Decisão do Olimpo!

Agora é decisão do Supremo: qualquer cidadão só poderá ser preso depois da sentença ter transitado em julgado, ou seja, quando não couber mais apelação! Do jeito que os processos (não) caminham neste país, ninguém mais será preso daqui para a frente… no entanto, a população ficará à mercê dos bandidos, engravatados ou não!

É fato que a Constituição Federal já determinava que fosse dessa maneira, e aos juízes Supremos só restava referendar essa decisão. Quando a Constituinte de 1988 decidiu pelos direitos humanos extremos, tínhamos sobre nossas cabeças o trauma da Ditadura Militar que, durante anos torturou e matou inocentes e presos políticos, que a própria Convenção de Genebra nunca conseguiu proteger!

Mas hoje, passados os anos de terror do Estado de Exceção, cabe ao Congresso e ao Supremo rever os entraves que paralisam os três poderes e, em especial, colocam em um mesmo plano os cidadãos honestos, os políticos corruptos, os empresários safados e os bandidos de toda espécie…

As decisões do Olimpo precisam considerar que nossa pátria não é apenas uma Nação de homens puros, dignos e bem-intencionados… infelizmente, uma parcela expressiva de nossa sociedade vive em função do crime, das trapaças, dos negócios escusos… e apenas uma pequena minoria é honesta o tempo todo!

Lamentável? Não, apenas a constatação da nossa triste realidade…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

A Solidão de cada um

“Oh! Bendito o que semeia
Livros … livros à mão cheia …
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar.” Castro Alves

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O Poeta não imaginava que o mundo seria inundado de livros, revistas, blogs, msn´s, orkut´s… e nessa imensidão de palavras continuaríamos ignorantes e vazios… sim, pois que a verborragia do mundo também é um mal incurável… não se pensa naquilo que se escreve! Just Copy & Paste!

E por detrás dessa convivência frenética dos chats, dos podcasts, dos universos virtuais, a solidão de cada um se exacerbou, “fechando-se em conchas” quem pensa ter amigos sinceros… tudo “ilusão passageira”, enorme engano que nos submete ao isolamento total, absoluto, em meio a tanta tecnologia digital, instantânea e sem conteúdo que valha alguma coisa…

As cidades, os grandes aglomerados urbanos são os nossos claustros, nossa prisão involuntária e inconsciente! E, na ânsia por fugir da solidão, o ser humano fala demais, escreve demais, pensa de menos… somos ilhas no infinito urbano de cada um… indivíduos, e não coletividade!

As pessoas “se amam” como nunca, em tempo algum, se amaram! Porém, é um sentimento efêmero, que dura o instante de “se conhecerem”, se beijarem, se entrelaçarem num abraço erótico… e pronto! aí terminou o relacionamento! Nada mais há a se conhecer…

Discutir o relacionamento? Para que? É mais fácil arranjar um novo companheiro a tentar compreender as razões “do outro”… não existe vida conjugal… só o EGO, imenso ego!

Na internet, o site “O Pensador” (que ironia!) exibe milhares de frases que podem ser usadas no seu dia-a-dia, para impressionar um amigo, para criar um PPT, para disseminar uma idéia de quem nunca as teve, por uma rede de pessoas que se deslumbrarão com a inteligência do brilhante colega!

Lá no site estão, em um mesmo patamar intelectual, Nietsche, Bob Marley, Fernando Pessoa e o Marquês de Maricá! A Logosofia é uma chamada para os incautos que buscam sentido em sua medíocre existência! Nas biografias, Adriana Falcão (quem será essa?), Arquimedes, Dalai Lama e Millôr!

Barbaridade! Frases de todo o tipo, que podem ser ilustradas com GIF´s animados, coloridos e… bregas! E nenhum pensamento novo! Nenhuma idéia própria!

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Pobres filósofos de nossos dias…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Mentiras da burguesia

A reação das elites aos movimentos raciais, às minorias sociais e às ações de preservacioistas evidencia o preconceito e a cólera pela perda de seus privilégios, quase sempre adquiridos pelos confiscos sociais havidos no decorrer  de nossa história burguesa.

Já na distribuição das terras do Novo Mundoprevaleceu a “generosidade” da coroa portuguesa à nobreza vadia, através da entrega de sesmarias e datas, doações para quem nunca trabalhou e nunca soube o valor do esforço humano. Depois, com a escravidão, a coisa se complicou de vez!

Vejam o que diz o jurista Ives Gandra da Silva Martins *:

Hoje, tenho eu a impressão de que o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que sejam índios, afrodescendentes, homossexuais ou se autodeclarem  pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.”

“Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior.”

”Os índios, que, pela Constituição (art. 231), só deveriam ter direito às terras que ocupassem em 5 de outubro de 1988, por lei  infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado. Menos de meio milhão de índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também – passaram a ser donos de 15% do território  nacional, enquanto os outros 185 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% dele.. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados.”

( * Ives Gandra da Silva Martins é renomado professor emérito das universidades  Mackenzie e UNIFMU e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército e presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo )

Esse argumento vem sendo usada como justificativa por todos os que defendem aqueles que desmatam a Amazônia e outros paraísos naturais, com apoio da bancada ruralista e do ex-governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, um dos maiores latifundiários e produtor de soja em territórios desmatados e incendiados pelo país!

É uma falácia! Um argumento que não se sustenta! Os índios, assim como os animais selvagens, fazem coleta e caça na floresta, sem danificar a Natureza, e eles precisam de muito mais espaço para sobreviver do que a dita “civilização branca”, que além de amontoar as pessoas nas cidades, faz um uso do solo de forma predatória e, na maioria das vezes, irreversível para a preservação ambiental. Os índios são os nossos defensores da Natureza!

Quanto às comunidades quilombolas, eu tenho certeza que o Ives Gandra nunca esteve numa delas! Eles vivem miseravelmente, na maioria das vezes, e como os índios, precisam de proteção. Muitas dessas comunidades estão inseridas em áreas de proteção ambiental, e trabalham com agricultura familiar, de sobrevivência, artesanato e outras atividades mal remuneradas.

Já as cotas das universidades, isso precisaria ser mais bem regulamentado, pois existem abusos… basta o sujeito ter a pele “lá pelas cinco da tarde” e já se acha um afrodescendente! Aliás, que palavrinha mais preconceituosa essa, “afrodescendente”! Por que não dizer simplesmente NEGRO? Sim, pois ser negro não é vergonha e dizer “Negro”, desde que com respeito, não é preconceito! É apenas uma questão da quantidade de melanina na pele…

Com relação aos países latino-americanos que fazem fronteira conosco, principalmente o Paraguai e a Bolívia, nós somos para eles o que os EUA são para nós: Imperialistas! Colonialistas! Basta lembrar o genocídio que praticamos durante a guerra do Paraguai, e que dizimou praticamente toda população masculina adulta e não descendente dos índios de lá. É por isso que eles são tão parecidos com os índios hoje em dia… desapareceram as características dos europeus…

Se nós pregamos a nossa independência e autonomia com relação ao primeiro mundo, particularmente EUA e Europa, precisamos ser, pelo menos, coerentes, e agir de forma diferente de nossos “colonizadores e exploadores”! Sermos mais solidários e menos mesquinhos!

Esses juízes que vivem no luxo e na riqueza, com salários milionários recebidos às custas dos trabalhadores comuns e da prática da extorsão do Imposto de Renda sobre os assalariados, deveriam se envergonhar de sua aristocracia e se calar, em vez de falar asneiras como essas!

E matar índio queimado, em Brasília? Isso pode para um filho de um juiz?

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Expedição pelo rio São Francisco

Quando terminamos a expedição FEAL na Chapada Diamantina, eu já sabia que algo tinha se transformado, definitivamente, em meu ser. Minhas convicções já não eram as mesmas, minhas expectativas se ampliaram, meu universo se tornou mais amplo. Isso não se deveu apenas aos desafios que enfrentamos, mas, principalmente, ao meu contágio com algo que pensei já se tivesse dissipado dentro de mim.

Foi então que decidi fazer uma experiência mais radical, definitiva, exploratória e comprometida com meu mundo exterior: e escolhi o rio São Francisco, o mais representativo de nosso país, pelas suas características de integração, por ter sido o primeiro grande rio nacional a ser descoberto e exlporado, pelas suas lendas e tradições…

Para divulgar, documentar e elaborar o planejamento da expedição, criei um blog, que agora compartilho com vocês: Meu Velho Chico. Não deixem de visitar e dar seus palpites! Preciso de sugestões, de novas idéias…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Expedição Chapada Diamantina – FEAL OBB 2008

Quando decidi fazer essa expedição não imaginava sua verdadeira dimensão e o esforço exigido: foram 4.000 km percorridos de carro em quatro dias, ida e volta, mais de 50 horas dirigindo até o nosso destino, cerca de 120 km de caminhadas, 40 km de canoagem, muito calor, incêndios por todo o Parque, muito cansaço, novas descobertas, amizades novas… um verdadeiro reencontro com meu ser primordial e mais um recomeço em minha vida de aventureiro.

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Saí de Ribeirão Preto no dia 3 de novembro e segui diretamente para São Paulo, onde se juntaria a mim o Paulo Eduardo, no dia 4, para seguirmos nossa viagem rumo à Bahia, Chapada Diamantina, nosso destino final. Chegamos a Mucugê no dia 5, já no início da noite, e lá pernoitamos, depois de visitar e fotografar o cemitério Bizantino (Santa Izabel), com suas pequenas edificações caiadas em branco, sob um grande bloco de rocha de uns 70 metros de altura.

