O dia em que o Sol não nasceu

[Diamantina FEAL] Incêndio na Chapada 1032 Naquela noite fomos todos dormir cedo. Havíamos caminhado o dia todo, a mochila pesando em nossos ombros… e o deslumbramento, ainda, da caverna que enchera nossos olhos! Não esperava encontrar uma gruta no alto da montanha, em meio àquela mata fechada e diante da paisagem que se estendia por quilômetros à nossa frente… era uma pequena travessia e nos levava ao outro lado do Castelo, como se conhecia esse local privilegiado, no meio do vale do Pati.
Montamos nosso acampamento à beira de um regato, próximo a uma daquelas casinhas rústicas que dominam o vale com sua singela beleza… o jantar foi preparado em grupo, como de costume, e conversamos longamente, ainda extasiados pelo cenário que se registrou em nossas mentes. Seria difícil dormir com toda essa excitação, apesar do cansaço. Mas a noite veio lentamente pelo vale, escondeu o sol por detrás de suas paredes, e trouxe consigo uma brisa suave e refrescante.

Adormecemos…

Já era tarde quando eu despertei; mas me pareceu noite… a escuridão era total! Olhei em meu relógio: 10:22 horas! Não é possível, pensei!… estava tão escuro que precisei utilizar a lanterna, apesar das estrelas que tomavam toda a abóbada celeste. Olhei com deslumbramento para a Via Láctea, um rastro de névoa branca percorrendo o céu de um lado a outro.

Olhei ao meu redor e só então percebi que todos estavam de pé, igualmente perplexos com aquela noite em pleno dia, olhando para o céu, incrédulos como eu. O que significava isso? Por que o Sol não cumpriu sua obrigação de nos trazer de volta o dia?

Aos poucos, meus olhos se acostumavam com a escuridão e eu já podia perceber melhor as sombras e contrastes da Natureza ao redor. Mas notei, também, estupefato, que animais noturnos não se recolheram, e aqueles de hábitos diurnos saíram de suas tocas e esconderijos e não sabiam o que fazer. Cheiravam o ar e se entreolhavam; moviam-se com receio e permaneciam afastados das trilhas, como a pressentir que algo errado estava acontecendo.

Não podíamos desmontar o acampamento, mas também não tínhamos como ficar inertes ali, sem saber o que se passara durante aquela noite prolongada. Preparamos nosso café da manhã na expectativa de que tudo se esclarecesse com o evoluir das horas. Podia ser um eclipse?

Já era meio-dia quando decidimos partir, mesmo no escuro, e tentar contato com a civilização que deixáramos há mais de 10 dias, no início de nossa viagem. Era difícil caminhar pela mata à noite, mas tínhamos nosso GPS e a carta topográfica da redondeza. Só não podíamos nos afastar demais das trilhas, para não complicar ainda mais nossa situação.

Caminhávamos lentamente… agora tanto fazia a hora de parar e montar acampamento! Fazíamos pequenas paradas para descansar, comer e reidratar. Quase não conversávamos, pois estávamos assustados e temerosos diante desse fenômeno inexplicável. Tentamos nos manter nos vales dos rios, seguindo no sentido de sua correnteza. Certamente ele nos levaria para algum povoado, embora isso não mudasse em nada essa estranha realidade.

Para não perder a noção do tempo, anotávamos as horas e a localização em cada parada. Seguimos assim por três dias, acampando quando encontrávamos uma “clareira” (essa palavra perdera o sentido diante dessa situação), até chegar a Guiné, um pequeno povoado, um distrito de Mucugê. Pelo relógio eram três horas da madrugada, mas as ruas estavam repletas de pessoas assustadas e incrédulas. As beatas rezavam, de terços nas mãos; as crianças corriam de um lado para outro, achando graça da liberdade de estar na rua a essa hora da noite; as lojas e bares funcionavam, pois os comerciantes se aproveitavam para vender mais; os bêbados faziam a maratona 24 horas de embriaguez!

A polícia e as autoridades não sabiam o que fazer! A televisão não funcionava e as linhas telefônicas estavam tão congestionadas que ninguém conseguia completar uma ligação. Carros de som bradavam o “fim do mundo”, enquanto grande parte da população chorava e gritava palavras desconexas, às vezes xingamentos sem nenhum propósito!

Curiosamente, no horizonte havia uma tênue luminosidade avermelhada, como se os raios de sol procurassem uma fresta para voltar à vida… não havia essa luz quando estávamos nas trilhas… será que tudo voltaria ao normal? Os cães ladravam nervosos, atacando todos que aparecessem à sua frente; o delegado mandou matá-los, mas a população não permitiu.

As notícias que chegavam, esporadicamente, das poucas ligações completadas, eram contraditórias e apavorantes! Alguns diziam que o mundo inteiro mergulhara nas sombras; outros, que a Terra se desprendera de sua órbita e vagava pelo Universo sem controle; outros ainda diziam que espíritos malignos desceram à Terra e buscavam as almas depravadas para levá-las para o Inferno! O pânico se alastrava e bandos de desocupados invadiam as lojas, levando tudo o que podiam: comida, roupas, aparelhos elétricos… mas levar para onde? levar para que?

Alto-falantes foram instalados nas ruas e mensagens de ordem eram pronunciadas continuamente, tentando restabelecer a tranquilidade à população. Mas não adiantava; os próprios locutores denunciavam seu pânico na voz balbuciante. Os mais preparados tentavam organizar grupos de defesa civil, arregimentando pessoas mais controladas. Porém, não havia tempo para que esses grupos se entendessem e formulassem planos eficazes diante do desconhecido.

Foi nessa situação que chegamos a Mucugê, horas depois, levados por uma kombi velha conduzida por um motorista apavorado. O veículo sacolejara tanto que estávamos todos enjoados e doloridos. Mas era preciso seguir para um lugar com mais recursos, pois sabíamos que em Guiné não tinha o que fazer para controlar a situação.

Para nossa surpresa, os moradores de Mucugê estavam tranquilos e conversavam animadamente nas ruas e praças da cidade. Procuramos o prefeito e relatamos o caos de Guiné e buscamos informações sobre o fenômeno sobrenatural. Apesar da aparente tranquilidade, ninguém podia esclarecer nada! O mundo estava mesmo na escuridão!

No quarto dia, um fraco sinal de tevê podia ser captado. Uma tela foi colocada na pracinha e o povo se reuniu diante daquele ícone, como se fosse um altar, um oráculo que, a qualquer momento, traria um esclarecimento lógico, uma explicação científica ou religiosa para a escuridão do mundo… mas os noticiários eram tão confusos quanto o povo!

O tempo se passava e os mantimentos escasseavam nas prateleiras. Já não havia muitos bens essenciais e a população tentava sobreviver com coisas mais simples, como sementes, leite em pó, frutas, verduras… os animais haviam sido abatidos e devorados nos primeiros dias, em um ritual satânico impressionante, que nada deixava a dever para Fellini, em Satyricon! Os que sobraram fugiram dos cercados, ou foram libertados pelas almas bondosas…

Dez dias depois do anoitecer já não havia água potável nas torneiras; os riachos foram contaminados pelos dejetos lançados, pois não havia nenhum serviço público que funcionasse: coleta de lixo, saúde, segurança, educação, transporte… tudo sucateado em meio a preocupações com o pânico cada vez mais violento! Assassinatos, saques coletivos, brigas violentas se sucediam e tornavam quase impossível a vida nos aglomerados urbanos.

Nós fugimos de Mucugê enquanto era possível, e nos refugiamos no leito seco de um rio; mudávamos de lugar continuamente para evitar que fôssemos descobertos. Mantínhamos vigília o tempo todo, alternando as sentinelas, enquanto os demais cuidavam de nossa sobrevivência. Nossos mantimentos também escasseavam, mas conseguimos montar um plano de baixo consumo e de coleta que ainda nos sustentava. Não podíamos fazer nada além disso.

Uns trinta dias depois que o fenômeno aconteceu, o mau cheiro se alastrava pelo ar, cada vez mais próximo de nós. Nos lugarejos, queimavam corpos em fogueiras para evitar epidemias. As mortes por violência diminuíam na medida em que a população quedava adoecida e fraca, a ponto de não mais lutar pela própria vida. Usávamos lenços improvisados sobre o rosto para reduzir o risco de contágio e prolongar a vida, ainda esperançosos de que tudo teria um fim.

Sabíamos que o Sol estava em algum lugar; que a Terra não se afastara de sua órbita; caso contrário, já teríamos morrido de frio. Nossas teorias eram extravagantes e, não fosse a trágica situação, até engraçadas… dizíamos que a Natureza se sublevara contra a agressão do Homem e escondera o Sol em suas matas, nas cavernas ou nas profundezas do oceano…

Para alguns de nós, até fazia sentido… durante nossa caminhada, antes do escurecer, constatamos, inúmeras vezes, a marca da degradação causada pelo homem, nos rios, na extinção das espécies animais e vegetais, nas montanhas… é claro que não havia um deus das florestas, mas estávamos sendo punidos, de alguma maneira. Contar casos e elaborar hipóteses para a escuridão era nosso único entretenimento, fora a busca incessante por comida.

Não sei quanto durou a escuridão. Nós também morríamos lentamente e, depois de algum tempo que me pareceu a eternidade, eu estava só, dentro daquela caverna, no alto da montanha. Às vezes saía para olhar o horizonte: as chamas devastavam tudo que sobrou e iluminavam a paisagem. Voltava para dentro e não fazia nenhuma diferença; havia muito tempo que minhas baterias se acabaram e eu estava na completa escuridão. Aprendi o caminho, instintivamente, de tanto percorrê-lo, e encontrava com facilidade o leito preparado nas pedras. Aos poucos, desanimei de viver e de esperar… e resolvi ficar aqui dentro até que tudo se consumasse… acho que essas serão minhas últimas palavras…

Na boca da caverna, a silhueta de um felino me observa.

 

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por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Pequeno Conto que virou Lenda

“Seu” José era um homem rude, sem fé. Morava sozinho à beira do rio desde que sua mulher, Donana, falecera, havia muitos anos. Não tiveram filhos. Vivia daquilo que a Natureza lhe dava. Às vezes caçava uma capivara, outras pescava um surubim na canoa a remo que ele mesmo construíra.

Não tinha luxos em sua casa; nem geladeira ele possuía, pois acreditava que nunca lhe faltaria o que comer… Também não plantava. Não queria ter a responsabilidade de cultivar a terra, plantar, cuidar, colher, estocar… Apesar disso, não era um homem preguiçoso. Com seus quase setenta anos acordava com o nascer do sol e cuidava de seu pequeno rancho, onde tudo funcionava e tinha uma razão de existir, que só mesmo ele conhecia.

Cuidava de suas próprias roupas, costurava, remendava e as mantinha limpas e arrumadas. Nunca passara nenhuma roupa, pois achava perda de tempo. Não se ausentava do rancho senão para pescar ou caçar. Frutos ele colhia das árvores de seu pomar, quando havia.
Nunca recebera ninguém em sua casa e todos dele se afastavam com receio de seu temperamento.

Mas “seu” José também tinha as suas manias, crendices, esquisitices, que só mesmo ele saberia explicar, caso falasse com alguém. Viram-no, certa feita, dependurando as penas de uma garça que abatera e comera, uma por uma, no arame farpado da cerca que instalara defronte ao rio.

Deixou-as lá por alguns dias e depois retirou cada uma delas, cavou vários buracos ao longo da cerca, e as enterrou, como em um ritual.
Dos animais que caçava guardava os ossos, mantendo, sabe-se lá como, o esqueleto perfeito e limpo. Via-se da janela uma prateleira repleta deles. Quando aparecia a lua cheia ele se plantava nu sobre o telhado, e permanecia agachado, olhando atentamente para o céu, até que o astro desaparecesse no horizonte.

Ele vivia tão só que se imaginava que já nem soubesse falar direito. No entanto, ouvia-se noite adentro seus resmungos e lamentos, quase um cântico funesto e triste. Às vezes o viam proferindo palavras incompreensíveis em direção ao rio.

Um dia ele desapareceu; saiu com sua canoa e não voltou mais. Acreditava-se que tinha morrido, ou tenha ido embora para outro lugar.
Passaram-se os dias, semanas, meses, e nada do “seu” José. O rancho estava abandonado, a cerca despencara, o telhado já apresentava buracos das telhas que caíram, o mato se alastrava por toda a parte e temia-se que as cobras e outros bichos tomassem conta do lugar e acabassem por passar para as propriedades vizinhas.

Resolveram, então, os seus vizinhos, ir até à sua casa e tentar compreender o que poderia ter acontecido, tomando alguma providência para limpar aquela imundície.

Em um dos armários todas as gavetas estavam repletas de folhas manuscritas com poemas incompreensíveis: eram palavras desconhecidas, porém com rimas, métrica e ritmo! Não havia como compreendê-las…

Lembraram-se das penas da garça, enterradas no quintal, próximo à cerca. Por curiosidade as desenterraram; estavam todas recortadas, em forma de desenhos estranhos. Parecia terem um código secreto registrado nesses formatos. Junto a elas havia embalagens vazias…
Mas não conseguiram decifrá-lo… e esse mistério só fez aumentar a lenda sobre o velho pescador. Com o passar dos anos, cada esquisitice encontrada no rancho se tornava uma história, incluindo assassinatos, tesouros, rituais satânicos, esquizofrenia…

“Seu” José era um homem simples e não sabia ler nem escrever. Apenas tentava copiar palavras de antigas revistas de poesia que sua mulher colecionara ao longo dos anos. E recortava as penas das garças, imitando os códigos de barras das embalagens encontradas no rio…

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

A Cachara

Minha mãe estava prenhe de mim quando meu pai morreu. Estava quase pra parir e ainda ia, todas as manhãs, bem cedinho, na barranca do rio, ver as “pindas” que tinha deixado lá no fim da tarde… pegava sempre alguma piranha, às vezes um bom surubim, raramente um dourado… mas dava pra ela dar de comer pra meus seis irmãozinhos; o mais velho tinha nove anos, e ficava tomando conta dos outros enquanto ela estava no rio ou cuidava da horta no fundo do sítio.

Naquele dia que eu nasci, minha mãe estava na beira do rio, tirando uma cachara grandona que se enroscara na rede deixada na corredeira; ela lutava com o peixe, ainda vivo, e tentava arrastar a rede, presa nos entulhos e cheia de galhos quebrados; a única coisa que prestava era aquela cachara!

De repente, com a força que fazia pra puxar a rede, eu nasci! Pois é, não consegui me segurar lá dentro, e caí no barranco, rolei pra dentro do rio, levando a mãe comigo… ela ainda conseguiu se segurar nas raízes de uma árvore e me puxou, pelo cordão, me segurou pela cabeça, e me arrastou pra cima do barranco, como se eu fosse a cachara deixada na rede lá embaixo!

Não me lembro nada disso; foi ela que me contou depois, rindo da minha desgraça de nascer desse jeito desajeitado! Todo mundo me gozava, dizendo que eu nasci de uma cachara! Assim ficou o meu nome: Maria das Dores, a “Cachara”! Nunca me livrei do apelido e hoje sou apenas a Cachara…

Cresci quase sem cuidados, sujinha no meio daquela molecada danada de ruim comigo! Era como se eu fosse uma boneca de pano, levada pra todo lado, que minha mãe não tinha tempo de me cuidar mesmo: estava sempre lidando na horta, limpando seus peixes, fazendo comida, lavando roupa, varrendo a casa… e eu lá, pendurada no colo dos moleques, como um brinquedo velho!

Minha mãe morreu quando eu tinha oito anos. Quase não me lembro dela… só da trabalheira danada que ela tinha pra manter seus sete filhos: seis meninos e eu. Ela nem se dava conta da gente, atarefada de dia, cansada demais de noite pra ter disposição de olhar pra gente… coitada!…

Mesmo assim, sinto falta dela… depois que ela morreu, meus irmãos mais velhos cuidavam de tudo, meio desengonçados, pois ela nunca preparou a gente pra viver sem ela. Ninguém sabia pescar, ninguém sabia nadar, ninguém sabia cozinhar… só o que sabíamos era lavar as louças, as roupas, limpar o quintal e varrer a casa, porque isso minha mãe deixava pra gente cuidar.

Ela morreu afogada, quando um dourado puxou a rede com ela junto, pra dentro daquela lameira toda, que corria com as águas do rio… ela não sabia nadar. Meu pai também morreu no rio, só que de morte matada; um jagunço cismou que ele era o sujeito que tinha contado pra polícia sobre um crime que cometeram lá em Doresópolis. Ele ficou preso dez anos e depois voltou pra matar meu pai. Nunca me disseram se ele tinha mesmo entregado o assassino…

Crescemos juntos até que meu irmão mais velho resolveu ir embora. Ele disse que ia cuidar da vida, que “aquilo não era vida” pra um homem feito! “Aquilo” era a gente: cuidar da gente, pescar e fazer as vezes da mãe que nunca tive… mas isso ele também não fazia. Nunca mais voltou.

A gente aprendeu mesmo a se cuidar depois que ele se foi. Aprendi até a pescar e fiquei boa nisso. Peguei muito peixe naquele rio; era eu também que fazia a comida e lavava as roupas, porque “isso é trabalho de mulher”, eles me diziam, rindo da “Cachara”! Eu só não pescava cachara; quando elas se enroscavam na minha linha eu jogava de volta pro rio, que já bastavam as piadas que eu ouvia…

Meus irmãos também se foram por esse mundão de Deus; cada um, do seu jeito, saiu, assim, de repente, sem se despedir, que a gente não era mesmo de muitos agrados e chamegos. Fui ficando sozinha, ali no meu rancho, envelhecendo sem ninguém do meu lado; nunca soube o que era o amor, que pai não conheci, e minha mãe não encontrou mais ninguém depois que o pai se foi.

Hoje me olho nas águas do Velho Chico e vejo minha mãe, estampada no meu rosto. Sou igualzinha a ela, rosto fino, enrugado dos anos, pele seca e desbotada, olhos tristes e quase se fechando… nem me cuido direito, vivo com meus trapos velhos, perambulando pela plantação abandonada, ou conversando com meus peixes na barranca do rio; às vezes pego um deles e me desculpo antes de cozinhar, porque preciso viver… preciso viver? Não sei o que isso quer dizer…eu sou apenas a “Cachara”, preta velha e cansada, sem saber porque nasci…

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

O Morro do Pai Inácio



Há três dias aguardávamos que o tempo nos desse uma trégua para a tão esperada trilha da cachoeira da Fumaça, mas chovia todas as noites… de manhã, aquela lama! e os rios já estavam saindo de seu leito…

Mas não perdemos a viagem, pois cada local da Chapada era uma nova descoberta: cachoeiras magníficas, cavernas ricas em espeleotemas, paisagens saídas de cenários… e muito sol durante todo o dia!

Hoje acordamos ainda com o barulho da chuva caindo nas árvores do jardim da pousada, o canto dos pássaros e uma disposição incrível para caminhar! Porém, nosso guia mostrava-se irredutível: um dia inteiro sem chuvas, ou não haverá trilha! Sabíamos que ele tinha razão; afinal, seriam três dias de caminhada até o alto da Fumaça, e os rios ainda não tinham voltado para seus leitos.

Teríamos que nos conformar com mais um passeio… Optamos pelo Morro do Pai Inácio.

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Diz a lenda que um velho escravo vivia atormentando seu “proprietário” com suas artimanhas amorosas. Já passando dos 50 anos, a cabeça grisalha e o rosto afilado, barbas brancas, corpo atlético e um olhar penetrante faziam-no um personagem atraente para as jovens da fazenda.

Conhecido como Pai Inácio, o bom escravo caiu em desgraça quando a própria filha do fazendeiro se engraçou com ele e o caso foi parar nos ouvidos do patrão, que ficou furioso! "Como? Minha própria filha???"

Condenado à morte, o velho fugiu pelos campos, perseguido pela milícia armada, com ordens para dele trazer apenas a cabeça decepada! Mas Pai Inácio era matreiro e muito ágil! e conhecia como ninguém as paragens da Chapada.

Por ali andara sua vida inteira, desde criança quando fora trazido da África em um daqueles navios negreiros.

Seus pais não suportaram a viagem e foram jogados ao mar, com soía acontecer às “cargas” que se perdiam no transporte através dos oceanos traiçoeiros. Sozinho, logo aprendeu as manhas da sobrevivência nessas terras de ninguém, em que os donos das fazendas eram também os donos das vidas de seus escravos.

Esperto, conquistou a admiração e o respeito do seu senhor, sendo por muitos anos o seu predileto, aquele a quem ele delegava as tarefas mais delicadas, servindo mesmo como apaziguador dentre sua gente.

O fazendeiro não gostava dessas conquistas de Pai Inácio, mas fazia vistas grossas às suas aventuras amorosas… isso até que a própria filha se encantou com o negro! Isso também já era demais! A sua própria filha? Teria que ser punido exemplarmente para evitar o escárnio dos demais!

Correndo pelos campos, contornando morros, fugindo dos implacáveis cães que o farejavam noite e dia sem descanso, finalmente o velho foi cercado ao sopé de um morro muito alto e imponente. Não tendo como despistar seus caçadores, sobe o velho pelas encostas do morro, perseguido de perto por seus algozes. E quando chega ao topo, percebe que não tem saída.

Para não se entregar, salta para a morte! Que decepção para os caçadores! O que dizer ao fazendeiro? Que o velho sumiu? Evaporou nas fumaças que subiam pelo entardecer, ocultando o precipício onde saltara o escravo?

A noite chegava e eles não poderiam ficar lá, e nem adiantaria, pois nada poderia ser feito naquele lusco-fusco. Voltaram morro abaixo, prometendo retornar antes do sol nascer para procurar o corpo do velho escravo, que deveria ter-se despedaçado nas rochas. Precisavam encontrá-lo antes que os animais de rapina o devorassem.

No dia seguinte, conforme combinado, lá estavam eles rodeando o morro à procura da caça, cortando mato, andado com dificuldade naquele terreno difícil onde ninguém nunca pisava, por falta de um motivo convincente.

Andaram durante horas, pela manhã e pela tarde, sem descanso, mas nada havia naquele lugar desagradável… o que dizer ao patrão? Que deixaram o velho desaparecer como fumaça e que não poderiam comprovar sua morte?

Dizem que os capangas do fazendeiro foram severamente punidos com chicotadas, mas nunca ninguém encontrou os restos do velho Pai Inácio. Na falta de evidências, as lendas surgiram… hipóteses variadas tentando explicar o desaparecimento do pobre coitado.

Uns diziam que ele saltara com um guarda-chuva, e que pousara suavemente no pé do morro e fugira para bem longe, conquistando outras mucamas por onde passara…

Outros contavam que ele se evaporou na neblina da tarde e se transformou em um fantasma que todas as noites voltava para o morro, a assustar os incautos que eventualmente por lá se aventurassem…

Outros ainda havia que perceberam que, logo abaixo do ponto de onde saltara o esperto escravo, uma plataforma se estendia por uns 20 metros, larga o bastante para que ele se escondesse e fugisse dos “cabras” do patrão.

Esses também diziam que Pai Inácio teria voltado à fazenda e se encontrado com a jovem moça por quem se apaixonara, e a esta engravidou. Passados nove meses, ninguém sabia explicar o fruto moreno que nasceu desse amor.

Dizem, ainda, que o pai da moça nunca a perdoou; e ela, caída em desgraça, foi cuidada pelos escravos, vivendo na senzala pelo resto dos seus dias. Há ainda aqueles que dizem que a jovem se matou de tristeza…

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Saímos lá pelas nove da manhã, depois de um delicioso café servido pela dona da pousada, e nos encaminhamos para o Morro do Pai Inácio. De longe, sua silhueta incrível se projetava no horizonte, contrastando com o Morro do Camelo e outras formações típicas das “mesetas” Diamantinas.

A subida do morro é leve e fácil de ser percorrida. Chegamos ao topo em poucos minutos, e logo nos deparamos com a imensidão dos campos ao redor! Dezenas de quilômetros de morros, quase todos isolados, povoando aquele deserto deslumbrante! Milhões de anos de formações rochosas esculpidas pelos ventos, ornando nosso universo visual incomparável! Em seu cume, o morro é chapado e circular, como aparenta ser de baixo.

Vegetação escassa, mas rica em variedades típicas dos campos de altitude daquela região: um tipo de cacto conhecido como xique-xique prolifera em todo o espaço, entremeado por pequenos arbustos com delicadas flores brancas e vários pequenos lagos formados pela água das chuvas… No local onde, supostamente, o Pai Inácio pôs fim à sua vida, um enorme cruzeiro de ferro demarca o terreno.

De fato, ao chegarmos à beirada, nos deparamos com aquela marquise natural, pouco mais de um metro e meio abaixo… se fosse noite, em meio ao nevoeiro, certamente passaria despercebida. E a vista de lá é algo indescritível!

Depois das sessões de fotos, nos sentamos em círculo e conversamos muito com nosso guia, que nos contou em detalhes todas aquelas lendas. Foi então que surgiu a idéia de pernoitarmos lá e aguardarmos a chegada do fantasma do pobre escravo! E essa idéia meio estúpida logo conseguiu tantos adeptos que o guia também se entusiasmou.

Só havia um problema: lá embaixo, antes de subirmos, pagamos uma taxa de turismo para o dono do morro! Como pode alguém ser dono daquele morro? Bem, teríamos que descer e voltar bem no final da tarde, com barracas e sacos de dormir, e esperar que os guardas do Pai Inácio fossem embora, antes de retornarmos até o topo da montanha.

E foi assim que aconteceu. Lá pelas cinco da tarde estávamos de volta. Como não era um período de alta temporada, os guardas já tinham ido embora, certos de que ninguém voltaria por lá nesse horário. Daí, para pular a cerca e subir o morro foi uma questão de minutos. Armamos nossas barracas e nos preparamos para um jantar sob as estrelas.

Sim, para nossa sorte, aquele dia não choveu, e o céu estava cravado de pequenos diamantes luminosos, piscando incessantemente. Enquanto comíamos uma macarronada feita no pequeno fogareiro, conversávamos sobre as mais prováveis hipóteses de desfecho da história do Pai Inácio.

Na verdade, nenhum de nós acreditava mesmo em fantasmas, mas achávamos um excelente pretexto para um pernoite diferente e alegre. E a noite transcorria tranqüila e serena quando, por um momento, percebemos que um nevoeiro se formara ao nosso redor. Como as barracas já estavam montadas, decidimos que era hora de dormir; despedimo-nos e nos recolhemos, cada um à sua barraca, um pouco frustrados por esse desfecho.

Na verdade, ninguém conseguia dormir, pensando no Pai Inácio a perambular à nossa volta. Uns e outros, vez por outra se levantavam sob o pretexto de “ir ao banheiro”. E assim foi a noite toda…

No dia seguinte acordamos com o nascer do sol. Aos poucos nos reunimos ao redor do fogareiro, preparando o café da manhã, à espera dos mais preguiçosos, que dormiam nas barracas… assim pensávamos!

Logo nos demos conta das ausências: três meninas que estavam em uma mesma barraca haviam desaparecido! Ficamos apavorados! Será que elas se levantaram à noite e, incautas, caíram no precipício? Procuramos por toda a volta, mas nada de encontrá-las. Não havia sinais de ferimentos ou qualquer coisa que pudesse indicar uma causa razoável.

Por fim, desmontamos as barracas e decidimos voltar e pedir ajuda. Qual não foi a nossa surpresa quando, na descida, nos encontramos com as três garotas, alegres e sorridentes, voltando para o acampamento como se nada tivesse acontecido!

Onde estiveram a noite toda? Nenhuma quis nos dar explicações… apenas sorriram… misteriosamente felizes…

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Cotidiana vida

Socorro!… Socorro!…

No meio da noite, gritos insistentes e aflitos trouxeram-me à realidade, confundindo o meu entendimento… talvez por invadir meus sonhos, tornando-os em pesadelos, talvez dos próprios pesadelos emergissem os gritos, a povoar a minha realidade.

Já me acostumara àquelas cenas da desconfortável vizinhança, tão próxima e distante, a devassar os contrastes sociais, incômoda convivência involuntária.

Flap-flap-flap- flap-flap- flap-flap- flap-flap- flap-flap- flap-flap- flap-flap…

Tu-tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu- tu-tu-tu…

Pairando sobre a favela e meu apartamento, essa indesejada presença dos helicópteros já se tornara parte de meu cenário, às vezes apenas para ostentar o poder coercitivo da polícia, outras, porém, em busca de bandidos, traficantes, assassinos, seres indesejáveis, cotidianamente presentes em nossa existência metropolitana.

Não raro, tiros se perdiam na escuridão dos sonhos, mesclando ilusão e realidade nos palcos de minhas noites insones e agitadas.

Mesmo durante o dia, em plena luz do sol, papelotes eram trocados por dinheiro, às grossas vistas da polícia, que mantinha um posto armado e motorizado nos arredores, sem função aparente.

Socorro!… Socorro!… Socorro!…

Cada vez mais fracos, os gritos invadiam minha consciência, atormentando meu ser desconsolado. Já desistira de ligar, pedindo ajuda, que nunca chegava. E o mundo lá fora, além de minha janela, indefeso e abandonado…

Afinal, quem se  atreveria a cruzar as fronteiras imaginárias do bom-senso e da razão, mesmo que fosse essa sua única razão de existir como policial?

Era uma voz feminina, quase suave, uma adolescente, talvez…

Percorrendo a lateral do edifício onde eu morava, um beco mal iluminado era a única travessia da avenida para a favela ao longo de 2.000 metros.

Aquela estreita e sinuosa passagem aproximava os dois mundos irreconciliáveis: de um lado, edifícios, lojas, escritórios, residências, e um fluxo incessante de veículos, a provocar um ruído estranho, constante e incômodo nos transeuntes e moradores; do outro lado, barracos e precárias construções de alvenaria se amontoavam por quase quatro quadras, descaracterizando a urbana civilização, povoada de miséria e desolação.

Socorro…

Já não sabia se era um grito abafado ou um gemido sem esperança.

Ousei olhar por entre as frestas da veneziana, procurando entrever o Ser a suplicar por ajuda… Apenas a noite, escura e pesada, e a tênue chama tremeluzente da fraca iluminação, a refletir seus raios nas poças do caminho…

Pou! Pou! Pou!

O choque brusco dos tiros, certeiros e inevitáveis, arrancou-me do torpor da semi-vigília em que me encontrava, evidenciando o trágico desfecho.

Só o silêncio permaneceu no ar.

Ninguém ousara abrir as janelas, ninguém acolhera os gritos de desespero… O drama ficara, outra vez, do lado de fora de nossas vidas…

Naquela noite, não consegui reconciliar meu sono, novamente. Desperto e desconfortável, imaginava aquela pobre vida, interrompida precocemente pela cruel realidade que nos cerca e oprime.

No dia seguinte, um burburinho pelas ruas, pelos botecos, nas calçadas… e a poça de sangue ao lado da jovem seminua… nada mais.

Transeuntes desviavam seu trajeto para poder olhar de perto a nova vítima.

Precariamente coberta por jornais que mal disfarçavam o horror estampado em seu rosto, pouco mais que uma criança, entregue à curiosidade mórbida e perversa dos passantes.

Abalado em minha confiança na humanidade, nos dias que se seguiram confundia minha insônia com o dia interminável, mal reparando no passar das horas.

O mundo à minha volta se reconstituíra, apagando as marcas da tragédia recente. Já não se comentava, às rodas dos desocupados, o triste final de uma vida, ou a inoperância dos aparatos policiais.

Os acontecimentos corriqueiros do cotidiano se entrelaçavam, nas tragédias eventuais. Porém, a estas, só é concedido o brilhar efêmero dos holofotes no momento em que se manifestam, anônimas, em nossas cercanias.

Mesmo aos mais próximos dessas vítimas ocasionais, só é dado permanecer em suas memórias voláteis pelo tempo necessário a assimilar o medo e o terror de si mesmos, esmaecendo aos poucos, à medida em que a auto-comiseração se esvai e se acaba; ou até que um novo drama se avizinhe e se sobreponha às nossas prioridades imediatas.

Foi assim que, chegando à minha casa, dias mais tarde, fui informado do suicídio de um casal de idosos, antigos moradores do edifício, esquecidos pelos seus amados filhos à solidão reclusa de sua cotidiana vida…

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Sedução mórbida

Não era a primeira vez que ele se expunha publicamente, em busca de uma aventura amorosa. Já não se entusiasmava mais com as relações convencionais: queria sentir prazer no risco de ser descoberto, flagrado em uma situação qualquer, constrangedora para a maioria dos comuns. “Por que?”, perguntava-se incrédulo após perpetrar o ato impensado e tresloucado, que o consumia em desejos. Não saberia se explicar, nem a si mesmo. Mas o fazia, e repetia sempre, cada vez com mais ousadia e despudor.

Naquele dia, porém, sua loucura superou os limites mais tênues da razão que ainda lhe restava. Saíra de casa cedo, caminhando meio sem rumo (nunca planejava suas ações, deixava-as apenas acontecer ao acaso), meio sem vontade. Era sempre assim que tudo começava. Esgueirou-se pelos becos mais sujos e abandonados.

Mendigos, bêbados, crianças cheirando cola ou queimando umas pedras, perdidas na vida que lhes fora reservada pela Sociedade, vadios, putas e travestis decadentes… Aquilo era pura inspiração!

Primeiro, despiu-se completamente e caminhou entre seus semelhantes, procurando perceber alguma reação. Nada! Pouco se importavam com aquele traste nojento, exibindo seus desejos e despudores na sarjeta dos esquecidos. Afinal, que mais poderia acontecer ali? Seguiu, por algum tempo, num misto de excitação e de vergonha. Era como se fosse invisível! Passava incólume pelos caminhos dos sem-destino. Cansado de se mostrar, vestiu-se novamente e saiu depressa daquele lugar horroroso.

Começou, então, a lhe nascer ali aquela idéia sórdida e macabra. Foi para uma estação do metrô, comprou seu ingresso e partiu no primeiro trem que passava. Sentou-se discretamente ao fundo do vagão e começou a observar os transeuntes, imóveis em sua própria solidão. Parecia-lhe sempre a cena de um filme antigo, as pessoas sem identidade, taciturnas diante do tempo perdido naquele vagão frio. Já passava do meio-dia.

Não se sabe por quanto tempo seguiu viagem, ora para um lado, ora para o oposto, pouco se lhe importando o destino. Às vezes saía e mudava de trem, para não despertar suspeitas da Segurança. Na verdade, ele já se tornara uma figura conhecida dos funcionários do metrô, pois costumava gastar horas de seus dias inúteis naqueles passeios sem destino. Mas, como não incomodava nem molestava ninguém, não lhe davam maior atenção; apenas alguns comentários acerca daqueles seus passeios inúteis e esquisitos.

Porém, naquele dia, sua mente pervertida reservara uma aventura que não seria esquecida por muito tempo. A noite se aproximava. Para ele, pouco importava quem seria sua vítima; queria apenas que fosse alguém que pudesse dominar com certa facilidade. O acaso lhe deu de presente esse pobre coitado: um garoto entrou no vagão, justamente quando o movimento rareava, e sentou-se defronte àquele que seria seu mais cruel algoz. Distraído, olhou para ele com indiferença. Mas surpreendeu-se com um sorriso amável e caridoso. O garoto logo simpatizou-se com aquele estranho que o encarava.

Parecia que ele compreendera, de um só olhar, todo o seu drama de criança abandonada pelos pais, pela vida, pela sociedade. No fundo, ansiava pela mão amiga que lhe trouxesse de volta a esperança, que o levasse daquela solidão precoce e sem jeito que o consumia.

Na troca de olhares que se seguiu, entabularam uma conversação que somente os mais solitários poderiam compreender. Daí ao que se processou depois foi apenas uma conseqüência natural: já saíram do trem como velhos amigos que se reencontram, conversando animadamente, ele se insinuando discretamente à sua presa indefesa. Pagou um farto lanche ao menino, e isto foi o sinal definitivo a selar sua “amizade”. Seguiram para um parque, por sugestão do maníaco, “para se conhecerem melhor”. Tinha uma casa grande, dizia ele, onde poderiam morar juntos por algum tempo, até que arranjasse um lugar definitivo para o garoto. Em sua ingenuidade de criança, qualquer manifestação solidária seria benvinda, como de fato foi.

Tomou o menino em seu colo, a pretexto de consolá-lo pela emoção do padrinho caridoso que acabara de arranjar. Aproveitando-se do enlevo do momento, primeiro beijou ternamente a face ingênua que se recostava em seu peito. Depois, arriscou-se mais e acariciou o menino em suas partes íntimas, delicadamente, carinhosamente.

Fragilizado, entregou-se à agradável sensação de ser bolinado pelo novo amigo. Em seguida, ousou beijar-lhe a boca. Assustado, o menino tentou se afastar, mas já não tinha forças, dominado que estava por aquele corpo imenso sobre o seu. Fez menção de gritar, mas a dor de uma repentina penetração do dedo em seu ânus, esmoreceu-lhe a vontade. Estava sendo brutalmente despido, sem que pudesse esboçar qualquer reação. Depois, foi a vez do marmanjo. E lá estavam eles, nus, isolados pela escuridão da noite e pela solidão do parque ermo e distante.

Sentia-se como um boneco, sendo manejado sem qualquer gentileza por aquele homem rude e frio. Atordoado, chegou a sentir até um certo prazer enquanto era estuprado. Depois, ficou envergonhado quando o grandalhão lhe chupava o pequeno pênis ainda não completamente desenvolvido. Mas, com aquele movimento contínuo dos lábios do monstro, voltou a sentir um prazer que ainda não conhecera. O que era aquele líquido que saía aos jatos de seu pintinho duro?

Em seguida, foi a sua vez. Teve medo, teve vontade de morder aquela carne enrijecida que era obrigado a chupar. Mas estava por demais excitado e apavorado para reagir ao grandalhão. Obedeceu. Chupava freneticamente o membro duro até que saiu aquele líquido quente e gosmento, que foi obrigado a engolir. Teve náuseas, vomitou sobre a pele suada de seu dominador, sentiu o forte impacto do soco recebido, assustou-se com o berro violento, caiu meio desfalecido sobre o chão frio e cimentado do parque.

Não teve tempo de despertar completamente: logo, um pontapé foi desferido em sua barriga, depois diretamente em sua cabeça.Ainda consciente, viu o homem se aproximar e, em um golpe fatal,  percebeu-o esmagar-lhe o crânio com uma pedra grande e pontiaguda. Ficou estendido ali, sem vida, no parque deserto e silencioso… para sempre. Como de outras vezes, após sua insânia, despertou assustado com o que acabara de fazer, mas já era tarde.

Desta vez, fora longe demais. Sentiu medo, vergonha, remorso, mas sabia que aquilo fora apenas mais um passo rumo ao destino que delineara para si. Retomou a consciência do ato que praticara. Arrastou o corpo inerte até o matagal, no fim do parque. Suas ações eram acobertadas pela noite negra e sem lua. Jogou-o sobre os entulhos acumulados pelo mato adentro. Não satisfeito, cobriu-o de galhos arrancados das árvores mais baixas e próximas. Ao não ver mais aquele pequeno corpo desfigurado, sossegou suas ansiedades e retornou para casa. Não tinha mais por que se preocupar. De qualquer modo, amanhã seria um novo dia!

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Vestígios


Apenas um arbusto ressequido… Suas formas, no entanto, esteticamente modeladas, permaneciam inalteradas. O pequenino tronco retorcido, parecendo muito mais velho que as idades que vivera, um galho altivo apontando ao infinito, do qual outros derivavam, sua arte ainda bela, qual um escultura planejada. As delicadas folhas sustentavam-se apenas pela inércia assegurada pelos cômodos desertos, com seu ar cheirando a mofo. A mais leve brisa bastaria para removê-las todas de uma só vez. O minúsculo vaso retinha a terra ressecada, com uma relva amarelecida a encobrir-lhe as rachaduras quase evidentes.

Ele olhou, pela última vez, sua paisagem simbólica, que ficara por muitos dias a ornamentar o beiral da janela, contrastando com o concreto das edificações, ao fundo. Parou a meditar em sua própria solidão, exílio voluntário do passado que desejara esquecer.

Qual um espelho, o bonsai refletia sua alma sufocada de desilusões.

Apanhou cuidadosamente o pequeno ser sem vida, embrulhou-o como a um presente e, por fim, depositou-o entre tantos outros objetos descartados de sua vida mais recente. Suspirou em silêncio, como a se despedir de um ente mais querido, aconchegou-se na velha poltrona, e adormeceu.

O dia já se afastava da janela quando despertou de seu torpor angustiado.

Caminhou até a cozinha e, como em um ritual, preparou uma bebida quente, que engoliu sem se aperceber sequer o que havia na caneca de metal esmaltado. O ar estava quente, quase irrespirável. Sentia-se sufocado, deprimido, arrastando-se pesadamente pelos espaços opressivos do crepúsculo.

Vestiu-se discretamente, como de costume, e saiu a caminhar pelas calçadas, sem prestar atenção às buzinas e à fumaça dos carros que passavam, irritados, para lá e para cá, nas ruas em que se amontoavam, sem sentido.

Não saberia por quanto tempo perambulou por aí, nem se apercebendo dos perigos, sem um objetivo ou destino, que soubesse.

Estava em uma ruela, dessas quase sem saída, quando lhe gritaram “sai da frente! Não olha por onde anda, seu idiota?” e quase foi jogado na sarjeta imunda, por onde escorriam os esgotos dos cortiços que margeavam seu caminho. Pessoas mal-encaradas convenceram-no a se retirar para caminhos mais habituais e menos perversos. Logo que se localizou, percebeu-se cansado e perdido num labirinto de pensamentos, ressurgências do fundo lodoso de seu ser mais profundo.

Percebeu-se, afinal, só e faminto, com náuseas de fraqueza a confundir-lhe as vontades.

Voltou penosamente à casa, subiu com grande esforço os degraus que lhe pareceram maiores e mais numerosos do que de costume, abriu a porta, e deixou-se cair lentamente sobre as almofadas no canto da sala. Ficou ali, amontoado como um cão, até que a madrugada iluminou-lhe as faces enrugadas e secas, como seu bonsai.

Muitos anos se passaram naquela longa caminhada sem rumo, pelas noites de seu pensamento entristecido.

Já não sabia qual era sua idade: os dias se sucederam iguais, interminados…

Apenas o bonsai permanecera em suas lembranças, não como a pequenina árvore, mas frondosa, imensa, sob a qual se sentava todas as tardes, deliciando-se daquela sombra generosa, a leve brisa a conduzir seus sonhos, caleidoscópio de imagens coloridas, as nuvens brancas desfilando ao céu azul, formando figuras bizarras… “venha, venha…”, e os pensamentos iam e vinham, sem propósito, sem sentido, sem fim nem começo, apenas a passar como um filme em sua mente, como um carroussel a girar, desde sua infância tão distante.

Ah! Aquela brisa refrescante viera da infância, é certo!

Lá estavam as crianças, correndo, gritando, falando todas ao mesmo tempo, em tons tão diferentes que até pareciam música, pequenos sinos de cristal a tilintar na memória, um movimento contínuo como as ondas, a ir e vir incessantemente, a vida a se manifestar nos sorrisos, nas carinhas alegres, que refletiam o sol daqueles dias tão distantes…

Aos poucos, as vozes silenciavam, cada vez mais distantes, como a luz que se esvaía no Universo, em seu pequeno universo, seu claustro, até que só ficou a escuridão e o silêncio. E um bonsai, pequenino e seco, cujas folhas caíram todas, deixando apenas o esqueleto dos galhos retorcidos, silhueta desbotada e sem vida, na janela de seus pensamentos. Olhou para ele como a um espelho: lá estava, seco e sem vida.

No canto da sala, amontoado nas almofadas, um corpo jazia inerte, o olhar perdido…

Uma réstia de luz alumiava a sala, qual um rastro de poeira a procurar o sol, que se escondera, definitivamente.

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Qualquer dos meus dias


Hoje, serei um pássaro, de grandes asas brancas e porte majestoso, a flutuar sobre seus mundos, placidamente, afastado o bastante para não perceber os detalhes desta vida, que a tornam monótona, medíocre e mesquinha.

Apenas silhuetas e sombras me interessam, a povoar as paisagens. Edificações e arruamentos, pelos quais se movem veículos, carregando cérebros e mentes, incessantemente à busca de transformar o Paraíso herdado de suas sagradas religiões.

Sigo mais alto. Não quero sentir-me vinculado a esses comprometimentos… Agora, percebo apenas luzes, pedras preciosas, contas coloridas de um imenso tesouro, desconhecido dos homens que nele habitam.

É o silêncio que me sufoca. Ensurdecedor, em meus incessantes pensamentos. Busco a Paz, transpondo as nuvens… imensos flocos pairando pelo espaço…

Percebo o mundo em camadas… abaixo, entre os vãos das nuvens, o chão dos homens, ora recortado em geométricas formas cultivadas, ora ainda preservando alguma natureza em sua desordem estética, ora pontilhado de civilização e de pecados… acima, novo teto de nuvens comportadas, pairando como carneiros, agrupados e ordeiros, deixando apenas réstias de um azul profundo e infinito.

Estou no Éden… Uma beleza incontida me preenche e confunde. Serei, ainda, um pássaro ?

Nada sou.
Incorporo-me à totalidade do Universo.
Sou Deus !

Sou levado para além de minha própria consciência.
Uma profusão de cores… um turbilhão de formas desconexas…
qual um caleidoscópio…

Que foi feito de meu Shangrilá ?

Sou um pensamento…uma idéia fixa !
Parada, como um filme emperrado.
Sou a cena que não se move, sem sentido, sem contexto…

Seria assim a Morte ?

Desperto em minha cama, frustrado e solitário.
No rádio, o Concerto nº 1 de Max Bruch, com Yehudi Menuhin.
Definitivamente, não sou um pássaro.
Minha rotina impele-me para a vida…

Seria assim a Vida ?

Talvez um mero pesadelo… Pássaros têm pesadelos ?
Serei eu um pássaro sonhando em ser… humano ?

O chuveiro me desperta; lembro-me da reunião das 9:00 horas… preciso finalizar os preparativos: pastas, gráficos, relatórios… A sala está confirmada ? E os participantes ?

Preciso pedir café para os visitantes…

Escovo meus dentes, pensado no bico do pássaro…
Sigo meu ritual profilático.

Ao sair do banho, penso nos intermináveis compromissos da semana: centenas de e:mail’s a responder, telefonemas, reuniões, formalidades, troca de cartões, atas e outros afazeres dos homens sérios na sociedade dos negócios.

Preparo meu café da manhã, sem fome e sem vontade:
leite com cereais, frutas com mel…

Ainda bem que não como insetos nem minhocas !
Creio que não me daria bem com a dieta dos pássaros…

“A Bolsa permanece em alta…”
“O dólar continua em queda…”
“Pinochet não será julgado pelos seus crimes…”
“O preço do petróleo ameaça as economias emergentes…”

Seremos emergentes ?

“A paz está ameaçada na Europa…”

Talvez uma nova guerra nos Bálcans, para consumir um pouco dos armamentos produzidos pela indústria bélica americana… uma “guerrinha” controlada, supervisionada pela OTAN e pela ONU, com os protestos de praxe e o repúdio diplomático dos países do Primeiro Mundo…

Seremos do Segundo Mundo ? Que mundo é esse, afinal?!!!

Desligo a televisão.

Visto-me apressado, mas sem me descuidar dos detalhes: o perfume, a gravata, o prendedor… Já na calçada, as pessoas passam sisudas, apressadas, mal-humoradas, atropelando-se sem se cumprimentar, sem desejar um “Bom dia !” como antigamente.

Sorrisos ? Nem pensar ! Apenas amanhece e já levamos conosco as tensões de toda uma existência descuidada. Para que ?

Cá estou, acomodado em meu lugar, na janela do ônibus, fones de ouvido, atento a mais um concerto, evitando o diálogo com meu companheiro de viagens, meu vizinho de jornadas, meses a fio… quase sem nos conhecermos de verdade… Longos minutos a atravessar minha cidade enfileirada, congestionada… Carros a se engalfinhar em corridas, cada um querendo ganhar a posição da frente, trocando incessantemente de fila e de lugar, até voltar à mesma situação em que se encontravam.

As mesmas ruas, os mesmos outdoor’s… “Que Peitchen !”

Finalmente em nosso destino, deixamos os ônibus aos montões, apressados por alcançar os pés das escadas rolantes, que nos levarão a todos ao mesmo lugar, todos os dias. Agora já nos reconhecemos, alguns. Alguns até se cumprimentam… Cumprimentos formais, algumas gentilezas… “um cafezinho ?”

Já em minha mesa, um toque de humanidade: as fotos de minhas filhas, o arranjo de plantas, o Feng Shui não-sei-prá-quê…

O dia passa, como de costume.
A sensação de andar em círculos, de correr atrás do rabo…

Mais gentilezas, mais formalidades, algumas delicadezas, muitas falsidades. Muita encenação para delimitar o território.

Os cães mijam para marcar os seus domínios…
Será que devo mijar ao redor de minha mesa ?

O relógio parece não ter mais pressa…
E cada um trabalha para não ter que olhar as horas…
Enfim, o almoço ! Fofocas de bastidores…
“Quem subiu ?” … “Quem caiu ?”

Quanta hipocrisia… quanta mediocridade !

De volta ao bunker e à luta por se mostrar, cada um, mais importante… insubstituível nos negócios que não são seus…

“O que você vendeu hoje ?”
“A minha Alma !”

E o dia se esvai como a areia da ampulheta…
Amanhã é só virá-la novamente, e tudo voltará a se repetir…

Cá estou eu de novo em minha cama, pensando na aventura de meus sonhos… Vou desprender-me de meu corpo e escolher um novo bicho… uma cobra ? Não ! Já rastejei por demais em minha vida ! Um tubarão ? Talvez… atemorizando os oceanos…

Não. Serei apenas a semente, daquelas como plumas, que o vento irá levar não-sei-prá-onde e – quem sabe ? – germinar…
sem consciência… sem retorno… apenas por viver…

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto

Reflexões de um Pensamento sem Autor

“Talvez, um dia, venham a me encontrar…
Somente assim, descobrirei a minha verdadeira identidade…”

Que faço, então, aqui, neste silêncio eterno ?

A recorrência desse pensamento leva-me a crer que o tempo, enfim, parou… ao menos para mim… e que, a vida em suspensão, que penso acontecer, de fato, existe !Estranhamente, sinto-me incorporado a este universo, como se as idéias surgissem, espontâneas, dessas paredes de calcáreo…

Se assim não fosse, de onde viriam, então ?

Pois, se percebo a realidade que me cerca, não é pelos olhos de um corpo que foi meu, que este, com certeza, já não mais existe !

As impressões que sinto manifestam-se em todos os detalhes dessa caverna, fria e submersa…

E se luz já não mais existe, pouco importa, que falta já não faz. A percepção é algo permanente, imanente à própria escuridão, com quem me identifico…

No entanto, a memória dos acontecimentos me é nítida, como se tudo ainda acontecesse, ao mesmo tempo, passado e presente se fundindo, na consciência plena do momento…

Lá estou, à boca da caverna, admirando seus segredos e mistérios, ansiando pelo meu destino, tantas vezes imaginado…

Às costas, os instrumentos de mergulho, cuidadosamente conferidos, cada um, em todos os seus detalhes, o pensamento se alternando entre o medo ( ou o pavor absoluto ) e a ansiedade ( paixão completa pelo desconhecido dentro em mim ).

Cansado da longa caminhada, repouso nas pedras o meu equipamento, enquanto observo a natureza em meu redor: a mata densa e úmida, os insetos impertinentes, o canto dos pássaros, que não os vejo, nem os reconheço… o cheiro do mato, ainda sob o frescor do orvalho da manhã…

Por sua negra boca, a caverna me observa.

Sei que, ali dentro, o tempo não existe… e apenas eu não o compreendo… milhões de anos, gota a gota esculpindo seus ponteagudos dentes, estalactites, estalagmites, prestes a me deglutir…Recuperado o fôlego, reúno meus equipamentos e me aproximo do ponto de descida. Amarro firmemente as cordas nas pedras da entrada, e lanço suas extremidades no desconhecido… nenhum som. Experimento os nós. Observo o mapa da caverna e constato, novamente, o amplo espaço para eu me preparar para o mergulho, bem abaixo.

Amarro os tanques de ar, e desço-os com cuidado, pela primeira corda, até sentir o toque no fundo da caverna. O resto dos instrumentos seguirá comigo.

A primeira impressão, logo à entrada, é de uma escuridão sem fim. Nada vejo, nem mesmo silhuetas. Somente a luz atrás, na abertura, cada vez menor e mais distante.

Mesmo assim, não acendo, de imediato, as lanternas. Sigo descendo, cauteloso, resvalando pelas pedras, até tocar o solo úmido e escorregadio, do limo que lá permanece desde os tempos, sem memória, do passado.

Embora meus olhos já se acostumassem à noite eterna, e pudesse até perceber alguns contrastes em seu interior, acendo as luzes para observar melhor aquela imensidão deserta, onde até minha respiração ofegante reverbera, como um eco grave e profundo.

Que maravilha !

Cenário encantado e solene, reprodução dos céus sem as estrelas, que reverencio com respeito e emoção incontida… Fico, por alguns instantes, admirando, extasiado, a cena inesquecível…

Um lago cristalino se espalha à minha frente, por todo o salão. Experimento a água, não muito fria para essa época do ano, meados de outono. Mesmo assim, coloco as luvas e o capuz, e completo a vestimenta, cuidando para conferir, mais uma vez, todos os instrumentos.

Estou pronto ! Meu coração bate mais rápido, pela ansiedade incontida. Confiro os mapas: este primeiro salão termina na garganta escura, a uns 15 metros de profundidade, ao final do lago. Depois, o salão principal, imenso, com inúmeras colunas de calcáreo, formando galerias, qual um labirinto.

Precisarei sinalizar o meu trajeto para facilitar o retorno à superfície. Atingirei uns 25 metros, até o fundo. E então, dois caminhos se apresentam: um, seguindo direto à frente, conduzirá ao terceiro salão, cujo teto se encontra parcialmente fora d’água, como uma bolha de ar irrespirável. Pequeno e desconfortável, repetição do trajeto anterior – não me interessará, suponho.

Seguindo à esquerda, contornando as formações calcáreas, encontrarei um estreitamento perigoso, pequena abertura tortuosa que leva ao último e ambicionado salão dos meus sonhos, cujas águas chegam a atingir quase 50 metros abaixo do nível da lagoa, onde me encontro. Será este o meu destino !

Um misto de ansiedade e angústia me dominam. Contenho-me e me recomponho. Decidido, verifico o computador, para me certificar dos tempos para cada etapa do mergulho. Tudo bem planejado: haverá ar suficiente para todo o percurso, ainda que me demore a apreciar todos os detalhes no caminho, suas esculturas naturais e seus recantos…

São dois reservatórios e o lastro, mais de 30 quilos que irão assegurar o equilíbrio de meu corpo ao longo do trajeto. Faço minhas últimas anotações no diário que deixarei à beira da lagoa.

Entro, aos poucos, na água, para me acostumar à temperatura, apesar da roupa de neoprene. Inicio a contagem do cronômetro e a descida. Percorro o lago em toda sua profundidade, admirando as concavidades, suavemente incrustadas nas paredes cinzentas.

O mundo lá de fora já não mais existe. Sinto-me eterno em minha frágil carcaça humana. O único som que ouço e percebo é das bolhas, que se desprendem compassadas de meu regulador.

Lanterna acesa, sou devorado pela garganta negra, e penetro, finalmente, na eternidade…

Por mais que tenha lido sobre esse mundo quase inexplorado, ainda que examinasse centenas de fotografias de cavernas, mesmo experiente em mergulhos em outras grutas, a emoção sentida é sempre única e indescritível ! Puro êxtase !

As colunas pareciam vir do nada, penetrando na imensidão sem fim. Retorcidas em filigranas, que nenhum escultor poderia sequer imaginar, gradualmente matizadas, de um branco suave ao ocre carregado das ferrugens, assemelhavam-se a cenários à espera de um espetáculo que jamais viria a acontecer.

Deslizei suavemente ao redor de muitos desses blocos, com a sensação de paz das mais profundas meditações, deixando que o acaso me mostrasse as sendas que haveria de trilhar. Já não haveria mapas ou sinais que pudessem me indicar onde eu me encontrava. Não sei por quanto tempo fiquei a me admirar desse universo. Porém, por algum acaso, em dado instante me defrontei com a estreita abertura, a passagem para o outro lado… da vida !

Esgueirando-me com minha pesada e desajeitada vestimenta, cheguei, com grande esforço, ao outro salão. A princípio, não me pareceu assim tão belo como imaginara, tão majestoso e grandioso como aquele de onde acabara de chegar.

Era vazio… poucas esculturas, raras galerias, com imensas colunas a sustentar sua estrutura envelhecida. Como no outro, quase nenhuma vida perceptível. Apenas pequenas formas primitivas, a navegar furtivas nas proximidades das paredes.

Percorria seus espaços sem muito entusiasmo quando, pela primeira vez, despertado daquele encantamento, senti necessidade de verificar meus instrumentos… Pânico !Restavam-me poucos minutos para que o ar se extinguisse nos cilindros ! Mas não poderia ser ! Eu tinha autonomia para muito tempo… muito além do que me pareceu ali estar. Confiro as válvulas: tudo normal. Olho o cronômetro: Parado ! Travado alguns segundos após minha descida ! Leio os indicadores de consumo de ar: curiosamente, estive a respirar tão calmamente que poderia estar vagueando há horas, submerso !

Em desespero, nadei em busca da abertura que me conduziria de volta à vida… passava rente às paredes, à procura de uma pequena cavidade, perdida nas infinitas pregas das pedras da caverna. Em vão ! Jamais encontraria a saída…

Consumia rapidamente o pouco ar que me restava.

Aos poucos, constatei o quão inútil se tornara aquele desespero. Parei de lutar. Deixei que a vida se esvaísse ao seu próprio tempo. Então, subitamente, uma tranqüilidade incompreensível se apossou de mim… a paz de quem, enfim, compreendera a vida !

Parei de me mover em desatino. Deixei que as águas me levassem, sem destino, ao seu desejo e capricho.

Repentinamente, constatei que não mais respirava e, no entanto, não sentia qualquer sensação de asfixia, ou de afogamento, sensação que me perseguira em todos os meus sonhos e pesadelos, ao longo de meus dias, como uma obsessão inevitável !

E, no entanto, estava vivo ! Assim me parecia, pois havia ali os pensamentos, a consciência, a percepção de tudo que estava a me acontecer. Apenas não sentia mais a presença de meu corpo.

Eu parecia existir apenas em consciência !

Já não via com os olhos a que me acostumara em vida.

Nem sentia a pele a cobrir meu corpo…

Apenas consciência… plena, absoluta, onisciente, como se percebesse tudo ao mesmo tempo, como se passado e presente se fundissem em um só momento, em que a precedência dos fatos não existia… e nem importava !

Quem seria eu, agora, afinal ?

…Aqui estou… nas pedras… nas águas… na minha caverna…

Nem sequer percebo o vazio incompreensível de meu Ser…

Quantas vezes já terei rememorado essa história, sem nem mesmo saber se existiu, de fato ? Se hoje existo, ou existi, um dia ?

Serei apenas pensamentos, reverberando eternamente, incessantemente, pelas paredes obscurecidas da caverna ?

Talvez, um dia, venham a me encontrar...

 

por João Carlos Figueiredo Postado em Conto