Pandemia

A planta se contorce, enruga-se toda, cobre-se de cortiça para sobreviver às intempéries da Natureza… então vem o homem, e corta-a pela RAIZ!

Palavras doem como um parto, quando oprimidas pelos versos, pelas rimas, pelo ritmo… saem apertadas na imensidão dos dicionários que se ocultam na alma dos poetas… esgueiram-se pelas esquinas de seu pensamento, buscando a frase perfeita, a expressão única e absoluta do sentimento inescrutável… por fim, tal como a erupção de um vulcão extinto, explodem absolutas na imensidão da dor do parto, e se perdem, para sempre em um simples verso, tão denso que poucos haverão de compreender… e, ao nascer, fenecem… extinguem-se em si mesmas, sem revelar aos incautos leitores, seu significado verdadeiro..

De repente, o mundo está só, perdido em sua mesmice indecifrável, perplexo diante da pequenez humana que se revela, abrupta, no âmago de cada alma. Em um átimo, a vida deixou de fluir célere em nossas veias, perdendo-se nos labirintos do ser… Olho-me no espelho e não vejo nada… fiquei transparente como a água, como o ar e o vazio absoluto do Cosmo…

Passaram-se meses desde que o primeiro ser sucumbiu à praga contemporânea, lembrando ao Homem que não é o Senhor do Universo, mas apenas um insignificante verme a se arrastar no lodo de sua própria alma… pessoas se escondem por detrás das máscaras, lavando-se em álcool, desesperadas, ao simples toque discreto em outro ser, num objeto, ao respirar no elevador, ao tocar no corrimão da escada rolante, na maçaneta de um lavatório, ou, pelo simples ato de respirar na solidão de si mesmo…

Perdeu-se o indivíduo ao abdicar de sua própria identidade, ao reagir coletivamente àquilo que fora sempre natural, como o mero respirar em um espaço comunitário… a alma se esvaneceu na eternidade, deixando-nos as carcaças vazias, repletas de culpa e de tédio, plenas em solidão e desespero, ocas do existir tão-somente, sem preocupação com o fluir do tempo que se esvai na Eternidade de cada momento perdido…

E a Vida continua a fluir na ampulheta do Tempo, indiferente aos bilhões de seres confusos diante de si mesmos, como se não mais se reconhecessem como indivíduos, mas apenas como uma coletividade difusa e sem identidade própria, no caos que se formou nessa sociedade sem rumo e sem causas… contudo, o Universo continua, incólume, em sua perfeição caótica, expandindo-se, contraindo-se, explodindo em buracos negros ou em supernovas, na imensidão do Infinito, do Eterno, do Vazio e do Caos perfeito que jamais compreenderemos na pequenez de nossas almas, na insignificância do existir, na ausência da Razão e da Vontade…

Pela primeira vez, desde que Sartre escreveu “A Idade da Razão”, nos sentimos verdadeiramente perdidos… afinal, não há Razão no não-existir… e onde está a empáfia desse ser arrogante, que atribui a si mesmo a sapiência plena, mesmo diante de suas piores contradições? Em que outro momento da história humana constatamos, de forma plena, nossa insignificância no concerto do Universo desconhecido dos homens?

Resta-nos, contudo, a poucos, a consciência de que a vida é efêmera, e nenhum de nós é tão relevante para o Universo a ponto de fazer a diferença entre o existir e o vazio absoluto do Éter que preenche esse mesmo espaço infinito e incompreensível… ao menos para nós, seres viventes, supostamente autoconscientes…