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Passamos por Igatu no dia seguinte, onde encontramos uma área de garimpo de diamantes perfurada na rocha, quase um túnel, onde se formara um lago. Estava deserto e invadi o local com um certo receio de ser descoberto pelos seus “proprietários”, uma vez que havia uma placa nos informando que se tratava de uma propriedade privada (dentro da área do Parque Nacional!).

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Seguimos viagem até Andaraí, onde almoçamos, antes de nos instalar na Pousada Sincorá, de onde partiria a expedição na segunda-feira, dia 10 de novembro. Nosso propósito era escalar algumas rochas nos dois dias que precediam o início do treinamento. Porém, fazia um calor escaldante, havia muitos focos de incêndio por toda a Chapada, e precisávamos estar inteiros para as longas caminhadas que se seguiriam.

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Mudamos nossos planos e resolvemos descer a Ladeira do Império e caminhar em direção ao Vale do Pati no tempo que nos restava. Fizemos isso na sexta-feira, pela manhã. Já recuperados da longa viagem da véspera, saímos cedo em direção ao Pati. A descida foi cansativa, mas chegamos até a base da montanha, pela trilha, e acampamos à beira do rio, onde nos banhamos e comemos alguma coisa antes do anoitecer. Pela manhã continuamos nosso trajeto e ultrapassamos a ponte que, praticamente, delimita o Pati..

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Algumas horas depois constatamos que não teríamos tempo suficiente para chegar ao Pati e retornar a Andaraí antes do início da expedição. Retornamos daquele ponto. Subir a ladeira foi um esforço superior às nossas condições físicas. Chegamos no cume ao anoitecer, exaustos e sem água; bebíamos mais de 4 litros por dia e não havia fontes limpas para reabastecer nossos cantis a partir do início da subida. Resolvemos pernoitar por lá e finalizar a trilha no dia seguinte.

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Chegamos a Andaraí no dia 8, sedentos e estafados, e nos retiramos para nossos quartos. Precisávamos estar em perfeitas condições físicas até o final da semana. Dormi umas 12 horas seguidas; meus pés queimavam, minha cabeça doía, meu corpo todo sofria com aquela caminhada sem planejamento!

Dia 10 pela manhã já tinham chegado todos os participantes da expedição; os instrutores seriam a Mita (Mariana Candeias), uma jovem psicóloga e exímia escaladora da Paraíba, e o Tonhão (Antônio Calvo), um jovem canoísta, com treinamento no Canadá e muitas outras competências e habilidades que descobriríamos ao longo de nossa jornada.

DSCN0649 MITA

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De imediato, uma revisão de todas as coisas que havíamos colocado em nossas mochilas reduziu as vestimentas a pouquíssimas roupas, nenhum equipamento pessoal e nada supérfluo. Aprenderíamos a viver com simplicidade, como o exigiam os ambientes remotos, nosso destino. Deixei para trás várias camisetas, meias, bermudas, calças, um “talk about”, “baby wypes”, tudo o que antes me parecia completamente imprescindível para essa expedição.

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Os alimentos e equipamentos comunitários foram distribuídos por todo o grupo: fogareiros, panelas, benzina, temperos… a mochila ficou mais pesada, mas era tudo o que precisávamos para nossas necessidades nos próximos 15 dias longe da civilização. Partimos por volta do meio-dia em direção a Igatu. Os riachos estavam completamente secos e exibiam suas entranhas, cercados por uma vegetação ressecada e propícia para alimentar um incêndio.

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Estes se alastravam por todo o parque, destruindo as encostas das montanhas, lambendo as matas ciliares dos rios ressequidos, deixando atrás de si uma destruição sem precedentes… durante todo o dia ouvíamos as pás das hélices dos helicópteros sobre nossas cabeças, anunciando o drama vivido pela população local.

Acampamos em Igatu e saímos no dia seguinte após nosso primeiro café da manhã ao ar livre. A partir daí esta seria nossa rotina diária: tomar café, levantar acampamento, caminhar durante horas, parando somente para procurar e repor as águas dos cantis e “camelbacks”, procurar um bom local para acampamento, prepara o jantar, lavar as louças e dormir. Nas paradas tínhamos atividades de dinâmica de grupo, “feed-back” de nossa atuação e “debrieffing” das atividades. À noite, antes de nos recolhermos às barracas, uma pequena preleção sobre os objetivos individuais e coletivos da expedição, a missão, os valores e princípios da OBB (Outward Bound Brasil), e qualquer outro assunto que alguém do grupo quisesse trazer a todos para discussão.

Em pouco tempo os participantes se integraram e passaram a se comportar conforme as expectativas mais otimistas de nossos instrutores. Surpreendentemente, não havia conflitos a administrar, as lideranças se formavam e se desfaziam, dando oportunidade a todos de demonstrar suas habilidades na condução da trilha, sem vaidades pesoais, sem exibicionismos, sem intenção de fazer prevalecer suas opiniões sobre a dos demais.

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Seguimos em direção ao Pati e chegamos a um lugar bem degradado, conhecido como Cascalheira, onde alguns brigadistas se reuniam à noite para organizar os grupos de combate aos incêndios. Apesar das barracas que encontramos no acampamento, eles não estavam lá. Saímos pela manhã, orientados por bússolas e mapas da redondeza, conferindo com a localização dada pelo meu GPS. Passamos por terrenos repletos de arbustos com seus galhos secos e prontos para alimentar o fogo que se movia por todos os lados que nossa visão podia alcançar.

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Chegamos a um grande rio seco, desnudado pela falta de chuvas, formando canyons extensos e solitários, de uma beleza triste e devastada. Encontramos o que deveria ser uma cachoeira de uns 10 a 15 metros de altura, intransponível pela falta de equipamentos de segurança. Percorri o local em busca de uma alternativa, um outro caminho que nos levasse para baixo, sem riscos. Encontrei outro rio, afluente daquele, que precisávamos subir para contornar a queda d´água vazia.

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Seguimos até um ponto onde não havia trilhas nem picadas, e o mato se alastrava em todas as direções. Apesar do desconforto e do risco, entramos mato adentro até a beirada da montanha. O grupo ficou disperso e desfizeram-se as lideranças; devíamos tomar providências, mas os conflitos de opinião nos cegavam para o óbvio: alguém teria que assumir a liderança e levar a tropa montanha abaixo. Depois de muitas discussões, os líderes da expedição reassumiram suas posições, talvez frustrados por não ter surgido a liderança que esperavam de nós naquele momento.

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Chegamos ao sopé da montanha e retornamos por uma trilha à procura do rio que não conseguíramos transpor. Ao longe, no horizonte, as chamas destruíam os arbustos à nossa frente, evidenciando a catástrofe que se abatia sobre a Chapada Diamantina. Apesar de sua assustadora presença, aquele não era o maior foco de incêndio; soubéramos depois que as brigadas de incêndio sequer sabiam da existência desse foco, em uma área conhecida como Mar de Espanha.

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Na confluência do rio Paraguassu com aquele que margeávamos montamos nosso acampamento, com um sentimento de receio e dúvida quanto à nossa segurança naquele local. Levamos nossas preocupações ao chefe da expedição que decidiu, de imediato, levantar acampamento e buscar local mais protegido e seguro. Ficamos em uma clareira cujo incêndio nos dias que se antecederam já tinha acabado com todo o matagal ao redor. Já estava evidente a todos que não conseguiríamos transpor aquele obstáculo pelo trajeto original planejado.

No dia seguinte fomos para Mucugê, em busco de uma nova alternativa à progressão rumo ao Vale do Pati. Seguimos para Guiné, pequeno povoado aos pés da fortaleza de montanhas que se estendiam por quilômetros nos limites do parque e protegiam o Pati em seu interior. Acampamos ao lado de uma escola e as crianças se divertiram a tarde toda, assistindo as nossas atividades, às representações teatrais e às aulas preparadas pelos alunos, conforme orientação da OBB.

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Saímos no dia seguinte pela manhã, em direção às montanhas que tínhamos que transpor. Seguimos por uma trilha muito bonita, protegidos do sol e do calor pelas nuvens que se formavam no cume da montanha e prometiam uma melhora das condições climáticas, o que só se efetivaria muitos dias depois. Chegamos ao planalto algumas horas mais tarde, cansados mas reconfortados por termos tomado essa decisão: o trajeto era muito mais bonito, estava longe dos incêndios e podíamos, finalmente, ter certeza de que, naquele mesmo dia, avistaríamos o Pati.

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Chegamos a um mirante que dominava toda a paisagem ao redor: lá estava o Pati, majestoso e gigantesco, sob nossos pés, à nossa frente, cercado de montanhas, coberto de uma vegetação viva e perene, sobre a qual rasgavam-se as trilhas que percorreríamos a seguir. Depois de uma sessão de lanches e fotografias, começamos a descida por uma pirambeira perigosa e escorregadia e, depois de uma hora de desescalaminhada, atingimos o Vale do Pati!

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Seguimos pelas trilhas, passando por casas de moradores que viviam lá desde antes da criação do parque. Eram os guardiões das matas, protetores da fauna e da flora riquíssima dessa região fantástica e bela. Finalmente, encontramos o local onde pretendíamos acampar e onde ficamos por duas noites, à beira de um riacho de águas transparentes e geladas. Este seria nosso refúgio para desvendar alguns segredos da mata ao nosso redor.

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No dia seguinte, pela manhã, partimos com a carga mínima, para escalar o Castelo, uma montanha majestosa, da qual pretendíamos avistar todo o vale, antes do entardecer. Havia uma pequena caverna, pela qual passamos para atingir o outro lado da rocha. Aproveitei a oportunidade para dar algumas informações a respeito da gênese das cavernas, suas principais formações e ornamentos, tipos de rochas, animais que as habitam, sua importância científica, cultural e cênica.

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Do alto da montanha visualizamos uma pequena cachoeira, a do Funil, que iríamos visitar ao descer, depois do tradicional lanche e da sessão de fotos. À beira do abismo, balançando-se ao vento em um pequeno galho, um rato comia as folhas, agarrado apenas pela cauda, e indiferente ao perigo que corria.

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A cachoeira era pequena, tinha pouca água, mas foi o suficiente para nos refrescarmos e nadar no poço formado à sua frente. Finalmente, voltamos para o acampamento, executamos nossas rotinas habituais e nos retiramos para descansar. No dia seguinte deixaríamos aquele local, dando início ao nosso retorno.

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Saímos cedo e, em poucas horas, chegaríamos a uma ponte onde pretendíamos acampar ao fim daquele dia. No meio do trajeto paramos para um lanche e assistimos a uma apresentação de técnicas adaptadas de salvamento, utilizando recursos de nossa própria bagagem e de materiais encontrados no local de um suposto acidente. Juntamente com as lições de navegação, leitura do clima e técnicas de salvamento no mar, esses depoimentos acrescentaram o sabor e o tempero da expedição.

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Chegamos à ponte bem cedo, com bastante tempo para montar o acampamento, assistir a outras preleções de nossos instrutores e, ainda, tomar banho no rio Pati. No dia seguinte iniciaríamos o retorno a Andaraí. Ainda havia uma decisão a tomar: voltar pela Ladeira do Império, enfrentando o calor, a forte aclividade do terreno e a falta de fontes de água no caminho, ou procurar um novo trajeto, menos íngreme e com boas alternativas de acampamento e fontes de água.

Decidimos seguir pelo leito do rio Paraguassu e por trilhas às suas margens, que sabíamos existir pelos relatos de nativos. Logo encontramos uma trilha, bem fácil de seguir, que começou na margem esquerda do rio e logo o atravessou, seguindo pelo outro lado. Encontramos a casa de mais um morador local, que nos alertou para os riscos de ataques de abelhas e para a extensão da trilha. Seguimos adiante, mais cautelosos e atentos aos insetos. Felizmente, nada aconteceu.

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Andamos durante todo o dia; procurávamos um acampamento de garimpeiros, onde sabíamos existir uma boa área para o pernoite. Já escurecia quando, finalmente, aqueles que seguiam adiante encontraram a casa de garimpeiros, protegida por rochas altas e farta vegetação. Era um excelente local, e acampamos. À noite, um banho coletivo de rio, com direito a observação do céu, brincadeiras descontraídas, e um jantar agradável sob a luz da lua cheia.

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No dia seguinte, nossos líderes nos abandonaram: deveríamos conduzir o grupo sem a presença deles, tomando decisões sozinhos e seguindo até a ponte sobre a rodovia que liga Andaraí a Mucugê. Eles se atrasariam e seguiriam depois. Deveríamos nos reencontrar na cachoeira da Donana. Depois de uma longa caminhada, chegamos à Donana e qual não foi nossa surpresa ao encontrá-los lá, à nossa frente, inteiros, como se não tivéssemos percorrido o mesmo terreno!

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Refeitos da surpresa, tomamos um lanche e retornamos a Andaraí. Fizemos compras de frutas e legumes e seguimos para o Marimbus, um pantanal com muitas semelhanças ao mato-grossense. Lá ficaríamos acampados em uma fazenda, aprendendo a manobrar um barco canadense que deveria ser utilizado nos dias restantes da expedição, rumo ao Poço Azul, onde seríamos resgatados, ao final de 14 dias de caminhada e remo, levados de volta à fazenda e, depois, à pousada, onde terminaria o nosso treinamento. Mas não chovera um só dia durante mais de uma semana que caminháramos… como encontrar água para remar?

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Surpreendentemente, ao chegarmos ao Marimbus, a chuva despencou sobre nós. Fizemos um treinamento de técnicas básicas de canoagem no primeiro dia, e retornamos ao acampamento. Porém, aquela noite ainda nos reservava uma surpresa: durante todos aqueles dias que se antecederam carregamos uma lona, que era utilizada para cobrir o solo nos serviços do café da manhã, almoço e jantar. Também servira para nos sentarmos durante as preleções e aulas de yoga e, ainda, para dormirmos ao relento, quando as condições do local assim o permitiam. Havia, no entanto, outra função para as lonas…

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Naquela noite fomos informados que dormiríamos ao relento, sem barraca, apenas com a lona para nos servir de abrigo. Isso não teria sido problema se o tempo não tivesse decidido complicar as nossas vidas: logo antes de sermos “expulsos do paraíso”, uma forte tempestade caiu sobre nós! Tivemos que seguir sob a chuva e fomos deixados, um após o outro, em pequenas clareiras no matagal, apenas com a lona, um lanche que fizéramos às pressas, isolantes térmicos e sacos de dormir, lanterna, apito e uma folha de papel sulfite, onde deveríamos registrar nossos pensamentos sobre a experiência do FEAL em nossas vidas.

Essa carta seria endereçada a nós mesmos, seis meses depois de encerrada a expedição.

A chuva, os mosquitos, as formigas, o frio e o isolamento foram nossos companheiros da noite insone. A carta foi escrita e eu nem me lembro o que registrei na folha de papel. Voltamos ao acampamento na manhã do dia seguinte, sob a chuva que teimava em cair, e demos início à segunda parte de nosso treinamento: descer o rio Santo Antônio, passar para o Paraguassu e seguir até o Poço Azul, cerca de 40 km abaixo da Fazenda Marimbus. Remar, agora, parecia-nos a mais leve das atividades, não fora um imprevisto: as lagoas do Marimbus não se conectavam devido aos baixos volumes de águas nos seus rios formadores.

Após pouco tempo de navegação nos encontramos diante de um obstáculo bizarro: um trecho de mais de cem metros de terreno coberto pela vegetação aquática que nascia sobre uma profunda camada de lama, repleta de caramujos. Achei, de imediato, que voltaríamos, pois me parecia irracional nos arriscarmos a um contágio com o principal vetor de esquistossomose: o caramujo dos pântanos.

Mas não paramos por aí. Amarrando as cordas de todos os barcos umas às outras, foi improvisado um processo de arrasto para puxar os barcos sobre aquela vegetação que agora me parecia nojenta, enquanto os outros rastejavam na lama, empurrando os barcos. Não sei quanto tempo durou aquela atividade insana, mas os barcos transpuseram, finalmente, o obstáculo e, agora, estavam livres para navegar rio abaixo.

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Essa atividade de canoísmo foi uma das mais agradáveis da expedição, exigindo pequeno esforço e possibilitando um forte entrosamento dos participantes. Fizemos dois acampamentos ao longo do rio, acompanhando de perto o crescimento de suas águas, o que nos garantiu chegar ao destino, Poço Azul, final de nossa inesquecível expedição. Provavelmente, essa terá sido uma de minhas melhores experiências em ambiente natural. Das lições que me ficaram, um conceito se esclareceu, definitivamente em meu pensamento: “leave no trace”! Deixamos a Natureza como a encontramos… nossos filhos agradecerão!

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Lembrei-me de um pensamento, cujo autor desconheço: “La Tierra no es una herencia de nuestros padres, sino un prestimo de nuestros hijos!”

Descansei feliz e realizado…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Feliz dia de Hoje!

Dizem os discípulos de Budha: o que importa é “o aqui e o agora”. Muito se tem repetido esse aforismo, embora pouco se tenha meditado a respeito de seu pleno significado.

Não vou cansá-los tentando explicar o que me parece óbvio! Mas sei que o passado já foi escrito e o futuro ainda está por se registrar nas páginas das nossas vidas… só o presente está “aqui e agora”, pronto para ser degustado, experenciado, vivido em toda a sua plenitude! Ou então, deixado à sua própria sorte, passando ao largo de nossos olhos, de nossos pensamentos, de nossos sentimentos e ações possíveis!

[Aparados] Canyon Fortaleza - comemorando com lote 43 0036

Brindemos, pois, ao presente, que só ele nos pertence!

E à Natureza, que preserva nossa pureza, ingenuidade, simplicidade e beleza, únicas e incomparáveis! Saudemos esse Universo que nos envolve, com suas miríades de estrelas que cintilam em nossos olhos, turvos de civilização e de conflitos, obscurecidos pela brutalidade trazida pelos próprios homens à sua cotidiana vida… não é a violência das selvas que nos assusta, e sim a escuridão da alma humana, embaciada pelos vícios e ambições terrenas…

Sempre que mais um ano se completa em nossas vidas, percebemos a grandeza do Cosmo diante de nós, mas, ainda assim, continuamos apegados demais às fraquezas, que seduzem mais do que o entardecer… Não quero antever os dias que virão, com promessas que não sei se cabem em minhas possibilidades futuras… quero, apenas, viver o que o tempo me oferece a cada dia…isso me bastará sempre!

Desejo, portanto, àqueles que se importam comigo, e àqueles a quem entrego meus pensamentos, um feliz dia de hoje, a cada novo amanhecer…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Olimpíadas e Eleições

Não sei se o que mais me incomoda nesses dias é o desequilíbrio emocional de nossos atletas, que resultou em tantas frustrações e decepções que não deveriam ter acontecido, ou se é o horário eleitoral brasileiro, que nos obriga a ver a "cara de pau" desses políticos, que insistem em continuar mentindo descaradamente ao povo brasileiro, como se fôssemos idiotas desmemoriados!

No caso de Pequim (Beijing?), a pergunta que não se cala é como pode uma delegação tão grande trazer resultados tão medíocres? Sempre fomos muito condescendentes com nossos atletas, compadecendo-nos de suas derrotas e recebendo como heróis os poucos vitoriosos que conseguiram agregar ouro em suas bagagens… mas seria esta uma postura adequada e produtiva, ou deveríamos encarar de frente nossos fracassos e tentar extrair desses resultados uma lição positiva?

Onde estamos falhando? Nas finalizações, nos jogos decisivos, depois de uma campanha geralmente brilhante! Sim, nós perdemos pelo desequilíbrio emocional e pela incapacidade de resistir às pressões das expectativas deixadas no Brasil. Chorar não adianta, nem culpar as regras das partidas, nem a perda da vara no momento de saltar!

Não sou um atleta olímpico, mas todos somos brasileiros fanáticos, torcedores ansiosos pelo ouro olímpico e pelos recordes mundiais. Somos um povo pacífico, e talvez isso faça a diferença, pois não sabemos lutar até o fim, até a "morte", até o último suspiro de nossos pulmões exaustos! Mas esse é o espírito olímpico, a superação extrema, radical, que leva às vitórias e à conquista de medalhas!

Sabemos que o treinamento de um atleta não deve se restringir ao seu condicionamento físico, pois é preciso um preparo mental, uma transcendência espiritual que nos afaste do objetivo imediato do louro da glória e do metal das medalhas. É preciso lutar por cada ponto como se fosse o único, sem olhar para o placar final ou para as possibilidades estatísticas e enganosas das tabelas, que nos levam a supor a vitória antecipada e a perder o espírito guerreiro do vencedor das batalhas!

Creio que o verdadeiro treinamento seja aquele que nos leva aos limites de nossos temores mais profundos, dasafiando o pânico e o desespero de não perceber possibilidade alguma de vitória e, no entanto, continuar lutando até o fim! Talvez um treinamento de sobrevivência nas selvas amazônicas pudesse surtir esse efeito… talvez escolher aqueles atletas que, diante do adversário mais difícil, se agigantem e, tal qual Davi, enfrentem seu Golias com determinação e raça, e, mesmo perdendo, se conservem altiivos e vitoriosos aos olhos do público!

Há que se imaginar o gladiador, que sabe que será devorado pelos leões, mas não desiste da luta, e valoriza seu desfecho fatal ao mostrar à fera que não é um ratinho medroso, mas um valoroso guerreiro que cai, mas não se entrega ao desespero e à vergonha de perder encolhido e choroso, humilhado e ridicularizado pela horda de fanáticos que urram nas platéias ao verem seus corpos serem despedaçados!

E as eleições? Sim, os políticos estão novamente por aí, mostrando-se conhecedores das mazelas do povo oprimido, cada um prometendo o que não pode e não pretende entregar, sem nenhuma vergonha estampada em sua "cara de pau" costumeira… então, por que votamos? para que continuar elegendo aqueles que irão nos roubar, nos enganar e rir de nossa ingenuidade infantil?

Está na hora de reagir, de enfrentar o fracasso desse modelo político ancião e moribundo!

O mundo se tornou Capitalista e optou pelo enriquecimento a qualquer preço, desde que os detentores do poder permaneçam os mesmos, aquela mesma casta burguesa nascida da decadência da realeza da corte da França de Antonieta! Sim, pois o poder está com os milionários, novos ou quatrocentões, aboletados em suas fortunas indecentes, sugando o sangue dos trabalhadores sem esperança, que ainda acreditam na permeabilidade social desse imenso canavial, que também é o das plantações de soja e das fazendas de criação de gado.

Enquanto isso, magnatas do campo, do alumínio e da celulose das matas de pinus e eucalipto devassam nossas florestas verdadeiras, transformando-as em pastagens imprestáveis, extraindo nossas riquezas para seu deleite e prazer. Seria essa nossa vocação política?

Eu não voto mais nesse país de arrogantes! Como deixar que minha opinião política seja utilizada para conservar no poder essa minoria privilegiada? Deixei de votar em 2003, com as indecências do PT e do PSDB, os dois partidos que ainda se julgavam sérios e honestos…

Pensem nisso! Lembrem-se de 1974, quando o voto de protesto contra a ditadura militar assumiu proporções alarmantes para a classe política, levando-os a reavaliar suas posturas e reconsiderar a certeza de que o povo seria uma massa disforme e manipulável pelos interesses das classes dominantes. Está chegando a hora de uma nova reação pública de repúdio à imoralidade administrativa! Eu voto nulo!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Síndrome da “Terezinha”

Quem, como eu, teve o privilégio de viver os anos 70, não pode se conformar com a degradação moral e intelectual de nossos dias. Digo isso com pesar e constrangimento, pois essa é a nossa herança para a geração de nossos descendentes, nossos filhos, nossos netos…

Quando a televisão brasileira se estruturou, no Brasil, nos anos 50 e 60, foram criados programas importantes como a "TV de Vanguarda" e a "TV de Comédia", da TV Tupi, verdadeiros palcos teatrais pelos quais passaram dramaturgos e atores da mais elevada expressão artística nacional, proporcionando Cultura ao nosso povo e estabelecendo padrões de qualidade que, infelizmente, não prosperaram.

Sim, pois aquele que hoje é tido como o maior fenômeno de comunicação da mídia televisiva brasileira, o Chacrinha, foi quem estabeleceu, também, suas regras de marketing, adaptadas da máxima falaciosa de "dar ao público o que ele quer", ou seja, "vocês querem bacalhau?"…

Talvez a expressão "merda", manifestada aos artistas antes do início do seu primeiro espetáculo, seja decorrência desse desejo ancestral de superar a fase anal da criança que permanece em todo o ser humano, a despeito de sua cultura, inteligência e originalidade.

Quem assistiu aos "Concertos para a Juventude" ou até mesmo às primeiras exibições que fizeram a fama do mais antigo programa da televisão brasileira, o "Fantástico", nunca imaginaria que se chegasse tão fundo na oferta "cultural" de nosso meio de comunicação mais abrangente! O que sobrou hoje? Talvez apenas uns poucos documentários reprisados à exaustão pelas emissoras de TV a cabo…

Duas gerações se passaram desde então, e nossos valores éticos e morais se esvaneceram, definharam, sucumbiram pela ação nociva e persistente das novelas globais, desagregando a família e corroborando uma crise intelectual sem precedentes na história da humanidade.

Hoje, paradoxalmente, todo mundo "sabe" de tudo o que se passa ao seu redor, consegue "dar palpites" sobre qualquer assunto, sem, contudo, demonstrar a originalidade e a reflexão características de uma inteligência perspicaz, evidenciando a homogeneidade e a ingenuidade simplória do pensamento que caracteriza o universo contemporâneo…

A maior crítica que se fez sempre aos regimes socialistas foi a falta de liberdade de expressão, imposta ao povo pelos governos totalitários, para os quais o interesse coletivo se sobrepunha aos interesses individuais e a ideologia do partido se impunha às ideologias dos pensadores. Críticas verdadeiras. Paradoxalmente, porém, a existência dessa dualidade de pensamentos, essa dicotomia profunda entre as liberdades individuais e os interesses coletivos, alimentava o pensamento intelectual e enriquecia o conhecimento filosófico, a despeito das suas graves conseqüências.

Se o mundo viveu anos de terror causados pela guerra fria e pela intolerância dos regimes políticos, a humanidade ganhou em sabedoria e em obras de inestimável valor cultural. Reflexo disso é o "Cinema de Arte" que prevaleceu durante mais de uma década, produzindo as mais belas expressões culturais do século XX. O mesmo se deu com a música, a literatura e o teatro hispano-americanos nesse mesmo período.

Hoje, no entanto, a música, a literatura, o teatro, as artes plásticas, o jornalismo e, principalmente, a televisão, vivem o mais tenebroso obscurantismo intelectual de nossa história, alimentado pelo imediatismo da notícia "em primeira mão", pela ansiedade do mundo eletrônico "sem fronteiras" e sem privacidade, pela ganância insaciável de uma civilização que não tem limites para o ganho desmesurado, para o consumo supérfluo e para a projeção social, a ambição e a vaidade de cada indivíduo, em detrimento dos valores coletivos e do sentimento humano.

Daí, a Síndrome da "Terezinha", uma compulsão irrefreada por entregar ao público aquilo que choca mas não enriquece, excita mas não enobrece, dá ibope mas não tem valor. Por isso, as empresas investem cada vez mais na propaganda barata, vagabunda e estúpida da guerra de preços e de ofertas fantasiosas e mentirosas, da venda de qualquer coisa, a qualquer custo, para qualquer um.

É deplorável que assim seja, mas a cada dia existem menos seres pensantes na face da terra, menos pessoas capazes de conduzir seu próprio raciocínio e chegar a uma conclusão coerente, a ter suas próprias idéias, a ser original, a ter domínio sobre seu próprio destino, enfim… por isso, é difícil continuar seguindo a jornada, pois isso também acaba por se revelar, apenas, mais um desprezível slogan:

"Keep walking, Johhny Walker"!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Ser mãe…

Hoje o mundo amanheceu mais bonito… minha filha vai ser mamãe! E despertou meus sentimentos mais puros e minha generosidade perante o gênero humano! Afinal, existe uma esperança, e esta terá nome e será benvinda na terra dos homens, pois terá o nosso carinho e afeição incondicionais!

Minha netinha… ou meu netinho! Que alegria! Minha filhinha barrigudinha, acolhendo essa criatura que crescerá e se desenvolverá para perpetuar nossas verdades, nossos sentimentos mais nobres, trazendo novas possibilidades àqueles que querem acreditar que, enfim, a vida prosseguirá…

Existem momentos que nos transformam completamente. Eu não sabia qual seria meu sentimento quando chegasse esse momento… mas tinha certeza de que algo dentro de mim se modificaria para sempre! Sim, pois nunca desistimos de acreditar que o bem e a justiça se farão presentes!

Eu nunca saberei o que é ser mãe… este é o destino dos homens! Mas sinto que posso ser o melhor avô deste mundo, cuidando para que nada falte a essa criança bem-aventurada: amor, carinho, proteção… pois o resto será dado pela própria vida, que cuidará de reservar a ela só o bem…

Benvinda, minha criança querida! Seja mais um Ser a colaborar para que o mundo seja melhor e que a justiça, a generosidade, a honestidade, a dignidade sejam os traços de sua personalidade! Não importa o que sejas neste mundo, desde que venhas para trazer alegria e amor!

Um beijo de seu avô que contará cada minuto do tempo que levará para você chegar até nós! Estaremos preparando seu caminho, como quem cultiva uma árvore, que se tornará frondosa e bela. Quando nasceres, teremos para ti todo o amor, afeição e carinho para te oferecer…

Seja benvinda, nossa criança querida!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Diário de um louco


Hoje eu inicio um relato que pretendo manter até o final de meus dias: o "diário de um louco" é o meu libelo contra a decadência de nossa civilização! Sim, pois já não mais existem parâmetros para a normalidade em nosso mundo contemporâneo. A cada dia novas barreiras da razão e do bom-senso são derrubadas em defesa de uma liberdade que não conhece limites…

Sou um ser anacrônico, pois ainda acredito em valores éticos e morais (enquanto não dogmáticos e transformadores), acredito na família como unidade essencial de agregação dos homens e de preservação da espécie, enquanto seres inteligentes e evolutivos. Acredito que precisa haver um limite, contrariando nossos instintos degenerativos. Sem ele, nenhuma ação humana seria passível de críticas e tudo seria permitido!

No entanto, as novelas globais, a política menor e a justiça "tucana" e tosca da impunidade, a complacência dos educadores e a multiplicação das seitas farisaicas e sem conteúdo solapam os alicerces de nossa sociedade desnudando nossos desejos mais secretos e inconfessáveis e tornando-os possíveis e aceitáveis perante o mundo em que vivemos, em que nos consumimos…

Pois esse devassado mundo já não comporta segredos, nem ideologias, nem convicções carismáticas, nem mistérios espirituais… somente clichês são permitidos e compartilhados à exaustão nos escaninhos dos sítios de relacionamentos, onde a vulgaridade é a senha de acesso e o mote das discussões monossilábicas, devaneios sem sentido e sem propósito, senão o de nos manter "online", atados aos artefatos tecnológicos da alienação e das conversas vazias e improdutivas.

Se os crimes, as contravenções, as fofocas, as mentiras e desdizeres populam as páginas de informação inútil de nosso cotidiano, ninguém haverá de lamentar… afinal, essa foi a escolha quase unânime desse século que, conforme Nostradamus, nem deveria ter começado! Já não temos mais ídolos ou heróis (que "morreram de overdose", segundo Cazuza)… já não temos mais credos ou ideário… somos apenas estações repetidoras de idéias alheias, cujos autores desconhecemos.

Se a Humanidade evoluiu em todas as áreas do conhecimento, não conseguiu, no entanto, tornar esse saber necessário e valioso o suficiente para nos manter despertos e preservar nossa individualidade. Quais são, afinal, os valores de nossa sociedade?

Na essência, todos os meus escritos passados caberiam neste diário inacabado…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

As Cavernas dos Espeleólogos


Recentemente participei de um encontro de espeleólogos na pequena cidade de Cordisburgo/MG, berço de nosso romancista maior, João Guimarães Rosa ("Grande Sertão: Veredas"), que neste ano completaria 100 anos de existência. Estipulou-se, por conveniência, que a famosa Gruta de Maquiné, também localizada em Cordisburgo, completaria seus 100 anos de exploração turística nesta mesma data. Isso porque foi o grande escritor quem a tornou célebre entre os eruditos, dedicando vários de seus textos a relatar estórias havidas naquela região. Hoje, esta caverna se encontra completamente descaracterizada devido à iluminação instalada em seu interior, os pisos de concreto, as escavações feitas no século XIX para extração de salitre e os danos causados pela intensa visitação.

Foi um encontro muito bem planejado, mesclando poesia e prosa literária com caminhadas e investigações científicas… e teria sido bem realizado, não fossem a vaidade e soberba de alguns de seus participantes mais ilustres, justamente aqueles que dedicam suas vidas a pesquisar o carste, sua formação, sua estrutura geológica, suas descobertas paleontológicas, a biologia que se manifesta em seu interior e em seu entorno, os ornamentos que enriquecem suas paredes e seu teto, o seu processo evolutivo, enfim…

Coube à população local o ponto alto desse evento, com a interpretação temática do conto "Recados da Montanha" (acho que este é o nome), um grupo de "Miguelins", artistas, cantadores e contadores de histórias que representaram, ao longo de uma trilha, a trágica estória de Guimarães Rosa baseada em fatos reais da época. Magnífica apresentação que valeu o encontro!

Coube, porém, aos pesquisadores, biólogos, geólogos, paleontólogos ou simplesmente espeleólogos, a nota mais triste do evento. Eu me pergunto se esses mesmos seres, vaidosos de si mesmos, têm consciência de suas ações, do impacto causado pelas suas incursões por esses lugares tão frágeis, pelo impacto das suas coletas de escassas vidas que persistem em seu interior…

Seria o andar em desabalada carreira sobre pedras desmoronadas no interior de uma caverna, demonstração de competência ou superioridade? Sair correndo do seu interior, deixando os menos preparados para trás seria atitude apropriada a um pesquisador "PhD"? Tentar ridicularizar um companheiro que eles sequer conhecem, apenas por não fazer parte de seu meio, seria demonstração de que, afinal? Pois a sabedoria não se confunde com a ciência, nem mesmo com a cultura… aqueles pequenos intérpretes locais demonstraram muito mais saber e respeito à Natureza que esses doutos senhores desprovidos de sensibilidade…

E coletar espécimens em meio a essa balbúrdia, com mais de 40 pessoas no interior da caverna, como interpretar a propriedade desse ato "científico"? E essas 40 pessoas, caminhando desordenadamente por toda a caverna, compactando seu frágil solo, turvando suas águas, esmagando pequenos organismos… isso seria atitude de cientistas? Qual o impacto causado por esses atos insanos?

Provavelmente, um grupo de turistas desavisados e pouco conscientes não teria ocasionado maiores danos à bela Gruta Morena…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

O Montanhista


Eu nunca me dediquei completamente a uma só atividade… a vida sempre me pareceu curta demais para tal exclusividade e extravagância! Quis experimentar muitas possibilidades; além disso, só
comecei a mergulhar aos 50 anos, entrei em uma caverna pela primeira vez aos 53 anos, e tive minhas primeiras lições de montanhismo aos 55 anos. Agora, aos 58 anos, resolvi praticar escalada em rocha com mais competência! Para isso, fui a São Bento do Sapucaí, aprender com um grande especialista: Eliseu Frechou!

Eu o conhecia apenas de nome… um dos mais renomados escaladores do Brasil!

Durante uma semana tive o privilégio de conviver com este verdadeiro Montanhista, que dedica sua vida às Montanhas, mora ao lado de monumentos naturais como a Pedra do Baú, a Ana Chata, a Pedra da Divisa… e todo o seu tempo está focado nas rochas!

Eliseu é uma daquelas figuras que imaginamos existir apenas nos livros de aventuras: um homem íntegro, coerente, impecável em seus movimentos de escalada, ético e compenetrado em produzir o melhor de si, não importa a dimensão dos atos que pratica.

Eu sou apenas um aprendiz, mas Eliseu se esforçou por me tornar não apenas um montanhista melhor, mas um ser humano mais consciente do papel reservado para mim nesta vida! E é assim que me senti ao me despedir dele ao fim dos meus treinamentos!

Eliseu não fala, como muitos, um discurso politicamente correto; ele o pratica de fato, em cada um de seus atos, em cada atividade que exerce em sua vida plena de aventuras e realizações! Ele é um dos poucos escaladores de Big Wall do Brasil, já fez muitas escaladas solo e em solitário, e atingiu o apogeu de sua forma nas diferentes modalidades que a escalada em rocha nos permite.

Quando cheguei à sua casa, minhas epectativas eram elevadas: queria desenvolver em poucos dias uma competência que não tinha. Apesar das limitações de minha idade e de minha forma física, ao terminar o treinamento constatei que havia superado em muito o que havia idealizado: os resultados, para mim, não poderiam ter sido melhores! Já posso prosseguir sozinho!

Além disso, e muito mais do que simplesmente ter melhorado meu desempenho, eu encontrei um grande amigo!
por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

O Show de (“Isabella”) Truman


Cena 1

 Um homem atira uma criança do sexto andar de um edifício depois de estrangulá-la. A polícia é chamada e a imprensa se movimenta para informar a população a respeito do crime bárbaro. Repórteres buscam a melhor cena e o melhor ângulo para aumentar suas possibilidades de IBOPE… quem sabe até um prêmio "Pulitzer"!?

Cena 2

Durante mais de 30 dias a imprensa persegue os possíveis culpados, pai e madrasta da menina, tentando mobilizar a população para um linchamento virtual. A polícia e o promotor entram em cena e alimentam a imprensa com informações de indícios e evidências do crime, quase todos verdadeiros, e análises periciais baseadas em vestígios encontrados na cena do crime. Os pais são presos sob os gritos histéricos da população, já convencida da autoria do crime, embora o indiciamento ainda nem tenha sido concluído.

Cena 3

O casal, pai e madrasta, são soltos por um habeas corpus impetrado pela defesa, perplexa diante das repercussões nacionais do caso. Todos os noticiários, dia e noite, de hora em hora, repetem à exaustão a história de Isabella, estampam em primeira "página" todos os detalhes do crime e invadem a privacidade de quem quer que esteja, direta ou indiretamente, relacionado ao assassinato do Edifício London. Em nossas mentes permanece a imagem do pai, conversando tranqüilamente com um policial no jardim, explicando sua versão do fato, a poucos passos do corpo inerte de sua pequena filha morta…

Cena 4

É feita a "reprodução simulada" do crime, assistida sob os mais diversos ângulos pela maior platéia do país. Praticamente todos os lares acompanham a atrocidade, observando em detalhes o estrangulamento, a cena da menina atirada da janela, representada por uma boneca em tamanho natural, o corpo que jaz sobre o gramado do jardim do edifício, tudo acompanhado de análises de repórteres e interpretações de especialistas,  advogados e juristas.

Cena 5

A "reprodução simulada" do crime é criticada, assim como os pronunciamentos feitos pelas "autoridades competentes" nos últimos 30 dias, evidenciando a fragilidade das "provas" e alimentando a defesa com a munição dos muitos equívocos praticados pelos delegados. Os procedimentos são didáticos, e cada cena é repetida à exaustão, apesar dos erros evidentes até para um público leigo…

Cena "n + 1" e subseqüentes

O casal foi indiciado por homicídio doloso triplamente qualificado. Trata-se de um crime hediondo, para o qual nosso código penal não tem uma punição adequada! No máximo, eles ficarão "hospedados" na cadeia por 10 anos; depois haverá a progressão da pena para regime semi-aberto e, finalmente, para liberdade condicional. Depois, a pobre Isabella terá sido esquecida, não somente por nós, mas também por seus algozes, e entrará para a história apenas como mais um número nas estatísticas policiais…

A imprensa ainda alimentará os noticiários com a morbidez desse crime enquanto os índices de audiência justificarem os "investimentos" na manutenção de uma enorme equipe de repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, entrevistadores e entrevistados.

Enquanto isso, ninguém mais se lembrará da pequena menina, cuja vida foi interrompida pelo brutal assassinato… o que importa o destino dessa criança, se as emissoras de televisão, as rádios, os jornais, as conversas de botequim, as reuniões sociais já se alimentaram das horas, dos dias, das semanas de discussões sobre quem vencerá a demanda judicial? Promotoria, delegados, investigadores, analistas criminais de um lado, advogados de defesa, acusados e seus familiares de outro, disputando um jogo cujo objetivo maior é o entretenimento da população, a despeito do próprio crime em si mesmo, ou de sua vítima, a criança morta!

Pois é assim o nosso Big Brother, Brasil!

E para euforia dos fanáticos contendores desse "jogo da verdade", na Áustria, um homem de 73 anos é descoberto depois de manter sua própria filha refém e escrava sexual por mais de 24 anos, dela gerando 7 filhos! É "muita sorte" da imprensa! Quanto mais maldade, quanto mais crueldade, melhor!

E uma criança se transforma no ícone social da crueldade humana, desprovida de qualquer sentimento de compaixão e solidariedade! A ela já não importa mais o tempo, pois sua vida foi ceifada na mais bela fase de sua curta existência… E, como mártir, será "vingada", ainda que para isso se punam inocentes… não mais importa se pai e madrasta são, de fato, os culpados: eles ""precisam" ser culpados para que todo esse aparato de tecnologia da comunicação se justifique, para que todo esse ódio canalizado se justifique, para que todo investimento da imprensa para a cobertura de cada pequeno detalhe de cada cena se justifique, para que nossas consciências não se sintam envergonhadas de tamanha insensibilidade e violência, maior ainda que o próprio crime, que já se foi na memória coletiva de nossa sociedade… porém, sendo culpados, pai e madrasta já terão sido julgados e condenados pela opinião pública manipulada pela imprensa!

Viva a imprensa livre, democrática e independente!

Viva a nossa magnífica sociedade de consumo, ainda que esse consumo seja apenas da dor de uma família cujo ser mais inocente foi vítima da barbaridade, da crueldade que existe em cada um de nós!

Junho de 2008: a novela sórdida continua…

Para deleite da imprensa e de todos os que se comprazem com as mazelas humanas, mais um lamentável episódio incendeia novamente esse crime mal resolvido: agora, o policial que conversava com o pai da menina na cena do crime se matou em decorrência de denúncia de pedofilia. Novas suspeitas de outras possibilidades de desfecho desse drama fazem o assassinato voltar às páginas da imprensa… até quando??? Até que todos se saciem na fonte da maldade e da maledicência… até o momento em que um tribunal decida, sem provas cabais, se o casal matou ou não a sua filha de forma cruel e sem justificativas… até que uma novela virtual conquiste o interesse do público e traga novas revelações sobre a sordidez humana em todas as suas variações e matizes…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Gerenciar Pessoas: o grande desafio do administrador

Quando Shackleton se viu diante de uma situação insustentável, ele não se desesperou; confiou em seus homens e expôs cada nova dificuldade sem ocultar nenhum detalhe. Eles estavam sob gravíssimo risco de vida: seu navio encalhou no gelo e, gradualmente, se despedaçava sob seus pés!

Quando teve que abandonar seus homens para buscar ajuda, novamente, não titubeou: selecionou um pequeno grupo para acompanhá-lo e prometeu aos demais que voltaria para resgatá-los; e eles acreditaram e confiaram em seu líder! Shackleton cumpriu sua promessa, e nenhum de seus homens perdeu a vida nesse épico feito!

Um exemplo que não foi seguido pelos líderes e empresários que o sucederam, apesar da enorme repercussão que teve seu feito até os dias de hoje. As práticas tradicionais e ineficientes continuam a prevalecer na maioria das empresas, onde a figura do chefe se impõe à do líder.

E por que as empresas ainda insistem em administrar seus recursos como se fossem maquinários, peças de um equipamento, objetos sobre os quais acreditam ter a posse e o poder de mandar e o direito de exigir?

Não é fácil montar uma equipe, e muito mais difícil é confiar nela… para o líder, chefe, gerente ou superior hierárquico (seja qual for o entendimento que cada um tem da função de administrar pessoas), é mais fácil delegar funções, cobrar resultados, exigir obediência e acreditar que cada indivíduo preza mais seu salário do que a satisfação e o orgulho de ter o seu trabalho realizado.

Peter Drucker era um otimista! E acreditava que as organizações estavam mudando – para melhor! Talvez seja verdade; porém, a velocidade com que as organizações se transformam e se adaptam às novas práticas não nos permite antever uma revolução na arte de administrar pessoas. Muito pelo contrário!

Sim, pois ao menor sinal de tormentas, aquele líder carismático se converte em “feitor” e a democracia dá lugar ao autoritarismo mais radical! Esse comportamento está relacionado com a natureza humana em seu atual estágio evolutivo e a maneira com que a sociedade forma seus filhos.

Porém, o mundo se transforma sob o impacto avassalador das novas tecnologias, a China se destaca como o mais novo ‘player’ das grandes nações capitalistas, e os negócios eletrônicos exigem novas posturas, agilidade de decisões, controle sobre resultados, personalização (tailor-made) e qualidade nos produtos e serviços.

Como sobreviver a essa realidade sem mudar as práticas administrativas?

Pois será justamente essa pressão das demandas do nosso Admirável Mundo Novo que determinará a adoção de práticas mais flexíveis de gerenciamento de pessoas.

Peter Drucker afirmava, com propriedade, que estamos diante de novos “trabalhadores do conhecimento”, já antes batizados de “colaboradores”, eufemismo para a antiga e mais verdadeira denominação de “empregado”.

Um novo conceito de valores nasce da constatação de que o grande patrimônio de uma organização consiste de seu acervo cultural, ou seja, do conhecimento intelectual de seus empregados, que fazem a real diferença competitiva diante do mercado e da concorrência! Porém, são escassas as experiências que perduram desse respeito aos profissionais.

No Brasil, devido à forte carga tributária que incide na contratação, manutenção e demissão de funcionários, existe um grande número de trabalhadores “informais”, ou seja, sem vínculo empregatício ou carteira assinada.

Existe, também, um número expressivo de trabalhadores “terceirizados”, que prestam serviço através de cooperativas, empresas fantasma ou de empresas individuais. Essa realidade distorce os processos gerenciais e dificulta a migração dos métodos de gestão para o modelo preconizado por Drucker, uma vez que cria “trabalhadores de segunda classe”, sem direitos, benefícios formais ou garantias de emprego.

Para que as propostas de Drucker se tornem reais no Brasil é necessário que os empreendedores percebam que existem perdas camufladas nessas práticas oportunistas, principalmente a falta de comprometimento desses profissionais, que se sentem aviltados em seus direitos trabalhistas, e não são reconhecidos em seus esforços por realizar atividades de valor para a empresa.

A comparação, feita por Drucker, do trabalho de um gestor de recursos humanos em uma organização com o de um maestro é digna de destaque: nenhum outro trabalho pode se comparar, em comprometimento e em resultados, com o dos músicos de uma grande orquestra, na qual um pequeno desafino ou uma nota errada de qualquer dos instrumentos compromete definitivamente o resultado de toda a equipe.

Vale a pena assistir ao magnífico filme de Federico Fellini, “Ensaio de Orquestra”, uma paródia do totalitarismo hitleriano representada por um maestro autoritário e por músicos arrogantes… o oposto às figuras admiráveis que temos em nossas mentes quando idealizamos uma orquestra.

Finalizando, a questão da motivação, que nos causa tantas polêmicas: todos conhecem, ou já ouviram falar da Pirâmide de Maslow, que estabelece uma hierarquia de valores, ou necessidades, que determinam o grau de satisfação do ser humano em sua trajetória na vida.

Nessa conceituação, para que o Homem se satisfaça, terá que galgar cada uma dessas necessidades: fisiológicas, de segurança, de relacionamento e de estima, até que conquiste sua realização pessoal. Embora superados, esses conceitos ilustram com propriedade a necessidade que temos de conquistar o respeito e a admiração da sociedade pelo nosso trabalho, para sermos felizes.

Voltando a Peter Drucker, a emergência desses novos trabalhadores do conhecimento seria o caminho adequado para o engrandecimento do indivíduo e para o desenvolvimento das organizações, seja em suas funções sociais, como empregadora de pessoas, seja em suas necessidades de crescimento e de geração de lucro e riqueza para seus acionistas e para o País.

Comparando-se esses conceitos com a figura de Alexandre da Macedônia, poderíamos afirmar que, nas batalhas contemporâneas, o “general” já não comanda seus exércitos de forma autoritária, e precisa da adesão voluntária e comprometida de seus liderados para conduzir suas tropas à vitória e sua empreitada ao êxito. Não há como se tomar decisões isoladamente em um mundo complexo e dinâmico como o nosso. Ninguém teria sequer conhecimento suficiente para isso!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Em Bonito nasceu minha inspiração


Já se passaram quase 10 anos desde que estivemos lá, eu e minha filha Luciana. Não sei se parece uma eternidade, ou se foi ontem… a relatividade do tempo, ou de minha consciência, inibe o meu entendimento. Ainda sinto as emoções e perplexidades diante de tanta beleza! Jamais havia sequer imaginado a possibilidade de existirem águas tão cristalinas e plenas de vida!

Saímos de São Paulo à noitinha, acompanhando Vera, a dona da pousada, e seu motorista (já esqueci seu nome…). Mal entramos na estrada e um pneu furou… não havia estepe! Mal sabíamos que este evento se repetiria durante as 36 horas seguintes que durou a viagem de 1.200 km! O veículo era uma Van Hyundai, em estado de decrepitude avançada…

Quanto mais nos afastávamos de São Paulo, mais difícil se tornava encontrar pneus que servissem nas rodas daquele carro, fora de padrão! Sim, pois os pneus do carro estavam todos "carecas" e remendados, o quanto fora possível fazê-lo no passado! Aos poucos, nosso entusiasmo pela viagem foi se extinguindo, sumindo no cansaço da viagem, sem fim previsível!

Chegamos às margens do rio Paraná na manhã do segundo dia, e ainda faltavam muitos quilômetros de estrada "asfaltada" a serem percorridos! Dois sulcos marcavam os trilhos em que os veículos deviam se acomodar na estrada, criados pelos caminhões lotados de gado e gravados no asfalto derretido pelo calor escaldante daquelas plagas distantes da "civilização".

Impressionante a largura do rio Paraná! Quilômetros de distância de uma margem à outra! Minha memória se esforçava por trazer de volta minha infância, passada nas proximidades desse rio. Morei em Dracena por sete anos, mas já não me recordo de muita coisa… mesmo a travessia de balsa pelo rio, a hospedagem em um hotel de madeira sobre palafitas, a tribo indígena do outro lado do rio, em Mato Grosso (que ainda não era do Sul), mesmo essas lembranças eram tênues e esmaecidas pelo tempo…

Do outro lado do rio almoçamos peixe em um restaurante à sua beira… passou-se parte do cansaço, embora ainda tivéssemos muito chão a percorrer naquele veículo desmazelado. As fazendas à beira da estrada mostravam estranhos montículos, centenas deles, de cupinzeiros, alguns de quase dois metros de altura! Mais parecia uma paisagem do deserto, abandonada por seus donos desleixados.

Muito gado Nelore, acinzentado e pachorrento, ruminando seu capim, sem se preocupar com o tempo que tanto nos incomodava… nossa ampulheta já fora virada várias vezes, ficáramos a olhar para aquela areia a se esvair pelo pequeno orifício em nossas mentes…

Depois de outras tantas paradas, chegamos, por fim, a Aquidauana… já era tarde… Fomos à casa da irmã de Vera, ambas com aparência indígena, simples e gentis conosco, fato que nos cativou e mitigou o cansaço e o desânimo da viagem interminável!

Comemos um biscoito enorme, meio duro, meio adocicado, com um nome esquisito que eu não guardei, e que, apesar da aparência e do gosto estranho, apascentou a fome de nossos estômagos vazios… engolimos alguns com um suco ralo e sem gosto… o que mais queríamos é partir depressa daquela cidade feia e sem graça, rumo ao nosso destino: Bonito!

Chegamos a Bonito já noite feita e adiantada, cansados, sem saber ainda como era aquele lugar, pois só víamos vultos de árvores, e uma seriema, pousada sobre o pilar de uma cerca, à beira do que parecia ser a ponta do Pantanal… e era mesmo, nos disseram!

A pousada simplesmente não existia! Apenas dois chalés semi-acabados e geminados, em uma fazenda cujo tamanho não sabíamos ainda, e uma tapera que pretendia ser uma cozinha improvisada. Mas isso não nos incomodou, de fato. Nossa expectativa renascera, sem uma causa aparente, movida pela imagem mental que fizéramos daquele lugar encantador! Adormecemos…

No dia seguinte fomos à cidade de Bonito, constituída de uma rua principal, asfaltada, e umas poucas travessas de terra batida, assim como eram todos os caminhos da região. Algumas lojinhas, umas poucas agências de turismo, dois ou três restaurantes, a prefeitura, a igrejinha, a pracinha, um monte de orelhões com formato de tucanos, araras e outros bichos locais… e só!

Durante nove dias fizemos passeios que ficaram para sempre em nossa memória!

Entrei pela primeira vez em uma caverna; na verdade, uma gruta, do Lago Azul. Eram cerca de trezentos degraus de terra amarelada, escorregadios e lamacentos, que davam na beira do lago… que azul absurdo! Parei estarrecido diante daquela beleza indescritível, boquiaberto e apalarmado diante de um espetáculo que iria determinar a minha vida futura: já não era mais o mesmo depois daquele milagre da Natureza! Não sei por quanto tempo fiquei a admirar aquelas águas, as formações calcáreas, que depois viria a conhecer como estalactites e estalagmites, apontando-se umas às outras, como se buscassem se tocar no tempo infinito…

O guia pediu que nos deixássemos levar por aquelas sensações que não cabiam dentro de nós… sentamo-nos à beira do lago e, lentamente, movemos nossos olhos para cima, para a abóbada pontilhada de calcáreo petrificado… a sensação era de uma imensidão ainda maior… uma comunhão com o Universo, uma Iluminação, Satori, Nirvana, sei-lá-o-que… puro êxtase e encantamento!

À tarde fomos para o rio Formoso… passeio de barco inflável, uma espécie de rafting light… percorremos um trecho do rio deslizando por suas águas tranqüilas e serenas até à beira de uma queda d’água, onde despencamos! Uma corredeira, outra e mais outra, e a pequena aventura se tornou emocionante! Caímos, finalmente, em um lago enorme, cercados pela mata virgem onde tucanos e araras azuis passavam em casais por sobre as nossas cabeças… estávamos dentro de uma história, de um filme, de um cenário!

Saltamos nas águas cristalinas e deliciosamente geladas! Nadei por alguns minutos, olhando extasiado aquela paisagem…

No dia seguinte fomos ao rio do Peixe. Chegamos à fazenda muito bem cuidada que, no passado já fora produtora de gado Nelore. Agora, o dono só tinha umas poucas cabeças de gado e vivia da exploração do ecoturismo! Fizemos a trilha às margens do lago,  caminhando sobre um tablado de madeira, construído para proteger a mata ciliar das pegadas dos turistas. A cada trecho percorrido havia entradas que davam na beira do rio, onde se podia nadar, entrar debaixo de uma cachoeira, atravessar de tiroleza…

Mais um dia, outro passeio fantástico! Estavamos no Aquário Natural. Um trecho de rio onde se podia flutuar com roupas de neoprene, e que iniciavam em um pequeno lago repleto de tanta vida submersa que nem dava para descrever ou identificar! Depois saimos a flutuar, olhando com máscara e snorkel a paisagem tranqüila sob a superfície… algas se balançavam com o nosso movimento e o mover das águas do rio… éramos acompanhados de um cardume de piraputangas e dourados, enquanto surubins repousavam sossegados no leito do rio. Vimos uma sucuri atravessar por baixo de nós, de uma margem a outra…

O último passeio foi nossa despedida: rio da Prata! Uma fazenda lindíssima, a trilha sob as árvores, a flutuação no rio gelado e maravilhoso, com diversas espécies de peixes, prevalecendo as piraputangas, os dourados e os pacus, peixes abundantes em Bonito. Almoçamos na fazenda, acompanhados de bichos de toda espécie, e um bando de papagaios espertos que, em vôos rasantes, roubavam nossa comida, como parte do divertimento natural propiciado por aquele paraíso das Bodoquenas!

Ainda hoje eu me lembro dos detalhes daquela viagem, das sensações, das pessoas boas e simples do interior do Brasil!

Fotos do Portal Bonito
Não deixem de visitá-lo!
Não deixem de ir a Bonito, em Mato Grosso do Sul!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Saudades de meu Samurai…


Nunca pensei que ele me faria tanta falta assim… mas, ao ver outros espécimens da mesma família, um sentimento de tristeza tomou conta de meus pensamentos… lembrei-me das longas horas que passamos juntos, monologando sem censuras sobre o universo, a vida e tantos outros assuntos que não me arriscaria a compartilhar com mais ninguém… ele, o meu Samurai, conservaria os meus segredos!

Quantas viagens fizemos pelas estradas desse país! quantas paisagens inesquecíveis! quantos momentos dexados em minhas lembranças ao lado de meu Samurai! Itatiaia, Petar, Aparados da Serra, Florianópolis, Ubatuba… tantos outros…

Como poderia esquecê-lo? Como, enfim, abandoná-lo à própria sorte depois de tantas vivências?

Mas ele está lá, um monte de ferragens inertes, ao relento, submetido ao seu perverso destino de carcaça imprestável, sem ninguém que se disponha a trazê-lo de volta à vida e às infinitas possibilidades de minhas reminicências futuras… pobre Samurai!

Despido de sua força e intrepidez, incapaz sequer de se locomover como antes, desbravando estradas intransitáveis, conquistando montanhas inacessíveis, rompendo a inércia dos desvalidos caídos pelos caminhos como tantas vezes fizera, agora é apenas um amontoado de ferros imprestáveis… meu pobre Samurai…

Com ele andei mais de 40 mil quilômetros! uma volta completa em nosso planeta!

Dele eu cuidei com o carinho de quem cuida de um ser vivo, recuperando cada peça de sua mecânica incomparável, até trocar sua alma: o motor e o câmbio! Não medi esforços nem recursos, mesmo contra a recomendação de meus outros amigos…

Meu Samurai inesquecível… nunca o abandonei… nunca mais terei um… exceto na lembrança!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Wasuregusa

Já não me lembro mais da lenda… acho que também bebi da “erva do esquecimento”… “wasuregusa”! Eram dois jovens… mas não sei bem o que eles faziam nessa história… e havia também uma outra erva, a das recordações: “omowaregusa”… sei que a erva do esquecimento servia para apagar as lembranças… de mais, eu não me recordo. Afinal, tantos anos já se passaram!

Ontem passei o dia esperando… um telefonema, um torpedinho, um email, até mesmo uma visita dos meus amigos! Mas o dia se passou, e eles não estavam comigo… devem ter tomado, também, a erva do esquecimento… esqueceram-se do meu aniversário!

Justo eu, que nunca me importei com datas, agora me tornei sentimental, vejam só! Queria mesmo não ser esquecido…

Lembrei-me desses 58 anos passados, minhas viagens, minhas aventuras, os lugares que visitei, as pessoas que conheci, os livros que devorei na solidão das madrugadas insones, a companhia inesquecível de minhas filhas, compartilhando tantos momentos só nossos!

Lembrei-me, contudo, e principalmente, dos meus amigos, aqueles de quem nunca nos esquecemos, e que estiveram presentes em muitas dessas passagens de minha vida, amigos com quem compartilhei alegrias e sofrimentos, segredos e sentimentos, vontades e pensamentos…

Onde estarão meus amigos?

O dia se passou, e eu decidi também tomar a minha pequena dose de “wasuregusa”… deitei-me, cansado da espera e do silêncio, e lamentei perder as esperanças… em meu recolhimento, saboreei a erva amarga do esquecimento e, finalmente, adormeci…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Despedida

Querida minha, paixão e razão de meus momentos, musa e mãe de minha inspiração, mote contínuo de toda uma existência: estas serão as palavras que nunca ousei ter dito, por temê-las, por sabê-las, por nelas selar o fim de uma conjunção que dores teve – e muitas – porém muitas mais, infinitas seduções.

Neste meu exílio nem tanto voluntário, incontáveis vezes revisitei a nossa longa intimidade, procurando não-sei-o-quê que explicasse em que instante cruel se rompera o tênue laço do entendimento, aquele descuido do destino que nos colocou em rotas paralelas, um ao outro vendo, sentindo-nos as angústias, tão próximos e, no entanto, sem poder tocar-nos a alma, o sentimento, estranhamente atados em uma caminhada em que a ironia das vaidades, a volúpia das ambições nos arrastava sem piedade.

Pouco importa, ou nada que eu compreenda, se a mão da vida e do acaso conjurou para, em silêncio, e sem que percebêssemos, furtar-nos o sonho e suas possibilidades. Pouco há, ou nada, a se fazer, se inquietas forças seduziram nossas mentes em estradas enganosas, se querendo ser deuses de nós mesmos, logramos pretender fugir da roda do destino que, inexoravelmente, nos arrasta à trilha original de nossas vidas.

Hoje, contudo, essas paralelas se afastam. Não fui talhado para as amarras do cais, ou para a segurança das enseadas. Tenho, e isto me compunge e impele, o destino dos náufragos, arrastado pelas correntes, jogado em desertas praias do desconhecido, novamente sugado pelas marés e retornado continuamente aos infinitos mares da insatisfação e do desejo.

Não me julgue, porém, tão apressada: não sou eu quem decide – são as ondas, imensas ondas que emergem das entranhas de meu incompreendido ser, incontroláveis movimentos que, ao me afastar de praias tão amadas, lançam-me ao largo das efêmeras paixões, roto, descuidado, insano.

Sua luz, seu ser iluminado, qual um farol a me alentar das tormentas que me esperam, não bastam para conduzir minha nau sem rumo. Não me pertence a vida, nem a quero, não sou eterno nem em pensamentos; sou fruto do acaso, do irracional desprendimento, joguete da sorte, fragmentos imemoriados do ser ancestral que vive em cada um de nós. Tenho a alma e a inquietação de todo artista, sem contudo contar com seu talento – triste ironia!

Quem me leva, quem conduz essa carcaça inerme? Talvez o traço dessas descuidadas linhas, talvez o azul que no horizonte me confunde, quem sabe a imagem da mulher amada que, um dia, deixei nas enseadas do passado, não sei…

Querida, amada minha, não me segure, que a dor da ruptura já é imensa demais para suportá-la. Deixe que eu flutue solto, sem destino; só assim, talvez, não me arrebente nas pedras do cais de amarração. Seja feliz, que em todo o firmamento, não há estrela mais bela e luzidia, a um só tempo delicada e forte, em um só momento frágil e infinita!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Transição

Adormeceu, por fim…Seu Espírito já não habita esse corpo cansado, incapaz de conter um coração tão generoso e belo.

Sua alma, agora, ascende a outras mansões, onde os Avatares, Seres de Luz, compartilham sua Sabedoria com aqueles que buscam o Caminho. E aqui ficamos nós, com nossa dor dessa separação não desejada, com a alegria de ter compartilhado a Vida de um ser tão nobre e gentil, ambigüidade que nos prende à vida em suas terrenas contradições.

E sua Luz, que era de poucos, agora se reúne à Fonte da Sabedoria Universal. Que sua Paz seja Profunda, meu pai querido, e nos ajude a suportar sua irreparável ausência.

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Desencanto

Há tempos eu não escrevia uma crônica, talvez por desencanto, ou então por acreditar que minhas palavras não são aquelas que as pessoas gostam de ouvir, por serem amargas (realistas?) e exporem os fatos em sua crueldade natural.

Mas não resisto, e acabo por devassar minha mente aos olhos de vocês, meus amigos, que certamente me perdoarão pela minha aridez e sinceridade. Não mando textos complacentes, mensagens de alívio e de amor. Mando crueza e dor.

Pois o que é esse mundo senão crueldade e ardil, onde transformamos nossas presenças em algo mais do que instintos primitivos, semelhantes em tudo aos animais? Parecemos mais refinados, sutis, talvez até suaves e delicados em nossos gestos, sofisticados em nossas ações, mas na essência somos brutos e rivais. Principalmente rivais.

Pois não há quem não se esqueça imediatamente de seus vínculos de amizade e apunhale, na primeira oportunidade, aquele a quem declarou lealdade e devoção até a morte, no primeiro instante de dúvida e suspeita, de medo e insegurança…

São frágeis as nossas crenças…

Somos assim, meio humanos, meio bichos, buscando sobreviver em um mundo que, pela competição, nos confronta uns aos outros, medindo nossas forças, buscando sobrevivência, lutando, simplesmente, por existir.

E assim nos dedicamos a passar nosso tempo sem reconhecer os verdadeiros valores de nossas vidas, apegando-nos à materialidade crescente do ser, restringindo nossa presença à visão estreita e limitada de nossos pequeninos olhos.

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica