Sem destino


Quisera não compreender a realidade
Iludir-me, como o fazem todos os demais
Fingir que ainda acredito na humanidade
Que ainda existem esperanças nesta vida

Mas não sou assim: perdi a ingenuidade
E sei que um dia tudo encontrará seu fim
E que não é possível salvar este planeta

Porém, já terei ido quando isso acontecer
E o mundo se ocultará de vez nas trevas
E os homens padecerão os seus pecados
Pagando o preço do desprezo pela vida

E não haverá mais florestas, flores, animais
E o que restará serão somente os desertos
Mas, ainda assim, existirão os homens
Enclausurados em seu planeta morto

E chamarão a isso o Grande Progresso
E cultuarão suas próprias invenções
Sem perceber que nada valem de per si

Talvez migrem até para outros mundos
Colonizando escravos, destruindo tudo
Como fizeram por milênios por aqui

Talvez apenas desapareçam, um dia
Sem deixar rastros, nem lembranças
E se reintegrem ao pó da Eternidade…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Pandemia

A planta se contorce, enruga-se toda, cobre-se de cortiça para sobreviver às intempéries da Natureza… então vem o homem, e corta-a pela RAIZ!

Palavras doem como um parto, quando oprimidas pelos versos, pelas rimas, pelo ritmo… saem apertadas na imensidão dos dicionários que se ocultam na alma dos poetas… esgueiram-se pelas esquinas de seu pensamento, buscando a frase perfeita, a expressão única e absoluta do sentimento inescrutável… por fim, tal como a erupção de um vulcão extinto, explodem absolutas na imensidão da dor do parto, e se perdem, para sempre em um simples verso, tão denso que poucos haverão de compreender… e, ao nascer, fenecem… extinguem-se em si mesmas, sem revelar aos incautos leitores, seu significado verdadeiro..

De repente, o mundo está só, perdido em sua mesmice indecifrável, perplexo diante da pequenez humana que se revela, abrupta, no âmago de cada alma. Em um átimo, a vida deixou de fluir célere em nossas veias, perdendo-se nos labirintos do ser… Olho-me no espelho e não vejo nada… fiquei transparente como a água, como o ar e o vazio absoluto do Cosmo…

Passaram-se meses desde que o primeiro ser sucumbiu à praga contemporânea, lembrando ao Homem que não é o Senhor do Universo, mas apenas um insignificante verme a se arrastar no lodo de sua própria alma… pessoas se escondem por detrás das máscaras, lavando-se em álcool, desesperadas, ao simples toque discreto em outro ser, num objeto, ao respirar no elevador, ao tocar no corrimão da escada rolante, na maçaneta de um lavatório, ou, pelo simples ato de respirar na solidão de si mesmo…

Perdeu-se o indivíduo ao abdicar de sua própria identidade, ao reagir coletivamente àquilo que fora sempre natural, como o mero respirar em um espaço comunitário… a alma se esvaneceu na eternidade, deixando-nos as carcaças vazias, repletas de culpa e de tédio, plenas em solidão e desespero, ocas do existir tão-somente, sem preocupação com o fluir do tempo que se esvai na Eternidade de cada momento perdido…

E a Vida continua a fluir na ampulheta do Tempo, indiferente aos bilhões de seres confusos diante de si mesmos, como se não mais se reconhecessem como indivíduos, mas apenas como uma coletividade difusa e sem identidade própria, no caos que se formou nessa sociedade sem rumo e sem causas… contudo, o Universo continua, incólume, em sua perfeição caótica, expandindo-se, contraindo-se, explodindo em buracos negros ou em supernovas, na imensidão do Infinito, do Eterno, do Vazio e do Caos perfeito que jamais compreenderemos na pequenez de nossas almas, na insignificância do existir, na ausência da Razão e da Vontade…

Pela primeira vez, desde que Sartre escreveu “A Idade da Razão”, nos sentimos verdadeiramente perdidos… afinal, não há Razão no não-existir… e onde está a empáfia desse ser arrogante, que atribui a si mesmo a sapiência plena, mesmo diante de suas piores contradições? Em que outro momento da história humana constatamos, de forma plena, nossa insignificância no concerto do Universo desconhecido dos homens?

Resta-nos, contudo, a poucos, a consciência de que a vida é efêmera, e nenhum de nós é tão relevante para o Universo a ponto de fazer a diferença entre o existir e o vazio absoluto do Éter que preenche esse mesmo espaço infinito e incompreensível… ao menos para nós, seres viventes, supostamente autoconscientes…

Travessia

 Caminho sem fim… e sem começo…

Espaço vazio na existência de qualquer ser humano…

Momento de perplexidade em que se questiona a mera razão do existir…

Transição… momento efêmero… indefinido… desprovido de paz… pleno vazio!…

Olhar que se perde na imensidão do universo particular de cada ser neste planeta impossível…

Passagem… ausência de luz… solidão!…

De um lado, o passado com suas mazelas, recalques, tristezas e recordações…

De outro, o futuro com suas tênues esperanças, desalentos, incertezas e prováveis desilusões…

E, na travessia, o presente, a insegurança, o medo, a luta incessante por sobreviver…

…ou abreviar essa vida infrutífera, inútil… desnecessária…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

O Rio da Vida

Olhava, silenciosamente, o rio passando diante de mim…
Eram restos da civilização se arrastando pelas águas malemolentes.
Silentes… inconscientes… tangentes às margens nuas e barrentas…
Pedaços de vidas desconexas que seguiam sem saber para onde.
Não havia pássaros ou peixes… apenas lixo descartado por alguém…

Lembrei-me de quando por lá passei há muitos anos…
Algazarra, eu dizia, ao ouvir a profusão de vida naquele rio.
Garças, quatis, marrecos, macacos, araras, quero-queros…
As matas cercavam o rio e protegiam a vida em seu redor…
As águas cristalinas mostravam cardumes indolentes…

Pequenas canoas, como a minha, singravam os caminhos…
Não havia barulho de máquinas cortando a terra,
Apenas os sons da vida selvagem, quase intocada, pura…
Pescadores retiravam do rio peixes enormes… surubins… dourados…
Onde estão agora? O que foi feito de meu rio? Nada mais restou…

Meu rio está morto, assim como a alma das florestas…
Meu planeta sofre a dor da devastação que se propaga, célere…
Em lugar das matas, imensos campos de soja, sem cor e sem forma…
Infinitas pastagens vazias… só o gado, pachorrento, à espera da morte…
Em lugar da vida e da diversidade, os mesmos seres escravizados…

Os que moram nas cidades, aqueles que nasceram depois de mim,
Nunca conheceram a beleza da vida, da Natureza, do silêncio…
Apenas os sons dos carros, das motos, dos ônibus, dos zumbis…
Imensas concentrações humanas desprovidas de alma,
Incapazes de amar, de sentir a fragrância da verdadeira vida…

Quanta tristeza…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Civilização tóxica

Jequitibá de 3.000 anos no Parque Estadual de Vassununga, Santa Rita do Passa Quatro, SP

Seu fim está próximo e não se trata de mais uma profecia. Apenas a constatação do óbvio que se apossou desse pequeno e insignificante mundo.

Não sei quem matou Deus, ou se, de alguma forma, ele jamais existiu, mas estamos sós como nunca, nesse vazio espectral do Universo.

De repente, a Humanidade se tornou desprezível, fria, mesquinha, irrelevante, sombria, nefasta, pequena demais para se fazer existir.

Matamos nossas florestas, as árvores, os animais, os regatos, as belezas desse mundo, o prazer de apenas permanecer na chuva, sentindo seu gotejar inebriante, a alegria de estar, simplesmente, abandonado aos pensamentos e reflexões embaixo de uma sombra às margens da cachoeira… só nos restou um imenso deserto, árido e estéril.

Banalizamos o Amor e as Amizades… destruímos a Família pelo isolamento das tecnologias avassaladoras do cotidiano, e sepultamos nossos valores mais perenes, para nos transformarmos em mortos-vivos, seres ensimesmados e ausentes em pensamento, daqueles que nos são queridos…

Não há mais silêncio, nem escuridão. Não há privacidade, nem a solidão suave do meditar, do refletir, do emanar boas energias ao Universo… Desapareceram a gentileza e a emoção. Restou apenas a profunda e inexorável Imensidão do Nada a permear nossas vidas…

As ideologias, as crenças, as histórias contadas no recôndito do lar ficaram no passado inexpugnável das memórias esquecidas… as doces lembranças se tornaram irrelevantes, pois tudo agora é igual, medíocre, mesquinho e fortuito, irrelevante e efêmero.

Viver deixou de ser perigoso, surpreendente, fantástico… tudo se transformou em monotonia, mesmice, desgraça, insanidade… e só nos resta deitar e morrer, inúteis e desamparados.

No horizonte ficaram apenas a fumaça, a fome, a morte, o terror, a miséria, o ódio, a ganância, e a infinita devastação das paisagens amarelecidas…

Um imenso e contínuo Dèja Vu se apossou desse planeta repleto de zumbis, vagando inconscientes, atônitos, perdidos na sua solidão sepulcral.

Tudo agora é inútil e desnecessário… até mesmo o interminável processo da vida: nascer, crescer, viver, procriar e morrer, pois o Ser Vivente, que existia em cada um de nós, se apequenou e desapareceu na própria insignificância do existir.

Restaram, tão somente, os frangalhos despedaçados da vida que se esvai, rapidamente, no limiar desconhecido desta Terra agonizante.

O que fazer, então, senão esperar, desalentado, que o Fim se manifeste, aqui e agora, eliminando o sofrimento e sepultando a Humanidade?

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

SUICÍDIO

Acabou… esvaiu-se em sangue… um regato viscoso serpenteia ao redor do corpo inerte até coagular-se num pequeno lago avermelhado, escuro, opaco.

Seu último alento perdeu-se no vazio de sua não presença, alma que se esvai na eternidade do momento… aos poucos, a face rosada transmuta-se numa repugnante figura de cera, sem brilho, gélida, máscara mortal e fétida, penetrada por moscas e formigas, em busca do alimento pútrido e em decomposição…

assim é a vida quando dela resta apenas o invólucro inútil, despojado do ser que o habitou… para onde terá ido a consciência, as experiências vividas, os sentimentos? Nada mais restou senão essa carcaça…

 

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Tempos estranhos…

No Universo interior de cada ser existem duas realidades:
A que se vê, onde se vive, com quem se relacionam os seres…
E outra realidade, mais intensa, mais sutil e, portanto, inacessível
Aos olhos e sentidos de quase todos nós.

Essa presença óbvia e permanente ofusca a outra, etérea e difusa…
Seres abstratos se movem lentamente na imensidão de tudo,
Interpenetrando espaços e certezas, desapercebidos e silentes…
A eles pouco importa essa realidade crua, dura, material.
Apenas energia, pura, leve, impermanente e luzidia,
Vibrando em intensidades imperceptíveis neste mundo,
Realidade e ficção: apenas duas faces da mesma eternidade.

Incompatíveis, irreconciliáveis, noite e dia, dia e noite,
Clarão e escuridão, multidão e solidão, paz e violência…
Aos que vivem apenas da realidade pura, material.
Não existe PAZ… e o AMOR se restringe a efêmeros instantes…
Não existe LUZ, exceto aquela visível, pálida e monótona.
Não existe ETERNIDADE, e todos estão sujeitos à morte em vida.

Aos Seres Iluminados, contudo, lhes é dada a percepção de tudo:
PAZ, AMOR, PERMANÊNCIA, ETERNIDADE, INFINITUDE…
Aos Terrenos, a curta permanência, a dor e o sofrimento;
Aos Etéreos, a Compreensão e Harmonia Universal!
Porém, para atingir tal percepção, não basta viver…
É preciso sofrer e morrer… é necessário abdicar de TUDO!

É imperativo o DESAPEGO… e como é difícil desapegar…
O caminho do aprendizado é longo e tenebroso…
A poucos é dado o Conhecimento… não basta querer…
As duas realidades estão diante de nós, mas poucos podem vê-las.

A esses é dada a opção: voltar ao mundo real ou enfrentar o MITO!
O Mito é um ser gigante, impiedoso e forte. Imbatível!
Mas, se é imbatível, como enfrentá-lo?
Esse é o Caminho: a Mitologia mostra esse dilema.

Mas poucos conseguiram ler os pergaminhos da Sabedoria…
E mesmo àqueles que o compreenderam, poucos sobreviveram…
Pois a imagem do OUTRO LADO é apavorante, para os não iniciados…
Para compreendê-la é imprescindível abrir mão de TUDO!

Talvez ninguém que lê esse texto compreenda o que significa TUDO…
Todos estamos imersos em um Universo dual: CERTO ou ERRADO.
Mas o CAMINHO não é o do Certo ou Errado… é o da VERDADE!

Poucos podem olhar para ele! Poucos podem “queimar seus navios”…
Interessante como a Literatura oculta sinaliza esse Caminho…
Apesar de ÓBVIA, poucos a compreenderam,
E criaram diferentes interpretações primárias, singulares…
Mas a SABEDORIA está muito além de nossa compreensão…

“Quando o Discípulo está preparado, o Mestre aparece”, diziam os mestres budistas…
Mas como é difícil perceber a figura do MESTRE na infinitude dos seres terrenos…
Pois ele não está entre nós… O Mestre está oculto nas palavras…

Mas por que ele não se apresenta claramente aos buscadores?
Porque, mesmo entre aqueles que estão no Caminho,
Poucos são capazes de compreender as Verdades Eternas…
Você está preparado? Pode se desfazer de suas vestes?

Pode se oferecer ao sacrifício no Altar dos Templos?
Muitos interpretaram essa indagação como uma verdade,
Mas não existe Verdade nas palavras de qualquer idioma…
A verdade está além… muito além das palavras…

E mesmo que vivas muitas reencarnações,
Pode ser que jamais compreendas o Significado!
E aqui Reproduzo as palavras mais sábias, mais absolutas, mais completas
que um Mestre poderia dizer aos que não alcançaram a Iluminação.

São palavras de Mabel Collins, discípula de Helena Petrovna Blavatski,
A grande mestra da Teosofia! A Mestra das Mestras…

“Antes que os olhos possam ver, devem sem incapazes de lágrimas;
Antes que o ouvido possa ouvir, deve ter perdido a sensibilidade;
Antes que a voz possa falar em presença dos Mestres;
Devem ter perdido a possibilidade de ferir;
Antes que a Alma possa erguer-se na presença dos Mestres…
É necessário que seus pés tenham sido lavados no sangue do coração.”

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Hoje é o teu dia, Poeta!

Poeta, despertai, pois hoje dizem ser teu dia!
Busca as razões para seres poeta… ou, talvez, feliz…
Em outros tempos de menos temores, até que poderias…
Hoje, porém, submerges em pesadelos de aprendiz.

Poeta, despertai do sonho inglório, pois é hoje o teu dia!
Acalentai a esperança moribunda, qual a pobre meretriz…
Que, ainda criança, sequer imaginara sua vida por um triz…
E agora, nas calçadas, arrasta sua alma, seu fardo… chamariz!

É teu esse dia, poeta! Vibrai tuas cordas no silêncio da garganta!
Despoja-te da glória! Nunca a alcançarás! Sois poeta, enfim!
Segue teu rumo adiante, à eternidade, à musa que te encanta!
Esquece-te do passado, pois tua caminhada só te levará ao fim…

Não… talvez não sejas mesmo esse poeta… tua rima é pobre…
Tuas palavras não têm o ritmo vibrante da vida ao teu redor!
De teu ser embaraçado só tens a imagem projetada no passado…
E, de tristeza, já morreste tantas vezes que não te erguerás jamais.

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

O CAOS E A PERFEIÇÃO

O que me encanta é o CAOS, não a Perfeição!

É no Caos que se manifesta a Perfeição do Universo, e sua Beleza inquestionável!!

A Desordem universal é que nos leva a acreditar na perenidade do Infinito!

O contraponto do Caos não é a Perfeição, mas a uniformidade monótona da criação humana… a linha reta, o círculo, o monocromático das paredes, as monoculturas e os jardins dos palácios imperiais, onde a Harmonia quebra a complexidade do Caos…

O que me assusta é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é o Imponderável, o Imprevisível, o Inesperado, o Desconhecido!

A vida sem o Caos é o oposto do Ser Criador: são as regras, as normas, a rotina dos escritórios, os horários determinados pelo relógio, o previsível e o uniforme…

O que me motiva é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Surpresa, o Despertar, a Descoberta, a Invenção, a Inovação permanente!

O mundo sem o Caos é uma sucessão de fatos corriqueiros, cotidianos, um arrastar do tempo sem a beleza incontestável da descoberta, um mundo monótono, inútil e vazio, onde predominam as regras e as leis humanas, em detrimento da desordem do Caos…

O que me apavora é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Escuridão, o Passo no Vazio, a Busca da Perfeição sem jamais atingi-la!

O homem sem o Caos é um ser amorfo, desprovido de sensibilidade, incapaz de discernir entre o Eterno e o trivial, entre a matéria e o Espírito, entre o Bem e o mal…

O que me move é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Mola Propulsora da Humanidade, a Força Interior de todo Ser Vivente!

Sem o Caos, o mundo permaneceria na Idade das Trevas! Mas, talvez essa teria sido a Maçã de Adão e Eva, o momento em que o Homem se diferenciou dos animais e se tornou Dono do Universo… talvez, nesse momento de inflexão, o Mundo tenha começado a definhar, a se acabar, a se autodestruir… e a Perfeição do Universo, transfigurada pelo Caos, tenha deixado de existir, nos impelindo a colocar Ordem na Natureza… talvez a verdadeira Ordem seja o Império do Caos, e o permanente desequilíbrio de forças no Universo seja sua Lei Maior que o mantém vivo e eterno…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Não esperes, de mim, palavras doces…

Chapada Diamantina

E Ele me disse, na escuridão de meus ouvidos: 

“De que reclamas, se, em tua vida, realizastes mais do que a maioria dos mortais?”

E insiste, enfático:

“O que esperas de mim, se, convicto, me negastes durante teus curtos dias nesta Terra, espaço inútil, a quem amas mais intensamente do que àquele que te criou e concebeu?”

Mas eu, no mais obscuro silêncio dos recônditos esconderijos de minh’alma, ouso responder:

“Jamais reclamo, pois sei que, de minha efêmera existência, nada levo, tampouco nada deixo para trás; sequer saberia dizer para onde se destinam as almas, se existem, quando a vida deixam para trás…”

E, entusiasmado com a retórica de minha inaudita afirmação, prossigo, irreverente:

“Se Tu existes somente na imaginação dos homens, a cada um mostrando a outra face – não a Tua – por que iludes assim a humanidade, crente em recompensas que nem mesmo o silêncio das eternas moradas as revelará, ainda que muitos afirmem tê-las visto, vagamente, na penumbra da quase-morte do infinito renascer matutino, reverberando em suas próprias construções mentais?”

Prossigo, ainda, insistente, em minhas confabulações inúteis:

“Onde estão aqueles que doaram suas vidas a causas iníquas, se Tua Sabedoria Universal afirma a efemeridade de tudo o que existe, existiu ou virá a ser, um dia, neste transitório mundo dos homens?

Finalmente, satisfeito com minha argumentação vazia, lanço meu veredito:

“Se confabulo com o Inexistente, mas apenas meus pensamentos ouço em derredor, onde estaria, enfim, o derradeiro Reino que escreveste em todos os Livros Sagrados, em diferentes línguas, em variadas metáforas e parábolas, em artimanhas do pensamento, que só os homens, em suas manifestações terrenas acreditam compreender? Onde estaria, afinal, Tua Morada, ainda que não fosse, tão-somente, outra das inesgotáveis armadilhas construídas pela imaginação humana?”

“Não esperes, de mim, palavras doces, daquelas que escutastes dos poetas, dos amantes nas alcovas, a prometer, em versos, o seu amor eterno, e a esquecê-las, céleres, ao amanhecer!”

“Não creias, pois, nos pensamentos que vazam, aos borbotões, nas frases que se despejam, sem cessar, dos textos que publico, na intenção não manifesta de iludir os meus leitores, ao afirmar a ilusão da própria vida, em suas manifestações inesgotáveis, neste eterno alvorecer.”

Não o faço, porém, com a má-fé dos “pastores de alma”, que encontram, em palavras vãs e sibilinas, a provável indicação do eterno Reino daquele que, tendo sido o “Criador das criaturas”, delas não fez um ser perfeito, deixando, a cada um, a missão improvável de resgatar a alma impecável que existiria, supostamente, na obscuridade do futuro, desconhecido e cruel.

Apenas creio saber, no âmago de meu ser, que tudo o que fizemos e deixamos para trás, no ocaso de nossos dias terrenos, de nada servirá para salvar a humanidade, nascida órfã e deixada aqui, abandonada “neste vale de lágrimas”, a padecer eternamente, enquanto vivos.

Não esperes, de mim, palavras doces, mensagens de conforto ou de consolo, pois, na tumba em que repousará o teu cadáver, serás apenas, e tão-somente, alimento aos vermes… nada mais.

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Dane-se o mundo!

Amo alguém que não existe
Não sou quem eu penso ser
Acredito no Absurdo
Confio na Solidão
Escuto o que não ouço
Sigo os passos do Oculto
Vejo tudo na escuridão

Sei que são Assombrações
Nada além da Imaginação
Fico cego na Evidência
Sou ninguém, sou traiçoeiro
Inimigo da Razão
Minha senda é a Sedução

Mas não cedo à tentação
De ser apenas apático
De confiar na Justiça
Na Bondade, na Ilusão
Sou apenas prisioneiro
Do óbvio, da contradição

Renuncio ao meu direito
De ser o beneficiário
De ser somente cidadão
De ser apenas cordato
Na vida que se apresenta
Nesse mundo de ilusão

Enquanto tudo se esgarça
Em vaidades, miséria, esbórnia
Em ambição desvairada
Enquanto poucos se fartam
Da mesquinhez do mundo cão

Sou um simples marginal
Desse mundo desigual
Luto só por ideal
Supondo até ser possível
Um universo real
Onde primam a Justiça, o Bem e a Bondade

E o Amor sem compromisso
E a Vida só, sem maldade

Mas tudo isso é bobagem
De um pensamento pagão

Afinal, somos apenas loucos
De confiar na suposição
De que além desta vida
Existe a compensação
De tamanho sofrimento
Por um Paraíso de Amor
De Paz e de Compreensão

No fundo… tudo e tão-somente
São os frutos da Ilusão!

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Andrajos

 

Da ponta fina e sutil escorre meu pensamento:
Ora, em profunda tristeza, ora, pleno em alegria.

Seria, a tinta, o humor, o sangue de nossas vidas?
Quem alterna o sentimento, da dor à melancolia?
Quem, da mão, faz sua escrava, levando à mente a vontade,
Calando, em si, o desejo, recompondo a harmonia?…

Seria, enfim, ao contrário, apenas por ironia,
Que a vida se originasse da folha em branco e vazia?

Assim, por mero capricho, rabisco esta poesia,
Que nada diz, na verdade, pois nada me restaria,
Senão silêncio e saudade, senão andrajos de amor…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Dinorah

Por ti compadecemos, impotentes, mãe querida,
Sem conhecer-te os sonhos… sem compreender-te a dor…
E de tal modo nos acostumamos com tua breve partida
Que jamais soubemos onde guardavas tanto amor…

Suave, serena e forte, tua chama delicada conduzias…
E enquanto o sofrimento ocultavas no silêncio dos teus dias,
Teu pequenino corpo pressentia o iminente desenlace
Sem uma lágrima sequer jamais verter em tua face.

Valente e decidida, optaste por permanecer presente
Quando a vida, ao teu redor, já perdera todo encanto,
Na escuridão dos dias infinitos, em seu estar silente,
A nos dar o teu carinho… a nos esconder teu pranto…

E agora, que nos deixaste sem o teu calor,
Completamente sós… desamparados… tristes…
A lamentar tua ausência… a compreender tua dor…
O que nos resta é lamentar, calados… e murmurar silentes:

Ah… Dinorah… que falta sentiremos no resto dessa vida!…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

MADRASTA SOLIDÃO

 

Vejo-a com meus olhos de menino
Encantado por sua dedicação
E nada fiz por merecê-la
Simplesmente existi

Vejo-me pelos seus olhos pequeninos
Embaciados pela vida que passou
E nada fiz por recompensá-la
Pois só cuidei de mim

Enclausurada em sua solidão sem fim
Não a encontro mais perto de mim
E nada posso fazer por revivê-la
Senão fechar os olhos

…e adormecer também…

ESTRANHA CIDADE

 

Não pertenço mais a esta cidade
Mas algo me traz de volta aqui
Venho apenas para reviver
Os sonhos que algures deixei

Meu pai talvez soubesse a razão
Porém, ele se foi e me deixou vazio
Levou consigo nosso castelo de ilusão
E me escondi em outros pesadelos

Entreguei-me ao prazer de conduzir
Almas, seres humanos, gente como eu
Perdidos nas incertezas do amanhecer

Mas não existe Amanhã no Ser…
Por isso, talvez, perambulei por aí
Buscando, quem sabe qual motivo
Para perseverar, ainda que disperso
Em pensamentos que não são meus

Como posso refletir se já não tenho paz?
E, no entanto, continuo aqui…

AMAZÔNIA

 

Estranho mundo perdido no passado
Entristecida gente deixada no caminho
Inebriada pelo falso brilho da civilização

Não são brancos, pardos, negros, índios…
São só caboclos, despidos de identidade

Chamam-se ingenuamente de parentes
Como a dispersar assim as desavenças
Deixadas pela dominação caucasiana

Gente sem passado, cantam suas ilusões
Fingem preservar, assim, as tradições

Mas elas não existem mais… se foram…
E não haverá quem as resgate do passado
E viverão assim na eternidade que não há…

SEM DESTINO

 

Quisera não compreender a realidade
Iludir-me, como o fazem todos os demais
Fingir que ainda acredito na humanidade
Que ainda existem esperanças nesta vida

Mas não sou assim: perdi a ingenuidade
E sei que um dia tudo encontrará seu fim
E que não é possível salvar este planeta

Porém, já terei ido quando isso acontecer
E o mundo se ocultará de vez nas trevas
E os homens padecerão os seus pecados
Pagando o preço do desprezo pela vida

E não haverá mais florestas, flores, animais
E o que restará serão somente os desertos

Mas, ainda assim, existirão os homens
Enclausurados em seu planeta morto
E chamarão a isso o Grande Progresso
E cultuarão suas próprias invenções
Sem perceber que nada valem de per si

Talvez migrem até para outros mundos
Colonizando escravos, destruindo tudo
Como fizeram por milênios por aqui

Talvez apenas desapareçam, um dia
Sem deixar rastros, nem lembranças
E se reintegrem ao pó da Eternidade…

SONS INESQUECÍVEIS

 

Ouço o silêncio obscuro de meu interior
Que os sons deste mundo já não ouço mais
Parecem-me ruídos, gritos esganiçados,
Ofendem meus ouvidos já cansados

Ouço o som do Universo ao meu redor
Meu pai diria: “ouça o som das esferas”
E vejo os mundos a rodopiar nos céus
E o brilho inconfundível desses astros
E o som inaudível da luz cortando o éter

Ouço o murmúrio das águas pelas pedras
E sinto a paz que já não existe mais

Ouço o burburinho das crianças
Algazarra feliz, descontraída e bela
Cantigas ancestrais trazidas da lembrança
Bailam em roda, despreocupadamente
Ainda não perderam a pureza dos anjos
Nem se tornaram perversas como os pais

Ouço o farfalhar das folhas na floresta
E o sublime cantar dos passarinhos
A chamar suas fêmeas, a tecer seus ninhos
Percebo a sombra dos grandes animais
E suponho suas vozes, a rugir, medonhos…
A espantar inimigos… a impor domínios…
Apenas sons imaginários… nada mais

Tempo demais!

Busco os limites de meus infortúnios

Nos atos, nos pensamentos, nas palavras…

Na solidão que me cala e consente,

Na angústia de não ser presente…

 

Procuro, na vida que me resta,

Um motivo, uma razão, uma vontade

Que seja, para perseverar e crer…

Para prosseguir, mesmo contra a razão.

 

Porém, minhas mazelas são pequenas,

Meus limites são restritos, fracos…

Meus propósitos, mesquinhos,

Ao menos aos olhos da realidade…

 

E o caminho que percebo é enorme!

Tempo demais para percorrer,

Antes que o desejo se acabe,

Antes que o fim se alcance…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Tantas palavras…

… e, no entanto, tão poucos e raros pensamentos que nos enriqueçam…

Em nenhum outro momento da existência humana se falou tanto, se escreveu tanto, se comunicou tanto… tantas palavras para tão pouco significado e expressão!

De que servem tamanhos recursos tecnológicos, tal disponibilidade de conversas, interações, amizades virtuais, se a humanidade tão pouco tem para dizer?…

… algo que, realmente valha a pena, que nos sensibilize, que se inove e se recrie…

Não! Apenas palavras vazias, repetidas aos milhares, lugares-comuns, chavões, versos roubados de poetas anônimos… não porque tenham, de fato, algum valor, mas porque ninguém se sente capaz de imaginar algo novo e relevante para o mundo…

Uma era de vazios… um imenso buraco negro na inteligência humana!

Tantas palavras… tão pouco significado…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia