Memórias de meu Mestre

Meu MESTRE

Hoje ele teria quase 94 anos, porém, há dez anos nos deixou para sempre. Meu pai se foi antes do tempo, assim como se vão aqueles a quem amamos e respeitamos pela sua coerência, sabedoria, humildade e LUZ! Sim, ele foi o farol de meu caminhar, e continuará sendo. Sempre que me encontro em uma encruzilhada, inseguro, incerto, pergunto a meu pai qual a direção a seguir. Por algum mecanismo que desconheço, a resposta vem durante meus sonhos, como um sussurro, uma imagem desfocada, um sopro suave de ideias que me restituem a confiança e a certeza de ter encontrado o rumo. E sigo em frente, confiante de  que o meu Mestre continuará me orientando e me ajudando a tomar as decisões corretas para o resto de meus dias.

Lembro-me da paciência com que ele nos preparou para a vida, deixando seu exemplo de uma conduta impecável, de Ética e de Honestidade acima de qualquer outra possibilidade. Assim como eu sigo seus passos, espero que, quando eu me for, as minhas filhas e meus netos tenham em mim um bom exemplo para clarear os seus caminhos. Que os exemplos de nossa sociedade não influenciem meus descendentes, pois a cada dia se torna mais difícil encontrar pessoas dignas e honestas. Assim como meu pai, eu não tenho apego a lugares ou a valores materiais. Para muitos, seria uma irresponsabilidade e uma temeridade, pois acreditam que acumular dinheiro e propriedades é a essência de sua ideologia consumista. Para mim, o caminhar tornou-se leve, pois nada carrego além de meus valores e de minhas convicções. E isso eu devo ao meu Mestre, Ulysses.

Minhas referências são as pessoas que amo, e meu pai terá sempre seu lugar de destaque em minha vida. Dele herdei o amor à Natureza, aos seres vivos, ao rio onde costumávamos remar e apreciar o por do sol, às caminhadas sem destino, que eram a fonte de novas descobertas e de novas reflexões. Seu carinho e compreensão fizeram de mim um ser mais tolerante, embora mais inflexível quando estou diante de injustiças ou situações inaceitáveis para minha consciência.

Meu pai querido, por mais que tenhamos sido grandes amigos e companheiros, é muito difícil não ter mais sua companhia para me confortar… sempre que faço algo de que me orgulho, penso em você e agradeço seus ensinamentos. Afinal, quem teve o privilégio de ser filho de um ser espiritual, cuja sabedoria está além dos livros sagrados, cujos exemplos são tantos e tão expressivos que não precisaria recorrer a nenhuma doutrina ou religião? Um Homem que nos encantou a todos pela sua simplicidade e bondade?

Pai querido, quisera acreditar que a vida não se encerra com a morte, que eu ainda terei o privilégio de te reencontrar, mas isso também seria trair os seus ensinamentos. O aqui e o agora são os únicos momentos conscientes e reais de nossa existência. E não precisei de um Mestre Zen para compreender essa verdade. Por mais que seja difícil saber, não tornaremos a nos encontrar, mas ainda guardo em mim a felicidade de tê-lo conhecido, de ter bebido na fonte de seus ensinamentos, de preservar em minha memória, enquanto eu existir, sua imagem, suas lembranças, suas palavras e seus ensinamentos. Não preciso de mais nada…

O Passar dos Anos

Aparados da Serra

O tempo é uma dimensão estranha para o ser humano… nos primórdios das eras, quando surgiram os Neandertais, e, depois, o Homo Sapiens, a percepção do dia e da noite foi a primeira constatação dos ciclos da vida. Sua alternância combinava as atividades do dia com os temores da escuridão e a necessidade do sono e repouso. Depois veio a percepção da Lua, aquele estranho halo que aparecia, alternadamente, como uma semi-esfera ou como um círculo perfeito de luz branca, suave, iluminando os caminhos e reduzindo a escuridão… perceberam, nossos ancestrais, que sua duração também era cíclica, como o dia e a noite, só que com maior duração: a cada sete dias, uma nova forma da Lua aparecia. Mais além, na formação do seu conhecimento, também notaram que o calor e o frio, a estiagem e as chuvas, se repetiam em outro ciclo mais amplo ainda… além disso, a própria vida humana tinha seus ciclos, desde sua formação no interior do corpo da mãe até o nascimento, o crescimento, a plena capacidade de sua força, o envelhecimento e a morte, enfim…

Essas noções primitivas foram as sementes do entendimento do significado do tempo para os seres humanos. Parece óbvio, mas cada sociedade construiu sua compreensão da vida em função do tempo: o período da caça, a maturação das lavouras, o culto às tradições e folclores, as oferendas às divindades, a formação e preparação do indivíduo para exercer seu papel na sociedade… tudo, enfim, passou a girar em função do tempo! A espontaneidade das atitudes se submeteram a normas construídas pelo papel do tempo na vida de cada ser humano. Porém, esses ciclos se sobrepunham, às vezes como visões complementares, outras como concorrentes e inadequadas para o entendimento. O ano de nosso calendário, por exemplo, foi construído sobre uma estrutura desconexa da duração dos meses com os ciclos da Lua, apenas porque o Sol ignora que a Lua demore 28 dias para girar em torno da Terra, e esta, mais preguiçosa, leva 365 dias para circundar o Sol…

Parece um jogo de palavras, mas muitas teorias sobre os ciclos da Vida foram construídas com base na lógica e alternância desses ciclos: 24 horas do dia, 7 dias da semana, 28 dias da Lua, 365 dias do ano solar…

Esse preâmbulo foi escrito apenas para tentar entender por que nosso aniversário é comemorado… nosso Ano Novo começa, de fato, no dia em que comemoramos nosso nascimento! O dia 1º de Janeiro é mera convenção, sem nenhum significado relevante. Na verdade, ele nem marca o início de uma das estações do ano, pois, em cada quadraante da Terra, as estações são diferentes. Também não pode ser a marca do início de um ciclo de giro da Terra em torno do Sol, pois esse início poderia ser estabelecido em qualquer ponto da órbita do planeta.

Porém, o dia de nosso nascimento marca, definitivamente, o início da vida de cada ser humano, diferentemente! Somos, na verdade, 365 grupos de pessoas com a mesma data de nascimento no mundo inteiro! Mera curiosidade? Nem tanto… a astrologia construiu sua cosmogonia a partir desse entendimento, mas criou 12 subdivisões arbitrárias para os signos do Zodíaco, igualmente arbitrárias como os meses do ano de nosso calendário juliano, buscando reagrupar as pessoas e suas diferenças e semelhanças conforme as “casas” ocupadas por esses signos no espaço sideral, embora não apenas isso.

Para mim, basta saber que hoje um novo ciclo se inicia em minha vida. Os ponteiros do relógio de minha vida deram mais uma volta e recomeçam a marcar o que ainda me falta para percorrer nessa longa caminhada. “Longa”? Nem tanto… somos frações do tempo geológico, tão insignificantes quanto os grãos de areia do deserto do Sahara… mas, para nossa precária compreensão, a vida é longa e o caminhar nem sempre é suave…

De certa forma, é um momento de reflexão em que podemos avaliar o trajeto já percorrido e redirecionar o caminhar para que nossas expectativas dêem sentido ao Existir. Olhamos para trás e vemos erros e acertos, sonhos mal construídos e não realizados, e árduas conquistas que nos alegram e nos motivam para  novas experiências. Percebemos o quanto a vida é efêmera, mas também nos alegramos de estar vivos e poder continuar a caminhada, de poder mudar o curso de nossa pequena história e mirar um novo ponto, ainda distante, em nosso horizonte. Isso dá sentido à vida e motivação para acordar a cada novo dia.

Hoje faço 64 anos. Não sou daqueles que se julgam importantes; sei de minhas limitações. Mas também não penso que minha vida transcorreu sem batalhas, sem conflitos, sem confrontos. Não. Lutei o quanto pude, dentro dessas limitações que apenas eu estabeleci para mim mesmo, venci algumas guerras, e perdi outras tantas. Enfrentei preconceitos e construí minhas convicções, minha ideologia, meus valores… Assumi posturas nem sempre confortáveis, mas desenvolvi a coerência de meu comportamento com base nesse arcabouço de conhecimentos seletivos que garimpei durante esses anos de caminhada. Sou o fruto dessas escolhas.

Por isso, olho para meu futuro e compreendo que já percorri bem mais da metade do caminho. Hoje tenho muito menos capacidade de lutar, fisicamente, para superar meus limites. Porém, estou bem mais preparado, intelectualmente, para defender meus pontos de vista e para comunicar, a quem se interesse, minha experiência de vida. Percebo o tempo como meu aliado, na medida em que já não me preocupo com o seu avanço constante, incontrolável, célere e inexorável. Nada posso fazer nesse sentido, e só me resta perseverar.

Portanto, meus amigos, sou fruto de meu passado, de minhas escolhas, das decisões tomadas e da percepção, correta ou equivocada, que me trouxeram até aqui. Não posso mudar o passado e não quero disfarçar meus equívocos, pois eles fazem parte de minha formação. Tenho grandes razões para ser feliz, mas não sei se a felicidade é um estado de espírito ou uma ilusão temporária. Não somos felizes, embora possamos estar, por breves momentos, naquele estado de prazer ao qual denominamos “felicidade”. Busco a paz interior, esse estado do espírito que não se importa com o que ocorre ao redor, pois apenas “somos” enquanto temos percepção do próprio “Ser”. E isso nada tem a ver com o Universo, com as pessoas, com as coisas materiais…

Agradeço àqueles que enriqueceram minha vida com suas presenças, com seu carinho, com suas próprias ideologias e contradições, com tudo aquilo que compartilharam comigo e que os tornaram parte de minha própria existência. E nesse mosaico incompreensível, que é a Vida, lá eu me encontro, apenas como um ponto imperceptivel. No entanto, é a conjunção de todos esses pontos que fazem esse mosaico nos parecer lógico, coerente, relevante e pleno em seu significado, embora apenas para cada um de seus componentes. O fantástico dessa teia é que cada um de nós faz parte de seu próprio e único mosaico! Por isso, o Universo não é único… infinitos são os universos dos bilhões de seres humanos, cada um compondo seu próprio mosaico do Existir…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

MEU RUBI

Rosas-vermelhas-imagem-4Existem momentos inesquecíveis em nossas vidas, quando o mundo parece ter amanhecido apenas para nós, em que as flores se mostram mais belas, e o sol brilha com cores que somente nós podemos perceber. Para mim, esse momento aconteceu em um dia como hoje, há 40 anos, quando levei o meu amor para compartilhar a vida ao meu lado.

Era uma pequena capela, entre sete, em um bosque no Morro de São Bento. Ela estava deslumbrante, com aquele brilho que inunda a vida de alegria e admiração. Eu perdi a noção do tempo e das coisas, e meus olhos só viam aquela pequena menina que conquistou meu coração para sempre. MORY é o seu nome!

Lembro-me de um tempo mais distante, em que despertei para essa preciosa criatura, que modificou a minha vida para sempre. Já se passaram 47 anos… ela fazia as aulas se tornarem mais interessantes, a própria vida vibrando intensa naquela pequena criatura. E para mim ela reservou uma frase singela: “Para seu caderno, o meu nome; para você, toda minha sincera amizade!” (06 de outubro de 1966)

Mory, minha linda japonesinha, minha Tyo-Tyo-San, amor eterno que se fez presente nas mais importantes cenas de minha vida! Mory, a quem dediquei tudo que fiz de bom nesta vida!

Hoje completamos nossas Bodas de Rubi (ou de Esmeralda)!

O tempo passou depressa demais para nós, e as adversidades nos afastaram algumas vezes, cruelmente esmaecendo aquele sentimento sublime e eterno. Porém, o amor que jurei tantas vezes prevaleceu e nos conservou unidos por aquela “sincera amizade” que recebi pelas suas doces palavras, e que se gravaram para sempre em meu coração.

Mory, minha doce menina, amor de minha vida, mãe dedicada que me deu dois maravilhosos presentes, Luciana e Mônica, que iluminaram meu caminho e me trouxeram essas crianças encantadoras que, hoje, são a razão de meu viver: Nícolas e Eduardo!

Nada disso teria acontecido se, há 47 anos, minha querida Mory não tivesse escrito palavras tão doces e tão singelas… sim, pequenos detalhes transformam para sempre nossas vidas! Por isso, é essencial que esses sentimentos se manifestem no momento em que inundam nosso ser…

Obrigado, minha querida Mory, por existir, por compartilhar comigo sua vida, por ser tão encantadora e por me amar, como eu te amo! Que nosso amor seja eterno!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Mensagem de Fim de Ano

Jardim de Maitreia - Chapada dos Veadeiros, Goiás

Jardim de Maitreia – Chapada dos Veadeiros, Goiás

Já nem me lembro de quantas vezes estive nessa região mística e encantadora… mas lá encontro a paz com que sempre sonhei, longe dos homens e de suas maldades. Porém, não consegui me estabelecer por lá, apesar de minha imensa vontade de viver mais simples, sem luxos, sem supérfluos, sem as ambições e contradições que a sociedade nos impõe…

Agora, chega mais um fim de ano, e as promessas e os votos de Paz, Amor, Fraternidade, estão presentes nas palavras vazias de um mundo que não tem mais jeito… as palavras não saem do coração… E nos iludimos com essas falsas promessas e até nos redimimos de nossos erros e de nossa tremenda omissão, como se deixássemos de ser os veículos do mal desse planeta.

Infelizmente, não é verdade… ainda que esses desejos fossem sinceros, pensamentos e palavras não movem o mundo, e logo um novo ciclo se inicia, sem que nada tenha transformado a essência de cada ser que habita esse pequeno universo chamado TERRA. Seguimos o mesmo caminho de erros, de desperdício, de ausência de qualquer sentimento que possa minimizar as terríveis diferenças que existem entre o discurso dos líderes e a VERDADE que separa ricos de pobres, poderosos dos humildes, tiranos de líderes verdadeiros. O mundo que conhecemos é injusto e desigual, como sempre.

De que adiantam, então, as promessas, as religiões, as nobres causas que defendemos, se a cada dia estamos mais perto do abismo intransponível que sucumbirá a nossa Civilização, como já ocorreu tantas vezes na História da Humanidade? Somos tão somente o pó do deserto, que os ventos espalham pela planície, completamente indiferenciados da paisagem que nos cerca…

Então, não façamos promessas vãs… não joguemos palavras ao vento… não desperdicemos o tempo na ilusão de que “dizer” é melhor do que “fazer”, pois a simples manifestação de desejos frágeis jamais os tornará realidade. Vamos assumir nossa verdadeira personalidade: injusta, cruel, desumana, egoísta, arrogante e prepotente, sabendo que caminhamos para a extinção como todas as civilizações que nos antecederam e desapareceram sem deixar senão vestígios de seu poder e de sua arrogância. O futuro não será diferente…

Talvez, um dia, uma tremenda catástrofe varra os homens da face da Terra, e nem o dinheiro, nem o poder, nem a vaidade, nem a ganância que caracterizam esse presente que tentamos tornar mais digno do que, de fato, é, nos salvará e nos redimirá dos males que causamos, não apenas a nossos semelhantes, mas a todos os seres vivos desse imenso paraíso que queremos ver destruído e transformado pela ambição de nos acreditarmos ser divinos…

Portanto, não desejo “Feliz Ano Novo” porque seria apenas mais uma hipocrisia…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

“Moço, me dá boas festas?”

03 - CRIANÇAS de RUA e cachorro

Quando eu ainda era criança era comum baterem à nossa porta, na época de Natal, com esse pedido curioso: “Moço, me dá boas-festas?”… na minha inocência de criança, ingenuamente, eu pensava: “Boas Festas!”. Mas logo minha mãe entrava e buscava um prato de comidas bem farto e entregava a cada um dos pedintes, que comiam com gosto e vontade, agradeciam e iam embora. E lá ficava eu com meus botões, analisando, à minha maneira infantil, por que algumas crianças tinham ceias de natal, roupas novas, presentes caros, enquanto tantas outras perambulavam pelas ruas à espera da generosidade de tão poucos.

Muitas décadas se passaram, o Brasil se transformou, vieram ditadores, caudilhos, demagogos, prometeram “dividir o bolo” depois de fazê-lo crescer… e então disseram para o povo que a miséria havia se acabado, e que agora o “papai noel” (aquele patético velhinho da Coca-Cola!) entregaria presentes em todas as casas, de ricos e de pobres, e que ninguém mais morreria de fome, e todos teriam suas casas, iriam à escola e teriam acesso a tudo o que a modernidade pode oferecer! Sim, é verdade! Já não vemos mais mendigos nas ruas e nas praças, não há mais crianças batendo em nossas portas e pedindo ”Moço, me dá boas festas?”… o Brasil é um país do 1º mundo!

É… infelizmente, não dá para mentir… nem para acreditar em papai-noel… tudo continua na mesma… apenas os pobres perderam o que resta de esperança, e os ricos perderam o pouco que lhes restava de solidariedade e hoje bateriam a porta na cara dessas “crianças inconvenientes”! Será que toda verdade é “Inconveniente”?

Mas lá, na cidade grande, as ruas estão ricamente enfeitadas, vendendo sonhos que só os ricos podem realizar! Imensos “papais-noéis” tocam trumpete, bateria e saxofone em uma jazz-band na Avenida Paulista, enquanto as prateleiras e vitrines dos shopping centers estão repletas de brinquedos, bugigangas eletrônicas e roupas caríssimas. Enquanto isso, nas grandes empresas, funcionários bem vestidos e bem-comportados combinam “happy-hours”, e trocam presentes de amigos secretos em festas de confraternização… e entre abraços e beijos até parecem amigos, de fato!

Con-frater-nizar: o ato de se juntar (ou de se reunir) como irmãos; comemorar.

Poucos se lembram das origens do verdadeiro Natal, aquele da cisjordânia, com muito deserto e nenhuma neve! Mesmo aqueles que se dizem cristãos e se ajoelham nos genuflexórios das igrejas cobertas de ouro, não se recordam das mensagens de paz, amor, igualdade e justiça de seu Cristo socialista, o homem “filho de Deus” que veio à Terra para salvar o seu “rebanho”; aquele que se imolou na cruz quando percebeu que sua missão tinha fracassado porque o povo não se importava com seus ensinamentos.

Existe uma certa hipocrisia no Natal: primeiro essa figura grotesca e de mau gosto do “papai noel” travestido de garoto-propaganda da Coca-Cola; depois, a ausência completa do sentido religioso das festas de final de ano; e depois, o egoísmo dos presentes caríssimos para os mais próximos e o esquecimento de que uma horda de seres sub-humanos se arrasta pelas ruas das grandes e pequenas cidades implorando pelos restos de comidas das comilanças, para matar sua fome! E todos terminam suas festas nababescas se abraçando e desejando reciprocamente um “Feliz Natal!”…

Passa o tempo, e o ano se acaba num carnaval fora de propósito ou numa bebedeira sem limites e inconsequente; alguns fazem promessas para cumprir no ano seguinte, e assim a vida se esvai… olhando para o passado distante percebemos que nossa sociedade pouco se difere das sociedades de castas da idade média, dos senhores e dos escravos, dos barões e da plebe ignara… uma minoria privilegiada e arrogante, expropriando um grande contingente de pobres e miseráveis acreditando que, um dia, terão sua recompensa nos céus dos esquecidos… triste ilusão que as religiões dos ricos levam aos pobres para que eles continuem abastecendo suas mesas e geladeiras com os prazeres que aos outros será sempre negado.

E, à nossa porta, à porta de nossa consciência adormecida, bate uma criança quase desnuda, rostinho sujo, olhinhos remelentos, pedindo, quase em súplica: ”Moço, me dá boas festas?”… só que já nos esquecemos o que isso significa, e fechamos a porta, voltando felizes e sem remorsos para a nossa festa!

BOAS FESTAS!

Transeuntes

Ele entrou no metrô pela manhã e sentou-se no lugar reservado para idosos. Não se sentia tão velho assim, para merecer um assento especial, mas naquele dia agradeceu a possibilidade de sair do aglomerado de gente se espremendo de pé nas raras composições que passavam, sempre atrasadas, pelos trilhos estridentes que o levavam ao trabalho.

Seguia em silêncio, com seus pensamentos, como de costume, sem atentar para as pessoas ao seu lado, quando sentiu um toque sutil, que o tirou do torpor e despertou-lhe a atenção. Devia ter apenas uns 17 anos, cabelos negros cacheados e pele morena. Tinha nas mãos um rosário muito longo e “debulhava” suas contas, rezando em silêncio.

Observou-a disfarçadamente, enquanto se surpreendia com o roçar de sua perna, ao movimento do trem. Teria sido casual? Atribuiu o contato à lotação do veículo, que dava pouco espaço aos que estavam de pé. Aquietou-se em seus pensamentos, mas já não conseguia concentrar-se, com o frequente tocar, percebido pelo tecido grosso de seu jeans.

A viagem pareceu-lhe menos desconfortável, e rápida demais para o fluir descontrolado de seus pensamentos. Passavam as estações e o trem se esvaziava, mas a garota continuava tão próxima que dava para sentir o seu perfume, exalando o vigor e a beleza da adolescência. O contato sutil o atordoava; seu desejo aumentava e seus instintos despertavam… ocultou-se em seu silêncio, temendo parecer ridículo diante  daquela jovem. Provavelmente, era essa solidão, que o acompanhava há anos, que alimentava ideias de um erotismo que já não podia sustentar.

As estações passavam céleres, como seus pensamentos, e logo chegaria a seu destino, mas não podia ignorar a ostensiva presença da menina, que estimulava seus instintos com seu toque quase imperceptível. Queria se aproximar e declarar sua presença, mas sua auto-censura o continha; fitou-a diretamente nos olhos e percebeu um sorriso delicado em seus lábios carnudos e vermelhos. Seria apenas por simpatia? Baixou os olhos, envergonhado de seus próprios pensamentos.

A próxima estação seria a sua; deveria sair, ou continuaria até o destino da garota, acreditando na ilusão que ele próprio criara em sua mente? O trem desacelera e os segundos se arrastam sobre os trilhos e o ruído estridente do atrito de metais. Desperta à realidade e se levanta; olha para ela, como uma súplica, mas a menina disfarça um rubor e abaixa o olhar. Mesmo sabendo que havia um clima de tensão compartilhado que os unira por esses breves momentos, dirige-se para a porta e desce do vagão; pára na porta e olha para trás: ela também o contempla, decepcionada, talvez…

O trem parte tão rápido quanto chegou, levando sua carga preciosa, e mais um sonho não realizado… segue seu caminho, confortado pela solidão… mais um dia…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Ah… Dinorah, Dinorah!

Eu a vejo partir aos poucos, diante de meus olhos, e me pergunto: por que? Talvez eu sofra muito mais do que ela… e assim como quando meu pai também partiu, um enorme pedaço de meu coração se romperá e se perderá para sempre. Minha mãezinha… o ser mais querido que tenho, e nada posso fazer… lembro-me quando, ainda jovem, muitos anos passados, eu meditava, imaginando ser capaz de estancar a seiva da vida a se esvair, e impedir a morte de meus entes queridos… hoje sei que nem mesmo posso fazê-los felizes… cada um tem o seu destino, e quando pensamos estar no controle do leme da nau de nossa existência, algo muito mais poderoso… um vendaval… uma forte corrente… um sopro divino ou maligno nos arrasta para longe, muito longe… nem sextantes, nem estrelas, nem bússolas podem nos dizer para onde somos levados, e só nos resta nos conformar com a sorte… estranha palavra esta: SORTE! Acaso, destino, bons augúrios… para mim, sempre foi Acaso!

Ah… Dinorah, Dinorah!

Minha primeira professora, mãe querida, colo aconchegante que me protegia das tormentas… agora, quase sem ela, já sem meu pai há tantos anos, não há como evitar as procelas… talvez até as busque, quase como uma auto-punição…

Dinorah! Ah… Dinorah…

Mãe que abriu mão de sua própria vida para cuidar de seus filhos… talvez nunca a tenhamos verdadeiramente conhecido; mulher forte e decidida, capaz, porém, de se entregar às lides de uma simples casa, aos cuidados com seu esposo e filhos, em lugar de seguir o seu destino, sua própria vida… professora criativa e inteligente, que soube inovar quando todos os demais preferiam seguir no seu “Caminho Suave”… nossos caminhos nunca foram suaves; pensamos demais, discutimos demais, lutamos mais do que deveríamos ter feito… no entanto, e mesmo por isso, tornamos tudo tão difícil, desgastante, dolorido… sofremos e fizemos sofrer àqueles a quem tanto amamos; estranha manifestação de afeto!

Ah… Dinorah…

Quisera tê-la abraçado mais, beijado mais, declarado incontáveis vezes o meu carinho incondicional por você! No entanto, foram tão poucas as vezes que conversamos sem a tensão opressora de uma estranha e incompreensível solidão… Nunca foi desamor, mas nos manteve distantes, como polos opostos de um poderoso ímã cujas metades jamais se separam… e mesmo que uma poderosa força o rompa, suas novas metades continuarão se opondo com a mesma tensão e energia, sugando-se uma à outra em um movimento estático e infinito… curiosa é a vida, não é mesmo? Sentimos o que não queremos, dizemos o que não devíamos, e nos ofendemos, às vezes, mesmo pensando em não nos magoar.

Ah… minha querida Dinorah!

Poderia até pensar que faria tudo diferente se a vida assim nos permitisse… mas não é verdade. Tornamos a vida cruel, não porque tenhamos ódio, mas pelo mais puro e sincero amor! Que paradoxo, que desencontro… por isso, seguirei minha vida, me penitenciando sempre, punindo-me pelo que não soube ser, flagelando-me em busca de um perdão que não poderá jamais existir.

Ah… Dinorah…

Acredito que nunca mais a verei… assim foi com Ulysses: um dia, um pequeno cochilo, um descuido, uma saída, e Ulysses se foi para sempre, modesto, humilde e discreto… agora é você, Dinorah, mãe querida… mas sou eu quem te deixa para tão distante e, ainda que quisesse, jamais te encontraria novamente… talvez seja melhor assim; minha limitada compreensão das razões do existir só me fizeram sofrer e, comigo, àqueles a quem tanto amo. Digo para mim que é minha missão… busco razões que não existem… afinal, somos como a poeira na réstia de luz que passa na fresta da janela de nossas vidas… efêmeras vidas… tão curtas, tão insignificantes que nem o maior dos seres humanos poderia mudar o curso das estrelas ou afetar o destino do mundo. Haveremos que nos conformar com essa insignificância e buscar, em cada amanhecer, a motivação para viver apenas por mais um ínfimo dia.

Não te direi adeus, Dinorah… talvez um “até breve” que nunca se realizará… pois ambos pereceremos nas brumas do passado. Nem as lápides, nem os livros, nem as inscrições em pedras e nos anais da História permanecerão. No entanto, um dia, em algum lugar do passado, um filho amou profundamente sua mãe e lhe dedicou esse epitáfio:

“Ah, Dinorah… que falta me fizeste no resto de meus dias…”

Homenagem às Mães

Mãe: a origem da Vida, o começo de tudo, a fonte da Humanidade, ser que todos guardamos com carinho em nossas mentes, em nossos corações… mães sofridas, dedicadas, abnegadas, generosas, tolerantes aos pecados de seus filhos, “seus guris” sempre… mães esquecidas na sua lide diária, não reconhecidas pelos homens que ainda acreditam que elas servem para servi-los… nossas mães, mães das crianças e dos adultos, dos indígenas, dos negros e dos animais.. mãe cujo amor e carinho não tem limites, senão no desejo de nos ver felizes, a nós, filhos ingratos que ainda pensamos que somente hoje é o Dia das Mães! Mãe solteira como “mama África”, mães indígenas esquecidas até pelos que juraram protegê-los e que se esqueceram até que existia um “Dia do Índio”, MÃE: palavra mágica que nos remete aos dias ancestrais de nossa existência, sentimento que não basta para tratá-las com mais respeito, amor e devoção.

Mãe Natureza, esquecida dos homens de má-fé, que querem transformar as florestas em pastos para o gado e fonte de riqueza maldita para nossos descendentes… mãe árvore, mãe dágua, mãe ancestral e bela… o que faremos dessas belezas que herdamos e que não têm o menor valor para esses seres desgraçados? Árvores seculares, testemunhas da nossa história, decapitadas, desfiguradas, desmembradas como lenha, jogadas na fornalha sem o menor respeito por seres que não merecem o título de “Homens”… árvores nascidas das sementes germinadas na Mãe Terra, como as crianças geradas no ventre das mães dos homens e que agora são apenas tábuas, carvão, serragem imprestável!

Mães Yanomami que, na sua simplicidade e pureza se expõem aos olhares maliciosos dos homens ditos “civilizados”, que não percebem a beleza sofrida em seus olhos… mães que levam suas crianças em seu colo precioso, expressando a beleza perdida pelos homens, que apenas traduzem as mães em um mero dia para o consumismo desenfreado e inútil nas agendas do comércio voraz, louco pelo lucro fácil das promoções, “vendendo” homenagens que deveriam ser simples como o carinho que a elas, mães, devemos, não um só dia de 365 dias do ano, mas todos os minutos de nossa plena existência… mães que cuidam de seus homens nas aldeias, trazendo os produtos de sua subsistência e transformando-os em alimentos para seu povo humilde e esquecido nas matas amazônicas, essas mesmas matas que os ambiciosos fazendeiros querem derrubar para fazer crescer e alimentar seu gado insaciável e desnecessário…

Mães selvagens, rudes em sua busca pelos alimentos e sobrevivência, mas delicadas e gentis para com seus rebentos, tolerantes às suas travessuras, como as de qualquer criança, complacente com seus inocentes folguedos, esquecidas das lutas ainda não travadas, dia após dia, para assegurar que seus filhotes consigam superar a rudeza da selva e chegar à idade adulta, fortes e determinados como suas incansáveis mães… mães que escondem seus filhotes dos leões que derrotaram o antigo líder do seu bando e que agora querem devorá-los, apenas assegurar que sua descendência leve a marca genômica dos filhotes paridos de sua leoa…

Pois somos assim, ingratos e cruéis, não apenas com as mães de nossos filhos e com as nossas próprias mães, mas também com tudo que recebemos de herança dessa imensa moradia, que é o nosso planeta… deixamos um rastro de destruição atrás do caminho que trilhamos, e pensamos que nada disso será considerado pelo futuro que nos aguarda. Mas em nosso encalço virá a vingança de outra mãe, não tão misericordiosa assim, e que nos devolverá a maldade em fome, miséria, sede e desolação, um oceano de areia, sem vida, sem recursos naturais, consumidos que foram pelos homens de má vontade que devastaram tudo ao seu redor, apenas para homenagear outra mãe: a moeda, o dinheiro que não saciará nossas necessidades, e se transformará em lixo inútil…

O que faremos com isso depois que todas as florestas e rios tiverem sido destruídos pelos ambiciosos seres que só enxergam a ponta de seus próprios narizes e só têm sentimento em seus bolsos e contas bancárias abastadas? O que restará ao mundo quando apenas um imenso deserto restar aos nossos olhos para contemplar? De que valerá todo ouro que esses poucos poderosos amealharam ao longo de suas vidas inúteis e desgraçadas? Quem são as mães desses miseráveis? Pobres mães, que não souberam cultivar essas sementes podres…

Deixo, portanto, essa minha homenagem pouco amável, mas sincera, como um alerta severo e rude, como será rude o nosso destino, semeado pela ambição inesgotável desses mesquinhos inimigos da Vida, da Natureza, das Belezas da nossa querida Terra… mas, para não terminar de modo tão cruel, deixo essas imagens belas e destemidas de nossa mãe África!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica Com a tag

Feliz Ano Novo!

 

Sempre que um ano se encerra temos a sensação ilusória de que o mundo se renova e uma nova oportunidade se manifesta para que o ser humano se regenere e cuide dos outros, da Natureza, dos esquecidos e necessitados, dos segregados pelas injustiças de um mundo desigual, ressurgindo uma efêmera solidariedade que dura o tempo da troca de presentes e das comemorações de Natal e Ano Novo. Nesses dias de muita festa, muita bebida e generosos gastos com presentes, as mensagens trocadas falam de PAZHARMONIA AMOR

Quanto desses desejos são intenções verdadeiras? Quanto de cada um de nós está verdadeiramente comprometido com as mudanças, com uma nova visão de mundo que não segregue a miséria, a cor da pele, a origem étnica e as classes sociais desprivilegiadas? Quanto de nós colocamos nesses textos bonitos e edificantes, que falam de um mundo que nunca existiu?

Pois, apesar de toda hipocrisia contida nessas mensagens, cada ciclo de nossas vidas, quando se encerra, traz um momento de reflexão que até poderia gerar mudanças de comportamento, extraindo de cada um de nós o que de melhor existe. Mas é preciso mais do que palavras, mais do que presentes, mais do que manifestações passageiras de solidariedade. Enquanto estivermos fechados em nosso mundo de privilégios “conquistados”, olhando o Universo através de uma janela, por detrás da cortina e das grades que nos protegem, a vida permanecerá a mesma, e começaremos um novo ano com muitas promessas que jamais se concretizarão.

Portanto, desejo a todos um ano novo diferente, em que as mazelas do mundo nos incomodem o bastante para gerar verdadeiras mudanças, e que não seja mais possível fingir que somos piedosos, solidários e generosos… que a humanidade sofra, de fato, as consequências de suas atrocidades, e que todos nós sejamos, pelo menos, conscientes de nossa parcela de culpa em todo esse processo cruel, deprimente, degradante, injusto e repleto de privilégios inaceitáveis.

Somente assim poderemos mudar, definitivamente, nosso papel na vida e encontrar, em nossos semelhantes, os seres humanos que se ocultam na pobreza, na degradação moral, na sujeira, nas esquinas suspeitas, nos vícios… esse seria o sermão dos seres iluminados que por aqui passaram e deixaram suas doutrinas para nos inspirar. Não existem livros sagrados se as práticas de seus devotos são incoerentes com as palavras que professam nas cerimônias religiosas, se suas vidas são o avesso das suas orações…

Com muito carinho e esperança em um mundo novo e verdadeiramente admirável…

FELIZ ANO NOVO!

Vida Insensata

 

Tia Elza, querida amiga, sinto sua falta entre nós… recuso-me a imaginá-la inerte, em uma cama de hospital… prefiro lembrar-me de sua voz suave, gentil como de minha querida sogra, sua irmã Carolina, que nos deixou há mais de 20 anos, e que permanece em minha memória, sussurrando sua bondade, meiga e amável, a todos a quem recebia, generosa, em sua casa. Saudade… muita falta vocês me fazem… De tia Elza ainda não nos despedimos… talvez nunca o façamos, pois de seres iluminados não se despede; apenas lamenta-se a perda do convívio, e isso é o que menos importa.

São poucos os espíritos que perambulam nesse mundo tão impessoal e egoísta. A tecnologia teve o dom de aproximar seres humanos (seria a aldeia global?), mas também vulgarizou o relacionamento. Hoje entra-se no Facebook e escreve-se algo assim: “meu cachorrinho está doente…”; ou então “estou com raiva!”. Ficamos esperando alguma fala que complemente o raciocínio, mas o que vem depois é “curtir”, ou então “tadinho!”… vulgaridades cotidianas.

Falta conteúdo ao mundo globalizado, e não era essa a mensagem de McLuhan! Ele falava da volta à simplicidade de uma aldeia, todos se comunicando ao redor do mundo, mas com inteligência e sofisticação intelectual! Algo como um nivelamento “por cima” das classes sociais. Acontece que a aldeia que ele concebia era aquela que temos em mente quando imaginamos os indígenas no meio da selva amazônica. Porém, quando lá chegamos, encontramos antenas parabólicas para assistir as novelas da Globo e muita cachaça para fazer o caxiri e embebedar-se até cair no chão… o índio perdeu a inocência!

E nessa vida insensata vamos perdendo a capacidade de confabular, de nos agacharmos diante das casinhas simples do interior que conheci na minha infância, apenas para conversar, de conceber inconsequentes teorias de evolução da humanidade, de preservar o verde, as águas e os animais, de sonhar com a paz, como fez John Lennon… e por isso nos arrastamos pelos becos de nossa inocência ultrajada, lamentando o mundo que nunca mais poderá encontrar sua aldeia natal, e lá simplesmente sentir o frescor das tardes de domingo, à beira-rio, jogando conversa fora com amigos de verdade, e acreditando em uma vida melhor…

Roubaram nossas possibilidades de sermos simplesmente felizes…

A Bicicleta

Hoje percebo o quanto a bicicleta faz parte de minhas memórias; ainda pequeno ganhei uma de meu pai, e até me lembro de sua marca: Merckswiss (acho que era assim que se escrevia). Era pequena e azul, e eu me equilibrava nela com muita dificuldade, mal tocando a ponta do pé no chão, ao parar.

Foi nessa bicicleta que quebrei meu dente; uma árvore, em meu caminho, foi a culpada; e caí, batendo a boca no “guidon”. Mas nem por isso desisti de minhas duas rodas, que me acompanharam por toda vida. Cheguei a pensar até em ser um atleta, ou um artista, sei lá, contracenando com a “magrela” pela vida afora. Depois passou, e me esqueci da companheira, que ingrato!

Em Dracena, interior de São Paulo, aprendi a andar, a correr pelo aterro da estação de trem, em construção. Descíamos em grupo pela sua encosta em desabalada carreira e só mesmo o acaso nos livrava das consequências dos acidentes “inevitáveis”. Perambulávamos pelas ruas em bandos de crianças, meninos e meninas, sem preocupação; não havia o risco dos automóveis, pois a pacata cidadezinha tinha uma pequena frota de veículos, geralmente táxis, que andavam vagarosos pelas ruas de terra, contracenando com as charretes puxadas a cavalos.

Quando me mudei para Ribeirão Preto, certo dia assisti um maluco ficar dias seguidos girando em uma praça, sobre um tablado, na frente do Theatro Pedro II, demonstrando sua resistência e habilidades para o povo admirado! Havia poucas opções de diversão, e esses mambembes faziam sucesso pelo interior do Brasil. Decidi que, um dia, faria o mesmo e conseguiria bater o “record” mundial de permanência sobre o selim; a partir de então, passava horas girando com minha bicicleta em torno da velha mangueira lá de casa, deixando minha mãe desesperada com minhas loucuras.

Não bati nenhum “record”, mas desenvolvi minhas habilidades na “magrela”. Gostava de percorrer, em desabalada carreira, as ruas da cidade, descendo ladeiras e fazendo curvas “impossíveis”, até que me “ralei” todo numa queda no asfalto da avenida. Mas criança não tem memória, e poucos dias depois eu voltava a me aventurar nessas corridas inconsequentes.

Assim, a bicicleta fazia parte de minha vida, trazendo-me oportunidades de viver os dias sobre duas rodas. Às vezes desafiava meus primos a seguir pela estrada comigo até os municípios vizinhos, sem o conhecimento de minha mãe; como eles não iam, seguia sozinho. A bicicleta era minha companheira nesses momentos de solidão. Gostava de “pensar em movimento”, meditação dinâmica que cultivei ao longo de minha vida, e que foi de grande valia pelas dificuldades que tinha em conviver com os outros meninos de minha idade.

Acho que a bicicleta e, depois, a canoa, foram os paliativos de minha solidão. Nunca me importei muito com isso, pois acabei gostando de compartilhar meus pensamentos apenas com meus companheiros invisíveis, que povoaram minha imaginação. A bicicleta esteve sempre presente, e eu costumava “conversar” com ela enquanto andava sem destino, soltando as mãos, subindo no selim, fazendo pequenas acrobacias com esse meu instrumento de manifestação de meu poder pessoal, nunca compartilhado com a “turma” que não existia.

Ainda tenho uma bicicleta e, mesmo hoje, nos meus sessenta e um anos bem vividos, não perdi a mania de andar nos meus limites, correndo pelas ruas dessa pequena cidade do Amazonas, sem me importar com o que se passa em meu redor. Mas terei que deixá-la aqui, ao me transferir para a Capital do país, pois minhas bagagens já ultrapassaram de longe minha capacidade de transportá-las. Sentirei sua falta, mas logo encontrarei outra inseparável companheira, estou certo disso, e continuarei compartilhando com ela meus sentimentos mais profundos, discretos e silenciosos.

Missão Cumprida!

A sensação de terminar um projeto tão longo, com tantas e diferentes dificuldades, sem patrocínio e apoio oficial de nenhuma organização, desconhecido pela grande mídia, é indescritível! Consegui vencer por meu próprio mérito e pelo apoio conquistado pelo caminho… os três últimos dias foram particularmente difíceis; depois que deixei aquela linda praia de Gararu segui em direção a Porto Real do Colégio e Propriá. Saí de madrugada, ainda noite, para evitar os fortes ventos e a agitação do rio, cada dia mais intensos.

O rio estava plácido, dormindo, como diz a lenda, e o barco deslizava rápido por aquele lago noturno. Logo passei por Traipu… fiz umas fotos sem graça e segui adiante. O que mudou muito na paisagem, desde Xingó, é que agora as ilhas eram pequenas, baixas e cobertas por uma densa vegetação aquática e arbustos verdes…

O rio voltou a ser largo, mas a água continuava límpida e verde esmeralda. No entanto, essa vegetação aquática, muitas vezes submersa e formada por algas longas, quando exposta ao sol apresenta cheiro desagradável.

Quando me aproximei de Porto Real do Colégio ouvi fogos e muita música, embarcações com grandes velas coloridas e “gaiolas” de todos os tamanhos. O barco da “família real” já havia passado por mim e quase me afundara na noite anterior. Por isso, fiquei atento, tentando evitar as fortes ondas que eles fazem ao passar. Havia uma grande estátua de Nosso Senhor dos Navegantes no meio do rio e parei de remar para fotografá-la; isso me custou caro, pois as ondas eram fortes, e tive que fazer manobras rápidas para evitar ser apanhado por elas…

Não consegui parar na cidade, nem atravessar até Propriá, porque a algazarra era demais para meus hábitos solitários e o rio estava violento. Pouco antes da grande ponte da BR 101 parei sob umas árvores para descansar. Amarrei o barco como pude e fiquei apreciando o vai-e-vem de barcos, alguns rápidos e movidos a vela, outros lentos, com motor de rabeta, rangendo e lutando contra a correnteza e as ondas.

Fiquei algumas horas parado, analisando as alternativas: por baixo da ponte, a densa vegetação e inúmeras ilhas não me permitiam compreender o caminho; pensei em passar a noite ali, pois o barco estava estabilizado e era um local tranquilo e protegido.

Porém, na ânsia de prosseguir e chegar o mais breve possível até o final, decidi arriscar a sorte e prosseguir. Eram 12 horas. Uma hora e meia depois, lutando contra as águas raivosas do rio, sendo jogado ora para um lado, ora para outro, fazendo manobras bruscas para evitar que o barco girasse sobre si mesmo e eu perdesse o controle, usando todas as minhas forças inutilmente, eu andara menos de dois quilômetros e apenas passara por baixo da ponte… os sons das cidades ainda eram fortes.

Tentei encostar em um barranco e acampar, mesmo em um pasto, mas a canoa batia na lama do barranco sem vegetação e as formigas me devoravam enquanto eu tentava encontrar um meio de retirar as tralhas. Depois de algumas tentativas frustradas, desisti e voltei para a tormenta. Lembrava-me do filme “Mar em Fúria”… esse era o meu “rio em fúria”, mantidas as proporções… meu barquinho, uma “casca de noz”, era jogado sem piedade!

Progredia de forma insignificante, mas precisava encontrar algum lugar protegido no meio daquela barreira de terra destruída. Uns 200 metros adiante vi uma pequena moita de calumbi e capim, e me apeguei a essa possibilidade. Remava com todas as minhas forças e, alguns minutos depois, joguei o barco de lado, forçando-o contra o capim e lá me refugiei, apesar dos espinhos e insetos.

Era evidente a ação protetora daquela simples vegetação para o barranco! As ondas e a correnteza eram domados por uma pequena moita de arbustos… mas os estúpidos fazendeiros continuam a devastar até o último pé de capim, mesmo que o rio venha a cobrar o seu tributo, levando as terras para dentro de seu leito e retirando o medíocre ganho de espaço conquistado pela ganância desses homens.

Amarrei precariamente o barco e me ajeitei como pude no pequeno espaço interno. Sabia que a espera seria longa e cansativa, pois o rio só adormece depois da meia-noite. E ainda teria que esperar pela luz da lua, cada vez mais tardia… já era quarto-minguante e sua tênue luminosidade ainda permitia navegar.

Saí de lá às duas horas da madrugada, sem dormir, sem comer e picado pelos insetos, com o corpo todo dolorido da incômoda posição. O rio voltara a ser calmo e meu barco parecia um caiaque, deslizando célere pela lagoa encantada em que se transfomara o meu “Velho Chico”.

Remei intensamente, cada vez mais motivado pela possibilidade de encerrar a expedição. Mas o céu se cobria de pesadas nuvens e a visão do rio era precária. Felizmente, não havia nenhuma outra embarcação com a qual eu pudesse me chocar inadvertidamente. Éramos apena eu, com minhas remadas compassadas e firmes, quebrando a magia do lago e o silêncio do caminho…

De repente, começou a chover. Olhei para o céu e era todo nuvens , densas e carregadas. Tive receio de uma tempestade: vento e chuva seriam os ingredientes ideais de uma tragédia, pois ali, a mata era um só manto negro nas margens do rio…

Felizmente, a chuva cessou tão rápido quanto viera, e eu continuava remando com todas as forças. Pela manhã, ao nascer do sol, eu já estava em Penedo, uma cidade curiosa, protegida por uma espécie de enseada longa e curva, que me obrigara a atravessar para a margem direita, contornar o “istmo” e retornar à margem esquerda. A escuridão fazia tudo parecer misterioso… via imagens e as interpretava conforme meu sentimento, às vezes imaginando cenas inexistentes, outras valorizando detalhes insignificantes…

Havia algum movimento de barcos de pescadores e uma balsa, que levava carros, pessoas e mercadorias para o outro lado, onde também havia um povoado. Luzes coloridas piscando intermitentemente, e música indicavam o final de uma festa, talvez a mesma que agitava Porto Real e Propriá…

Pensei em talvez encontrar algum bar ou quiosque ainda aberto, com aqueles bebedores renitentes, onde poderia encontrar comida… talvez até uma padaria, pois a fome estava me alertando sobre o vazio em meu estômago. Mas não havia nada! O som ecoava no vazio da noite e decidi parar o barco ao lado da balsa, sob um poste iluminado. Tomei dois goles de mel; era o que estava à mão naquele momento.

Um pescador se aproximou e “puxou conversa”. Perguntou de onde eu vinha, de que era feito meu barco e coisas assim… e disse que se eu achara os ventos fortes até então, é porque não conhecia o que havia adiante! É que a proximidade do mar agora influenciava o rio e, na maré enchente, ele recuava por quilômetros, criando ondas mais fortes e mais altas, além do vento incessante.

Eram seis horas da manhã quando saí de Penedo. Já ventava um pouco e havia uma sucessão de ondas vindo em minha direção, mas eu progredia bem e não me importei com o esforço extra.

Às sete horas encontrei uma região belíssima – acho que o nome é “Marituba” – com ilhas e margens cobertas de rica vegetação. Pela primeira vez desde Paulo Afonso eu voltava a ver e ouvir os pássaros! A água parou e as ondas desapareceram, como por encanto. Pois era assim que eu me sentia, encantado com aquele paraíso; reduzi a marcha e comecei a passear pelo rio, meditação em movimento… era como uma espiral, girando sobre si mesma, e escolhi o caminho mais longo para apreciar essa maravilha!

Alguns pescadores jogavam suas tarrafas e os peixes saltavam ao meu redor. Mas, aos poucos, percebi que boa parte daquele lugar já havia sido profanada! Nas ilhas, por detrás das matas, plantações de coqueiros; nas margens, depois da estreita vegetação, o gado tomava conta de tudo!

Sentia o cheiro de mata queimada e molhada pela chuva e, logo depois, uma grande extensão de terra desolada pelo fogo recente, os troncos enegrecidos e retorcidos, à margem do rio… o encanto se quebrou… ainda vi algumas belezas, como um trecho de areia branca, quase à superfície da água; depois uma enorme vegetação de algas submersas, balançando-se ao movimento do rio… e mais nada!

Voltei ao rio, normal e agitado pelos ventos. A chuva também voltou e temia não conseguir chegar a Piaçabuçu antes do vendaval. Já passava das nove horas e teria ainda cerca de 15 quilômetros pela frente, pelas marcações do GPS. O vento aumentou depressa e resolvi parar, pois estava exausto! Encostei sob umas árvores e fixei a canoa. Desci e limpei o lugar, pensando na possibilidade de pernoitar ali. Pelo menos não havia formigas, e tinha até uma minúscula praia para eu tomar um banho. Mas não tinha espaço para armar a barraca e teria que dormir no barco pela segunda noite consecutiva; isso me incomodava…

Aproveitei para colocar tudo em ordem: pendurei a toalha e a rede, tirei a água do barco, tomei banho e falei com minhas filhas pelo celular, dizendo que poderia me atrasar bastante. Muitos barcos passavam por mim e confesso que tive muita vontade de “pegar carona” e chegar logo ao meu destino…

Segui adiante uma hora mais tarde, quando o vento diminuiu de intensidade. Estava perto de Brejo Grande, a última cidade de Sergipe antes da foz. Mas tive que parar novamente, pois voltou a ameaçar chuva e o vento aumentou bruscamente. Encontrei um abrigo e cobri a canoa com a lona do acampamento. Preparei um leite com chocolate e estava já decidico a ficar por ali mesmo.

Mas depois de algum tempo, perto do meio-dia, resolvi retomar a viagem. Lembrei-me das marés e pensei que, agora, na vazante, elas poderiam me ajudar, puxando o barco com a água do rio, em direção ao mar. De fato, apesar do vento e de algumas ondas, o barco voltou a progredir e andar rápido. Era curiosa a ilusão óptica: remando contra as ondas, o rio parecia subir uma leve ladeira! Havia muitos aguapés nas margens.

Passei por um lugar apelidado “Penedinho”, uma espécie de clube de campo com várias casas, muitos barcos e até “jet-ski”! Nas propriedades colocaram cercas de arame farpado dentro do rio, impedindo os barcos de atracar! Um absurdo inaceitável! O rio é de todos, uma concessão de uso! No dia anterior eu tinha sido atacado por dois “hotweiller” em uma propriedade dessas, casa de luxo, talvez um marajá da era Collor… agora me mantinha distante da margem, por precaução…

Avistei Piaçabuçu às 13 horas. Bem antes de chegar à cidade, uma longa sucessão de barcos evidenciava uma vila de pescadores. O rio voltou a se agitar, mas agora, com essa visão de “fita de chegada”, nada mais me seguraria! Remei intensamente, não me importando com as ondas que faziam a popa do barco se levantar e bater com força nas águas… até gostava desse barulho!

Cheguei a Piaçabuçu e observei o portal à frente, onde se descortinaria o mar… estava, finalmente, no final de minha jornada! Consegui vencer! Uma sensação indescritível!

Parei para me orientar e um pescador me informou que havia uma pousada logo à frente. Segui margeando a orla, que se contorcia à esquerda, alargando o rio antes de se lançar no oceano.

Muitos barquinhos coloridos estavam ancorados na baía, à frente de uma parede de contenção. Logo avistei a pousada e, finalmente, ancorei. Podia comemorar!

Estava completada a expedição que durou 99 dias de atividades intensas, três meses parado em Três Marias, cinco meses de planejamento, uma despesa enorme que consumiu todos os meus recursos e muito mais, e um ano inteiro dedicado ao rio que deveria ser tratado com dignidade, motivo de orgulho de todos os brasileiros.

No entanto, o sentimento que me resta é uma tristeza enorme pelo descaso do poder público em todas as suas esferas, a ignorância extrema de fazendeiros e pequenos agricultores, a falta de planejamento para a propalada revitalização, e o alarde eleitoreiro de uma grande obra que, ao invés de atender às carências dos ribeirinhos, levará as águas do Velho Chico para outras bacias do Nordeste, para as grandes cidades, para a agro-indústria, mas não para a população rural, de 12 milhões de pessoas, que continuará dependendo dos carros-pipa para poder sobreviver!

A transposição não resolverá os problemas do semi-árido porque quem a projetou não sabe o que é o Sertão, como vive esse povo, do que ele, de fato, necessita para recuperar esse atraso tecnológico e cultural em que se encontra.

A sensação que eu tive ao visitar a maioria das comunidades, principalmente do oeste baiano, é de uma volta ao passado, cinquenta anos atrás, na época da minha infância. Casas de taipa, carros de boi, nenhuma oferta de cultura, economia de escambo ou predatória, pessoas sem perspectivas ou ambição, desemprego, intensos conflitos de terra, exploração da ignorância pelos apelos da fé e das promessas de políticos corruptos, cidades que não tem receita para reverter esse quadro lastimável!

Com a falta de oportunidades e de emprego, os poucos filhos dessa terra que saem para estudar e conseguem uma formação superior abandonam seu lar ancestral e seguem para os grandes centros urbanos.

Centenas de minúsculas comunidades vivem nesse espaço sem perspectivas, e sua única ambição é um pouco de água, um pedaço de chão e condições de cultivar seus alimentos e cuidar da criação. Rezam para que a chuva chegue a tempo de molhar sua plantação para que possam alimentar sua prole que, não raro, se compõe de seis, oito, dez filhos, uma pequena criação de cabras, algumas galinhas, uns poucos porcos, uma ou duas vacas, todos criados soltos, partilhando de sua vida camponesa.

As “ONGs” que aqui atuam incendeiam esse cadinho de tensões sociais, que derrama sua lava nas lutas pela terra, sua ocupação e posse definitiva, conqusitada, às vezes, sem eliminar os conflitos.

Algumas comunidades afirmam ser quilombolas ou indígenas para agilizar a pesada e ineficiente máquina federal, ainda que suas feições sejam as mesmas de todo povo sertanejo, e quase todos tenham perdido a memória de seus antepassados, sua lingua ancestral, seus costumes, suas crenças, sua história, enfim.

A quem interessa essa pobreza imensa? Às igrejas de todos os cultos, que asseguram seus “rebanhos”, aos políticos de todos os matizes, que a transforma em mote eleitoreiro na sucessão dos anos, aos movimentos sociais e às “ongs”, que delas, as pessoas, fazem sua bandeira e sua luta. E, com isso, o semi-árido, verdadeira nação são-franciscana, se esfacela em um misto de fé inabalável e em sua única expectativa de redenção, depois desta vida…

E, com isso, o rio caminha para a sua própria morte, das águas, dos povos, dos animais e da vida em todas as suas manifestações naturais e selvagens. O que será desse povo quando o rio não for mais capaz de se sustentar e mergulhar na entropia irreversível da auto-destruição?

Talvez a culpa seja atribuída ao passado, mas é no presente que agem, intensas, essa forças da destruição. E assim como os demais biomas nacionais, vamos dizimando a Natureza, consumindo as riquezas de nossa redenção.

Somos o país mais rico do mundo em biodiversidade, em hidrologia, em miscigenação racial, em sincretismo religioso… mas não somos capazes de preservá-los e de utilizá-los como alavanca de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, sem demagogias ou mentiras.

Ainda assim, depois de transformar o meu Velho Chico em minha morada e paixão por tanto tempo, posso afirmar que esta foi a maior e mais intensa experiência de minha vida, em aprendizado, em transformações intelectuais, pessoais e definitivas.

Se saberei convertê-las em um produto cultural, se minhas palavras se coverterão em um livro, se esse livro influenciará pessoas e influirá em outros destinos, só o futuro me responderá.

Mesmo que nada mais aconteça eu me transformei, perdi minhas poucas vaidades, fiz dessa expedição um processo peregrino e missionário, e influenciei meu futuro e meu destino. E posso afirmar que valeu a pena!

Faria tudo de novo?

Certamente, não! Porque assim como as águas que nascem da Canastra nunca são as mesmas, ainda que voltasse a cada uma dessas localidades por onde passei, e percorresse os mesmos caminhos, meus olhos já não seriam os mesmos e contemplariam tudo de modo diferente, mais amadurecido, talvez, menos extasiados, certamente, mas com outros sentimentos, diferentes até na perplexidade e no encantamento que só existem no primeiro encontro.

Sou, portanto, mais uma vítima desse rio, um apaixonado que vê a sua amada sendo estuprada pela ganância e pelos interesses mesquinhos e imediatistas que a levarão à morte inevitável e cruel…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Meu destino em ti…

Não houve tempo de esperar que me aceitasses… entrei em tua intimidade como em um estupro! Violei tuas águas, tuas praias, tuas matas… invadi tuas beiras e me apossei dos espaços roubados de teus filhos, as aves, os peixes, os seres até então ocultos em teus recônditos segredos… nossos caminhos se entrelaçaram, não por tua vontade, mas pela minha, ansioso por desvendar os teus mistérios…

A princípio, nada encontrei que me detivesse a marcha; como um visitante indesejado, percorri teus vales e descobri teus súditos, vassalos teus, tributários de tua grandeza a doar suas vidas para te enriquecer e te encorajar ao grande salto, inevitável, no vazio…

Por instantes segui outros caminhos, como quem oculta as intenções, e vi o momento em que te projetavas sobre as rochas, como quem se atira ao desconhecido, destemido, inconsequente e audaz como qualquer adolescente. Busquei tua calma e em teu colo me deitei, levando-me contigo à revelia, para onde estivesses a ir, não me importava…

Percebi, então, que tu também não conhecias o teu destino, e me encantei por ti… e assim nos tornamos íntimos, cúmplices dos mesmos segredos, que desvendávamos a cada anoitecer… tu me aceitaste assim, em minha fragilidade, mais vulnerável até que as cristalinas águas de tua alma, teu corpo e razão do existir…

Daí, então, seguimos juntos, amantes apaixonados, um ao outro nos levando, sem um propósito qualquer,senão o de seguir adiante. À nossa volta, a presença de outros seres, assim tão íntimos e livres como o ar, as águas, o som, as cores, os inebriantes aromas…

A cada dia, em cada despertar, a ansiedade enlouquecida de nossas contradições: um ser que nasce e morre sem cessar, criança, jovem e velho a um só tempo, e outro ser que morre e envelhece, no inexorável badalar das horas, a me levar daqui… e mesmo neste ser envelhecido, o jovem e a criança permanecem, ao menos nas lembranças; e isso torna a ambos companheiros, ainda que um só, e tão somente, irá permanecer ao fim do longo dia, quase eterno, da jornada…

Porém, os dias às noites sucedendo, de ti surrupiaram a inocência, das águas te roubaram a pureza cristalina, das margens desnudaram tuas vestes… e as aves, tuas amigas, te deixaram, assim como as outras criaturas, tão belas, tão ingênuas… e eu, desiludido, desencantado, a tudo assim presenciava, aturdido, impotente… roubaram-te de mim em pleno dia!

Das praias, em lama, as alvas areias se tornaram; das matas, somente um ralo mato é que restou; dos morros, às águas, o solo fértil se deixou arrastar, turvando as tuas águas, matando pouco a pouco nossos peixes, cobrindo de barro o leito fundo, a se deixar levar contigo a outras plagas.

Uma angústia, um nó entalado na garganta, tristeza inconsolável de mim se apoderou, ao presenciar as árvores, às centenas, arrancadas, ancoradas em teu leito devastado… assim, seguimos juntos e calados, dias e noites a prantear a maldade dos homens, como eu… roubaram-te a beleza, saquearam-te as riquezas… transformaram-te nessa estrada lamacenta, a fluir, incessantemente, em direção ao mar.

Infeliz, como um amante atraiçoado, recusei continuar… e me afastei de ti, ferido mortalmente, cansado, desiludido e só.

Precisarei regressar um dia, e resgatar tua pureza, restaurar tuas vestes, trazer de volta a vida que tiveste… e então renasceremos juntos, e tu me levarás ao meu destino, que é também o teu… repousarei de novo em tuas margens, presenciando a iluminada Via Láctea, a derramar estrelas cintilantes em teu regaço, até o repositório infinito do Oceano… e encontrarei, em ti, a minha Paz!

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Natureza Selvagem

Intensas emoções, monótonas belezas… Complexos universos, paisagens imutáveis… Contemplativo campo onde as batalhas nunca terminam; não há vencidos ou vencedores, não há heróis nem coadjuvantes…
Uma garça é qualquer garça… milhares de árvores se confundem em nossa percepção limitada da realidade… tudo igualmente verde; tudo igualmente difuso…
Aqueles patos mandarins teriam sido sempre os mesmos durante toda a viagem? Não importa? A água que flui incessantemente no mesmo lugar seria a mesma água todos os dias, todas as horas, o tempo todo? Aquela que chega à foz, de onde veio, afinal?
Em nossos mundos individuais tudo tem nome, endereço, origem… e nos diferenciamos pelo olhar, pela voz, pelo movimento, pelas palavras… até mesmo pelas roupas!
Seríamos, deveras, diferentes? Mudamos constantemente durante a vida, e aquele que nasceu, no momento seguinte já não mais existe…
Quando partir não serei eu mesmo e, no entanto, aqui não deixarei meus rastros. E nada levarei, senão as recordações, as imagens registradas na memória… ou nas máquinas digitais… talvez algum pensamento ou emoção escape de mim e corra para a selva, sem que eu possa perceber. E passe, então, a viver como os outros animais…
Sentirão eles as minhas emoções?
Talvez alguém, daqui a muitos anos, ao passar por aqui, encontre os meus pensamentos, mas eles também não serão os mesmos, pois se tornaram bichos, embrenharam-se nas matas, circularam pelas mentes de outros seres e também se transformaram…
Fará algum sentido, então, esse antigo pensamento? Talvez não… pode ser até que não haja, sequer os animais… as árvores terão caído ou sido derrubadas… talvez o rio esteja seco… casas, pessoas, concreto, asfalto, poluição talvez estejam aqui, em seu lugar…
E aquele pensamento, aqueles sentimentos anacrônicos se perderão para sempre, assim como minhas recordações e as lembranças que porventura tenham de mim… e eu terei sido levado pelo tempo, pelo vento… assim como meus pensamentos…
E minhas palavras se perderão no deserto que ficou por aqui.
Infinita e monótona beleza, é por isso que não resistirás! Não há utilidade na Beleza! Beleza não se produz… Beleza não se consome… ela apenas está aí, enquanto a querem. Não vale a pena lutar por preservar a Beleza…
Por isso, quando te vi, quando contemplei tua vastidão infinita, quedei-me a teus pés e só fiz chorar… haverá, um dia, um mundo sem luz, sem cor, sem pássaros e seu cantar, sem as águas cristalinas de uma cascata, jorrando, sem cessar, o seu frescor e pureza…
Nesse mundo eu não quero estar…
por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Decisão do Olimpo!

Agora é decisão do Supremo: qualquer cidadão só poderá ser preso depois da sentença ter transitado em julgado, ou seja, quando não couber mais apelação! Do jeito que os processos (não) caminham neste país, ninguém mais será preso daqui para a frente… no entanto, a população ficará à mercê dos bandidos, engravatados ou não!

É fato que a Constituição Federal já determinava que fosse dessa maneira, e aos juízes Supremos só restava referendar essa decisão. Quando a Constituinte de 1988 decidiu pelos direitos humanos extremos, tínhamos sobre nossas cabeças o trauma da Ditadura Militar que, durante anos torturou e matou inocentes e presos políticos, que a própria Convenção de Genebra nunca conseguiu proteger!

Mas hoje, passados os anos de terror do Estado de Exceção, cabe ao Congresso e ao Supremo rever os entraves que paralisam os três poderes e, em especial, colocam em um mesmo plano os cidadãos honestos, os políticos corruptos, os empresários safados e os bandidos de toda espécie…

As decisões do Olimpo precisam considerar que nossa pátria não é apenas uma Nação de homens puros, dignos e bem-intencionados… infelizmente, uma parcela expressiva de nossa sociedade vive em função do crime, das trapaças, dos negócios escusos… e apenas uma pequena minoria é honesta o tempo todo!

Lamentável? Não, apenas a constatação da nossa triste realidade…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

A Solidão de cada um

“Oh! Bendito o que semeia
Livros … livros à mão cheia …
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar.” Castro Alves

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O Poeta não imaginava que o mundo seria inundado de livros, revistas, blogs, msn´s, orkut´s… e nessa imensidão de palavras continuaríamos ignorantes e vazios… sim, pois que a verborragia do mundo também é um mal incurável… não se pensa naquilo que se escreve! Just Copy & Paste!

E por detrás dessa convivência frenética dos chats, dos podcasts, dos universos virtuais, a solidão de cada um se exacerbou, “fechando-se em conchas” quem pensa ter amigos sinceros… tudo “ilusão passageira”, enorme engano que nos submete ao isolamento total, absoluto, em meio a tanta tecnologia digital, instantânea e sem conteúdo que valha alguma coisa…

As cidades, os grandes aglomerados urbanos são os nossos claustros, nossa prisão involuntária e inconsciente! E, na ânsia por fugir da solidão, o ser humano fala demais, escreve demais, pensa de menos… somos ilhas no infinito urbano de cada um… indivíduos, e não coletividade!

As pessoas “se amam” como nunca, em tempo algum, se amaram! Porém, é um sentimento efêmero, que dura o instante de “se conhecerem”, se beijarem, se entrelaçarem num abraço erótico… e pronto! aí terminou o relacionamento! Nada mais há a se conhecer…

Discutir o relacionamento? Para que? É mais fácil arranjar um novo companheiro a tentar compreender as razões “do outro”… não existe vida conjugal… só o EGO, imenso ego!

Na internet, o site “O Pensador” (que ironia!) exibe milhares de frases que podem ser usadas no seu dia-a-dia, para impressionar um amigo, para criar um PPT, para disseminar uma idéia de quem nunca as teve, por uma rede de pessoas que se deslumbrarão com a inteligência do brilhante colega!

Lá no site estão, em um mesmo patamar intelectual, Nietsche, Bob Marley, Fernando Pessoa e o Marquês de Maricá! A Logosofia é uma chamada para os incautos que buscam sentido em sua medíocre existência! Nas biografias, Adriana Falcão (quem será essa?), Arquimedes, Dalai Lama e Millôr!

Barbaridade! Frases de todo o tipo, que podem ser ilustradas com GIF´s animados, coloridos e… bregas! E nenhum pensamento novo! Nenhuma idéia própria!

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Pobres filósofos de nossos dias…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Mentiras da burguesia

A reação das elites aos movimentos raciais, às minorias sociais e às ações de preservacioistas evidencia o preconceito e a cólera pela perda de seus privilégios, quase sempre adquiridos pelos confiscos sociais havidos no decorrer  de nossa história burguesa.

Já na distribuição das terras do Novo Mundoprevaleceu a “generosidade” da coroa portuguesa à nobreza vadia, através da entrega de sesmarias e datas, doações para quem nunca trabalhou e nunca soube o valor do esforço humano. Depois, com a escravidão, a coisa se complicou de vez!

Vejam o que diz o jurista Ives Gandra da Silva Martins *:

Hoje, tenho eu a impressão de que o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que sejam índios, afrodescendentes, homossexuais ou se autodeclarem  pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.”

“Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior.”

”Os índios, que, pela Constituição (art. 231), só deveriam ter direito às terras que ocupassem em 5 de outubro de 1988, por lei  infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado. Menos de meio milhão de índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também – passaram a ser donos de 15% do território  nacional, enquanto os outros 185 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% dele.. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados.”

( * Ives Gandra da Silva Martins é renomado professor emérito das universidades  Mackenzie e UNIFMU e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército e presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo )

Esse argumento vem sendo usada como justificativa por todos os que defendem aqueles que desmatam a Amazônia e outros paraísos naturais, com apoio da bancada ruralista e do ex-governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, um dos maiores latifundiários e produtor de soja em territórios desmatados e incendiados pelo país!

É uma falácia! Um argumento que não se sustenta! Os índios, assim como os animais selvagens, fazem coleta e caça na floresta, sem danificar a Natureza, e eles precisam de muito mais espaço para sobreviver do que a dita “civilização branca”, que além de amontoar as pessoas nas cidades, faz um uso do solo de forma predatória e, na maioria das vezes, irreversível para a preservação ambiental. Os índios são os nossos defensores da Natureza!

Quanto às comunidades quilombolas, eu tenho certeza que o Ives Gandra nunca esteve numa delas! Eles vivem miseravelmente, na maioria das vezes, e como os índios, precisam de proteção. Muitas dessas comunidades estão inseridas em áreas de proteção ambiental, e trabalham com agricultura familiar, de sobrevivência, artesanato e outras atividades mal remuneradas.

Já as cotas das universidades, isso precisaria ser mais bem regulamentado, pois existem abusos… basta o sujeito ter a pele “lá pelas cinco da tarde” e já se acha um afrodescendente! Aliás, que palavrinha mais preconceituosa essa, “afrodescendente”! Por que não dizer simplesmente NEGRO? Sim, pois ser negro não é vergonha e dizer “Negro”, desde que com respeito, não é preconceito! É apenas uma questão da quantidade de melanina na pele…

Com relação aos países latino-americanos que fazem fronteira conosco, principalmente o Paraguai e a Bolívia, nós somos para eles o que os EUA são para nós: Imperialistas! Colonialistas! Basta lembrar o genocídio que praticamos durante a guerra do Paraguai, e que dizimou praticamente toda população masculina adulta e não descendente dos índios de lá. É por isso que eles são tão parecidos com os índios hoje em dia… desapareceram as características dos europeus…

Se nós pregamos a nossa independência e autonomia com relação ao primeiro mundo, particularmente EUA e Europa, precisamos ser, pelo menos, coerentes, e agir de forma diferente de nossos “colonizadores e exploadores”! Sermos mais solidários e menos mesquinhos!

Esses juízes que vivem no luxo e na riqueza, com salários milionários recebidos às custas dos trabalhadores comuns e da prática da extorsão do Imposto de Renda sobre os assalariados, deveriam se envergonhar de sua aristocracia e se calar, em vez de falar asneiras como essas!

E matar índio queimado, em Brasília? Isso pode para um filho de um juiz?

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Expedição pelo rio São Francisco

Quando terminamos a expedição FEAL na Chapada Diamantina, eu já sabia que algo tinha se transformado, definitivamente, em meu ser. Minhas convicções já não eram as mesmas, minhas expectativas se ampliaram, meu universo se tornou mais amplo. Isso não se deveu apenas aos desafios que enfrentamos, mas, principalmente, ao meu contágio com algo que pensei já se tivesse dissipado dentro de mim.

Foi então que decidi fazer uma experiência mais radical, definitiva, exploratória e comprometida com meu mundo exterior: e escolhi o rio São Francisco, o mais representativo de nosso país, pelas suas características de integração, por ter sido o primeiro grande rio nacional a ser descoberto e exlporado, pelas suas lendas e tradições…

Para divulgar, documentar e elaborar o planejamento da expedição, criei um blog, que agora compartilho com vocês: Meu Velho Chico. Não deixem de visitar e dar seus palpites! Preciso de sugestões, de novas idéias…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Expedição Chapada Diamantina – FEAL OBB 2008

Quando decidi fazer essa expedição não imaginava sua verdadeira dimensão e o esforço exigido: foram 4.000 km percorridos de carro em quatro dias, ida e volta, mais de 50 horas dirigindo até o nosso destino, cerca de 120 km de caminhadas, 40 km de canoagem, muito calor, incêndios por todo o Parque, muito cansaço, novas descobertas, amizades novas… um verdadeiro reencontro com meu ser primordial e mais um recomeço em minha vida de aventureiro.

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Saí de Ribeirão Preto no dia 3 de novembro e segui diretamente para São Paulo, onde se juntaria a mim o Paulo Eduardo, no dia 4, para seguirmos nossa viagem rumo à Bahia, Chapada Diamantina, nosso destino final. Chegamos a Mucugê no dia 5, já no início da noite, e lá pernoitamos, depois de visitar e fotografar o cemitério Bizantino (Santa Izabel), com suas pequenas edificações caiadas em branco, sob um grande bloco de rocha de uns 70 metros de altura.

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Passamos por Igatu no dia seguinte, onde encontramos uma área de garimpo de diamantes perfurada na rocha, quase um túnel, onde se formara um lago. Estava deserto e invadi o local com um certo receio de ser descoberto pelos seus “proprietários”, uma vez que havia uma placa nos informando que se tratava de uma propriedade privada (dentro da área do Parque Nacional!).

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Seguimos viagem até Andaraí, onde almoçamos, antes de nos instalar na Pousada Sincorá, de onde partiria a expedição na segunda-feira, dia 10 de novembro. Nosso propósito era escalar algumas rochas nos dois dias que precediam o início do treinamento. Porém, fazia um calor escaldante, havia muitos focos de incêndio por toda a Chapada, e precisávamos estar inteiros para as longas caminhadas que se seguiriam.

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Mudamos nossos planos e resolvemos descer a Ladeira do Império e caminhar em direção ao Vale do Pati no tempo que nos restava. Fizemos isso na sexta-feira, pela manhã. Já recuperados da longa viagem da véspera, saímos cedo em direção ao Pati. A descida foi cansativa, mas chegamos até a base da montanha, pela trilha, e acampamos à beira do rio, onde nos banhamos e comemos alguma coisa antes do anoitecer. Pela manhã continuamos nosso trajeto e ultrapassamos a ponte que, praticamente, delimita o Pati..

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Algumas horas depois constatamos que não teríamos tempo suficiente para chegar ao Pati e retornar a Andaraí antes do início da expedição. Retornamos daquele ponto. Subir a ladeira foi um esforço superior às nossas condições físicas. Chegamos no cume ao anoitecer, exaustos e sem água; bebíamos mais de 4 litros por dia e não havia fontes limpas para reabastecer nossos cantis a partir do início da subida. Resolvemos pernoitar por lá e finalizar a trilha no dia seguinte.

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Chegamos a Andaraí no dia 8, sedentos e estafados, e nos retiramos para nossos quartos. Precisávamos estar em perfeitas condições físicas até o final da semana. Dormi umas 12 horas seguidas; meus pés queimavam, minha cabeça doía, meu corpo todo sofria com aquela caminhada sem planejamento!

Dia 10 pela manhã já tinham chegado todos os participantes da expedição; os instrutores seriam a Mita (Mariana Candeias), uma jovem psicóloga e exímia escaladora da Paraíba, e o Tonhão (Antônio Calvo), um jovem canoísta, com treinamento no Canadá e muitas outras competências e habilidades que descobriríamos ao longo de nossa jornada.

DSCN0649 MITA

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De imediato, uma revisão de todas as coisas que havíamos colocado em nossas mochilas reduziu as vestimentas a pouquíssimas roupas, nenhum equipamento pessoal e nada supérfluo. Aprenderíamos a viver com simplicidade, como o exigiam os ambientes remotos, nosso destino. Deixei para trás várias camisetas, meias, bermudas, calças, um “talk about”, “baby wypes”, tudo o que antes me parecia completamente imprescindível para essa expedição.

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Os alimentos e equipamentos comunitários foram distribuídos por todo o grupo: fogareiros, panelas, benzina, temperos… a mochila ficou mais pesada, mas era tudo o que precisávamos para nossas necessidades nos próximos 15 dias longe da civilização. Partimos por volta do meio-dia em direção a Igatu. Os riachos estavam completamente secos e exibiam suas entranhas, cercados por uma vegetação ressecada e propícia para alimentar um incêndio.

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Estes se alastravam por todo o parque, destruindo as encostas das montanhas, lambendo as matas ciliares dos rios ressequidos, deixando atrás de si uma destruição sem precedentes… durante todo o dia ouvíamos as pás das hélices dos helicópteros sobre nossas cabeças, anunciando o drama vivido pela população local.

Acampamos em Igatu e saímos no dia seguinte após nosso primeiro café da manhã ao ar livre. A partir daí esta seria nossa rotina diária: tomar café, levantar acampamento, caminhar durante horas, parando somente para procurar e repor as águas dos cantis e “camelbacks”, procurar um bom local para acampamento, prepara o jantar, lavar as louças e dormir. Nas paradas tínhamos atividades de dinâmica de grupo, “feed-back” de nossa atuação e “debrieffing” das atividades. À noite, antes de nos recolhermos às barracas, uma pequena preleção sobre os objetivos individuais e coletivos da expedição, a missão, os valores e princípios da OBB (Outward Bound Brasil), e qualquer outro assunto que alguém do grupo quisesse trazer a todos para discussão.

Em pouco tempo os participantes se integraram e passaram a se comportar conforme as expectativas mais otimistas de nossos instrutores. Surpreendentemente, não havia conflitos a administrar, as lideranças se formavam e se desfaziam, dando oportunidade a todos de demonstrar suas habilidades na condução da trilha, sem vaidades pesoais, sem exibicionismos, sem intenção de fazer prevalecer suas opiniões sobre a dos demais.

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Seguimos em direção ao Pati e chegamos a um lugar bem degradado, conhecido como Cascalheira, onde alguns brigadistas se reuniam à noite para organizar os grupos de combate aos incêndios. Apesar das barracas que encontramos no acampamento, eles não estavam lá. Saímos pela manhã, orientados por bússolas e mapas da redondeza, conferindo com a localização dada pelo meu GPS. Passamos por terrenos repletos de arbustos com seus galhos secos e prontos para alimentar o fogo que se movia por todos os lados que nossa visão podia alcançar.

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Chegamos a um grande rio seco, desnudado pela falta de chuvas, formando canyons extensos e solitários, de uma beleza triste e devastada. Encontramos o que deveria ser uma cachoeira de uns 10 a 15 metros de altura, intransponível pela falta de equipamentos de segurança. Percorri o local em busca de uma alternativa, um outro caminho que nos levasse para baixo, sem riscos. Encontrei outro rio, afluente daquele, que precisávamos subir para contornar a queda d´água vazia.

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Seguimos até um ponto onde não havia trilhas nem picadas, e o mato se alastrava em todas as direções. Apesar do desconforto e do risco, entramos mato adentro até a beirada da montanha. O grupo ficou disperso e desfizeram-se as lideranças; devíamos tomar providências, mas os conflitos de opinião nos cegavam para o óbvio: alguém teria que assumir a liderança e levar a tropa montanha abaixo. Depois de muitas discussões, os líderes da expedição reassumiram suas posições, talvez frustrados por não ter surgido a liderança que esperavam de nós naquele momento.

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Chegamos ao sopé da montanha e retornamos por uma trilha à procura do rio que não conseguíramos transpor. Ao longe, no horizonte, as chamas destruíam os arbustos à nossa frente, evidenciando a catástrofe que se abatia sobre a Chapada Diamantina. Apesar de sua assustadora presença, aquele não era o maior foco de incêndio; soubéramos depois que as brigadas de incêndio sequer sabiam da existência desse foco, em uma área conhecida como Mar de Espanha.

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Na confluência do rio Paraguassu com aquele que margeávamos montamos nosso acampamento, com um sentimento de receio e dúvida quanto à nossa segurança naquele local. Levamos nossas preocupações ao chefe da expedição que decidiu, de imediato, levantar acampamento e buscar local mais protegido e seguro. Ficamos em uma clareira cujo incêndio nos dias que se antecederam já tinha acabado com todo o matagal ao redor. Já estava evidente a todos que não conseguiríamos transpor aquele obstáculo pelo trajeto original planejado.

No dia seguinte fomos para Mucugê, em busco de uma nova alternativa à progressão rumo ao Vale do Pati. Seguimos para Guiné, pequeno povoado aos pés da fortaleza de montanhas que se estendiam por quilômetros nos limites do parque e protegiam o Pati em seu interior. Acampamos ao lado de uma escola e as crianças se divertiram a tarde toda, assistindo as nossas atividades, às representações teatrais e às aulas preparadas pelos alunos, conforme orientação da OBB.

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Saímos no dia seguinte pela manhã, em direção às montanhas que tínhamos que transpor. Seguimos por uma trilha muito bonita, protegidos do sol e do calor pelas nuvens que se formavam no cume da montanha e prometiam uma melhora das condições climáticas, o que só se efetivaria muitos dias depois. Chegamos ao planalto algumas horas mais tarde, cansados mas reconfortados por termos tomado essa decisão: o trajeto era muito mais bonito, estava longe dos incêndios e podíamos, finalmente, ter certeza de que, naquele mesmo dia, avistaríamos o Pati.

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Chegamos a um mirante que dominava toda a paisagem ao redor: lá estava o Pati, majestoso e gigantesco, sob nossos pés, à nossa frente, cercado de montanhas, coberto de uma vegetação viva e perene, sobre a qual rasgavam-se as trilhas que percorreríamos a seguir. Depois de uma sessão de lanches e fotografias, começamos a descida por uma pirambeira perigosa e escorregadia e, depois de uma hora de desescalaminhada, atingimos o Vale do Pati!

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Seguimos pelas trilhas, passando por casas de moradores que viviam lá desde antes da criação do parque. Eram os guardiões das matas, protetores da fauna e da flora riquíssima dessa região fantástica e bela. Finalmente, encontramos o local onde pretendíamos acampar e onde ficamos por duas noites, à beira de um riacho de águas transparentes e geladas. Este seria nosso refúgio para desvendar alguns segredos da mata ao nosso redor.

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No dia seguinte, pela manhã, partimos com a carga mínima, para escalar o Castelo, uma montanha majestosa, da qual pretendíamos avistar todo o vale, antes do entardecer. Havia uma pequena caverna, pela qual passamos para atingir o outro lado da rocha. Aproveitei a oportunidade para dar algumas informações a respeito da gênese das cavernas, suas principais formações e ornamentos, tipos de rochas, animais que as habitam, sua importância científica, cultural e cênica.

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Do alto da montanha visualizamos uma pequena cachoeira, a do Funil, que iríamos visitar ao descer, depois do tradicional lanche e da sessão de fotos. À beira do abismo, balançando-se ao vento em um pequeno galho, um rato comia as folhas, agarrado apenas pela cauda, e indiferente ao perigo que corria.

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A cachoeira era pequena, tinha pouca água, mas foi o suficiente para nos refrescarmos e nadar no poço formado à sua frente. Finalmente, voltamos para o acampamento, executamos nossas rotinas habituais e nos retiramos para descansar. No dia seguinte deixaríamos aquele local, dando início ao nosso retorno.

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Saímos cedo e, em poucas horas, chegaríamos a uma ponte onde pretendíamos acampar ao fim daquele dia. No meio do trajeto paramos para um lanche e assistimos a uma apresentação de técnicas adaptadas de salvamento, utilizando recursos de nossa própria bagagem e de materiais encontrados no local de um suposto acidente. Juntamente com as lições de navegação, leitura do clima e técnicas de salvamento no mar, esses depoimentos acrescentaram o sabor e o tempero da expedição.

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Chegamos à ponte bem cedo, com bastante tempo para montar o acampamento, assistir a outras preleções de nossos instrutores e, ainda, tomar banho no rio Pati. No dia seguinte iniciaríamos o retorno a Andaraí. Ainda havia uma decisão a tomar: voltar pela Ladeira do Império, enfrentando o calor, a forte aclividade do terreno e a falta de fontes de água no caminho, ou procurar um novo trajeto, menos íngreme e com boas alternativas de acampamento e fontes de água.

Decidimos seguir pelo leito do rio Paraguassu e por trilhas às suas margens, que sabíamos existir pelos relatos de nativos. Logo encontramos uma trilha, bem fácil de seguir, que começou na margem esquerda do rio e logo o atravessou, seguindo pelo outro lado. Encontramos a casa de mais um morador local, que nos alertou para os riscos de ataques de abelhas e para a extensão da trilha. Seguimos adiante, mais cautelosos e atentos aos insetos. Felizmente, nada aconteceu.

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Andamos durante todo o dia; procurávamos um acampamento de garimpeiros, onde sabíamos existir uma boa área para o pernoite. Já escurecia quando, finalmente, aqueles que seguiam adiante encontraram a casa de garimpeiros, protegida por rochas altas e farta vegetação. Era um excelente local, e acampamos. À noite, um banho coletivo de rio, com direito a observação do céu, brincadeiras descontraídas, e um jantar agradável sob a luz da lua cheia.

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No dia seguinte, nossos líderes nos abandonaram: deveríamos conduzir o grupo sem a presença deles, tomando decisões sozinhos e seguindo até a ponte sobre a rodovia que liga Andaraí a Mucugê. Eles se atrasariam e seguiriam depois. Deveríamos nos reencontrar na cachoeira da Donana. Depois de uma longa caminhada, chegamos à Donana e qual não foi nossa surpresa ao encontrá-los lá, à nossa frente, inteiros, como se não tivéssemos percorrido o mesmo terreno!

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Refeitos da surpresa, tomamos um lanche e retornamos a Andaraí. Fizemos compras de frutas e legumes e seguimos para o Marimbus, um pantanal com muitas semelhanças ao mato-grossense. Lá ficaríamos acampados em uma fazenda, aprendendo a manobrar um barco canadense que deveria ser utilizado nos dias restantes da expedição, rumo ao Poço Azul, onde seríamos resgatados, ao final de 14 dias de caminhada e remo, levados de volta à fazenda e, depois, à pousada, onde terminaria o nosso treinamento. Mas não chovera um só dia durante mais de uma semana que caminháramos… como encontrar água para remar?

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Surpreendentemente, ao chegarmos ao Marimbus, a chuva despencou sobre nós. Fizemos um treinamento de técnicas básicas de canoagem no primeiro dia, e retornamos ao acampamento. Porém, aquela noite ainda nos reservava uma surpresa: durante todos aqueles dias que se antecederam carregamos uma lona, que era utilizada para cobrir o solo nos serviços do café da manhã, almoço e jantar. Também servira para nos sentarmos durante as preleções e aulas de yoga e, ainda, para dormirmos ao relento, quando as condições do local assim o permitiam. Havia, no entanto, outra função para as lonas…

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Naquela noite fomos informados que dormiríamos ao relento, sem barraca, apenas com a lona para nos servir de abrigo. Isso não teria sido problema se o tempo não tivesse decidido complicar as nossas vidas: logo antes de sermos “expulsos do paraíso”, uma forte tempestade caiu sobre nós! Tivemos que seguir sob a chuva e fomos deixados, um após o outro, em pequenas clareiras no matagal, apenas com a lona, um lanche que fizéramos às pressas, isolantes térmicos e sacos de dormir, lanterna, apito e uma folha de papel sulfite, onde deveríamos registrar nossos pensamentos sobre a experiência do FEAL em nossas vidas.

Essa carta seria endereçada a nós mesmos, seis meses depois de encerrada a expedição.

A chuva, os mosquitos, as formigas, o frio e o isolamento foram nossos companheiros da noite insone. A carta foi escrita e eu nem me lembro o que registrei na folha de papel. Voltamos ao acampamento na manhã do dia seguinte, sob a chuva que teimava em cair, e demos início à segunda parte de nosso treinamento: descer o rio Santo Antônio, passar para o Paraguassu e seguir até o Poço Azul, cerca de 40 km abaixo da Fazenda Marimbus. Remar, agora, parecia-nos a mais leve das atividades, não fora um imprevisto: as lagoas do Marimbus não se conectavam devido aos baixos volumes de águas nos seus rios formadores.

Após pouco tempo de navegação nos encontramos diante de um obstáculo bizarro: um trecho de mais de cem metros de terreno coberto pela vegetação aquática que nascia sobre uma profunda camada de lama, repleta de caramujos. Achei, de imediato, que voltaríamos, pois me parecia irracional nos arriscarmos a um contágio com o principal vetor de esquistossomose: o caramujo dos pântanos.

Mas não paramos por aí. Amarrando as cordas de todos os barcos umas às outras, foi improvisado um processo de arrasto para puxar os barcos sobre aquela vegetação que agora me parecia nojenta, enquanto os outros rastejavam na lama, empurrando os barcos. Não sei quanto tempo durou aquela atividade insana, mas os barcos transpuseram, finalmente, o obstáculo e, agora, estavam livres para navegar rio abaixo.

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Essa atividade de canoísmo foi uma das mais agradáveis da expedição, exigindo pequeno esforço e possibilitando um forte entrosamento dos participantes. Fizemos dois acampamentos ao longo do rio, acompanhando de perto o crescimento de suas águas, o que nos garantiu chegar ao destino, Poço Azul, final de nossa inesquecível expedição. Provavelmente, essa terá sido uma de minhas melhores experiências em ambiente natural. Das lições que me ficaram, um conceito se esclareceu, definitivamente em meu pensamento: “leave no trace”! Deixamos a Natureza como a encontramos… nossos filhos agradecerão!

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Lembrei-me de um pensamento, cujo autor desconheço: “La Tierra no es una herencia de nuestros padres, sino un prestimo de nuestros hijos!”

Descansei feliz e realizado…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica

Feliz dia de Hoje!

Dizem os discípulos de Budha: o que importa é “o aqui e o agora”. Muito se tem repetido esse aforismo, embora pouco se tenha meditado a respeito de seu pleno significado.

Não vou cansá-los tentando explicar o que me parece óbvio! Mas sei que o passado já foi escrito e o futuro ainda está por se registrar nas páginas das nossas vidas… só o presente está “aqui e agora”, pronto para ser degustado, experenciado, vivido em toda a sua plenitude! Ou então, deixado à sua própria sorte, passando ao largo de nossos olhos, de nossos pensamentos, de nossos sentimentos e ações possíveis!

[Aparados] Canyon Fortaleza - comemorando com lote 43 0036

Brindemos, pois, ao presente, que só ele nos pertence!

E à Natureza, que preserva nossa pureza, ingenuidade, simplicidade e beleza, únicas e incomparáveis! Saudemos esse Universo que nos envolve, com suas miríades de estrelas que cintilam em nossos olhos, turvos de civilização e de conflitos, obscurecidos pela brutalidade trazida pelos próprios homens à sua cotidiana vida… não é a violência das selvas que nos assusta, e sim a escuridão da alma humana, embaciada pelos vícios e ambições terrenas…

Sempre que mais um ano se completa em nossas vidas, percebemos a grandeza do Cosmo diante de nós, mas, ainda assim, continuamos apegados demais às fraquezas, que seduzem mais do que o entardecer… Não quero antever os dias que virão, com promessas que não sei se cabem em minhas possibilidades futuras… quero, apenas, viver o que o tempo me oferece a cada dia…isso me bastará sempre!

Desejo, portanto, àqueles que se importam comigo, e àqueles a quem entrego meus pensamentos, um feliz dia de hoje, a cada novo amanhecer…

por João Carlos Figueiredo Postado em Crônica