Sedução

Cá estou, de volta à minha solidão,
Pleno na angústia,
Repleto na insensatez,
Absolutamente dominado
Pelo vil objeto que me subjuga e corrompe !…

Sou, não estou !
E como poderia,
Se pouco ou nada resta a mim,
Senão saber-me assim,
Imobilizado pela dor
De ser escravo de tudo o que abomino…
… e, ardentemente, desejo ?!!!

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Carícias

Bizarras peças te ocultavam:
Exóticas, imensas, disformes,
Estranhas em sua funcionalidade…

E lá estavas, seminua,
Contrastes de beleza e sofrimento,
Teu corpo confessando as lides do amor.

É cedo… é tarde… é, apenas, agora.
Ali, o tempo se eternizava,
Confundindo noites e dias,
Incontáveis horas… sempre iguais.

Bebidas, mulheres, cigarro, algazarra,
Um bar indiscreto.

O som, sem sentido, as luzes difusas,
As falas vazias, vadias…

Você ao meu lado,
Levando-me aos labirintos sem sentido, do prazer.

Que se busca nas alcovas traiçoeiras,
Senão enredar-se em carícias
Descompromissadas, efêmeras,
Alucinadas, inconseqüentes ?

Apenas fugir, talvez…

Apenas carinhos,
Sensação desconhecida, sempre…

Loucura de se escapar da Vida,
Mesmo que só por um instante,
Por um só e um fatal momento !

Você, misteriosa e única,
Ainda que presente
em todos os leitos de amor…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Fuyuko

Lá está ela – minha Estrela –
Emoldurada na janela…

Noite adentro a contemplo, a brilhar
Nas profundezas de meus olhos,
Na escuridão de minh’alma,
No vazio infinito do Universo.

Brilha para mim,
Sem se aperceber
De sua presença, agora…

Um ponto, apenas,
A reluzir no céu…

Ainda que extinta a Vida,
A chama permanece
Para sempre…

A preservar a esperança,
A alimentar meus desejos…

Luz, enfim, na solidão
Inconsolável de meu Ser…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Amar você

Suaves traços antecipam-me o Prazer…
Sobre tua pele alva,
A Seda se insinua,
Acariciando tua intimidade,
Excitando meus olhos…

Percorro, em pensamento, teus relevos,
Densas paisagens de meus sonhos…

Dos teus seios que me são meus,
Sorvo, deliciado, o néctar
Que alimenta meus desejos.

Penetro, enfim, em teus mistérios…
Enlouquecida paixão inconfessável…
Eternidade em um momento…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Linda…

Infinitas noites – meus temores…
Estranhos pensamentos…
Doce e bela, invades o meu indefeso Ser !

Vejo-te em mim ( ou eu em ti… ),
Deliciado de tantas ternuras…
Encantado desse universo em que resides,
Inebriado de tua presença…

Absolutamente só !

Estranha energia
Que me transforma e agita…
Vejo-te em meus olhos ( ou nos olhos teus… ).
Seria, talvez, em nosso próprio sangue
Que, em um só corpo, se confunde e transita ?…

Estranha ilusão…

Interpenetrados seres, perdidos de amor…
Plena realidade de meus sonhos…
Expansão de consciência.

Tresloucado Ser,
Incapaz de se resguardar de si mesmo…
Simples ilusão de viver.
Silêncio, enfim… apenas isso…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Satori

Cifradas senhas ocultas em ti mesma…
…e, no entanto, lá estavas, evidente:
Bela, plena, exuberante e forte…
A um só tempo, incompreensível e fugidia…

Tua presença, mimetizada no Infinito !…

Milhões de seres pesquisei, cansado,
Por não sentir que, eterna e derradeira,
Me esperavas, postada ao meu lado.

Que, sendo a última, continuavas a primeira,
Única flor perene, a desabrochar
No deserto de minha solidão…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Lamento (1970)

O orvalho, que chora, silenciosa, a madrugada,
Acarinhando a relva, embelecendo a alvorada,
Desperta o mundo à infinita caminhada
Em procura do Amor, da Paz…
Ao encontro do Nada !…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Nossos Mestres

Silentes seres inocentes,
Pacientes,
Testemunhas caladas da História.

Supomos neles não haver
Senão vida
Passiva,
Vegetativa,
Inconsciente,
Não inteligente…

Mas, dos Mestres, a Sabedoria,
Em sua humildade e solidão,
Neles se manifesta plenamente,
Complacente,
Suportando nossa crueldade:

Lentamente mutiladas,
Desfolhadas,
Dizimadas

Sem compaixão…
Belas árvores,
Contemplativos Mestres…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Ser de Luz

Roubaste-nos a Vida
Mais querida,
Razão de nosso Entendimento…

Dia a dia,
Em sua lenta agonia,
Gota a gota a se suceder,
Uma a uma,
Cadência infinita,
Ampulheta da Vida
Em seus mistérios ancestrais.

Por nossos tristes olhos,
De nossos braços vazios,
Um Ser amado se perdendo
Na incompreensível solidão
Da Eternidade…

Transição…
Transmigração…
Nossa Morte, enfim…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Vestígios


Apenas um arbusto ressequido… Suas formas, no entanto, esteticamente modeladas, permaneciam inalteradas. O pequenino tronco retorcido, parecendo muito mais velho que as idades que vivera, um galho altivo apontando ao infinito, do qual outros derivavam, sua arte ainda bela, qual um escultura planejada. As delicadas folhas sustentavam-se apenas pela inércia assegurada pelos cômodos desertos, com seu ar cheirando a mofo. A mais leve brisa bastaria para removê-las todas de uma só vez. O minúsculo vaso retinha a terra ressecada, com uma relva amarelecida a encobrir-lhe as rachaduras quase evidentes.

Ele olhou, pela última vez, sua paisagem simbólica, que ficara por muitos dias a ornamentar o beiral da janela, contrastando com o concreto das edificações, ao fundo. Parou a meditar em sua própria solidão, exílio voluntário do passado que desejara esquecer.

Qual um espelho, o bonsai refletia sua alma sufocada de desilusões.

Apanhou cuidadosamente o pequeno ser sem vida, embrulhou-o como a um presente e, por fim, depositou-o entre tantos outros objetos descartados de sua vida mais recente. Suspirou em silêncio, como a se despedir de um ente mais querido, aconchegou-se na velha poltrona, e adormeceu.

O dia já se afastava da janela quando despertou de seu torpor angustiado.

Caminhou até a cozinha e, como em um ritual, preparou uma bebida quente, que engoliu sem se aperceber sequer o que havia na caneca de metal esmaltado. O ar estava quente, quase irrespirável. Sentia-se sufocado, deprimido, arrastando-se pesadamente pelos espaços opressivos do crepúsculo.

Vestiu-se discretamente, como de costume, e saiu a caminhar pelas calçadas, sem prestar atenção às buzinas e à fumaça dos carros que passavam, irritados, para lá e para cá, nas ruas em que se amontoavam, sem sentido.

Não saberia por quanto tempo perambulou por aí, nem se apercebendo dos perigos, sem um objetivo ou destino, que soubesse.

Estava em uma ruela, dessas quase sem saída, quando lhe gritaram “sai da frente! Não olha por onde anda, seu idiota?” e quase foi jogado na sarjeta imunda, por onde escorriam os esgotos dos cortiços que margeavam seu caminho. Pessoas mal-encaradas convenceram-no a se retirar para caminhos mais habituais e menos perversos. Logo que se localizou, percebeu-se cansado e perdido num labirinto de pensamentos, ressurgências do fundo lodoso de seu ser mais profundo.

Percebeu-se, afinal, só e faminto, com náuseas de fraqueza a confundir-lhe as vontades.

