Infâmia!

Vivemos em um país de hipocrisia: enquanto uma grande maioria está sujeita às garras poderosas da justiça, uns poucos privilegiados são intocáveis e protegidos exatamente por aqueles que deveriam defender, a qualquer custo, nossas instituições democráticas! Senão, em que outro país poderia, o próprio presidente da Corte Suprema proteger um notório bandido, concedendo-lhe, por duas vezes sucessivas, o habeas corpus, com a evidente intenção de desmoralizar outra instituição, esta sim séria e competente, a Polícia Federal, que tantas demonstrações tem dado de seu empenho em tornar esse país mais digno, honesto e decente.

Aquele outro bandido, o Salvatore, deveria pedir isonomia de tratamento à Justiça internacional, exigindo a si os mesmos direitos de permanecer livre, já que nossos mandatários não conseguem discernir entre o Bem e o Mal… Afinal, por que prender bandidos, se a Justiça (?) os solta imediatamente? Que exemplo se dá à nossa juventude aqueles de quem se espera o exemplo e o modelo de conduta? Se a Lei maior permite a soltura, existe uma lei suprema, a da decência e do clamor popular, que reivindica e exige que se cumpra o dever de todo o brasileiro de defender nossos valores e dignidade!

Até quando irão nossas autoridades nos tratar com escárnio e desprezo, tomando-nos por idiotas, fingindo erudição e fazendo-se de puristas em defesa de conceitos reprováveis como esse? Já não basta tudo o que vem acontecendo nos outros poderes, no Senado, na Câmara e na própria Presidência da República? Já não bastam os escândalos acobertados em nome do "crescimento econômico"? Esse terço já foi rezado durante a ditadura militar, quando se dizia que primeiro deveríamos ver crescer o bolo para depois distribuí-lo à população miserável (olá, Delfim!). Isso nunca aconteceu!

Não podemos mais nos omitir diante de tantas ignomínias de nossas autoridades! Seria para isso que elegemos nossos mandatários? Isso é a democracia pela qual tantos deram suas vidas nos porões do DOPS e nas guerrilhas do Araguaia? O que fizemos para preservar nossa liberdade se justificaria agora diante de tantas barbaridades? Para que votar, se os eleitos riem de nós quando empossados, e nos fazem de otários diante das câmeras de TV?

Que tipo de compromisso tem esse ministro com o tal Dantas para utilizar uma argumentação tão estúpida e infantil para justificar tal habeas corpus? Não basta a descarada tentativa de suborno (um milhão de dólares!) de um delegado federal para manter esse corrupto atrás das grades? Bem, se o Maluf permanece impune, livre, eleito deputado e falastrão como sempre, sem que nada lhe aconteça, é de se esperar que nenhum ricaço vá ser preso nesse país!

Eu deixei de votar quando o PT me decepcionou em 2003. E não pretendo colaborar pela manutenção desse status quo; nunca mais! Não adianta! Somos uma minoria humilhada e dispersa em um país de analfabetos. É inútil lutar contra os poderosos; sempre foi assim, desde que Portugal abriu as portas de suas cadeias para despejá-los em nosso território. Assim também foi quando o Imperador Dom João VI retornou a Portugal, repassando-nos a dívida de guerra de Napoleão!

Cada um que faça sua parte, mas a minha está nas palavras que escrevo e no protesto silencioso de meu voto desperdiçado…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

A bestialidade da sociedade digital

A gente nem percebe… primeiro, começamos a olhar os programas idiotas da televisão, com certo desconforto intelectual. Afinal, deixamos de ler um livro, paramos de conversar com os amigos, ficamos mais quietos e passivos… apáticos… já não mais discutimos os assuntos que antes nos empolgavam.

Depois nos acomodamos… e passamos a achar natural aquela dependência psicológica das telinhas e de seus programas mais cretinos! Afinal, todo mundo vê tevê, não é mesmo? E só mesmo os sites de relacionamento superam a televisão nas preferências dos jovens de qualquer idade!

Eu percebi que estava dependente quando já não mais conseguia fazer outras coisas: deixei de ler jornais, abandonei meus livros, parei de ouvir música, perdi grande parte do convívio familiar e passava horas assistindo as mais estúpidas criações do espírito humano!

Para consolar minha consciência, passei a assistir apenas documentários sobre a Natureza… menos mal, eu pensei… pelo menos não vejo o faustão, o hulk, a angélica, o gugu, as novelas, o silvio santos, o raul gil, o próprio fantástico e tantos outros programas bestificantes da televisão brasileira. Vocês já repararam que perdemos até a criatividade da cretinice? Sim, pois grande parte desses programas imbecis são tirados de modelos da televisão mais estúpida do mundo: a americana! Até o jô copia o David Letterman!

E os noticiários, que repetem à exaustão a mesma informação durante dias seguidos, de manhã, à tarde e à noite? E a publicidade imbecil das lojinhas que cresceram vendendo produtos de carregação às classes D e E, como a bahia, a colombo, a ricardo, a c&a, a renner, a eletrozema (existe isso??? existe!), a luiza, a marisa, as americanas e pernambucanas, a ultrafarma (mas remédio também pode?

Pode!!!!!!!!!!)…

Só que, mesmo me restringindo à Natureza, deixei de pensar! onde foi parar o meu senso crítico? minhas idéias? minha consciência intelectual? minha auto-estima e meu respeito por mim mesmo? tudo isso foi parar no meu lixo pessoal da acomodação e da passividade!

Meu universo ficou restrito a um quarto com tv e notebook! CHEGA!!!!!!!!!!!
por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Os Sete Pecados

Assim como os crentes, os leigos também cultuam seus pequenos pecados… muitos, porém, são Pecados Capitais! Nada direi da gula, da vaidade, da luxúria, da avareza, da preguiça, da ira e da inveja, pois esses são pecaditosque só fazem mal a quem os tem…Direi, sim, daqueles que levam o homem a praticar maldades, a destruir àqueles a quem amam, ou deveriam amar… a degradar a Natureza, a produzir infâmias inomináveis até para o mais amaldiçoado dos seres… a nos conduzir para o fim inevitável!

Falarei dos vícios, não os terríveis, que acabam com o Ser em tão pouco tempo que mal dá para fazer mal a outrem, senão a si próprios. Falarei do comportamento predatório, aquele que destrói tudo que é valioso para a humanidade. Falarei, também, da maldade intrínseca daqueles que juram nos proteger enquanto representantes e delegados para cuidar de nossos interesses públicos. Direi, ainda, que a intolerância é irmã gêmea da libertinagem, assim como todos os extremos se tocam no infinito.

E, assim, serão seis os pecados, pois o sétimo está no coração de todos os homens, e só espera a distração e o descuido para se manifestar… esse eu deixarei para o final, para que cada um o encontre por si mesmo e o extirpe, feito erva daninha!

Quais serão esses vícios tão perniciosos? De que, afinal, morre e mata o ser humano, mais do que a pior das doenças, a pior das epidemias, a pior das guerras, dia após dia, dentro e fora de nossos lares?

Seriam o tabagismo, o álcool, o AVC, o infarto, os acidentes de trânsito, a violência urbana, o câncer?… nossas vidas foram traídas pelo ritmo alucinado da sociedade contemporânea!Porém, quando mencionamos os acidentes vasculares cerebrais, o infarto e o câncer, estamos dissimulando suas verdadeiras causa mortis que são o descontrole causado pelos vícios: o cigarro mata destruindo os pulmões, enquanto que o álcool mata destruindo o fígado (e os neurônios!)… o stress mata ao destruir o equilíbrio emocional… o tabagismo e o álcool são a porta de entrada para o uso de drogas mais pesadas… e todos eles são causas potenciais de diversos tipos de câncer, de quase toda violência urbana e da maioria dos acidentes de trânsito! Quantos crimes se cometem por excesso de álcool ou falta de controle emocional?

Mais, porém, do que essas causas individuais, existem as causas coletivas da morte: a destruição da Natureza, a manutenção da miséria como recurso colonialista, a exploração das fraquezas humanas através do tráfico e consumo das drogas, o incitamento à violência racial e religiosa, conseqüência natural da intolerância e da libertinagem, as políticas públicas direcionadas para a conquista e o domínio de bilhões de seres humanos…

E as plantações de tabaco, de cana de açúcar e de todas as culturas extensivas que, no período colonial se denominavam plantation e foram a causa da escravidão no Brasil e demais terras do Novo Mundo? e a criação extensiva de gado, que além de desmatar florestas produz enorme quantidade de gás metano, uma das causas do aquecimento global… ???

Pois somos muito competentes em dissimulação! Fingimos desconhecer essa realidade que nos mata, tentamos ignorar o fim que nos espera, certos de que iremos embora antes que esses males nos destruam, e deixamos aos nossos descendentes a responsabilidade por reverter esse quadro de desolação que nos espera… haverá tempo para eles? A cada dia, o fim nos parece mais próximo!

Enquanto isso, os fenômenos naturais nos enviam alertas desesperados, tentando nos convencer do pouco tempo que nos resta: são furacões, tufões, ciclones, maremotos, terremotos, erupções vulcânicas e ondas gigantes (tsunami) que gritam em nossos ouvidos moucos!

Não sei se falei dos sete pecados… nem importa! Mas adicionei meus clamores aos apelos da Natureza… quem quiser, acredite! Não será Nostradamus quem dirá que nosso fim está próximo: seremos nós mesmos!

Adivinhou o sétimo pecado? Pois é apenas e tão-somente a…

sua omissão!!!!
por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

A ilusão acabou (“Diário de um louco”)

Chega de ilusões! Não adianta nos enganarmos pensando que osverdadeirosambientalistas salvarão a Terra, e a Natureza, enfim, prevalescerá e sobreviverá à ambição descontrolada da Humanidade… isso não é possível! Quem já leu alguma obra de ficção centífica, ou assistiu a filmes que “revelam”o futuro da Terra percebeu que os autores são unânimes ao imaginá-la deserta, sem vida, sem matas, sem animais, povoada de zumbis, fantasmas ambulantes tentando sobreviver à fome, à miséria, à escassez de água, e ao agreste…Isso não é pessimismo; é pura realidade projetada em nossos filhos e netos, herdeiros dos atos que praticamos no presente! Sim, pois que as políticas ambientais são meros artifícios ilusionistas para confortar nossas consciências, como se o problema não apresentasse a gravidade que de fato existe! A Natureza está morrendo e nada poderemos fazer para evitá-lo!

As evidências são inúmeras e incontestáveis!

A política ambiental visa apenas reduzir o ritmo dos desmatamentos, ou seja, o suficiente para legarmos a nossos filhos a responsabilidade pela extinção das matas, da vida selvagem, dos espaços de preservação ambiental, cada vez menores. Nunca se fala em desmatamento zero! Como pensar em fome zero se não existe desmatamento zero? E não se desmata para plantar alimentos, mas combustível! Pasmem! Queremos mais combustível para movimentar as máquinas que provocam, ao final da cadeia, o desmatamento!

A população do planeta cresce a taxas inaceitáveis! Se países como a China determinaram uma política de redução drástica no seu crescimento populacional, a Ìndia, o Paquistão, os países da África, o Brasil, continuam todos a crescer a taxas acima de 2% ao ano! Não haverá lugar para tanta gente, concentrada nos bolsões de pobreza das grandes cidades, amontoada em favelas e malocas, que só fazem crescer a violência e reduzem o nível de consciência médio da população terrestre.

As autoridades responsáveis pelas políticas ambientais, salvo raras exceções, só conhecem a Natureza pelos livros que consumiram em suas teses de mestrado. Jamais pisaram as trilhas das florestas, jamais escalaram montanhas, nunca mergulharam nos mares ou banharam-se nos rios cristalinos e nas cachoeiras que correm pelas vertentes… Elaboram suas leis e projetos baseados apenas nas concepções teóricas e equivocadas das salas de aulas! Nunca se sentaram, à noite, em torno de uma fogueira, no alto de uma montanha, apreciando a magnificência desse Universo incompreensível e misterioso…

Fiscais do IBAMA seguem as cartilhas escritas pelos burocratas e aplicam multas insignificantes (por maior que seja o seu valor), acreditando que o dinheiro recompõe a devastação causada pela exploração descontrolada dos espaços que deveriam ser preservados. Mas as árvores tombadas nunca serão replantadas, e o espaço conquistado à floresta se incorpora às áreas de plantio e às pastagens onde o gado irá produzir mais metano em suas toneladas de fezes, dando sua contribuição involuntária para o aquecimento global…

Não há futuro, meus amigos, para a Natureza! Reconheçamos nossa impotência e incompetência ao gerir nossos recursos mais nobres! Admitamos que, no fundo, pouco nos importa se animais serão extintos, se florestas desaparecerão, se montanhas de granito serão derrubadas para pavimentar as rodovias, se imensas rochas de minérios serão destruídas por nossa ambição desmesurada em superar nossas próprias obras, como se elas fossem magníficas! “Enormes Construções”! Este é o tema do documentário de um canal de televisão que se diz preservacionista! Quanta hipocrisia! O homem se compraz de seus feitos gigantescos! Para que?

E, como se não bastasse, multiplicamos esse consumismo inútil por bilhões de páginas de papel impresso, cujo conteúdo prolixo e redundante nada acrescenta em nosso conhecimento; transitamos egoisticamente solitários por vias congestionadas, desperdiçando combustível fóssil cada vez mais escasso, inundamos nossa atmosfera com a imudície e a poluição gerada pelas atividades frenéticas de uma população improdutiva, e pior ainda, não percebemos em nós mesmos o mal que causamos ao meio ambiente, em nossas próprias casas, com o desperdício sem controle! Quantos quilos de lixo você despeja por dia na Natureza?

Você já parou para observar quanta coisa inútil existe em nossas vidas? Já verificou o seu próprio consumo de energia, sua produção de lixo doméstico, seu próprio impacto ambiental não contabilizado? Nenhum animal selvagem conseguiria, em toda a sua vida, produzir tamanha devastação como o ser humano em apenas um dia de sua existência!

Para constatar essa realidade é muito simples: registre apenas um dia de sua produção inútil: o lixo, o alimento desperdiçado, os papéis descartados, o combustível consumido, o estoque sempre crescente de bugigangas que armazenamos, sem um fim específico, e que nos atam à vida como se imprescindíveis fossem! E tenha a coragem de admitir que o discurso preservacionista vai bem, mas nossas atitudes não refletem o seu significado!

Lamentavelmente, a Natureza não tem mais futuro em nosso planeta!
por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

As Mazelas do Capitalismo

Não foi a primeira vez que o mundo se quedou estupefato diante de uma nova crise financeira… A mais notável e emblemática foi em 1929, causada pela especulação americana. Não é para menos que cada nova crise é comparada àquela pelos "analistas de plantão"!

Todos se recordam da crise do petróleo, da crise mexicana, da asiática, da russa, da argentina… sempre levando consigo centenas de bilhões de dólares de prejuízos dos incautos aprendizes que ousaram acreditar nas "maravilhas" do Capitalismo!

No passado recente, até o final da década de 80 (a "década perdida"!), ainda havia o contraponto do Socialismo a se comparar a essa maravilha de regime que a todos encanta! Agora já não existe mais, senão para os saudosistas como eu…

O que sinalizam essas crises, afinal?

Em primeiro lugar, a fragilidade de uma Economia Mundial assentada na especulação de toda espécie: do preço do petróleo ao comércio imobiliário norte-americano; das fortunas "ciganas" que assaltam as economias dos países pobres ("emergentes") como nós à miséria degradante das guerras não declaradas que perduram por décadas, perpetuando o "status quo" dos poderosos…

Essa primeira evidência reflete a falácia sobre a qual está construído o Capitalismo, ao mesmo tempo que serve aos especuladores para migrar seu capital entre as bolsas de valores que apresentem as melhores ofertas de rentabilidade e, portanto, de lucros!

E aí está a diferença abissal entre a crise de 1929 e as contemporâneas: naquela época, os bancos centrais não existiam, os governos não eram tão habilidosos, e os milionários virtuais ainda sequer tinham sido "inventados". Por isso, aquela crise foi inevitável e incontrolável. Agora, porém, enquanto os países ricos despejam bilhões de dólares e de euros nos grandes bancos, os pequenos investidores amargam seus prejuízos irreparáveis, nas parcas economias que confiaram ao mercado de capitais…

O segundo sinal evidenciado pelas crises é o fato de que as ondas de desenvolvimento e os vales de retração das economias não conseguem e nem se importam com a redução das imensas disparidades sociais, mantendo a maior parcela da população mundial na mais absoluta miséria e ignorância diante de um mundo em transformação. Ou seja, NÃO vivemos em um mundo melhor, graças ao Capitalismo, embora a aparência do mundo, devida à tecnologia, seja de evolução frenética e acelerada!

Mas há um fator ainda mais perverso em nossa realidade, que as crises acabam por ocultar: caminhamos para o caos, mas não o caos econômico, não o caos social, nem o caos político! Caminhamos para o caos da degradação ambiental, preço alto demais a ser pago pelo "desenvolvimento", que acaricia os ricos e oprime os pobres, e que nos leverá a todos à Era Glacial da Ignorância.

Se a nação mais rica do mundo se recusou a aderir à luta pela preservação ambiental, contando que o tempo que lhes restava era o suficiente para torná-los ainda mais ricos, agora já não haverá tempo hábil a ninguém para salvar o nosso Planeta!

O Socialismo teria evitado tudo isso? Provavelmente não; mas a própria dialética da oposição ideológica obrigaria os dirigentes a pensar melhor a realidade e os problemas da Humanidade, exigindo decisões mais sábias e menos comprometidas com o ganho de Capital. Afinal, a dicotomia entre pensamentos e valores antagônicos assegurou a evolução que percebemos hoje.

Realmente, a homogeneidade intelectual provocada pela globalização é o nosso pior e fatal inimigo!

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

A Existência de Deus

Se Deus existe, é razoável se supor que todas as existências do Universo são decorrentes de sua vontade e criação.Também é justo concluir que, antes de existir o Universo, certamente, apenas Deus existiria.

Portanto, no ato da criação do Universo, algo se transformou na própria essência de Deus, do qual emanaram todas as forças, a energia e a matéria que deram origem a tudo que existe depois da Criação.

Portanto, é também razoável se supor que a criação do Universo se fez pela dissolução desse Ser Infinito nos bilhões, trilhões, “n”lhões de partículas, corpos celestes, éter e tudo o que compõe a Infinita Essência de Deus.

Como cada uma dessas infinitas partículas do Universo e, portanto, fragmentos de Deus, não tem senão consciência de si mesma e do pequeno universo que a cerca, é também de se supor que Deus, ao criar o Universo, perdeu a consciência de si mesmo e se dispersou nos infinitos fragmentos de consciência que nos permitiram existir.

Sendo assim, a plena aceitação da existência de Deus nos faz supor que a ele não poderemos nunca recorrer, pois somos apenas e tão somente parte de sua própria essência, parte dessa incomensurável consciência que busca, por fim, se recompor e reconstituir a unicidade de Deus. Por que teria Deus, então, se dissipado no Universo?

Talvez porque, sendo uno, nada mais lhe restava conhecer, senão a si mesmo. Para crescer, Deus precisou se auto-destruir e renascer do pó em que se transformou… portanto, conhece-te a ti mesmo e encontrarás teu próprio Deus!

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Pierrot

Ontem, quando nasci, eu já tinha 30 anos. Negou-se-me, assim, a minha juventude. Percebeu-me a vida quando minhas filhas me encontravam nesta transitória passagem “pelos campos do Senhor”.Despertado dos sonhos, acreditei não ter, ainda, existido; confesso, pois, que não vivi.

Nessa dicotomia, corpo e alma defasados no passado, aqui me deparava com essa terra de mudanças, onde o “tudo” ao “nada” precede, e a morte em vida se acaba.

Pois é assim que, nascido prematuro e louco, a consciência recobro justo quando a vida se me nega as infinitas possibilidades que aos demais oferece, generosamente.

E nesse paradoxo do tempo em que me encontro, tua beleza a mim se interpõe, ao mesmo tempo recusando o que se me oferece, apenas por ter estado aqui por mais tempo (muito mais) do que deveria ter ocorrido.

“Uma rainha”, pensei, “jamais uma princesa”. Não pela incontestável beleza, bem o sei, mas por já estares pronta, completa, perfeita em tua exuberância arrebatadora.

Ali estavas, diante de mim, vida manifestada em sua plenitude impecável, deliciosos momentos de inexplicável sedução.

E, ao recobrar a consciência – não a razão, ou juízo – nada mais sou que eu mesmo, prematuro ser anoitecido e inconformado pela vida que a mim se negava.

Quase perfeita, a noite se acaba, restando a madrugada fria, insone, infinita, repleta de lembranças do que não houve e nunca será…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Devir

Não cobrem, de mim, coerência!

A Dialética é a arena dos conflitos ideológicos, de onde não surgirá a Verdade, mas infinitas possibilidades a alimentar novos debates. Assim é a Filosofia, desde Confúcio e Platão, a se manifestar, não em constatações definitivas, mas em questionamentos cada vez mais profundos e complexos, como a Vida a se declarar em nós.

Somos assim, seres incompreensíveis, cambaleantes e inseguros diante das dimensões eternas e derradeiras do Universo. Não sejamos, pois, tão seguros de nossas pobres convicções. Elas não sobreviverão, sequer, ao nosso próprio e limitado Tempo…

Não cobrem de mim a consistência dos pensamentos acabados, pois se nosso caminhar é finito e efêmero como o piscar de um relâmpago, a Consciência Cósmica evoluirá continuadamente em busca da Perfeição que, no entanto, jamais será alcançada…

Já lhes falei da Alma?

Änima, a energia sutil e discreta que diferencia o Ser da besta, a centelha de vida que nos convence, a cada instante, a perseverar, mesmo diante das derrotas, das injustiças, das frustrações, dos dissabores e dos conflitos irreconciliáveis da vida em si mesma?

Aquela pequenina chama a tremeluzir em nosso âmago, frágil e insegura, mas que nos preserva até o instante de nosso fatal desenlace, quando, por fim, retorna à Luz, infinita e incompreensível, que acreditamos existir e, por não ter nome nem forma, apenas reafirma nossas infundadas crenças na deidade e na fé…

Alma: incorruptível razão do vir a ser…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Desânimo

Algo me diz, internamente, que meu entendimento é vesgo, minhas palavras, confusas, meu pensamento, equivocado, meu universo, irreal e absurdo. Sim, é isso mesmo que acontece: sou uma aberração dessa natureza em que penso estar vivendo; ela, de fato, não existe, assim como eu. Não fosse isso, e tudo aconteceria normalmente, as pessoas a quem amo compreendendo minhas ansiedades e preocupações, sem que eu tivesse que manifestá-las a cada instante, os amigos me aconchegando com palavras doces e sinceras, de estímulo e consideração, a justiça se fazendo acontecer naturalmente, como simples consequência de nossas atitudes corretas e decentes…

Mas não é nada disso: a vida é tão-somente o que dela percebemos. Alguns se enganam, constantemente, com palavras e mensagens que se repetem indefinidamente neste mundo virtual, talvez até muito mais real do que a própria realidade que pensamos perceber e em que acreditamos viver. Outros se abalam, se desesperam, se debatem e lutam por tentar mudar a sua própria situação, ainda que em detrimento de quaisquer outros que estejam, de alguma forma, em busca dos mesmos espaços, dos mesmos anseios, de sonhos semelhantes. Outros, ainda, se conformam, se acomodam e aceitam, placidamente, seja pela fé ou pela descrença, que a vida é isso mesmo. Nada mais…

E é assim que passamos nossos dias, deixando que o tempo nos envelheça, que os amigos nos abandonem, que o mundo se torne, pouco a pouco, um lugar insuportável e triste, feio e desolado, nas planícies esculpidas por nossa solidão. É isso mesmo, apenas isso…

Nada mais…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Cidadania, Política e Ideologia


Chegam os dias de muito debate político e, infelizmente, de mentiras, agressões, ofensas, falsidades.
Pois é assim o "nosso" modo de convencer o eleitorado. Tudo é válido, tudo é permitido, pois o que interessa é que o "nosso" candidato chegue ao poder. Nem importa se somos seres do anonimato para aqueles que lá chegarem, e que irão nos "subtrair" dos ganhos conquistados com muito trabalho e esforço. Então, por que nos comprometemos e nos expomos tanto por aqueles que nos trairão?
 
O homem é um ser político, e a discussão das idéias nos empolga e absorve nossa razão e bom-senso.
 
Nós elegemos nossos políticos. Por isso, já se disse à exaustão que merecemos aqueles que nos governam. Mas não posso concordar com isso: seria muito confortável assumir a culpa coletiva e "deixar rolar" a corrupção descarada que nos destrói o sentido da Cidadania. Pois é, às escolas cabe essa culpa, e aos educadores, aos nossos pais, aos nossos líderes (aqueles bons), porque não nos ensinaram o que significa essa palavra tão expressiva de nossos direitos e deveres, mas já completamente desgastada e esvaziada em expressão pelo (ab)uso ou (des)uso.
 
Nas doutrinas socialistas, a Dialética assumia um papel determinante na formação política dos indivíduos. De modo simplista, diríamos que dialética é a "arte da discussão das idéias". É o que nos falta hoje, pois os meios de comunicação "digerem" as notícias para nós, "poupando-nos" o trabalho de análise e discussão de seus complexos significados.
 
É assim que vemos pessoas de todas as camadas sociais e culturais (o que é bom) "discutindo" temas como educação, saúde, política nacional e internacional, economia, … mas as suas opiniões se restringem a repassar as matérias veiculadas nas manchetes dos jornais das redes de televisão (o que é mau). Ou seja, é um SPAM coloquial de idéias anônimas!
 
No passado, alguns partidos políticos manifestavam Ideologias programáticas, o que assegurava àquele que se afiliasse a eles a certeza de que suas diretrizes seriam respeitadas nas ações, seja em campanha, seja nos cargos públicos a que fossem investidos. Isso, infelizmente, não acontece mais. Após a revisão da geopolítica dos anos 80 e 90, não há lugar para ideologias.
 
Como poderemos, então, cobrar coerência de nossos governantes, se eles nos mandam "esquecer tudo o que disseram" ou defenderam como acadêmicos e intelectuais, se alianças espúrias descaracterizam governos de esquerda ideológica, se os partidos oportunistas permanecem sempre como "reserva de voto" e de aprovação de leis em troca de cargos fisiológicos?
 
Seria muito importante que, mesmo em minoria, nossa consciência política e ideológica prevalecesse nas próximas eleições, e que os nosso candidatos tivessem, ao menos, a decência de se manter coerentes com tudo o que disserem diante das câmeras.
 
Esperar mais dessa classe política, com esses partidos e com essa realidade nacional, talvez seja apenas ilusão, quimera…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Analfabetismo Cultural

Somente a Cultura poderá nos redimir, um dia, do subdesenvolvimento, da ignorância e do obscurantismo intelectual. A mais grave situação do ser humano é sua incapacidade de compreender o mundo em sua diversidade e em seus inter-relacionamentos.Quando um fato ou situação se apresenta ao indivíduo, e seu limitado entendimento não reflete a sua verdadeira dimensão, distorcendo seu contexto, suas causas e conseqüências, isto é preocupante; estaremos diante do analfabetismo cultural.

É isso que se destaca às vésperas das eleições: pessoas despreparadas até mesmo para identificar a grande farsa dos candidatos, separando aqueles que poderiam, eventualmente, agregar algum valor às nossas vidas e à comunidade a que pertencemos.

Eles caminham entre nós com desenvoltura, destacando a miséria, como se dela não fizessem parte, ou como se nunca houvera a oportunidade de resolvê-la em suas atuações atuais ou passadas. Vestem a máscara da pureza e da idiotice (triste paradoxo!), fingindo não fazer parte desse mundo de tragédias, de fome, de miséria, de exploração humana, de corrupção que nos rodeia e oprime.

Olham-se uns aos outros como seres de outro mundo, segurando crianças, beijando mulheres, abraçando operários, comendo o prato feito da periferia, caminhando na lama que invade as casas, não hoje, mas todos os dias do resto das vidas desse povo enganado.

Fazem promessas absurdas e impossíveis, fazendo crer que depois do pleito tudo será diferente…

E mais uma vez entramos naquela sala de mentiras e colocamos nosso voto nessas pessoas, tornando-nos cúmplices da sua mentira e desfaçatez, fazendo-nos culpados de seus futuros atos imorais e impunes, tornando-os mais ricos pela fuzarca dos contratos e das propinas, das medições falsas das obras que nunca terminam, e que não refletem as verdadeiras necessidades desse nosso povo.

Desta vez não será diferente, pois são eles, os mesmos candidatos, com as mesmas posturas e a mesma hipocrisia.

Vamos, pois, votar na esfinge que nos devorará, pois nunca a decifraremos…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

O fim do mundo segundo JC

A cada ano, o mundo se acaba para 100 milhões de pessoas… e não nos perguntamos o porquê, não nos desesperamos, e nem sequer nos importamos com seus pobres destinos…

A cada dia, 300 mil seres deixam de existir… e o mundo nem mesmo sente sua discreta, humilde e definitiva ausência…

A cada minuto, 100 almas abandonam seu espaço terreno…
e apenas umas poucas pessoas se incomodam com esse corriqueiro e irrelevante acontecimento…

Um dia, no entanto, alguém desperta e se recorda que, há mais de cinco séculos, um louco desvairado disse, em seus herméticos pensamentos, que o mundo se acabaria no ano santo de nosso senhor jesus cristo, de hum mil novecentos e noventa e nove, ao décimo primeiro dia do seu oitavo mês, pela chegada não anunciada de um estranho astro vagueante, que ao nosso belo planeta iria se chocar, dizimando homens, animais, plantas e todo e qualquer ser vivente, de sua superfície repleta e desgastada…

Quando, afinal, se acabaria o mundo ? Quando dele perdêssemos nós a consciência, ou quando um Ser, cuja infinita existência nem sequer podemos assegurar, perde de nós a sua própria, ubíqua e onisciente consciência ????

Assim, por um medieval sofisma, em plena Era do Conhecimento, passa o mundo a viver sua neurose, a um só tempo ansiando e temendo seu final destino que, de princípio, a cada um de nós já fora, para um dia qualquer, assegurado !…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

…anos passados…

Os anos é que passam, ou passamos nós?Pelas contas dos astrônomos, somos a fração do milésimo de segundo no relógio do mundo, tão insignificantes como o nêutron do átomo da molécula de uma célula morta em nossa unha encravada!

E assim como a folha seca, arrastada pela enxurrada em uma tempestade, somos levados pelas sarjetas de nossas estradas, acreditando, alguns, que são melhores que outros, embora igualmente esquecidos pelo inexorável badalar do carrilhão, anunciando que se esvai a areia de nossa ampulheta.

Lá se vai nossa folhinha, balouçando ao deus-dará, talvez dando carona a um pequeno inseto, mas apenas seguindo a correnteza para a interminável viagem entre esgotos, canalizações, riachos, córregos, rios, vindo a desaguar, se algo ainda restar dessa coitada, em um oceano imenso e agitado.

Com muita sorte, ela irá flutuar por mais alguns segundos, até repousar, finalmente, no fundo do mar, decompondo-se pouco a pouco, e dando origem a novas vidas, tão inexpressivas como a nossa…

Então, para que a soberba? a arrogância? o atrevimento de nos crermos eternos e sábios?

Não há poder além da circunstância efêmera do momento. E este se acabará no próximo instante…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio

Ícones do passado

Vivemos de memórias…
… e de ícones, símbolos, imagens de nós mesmos refletidas em nosso inconsciente…

Sonhamos ser livres e, no entanto, somos apenas e tão somente prisioneiros de nossas próprias ilusões…

Olhamos ao espelho, e lá não estamos nós, pois o filtro da mente que engendramos, nos engana, nos trai, fazendo-nos crer melhores do que somos, em verdade. Ali está a nossa imagem refletida, fixamente nos constrangendo com suas memórias (que renegamos) e, no entanto, inexoravelmente impregnadas de atos e sentimentos, nem sempre suportáveis, de cada instante de nossa história.

Lá estamos nós, verdadeiramente despidos de nossas máscaras, nus perante nossa própria alma, aquela mesma alma que, um dia, evidenciaremos em nosso leito de morte, sem enfeites, sem maquiagens, nós, diante de nossos olhos interiores, implacáveis e cruéis, sem subterfúgios, como deveríamos ser em todos os instantes de nossos dias, sem complacência, sem justificativas…

O que nos restará, então, senão resquícios de um passado sem sentido, do qual nada levaremos a lugar nenhum? As vaidades, as riquezas armazenadas, essas ficarão para outros, e nada poderemos fazer para que nos dêem o desejado valor que, equivocadamente, mantivemos e preservamos em vida… Serão apenas dinheiros, propriedades, objetos sem sentido e sem lembranças… apenas isso…

E aquele filme rápido que passará diante de nós, nos derradeiros momentos de nossas vidas, trará algumas poucas cenas de nossas generosidades, de nosso amor, solidariedade e compreensão, de alguns poucos instantes verdadeiramente importantes, que deixamos passar sem nenhum, ou muito pouco interesse, como se pudéssemos repeti-los à exaustão em outras épocas, em outros lugares que nunca, jamais revisitamos, por absoluta ausência, desinteresse ou vontade, ou, simplesmente porque a vida não se repete…

E cá estão de volta os nossos ícones: papéis representados para uma sociedade que já nos esqueceu, mesmo antes que nossos corpos se esfriassem no estéril chão que nos servirá de leito, até que os vermes nos devorem as carnes putrefatas…

E as memórias? onde ficarão elas? aqueles verdadeiros momentos que, um dia, cremos ter valido a pena? Elas também se esvairão na eternidade, como pó, como areia numa praia imensa, como partículas de vento dispersas no firmamento…

Pois nada somos senão isso: um instante efêmero, um lapso de tempo do universo… nada mais…

por João Carlos Figueiredo Postado em Ensaio