Opulência e Miséria – a História da Humanidade

A História da Humanidade não é apenas a história dos vencedores, como ficou registrado nos livros, mas também a história dos derrotados, dos escravizados, da opulência e da miséria. Mais do que isso, é a história das três forças que movimentaram o ser humano desde que se estabeleceu no mundo: a Aristocracia, as Religiões e o Poder Militar. Com eles, a maioria absoluta da humanidade foi escravizada e submetida às mais cruéis e degradantes condições sub-humanas de que se tem notícia.

Nos primórdios da vida humana na Terra, há cerca de um milhão de anos, os primeiros hominídeos eram semelhantes aos demais primatas, nômades, caçadores, coletores e selvagens, lutando apenas pela própria sobrevivência. Aos poucos, porém, se juntaram em grupos para enfrentar as adversidades de um mundo selvagem, cuja única regra era permanecer vivo, reproduzir-se e assegurar a continuidade de cada espécie. Ainda que não se saiba exatamente como e onde essa espécie se diferenciou dos animais, o certo é que, cerca de 10.000 anos atrás, esses grupamentos de hominídeos começaram a desenvolver técnicas que os diferenciaram dos outros seres vivos, como a produção do fogo, o uso de ferramentas e a fixação no campo através da criação de animais e do cultivo dos próprios alimentos.

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As primeiras grandes civilizações remontam a cinco mil anos atrás, quando gregos, egípcios e assírios começaram a construir seus impérios. Durante os milênios que se seguiram, um padrão de organização social se formou, com base nas hierarquias do poder, constituídas de uma casta política, militar e religiosa, que assegurava suas origens divinas e seu direito sobre a vida e a liberdade dos demais seres humanos, dominados por eles e submetidos às mais perversas condições de vida. A escravidão era uma regra, assim como as guerras de conquista e o mito de que os sacerdotes e os nobres tinham sua origem nas hostes divinas. Os escravos tinham, por regra, duas procedências: entre os cidadãos de segunda classe, endividados e submissos aos poderosos, e os povos de nações conquistadas nas guerras. Para as mulheres, era reservada apenas a posse de seus senhores e a submissão aos seus desejos.

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Desde então, muito pouco mudou na História do Mundo: Grécia, Egito, Roma, Babilônia, Assíria, Fenícia, Maia, Inca, Asteca, Judeia, Índia, China… na Europa, nos dois mil anos que se seguiram, surgem os Feudos Medievais, os Imperadores e os Reis, os Czares, o Clero e os Papas, todos apoiados pelo poder dos militares e das suas armas, ou pelos poderes celestiais das religiões. As classe dominantes usufruíam das riquezas e exploravam a miséria da população semi-escravizada, em uma sociedade impermeável às mudanças de substratos entre seus membros menos favorecidos pela sorte. Sempre um pequeno grupo dominante, detentor das riquezas e do poder, e uma imensa maioria de explorados e abandonados pela sorte, assegurando que essas minorias permanecessem ricas e poderosas.

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O que mudou depois de tantos séculos? Depois do período medieval, o mundo foi ocupado pelos poderosos Estados-Nação europeus, que dominaram a África, a América e o Oriente Médio, além do Sudeste Asiático e a própria Ásia continental. Esse domínio prevaleceu por vários séculos, passando pelas Reformas Religiosas, pelo Iluminismo, pela Revolução Industrial, enquanto a maioria absoluta dos povos era seduzida e submetida a esse poder desigual e injusto. Porém, a partir do século XIX, uma nova doutrina despertou os trabalhadores à consciência de sua situação degradante, mobilizou suas lutas e organizou os operários a enfrentar seus patrões em busca de condições mínimas de dignidade e respeito: a doutrina de Marx e Engels colocou fogo na Rússia Czarista, e, assim como a Revolução Francesa, decapitou a nobreza e deu início à Democracia Socialista. Porém, esse sonho de liberdade durou pouco, pois está no sangue do ser humano dominar seus semelhantes, escravizá-los e conservá-los na ignorância e na miséria.

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E por isso, apesar de grandes conquistas, a humanidade continua estratificada e cristalizada no mesmo tripé de poder que edificou o seu passado: a nobreza das cortes foi substituída pela classe política corrupta, pelo poder militar dos exércitos, e pelas religiões retrógradas e anacrônicas, em um mundo caracterizado pelas novas tecnologias e pela comunicação instantânea que eliminou distâncias, mas não mudou a mentalidade do povo, agora escravizado pela ignorância e pela subserviência. Novos ídolos populares alardeiam suas “teses teocêntricas”, inconcebíveis para qualquer cidadão que tenha um mínimo de cultura e racionalidade, enquanto a mesma tecnologia que encurtou as distâncias afastou o povo de suas raízes, calou sua consciência e subverteu seus valores, eliminando sua capacidade de análise e reflexão a respeito desse admirável mundo novo das Ciências, sepultou a Filosofia e calou os espíritos inquietos que revolucionaram o mundo no passado.

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Por quanto tempo a civilização ainda será sustentada pelas hordas de trabalhadores para manter tais elites no poder e na opulência, enquanto o povo permanece na escuridão e na ignorância de sua própria capacidade de mudar tudo, decapitando seus governantes e estabelecendo uma verdadeira Democracia? Provavelmente pelo resto dos dias em que essa sociedade apodrecida e caquética reinar neste planeta fadado ao desaparecimento. Quando os recursos naturais forem extintos pelo consumo desenfreado de tais minorias, quando a Terra não mais sustentar sua população desmesurada, quando a água, essência da vida, for insuficiente para saciar a sede da humanidade, provavelmente a Natureza dará a resposta aos seres humanos, alijando-os definitivamente da face da Terra… e o equilíbrio se restabelecerá. Talvez uma nova civilização apareça daqui a milhões de anos, ou talvez esse planeta seja extinto com todo sistema solar… mas em outros mundos pode ser que uma civilização viável, sustentável, possa ter encontrado um modo de viver justo, digno, razoável, equilibrado, pacífico e harmonioso… talvez, no entanto, e isso é mais provável, o surgimento da inteligência seja o fator primordial para que os mundos se destruam antes que os seres se convençam de sua igualdade diante dos demais seres vivos desse planeta…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaios

Avatar, Gaia e a Impermanência do Eterno

Em tempos de trevas, os maus espíritos se destacam na mediocridade dominante. A desconstrução do Universo e sua impermanência, contudo, evocam a insignificância das civilizações no contexto divino, e nos remete à relatividade dos conceitos humanos e da própria vida na Terra.

Revisitando “Avatar” (o filme) tive a sensação inevitável do dèja vu na construção do Conhecimento Humano. Afinal, onde se situam o Tempo e o Espaço na infinitude desse vazio que nos cerca desde os tempos imemoriais do nosso pequeno planeta? Basta refletir sobre o Tempo, medida relativa às rotações da Terra em torno do Sol, nossa pequenina e insignificante estrela, que poderia ser destruída pelo simples fato de que a duração, ainda que relativa, do ano terrestre nunca foi a mesma desde que as partículas e fragmentos do Universo se solidificaram nas formas que hoje reconhecemos, dezenas de bilhões de anos depois que o suposto e improvável evento do Big Bang teria ocorrido… sempre nos perguntaremos: o que havia antes do Universo se formar? O que existirá depois que o Universo se extinguir?

“Pandora” seria o mundo perfeito, não fosse a ambição de outros povos, os humanos terrestres, que, tendo destruído seu próprio mundo pela exploração devastadora dos recursos naturais, foram em busca de outro Paraíso para, da mesma forma, explorar e devastar. Em “Pandora”, onde habitavam os Na’Vi, que adoravam a Deusa da Vida, Eywa, a Natureza quase intocada se relacionava através da conexão vital entre todos os seres vivos. As trocas de energia entre os seres vivos eram a ligação primordial que assegurava o equilíbrio desse mundo quase perfeito. Qualquer alteração nesse equilíbrio poderia acabar com os Na’Vi.

Há muito tempo, nós, humanos terrenos, quebramos esse vínculo perfeito entre os componentes da Natureza exuberante que herdamos, expondo as entranhas da Terra à exploração predatória causada pela ambição. A cada dia, mais nos aproximamos do ponto sem retorno, do desequilíbrio entre os componentes vitais e a civilização a que demos origem há menos de um milhão de anos. Enquanto os efeitos desse momento fatal se manifestam na perda irrecuperável das condições de vida na Terra, a concentração de riqueza e poder nos leva a outro ponto perigoso, onde as hordas de miseráveis irão se rebelar contra os poderosos.

A dúvida que resta é se esses dois polos da mesma disputa se encontrarão a tempo de salvar o planeta, ou se a vida na Terra se extinguirá, dando início a um novo ciclo de criação, talvez dando origem a novos seres menos ambiciosos e mais próximos do conceito dos Na’Vi. Seria essa a salvação do planeta? Ainda que sim, não seremos nós, ou melhor, nossos descendentes que herdarão a nova Terra, mais próxima de Gaia e de “Pandora”. Na primeira hipótese, como se comportarão os vencedores, aqueles miseráveis que hoje se avolumam na população desse pequeno globo terrestre fadado ao desaparecimento, seja qual for o prato da balança que penderá em favor da humanidade? Poderiam se redimir dos erros do passado, ou estariam contaminados demais pela ambição de seus algozes? Seria uma nova humanidade, ou apenas a repetição de nosso passado terreno?

Fato é que, justamente nesses miseráveis oprimidos se sustentam as teses reducionistas de religiões retrógradas e incapazes de buscar a solução de Pandora (a Deusa), “a que possui tudo, a que tudo dá, a que tudo tira”. Os gregos criaram deuses para todas as situações, qualidades e defeitos dos seres humanos. Talvez por isso sua civilização tenha se tornado a mais venerada, a raiz da Filosofia, a fonte de todo saber humano contemporâneo. As outras civilizações se auto-destruíram, sempre pela ambição incontrolada, vítimas de suas próprias fraquezas.

Resta-nos constatar que nosso mundo caminha, inexoravelmente, para a extinção, não importa qual caminho seja o escolhido. Antes, porém, cada ser humano se extinguirá a si mesmo, e também não importa qual a sua contribuição para o destino da humanidade, quais as suas crenças, quais os seus deuses e seus livros sagrados. Se hoje vivemos tempos de trevas, nossas escolhas assim o determinaram. Algumas terão consequências imediatas, e nós pagaremos por elas em vida, enquanto outras se abaterão sobre nossos filhos e netos, os herdeiros de todo mal praticado por nós, não importam, mais uma vez, nossas crenças e religiões.

Jamais a Ciência Humana atingirá a maturidade suficiente para esclarecer os segredos do Universo, nem mitigará os males causados pela devastação que causamos a nossos semelhantes. Seremos sempre vítimas e algozes de nossas escolhas, e a felicidade terá sido tão efêmera que não suportará a duração de uma simples vida. Todos nascemos, crescemos, sofremos e fazemos sofrer… e, simplesmente, morremos

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaios

Revisitando o PAÍS DOS MENTECAPTOS (2018)

Passados 200 dias da ascensão fascista ao poder no Brasil, na figura desse ser ignóbil, é difícil elencar todas as asneiras proferidas por aquele que foi eleito por 57 milhões de brasileiros, tamanha é a coleção de “joias da cultura (de botequim) da sociedade brasileira”!

Esse ser inominável e desprezível era admirador de Carlos Alberto Brilhante Ustra, que foi um coronel do Exército Brasileiro, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército, um dos órgãos atuantes na repressão política, durante o período da ditadura militar no Brasil, e que também era conhecido pelo codinome Dr. Tibiriçá. Esse energúmeno foi o responsável por prisões arbitrárias, torturas, estupros e assassinatos ocorridos depois do Golpe Militar de 1964. Entre as vítimas desse violento e cruel algoz da ditadura, constam a ex-presidente da República Dilma Vana Rousseff e a jornalista Miriam Azevedo de Almeida Leitão, esta última presa, torturada e estuprada quando estava grávida.

“Tudo isso que está aí” é a expressão predileta da ignorância do supremo mandatário, oriundo das fileiras das Forças Armadas, de onde foi aposentado compulsoriamente enquanto servia, como capitão e paraquedista do Exército Brasileiro, quando tramava atentados terroristas contra quartéis e de onde deveria ter sido expulso, sem honras e sem glórias. Depois de 28 anos como deputado federal (sem nenhuma contribuição relevante para a Nação), seu único legado foi uma sucessão de besteiras preconceituosas e agressões inomináveis a mulheres, gays, negros, indígenas e miseráveis (“que não existem” no país desse imbecil). Curiosamente, foi justamente entre os generais que o embusteiro foi buscar apoio político para compor seu estranho ministério…

O que nos surpreende é que nesses 57 milhões de votos encontram-se mulheres, indígenas, negros e membros da comunidade LGBT, justamente aqueles desprezados e humilhados por este presidente da república. O que explicaria “tudo isso aí”, ou seja, o que motivou tais pessoas a escolherem o pior ser humano disponível, diante de tantas alternativas certamente melhores e mais qualificadas? Afinal, seu principal reduto eleitoral está entre evangélicos, inimigos do PT e do Socialismo, truculentos amantes das armas, latifundiários do agronegócio, radicais da extrema direita brasileira e neofascistas que se julgava reduzidos a poucos indivíduos depois de 21 anos de ditadura!

Essa estranha tendência mundial pelo neoliberalismo de direita foi confirmada em vários países da Europa nas eleições dos últimos anos, e seria explicada por uma rejeição aos partidos de esquerda que não souberam “capitalizar” (curiosa palavra) as conquistas sociais e o crescimento econômico e tecnológico experimentado na segunda metade do século XX, justamente em decorrência do fim da Segunda Guerra Mundial e das ditaduras militares latino-americanas, que teriam deixado sequelas permanentes na Humanidade, mas também possibilitaram o surgimento de democracias emergentes e a efetivação de pactos sociais refratários ao Capitalismo perverso e selvagem dos anos do pós-guerra. O pêndulo ideológico fez seu retorno à direita e à globalização, igualmente incapazes de evitar crises econômico-financeiras que paralisaram a Economia mundial por várias décadas.

O fato é que essa nefasta mistura entre Ideologia, Religião, Economia e Oligarquias Dominantes sempre resultou em regimes de força e estimulou guerras violentas ao longo da História. E no Brasil não foi diferente: nos anos 1930-1945 tivemos a ditadura de Getúlio Vargas, truculenta e contraditoriamente enaltecida por suas conquistas sociais; depois, nos anos 1964-1985, as ditaduras militares de Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo, quando a violência se justificava por um projeto econômico representado por grande crescimento econômico (o “milagre brasileiro”) seguido do endividamento do país perante o FMI (Fundo Monetário Nacional).

A ascensão do republicano e bilionário norte-americano Donald Trump à presidência dos Estados Unidos também surpreendeu o mundo por suceder a dois mandatos consecutivos do admirável Barack Obama, negro de origens africanas, liberal e democrata, de comunicação fácil e brilhante, que, mesmo com a forte oposição do Congresso, conseguiu fazer importantes reformas sociais nesse país que idolatra as armas, as guerras e a supremacia branca, e que é profundamente preconceituoso e arrogante em suas políticas internacionais. É justamente nesse exótico representante do fascismo e do neoliberalismo radical que nosso inculto presidente foi buscar “inspiração” e apoio político. Foi também nos Estados Unidos da América que Bolsonaro encontrou seu “guru” expatriado: Olavo de Carvalho, que nunca cursou uma Universidade, teve uma carreira bizarra como “Astrólogo” antes de se autodenominar “Filósofo” e criticar todos os que ridicularizavam suas “teorias” medievais, como a da Terra Plana e outras cretinices…

Pois este bizarro e contraditório personagem tupiniquim não apenas conquistou a presidência, mas impôs aberrações políticas inaceitáveis ao Povo Brasileiro, como sua obsessão pelas armas, seu desrespeito às normas democráticas, seu sectarismo fanático por estranhos mitos (este sim, absurdos) como da Terra Plana, do “direito” do cidadão de matar quem invadisse suas “propriedades” (usurpada dos verdadeiros donos, os indígenas), da “Escola sem Partido” e da Educação banida de Paulo Freire e de quaisquer intelectuais de esquerda, da desconstrução dos Direitos Sociais, dos “direitos” dos latifundiários a serem ressarcidos por seus atos criminosos contra o Meio Ambiente (com dinheiro oriundo de doações internacionais para reduzir o desmatamento), pelo seu descrédito a instituições memoráveis como o IBGE, a FioCruz, as Universidades Federais, o INPE, o IBAMA, o ICMBio, e tantas outras barbaridades que apenas evidenciam o total despreparo e a incompetência desse indivíduo para exercer quaisquer cargos ou funções públicas.

Se abominamos os descalabros praticados pelo PT e todos os demais partidos políticos desse país (ressalvados aqueles raros políticos que se mantiveram distantes das falcatruas das últimas três décadas de redemocratização e reordenamento jurídico da Nação Brasileira), o que dizer de um político que afirma que seu filho Eduardo, o “Número Três”, tem qualificações para assumir o cargo mais desejado da diplomacia brasileira, mesmo sem qualquer familiaridade com a complexa teia de conhecimentos que envolve a carreira diplomática, antes respeitada internacionalmente, ou ao proteger seu outro filhote, o “garoto” Flávio, o “Número Um”, envolvido em acusações de corrupção, prevaricação, enriquecimento ilícito e vinculações com a Milícia Carioca, inclusive no escabroso caso do assassinato de Marielle Franco, ou ainda de seu filhote Carlos, o garoto “Número Dois”, responsável pela vergonhosa “campanha” do pai, através de massiva publicação de Fake News nas redes sociais do Twitter, Facebook, Instagram e WhatsApp, além de supostas compras de curtidas produzidas pelos hackers internacionais e outros “Influenciadores Digitais”, certamente responsáveis pelo “sucesso” eleitoral desse candidato FAKE, em uma campanha suja contra outros candidatos, certamente muito mais qualificados para exercer o cargo máximo de nossa Nação.

Triste concluir afirmando que os próximos anos serão tenebrosos, obscuros e repletos de decisões torpes e contrárias à edificação da Nação Brasileira. Há que se abominar o uso de expressões como “Pátria”, que representa apenas o fanatismo militar pela posse de territórios e pelo “amor” ao Hino e à Bandeira Nacional, símbolos obsoletos e que tornam medíocre a verdadeira expressão de dignidade de um POVO, caracterizado pela sua Cultura, sua Língua, suas Tradições, seus Costumes, seu Folclore, suas Instituições Democráticas, sua diversidade Étnica, sua Justiça Social, sua Natureza (com sua Biodiversidade preservada) e tantos outros atributos que documentam a sua Evolução Histórica.

Que eu não sobreviva o suficiente para constatar as terríveis desgraças que ainda estão por vir…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaios

As múltiplas faces do Neofascismo (2018)

Em tempos de obscurantismo ideológico e religioso é preciso desmistificar alguns “MITOS” que rondam a sociedade contemporânea e ameaçam a evolução e a sobrevivência da Humanidade. Hitler, Mussolini, Pio XII e Bolsonaro são figuras que se apropriaram dessa corrente radical e flertaram com o MAL SUPREMO: a AMBIÇÃO DO PODER!

É inquestionável que, depois da Globalização, as teorias progressistas que marcaram o final do século XX começaram a ruir, dando espaço ao renascimento do NaziFascismo, fundamentado pelas ideologias de extrema direita, pelo apoio militar e pelos interesses menores das igrejas populistas e fanáticas como os evangélicos. Nos últimos dez anos, a extrema direita ganhou espaço em várias democracias europeias, nas ditaduras do Oriente Médio e no Extremo Oriente, e, para nossa surpresa e estupefação, naquele que se autodenomina a base da Democracia mundial, os Estados Unidos da América. Parece que uma febre de fanatismo tomou conta da população, apavorada pela decadência do Capitalismo e pela miséria que se alastrou pelo mundo em decorrência do desemprego, das guerras fratricidas e das religiões ortodoxas. A intensa migração de refugiados dessas guerras na África e no Oriente Médio colocou a Europa em estado de alerta pelas imensas hordas de miseráveis que passaram a desafiar, inclusive, o extremo risco de atravessar o Mediterrâneo em busca de um acolhimento humanitário que, na maioria das vezes, não aconteceu.

Fenômenos extremistas, como o surgimento da Al Qaeda, Boko Haram, Estado Islâmico e Talibã, evidenciam o envenenamento dos espíritos com base na interpretação radical das Escrituras “Sagradas” de religiões muçulmanas, mas também de outros grupos que, aproveitando o caos social e a fragilidade das comunidades ao ataque suicida, passaram a atormentar e aterrorizar a Europa, os Estados Unidos e mesmo países outrora relativamente pacíficos, como o Iraque, Afeganistão, Índia, Paquistão, Filipinas, Somália, Turquia, Nigéria, Iêmen e Síria. Quais seriam as causas de tamanha violência contra pessoas inocentes? Por que a religião fomenta esse terror contemporâneo? O que justifica que forças tão antagônicas quanto estranhas entre si reúnem atos extremos e desprovidos de uma ideologia em diferentes partes do mundo? O que atrairia pessoas, aparentemente normais, a praticar atentados tão violentos e cruéis, até mesmo com a perda da própria vida, em nome de “Escrituras Sagradas”?

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Praticamente 12,5% da população do mundo não possui uma religião, ou seja, cerca de 935 milhões de ateus. No entanto, não são estes que se engajaram em grupos terroristas, mas sim aqueles que professam uma religião e acreditam que existem “Livros Sagrados”, supostamente ditados pelas divindades ou escritos por “Profetas” que teriam vindo à Terra para fundar uma religião. O surpreendente é que as religiões deveriam pregar a Paz, o Amor incondicional, a Fraternidade Universal e a não violência. Sabe-se, pelo estudo da História, que a violência sempre existiu desde tempos imemoriais, mas somente em tempos “modernos” ela adquiriu essa ferocidade contra indivíduos inocentes, não vinculados a partidos políticos, muitas vezes pessoas que nem mesmo professam as mesmas crenças daqueles que fundaram o grupo de terror, e até mesmo sem saber por que matavam inocentes em países distantes de suas origens e mesmo sem falar a língua dos seus comandantes.

Que papel teriam, pois, as religiões no desenvolvimento dessas teorias fanáticas de louvor à violência, da imolação pelo fogo ou pela autodestruição em nome do “Senhor”? O que move os seres humanos a idolatrar figuras tão nefastas, quando suas próprias crenças pregam o amor e a fraternidade? Em que momento da História nasceram tais perversões ideológicas que não apenas permitem, como também incentivam o ódio indiscriminado, e as práticas mais selvagens de assassinatos coletivos, tais como as antigas oferendas dos povos primitivos, que viam no sacrifício de virgens o meio de aplacar o ódio dos deuses? Chineses, Celtas, Vikings, Maias, Astecas, Incas, Egípcios… são incontáveis as histórias de extermínio, por métodos os mais diversos, e sempre com extrema crueldade, apenas para satisfazer supostas divindades, resgatar a fartura de alimentos e comemorar as vitórias em conflitos bélicos contra seus inimigos. Mas sempre havia uma crença “mágica”, religiosa, por detrás desse comportamento humano, sem paralelo no mundo animal.

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Pois foi, justamente, nas hostes da Igreja Católica que o Fascismo foi engendrado e floresceu durante a “Santa Inquisição”, onde mulheres eram queimadas vivas nas fogueiras, acusadas de bruxaria, sem direito à defesa. Giordano Bruno, um monge dominicano, teólogo, filósofo, matemático e escritor do século XVI foi condenado à fogueira por confrontar os “dogmas” da Igreja Católica e defender a Teoria Heliocêntrica de Copérnico, acusado de Heresia e outros “erros teológicos”! Entre o século XI e XV as Cruzadas Católicas percorreram os campos europeus em direção à Terra Santa e à cidade de Jerusalém, com o objetivo de conquistá-las, ocupá-las e mantê-las sob domínio cristão. Em seu longo período de existência, as maiores atrocidades foram cometidas em nome do Deus cristão. Ao longo da História, a “Santa Igreja Católica” cometeu crimes incompatíveis com seu caráter civilizatório e de catequese dos povos “pagãos”. Quem não professasse a mesma doutrina seria sumariamente eliminado, contrariando a mesma fé que alimentava a religião.

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Durante a Segunda Guerra Mundial, foi notório o apoio do Papa Paulo VI ao Nazifascismo de Hitler e Mussolini, convalidando a maior tragédia da Humanidade, com seus 70 milhões de mortos e os irreparáveis danos à Economia e aos monumentos históricos destruídos pelos bombardeios ininterruptos por mais de cinco anos. Mas o que seria essa “doutrina”? Em que ela se fundamentaria, afinal? Poderia ser, simploriamente, chamada de Ideologia? Ou seria apenas a ascensão de um “MITO”, com ideias radicais e uma personalidade deformada e doentia, capaz de mobilizar toda uma população em suas ambições incontroladas de conquista e poder totalitário? Por que razão a Humanidade jamais conseguiu se livrar dos falsos profetas das religiões fanáticas, ou de comandantes militares que sobrepõem seu poder bélico aos verdadeiros interesses e valores das sociedades democráticas, implantando métodos medievais de tortura para obter falsas confissões de prisioneiros políticos, apenas por discordarem de suas convicções primitivas?

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Passados cerca de dez mil anos de Civilização, a Humanidade ainda não evoluiu o bastante para banir, definitivamente, a violência de seus “métodos” de impor a vontade de um déspota aos interesses maiores da Sociedade na qual se insere. Hoje somos cerca de sete bilhões e meio de pessoas ocupando, de forma irresponsável, o planeta, consumindo drasticamente os recursos naturais, e ameaçando severamente a existência da própria humanidade, em decorrência dos efeitos do Aquecimento Global e as consequentes Mudanças Climáticas que, a cada dia, se tornam mais evidentes e irreversíveis. Curiosamente, depois de anos de conquistas sociais e grandes esforços por interromper os efeitos deletérios do desmatamento e da emissão de CO² e metano, o retrocesso político-ideológico ameaça reverter as políticas públicas e a legislação ambiental vigentes.

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O Brasil poderia ter sido a referência mundial de políticas ambientais bem sucedidas, sem prejuízo de seu parque agrícola, sem sucateamento da política industrial, com ganhos de produtividade responsáveis e preservação da maior floresta equatorial do mundo, mas o retrocesso político-ideológico está matando essas possibilidades. Com um crescimento populacional descontrolado, com o aumento da pobreza e do desemprego, com a concentração cada vez maior das riquezas mundiais em favor de uma minoria privilegiada, poderíamos ter sido a fonte da maior riqueza futura, que são as florestas, os rios e aquíferos, a fauna e a flora supostamente inesgotáveis; no entanto, estamos perdendo a possibilidade de conquistar a liderança mundial pelas políticas ambientais, e inviabilizando nossas futuras gerações. E tudo isso por uma escolha infeliz de um fascista incompetente e despreparado para gerir um país de dimensões continentais, um imbecil que não sabe distinguir o Público do Privado, e acredita que seus rebentos são pessoas qualificadas para conduzir a Nação Brasileira para um futuro próspero e feliz. Pelo contrário, está se construindo um BUNKER de incompetentes e malfeitores, que professam crenças medievais e pretendem ser os “donos da verdade” e os “arautos” da honestidade, quando há evidências de seu envolvimento com as milícias e com o enriquecimento ilícito.

O Fascismo se baseia apenas em um “mito”, um grupo de fanáticos e na exploração da ingenuidade de um povo ignorante que “compra” as ideias macabras desses falsos profetas do Apocalipse. O fascista cria suas próprias “verdades”, as quais impõe a seus seguidores, e as transforma em novos mitos, que justificam suas ações tresloucadas. Surpreende-nos constatar que 57 milhões de eleitores tenham conduzido essa criatura desprezível para o cargo máximo da Nação Brasileira, divulgando promessas de venda e porte irrestrito de armas de fogo, militarização das escolas infantis, perdão de crimes ambientais, liberdade plena de expansão do agronegócio em detrimento de nossas reservas naturais, salvo-conduto a garimpeiros e madeireiros, inclusive em territórios indígenas, desvirtuamento de uma política trabalhista construída desde a ditadura de Vargas, nos anos 1930-45, desmonte das instituições públicas federais, com o apoio do Supremo Tribunal Federal, onde foram implantados ministros como Gilmar Mendes (que já é conhecido como o “salvador de corruptos”), Alexandre de Morais e Dias Tóffoli, cujos currículos jamais poderiam justificar suas nomeações para os cargos máximos da Justiça Brasileira, dentre tantas barbaridades que se tornam públicas diariamente pela verborragia presidencial.

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Tudo isso em nome de uma “pureza” ideológica e um ódio alimentado pela “Operação Lava Jato” contra o Partido dos Trabalhadores, quando se ignorou que praticamente todos os partidos políticos estavam comprometidos com crimes de “colarinho branco”: suborno, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, corrupção generalizada, etc… o que constatamos nesses oito meses de mandato do fascista Jair Bolsonaro e sua turma? As mesmas práticas imorais e antiéticas, a mesma safadeza de políticos, sempre vinculados aos seus próprios interesses mesquinhos, o mesmo “toma-lá-dá-cá” que caracterizou a política brasileira desde os tempos do Colonialismo Português.

O neofascismo é uma infecção generalizada que toma o corpo de uma Nação e o faz apodrecer, sempre através de mentiras, dogmas, falsas ideologias e falso moralismo. Para esses psicopatas, tudo é permitido, desde que aprovado pelo seu “mito” doentio. Não se questiona suas falas caricatas, nem suas decisões contraditórias. Aceita-se tudo, mesmo quando isso diz respeito a duzentos milhões de seres humanos, a maioria dos quais sem preparo intelectual para compreender a gravidade dos atos que mudarão o destino de nossa Nação. É isso que está acontecendo ao Brasil, “Pátria Amada, Salve, Salve”, onde o slogan máximo é “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”! Será isso mesmo que queremos para nossos filhos?

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaios

A apologia do ódio e o ocaso de uma Nação (2018)

Quando o atual presidente mobilizou seus milhões de fanáticos e conseguiu se eleger, mesmo existindo tantos nomes melhores e mais qualificados, ninguém (nem mesmo seus adeptos fascistas) imaginou a dimensão da tragédia que se avizinhava para nosso povo. Agora, caídas as máscaras, nos defrontamos com a pior crise institucional por que passamos, desde o fim da ditadura militar de 64.

Na breve existência humana neste planeta, somente há cerca de 2,5 milhões de anos teria surgido o primeiro humano (“homo habilis”); depois, há 1,8 milhões de anos surgiu o “homo erectus”, nosso primeiro ancestral hominídeo… mais recente, há cerca de 500 mil anos surgiu o “homo neandertalis”, sendo que há apenas trezentos e cinquenta mil anos teria surgido o “homo sapiens” , parente mais próximo de nosso povo atual. O “homem moderno” (“homo sapiens sapiens”) é ainda mais recente e surgiu “apenas” há cerca de cinquenta mil anos… Porém, para cada ser humano, apenas o breve período de sua curta vida importa, restrito a poucas décadas, e limitado pelas suas próprias restrições intelectuais, seu parco conhecimento da história que o antecedeu, desde o surgimento do homem na Terra. Porém, mesmo como seres sofredores desse “vale de lágrimas”, como pregam o novo e o antigo Testamento cristão, jamais nos conformamos com a crueldade que caracterizou nossas vidas passadas, fôssemos nós os faraós, os reis, imperadores, tiranos, déspotas, ditadores, presidentes, bispos, papas, pastores ou quais fossem os rótulos que os distinguiam do cidadão comum, do povo, da plebe ignara, dos homens das ciências, dos executivos das empresas, de outras pessoas de qualquer espécie, às quais subordinamos nossas vidas, e de quem dependemos para sobreviver.

Passaram-se oito meses apenas, cerca de 240 dias desde a posse desse ser rancoroso, perverso, egoísta e repleto de “verdades” próprias, coberto de “certezas” que sequer compreendemos onde ele as teria encontrado, mas que afetaram profundamente nossas vidas, algumas até de forma irreversível em suas consequências nefastas e abomináveis, como todas as falas desse maníaco radical e desprezível. Ainda que seja impossível compreender por que tantos aceitam e apoiam seus atos horrorosos, por fim compreendemos que somos os único responsáveis por sua ascensão ao cargo máximo desta Nação, bem como pelas consequências advindas de seu poder abominável sobre nossas vidas e de nossos filhos.

Ainda que admitamos que uns poucos neste desgoverno insano insistam em cometer o “sacrilégio” de acertar em suas raras decisões, o balanço final será trágico, inevitavelmente, seja nas questões ambientais, sociais, políticas, educacionais, culturais, filosóficas ou científicas. Estamos retrocedendo em todos os setores do conhecimento humano, destruindo décadas de articulações, negociações, regulamentações, acordos, decisões e transformações sociais em busca de uma democracia que nunca existiu nesse planeta. Trata-se de uma “política de terra arrasada”, como aquela de Adolf Hitler e seus marechais, ao marchar pelas planícies soviéticas visando destruir aqueles povos, e que, ao fim dos combates, resultaram em 70 milhões de cadáveres e numa explosão demográfica sem precedentes (“baby boom”) e uma economia mundial em frangalhos por décadas.

Ainda que queiramos encontrar boa vontade, mesmo em um ser ignorante e tosco como Bolsonaro, é impossível não admitir que tudo que ele faz é errado, é sujo, é nojento, determinado a aniquilar tudo o que se conquistou nesses trinta e poucos anos desde a ditadura militar de 1964-1985. Nem mesmo Vargas ou Médici conseguiram ser piores do que a maldita “famiglia” Bolsonaro, com seus números UM, DOIS e TRÊS, apoiados por militares de alta patente, políticos lambe-botas e puxa-sacos de última hora, dispostos a ganhar sua “beiradinha” de vantagens, e reeditando aquela “velha política” que prometeram enterrar, mas que persiste em corroborar seus malfeitos, sem nenhum constrangimento.

Mas o que mais nos apavora é a omissão de toda a sociedade, que finge não lhe dizer respeito se o Brasil vai se acabar em apenas um mandato, ou será necessário um segundo tempo para aniquilar de vez com tudo aquilo que caracteriza uma verdadeira Nação: seu Povo, seus Silvícolas, sua Cultura, seu Saber, suas Instituições mais valorosas, suas Riquezas Naturais, sua Dignidade, sua Ética e sua Honra, seu arcabouço Legal e sua Constituição; tudo isso conquistado com esforço e trabalho, muito sofrimento, torturas, terror e angústia dos verdadeiros Heróis tombados nos campos de batalha das Ideologias, das Contendas Intelectuais, dos Parlamentos Democráticos, que são a Fundação essencial de qualquer Povo. Sem isso, uma pátria é apenas um território (um espaço físico), uma bandeira e os soldados, representando o Poder pela força das armas, e não das Ideias…

O que não sabem, ou não se apercebem, é que, neste planeta, são bilhões os miseráveis, centenas de milhões os pobres e “remediados”, mas apenas poucos os ricos, abastados e mesquinhos que nada compartilham de si para eliminar tais diferenças, tais injustiças, e redimir o sofrimento da humanidade. Pois, paradoxal é o fato de que essa imensidão de renegados é que assegura, aos poucos privilegiados, a riqueza e a luxúria, pagas com sua miséria, sua ignorância, sua sede e sua fome… O que restará deste Brasil quando esse ciclo de terror se acabar, e nossas florestas estiverem extintas, juntamente com toda sua riqueza, sua vida selvagem, seus Povos da Floresta, suas Culturas e seu Saber Ancestral? O que será de nosso povo quando sobre a Nação prevalecer a ignorância e a estupidez de falsos profetas, falsos filósofos, falsos mentores que incutiram, em nossas crianças, uma imensidão de besteiras que só um astrólogo expatriado e fracassado poderia engendrar e espargir nas mentes doentias desses déspotas medíocres que se aboletaram no poder?

Estou, com certeza, na última década de minha existência. A mim, pouco importaria se esse país se incendiasse, aniquilando toda beleza natural que tive a felicidade e o privilégio de conhecer, enquanto apenas desertos vazios permanecerão nas savanas devastadas daqueles que sobreviverem. Pouco me importaria se o agronegócio fracassasse, porque já não haveria água suficiente para irrigar sua soja e alimentar seu gado, ficando apenas com seus campos imensos, secos e monótonos, cobertos de monoculturas entediantes e inúteis. Pouco me importaria o futuro dessa Nação se nela eu não tivesse plantado minhas próprias sementes de amor, criado minhas filhas e cuidado de meus netos, agindo, sempre que possível, com cordialidade, generosidade e humildade, em minha luta incessante e desinteressada pela Justiça e pela Paz, produzindo meu trabalho de forma honesta e digna, independente de cargos e recompensas. Simplesmente porque sou ateu e marxista, acredito no Bem, na Justiça e Igualdade entre os seres vivos, e amo a Natureza com suas belezas e riquezas incomensuráveis, e estou morrendo, assim como todos aqueles que se dedicam a construir, em lugar de destruir, como faz esse imbecil, com sua “corte verde-oliva” e seus micos amestrados, alçados ao poder por uma rede de intrigas, de mentiras, de conchavos, de conluios, de interesses escusos e ambição desmesurada…

Porém, muito mais me surpreende e entristece constatar que todos os brasileiros, bons ou maus, também morrerão à míngua, sem tempo para se arrepender, por terem sido omissos, coniventes e alienados, por terem compactuado com mentiras, falsidades, e a demagogia sibilina desses “ídolos de barro” que se instalaram covardemente no poder…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaios

O Ogro está nu… (2018)

… e ejaculou fezes diante de um mundo perplexo e escandalizado com a mediocridade de um governante raivoso e despreparado para conduzir uma nação…

Foto: o Brasil do futuro…

Dificilmente as exportações brasileiras não serão afetadas pelo surpreendente discurso belicoso e retrógrado proferido pelo Presidente da República, diante da plateia de representantes das 193 nações que fazem parte da Organização das Nações Unidas. Estupefatos pela quebra de protocolos, pelo furor e ódio declarados pelo capitão-mor, assistido pelos seus lacaios, falou apenas para seus adeptos e não para a comunidade internacional, e quebrou uma tradição diplomática do Brasil na abertura anual dos trabalhos da ONU… em vez da usual e esperada atitude de reconciliação, um típico discurso de campanha eleitoral que o conduziu ao cargo máximo da nação brasileira.

Pela repercussão mundial de seu discurso, o agronegócio já contabiliza futuras perdas de exportação e grandes dificuldades que terá para negociar com seus parceiros europeus. Nesse momento trágico da história, acredita-se que capital estrangeiro escasseará ainda mais, enquanto a Economia não reage, mesmo com a aprovação da reforma da previdência e dos esforços de um ministro da economia enfraquecido pelos reveses e sem alternativas “mágicas” para salvar o que resta de nosso país. Caminhamos, inexoravelmente, para o abismo das incertezas, da estagnação econômica, do isolamento da comunidade internacional e da perigosa degradação de nossos biomas, substituídos por campos de soja, pastos e latifúndios desoladores do agronegócio. Em lugar de florestas majestosas, monoculturas intermináveis, desertos verdes de grãos, e 200 milhões de bois arrotando metano…. Só o arroto do boi equivale a 69% dos gases estufa liberados no Cerrado… a área de pastagens no Brasil supera 160 milhões de hectares: 18,8 % de todo território nacional, muito superior às áreas preservadas pelas unidades de conservação (cerca de 12%) e das terras indígenas (13,5%).

Enquanto isso, o radicalismo ideológico continua desmontando as instituições públicas, transferidas para as mãos de adeptos do radicalismo ideológico dos adoradores do presidente e do fanatismo religioso, anti-indígena e antiambiental de seus seguidores. A devastação da Amazônia e do Cerrado prossegue a passos largos, estimulada pelas falas inconsequentes do mandatário maior, deixando para trás o rastro desolador da paisagem monótona dos imensos campos de soja e grãos, e dos intermináveis pastos de gado produzidos pelo agronegócio. Devido à perda da biodiversidade, a disponibilidade de água no Brasil se reduzirá drasticamente, trazendo a carestia e o fim do império dos latifúndios e do próprio agronegócio. A indústria segue sucateada e sem perspectivas de redenção, pelo abandono causado por uma política suja e inepta do grupo que tomou o poder, e das falas cada vez mais raivosas do presidente, proferindo impropérios e vomitando ódio a todos que não comungam das mesmas ideias e crendices medievais.

O que será do Brasil depois de tanta ignomínia incendiária dessa Ku Klux Klan tupiniquim, que não desiste de sua doutrinação fanática e fascista? O que será das gerações vindouras, vítimas inocentes desse holocausto do qual não participaram, mas que os sufocará, inexoravelmente, em sua maturidade intelectual? O que será dos trabalhadores, dos idosos e dos intelectuais que sobreviverem à perseguição ideológica e não puderem deixar o país, desencantados e sem esperança? O que será de nossas florestas tropicais, da riquíssima fauna e dos soberbos rios e aquíferos, devastados pela desmesurada ambição de oportunistas, enriquecidos ilicitamente pela sede insaciável de ocupação e destruição de reservas ecológicas e de terras indígenas legitimamente criadas depois de muita luta e trabalho por demarcação? O que será de nós, reles mortais, desprovidos de poder e influência para interferir nos rumos da política, sem recursos para viver no exterior, fugindo dessa tresloucada “experiência” advinda dos “gurus” ideológicos que ressuscitaram das catacumbas medievais e dos infernos assombrosos do passado mais torpe de nossa história?

O futuro é incerto e tenebroso, mas nossa resiliência talvez nos salve dos desmandos e da insanidade de um grupo de oportunistas raivosos, que se utilizam de seus “livros sagrados”, interpretados da forma mais chula, tentando mudar o pensamento e o modo de vida de mais de duzentos milhões de pessoas dessa terra “abençoada por Deus e bonita por natureza”…

Ainda assim, não percamos a esperança de sobreviver e retornar à razão… quem sabe, um dia, voltaremos a ver o sol nascer no horizonte, e nossa terra ainda tenha pessoas, animais, florestas, quilombolas e indígenas… e seres pensantes, inteligentes e livres para refazer suas vidas e reconstruir uma Nação Livre, Soberana, Solidária, Honesta e Digna, não para uns poucos adoradores do demônio das religiões pentecostais, mas para toda a sociedade! Não podemos permitir que isso se repita ao fim de quatro anos, reconduzindo esse ser desprezível ao poder… é preciso e urgente que nos organizemos, tendo como bandeira a Legalidade, a Justiça e o Estado Democrático! É imprescindível encontrar um Líder verdadeiro, um Estadista competente e culto, sem máculas e sem ambições de poder, para nos guiar de volta à Democracia Social…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaios

Democracia & Liberdade: o que está em jogo? (publicado em outubro de 2018)

Durante 21 anos o Brasil foi amordaçado por uma feroz ditadura militar, que calou as vozes dissidentes, prendeu inimigos do regime, torturou e assassinou aqueles que queriam apenas Democracia e Liberdade. Até mesmo jornais conservadores e líderes religiosos que colaboraram com o golpe de 1964 foram submetidos à censura e ao terror de um regime violento e cruel. Foram os ANOS DE CHUMBO, mais de duas décadas durante as quais quase todos os países latino-americanos viram seus filhos sendo massacrados por governos totalitários e cruéis. Nesses tempos de horror, muitas famílias perderam seus entes queridos, levados na calada da noite para as dependências de tortura, como o DOPS, o DOI-CODI, a CASA AZUL de Marabá/PA, a Casa de Sâo Conrado/RJ, a Casa da Renascença/BH e a CASA DA MORTE em Petrópolis, além dos Centros de Tortura da Marinha (CENIMAR) e da Aeronáutica (CISA), todos comandados por cruéis torturadores, como o Coronel Brilhante Ulstra (do DOI/CODI), e sob orientação da CIA norte-americana.

Quando, finalmente, o Brasil recuperou a liberdade, em 1985, e promulgou a Constituição em 1988, pensávamos que estaríamos livres para sempre do terror e do ódio que os militares implantaram em nossa sociedade. A Comissão da Verdade, durante anos, tentou esclarecer todos os abusos e Crimes contra a Humanidade praticados pelos generais e seus asseclas. Porém, a Liberdade nunca foi irrestrita, e as sombras do terror continuaram a pairar sobre nós, sempre que uma crise institucional ou política recaía sobre o país. Mesmo durante os governos petistas, a cada mudança social que se tentava implementar, em busca da Justiça Social, havia o temor constante de que os militares saíssem dos quartéis e voltassem a tomar o poder.

Porém, agora, com as eleições majoritárias de 2018, quando a corrupção foi devassada, quando toda sujeira do poder foi despida diante do povo, quando a Justiça começou a alcançar os poderosos da República, surge uma aberração chamada “Bolsonaro”, empunhando armas, simulando execuções em massa, prometendo extraditar a Esquerda política para Cuba, jurando acabar com todas as conquistas sociais e ambientais, destilando ódio e preconceito contra negros, índios e gays, separando a sociedade entre os raivosos e poderosos do agronegócio e velhas raposas corruptas do passado, do verdadeiro povo brasileiro, honesto e trabalhador, dividindo a Nação entre os “novos” ocupantes do poder e seu séquito de tresloucados, o Brasil se vê diante da possibilidade de enterrar de vez a jovem Democracia que nasceu em 1988, trazendo de volta seus algozes (torturadores), prometendo ser mais cruéis e desumanos que seus antecessores, tendo como únicas diretrizes a força, a violência, a arrogância e o terror!

Não se trata, porém, de uma simples troca de comando político, mas de um retrocesso radical em todos os setores da sociedade: educação, saúde, economia, cultura, meio ambiente, setores produtivos e relações sociais… o candidato chegou a afirmar que “o povo era mais feliz há cinquenta anos”, um saudosismo da violência dos militares contra o Povo! Seus preconceitos jogam por terra várias conquistas sociais, como o respeito pelas minorias, a proteção do Meio Ambiente, os acordos internacionais firmados pelo Brasil, a Justiça independente, e até mesmo os direitos indígenas, assegurados pela Constituição de 1988!

Talvez a população jovem, por ignorância, não conheça a História do Brasil, e não acredite que tenha havido uma ditadura sanguinária e feroz, pois até mesmo o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Tóffoli, se vendeu aos militares ao afirmar que “prefere dizer que houve um movimento de 64” em vez de um violento golpe militar que calou a boca do povo por 21 anos de barbáries! Porém, isso não justifica o “prestígio” desse capitão reformado que só não foi expulso da Aeronáutica por condescendência dos militares, pois ele mesmo, Bolsonaro, afirmou pela imprensa que tentou explodir o quartel onde servia.

O que aconteceu com o Povo Brasileiro? Por que até mesmo os empresários e latifundiários apoiam esse ser execrável, horroroso, ignorante e totalmente despreparado para comandar uma das maiores nações do mundo? Como podem acreditar em suas mentiras, apoiar seus preconceitos, estimular suas lorotas e promessas de tortura, violência e radicalizações na Economia, prometendo até entregar nossas riquezas naturais para que empresas e governos estrangeiros venham para cá explorá-las em benefício próprio e não da nossa Nação? Que papel terá sido determinante nesse estranho resultado, além da manipulação descarada das mídias sociais, através de mentiras veiculadas em contas do WhatsApp e do Facebook? Teria, nossa sociedade, se deteriorado de tal forma, a ponto de perder suas próprias referências e aceitar esse monstro simplório como modelo para governar o Brasil?

Estamos à beira de um abismo sem retorno. Caso essa expectativa, alimentada pelas pesquisas eleitorais e estimulada por uma imprensa vendida ao agronegócio, se confirme, o Brasil perderá, definitivamente, seu lugar na História contemporânea e, em poucos anos, seremos equiparados aos países mais atrasados do mundo, seja na Economia, seja na Cultura, seja na Educação… e a culpa será de todos: eleitores e partidos políticos, que não souberam enfrentar essa ameaça inaceitável! Alguns, por incompetência, outros por egoísmo, outros ainda por ignorância ou inapetência pelos destinos da Nação. No entanto, com certeza, todos que se omitiram serão responsabilizados pela História, mas seu arrependimento não será suficiente para reverter essa desgraça nacional chamada “JAIR BOLSONARO”!

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaios

Ideologia, democracia e outros saberes escusos

Falar de Ideologia em um mundo imerso em disputas mesquinhas é fingir que qualquer das partes tem razão, enquanto o “outro” é sempre o culpado de todas as mazelas humanas. Enquanto isso, o relógio biológico da Terra se aproxima do instante fatal em que a escassez de água e de alimentos nos forçará a um sacrifício que todos temem imaginar: a população da Terra precisará se reduzir aos níveis de 1900 para poder capitalizar os benefícios do desenvolvimento científico e tecnológico e salvar o planeta. Haverá paz no mundo antes da hecatombe mundial? Teremos condições de ocupar novos planetas habitáveis antes que a Terra entre em colapso? Estaremos preparados para viver em paz e encontrar soluções para a superpopulação e a perda da biodiversidade de nosso mundo antes do minuto fatal? Certamente, a resposta a essa indagações é, pura e simplesmente, “Não!”. A Terra não sobreviverá a tamanhos desperdícios e devastação!…

Tomo a liberdade de revisitar certos conceitos, apenas para refletir: o que está em jogo nas eleições deste ano no Brasil? Não vou me restringir a definições acadêmicas, e nem me submeter aos crivos dos ideólogos da Política, pois o que pretendo com esse debate é, pura e simplesmente, discutir os destinos de nossa Nação depois de 2018. Vivemos tempos estranhos, na opinião de um ministro do STF, na medida em que conceitos políticos tradicionais já não cabem na situação esdrúxula em que se meteu o Brasil. Ainda assim, tentarei ser didático, embora sem me ater a definições convencionais.

Apenas para contextualizar meu pensamento, quero recordar nossa herança de exploração dos escravos, de dizimação das populações nativas, de ditaduras sanguinárias e golpes palacianos, de conchavos políticos obscuros e corrupção dos valores éticos, sempre vinculados ao processo civilizatório que nos trouxe ao século XXI. O Brasil, antes de se tornar uma nação, já contribuía, ainda que à revelia, para o enriquecimento da Europa, através de saques, tráfico de escravos, extração de madeira, cacau, ouro e pedras preciosas, e do genocídio sistemático das populações indígenas, que dizimaram mais de 90% das etnias que aqui habitavam antes da chegada da esquadra de Cabral.

Entramos no século XX (abreviando a História, pois esse não é o escopo desse artigo), com já quase 90% de nossas florestas tropicais devastadas. A Amazônia ainda se mantinha relativamente preservada graças às dificuldades de acesso e à vastidão de seu território. A escravidão havia se acabado, mas os povos negros, mestiços e índios continuavam sendo tratados como rejeitos desprezíveis dessa sociedade elitista, que comandava a política e a economia dessa nova nação brasileira. A Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Vargas acirraram ainda mais os preconceitos étnicos, enquanto o Brasil capengava na categoria de país terceiro-mundista, expressão forjada pelos Estados Unidos da América do Norte durante a “guerra fria”, os verdadeiros vencedores dessas batalhas que envolveram toda a Europa, Ásia e parte do continente africano e península arábica.

O Capitalismo ressurgia na Europa que sobrevivera da guerra, sob o poder dessa nova potência emergente (EUA), embora seu conceito como doutrina econômica provenha da Revolução (Política) Francesa e da Revolução Industrial (Inglesa), aquela quanto aos conceitos estruturantes da sociedade em sua relação com os meandros da política interna, esta como responsável pela grande transformação provinda do processo de industrialização das atividades produtivas. Se Marx vivesse hoje, talvez não tivesse construído sua teoria econômica e política, não teria havido socialismo nem marxismo, e o mundo viveria, em sua plenitude, o sonho americano do Welfare State. Pura abstração!

É curioso observar que os rótulos forjados sobrevivem mais do que os conceitos a eles atribuídos. Não fora assim e hoje não atribuiríamos ao socialismo a denominação estranha de “Esquerda”, da mesma forma que não chamaríamos de “Direita” àqueles que defendem o Capital como valor primordial de qualquer sociedade democrata. Observando a sociedade contemporânea, pouco resta a exigir das reivindicações trabalhistas que levaram à constituição do sistema socialista dos países do Leste Europeu, da China, de Cuba e de outros países que se alinhavam, até 1988, à antiga União Soviética. Seria a Democracia condicionada apenas ao sistema de livre mercado? Onde estaria, pois, a Ideologia, se o ideal humano sempre foi a liberdade ampla e irrestrita de pensamento?

Fato é que persistem na Inglaterra contemporânea a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes, denominações estas cunhadas no início do século XVIII. De modo análogo, a “direita” simbolizava os simpatizantes de Napoleão Bonaparte (e se sentavam à sua direita), enquanto à esquerda se colocavam os simpatizantes da Revolução Francesa. É, portanto, um anacronismo atribuir as expressões esquerda-direita às correntes ideológicas marxismo-capitalismo, até por que, nos dias atuais, todos os regimes se confundem nas práticas do capitalismo global. Esquerda e direita se tornaram símbolos de oposição política na Europa monarquista e em dias atuais.

À parte esses termos obsoletos, consideremos, então, os valores atribuídos a essas duas correntes do pensamento político no século XXI. Aqueles valores pregados por Karl Marx já não se aplicam ao mundo contemporâneo. Já não existem as minas de carvão e os sistemas escravagistas de produção nos moldes dos séculos XVIII e XIX. Muitas conquistas foram feitas pelos trabalhadores, reduzindo o desequilíbrio nas relações trabalhistas entre patrões (cada vez um conceito mais difuso e superado) e empregados (agora empoderados por complexas legislações que regulam essas relações).

Países tradicionalmente socialistas, como a Rússia, a China, os países da “Cortina de Ferro” na antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) extinta em 1988, o Vietnam, a Coréia do Norte e Cuba se adaptaram à economia de mercado para sobreviverem. A estatização da Economia mostrou-se um equívoco insustentável, assim como a estrutura burocratizante dos países socialistas soviéticos. Hoje, na China, existem filiais de símbolos do Capitalismo, como a rede de lanchonetes Mc Donalds, bem como diversas fábricas de procedência americana, japonesa e europeia, que se aproveitam dos baixos custos de mão-de-obra dos países socialistas, onde existes fortes subsídios para os trabalhadores, talvez a última herança dos regimes fechados do comunismo internacional, para reduzirem seus custos e aumentarem sua participação no mercado internacional.

No entanto, apesar dessa “customização” dos regimes socialistas, restam sobreviventes desse “ancient règime” as nações contemporâneas que insistem em afirmar sua divergência ideológica com as nações do ocidente, mais bem-sucedidas que aquelas cuja herança socialista se preservou no mundo oriental, como a Rússia (em permanente crise econômica), China (que, embora tenha se capitalizado, ainda preserva seu sistema de governo centralizador totalitário) e Coreia do Norte (igualmente uma tirania), que sobrevive de subsídios da China e da Rússia, que ainda teimam em afirmar seu regime herdado da Teoria Marxista-leninista. Lamentavelmente, as experiências socialistas dos últimos dois séculos se tornaram ditaduras violentas, conforme o conceito de “ditadura do proletariado”, termo cunhado por Joseph Weydemeyer, e adotado por Marx e Engels. No entanto, essa ditadura nunca foi conduzida pelo proletariado, mas pela nova aristocracia dominante.

E como caracterizar diferentes correntes ideológicas do mundo contemporâneo, se a dicotomia esquerda-direita, socialismo-capitalismo, ou estado revolucionário versus democracia social fracassou? É preciso refletir sobre o tema sem paixão e sem radicalismos. A atitude revolucionária de transformar a sociedade em busca de sistemas igualitários permanece válida e atual. No entanto, é difícil dissociá-la das ideologias antigas, uma vez que os partidos de esquerda sempre reivindicam a pluralidade ideológica enquanto lutam pelo poder, mas imediatamente a rejeitam, ao assumi-lo.

O Socialismo Soviético apoia governos totalitários como o da Síria, fomentando a guerra fratricida, conforme sua práxis totalitária. Da mesma forma, a propalada “Democracia Americana” serve de cortina de fumaça para ocultar interesses escusos, negociações inconfessáveis e venda de armas e munições a países em conflito nas inúmeras guerras regionais que persistem no mundo atual, principalmente no Oriente Médio. Nessas relações contraditórias, prevalecem os interesses econômicos às razões humanitárias. Não existe solidariedade nem ideologia quando se trata de exercer o poder para se obter vantagens econômicas e militares neste xadrez político das nações.

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As grandes potências mundiais, capitaneadas pelas coalizões Rússia-China (e seus “satélites” do Sudeste Asiático) versus Estados Unidos-Europa (principalmente França, Inglaterra e Alemanha), têm como força motriz de sua hegemonia hemisférica os interesses meramente econômicos e militares, esquecendo-se que o mundo carece de paz para sobreviver às grandes transformações climáticas e de escassez crescente de recursos naturais, agravada pelo crescimento populacional. Nessa guerra não declarada, os argumentos ideológicos deixam de ter significado, prevalecendo o poder econômico e militar sobre as questões humanitárias e de sobrevivência do ser humano na Terra. Nesse contexto de conflitos generalizados e não-ideológicos, quem perde é apenas a humanidade.

Diante do exposto, falar de Ideologia em um mundo imerso em disputas mesquinhas é fingir que qualquer das partes tem razão, enquanto o “outro” é sempre o culpado de todas as mazelas humanas. Enquanto isso, o relógio biológico da Terra se aproxima do instante fatal em que a escassez de água e de alimentos nos forçará a um sacrifício que todos temem imaginar: a população da Terra precisará se reduzir aos níveis de 1900 para poder capitalizar os benefícios do desenvolvimento científico e tecnológico e salvar o planeta. Haverá paz no mundo antes da hecatombe mundial? Teremos condições de ocupar novos planetas habitáveis antes que a Terra entre em colapso? Estaremos preparados para viver em paz e encontrar soluções para a superpopulação e a perda da biodiversidade de nosso mundo antes do minuto fatal? Certamente, a resposta a essa indagações é, pura e simplesmente, “Não!”. A Terra não sobreviverá a tamanhos desperdícios e devastação!…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaios

A EXISTÊNCIA DE DEUS

De onde viria a necessidade e o conceito de divindades dentre os homens? Por que precisamos de um Deus? Quais revelações ou reflexões filosóficas sustentariam a hipótese de uma existência após a morte apenas para os humanos da Terra? Para onde iríamos depois dessa vida terrena, tão generosa para poucos e tão injusta para a grande maioria dos seres viventes? Enfim, por que acreditar em DEUS, se nada nos permite comprovar a sua inútil existência? À expressão Cristã “DEUS CRIOU OS HOMENS À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA” eu contraponho a minha: “OS HOMENS CRIARAM SEUS DEUSES À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA”!

Zeus
Zeus, o deus supremo do Olimpo, o céu dos gregos

Percorrendo os passos da evolução da Humanidade ao longo dos séculos, desde que nos diferenciamos de nossos semelhantes, os macacos, percebemos que o conceito de Deus está associado ao desconhecido, àquilo que não pode ser provado, às lacunas do nosso conhecimento que nos faziam sentir pavor dos elementos naturais nos primórdios da civilização, dos poderosos felinos, anfíbios e mamutes, na formação da sociedade humana, e dos espíritos dos mortos ao longo de toda nossa história terrena. As divindades eram concebidas conforme essas crendices, associando-as a seres híbridos de animas e humanos, como na Grécia, no Egito e na Índia, nos séculos que antecederam a vinda dos avatares, profetas e santos.

GANESHA
“Ganesha, deusa hindu, misto de elefante e mulher”

Ra
Ra, deus egipcio do Sol

Apolo e as virgens
Apolo, o deus da beleza, e suas ninfas apaixonadas

Porém, já no século XVI, período das “Grandes Navegações”, com cerca de um milhão de anos da existência do “homo erectus”, ainda vemos nossos antepassados acreditarem nos mares povoados de seres mitológicos, muito semelhantes àqueles das civilizações precoces, mistos de serpentes e pássaros, capazes de afundar toda uma frota de galeões e devorar seus marinheiros. Com sua imaginação povoada de seres fantásticos, não é de se estranhar que esses povos criassem suas divindades com poderes malévolos e espírito vingativo e cruel. Pois foi dessa herança fantasiosa que nossa civilização se formou, e as religiões se constituíram e prosperaram.

Dragões marinhos
Monstros marinhos, seres fantásticos da mitologia europeia no final da Idade Média

Os indígenas, habitantes desse território chamado Brasil, assim como os povos da pré-história, construíram sua cosmogonia com base em fenômenos e entidades naturais, como o trovão (Tupã), a cobra-canoa (dos índios do alto rio Negro), os espíritos da floresta, como o Xapiripë dos Yanomami, que eram invocados através da inalação de um pó alucinógeno, produzido com yãkoãna, resina de casca de árvores, enquanto os Ashaninka, índios do Acre, usam o Ayahuásca, também alucinógeno, mistura da erva “chacrona” e do cipó “jagube”, em suas cerimônias espirituais… vê-se nesses resíduos de civilizações tradicionais, que o arcabouço de crendices, mitos e lendas persistiu a cinco séculos de dominação e extermínio. Hoje, grande parte dos remanescentes das populações indígenas do continente se apegou a seitas evangélicas, que fazem de seu livro “sagrado” a literatura essencial para suas crendices e o alimento para seu espírito desconsolado.

Voltando à nossa indagação inicial, por que precisamos de um Deus, seja ele qual for, que tenha poderes inimagináveis, conhecimento absoluto do passado e do futuro, onipresença e domínio sobre todas as coisas, vivas ou inertes, existentes no Universo? Por que haveria um INÍCIO para esse tempo/espaço infinito? E, sendo infinito, por que haveria de ter início e FIM? De onde surgiu tal conceito de infinitude das coisas e relatividade do espaço-tempo? E por que nossos espíritos/almas deveriam ir para algum lugar depois da morte, onde só existiria bondade e compaixão, se na Terra onde vivemos o mal prevalece sobre as virtudes humanas, sempre favorecendo àqueles que só se valeram do mal para usufruir dos privilégios desse mundo pleno de injustiças? Por que esse DEUS, ao criar o Universo, não o povoou apenas com criaturas do bem, vivendo com a fartura desse Universo, sem sofrimento, dor, ambição ou pavor? O que foi feito do nosso Paraíso Perdido, do nosso “Shangrilá”?

Certamente, essa discussão é tão interminável quanto inútil… porém meus argumentos me são suficientes para acreditar que todas as vidas terão um fim inexorável, que o espírito humano é apenas ficção e se esvanecerá na eternidade do tempo, a dialética teológica não sobreviverá à curta existência do ser, e as palavras proferidas pelos homens se tornarão tão insignificantes quanto o imenso vazio que predomina nos espaços entre as infinitas estrelas que cintilam no Universo…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaios

A POLÍTICA A SOCIEDADE E O GOVERNO DO FUTURO

Cyberspace: o mundo do futuro, onde as distâncias perdem o significado

Muito se fala sobre “Reforma Política”, “Reforma do Estado”, “Reforma das Instituições” e outras “reformas” necessárias à contemporaneidade do mundo. No entanto, tais reformas, tal como têm sido concebidas e propostas, nada possuem de contemporâneo e muito menos de visionário. Tratam-se apenas de adaptações que ignoram as transformações extraordinárias que vêm ocorrendo, principalmente, em função das novas tecnologias da Informação e da Comunicação. Não são meras mudanças decorrentes da tecnologia, mas a superação dos espaços, tais como concebidos em eras anteriores ao século XX.

Para se compreender a complexidade desse “Admirável Mundo Novo” e os impactos que dele advirão para as sociedades do futuro, é necessário antever algumas das possibilidades tecnológicas e as transformações que acarretarão na vida humana. Basta, porém, ter a convicção de que as instituições que existem hoje não terão lugar na sociedade do futuro. E esse futuro já bate à nossa porta, e as tecnologias existentes já permitiriam que essas transformações se processassem, não daqui a dez, cinquenta ou cem anos, mas agora!

O que certamente desaparecerá nesse mundo novo? O papel, os automóveis, o petróleo, os latifúndios, as aldeias, o casamento, as cadeias, a polícia, o exército, as assembleias, câmaras, congressos, partidos políticos e outras associações, a propriedade privada, os escritórios e organizações, os cinemas e as salas de espetáculo, as igrejas e as religiões, as escolas, os animais de abate, os zoológicos, a carne como alimento, o esgoto e os lixões, os fios, as linhas de transmissão de energia e as hidrelétricas, as ideologias e as guerras.

Muitos se perguntarão como seria possível um mundo sem essas instituições e sem esses objetos e conceitos, hoje essenciais para a vida de qualquer ser humano. Mas, se observarmos atentamente, todas essas “coisas” e conceitos são primitivos, e vinculados às características de nosso mundo em transição. Assim, passarei a descrever cada um deles e as causas de seu desaparecimento.

PAPEL. Só existe porque é usado, ainda, como meio de comunicação. Porém, as tecnologias digitais já tornam supérfluo e inaceitável o “papel” como mídia destinada à veiculação de idéias, de notícias e de conhecimentos. Estou escrevendo em um meio digital, para ser publicado em um espaço virtual, para conhecimento de milhões de pessoas que se interessem pelo tema e que sejam estimuladas pelas “tags” (ou palavras-chave) que eu colocar em minha mensagem. Tudo sem usar o papel. Além disso, o papel é fruto da destruição das florestas.

AUTOMÓVEIS. Como meio de transporte, os automóveis são resquícios de uma sociedade aristocrática e ineficiente. Todas as vias construídas para esse tipo de veículo são sub-aproveitadas, assim como o próprio veículo per se, que ocupa o espaço de dez pessoas sentadas em um veículo coletivo, mas transporta, em média, apenas duas. Veículos individuais e coletivos, percorrendo trajetos planejados, utilizando energias renováveis, substituirão os automóveis assim que outros paradigmas sociais tenham sido removidos.

PETRÓLEO. Simples corolário do item anterior, além do resultado do esgotamento desse combustível fóssil, o petróleo desaparecerá assim que sua produção e comercialização sejam inviabilizados pela produção de outras formas de energia renováveis, mais econômicas e não poluidoras. Talvez mesmo antes de que os investimentos do pré-sal tenham sido amortizados, o petróleo já terá se transformado em uma fonte proibitiva e inviável, política e economicamente, superado por fontes limpas e sustentáveis de energia.

LATIFÚNDIOS. Esse tipo de lavoura, que utiliza espaços gigantescos com baixa produtividade em relação ao consumo humano, e com enorme impacto sobre o meio ambiente, deverá ser substituído por fábricas de alimentos sintéticos, resultado do desenvolvimento da biogenética e de novas versões de transgênicos que não dependam do solo para sua fertilização e produção. Os latifúndios são o reflexo de uma sociedade feudal inaceitável, e que já deveria ter sido extinta, pois é geradora de privilégios e comportamentos inadmissíveis em um mundo superpovoado, como será a Terra no final deste século.

ALDEIAS. Pequenas aglomerações humanas se tornarão impossíveis em um mundo cujos espaços sejam cada vez mais insuficientes para abrigar uma gigantesca civilização cibernética. A ideia romântica de vilas, povoados e aldeias dará lugar ao pragmatismo da sobrevivência da espécie humana. Comunidades indígenas, quilombolas, de lavradores e ribeirinhos não caberão nesse mundo novo que se prenuncia. Serão absorvidas pelas novas cidades cibernéticas.

CASAMENTO. A união conjugal vem passando por transformações históricas. Embora a homossexualidade seja tão antiga quanto o homem, só neste século é que a sociedade passou a admitir que a escolha de parceiros sexuais é uma decisão que não cabe à sociedade julgar, em termos de moralidade. Por outro lado, o casamento, que nas suas origens representava a bênção da igreja para a procriação, deixou de fazer sentido com essas modalidades conjugais, tornando-se mero contrato social destinado a assegurar os direitos de cada parte na união.

CADEIAS. Prisões são feitas para isolar o indivíduo que quebra as regras de convivência social, em prejuízo de alguém que se sentiu lesado, ou como prevenção a novos crimes praticados contra a sociedade. Com o crescimento demográfico, as cadeias passaram a ser amontoados de pessoas, sem que pudessem cumprir a finalidade a que se propõem, qual seja a de dar ao prisioneiro uma oportunidade de se redimir pelos erros cometidos e se reintegrar na sociedade. A sociedade do futuro terá outros mecanismos e instrumentos para controlar e fiscalizar esses indivíduos, sem que, para isso, tenham que ser afastados do convívio social e serem mantidos em celas que mais parecem um zoológico. O que se prevê é a “reprogramação comportamental” através de sessões de medicação, condicionamento intelectual e até mesmo interferências genéticas na mente do indivíduo “meliante”.

POLÍCIA. O aparato policial de que dispõe a sociedade para coibir, reprimir e capturar criminosos é desproporcional à sua finalidade social, e fonte de corrupção e descaminho. O futuro produzirá meios de controle social sem o uso de armas ou de violência, e poderá ser monitorado por centenas, milhares, senão milhões de câmeras distribuídas estrategicamente nos agrupamentos urbanos, e de aparatos (chips) instalados no indivíduo ao nascer. E a captura do criminoso se dará por meios legítimos de neutralização e remoção do indivíduo da cena do crime, até que sua “readaptação” social seja efetivada.

EXÉRCITO. Essa instituição só tem sentido na medida em que existem fronteiras, limites geográficos, e nações e países, que acreditam que o espaço de confinamento demonstra e caracteriza a personalidade e a identidade das pessoas com o espaço nacional dos países em que habitam. Abolindo-se as fronteiras, as bandeiras, os hinos e a história isolada desses países, o Exército se tornará inútil e supérfluo, e as guerras de conquista serão apenas memórias históricas de um mundo dividido por ideologias e conceitos medievais.

REPRESENTAÇÕES POPULARES. As assembleias, câmaras, senado, partidos políticos e outros tipos de representações populares serão consideradas nefastas e geradoras de discórdias. Por outro lado, o poder de manifestação será melhor exercido através de recursos tecnológicos que permitam, não apenas a formação de grupos virtuais heterogêneos, como estarão disponíveis através de diferentes ferramentas destinadas a criar e desfazer alianças temporárias, para finalidades variadas, conforme o interesse dos cidadãos, permitindo-lhes o exercício da democracia plena e da representatividade absoluta em cada nova situação.

PROPRIEDADE PRIVADA. A posse de bens é, talvez, a mais nefasta das concepções humanas, na medida em que cria a falsa ideia de que o mundo pode ser loteado para poucos, em prejuízo de muitos. Por outro lado, para que possuir bens se tudo pode ser usufruído por todos em qualquer situação, sem que, para isso, seja concedida a posse exclusiva e egoísta desses bens a um único indivíduo? O direito de uso não agrega valor a uma existência efêmera de poucas décadas. E a herança desses bens é o mais poderoso instrumento de perpetuação de castas e privilégios que a humanidade já tenha criado.

ESCRITÓRIOS DO FUTURO. Ainda nos parece essencial ter um lugar físico para se exercer as atividades burocráticas de uma organização. A esses lugares se denominou, no passado, de “escritórios”, ou “lugar para se escrever”. A ação de se escrever era, no passado, difícil e restrita aos poucos (geralmente, os “escribas monásticos”) que dominavam a “arte da escrita”, ou seja, o conhecimento de um idioma, com seus símbolos gráficos, regras de sintaxe e ortografia, e o manuseio de pincéis ou canetas; as máquinas de escrever e, principalmente, a estrutura organizacional física surgiram com a revolução industrial. Escritórios do futuro já existem, e são virtuais. Podem estar em locais compartilhados e temporários, podem estar nas casas dos funcionários, os “home office”, ou podem, simplesmente, não existir, na medida em que cada pessoa estaria exercendo suas atividades em qualquer lugar, conforme seu conhecimento ou experiência, sendo que a articulação dos processos seria construída conforme a necessidade momentânea ou duradoura de um projeto, programa ou plano. Assim, não existiriam organizações formais, mas grupos de trabalho destinados a exercer atividades específicas, enquanto fossem necessárias, desfazendo-se quando a função, ou a missão, ou o projeto estivesse concluído. Simples assim.

CINEMAS E SALAS DE ESPETÁCULO. As manifestações artísticas e culturais estariam disponíveis a todo momento, cada grupo podendo se apresentar virtualmente, para quaisquer públicos interessados. Estes, por sua vez, teriam condições de se manifestar virtualmente, fazendo parte do espetáculo de forma interativa, anônima ou não, agrupando-se também de forma virtual, enquanto fosse de seu interesse. Cada indivíduo ou grupo, seja de atores, seja de espectadores, se formaria e se desintegraria para cada apresentação. Todos os espetáculos poderiam ser guardados virtualmente, fazendo parte do acervo individual ou coletivo, através de filtros de seleção e preferências manifestadas.

IGREJAS OU RELIGIÕES. Assim como os partidos políticos, as igrejas e as religiões, bem como países e estados, e qualquer tipo de agrupamento de seres humanos cria instituições sectárias preconceituosas, perniciosas à harmonia social, devendo ser definitivamente extintos e proibidos. A manifestação de ideologias, sociais ou espirituais, deve ser livre e fazer parte da cultura de qualquer indivíduo, sem que, para isso, se converta em seita de fanáticos, que se manifestam coletivamente, perdendo sua identidade individual, e tornando-se, portanto, impessoal e ameaçadora à paz e à liberdade coletiva. Talvez, esta seja a maior das transformações que o mundo, tal qual o conhecemos e o experimentamos, presenciará nas próximas décadas, uma vez que extinguirá a farsa que domina, pela ignorância, as mentes dos menos privilegiados, intelectualmente.

ESCOLAS. Pode parecer estranho não existir escolas, mas elas apenas existem porque a transmissão do conhecimento ainda é primitiva e lenta. Passamos cerca de um quarto de nossas vidas aprendendo coisas inúteis, desconexas ou desnecessárias às atividades que exercemos, deixando de aprender o essencial, que é o conhecimento da finalidade da vida, da missão da sociedade humana, da percepção das sinapses que construímos em nossas mentes, e dos valores e princípios que deveriam nortear o comportamento humano, sem ter, contudo, o domínio do processo de organização desses complexos caminhos de armazenamento, de busca e de organização da inteligência humana.

ZOOLÓGICOS, ANIMAIS DE ABATE E A CARNE. Uma das mais importantes mudanças no comportamento humano será o entendimento de que não podemos ser carnívoros, seja porque as proteínas da carne não são as únicas que poderiam suprir nossas necessidades diárias, seja porque, neste futuro utópico, a comida será sintetizada artificialmente, acabando com as fazendas agrícolas e a criação de animais para abate, seja, ainda, porque precisaremos de todo espaço disponível na Terra para o lazer, as habitações e as atividades humanas. Zoológicos são aberrações que criamos para conhecer os animais, que deveriam estar vivos em seus habitats, e não confinados em jaulas ou em paisagens artificiais, construídas para serem usadas como presídios de visitação e deleite dos seres humanos.

DEJETOS HUMANOS: OS LIXÕES. Segregamos locais para despejar o nosso lixo, transportado por tubulações e veículos de carga, deixando de reaproveitá-lo para reuso e consumo. Esses lixões e esgotos são uma excrescência de nossa civilização e deverão ser eliminados. Os processos de separação de lixo devem fazer parte de nossa rotina diária, e não servir de motivo de segregação de uma população diminuída em seu papel de seres humanos catadores e separadores de nosso próprio lixo.

PRODUÇÃO E TRANSPORTE DE ENERGIA. Outra forma primitiva de vida, que caracteriza nossa sociedade humana, é a produção e o transporte de energia: hidrelétricas, termelétricas, usinas nucleares, linhas de transmissão, com enormes perdas pelo caminho, estações rebaixadoras e todo esse processo antiquado de produção, transporte e distribuição de energia deverá ficar no passado. Cada unidade humana, seja uma residência, seja uma unidade produtiva, seja qualquer equipamento útil, deverá ter sua própria fonte de energia, eliminando toda essa estrutura produtora e portadora que existe hoje.

IDEOLOGIAS E GUERRAS. Talvez devêssemos acrescentar, a essa dupla concepção, as religiões, já tratadas junto aos partidos políticos e associações. O fato é que toda dissidência humana se inicia em um embate de ideias sem o propósito construtivo da manifestação intelectual, mas apenas com a intenção de fazer prevalecer nosso ponto de vista ao dos nossos adversários. Daí, talvez, a necessidade de se discutir, aqui também, as atividades competitivas dos seres humanos, como o futebol e outros esportes geradores de discórdia e desunião. Mas trataremos apenas das ideologias e das guerras. Extintos os territórios, os países e seus limites, as guerras deixariam de existir, assim como as disputas pela sua posse. Não precisamos de terrenos murados, cercas, bloqueios de qualquer espécie, destinados, única e exclusivamente, a demarcar territórios que não nos pertencem. O mundo é dos seres vivos, independentemente de sua inteligência, sua cultura, suas linguagens e suas construções mentais. Quem contestará o fato de que surgimos da evolução das espécies? Quem assegurará que outras espécies poderão, eventualmente, evoluir para outras formas de vida inteligente, até mais qualificadas do que os seres humanos, tal como somos?

Essas considerações despretensiosas foram escritas para meditarmos a respeito do que nos separa, daquilo que nos segrega em nossa sociedade atrasada e arrogante, tornando ideias, que deveriam existir para serem compartilhadas, em armas para nos separar e desunir. Acabamos de sair de uma disputa ideológica que não trouxe vitoriosos, mas apenas perdedores. Tendo sido discutido exaustivamente o tema das “MUDANÇAS” por ambas as candidaturas finais do confronto ideológico, tudo o que não aconteceu foram “MUDANÇAS”! Ficou o mesmo grupo no poder, com as mesmas ideologias ultrapassadas, confrontadas com outro grupo ideológico também ultrapassado. Ficou um gosto amargo da derrota para ambas as partes, que não conseguiram convencer o eleitorado da prevalência de suas ideias às ideias opostas. Usou-se de artifícios e mentiras para iludir uma parcela indefesa da sociedade. Perdeu-se uma oportunidade de nos afastarmos da disputa ideológica para algo mais pragmático, como a “SUSTENTABILIDADE” de nossos processos produtivos, sociais, intelectuais, comportamentais, diante de um mundo em transformação, onde as “MUDANÇAS CLIMÁTICAS” determinarão os rumos de nossas vidas nas próximas décadas.

O que virá do caos decorrente de nossas ações predatórias sobre o Meio Ambiente? O que restará depois dos desastres ecológicos que arruinarão nossos sistemas produtivos medievais? Como subsistiremos à morte de nossas fontes de recursos naturais, quando os processos predatórios tiverem exaurido essas riquezas naturais, que desaparecerão pela perversidade e ignorância de governos despreparados para gerir o Universo em que habitamos? São essas as questões que estão em pauta, não a cor da pele e de nossa ideologia, ou a “magnanimidade” das migalhas distribuídas a uma parcela desta sociedade desigual, arcaica, feudal, primitiva, egoísta, sem solidariedade, sem compaixão, sem amor ao próximo, que são estes os princípios e valores essenciais à vida inteligente.

E não saberemos dizer quando teremos outra disputa que valha a pena ser realizada. Esta, certamente, não serviu para nada. Saímos perdedores, acusando-nos, mutuamente, dos mais torpes preconceitos! Perdemos diante de nossos “inimigos”, que são nossos irmãos de sangue, de culturas, de herança genética, de vizinhança, de território, de costumes, ainda que primitivos! Quando teremos nossa próxima oportunidade de rever nossos conceitos? Quando aprenderemos a debater ideias sem que, para isso, tenhamos que humilhar nossos adversários com palavras grotescas e arrogantes, acreditando que as “Nossas Verdades” sejam melhores que as “Verdades Alheias”?

Não existem VERDADES! Existem conceitos divergentes, que o próprio tempo cuidará de comprová-los falsos e decorrentes de nossa percepção míope do Universo que nos cerca. E esse tempo, que nos levará muito antes que tenhamos tempo de aprender o suficiente para sermos humildes, acabará por dar fim a essa humanidade que se vangloria de ser a espécie mais bem sucedida da face da Terra! Será mesmo? Pois seremos nossos próprios algozes, e exterminaremos nossa própria raça, a despeito de cores, credos, ideologias, conhecimentos científicos, realizações materiais ou desenvolvimento tecnológico.

Ao pó das estrelas retornaremos, e lá permaneceremos por milhões, bilhões de anos terrestres, à espera de que a casualidade combine nossas moléculas esparsas, catalizadas por acontecimentos e fenômenos igualmente aleatórios, reconstituindo novas formas de vida que, por sua vez, se reorganizarão até que, um belo dia, nova vida “inteligente” venha a surgir e se desenvolver, cometendo os mesmos erros e determinando o fim dessa nova espécie.

Esse é o ciclo do próprio Universo. Existirá um DEUS, uma inteligência que, como um maestro, conduza o tempo fictício e os eventos cósmicos  em direção à constituição cíclica de eras geológicas, manifestações naturais, surgimento de espécies “VIVAS” e seu desaparecimento, sem que, aparentemente, nada faça sentido para nós, reles seres humanos em vias de extinção? Jamais saberemos.

AS REDES SOCIAIS COMO INSTRUMENTO DE MANIPULAÇÃO DA CONSCIÊNCIA COLETIVA

O advento das redes sociais já foi tema de livros, filmes e debates, pelo seu papel transgressor de comportamentos, e de protagonista das ações sociais em situações de crise ou de instabilidade institucional. Esse recurso tecnológico introduziu um novo modelo de intervenção social, de profundo significado para a organização social e política de países, democráticos ou não, embora para os primeiros essa manifestação se processe sem culpas e sem punições. O propósito desse artigo é discutir a tempestividade dessa ferramenta, e sua apropriação pelos atores sociais, adquirindo recursos tradicionais de análise como arcabouço intelectual para seu suporte, e de profundo impacto para as transformações que presenciamos na sociedade contemporânea.

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Abstracts

The advent of social networks has been the subject of books, films and discussions, the role of transgressive behavior, and protagonist of social actions in crisis situations or institutional instability. This technological feature introduced a new model of social intervention, of profound significance for the social and political organization of countries, democratic or not, although for the first countries, this manifestation is carried out without guilt or punishment. The purpose of this article is to discuss the timing of this tool, and its appropriation by social actors, acquiring traditional resource analysis as intellectual framework for its support, and a profound impact to the changes that we found in contemporary society.

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Nos primórdios de 1970 surgiu a Internet, na época apenas uma rede de relacionamentos acadêmicos destinada a compartilhar trabalhos científicos entre Universidades e Centros de Pesquisa (ARPANET). Era ainda um recurso incipiente, com pouca interatividade, similar aos atuais correios eletrônicos (ou e-mails). A tecnologia que lhe servia de suporte ainda não possuía as interfaces gráficas desenvolvidas, e que surgiram apenas em 1984, com o Macintosh, que viria a se tornar o símbolo da Apple, empresa notabilizada por Steve Jobs e sua equipe como modelo de criatividade produtiva.

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A família Apple se desenvolveu e o Macintosh® se transformou simplesmente em “Mac”, dando origem a uma família de equipamentos, conhecidos como iMac® (“i” de interativo, inovador, interligado), e com um sistema operacional robusto e consistente, que inspirou outro jovem, Bill Gates, a criar a empresa que seria líder do mercado incipiente de computadores pessoais, a Microsoft®, base para a implementação de tecnologias impensáveis nas décadas que os antecederam. Esses equipamentos custavam uma pequena fortuna em seus primórdios e, com a evolução tecnológica e o crescimento acelerado da demanda, acabaram por se tornar indispensáveis a todos os indivíduos, símbolo de sucesso e de status social.

No entanto, durante as quase quatro primeiras décadas, a computação eletrônica, hoje simplesmente conhecida como Informática, e transformada pelas Ciências da Computação em área específica de conhecimento, tinha sua infraestrutura suportada por máquinas de grandes proporções e de altíssimo custo, além de exigir conhecimentos técnicos complexos para sua utilização e para o desenvolvimento de programas e aplicações, exclusivamente de uso científico, industrial e comercial. Eram, então, impensáveis as atuais facilidades tecnológicas.

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O advento do computador de uso pessoal (PC – Personal Computer) ocorreu a partir da década de 1970, mas sua evolução inicial foi lenta e seus recursos limitados, em sua origem. Porém, o surgimento do mercado potencial de usuários injetou-lhe enormes investimentos, que transformaram sua evolução em uma curva exponencial, com resultados surpreendentes, principalmente para os usuários, que não podiam prescindir de um técnico especializado para construir suas próprias aplicações. Surgiram as “Suítes” de aplicativos, como o Lótus 123®, o Quattro®, o Microsoft Office® e tantos outros que viriam em suas pegadas. Para que essas ferramentas se desenvolvessem e compartilhassem recursos entre usuários remotos, outra tecnologia foi produzida com a mesma rapidez e eficiência: as redes locais, inicialmente, as remotas, em seu encalço e, finalmente, a Internet.

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Diversas tecnologias complementaram a “caixa de ferramentas” do usuário contemporâneo, e uma delas foi o advento dos correios eletrônicos (e-mails). As primeiras experiências de redes remotas exigiam um provedor de comunicações (ISP – Internet Service Provider) e sua velocidade de tráfego de dados dificultava seu uso. Alguns desses provedores se transformaram em Portais de Informação, como o AOL®, UOL®, TERRA®, IG®, dentre tantos outros. Os conceitos de Portal de Negócios e de Portal de Informações surgiram na década de 1990, transformando a Internet em um mercado de transações comerciais e de divulgação de notícias. Como negócio, as trocas de mensagens comerciais viriam e se denominar EDI – Electronic Data Interchange, baseada em um conjunto de protocolos (regras de uso e de sintaxe: EDIFACT – Electronic Data Interchange For Administration, Commerce and Transportation), que transformaram a vida das pessoas e das empresas. Esse novo modelo de negócio viria a ser conhecido como Comércio Eletrônico (e-Commerce), e compreendia duas modalidades básicas: B2B (Business to Business – “transações comerciais entre empresas”) e B2C (Business to Consumer – “transações de vendas ao consumidor final”).

O universo da Informática é tão grande nos dias atuais que se torna difícil, senão impossível, resumi-lo em um texto, e esse não é nosso objetivo No entanto, esses conceitos elementares são necessários para apresentar a questão da evolução tecnológica que permitiu o surgimento das redes sociais. Elas apareceram no contexto da Informática na virada do século, logo depois de uma transformação que viria a impactar todo parque tecnológico instalado de computadores, sejam eles domésticos (pessoais) ou empresariais: o evento ficou conhecido como “o bug do milênio”, espécie de praga que viria a inviabilizar, se ocorresse, o uso desses equipamentos.

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É difícil explicar, para quem hoje faz uso da Informática, como e por que essa situação aconteceu; mas, propondo uma síntese, diríamos que as limitações tecnológicas e o elevado custo dos computadores em sua origem, aliados à falta de perspectiva histórica e de antevisão da demanda por esses equipamentos levou os especialistas (programadores e analistas de sistemas) a elaborar uma simplificação prática que, hoje, seria tida como “incompetência” ou “irresponsabilidade”: todas as datas utilizadas (ou armazenadas) em arquivos e sistemas de informação tiveram o “século” suprimido de seu formato (DDMMAA), e eram novamente inseridas em relatórios, como uma constante (19AA). Isso significava que, na mudança de século (3º milênio), todos os relatórios seriam impressos “voltando” 100 anos na exibição de datas: “21/12/2001” seria mostrado como “21/12/1901”, por exemplo.

Esse erro conceitual foi utilizado, inclusive, no desenvolvimento dos sistemas operacionais dos mainframes, e dos pequenos componentes, conhecidos como BIOS, que nada mais eram que minúsculos programas para iniciar o PC (personal computer). O custo das mudanças foi enorme (bilhões de dólares) para as empresas e para os países, mas provocou a mais dramática transformação do uso da Tecnologia da Informação: uma nova geração de máquinas e de programas foi implementada em tempo recorde em todo o mundo, quase que simultaneamente, graças aos enormes investimentos para superar essa falha técnica exemplar, apenas justificada pela incapacidade de se prever que tais sistemas sobreviveriam por décadas e chegariam ao ano 2.000 ainda ativos.

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Sistemas Corporativos

O Novo Milênio trouxe novos conceitos, novas tecnologias e uma redução de custos sem precedentes para os equipamentos de Informática. Se os investimentos no final do século passado se dirigiam à tecnologia per se, criando as grandes estruturas de bancos de dados, os conceitos de orientação a objetos, e os pacotes empresariais conhecidos como ERP – Enterprise Resource Planning, MRP – Manufactoring Resource Planning, dentre outros, no Novo Milênio a preocupação voltou-se para o Relacionamento entre Organizações em seu processo negocial. Surgiram novos conceitos nesta linha de raciocínio, como o CRM – Customer Relationship Management, o CPFR – Collaborative Planning, Forecasting and Replenishment, e os Portais de Negócio. Este último substituiria as tecnologias tradicionais de troca eletrônica de mensagens por novos modelos interativos para o estabelecimento de parcerias comerciais e negociação interativa. Essa nova modalidade atenderia, principalmente, uma cadeia de relacionamentos conhecida como Supply Chain Management, ou Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos, que contemplava desde os fornecedores de matérias-primas até o consumidor final, passando pelas indústrias de transformação, pelos canais de distribuição e, finalmente, pelos pontos de venda. Era uma revolução no processo de produzir e comercializar bens de consumo.

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As Redes Sociais

A contrapartida nos relacionamentos sociais e no uso da computação pessoal viria através das redes sociais. A primeira e mais conhecida rede social foi o Orkut®, seguida pelo Facebook®, que viria a se tornar a maior rede de relacionamentos do mundo, penetrando, inclusive, em países da antiga “Cortina de Ferro” (China e Rússia) e nos países muçulmanos (Paquistão, Líbano, Argélia, Egito), todos com a tradição de extremas restrições dogmáticas aos seus cidadãos. No princípio, foi necessário um extenso aprendizado, tanto por parte dos desenvolvedores, quanto dos usuários desses novos recursos. A interface gráfica carecia de praticidade e as regras de utilização não inibiam abusos, que quase inviabilizaram o desenvolvimento desse mundo novo que se prenunciava.

Esse aprendizado ainda continua, e novas funcionalidades e novas regras são implementadas continuamente, com o objetivo de respeitar leis e costumes dos países, bem como assegurar a privacidade e o respeito aos usuários em sua rede de relacionamentos. Conflitos precisam ser administrados para coibir os abusos, e até sistemas de punições foram estabelecidos para permitir que pessoas se relacionassem em segurança e com comportamentos aceitáveis pelos membros dessas novas comunidades. Hoje, pode-se dizer que essas redes estão maduras e funcionam a contento, permitindo que pessoas de todas as nacionalidades, falando os mais diferentes idiomas, professando diferentes crenças e tendo variados costumes e tradições possam se comunicar. As redes sociais são a Torre de Babel dos tempos atuais, onde cada um fala o seu idioma, só que com capacidade de comunicação e de compreensão. A tradução entre idiomas é simples, embora ainda careça de confiabilidade semântica.

As transformações sociais no mundo contemporâneo

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O Papel da Televisão

Não apenas as redes sociais surgiram no mundo atual. Desde a década de 1950, transformações sociais ocorrem, subvertendo costumes e compelindo pessoas a mudar suas regras e combater preconceitos. Não foi a Informática que iniciou essas mudanças, mas outra tecnologia: a televisão. Depois da Segunda Guerra Mundial, e em função dos investimentos em pesquisa científica e produção de armamentos, novos recursos tecnológicos surgiram para suprir as demandas por supremacia militar. Dentre eles, o que mais impactou as relações sociais foi a televisão. Fruto do desenvolvimento de equipamentos de comunicação durante a guerra, a televisão surgiu no início da década de 1950, tendo evoluído constantemente desde então, tanto com relação a seus recursos tecnológicos (tubo de raios catódicos, transmissão via satélite, integração com a Internet, TV´s de LED e de plasma, redução de custo de componentes, etc.), quanto à sua utilização midiática (recursos de design, programação, interatividade, competitividade pelo comando de audiência, versatilidade de temas, etc.).

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Como recursos de comunicação “ao vivo” e instantâneos, a televisão passou a ser um instrumento de transformações sociais tão importante que, desde seu início, tornou-se alvo de censura e de constrangimentos por parte de governos e igrejas, que não se conformavam com a queda sucessiva de seus dogmas e tradições e com a perda de controle sobre seus membros. O mundo viu, atordoado e em tempo real, o surgimento dos movimentos beatniks, hippie e woman´s lib, nos anos 1960, a implantação de ditaduras militares nas décadas de 1960 e 1970, a queda das mesmas ditaduras nos anos 1980, as guerras do Oriente Médio nos anos 1960 a 1980, os atentados terroristas e a liberdade de escolha de preferências sexuais dos anos 1990 e 2000… todos esses acontecimentos sociais e muitos outros apareciam “ao vivo” nas telas da TV e mobilizavam os sentimentos e emoções de toda a Humanidade.

Pela primeira vez, o homem podia se considerar participante da sua História, membro atuante ou mero expectador de todos os fatos sociais. O jornalismo de notícias e investigativo foi elevado à categoria de líder de vídeo audiências, e presença constante na maioria das casas do mundo civilizado. O papel do rádio, como elemento integrador da sociedade às famílias, foi reduzido às pequenas comunidades desprovidas de recursos da “modernidade”. As novelas e séries de televisão foram, no entanto, os fatores mais importantes das transformações sociais, uma vez que não retratavam a realidade, mas criavam “novas realidades”, jamais concebidas, confrontando regras morais e religiosas e criando uma nova sociedade baseada na liberdade absoluta de expressão e de conduta.

As Redes Sociais como Instrumento de Manipulação da Consciência Coletiva

Ainda que sem esse propósito, as redes sociais ofereceram, de imediato, um instrumento de enorme penetração e sem ônus para seus usuários, e certamente seriam utilizadas para quaisquer fins que se pretendesse: divulgação e comercialização de produtos e serviços, debates e propagação de ideias, publicação de fotografias, músicas, filmes, livros e textos, criação e veiculação de enquetes, uso de jogos eletrônicos, agendamento, divulgação e controle de participação de pessoas em eventos, publicação de curriculum vitae, agenda de aniversariantes, comunicado de fatos pessoais e públicos relevantes, intercâmbio de mensagens, formação de grupos de interesse, construção e gerenciamento de redes sociais privadas, integração de sistemas de mensagens com outras redes sociais, mensagens publicitárias, construção de páginas pessoais, dentre tantas outras funcionalidades.

Logo se percebeu a importância e o alcance desse novo recurso de comunicação e relacionamento, mas ainda não se percebia seu impacto nas relações sociais coletivas. Grupos de interesse com características e propósitos bem definidos logo passaram a veicular ideias e propostas, conclamando os componentes de suas redes para adesão às propostas. As redes, antes individuais, começaram a se interligar, formando suas próprias “sinapses” sociais, fato inusitado e inesperado, seja para os criadores dessas poderosas ferramentas, seja para seus usuários: as redes “aprendiam” com suas próprias experiências, criando estruturas complexas, como são as sociedades humanas. As redes atingiram sua maturidade e começaram a influenciar a Humanidade.

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Essa situação evoluía paralelamente às transformações que o mundo sofria em suas próprias estruturas sociais e políticas. As “primaveras árabes” e as manifestações da Comunidade Europeia, as primeiras em busca de Liberdade e Democracia e as segundas em protesto contra as medidas econômicas na Zona do Euro e o crescimento do desemprego, encontraram nas redes sociais o instrumento adequado de propagação de protestos e de conclamação do povo para manifestações públicas. Eram as redes sociais intervindo na consciência coletiva e funcionando como instrumento de mobilização social em defesa de seus direitos.

No Brasil, um tema aparentemente irrelevante – o aumento de vinte centavos nas passagens de ônibus – foi o estopim das manifestações de rua. Mais uma vez, o meio eram as redes sociais, e o resultado foi a mobilização de dezenas, depois centenas e, por fim, milhares de pessoas, coletivamente manifestando seu direito constitucional de protestar contra o que consideravam injusto na sociedade brasileira. Dos “vinte centavos” originais, dezenas de slogans demonstravam a revolta de um povo aparentemente avesso a protestos e acomodado em suas casas, independentemente das injustiças que presenciavam e que, direta ou indiretamente, afetavam suas vidas.

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Dos transportes coletivos à saúde, à educação, às minorias étnicas oprimidas, à devastação da Amazônia, à política e à corrupção tudo era permitido e, pela primeira vez, se constatava um fenômeno inusitado nas manifestações populares: uma mesma passeata poderia conter os mais diversificados temas, sem com isso perder sua representatividade e significado. Pela primeira vez, também, nenhum partido político teve condições de manipular as massas em seu favor, pois todos os políticos eram “persona non grata” nas manifestações, e foram rechaçados espontaneamente pelo povo, pois não havia líderes carismáticos conduzindo-os; cada um caminhava por si mesmo, por suas ideias, por suas causas e revoltas.

Conclusão

Esse fenômeno, que surgiu da própria evolução tecnológica e foi inspirado na maneira como os jovens se comunicam e se relacionam, assumiu vida própria, instruindo, de certo modo, seus criadores a adaptar seus recursos e funcionalidades a esse mundo novo e admirável, que não tem regras claras, não tem líderes nem legendas, e se manifestam com a mesma naturalidade que demonstram em sua vida real.

Qual o seu limite? Até que ponto esse processo evoluirá e quais novas mudanças ainda estão por vir e serem descobertas, fruto da experiência e do relacionamento interpessoal, cada vez mais complexo e espontâneo, cada vez mais imprevisível, apaixonante e assustador, na medida em que uma espécie de sociedade anárquica passa a existir e a impor seus domínios ao poder constitucionalmente estabelecido e cada vez mais anacrônico?

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Vale destacar que a tecnologia ainda não se mostrou completa (nunca será) e novas possibilidades se apresentam com a evolução dos eletrônicos, cada vez mais interligados, cada vez mais simples em sua utilização e complexos em sua concepção e construção. Da tecnologia embarcada da indústria automobilística para a tecnologia implementada em todos os objetos de nossa vida cotidiana, fazendo-nos parecer personagens de ficção científica, mas, ao mesmo tempo, constatando que os paradigmas que nortearam a constituição de nossas estruturas sociais já não funcionam mais e precisam ser reformados. Haverá, ainda, paradigmas nessa nova sociedade?

Talvez não apenas “reformadas”, mas verdadeiramente aniquiladas para dar origem a uma nova forma de organização social, econômica e política. O modo de produção capitalista atingiu seu apogeu, caminha para o ocaso, e precisa ser substituído. A globalização funcionou perfeitamente, mas foi protagonista e vítima de sua própria entropia, calando a dialética das sociedades desiguais, ainda que desumanas. As diferenças ideológicas se acabaram por falta de criatividade e deram lugar ao vazio intelectual que presenciamos.

Essa juventude, que tínhamos como amorfa e incapaz de protagonizar a mudança, é hoje a única capaz de conduzir, compreender e gerir tais mudanças, buscando na diversidade étnica, sexual e espiritual as fontes de inspiração para superar o risco de extinção da espécie humana, devido ao esgotamento dos nossos recursos naturais, às convulsões sociais e ao consumismo desenfreado e insano. Nessa juventude, desinformada ou incapaz de processar as informações em excesso, depositamos nossas esperanças, acreditando em seu poder criativo e seu comportamento leve e irreverente, que não sabemos, nós da geração que se aposenta, compartilhar ou compreender. As redes sociais talvez não tenham tamanha importância na conjuntura do Universo, mas hoje é o instrumento essencial das transformações que presenciamos, estarrecidos e encabulados, em nosso mundo contemporâneo. Como evoluirá esse instrumento de comunicação? Talvez os novos recursos de comunicação, as novas mídias, nos tragam os esclarecimentos de que necessitamos para compreender essa nova situação e nos indiquem, ainda que involuntariamente, os próximos passos que nem mesmo esses jovens saberiam quais são.

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaios