Anhumas

Algum lugar além… Onde estás? Anhumas…
Abismo de meu ser… Quem verás? Nenhumas?!!!
Mergulho em tuas entranhas, estranhas catedrais,
Calcáreas formações… Anhumas! Anhumas!

Resvalo em teu silêncio, perdido em solidão…
Milênios de brancuras, inculta expressão
De um eterno adormecer…

Profundas sutilezas revelam tuas fendas.
Caminho em tuas sendas em busca de um alguém.
Algumas ilusões perduram sem razão.
Onde estás? Talvez em algum lugar: Anhumas!
por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Desconsolo

Se a dor da vida me enfraquece e cala,
O que fazer de toda essa emoção contida?
Por que me foi negado o fim da história,
Se os erros meus se sublimaram nesta solidão perdida?

E aqui me encontro, novamente, em prantos,
Por não poder manifestar minha paixão sofrida…
E as horas passam numa angustiada espera,
Que não se encerra, a alimentar a ilusão sentida.

E você segue seu caminho, sem me ver ao lado,
A recolher migalhas de seu coração partido…
Desconsolado, já nem mesmo me incomodo
Em disfarçar tamanha humilhação vivida…

E me entrego, enfim, a essa triste sina,
A confundir a imaginação… e a verdadeira Vida!

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Angústia

Por que me seduziste novamente
Se negas teu amor, sem compaixão?
Meu peito aperta angustiosamente,
Dilacerado em dor e solidão…

Se, ontem, fui feliz, por um momento,
Inebriado em sonho e ilusão,
Agora, recompõe-se o meu tormento,
Abandonado e só, sem compreensão.

Não tenho teu carinho, nem afeto,
Nem sei por onde estás, meu coração…
A trama de Pierrot eu interpreto,
Calado o grito mudo da paixão.

E, mesmo procurando ser discreto,
Confesso minha culpa, e estendo a mão…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Luna Llena

Escotilha iluminada

Na infinita ausência de luz…

Assim te vejo, Lua,

Passagem entre Universos,

Boca de um cone

A se perder na ignorância do Ser…

Não existes,

Senão na imaginação dos amantes,

Ou nas pegadas dos astronautas,

Derradeiros visitantes do passado…

Ambos extintos

Pela absoluta abstinência da Paixão…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Desencontro

Teus olhos ao alcance dos meus olhos,
Tuas mãos, quase ao calor de minhas mãos,
Teus lábios a murmurar em meus ouvidos,
Meus lábios a ansiar os lábios teus…

Ali, quase a tocar-nos, tua ausência…
Parte de um sentimento se perdeu…
Constrangidos pensamentos que vagueiam
No silêncio de um desejo apenas meu.

E a noite se arrastando pela vida,
E o tempo a se perder em meus sentidos,
Minh’alma a reclamar tua presença,
Teu corpo a recusar minha paixão…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Viver é…

Viver é superar os seus temores,
É entregar-se a vinte mil amores,
E descobrir-se só…

Viver é enfrentar os riscos desmedidos,
É renegar seus ritos mais antigos,
E reduzir-se a pó…

Viver é mergulhar na mais profunda solidão,
Expor-se aos perigos de mais uma ilusão,
E sublimar-se em dor…

Viver é sentir-se completamente ensandecido,
Abandonar-se ao mais desconhecido,
E perceber-se nu…

Viver é quase nunca dizer “não”,
Ao ser amado entregar sua paixão,
E desdenhar seu dó…

Viver é nunca mais deixar de partir,
Ao seu passado só saber sorrir,
E, novamente, descobrir-se só…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Imaginação

Tenho-te em minha memória,
Tão real, tão perfeita,
Que, às vezes, pego-me a falar sozinho…
A abraçar meus pensamentos,
Como se vida fossem…

Mas não há vida na imaginação…
Apenas lapsos de emoção desperdiçada,
Fragmentos de sensações
Em um mosaico abandonado…

Mesmo assim,
Apego-me a esses frangalhos
Como um náufrago
Aos destroços de sua embarcação…

E sigo, então, o meu caminho,
A preservar meus sonhos…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Miragem

A luz se refletiu em teu sorriso
E encantou meus pensamentos.

