Beleza inquestionável!!

A Desordem universal é que nos leva a acreditar na perenidade do Infinito!

O contraponto do Caos não é a Perfeição, mas a uniformidade monótona da criação humana… a linha reta, o círculo, o monocromático das paredes, as monoculturas e os jardins dos palácios imperiais, onde a Harmonia quebra a complexidade do Caos…

O que me assusta é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é o Imponderável, o Imprevisível, o Inesperado, o Desconhecido!

A vida sem o Caos é o oposto do Ser Criador: são as regras, as normas, a rotina dos escritórios, os horários determinados pelo relógio, o previsível e o uniforme…

O que me motiva é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Surpresa, o Despertar, a Descoberta, a Invenção, a Inovação permanente!

O mundo sem o Caos é uma sucessão de fatos corriqueiros, cotidianos, um arrastar do tempo sem a beleza incontestável da descoberta, um mundo monótono, inútil e vazio, onde predominam as regras e as leis humanas, em detrimento da desordem do Caos…

O que me apavora é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Escuridão, o Passo no Vazio, a Busca da Perfeição sem jamais atingi-la!

O homem sem o Caos é um ser amorfo, desprovido de sensibilidade, incapaz de discernir entre o Eterno e o trivial, entre a matéria e o Espírito, entre o Bem e o mal…

O que me move é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Mola Propulsora da Humanidade, a Força Interior de todo Ser Vivente!

Sem o Caos, o mundo permaneceria na Idade das Trevas! Mas, talvez essa teria sido a Maçã de Adão e Eva, o momento em que o Homem se diferenciou dos animais e se tornou Dono do Universo… talvez, nesse momento de inflexão, o Mundo tenha começado a definhar, a se acabar, a se autodestruir… e a Perfeição do Universo, transfigurada pelo Caos, tenha deixado de existir, nos impelindo a colocar Ordem na Natureza… talvez a verdadeira Ordem seja o Império do Caos, e o permanente desequilíbrio de forças no Universo seja sua Lei Maior que o mantém vivo e eterno…

Não esperes, de mim, palavras doces…

Chapada Diamantina

E Ele me disse, na escuridão de meus ouvidos: 

“De que reclamas, se, em tua vida, realizastes mais do que a maioria dos mortais?”

E insiste, enfático:

“O que esperas de mim, se, convicto, me negastes durante teus curtos dias nesta Terra, espaço inútil, a quem amas mais intensamente do que àquele que te criou e concebeu?”

Mas eu, no mais obscuro silêncio dos recônditos esconderijos de minh’alma, ouso responder:

“Jamais reclamo, pois sei que, de minha efêmera existência, nada levo, tampouco nada deixo para trás; sequer saberia dizer para onde se destinam as almas, se existem, quando a vida deixam para trás…”

E, entusiasmado com a retórica de minha inaudita afirmação, prossigo, irreverente:

“Se Tu existes somente na imaginação dos homens, a cada um mostrando a outra face – não a Tua – por que iludes assim a humanidade, crente em recompensas que nem mesmo o silêncio das eternas moradas as revelará, ainda que muitos afirmem tê-las visto, vagamente, na penumbra da quase-morte do infinito renascer matutino, reverberando em suas próprias construções mentais?”

Prossigo, ainda, insistente, em minhas confabulações inúteis:

“Onde estão aqueles que doaram suas vidas a causas iníquas, se Tua Sabedoria Universal afirma a efemeridade de tudo o que existe, existiu ou virá a ser, um dia, neste transitório mundo dos homens?

Finalmente, satisfeito com minha argumentação vazia, lanço meu veredito:

“Se confabulo com o Inexistente, mas apenas meus pensamentos ouço em derredor, onde estaria, enfim, o derradeiro Reino que escreveste em todos os Livros Sagrados, em diferentes línguas, em variadas metáforas e parábolas, em artimanhas do pensamento, que só os homens, em suas manifestações terrenas acreditam compreender? Onde estaria, afinal, Tua Morada, ainda que não fosse, tão-somente, outra das inesgotáveis armadilhas construídas pela imaginação humana?”

“Não esperes, de mim, palavras doces, daquelas que escutastes dos poetas, dos amantes nas alcovas, a prometer, em versos, o seu amor eterno, e a esquecê-las, céleres, ao amanhecer!”

“Não creias, pois, nos pensamentos que vazam, aos borbotões, nas frases que se despejam, sem cessar, dos textos que publico, na intenção não manifesta de iludir os meus leitores, ao afirmar a ilusão da própria vida, em suas manifestações inesgotáveis, neste eterno alvorecer.”

Não o faço, porém, com a má-fé dos “pastores de alma”, que encontram, em palavras vãs e sibilinas, a provável indicação do eterno Reino daquele que, tendo sido o “Criador das criaturas”, delas não fez um ser perfeito, deixando, a cada um, a missão improvável de resgatar a alma impecável que existiria, supostamente, na obscuridade do futuro, desconhecido e cruel.

Apenas creio saber, no âmago de meu ser, que tudo o que fizemos e deixamos para trás, no ocaso de nossos dias terrenos, de nada servirá para salvar a humanidade, nascida órfã e deixada aqui, abandonada “neste vale de lágrimas”, a padecer eternamente, enquanto vivos.

Não esperes, de mim, palavras doces, mensagens de conforto ou de consolo, pois, na tumba em que repousará o teu cadáver, serás apenas, e tão-somente, alimento aos vermes… nada mais.

Suicídio

A fria lâmina percorre seu destino,
Estranhamente muda, silenciosa e bela,
Em um segundo, separando as existências,
Eternamente calando a dor inconsolada.

Ali, repousa o corpo de um menino,
Enquanto a morte, em plenitude, se revela.
E, anciã, se esvai a alma, desgarrada,
Semicerrando, aos cegos olhos, as ausências…

Amores velhos, companheiros de jornada.
Nada mais resta, senão dizer a ela:
"Melhor morrer, a viver só, em desatino".

Outrora fora feliz, com sua amada –
Assim pensara, confiando ser aquela,
Razão perene, de um sonho pequenino.