Voltou penosamente à casa, subiu com grande esforço os degraus que lhe pareceram maiores e mais numerosos do que de costume, abriu a porta, e deixou-se cair lentamente sobre as almofadas no canto da sala. Ficou ali, amontoado como um cão, até que a madrugada iluminou-lhe as faces enrugadas e secas, como seu bonsai.

Muitos anos se passaram naquela longa caminhada sem rumo, pelas noites de seu pensamento entristecido.

Já não sabia qual era sua idade: os dias se sucederam iguais, interminados…

Apenas o bonsai permanecera em suas lembranças, não como a pequenina árvore, mas frondosa, imensa, sob a qual se sentava todas as tardes, deliciando-se daquela sombra generosa, a leve brisa a conduzir seus sonhos, caleidoscópio de imagens coloridas, as nuvens brancas desfilando ao céu azul, formando figuras bizarras… “venha, venha…”, e os pensamentos iam e vinham, sem propósito, sem sentido, sem fim nem começo, apenas a passar como um filme em sua mente, como um carroussel a girar, desde sua infância tão distante.

Ah! Aquela brisa refrescante viera da infância, é certo!

Lá estavam as crianças, correndo, gritando, falando todas ao mesmo tempo, em tons tão diferentes que até pareciam música, pequenos sinos de cristal a tilintar na memória, um movimento contínuo como as ondas, a ir e vir incessantemente, a vida a se manifestar nos sorrisos, nas carinhas alegres, que refletiam o sol daqueles dias tão distantes…

Aos poucos, as vozes silenciavam, cada vez mais distantes, como a luz que se esvaía no Universo, em seu pequeno universo, seu claustro, até que só ficou a escuridão e o silêncio. E um bonsai, pequenino e seco, cujas folhas caíram todas, deixando apenas o esqueleto dos galhos retorcidos, silhueta desbotada e sem vida, na janela de seus pensamentos. Olhou para ele como a um espelho: lá estava, seco e sem vida.

No canto da sala, amontoado nas almofadas, um corpo jazia inerte, o olhar perdido…

Uma réstia de luz alumiava a sala, qual um rastro de poeira a procurar o sol, que se escondera, definitivamente.

por João Carlos Figueiredo Postado em .

Meu Bonsai

Pequenina árvore de milenar sabedoria,
Contigo carregas tua beleza e harmonia:
Robusta delicadeza !

Cultivar-te é uma Arte !

Descuidar-te, ainda que por um momento,
É a morte… é a Morte !

… e como me dói tua morte, meu Bonsai !
Pois mesmo que muito te amasse
( e eu o fiz, creia-me ! )
Jamais suspeitaria
A falta que me farias !

Bonsai, querido, de tão poucos dos meus dias,

És meu Pai !

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Mãe

Suave, serena, delicada…
Flutuas entre nós, em teu carinho.
Bom te ver, sentir tua presença,
Estar diante do Ser que nos criou…

E, no entanto, tão poucos os momentos…
Estamos sempre sós, tão enredados
Nas tramas que a Sorte nos legou…

Ainda assim, eis a maior dádiva:
Estar presente em tua vida neste instante,
Que seja eterno, qual o Poeta declarou !

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Soneto (1999)

Tantas vidas teria para amar-te,
que seria imprudente contemplar
de um lance, somente, teu olhar,
que reflete o Universo, o Amor e a Arte !

Se algum bom-senso ainda me restar
para agir, pensar e desejar-te
sem, contudo, na ânsia, sufocar-te,
seja, assim, manifesto, meu falar.

Só desejo, de ti, a melhor parte:
a Essência, a Beleza e o Coração !
Nada além, que possa ofuscar-te

o infinito que dure esta paixão !
Só, destarte, eu posso assegurar-te
nunca mais retomar minha razão !

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

La Petit

Pequenina e delicada pérola,
A mim, pela Sorte, revelada,
Que segredos se resguardam em teu Ser,
Se a Vida, em seus Acasos, te herdou e não sabe ?

A quem concedes tu tais ternuras,
Carente de mil carinhos,
Repleta de tanto amor,
Se a ti mesma te renegas
A Sorte de teu valor ?

A que buscas, assim, tão menina,
Contraditoriamente sábia e sensata,
Que caminhos, enfim, te reserva
A Sorte que ma roubou ?

Tão-somente o Infinito,
Que teu é esse Destino,
Imenso e pleno de Amor !…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Luciana

Encantamento por te saber assim tão bela !
Não somente em tua forma e conteúdo,
Que assim se resume, do ser, a visão pobre…

Bela, porém, em tua essência plena,
Na universalidade absoluta de teu Ser !

Assim te vejo, Filha Minha,
Não pelos cansados olhos meus,
Mas pelo inocultável brilho de tu’alma.

Querida sempre, menina e mulher,
Cuja trajetória, já tão precocemente definida,
Evidencia a grandeza de algo que me recuso a reconhecer…
E que, no entanto, existe !

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

MORY

Prima donna de meus mais secretos pensamentos !
Minha doce menina, contraditória e forte…
Frágil e arrebatadora em tuas paixões,
Em minhas paixões alucinadas…

A que buscas,
Se vida, corpo e alma minha já os tens e consomes ?

Sou… e, contudo, já não mais existo…
Pois, em um só, fragmentado e uno ser, nos fundimos…
Incompreensíveis… incomensuráveis…

Inexpressivos, na imensidão de nosso próprio sentimento…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Gruta do Mimoso

Pareces-te em escombros, à chegada,
Tuas pedras rudes a cortar a caminhada…
Chego-me a ti, afinal,
Como a um confessionário…
E em teu ventre deposito meu destino
À tua perene escuridão…

Aos poucos, a visão se descortina
Ao lago frio… cinzento… silencioso… vazio.
Espelho de nós mesmos…
Apenas sombras… paisagem submersa… como a Alma.

Nas profundezas,
Tua garganta negra… a nos devorar.
Por que a ti me reclamas ?
Um dia, ainda irei te possuir…

Ou serás tu a condenar-me à solidão ?
A vagar por teus salões, eternamente,
Perdido em labirintos dos meus sonhos…
A procurar, em vão, uma saída…

Pois, em ti, a vida se consumará, por fim.
E encontrarei a Paz…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Lago Doce

Ruídos, chilreios, chiados…
Lembranças de minha infância…
Cigarras, algazarras…
A brisa… calmaria…

De minhas mãos,
Sementes ao vento… no mato…
À beira d’água… nuvem de fertilidade !
A água fétida, barrenta, os insetos…
O pleno sol de meio-dia…
Harmonia…

Angustiados tempos lá-se-foram
No distante esquecimento,
Profunda paz projetada
Em minha solidão…

Como apartar-me dessas recônditas sonoridades
Trazidas do passado,
Presentes na imensidão vazia
Desse pequeno e infindado universo ?

Calo-me, enternecido e só…

por João Carlos Figueiredo Postado em Poesia

Qualquer dos meus dias


Hoje, serei um pássaro, de grandes asas brancas e porte majestoso, a flutuar sobre seus mundos, placidamente, afastado o bastante para não perceber os detalhes desta vida, que a tornam monótona, medíocre e mesquinha.

Apenas silhuetas e sombras me interessam, a povoar as paisagens. Edificações e arruamentos, pelos quais se movem veículos, carregando cérebros e mentes, incessantemente à busca de transformar o Paraíso herdado de suas sagradas religiões.

Sigo mais alto. Não quero sentir-me vinculado a esses comprometimentos… Agora, percebo apenas luzes, pedras preciosas, contas coloridas de um imenso tesouro, desconhecido dos homens que nele habitam.

É o silêncio que me sufoca. Ensurdecedor, em meus incessantes pensamentos. Busco a Paz, transpondo as nuvens… imensos flocos pairando pelo espaço…

Percebo o mundo em camadas… abaixo, entre os vãos das nuvens, o chão dos homens, ora recortado em geométricas formas cultivadas, ora ainda preservando alguma natureza em sua desordem estética, ora pontilhado de civilização e de pecados… acima, novo teto de nuvens comportadas, pairando como carneiros, agrupados e ordeiros, deixando apenas réstias de um azul profundo e infinito.

Estou no Éden… Uma beleza incontida me preenche e confunde. Serei, ainda, um pássaro ?

Nada sou.
Incorporo-me à totalidade do Universo.
Sou Deus !

Sou levado para além de minha própria consciência.
Uma profusão de cores… um turbilhão de formas desconexas…
qual um caleidoscópio…

Que foi feito de meu Shangrilá ?

Sou um pensamento…uma idéia fixa !
Parada, como um filme emperrado.
Sou a cena que não se move, sem sentido, sem contexto…

Seria assim a Morte ?

Desperto em minha cama, frustrado e solitário.
No rádio, o Concerto nº 1 de Max Bruch, com Yehudi Menuhin.
Definitivamente, não sou um pássaro.
Minha rotina impele-me para a vida…

Seria assim a Vida ?

Talvez um mero pesadelo… Pássaros têm pesadelos ?
Serei eu um pássaro sonhando em ser… humano ?

O chuveiro me desperta; lembro-me da reunião das 9:00 horas… preciso finalizar os preparativos: pastas, gráficos, relatórios… A sala está confirmada ? E os participantes ?

Preciso pedir café para os visitantes…

Escovo meus dentes, pensado no bico do pássaro…
Sigo meu ritual profilático.

Ao sair do banho, penso nos intermináveis compromissos da semana: centenas de e:mail’s a responder, telefonemas, reuniões, formalidades, troca de cartões, atas e outros afazeres dos homens sérios na sociedade dos negócios.

Preparo meu café da manhã, sem fome e sem vontade:
leite com cereais, frutas com mel…

Ainda bem que não como insetos nem minhocas !
Creio que não me daria bem com a dieta dos pássaros…

“A Bolsa permanece em alta…”
“O dólar continua em queda…”
“Pinochet não será julgado pelos seus crimes…”
“O preço do petróleo ameaça as economias emergentes…”

Seremos emergentes ?

“A paz está ameaçada na Europa…”

Talvez uma nova guerra nos Bálcans, para consumir um pouco dos armamentos produzidos pela indústria bélica americana… uma “guerrinha” controlada, supervisionada pela OTAN e pela ONU, com os protestos de praxe e o repúdio diplomático dos países do Primeiro Mundo…

Seremos do Segundo Mundo ? Que mundo é esse, afinal?!!!

Desligo a televisão.

Visto-me apressado, mas sem me descuidar dos detalhes: o perfume, a gravata, o prendedor… Já na calçada, as pessoas passam sisudas, apressadas, mal-humoradas, atropelando-se sem se cumprimentar, sem desejar um “Bom dia !” como antigamente.

Sorrisos ? Nem pensar ! Apenas amanhece e já levamos conosco as tensões de toda uma existência descuidada. Para que ?

Cá estou, acomodado em meu lugar, na janela do ônibus, fones de ouvido, atento a mais um concerto, evitando o diálogo com meu companheiro de viagens, meu vizinho de jornadas, meses a fio… quase sem nos conhecermos de verdade… Longos minutos a atravessar minha cidade enfileirada, congestionada… Carros a se engalfinhar em corridas, cada um querendo ganhar a posição da frente, trocando incessantemente de fila e de lugar, até voltar à mesma situação em que se encontravam.

As mesmas ruas, os mesmos outdoor’s… “Que Peitchen !”

Finalmente em nosso destino, deixamos os ônibus aos montões, apressados por alcançar os pés das escadas rolantes, que nos levarão a todos ao mesmo lugar, todos os dias. Agora já nos reconhecemos, alguns. Alguns até se cumprimentam… Cumprimentos formais, algumas gentilezas… “um cafezinho ?”

Já em minha mesa, um toque de humanidade: as fotos de minhas filhas, o arranjo de plantas, o Feng Shui não-sei-prá-quê…

O dia passa, como de costume.
A sensação de andar em círculos, de correr atrás do rabo…

Mais gentilezas, mais formalidades, algumas delicadezas, muitas falsidades. Muita encenação para delimitar o território.

Os cães mijam para marcar os seus domínios…
Será que devo mijar ao redor de minha mesa ?

O relógio parece não ter mais pressa…
E cada um trabalha para não ter que olhar as horas…
Enfim, o almoço ! Fofocas de bastidores…
“Quem subiu ?” … “Quem caiu ?”

Quanta hipocrisia… quanta mediocridade !

De volta ao bunker e à luta por se mostrar, cada um, mais importante… insubstituível nos negócios que não são seus…

“O que você vendeu hoje ?”
“A minha Alma !”

E o dia se esvai como a areia da ampulheta…
Amanhã é só virá-la novamente, e tudo voltará a se repetir…

Cá estou eu de novo em minha cama, pensando na aventura de meus sonhos… Vou desprender-me de meu corpo e escolher um novo bicho… uma cobra ? Não ! Já rastejei por demais em minha vida ! Um tubarão ? Talvez… atemorizando os oceanos…

Não. Serei apenas a semente, daquelas como plumas, que o vento irá levar não-sei-prá-onde e – quem sabe ? – germinar…
sem consciência… sem retorno… apenas por viver…

por João Carlos Figueiredo Postado em .

Reflexões de um Pensamento sem Autor

“Talvez, um dia, venham a me encontrar…
Somente assim, descobrirei a minha verdadeira identidade…”

Que faço, então, aqui, neste silêncio eterno ?

A recorrência desse pensamento leva-me a crer que o tempo, enfim, parou… ao menos para mim… e que, a vida em suspensão, que penso acontecer, de fato, existe !Estranhamente, sinto-me incorporado a este universo, como se as idéias surgissem, espontâneas, dessas paredes de calcáreo…

Se assim não fosse, de onde viriam, então ?

Pois, se percebo a realidade que me cerca, não é pelos olhos de um corpo que foi meu, que este, com certeza, já não mais existe !

As impressões que sinto manifestam-se em todos os detalhes dessa caverna, fria e submersa…

E se luz já não mais existe, pouco importa, que falta já não faz. A percepção é algo permanente, imanente à própria escuridão, com quem me identifico…

No entanto, a memória dos acontecimentos me é nítida, como se tudo ainda acontecesse, ao mesmo tempo, passado e presente se fundindo, na consciência plena do momento…

Lá estou, à boca da caverna, admirando seus segredos e mistérios, ansiando pelo meu destino, tantas vezes imaginado…

Às costas, os instrumentos de mergulho, cuidadosamente conferidos, cada um, em todos os seus detalhes, o pensamento se alternando entre o medo ( ou o pavor absoluto ) e a ansiedade ( paixão completa pelo desconhecido dentro em mim ).

Cansado da longa caminhada, repouso nas pedras o meu equipamento, enquanto observo a natureza em meu redor: a mata densa e úmida, os insetos impertinentes, o canto dos pássaros, que não os vejo, nem os reconheço… o cheiro do mato, ainda sob o frescor do orvalho da manhã…

Por sua negra boca, a caverna me observa.

Sei que, ali dentro, o tempo não existe… e apenas eu não o compreendo… milhões de anos, gota a gota esculpindo seus ponteagudos dentes, estalactites, estalagmites, prestes a me deglutir…Recuperado o fôlego, reúno meus equipamentos e me aproximo do ponto de descida. Amarro firmemente as cordas nas pedras da entrada, e lanço suas extremidades no desconhecido… nenhum som. Experimento os nós. Observo o mapa da caverna e constato, novamente, o amplo espaço para eu me preparar para o mergulho, bem abaixo.

Amarro os tanques de ar, e desço-os com cuidado, pela primeira corda, até sentir o toque no fundo da caverna. O resto dos instrumentos seguirá comigo.

A primeira impressão, logo à entrada, é de uma escuridão sem fim. Nada vejo, nem mesmo silhuetas. Somente a luz atrás, na abertura, cada vez menor e mais distante.

Mesmo assim, não acendo, de imediato, as lanternas. Sigo descendo, cauteloso, resvalando pelas pedras, até tocar o solo úmido e escorregadio, do limo que lá permanece desde os tempos, sem memória, do passado.

Embora meus olhos já se acostumassem à noite eterna, e pudesse até perceber alguns contrastes em seu interior, acendo as luzes para observar melhor aquela imensidão deserta, onde até minha respiração ofegante reverbera, como um eco grave e profundo.

Que maravilha !

Cenário encantado e solene, reprodução dos céus sem as estrelas, que reverencio com respeito e emoção incontida… Fico, por alguns instantes, admirando, extasiado, a cena inesquecível…

Um lago cristalino se espalha à minha frente, por todo o salão. Experimento a água, não muito fria para essa época do ano, meados de outono. Mesmo assim, coloco as luvas e o capuz, e completo a vestimenta, cuidando para conferir, mais uma vez, todos os instrumentos.

Estou pronto ! Meu coração bate mais rápido, pela ansiedade incontida. Confiro os mapas: este primeiro salão termina na garganta escura, a uns 15 metros de profundidade, ao final do lago. Depois, o salão principal, imenso, com inúmeras colunas de calcáreo, formando galerias, qual um labirinto.

Precisarei sinalizar o meu trajeto para facilitar o retorno à superfície. Atingirei uns 25 metros, até o fundo. E então, dois caminhos se apresentam: um, seguindo direto à frente, conduzirá ao terceiro salão, cujo teto se encontra parcialmente fora d’água, como uma bolha de ar irrespirável. Pequeno e desconfortável, repetição do trajeto anterior – não me interessará, suponho.

Seguindo à esquerda, contornando as formações calcáreas, encontrarei um estreitamento perigoso, pequena abertura tortuosa que leva ao último e ambicionado salão dos meus sonhos, cujas águas chegam a atingir quase 50 metros abaixo do nível da lagoa, onde me encontro. Será este o meu destino !

Um misto de ansiedade e angústia me dominam. Contenho-me e me recomponho. Decidido, verifico o computador, para me certificar dos tempos para cada etapa do mergulho. Tudo bem planejado: haverá ar suficiente para todo o percurso, ainda que me demore a apreciar todos os detalhes no caminho, suas esculturas naturais e seus recantos…

São dois reservatórios e o lastro, mais de 30 quilos que irão assegurar o equilíbrio de meu corpo ao longo do trajeto. Faço minhas últimas anotações no diário que deixarei à beira da lagoa.

Entro, aos poucos, na água, para me acostumar à temperatura, apesar da roupa de neoprene. Inicio a contagem do cronômetro e a descida. Percorro o lago em toda sua profundidade, admirando as concavidades, suavemente incrustadas nas paredes cinzentas.

O mundo lá de fora já não mais existe. Sinto-me eterno em minha frágil carcaça humana. O único som que ouço e percebo é das bolhas, que se desprendem compassadas de meu regulador.

Lanterna acesa, sou devorado pela garganta negra, e penetro, finalmente, na eternidade…

Por mais que tenha lido sobre esse mundo quase inexplorado, ainda que examinasse centenas de fotografias de cavernas, mesmo experiente em mergulhos em outras grutas, a emoção sentida é sempre única e indescritível ! Puro êxtase !

As colunas pareciam vir do nada, penetrando na imensidão sem fim. Retorcidas em filigranas, que nenhum escultor poderia sequer imaginar, gradualmente matizadas, de um branco suave ao ocre carregado das ferrugens, assemelhavam-se a cenários à espera de um espetáculo que jamais viria a acontecer.

Deslizei suavemente ao redor de muitos desses blocos, com a sensação de paz das mais profundas meditações, deixando que o acaso me mostrasse as sendas que haveria de trilhar. Já não haveria mapas ou sinais que pudessem me indicar onde eu me encontrava. Não sei por quanto tempo fiquei a me admirar desse universo. Porém, por algum acaso, em dado instante me defrontei com a estreita abertura, a passagem para o outro lado… da vida !

Esgueirando-me com minha pesada e desajeitada vestimenta, cheguei, com grande esforço, ao outro salão. A princípio, não me pareceu assim tão belo como imaginara, tão majestoso e grandioso como aquele de onde acabara de chegar.

Era vazio… poucas esculturas, raras galerias, com imensas colunas a sustentar sua estrutura envelhecida. Como no outro, quase nenhuma vida perceptível. Apenas pequenas formas primitivas, a navegar furtivas nas proximidades das paredes.

Percorria seus espaços sem muito entusiasmo quando, pela primeira vez, despertado daquele encantamento, senti necessidade de verificar meus instrumentos… Pânico !Restavam-me poucos minutos para que o ar se extinguisse nos cilindros ! Mas não poderia ser ! Eu tinha autonomia para muito tempo… muito além do que me pareceu ali estar. Confiro as válvulas: tudo normal. Olho o cronômetro: Parado ! Travado alguns segundos após minha descida ! Leio os indicadores de consumo de ar: curiosamente, estive a respirar tão calmamente que poderia estar vagueando há horas, submerso !

Em desespero, nadei em busca da abertura que me conduziria de volta à vida… passava rente às paredes, à procura de uma pequena cavidade, perdida nas infinitas pregas das pedras da caverna. Em vão ! Jamais encontraria a saída…

Consumia rapidamente o pouco ar que me restava.

Aos poucos, constatei o quão inútil se tornara aquele desespero. Parei de lutar. Deixei que a vida se esvaísse ao seu próprio tempo. Então, subitamente, uma tranqüilidade incompreensível se apossou de mim… a paz de quem, enfim, compreendera a vida !

Parei de me mover em desatino. Deixei que as águas me levassem, sem destino, ao seu desejo e capricho.

Repentinamente, constatei que não mais respirava e, no entanto, não sentia qualquer sensação de asfixia, ou de afogamento, sensação que me perseguira em todos os meus sonhos e pesadelos, ao longo de meus dias, como uma obsessão inevitável !

E, no entanto, estava vivo ! Assim me parecia, pois havia ali os pensamentos, a consciência, a percepção de tudo que estava a me acontecer. Apenas não sentia mais a presença de meu corpo.

Eu parecia existir apenas em consciência !

Já não via com os olhos a que me acostumara em vida.

Nem sentia a pele a cobrir meu corpo…

Apenas consciência… plena, absoluta, onisciente, como se percebesse tudo ao mesmo tempo, como se passado e presente se fundissem em um só momento, em que a precedência dos fatos não existia… e nem importava !

Quem seria eu, agora, afinal ?

…Aqui estou… nas pedras… nas águas… na minha caverna…

Nem sequer percebo o vazio incompreensível de meu Ser…

Quantas vezes já terei rememorado essa história, sem nem mesmo saber se existiu, de fato ? Se hoje existo, ou existi, um dia ?

Serei apenas pensamentos, reverberando eternamente, incessantemente, pelas paredes obscurecidas da caverna ?

Talvez, um dia, venham a me encontrar...

 

por João Carlos Figueiredo Postado em .