Teus lábios, face, corpo, num momento,
Tornaram-se a visão do paraíso…

Por isso, em vida e sonho, só em ti penso,
Extasiado diante da delicadeza,
Alma, forma e Ser, pura beleza,
Razão maior de um amor intenso…

Sentimento que me arrebata
E se propaga em minhas veias num instante,
A despertar desejos…
A reviver motivos…
A preencher meus olhos…
A enrubescer-me a face…
A apaixonar meu coração!

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Tênue esperança

Você surgiu assim, feito um encanto,
Que se desfaz em sonho, ao despertar.

E não se explica, em mim, tão simplesmente,
Miragem a se esvair na areia de meus olhos,
Tremeluzente instante na eternidade do passado…

E somente ele (o passado) existe,
Além da própria imaginação…

Alento a nos manter despertos,
Na frágil esperança de enriquecer a história
De tão pequeno e insignificante caminhar…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Inquietude

Vivo por contestar.

E por que não ser assim?

Aos acomodados, a cotidiana vida!

Nos extremos encontro a seiva que me alimenta e provoca. Nas nuances e sutilezas busco as diferenças da monotonia das recorrências que me sufocam a alma.

Vivo por divergir.

Por que calar-me?

Aceitar a opinião corrente das mesmices e do tédio asfixiante é reconhecer-se morto… Eternamente… Tento observar sempre o lado oculto das objetivas (subjetivas?), captando o que fugiu de minha retina… Sorrateiramente…

Fujo das maiorias massificantes, espécie mórbida de velório das multidões saciadas do medíocre prazer da estabilidade e do sossego.

Salto os capítulos da novela desta vida, onde os cenários já montados dispersam a consciência e a atenção dos transeuntes seres dessa terra.

Persigo a ansiedade irrequieta e instável do efêmero instante em que a ave pousa, o galho cede, a cobra salta de um só bote, e o mundo estremece de pavor diante do desconhecido e do incerto, da impossível paz que não se sustenta no improvável acerto de contas do Ser com seu passado tão comprometido…

Anseio pelo delirante êxtase do vir a ser que não se consuma no presente, pois, só assim, é possível Viver!

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

(des) conforto

Como saber se ainda estou desperto
Se as sombras de meus pesadelos ofuscam o meu entendimento?

Meus olhos permanecem abertos,
Filtrando as luzes matinais que jorram das janelas.

Meu ser incerto mergulha no infinito,
Perdido em labirintos de tantos pensamentos.

Meu corpo extático, esquecido,
Sem alma dentro, ou alguma finalidade pouca que eu perceba…

A vida segue, no entanto, ao derredor,
Pulsando, célere, nas veias abertas da cidade que eu detesto.

E nada há, além do firmamento,
Somente a morte, a me espreitar, dolente,
Sabendo ser este o meu destino, finalmente.
por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Trilhas Urbanas

Asfalto não se demarca, como uma trilha no mato. Porém, entre os desfiladeiros dos prédios enfileirados, quase dá prá perceber o rastro dos andarilhos, dos carros desatinados.

A pressa é tanta e tamanha que passa tudo de lado: retratos no outdoor, garotos esfaimados, os postes, fios e bueiros, o cheiro desagradável, garotas bem maquiadas nas calçadas, nas esquinas, buzinas desenfreadas, e mesmo os malabares jogando fogo pro alto.

Seguem o mesmo trajeto nos carros, metrô e ônibus, a pé ou de bicicleta, deixando, sempre, prá trás, o tempo desperdiçado. Quase dá prá perceber o zumbir dos pensamentos cruzando nos cruzamentos das ruas e avenidas desta cidade encantada.

Os seres nem se desculpam pela grita e a freada, pelo puro esquecimento de um gesto ou uma risada.

Seguem cegos, os autômatos, como bois numa manada, sem mesmo deixar registro dos rastros pela estrada. Às vezes, nem se apercebem que chegam a seu destino, e prolongam mais um pouco o correr e o desatino, até mesmo prá passar outro louco no caminho.

Repetem, dia após dia, os pensamentos passados, como reza ou a desdita gravada fundo na alma. Com os pés, ou com o solado de seus carros importados, vão deixando para trás os espaços percorridos, pedaços já esquecidos das trilhas não demarcadas.

É curioso, no entanto, o destino desse povo, que rumina, sem parar, suas desgraças e tristezas, mas se esquecem, com certeza, que alienam suas vidas em troca do dissabor. Dia após dia repetem as urbanas trilhas da dor, sentimento tão presente em seres desconhecidos, que agridem, gritam e clamam, sem perceber a razão.

Percorrem o mesmo caminho, trilhas urbanas, visíveis apenas aos que conseguem parar o tempo e o espaço, observando a demência de tantos desesperados.

Ao fim do dia, cansados da longa jornada de stress, retornam pelas travessas da cidade em desalinho, das longas filas de espera, mil buzinas no caminho, a relembrar, incessantes, que a vida desenfreada vai se tornar o destino dos seres desenganados a viver sem esperanças de, um dia, enfim, se livrarem dessas trilhas intermináveis, urbanas e delirantes.

Ao final de uma semana, exaustos e desgastados, buscam, nos parques e praças, novas trilhas a seguir, a recompor suas forças para enfrentar, novamente, o mundo em competição. E lá, no verde do espaço dos terrenos confinados, mal percebem as belezas dos lagos, repletos de pássaros, a viver, despreocupados.

Em vez disso, outra vez, seguem as trilhas urbanas dos seres desencantados, a caminhar, desgastados, arfando, angustiados, a mostrar os seus semblantes perdidos, desconfiados, percorrendo, pelo asfalto, os trechos bem demarcados dos caminhos verdejantes.

Contam, nos passos marcados, seu caminhar compassado, olhando, a cada instante, o relógio intolerante, a ditar seu infortúnio de escravo alforriado, que não sabe desfrutar a vida em liberdade, e lutam por preservar as correntes, as amarras, que reduzem sua mente ao silêncio e à escuridão.

Trilhas urbanas os levam à pobre meditação, ao pensamento corrente, à tristeza e à solidão.

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Paixão


De tuas vestes me desfaço…
…e me refaço em ti…
 
Sob tua pele alva me agasalho…
…e me incorporo a ti…
 
Pelos teus olhos me observo,
imerso na imensidão azul
de teu ser encantador…
 
Pelos teus lábios doces me embriago,
manifestando minha paixão por ti!
 
E nos teus pensamentos
-que são meus-
me reconheço…
 
E nos tornamos UM…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

…e Marx tinha razão…

A Vida não leva a nada,
Senão à Morte !

Não há Sorte, nem recompensas:
Promessas de Vida Eterna
Só foram boas para tua Igreja
E para o teu Patrão !

Pois quem suportaria tal privação,
Se não houvesse um Paraíso a lhe esperar ?

Mas não te iludas,
Teu sacrifício foi mesmo em vão !

Teu dízimo e teu rosário,
Tuas rezas, tuas promessas,
O relicário… o Santuário…
As missas, a procissão,
São pantomimas
A disfarçar tua infinita Solidão !
Por isso, eu te esconjuro,
Meu caro Irmão !

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

IndigNação

Perdeste, de nós, o respeito, Pátria minha,
Mãe tão pouco gentil…
Terra em que tudo se dá,
Fecundada a bem só de poucos,
Estuprada de má semente,
Parida na escuridão !…

Indigna é essa Nação
De cabisbaixa Gente calada,
Descrente de seu Porvir…

Onde brilhará o Sol de nossa Liberdade,
Se seus fugidios raios
A poucos, somente, aquece,
Aos poucos se arrefece,
Minguando-se a energia,
Desnutrido em alegrias,
Da Alma que se perdeu ?!!!

Proscrita a Ideologia,
Quem irá nos resgatar
A Honra, a Justiça, a Igualdade ?…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Transeuntes

Ausentes, silentes,
Rostos rebuscam o vazio,
Em face com a solidão…

Quem sois ? quem são ?
Olhares perdidos na imensidão
Do Infinito, da Turba, da Multidão !…

Rumores ressoam roucos,
Incompreensíveis…
Movem-se assim, como loucos…
Desvarios do coletivo inconsciente…

Que passa, enfim, nesse mundo,
Repleto de seres moventes,
Semoventes que não se vêem ?

Perdeu-se a causa primeira,
A Razão do Ser Vivente…
Somos, pois, tão-somente,
Transeuntes…
Desprovidos de Paixão…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

João, Camarada!

Liberdade !
Tardia, seja quando houver !
Que os grilhões, que aos pobres escravizam,
São de dor… são de Dor !
Da sutil ignorância que nos cala…

Fraternidade !..
Irmãos somente
Nos miseráveis restos
Que a Sociedade nos legou !

Igualdade !
Absoluta e impossível,
Posto que a força que nos move
Jamais conduzirá ao Poder,
Que aos justos e humildes não pertence !

Lutar… para que ?
Se a batalha última perdida
Nos faz rir…
O amargo riso da imagem
Que o passado nos deixou…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Empáfia

Fátuos fogos do Orgulho !
Tola vaidade dos incautos !…
Lúmens efêmeras na oscuridad que nos cerca…
Vagas Lúmens… luminares…

Frágeis seres inflados de si mesmos…
Meras personagens em busca da Ilusão…
Falso poder humano… Ledo engano !…

Afinal, quem sois ?… Nadie…
Apenas imagens refletidas nas paredes da caverna…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Repúdio

A dor se fora com os anos…
Assim como as lembranças…

Morto – como um rato !
Pouco a pouco, dilacerado…
Humilhado, como a uma meretriz !

Nu,
Caquético, em sua privações…
As unhas, todas elas arrancadas,
Uma a uma… como pétalas !
Tantas marcas de tal espancamento,
Em seu franzino espectro…
A dor que ninguém viu.

Quem mais se ocuparia em recordar ?

Na cova rasa,
Vala comum dos Ideais,
O saco plástico,
Ainda a lhe cobrir o rosto exangüe,
Esbugalhados olhos cegos
A delatar inútil desespero.

Sobre seu corpo esfacelado,
Farrapos da bandeira comunista,
Final alegoria dos carrascos !

Segue o Tempo…
Passa a Vida…
E o Augusto General
Cruza novamente o Oceano…
E à Casa torna,
Altivo… indiferente…
Sem remorsos…
Sem receios…
Sem constrangimentos…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Salvador Allende (1973)

Adeus, camarada!
Último alento, Allende se foi…
Um tiro… o sangue… silêncio.

Infâmia!

Adeus, camarada Allende!
Tua vida não foi em vão!
Mil mortes te honraram!

Teus companheiros te clamam…
O vazio se hospedou em nossas almas, camarada!
Mil vozes te clamam…

Teus companheiros te honraram!
As fardas se alojaram em La Moneda.
Nem mil mortes podem vencê-las…

Mas teus camaradas não caíram.
Porque somos a Essência!
E a Essência não pode ser vencida.

Somos o Ideal e o Filosófico!
E viveremos para o dia da Perfeição e da Igualdade…

Adeus, Camarada Allende!

Tua morte não foi em vão!

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia